domingo, 16 de junho de 2024

Diário de um escritor ribeirinho de Macapá/AP

Minha gata, Josiane, e eu, tendo ao fundo A Arlesiana, de Vincent van Gogh

RAY CUNHA

BRASÍLIA, 16 DE JUNHO DE 2024 – Quando nasci, em 1954, Macapá/AP tinha 21 mil habitantes distribuídos em 6.407 quilômetros quadrados, três habitantes por quilômetro quadrado. Não sei se o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) chega à firula de registrar a população na sede do município, mas nos anos 1960, aos 6 anos de idade, lembro-me dos prédios de alvenaria do Centro, principalmente a casa do governador, o Macapá Hotel, o Fórum, o Grupo Escolar Barão do Rio Branco e a primeira metade do Colégio Amapaense. 

O subúrbio era um mundo desconhecido para mim, pois nasci na Maternidade do Hospital Geral, na Avenida FAB, e de lá fui para casa, ao lado do Colégio Amapaense, na esquina das ruas Iracema Carvão Nunes com a Eliezer Levy, onde ficava o Aeroporto de Macapá. Nasci e passei os primeiros 11 anos da minha vida no coração de Macapá. 

Trata-se de uma cidade facilmente encontrada no mapa, pois está situada na esquina, ou cruzamento, da Linha Imaginária do Equador com o maior rio do mundo, o Amazonas, na sua margem esquerda. Turistas pensam que a baía defronte a Macapá é o oceano Atlântico. Quanto à Linha do Equador, secciona a cidade. No Marco Zero, turistas gostam de passar de um hemisfério para o outro. 

Também como ribeirinho, aos 13 anos de idade fugi de casa para acompanhar uns vizinhos (na época, eu morava na Avenida Ataíde Teive, entre as ruas Leopoldo Machado e Hamilton Silva) em uma pescaria no rio Matapi. Pegamos algumas centenas de quilos de peixe e eu levei para casa uns 10 quilos, para agradar minha mãe, minha rainha, Marina. Pensei que ela estaria bravíssima comigo, mas ficou imensamente aliviada quando me reviu. 

Aos 14 anos, passei uns dias na ilha do pai do José Montoril, que participou comigo, e com o Joy Edson (José Edson dos Santos), do livro de poemas XARDA MISTURADA. Na ilha, no arquipélago do Marajó, participei de uma caçada a porcos domésticos que ficaram selvagens e de pescaria com timbó. Uma vez, deixei o anzol armado no trapiche e fisguei uma arraia, que foi apreciada no prato. Comi jacuraru, um tipo de camaleão, comum no Marajó; soiá, um tipo de rato do mato; e quandu, porco espinho. Ainda, zanzei bastante de barco e navio entre Macapá, Belém, Santarém e Manaus. 

Esta introdução é para justificar que sou ribeirinho. Bem que eu poderia começar esta crônica assim: meu querido diário. Mas achei que seria melhor primeiro esclarecer o título. Na verdade, moro atualmente em Brasília/DF, mas jamais deixarei de ser macapaense, pois nasci e fui educado em Macapá. Simples assim. 

Sou da geração de escritores que teve como guru o poeta Isnard Brandão Lima Filho, e foi influenciada por outros artistas, como Alcy Araújo e Raimundo Peixe. Naquela época, em que as comunicações andavam de carroça, era chique ser comunista. Hoje, sabe-se que o comunismo é a pior máfia que existe, organisadíssima, a ponto de tomar conta de regiões inteiras do mundo, como aconteceu com a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) no leste europeu, e, vizinhas a nós, Cuba e Venezuela. 

Até hoje, quando, com determinação e paciência, temos a oportunidade de pesquisar, refletir e chegar à verdade histórica e consciência moral, ainda há os fãs de Fidel Castro, Che Guevara e Lule. Sou conservador, daí que a academia e a mídia de Macapá, progressistas até a medula, lavaram meu nome com thinner. Contudo, após uma década e meia trabalhando como repórter, redator e editor nos maiores jornais da Amazônia e sete romances, dois livros de contos e um de poemas publicados, meu nome não foi registrado com tinta, mas esculpido. 

Se não vendo livros em Macapá, vendo-os no Rio de Janeiro, nos Estados Unidos e para alguns brasileiros ou falantes de língua portuguesa na Europa. Antes da internet, escritores só se tornavam conhecidos quando dominavam marketing tipo Paulo Coelho. Agora, com editoras virtuais como a Amazon e Clube de Autores, não só temos o potencial de sermos lidos em qualquer ponto do planeta, como também de vender. A qualidade do que escrevemos, é claro, é que faz toda a diferença. 

