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| Ray cunha: o escritor deve ser híbrido de estudante de piano e pugilista |
RAY CUNHA
BRASÍLIA, 15 DE JANEIRO DE 2026 – Faz alguns anos, um leitor me acusou de rejeitar meu nome de batismo, Raimundo, adotando o cognome Ray Cunha. Essa questão do nome próprio é uma coisa que sempre influenciou as pessoas. A ciência que estuda esta questão se chama onomástica, do grego “ato de nomear, dar nome”. Seu objeto é o estudo dos nomes próprios e suas origens em uma ou mais línguas ou dialetos. A onomástica nasceu na metade do século XIX, com fortes relações com a história e a geografia.
A antroponímia estuda os prenomes e sobrenomes das pessoas, por meio da História, da cultura, das instituições e das mentalidades, daí sua importância na formação cultural de alguém, e ajuda a responder à pergunta: o nome que recebemos ao nascer pode moldar quem nos tornamos? Acho que sim! Há estudos que sugerem que o nome pode influenciar a forma como somos percebidos pelos outros e como percebemos a nós mesmos.
E esta outra pergunta: será que o nome realmente influencia o comportamento? A resposta também é sim, pois nomes carregam consigo associações culturais e sociais simbólicas que geram expectativas. Por exemplo: nomes raros despertam curiosidade, atenção e preconceito; nomes religiosos evocam tradições; nomes ligados a virtudes as incentivam; nomes herdados fortalecem laços entre gerações.
A arte gótica predominou na Europa no fim da Idade Média, de meado do século XII ao início do século XVI, com suas catedrais esguias, abóbadas ogivais e vitrais. O estilo de letra gótica é anguloso e pontiagudo, adotado nos primeiros livros impressos, entre os séculos XIII e XVI. Na literatura, o estilo gótico é o gênero de mistério e terror por excelência.
Raimundo – do gótico, ou germânico, ou alemão antigo, falado pelos godos (invadiram a Península Ibérica) – significa “protetor sábio”, a junção de “ragin” (conselho, sábio) e “mund” (proteção, protetor). Segundo o esoterismo, pessoas chamadas Raimundo são sábias, determinadas, carismáticas, têm personalidade forte e são capazes de oferecer apoio e conselhos valiosos.
O mais conhecido e notável é São Raimundo, santo católico do século XIII, famoso pela sua luta contra a escravidão. Raimundo recebeu a alcunha de Nonato (não nascido) por ter nascido por cesariana, o que levou à morte da sua mãe durante o parto, daí porque é festejado, no dia 31 de agosto, como o patrono das parteiras e obstetras.
Em 1224, Raimundo Nonato entrou na Ordem de Nossa Senhora das Mercês, dedicada a resgatar os cristãos capturados pelos muçulmanos e levados para prisões na Argélia, onde foi capturado e preso. Na prisão, converteu presos e guardas ao cristianismo, por isso teve a boca perfurada e fechada com um cadeado. Em 1239, após sua libertação, foi nomeado cardeal pelo papa Gregório IX, mas a caminho a Roma padeceu de febre violenta e morreu.
Meu nome homenageia meu avô, Manoel Raimundo Cunha, e meu pai, João Raimundo Cunha. Minha avó paterna, Rosa Maria Cunha, fez uma promessa a São Raimundo Nonato que eu me chamaria Raimundo se o parto ocorresse normalmente, e ocorreu. Minha mãe se chamava Marina Pereira Silva Cunha e continuou tão bonita quanto sempre foi.
Por tudo isso, acho meu nome bastante bacana. Gosto dele. E por que, então, adotei o cognome Ray Cunha? Vamos lá! Em 1971, em Macapá/AP, minha cidade natal, eu tinha 17 anos de idade, e, com dois amigos poetas - Joy Édson e José Montoril -, estava trabalhando para editar um livro de poemas conjunto, XARDA MISTURADA.
Éramos orientados pelo pai da minha geração de escritores, o poeta e cronista Isnard Brandão Lima Filho, que prefaciou o livro. No processo de editoração do livro, o Isnard fez uma ponderação a mim.
– Não seria melhor tu te assinares Ray Cunha em vez de Raimundo Cunha? – ele me perguntou. – No dia em que chegares ao mercado de língua inglesa os leitores absorvirão melhor Ray Cunha do que Raimundo Cunha.
Não pensei duas vezes e topei a proposta. Desde então venho assinando Ray Cunha tanto como escritor quanto como jornalista. De modo que tanto faz me chamarem de Ray Cunha quanto de Raimundo; gosto dos dois nomes.
Nomes não alteram a qualidade do que um escritor produz. O trabalho de um escritor depende de três fatores. O primeiro deles tem a ver com o talento, que é a facilidade que alguém sente para realizar um determinado tipo de tarefa. Todos nós sentimos facilidade ou dificuldade para realizar determinadas tarefas, de modo que o sucesso profissional está, em primeiro lugar, em identificarmos o tipo de atividade com o qual sentimos facilidade.
O segundo fator é o escritor mergulhar o mais profundamente no idioma com o qual ele cria, escreve, de modo que ele deve ler, ler e ler, estudar gramática, consultar dicionário e continuar lendo, além de procurar viver intensamente, ou seja, em atentividade.
O terceiro
fator é o trabalho. O escritor deve ser híbrido de aluno de piano e pugilista.
Deve escrever todos os dias, o máximo de horas que puder, e se acostumar a
estar sozinho como o pugilista no ringue. Se for ficcionista, serão ele e os
personagens que vai parindo à medida que cria. Se for ensaísta, deve ler, ler e
ler, e pesquisar, e ler. Se poeta, precisará domar a luz.

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