Dito isso, esse diário, para ser franco, abarca mais de um dia, mas, como sou escritor, e escritores podem muito no mundo da criação, vou abarcar mais de um dia. No Dia dos Namorados, almocei, com minha gata, Josiane, na Pães e Vinhos, a melhor, na minha opinião, cafeteria, e também restaurante, do Sudoeste, bairro onde moro, em Brasília. À noite, fomos à palestra Marido e Mulher Eternos Namorados!, pelo preletor da Seicho-No-Ie, Gilberto Lima Jr. Extraordinária! Quando saímos do templo da Seicho-No-Ie fomos novamente a Pães e Vinhos, bater papo e bebericar. 

Após mais de 40 anos de bebedeira pesada e um infarto, parei de beber, mas não resisti e degustei três Cerpinhas enevoadas. Cerpinha é a melhor cerveja do planeta; paraense. O papo com minha gata foi longe. Adoro conversar com ela. É brilhante. Minha luz! 

Ontem, tivemos mais uma reunião de criação da Abrajet/DF. A Abrajet é a Associação Brasileira de Jornalistas de Turismo. Nossa reunião foi na casa da jornalista e empresária Wera Rakowitsch, sob o comando do jornalista e pioneiro Wílon Wander Lopes. Assinamos os documentos exigidos pelo cartório e em breve teremos a Abrajet/DF.

Como estamos em Brasília, nossa pauta será local e nacional. Quanto à distrital, nunca tivemos política de turismo. O Teatro Nacional Claudio Santoro, que reputo um dos mais belos do mundo, é um três por quatro da política de turismo do DF: está ruindo. Sobre a pauta nacional, temos a legalização do jogo de azar. É claro que é fundamental que isso ocorra em plena democracia. Atualmente, não dá.

Até outro dia, meu querido diário!

quarta-feira, 12 de junho de 2024

TRÓPICO: livro é um raio X do Brasil de hoje

Congresso Nacional (Marcos Oliveira/Agência Senado)

BRASÍLIA, 12 DE JUNHO DE 2024 – Reuni em TRÓPICO contos que representam o "paraíso tropical", o Brasil, especialmente Brasília, onde as demais 26 unidades federativas se encontram, enviando para o Congresso Nacional os homens ou as ratazanas que definem o futuro do país. O conto que segue é uma recriação da criação do Congresso Nacional.

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O CANTO das cigarras lembrava uma grande orquestra de jazz, em longo solo de metal. A algazarra era tremenda sob o sol que crestava a relva do cerrado na imobilidade da tarde, que ia ao meio. Ouvia-se barulho de trator à distância. Os dois homens arriaram os bornais com o lanche e se sentaram sobre o tronco de uma árvore tombada, à sombra de outras árvores. O guia, Toninho das Veredas, abriu seu alforje e tirou dele uma lata com tutu, um pedaço de queijo, doce de leite e uma garrafa de água. O outro homem tirou do seu bornal um sanduíche de salame e três laranjas já descascadas.

    – É verdade que Brasília vai ter o formato de uma cruz, doutor? – o guia perguntou.

    – É verdade – o outro respondeu. “Está mais para curvas sinuosas, femininas” – imaginou. “Simples apenas no cruzamento de duas avenidas, dois caminhos pontilhados de luzes cortando o breu noturno do cerrado. O coração do Brasil pulsando no Planalto Central; uma cidade fraterna.” – Aqui, onde estamos, será construída uma esplanada – disse, e antes que o guia lhe perguntasse o que é uma esplanada, explicou: – Uma esplanada é um terreno plano, um enorme terreno plano, gramado, a perder-se de vista. – Fez uma pausa. – Tenho algumas ideias, já fiz alguns esboços, mas as coisas estão ainda se definindo.

        – O senhor vai mandar tirar toda esta mata, doutor? – Toninho perguntou, entre uma e outra mastigada.

O outro olhou para as árvores tortas que se enfileiravam na imensidão da savana.

        – O presidente da república despachará de dentro de uma obra de arte, assim como os políticos e os ministros da corte suprema, e o povo morará em edifícios coletivos sobre pilotis – disse, em um tom quase brincalhão. – O que sei é que Brasília será mais do que uma cidade; será o símbolo da união – disse ao guia.

Um tatu entrou no campo de visão dos dois homens, estacou e arrancou. O guia se levantou depressa, pegou a espingarda, mas o tatu entrara em um buraco adiante.

        – Sente-se, homem, deixe o tatu em paz no seu buraco. A propósito, meu trabalho será construído em três níveis – prosseguiu o outro. – No horizonte, debaixo do solo e no ar. No horizonte, haverá gramados, concreto, muito concreto, e asfalto; haverá uma cidade subterrânea; e, no ar, torres – disse, quase de si para si.

        Os dois homens se encontravam onde hoje se ergue o Congresso Nacional, um labirinto sinistro, subterrâneo, sob duas bacias – uma de boca para cima e outra emborcada – e as torres gêmeas.

– O senhor não quer um pedaço de “quejim”? – o guia perguntou. O outro fez que não. O guia comia, com gosto, queijo e doce de leite. Lambeu um dedo e perguntou: – Mas se o senhor vai colocar, aqui, concreto e asfalto, como é que os bichos vão viver, doutor?

– Bom, eles deverão ter o seu lugar, quem sabe um zoológico, ou mesmo uma reserva só para eles? – disse o outro. – Todos terão o seu canto. Seremos um país realmente socialista. O presidente da república terá o palácio mais bonito – e pensou na Grécia Clássica. – Os congressistas, como são muitos, preciso projetar para eles um labirinto de gabinetes, auditórios, salas, salões, clínicas, restaurantes, corredores, passagens subterrâneas, para que eles possam se locomover à vontade no labirinto, se reunir, se sentir à vontade, como em casa, e permanecer no Congresso o maior tempo possível – disse.

– Mas esse negócio de buraco é bom pra tatu e pra bandoleiro se esconder, doutor! – disse o guia.

O outro riu.

– Isso pode ser resolvido com muita vidraça. Os subterrâneos serão para as pessoas caminharem. Arquitetura não constitui uma simples questão de engenharia, mas uma manifestação do espírito, da imaginação e da poesia. O Palácio do Congresso, por exemplo, posso formular sua composição em função das conveniências da arquitetura e do urbanismo, dos volumes, dos espaços livres, da oportunidade visual e das perspectivas, e, especialmente, da intenção de lhe dar o caráter de monumentalidade, com a simplificação de seus elementos e a adoção de formas puras e geométricas. Estou pensando... as avenidas que o ladearão deverão formar uma monumental esplanada, sobre a qual poderei fixar as cúpulas que o caracterizarão. E também posso projetá-lo em profundidade. A forma arquitetônica, mesmo contrariando princípios estruturais, é funcional quando cria beleza e se faz diferente e inovadora. E na outra extremidade da esplanada poderemos construir uma pirâmide – disse, pensando em Keopes e como Picasso a desenharia.

– O senhor acha que vai dar certo, gente de toda parte se mudar pra cá? Vai caber todo mundo? – disse o guia.

– Sim. Aqui, todos serão iguais – o outro respondeu. – Todos serão tratados com igualdade – disse ainda, como a confirmar seu próprio pensamento.

O sol despejava labaredas na mancha imóvel do cerrado. Os dois homens caminhavam devagar entre as árvores, até o jipe, estacionado no fim da picada. O arquiteto se sentou no banco do carona, ajeitou sua prancheta e se pôs a traçar esboços, enquanto o jipe sacolejava entre as árvores tortas.

domingo, 9 de junho de 2024

Senador é degolado com katana em hotel infestado de prostitutas no SHS de Brasília

Edição da Amazon: detetive investiga morte de senador

BRASÍLIA, 9 DE JUNHO DE 2024 – Em HIENA (Amazon e Clube de Autores, 157 páginas), romance policial de Ray Cunha, senador é degolado em uma Brasília de duas faces: corrupta ou luminosa. Personagens fictícias se misturam com pessoas de carne e osso, vivas ou mortas.

O país afunda em corrupção e o erário escorre pelo ralo em obras bilionárias e superfaturadas, e que nunca terminam. Ao investigar o assassinato de um senador da República, degolado com uma katana no suntuoso Tropical Hotel, que ocupa uma quadra inteira do Setor Hoteleiro Sul e onde voejam prostitutas de luxo, o detetive particular Hiena faz a grande descoberta de sua vida. 

Ray Cunha nasceu em Macapá/AP, na Amazônia Atlântica, e mora em Brasília. Devido ao seu trabalho como jornalista, conhece os subterrâneos, bem como os bastidores da cidade-estado, além de ser também observador privilegiado dos seus palácios e shoppings, catedrais pós-modernas da Ilha da Fantasia. 

Neste romance desfilam personalidades reais, como, por exemplo, o maestro Silvio Barbato, ressuscitado para reger a Orquestra do Teatro Nacional Claudio Santoro em dois clássicos: o Concerto Para Piano e Orquestra, em Ré Menor, de Mozart, e o Bolero de Ravel; as cantoras paraenses Carmen Monarcha, que se apresenta com André Rieu, e Joelma, da Banda Calypso; três artistas plásticos: José Pires de Moraes Rego, Olivar Cunha e André Cerino; e até a famosa personagem de ficção Brigitte Montfort. 

O cenário é a Brasília deslumbrante criada na prancheta de Oscar Niemeyer. 

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quarta-feira, 5 de junho de 2024

Rachadinha no conto O DEPUTADO

O Trópico em todo o seu fovismo nestes contos de um Brasil em chamas

RAY CUNHA

BRASÍLIA, 5 DE JUNHO DE 2024 – Rachadinha, o furto do salário do assessor pelo senador, deputado ou vereador, ou qualquer bandido do colarinho branco, é uma indecência comum no Congresso Nacional, segundo a mídia. Até a mídia-carniça denuncia isso. Em TRÓPICO, recém-publicado, o conto O DEPUTADO é sobre isso:

O DEPUTADO parecia uma égua prenha de tão barrigudo. Acabara de comer de uma marmita de um quilo a mesma comida gordurosa que seu chefe de gabinete, e soltava pequenos arrotos em sequência.

– É pegar ou largar – disse para seu assessor de imprensa.

O caso era o seguinte: o deputado fora eleito líder da Minoria e colocaria seu assessor de imprensa lá, desde que ele concordasse em lhe repassar um terço do seu salário.

– Eu lhe dou a resposta, amanhã, deputado – disse o assessor de imprensa.

O deputado pensou um pouco.

– Está bem – disse. – Amanhã!

A esposa do deputado, que estava presente, disfarçava lixando as unhas, mas estava atenta ao diálogo. Era uma dessas mulheres fúteis, que passava a vida participando de festas com o único objetivo de aparecer nas colunas mundanas.

“Liderança da Minoria, meu Deus, onde fui parar” – pensava o jornalista, ao deixar o gabinete do deputado. “E ainda ter que continuar a dar o suor do meu rosto a esse depravado...” Ele sabia o que é que o deputado fazia, de vez em quando. Enquanto uma assessora dirigia seu carro, ele comia a outra no banco traseiro. Depois, a que acabara de ser comida ia ao volante enquanto a outra era papada. O deputado parecia um porco reprodutor. A mulher dele devia saber de tudo, mas não se importava. Certamente tinha seu pé de pano. “Bom, de qualquer forma tenho que dar uma resposta a esse filho de uma égua.”

No dia seguinte, o assessor de imprensa se apresentou ao novo líder da Minoria, para dar a resposta.

– Consegui um salário de 10 mil reais, mas tu vais repassar 5 mil para o Machado (o chefe de gabinete) e vais ter que atender ao gabinete e à liderança. Outra coisa: para de replicar matéria falando mal do Presidente. Vamos publicar no site somente matérias positivas, mostrando o crescimento do país. Que mania, só ver o lado ruim das coisas! Quero que tu cries um blog para mim e também quero ter um Twitter – disse o deputado, igual uma metralhadora.

O soco pegou-o na boca e ele caiu igual Silvio Berlusconi quando tomou aquela porrada... Levantou-se grogue. O chefe de gabinete, que também estava na sala, ficou amarelo.

– Filho duma égua, eis teu Twitter, ladrão do caralho. Acho que vou fazer teu parto, mensaleiro buchudo. Mete esse ultraje, que é a liderança da minoria, na flor do teu jardim de trás – disse o assessor de imprensa.

– Você não pode fazer isso – balbuciou o chefe de gabinete e levou um tabefe na cara.

Estavam somente os três homens no gabinete e um gabinete ao lado passava por reforma, de modo que o barulho na sala era abafado pela barulheira ao lado.

– E mais, patife, tu vais me pagar 24 mil reais, agora, referentes aos 1 mil reais que repasso todo mês, há dois anos. Agora! Anda, assinas o cheque! Tenho todos os recibos bancários dos depósitos na conta desta anta corrupta, aqui – disse, apontando para o chefe de gabinete. – Vamos! Vamos! Não há sobre o que pensar. Se não, vou rebentar com vocês. Tenho alguém no jornal O Estado de S.Paulo que publicará minha história com prazer, pois tenho documentos também daqueles favores que tu fizeste para o Sarnento Filho. Anda! Anda!...

“Ai, que alívio deixar esse esgoto” – disse o assessor de imprensa, de si para si. Do zebrinha ele via a Esplanada dos Ministérios, “capital da corrupção”. Com os 24 mil reais iria respirar um pouco em Salinópolis.

segunda-feira, 3 de junho de 2024

TRISTES TRÓPICOS é culpa do Bolsonaro

Clássico de Claude Lévi-Strauss: crônica de viagem ao exótico

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 3 DE JUNHO DE 2024 – O poeta Jorge Tufic e eu estávamos tomando a maravilhosa Antarctica manauara, naquela noite de 1976, refugiados no Nathalia, onde alguns membros do Clube da Madrugada costumavam beber. 

– Só lemos para valer quando somos jovens – disse Tufic. 

Ele tinha 46 anos e se dedicava, à noite, após a labuta diária, ao culto à Antarctica. 

Na época, eu tinha 21 anos e trabalhava em A Notícia, ou em A Crítica, não lembro exatamente. Comecei a ler aos cinco anos de idade e na juventude traçava tudo o que ia aparecendo, de livros clássicos à bula de remédio e catálogo telefônico. Até dicionário eu lia. Lembrei-me disso, hoje, porque estive lendo Tristes Trópicos (Companhia das Letras, São Paulo, 2016, 454 páginas), de Claude Lévi-Strauss. 

De certa forma, meu caro amigo Tufic – que agora frequenta o Quartinho da Casa Amarela, um bar frequentado por escritores que já partiram para o Astral – tinha razão. Há livros que só lemos na juventude, porque, na juventude, lemos tudo. Já dobrei o Cabo da Boa Esperança há muito tempo e recentemente comprei no sebo do Ed Book um livro que há muito queria ler, O Jogo da Amarelinha, de Júlio Cortázar. Acho que aos 21 anos eu o teria lido tranquilamente, mas, aos 69, li apenas algumas páginas, folheei o livro todo, li alguma coisa da crítica sobre ele e o larguei. Não aguentei aquela conversa interminável daqueles jovens em Paris. Não fazia sentido para mim. E depois não sou crítico literário, nem tenho mais que escrever resenhas para jornal. Ao passo que li os seis volumes da Série Millennium, três de Stieg Larsson e três de David Lagercrantz, ambos escritores suecos, com total de 3 mil páginas, um atrás do outro; ia relê-los, mas vi que tenho uma pilha de livros para ler com urgência e, para dar espaço na minha estante, dei a série ao Ed Book.

E há aqueles livros do qual fazemos leitura meia-boca. Como aconteceu com Tristes Trópicos, de Claude Lévi-Strauss, que nasceu em Bruxelas, Bélgica, em 28 de novembro de 1908, e morreu em Paris, França em 30 de outubro de 2009, judeu, antropólogo, professor, filósofo, sociólogo, membro da Academia Francesa. Tristes Trópicos foi publicado em 1955, pela Editora Plon, em Paris. O editor pediu a Lévi-Strauss um relato das suas viagens e ele o escreveu em quatro meses, baseado em uma viagem que fizera ao Brasil nos anos 1930. Lévi-Strauss trabalhava, na época, em um romance, e aproveitou o título para o novo livro: Tristes Trópicos. 

Em 500 páginas, Lévi-Strauss coloca frente à frente o novo e o velho mundos, e as mudanças geopolíticas dos anos 1930/1940, com uma erudição espantosa, desconcertante, sem linearidade, pulando as épocas. Foi sucesso instantâneo. 

Trata-se, de fato, de um livro de viagem, um diário, um olhar europeu sobre o Trópico. Um olhar sobre a primeira metade do século passado, de um jovem europeu estourando de erudição, de descobertas. O Trópico será sempre exótico para os europeus. 

Hoje, às vésperas de completar 70 anos de idade, no trópico dos trópicos, o Brasil, que se esgueira sob a ameaça de censura, de ditadura, com a economia corroída, li, em Tristes Trópicos, notícias de um tempo antigo, que interessa certamente aos estudantes de antropologia. Fico até em dúvida. Os estudantes de antropologia lerão Tristes Trópicos, ou apenas ouvem resenhas curtas no YouTube? 

Até onde li e folheei dá para sentir que Lévi-Strauss gostaria de salvar o Novo Mundo perdido, de salvar os selvagens. Tristes Trópicos é, de fato, uma crônica de viagem. Uma catedral ibérica no trópico. E mostra o sertão brasileiro com a clareza do sol. Nesse aspecto, é um livro atualíssimo. 

Se Lule já estivesse na ativa no começo do século passado quem sabe salvaria os indígenas de Lévi-Strauss, como está fazendo atualmente com os Yanomami. Os índios querem saúde, escola, trabalho e a preservação de sua cultura. Mas isso nem a ralé dos brasileiros brancos (mestiços, na verdade) têm. Hoje, não são somente os Yanomami que estão sufocando. 

Resta, em Tristes Trópicos, aquela maravilha de erudição. Mas isso já é para críticos literários, estudantes de antropologia e intelectuais. Os comunistas dirão que os tristes trópicos são culpa do Bolsonaro.

domingo, 2 de junho de 2024

2024. Ou uma crônica de inverno

Em A IDENTIDADE CARIOCA (Clube de Autores) chefão do crime
organizado sai à caça do Tesouro dos Jesuítas do Morro do Castelo

RAY CUNHA

BRASÍLIA, 2 DE JUNHO DE 2024 – O inverno começa em duas semanas e meia, e vai até 22 de setembro. As madrugadas são frias e os dias, secos. Nossos irmãos do Rio Grande do Sul precisam de víveres e orações, de toda ajuda possível, pois foram atingidos duplamente: por uma inundação histórica e em tempos obscuros. No outro extremo do país, o ditador Nicolás Maduro ameaça invadir Roraima. 

O Brasil está cada vez mais frágil: escancarou as portas para os chineses, um bilhão e meio de chineses famintos, e o Brasil produz alimento suficiente para todas essas bocas. Rompeu relações diplomáticas com Israel, única democracia no Oriente Médio e celeiro da mais avançada tecnologia no planeta, e simpatiza com a ditadura iraniana e os terroristas do Hamas. E, aparentemente, torce pela Rússia. 

Já faz frio, muito frio, mas tentam amordaçar os brasileiros para que eles não reclamem do frio, para que aguentem a mandioca, calados. Só conseguem falar os jornalistas baseados nos Estados Unidos ou na Europa. 

O que os Estados Unidos dirão de tudo isso? Lá, está cheio de comunistas, mas a democracia americana é tão forte, baseada em instituições justas, que os vermelhos não conseguem destruir a família e o Estado para se espojarem nas suas carcaças. 

Porém as coisas estão se resolvendo. Vêm aí as eleições municipais e temos jornalistas, senadores e deputados democratas, justos e heroicos, que estão cuidando disso. E escritores também. Este ano tem sido muito produtivo para mim. Acabo de publicar um romance histórico, A IDENTIDADE CARIOCA, que corrige a visão marxista e positivista de historiadores clássicos. 

Após exaustiva pesquisa e interpretação do que foi pesquisado, alicerço a trama de A IDENTIDADE CARIOCA na construção do Brasil, a partir da descoberta da Baía de Guanabara pelos portugueses. Quanto à trama do romance, um jornalista e um chefão do crime organizado descobrem que a maior lenda urbana do Rio de Janeiro, o Tesouro dos Jesuítas do Morro do Castelo, não é uma lenda, mas existe realmente, e saem à caça ao tesouro. Quem chegará à frente? Muita gente morrerá nessa corrida. 

Também A IDENTIDADE CARIOCA é a história do Rio de Janeiro, resgatando personalidades de ontem e de hoje. 

Trabalho ainda na sequência de O CLUBE DOS ONIPOTENTES. A trama deste segundo volume se estenderá de 8 de janeiro de 2022 até as próximas eleições americanas. 

Além disso, publiquei dois livros de contos: AMAZÔNIA e TRÓPICO. Quem quiser conhecer a Amazônia, em toda a sua nudez, leia meu romance JAMBU e também AMAZÔNIA, e quem quiser conhecer o Brasil, leia A IDENTIDADE CARIOCA, O CLUBE DOS ONIPOTENTES e TRÓPICO.