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| Ray Cunha: geopolítica mundial analisada sob a lupa literária do Trópico |
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O conto TRÓPICO (Clube de Autores, amazon.com.br e amazon.com),
de Ray Cunha, é uma narrativa de grande ambição temática. Embora se apresente
formalmente como conto, sua estrutura, sua amplitude temporal e a quantidade de
informações mobilizadas aproximam-no de uma novela condensada ou mesmo de um
romance em estado embrionário. O texto acompanha a trajetória de Lucas Miguel
Benítez Loyola, jornalista, investigador e praticante de artes marciais, ao
mesmo tempo em que constrói uma interpretação ficcional do Brasil e do mundo
atravessados pela crise política, pela pandemia de Covid-19, pelas disputas
geopolíticas e por uma concepção espiritual da existência.
O resultado é uma narrativa híbrida, que combina thriller
político, romance de espionagem, ficção conspiratória, aventura, artes marciais
e espiritualismo. Essa mistura constitui, simultaneamente, sua maior força e
sua principal característica estética. Ray Cunha não procura construir uma
narrativa minimalista. Ao contrário, escreve em escala panorâmica, acumulando
personagens, acontecimentos, referências históricas e teorias interpretativas
até transformar a história particular de Lucas em uma espécie de alegoria do
Brasil contemporâneo.
O próprio título, TRÓPICO, possui força simbólica. O
trópico, aqui, não é apenas uma referência geográfica. É um espaço mental,
político e civilizacional. O Brasil aparece como território situado entre
forças contraditórias: Oriente e Ocidente, espiritualidade e materialismo,
democracia e autoritarismo, liberdade e controle, ciência e crença, razão e
mistério. O personagem Lucas atravessa esses mundos e, de certo modo, torna-se
a síntese humana dessas tensões.
1. Lucas Loyola: o herói híbrido
O protagonista é construído como um personagem de múltiplas
competências. Filho de um neurocirurgião que se torna especialista em Medicina
Tradicional Chinesa, educado sob a influência do taoísmo, do zen-budismo e do
pensamento oriental, Lucas abandona a Medicina e se transforma em jornalista.
Paralelamente, desenvolve extraordinária habilidade no manejo da katana e
incorpora princípios das artes marciais e da meditação. Essa formação heterogênea é fundamental para compreender sua
função narrativa.
Lucas não é simplesmente um jornalista que investiga um
crime. Ele representa uma espécie de herói contemporâneo total, capaz de
transitar entre a investigação jornalística, a ação física, a reflexão
filosófica e a espiritualidade. Sua trajetória é marcada pela busca de uma
verdade que não se limita aos fatos imediatamente visíveis.
Nesse sentido, o personagem se aproxima de uma tradição
literária muito antiga: a do herói que precisa dominar simultaneamente o mundo
exterior e o próprio mundo interior. A katana, nesse contexto, não funciona
apenas como arma. Ela simboliza disciplina, concentração e domínio de si.
O contraste entre Lucas e Noblat é particularmente
significativo. Os dois começam juntos, mas seguem caminhos espirituais e morais
diferentes. Enquanto Lucas aprende a controlar o ego, Noblat é progressivamente
dominado pela vaidade. A oposição entre ambos ultrapassa o simples conflito
entre herói e antagonista: trata-se de um confronto entre disciplina e
arrogância, autocontrole e poder, humildade e vaidade.
O desfecho da luta confirma essa leitura. Lucas vence não
porque seja mais agressivo, mas porque alcança um estado de concentração
absoluta. Seus olhos fechados, pouco antes do golpe final, remetem à ideia de
que a verdadeira força não nasce da violência exterior, mas do domínio
interior.
2. A transformação do jornalismo em instrumento de
investigação
Um dos aspectos mais interessantes de TRÓPICO é a maneira
como o jornalismo é incorporado à estrutura narrativa. Lucas descobre sua vocação jornalística quando denuncia
práticas que considera abusivas na formação médica. A escolha da profissão,
portanto, nasce de um gesto de denúncia. O jornalismo surge como instrumento de
investigação e de combate àquilo que o personagem considera injusto. Essa característica permanece ao longo de toda a narrativa.
Lucas não é o jornalista contemplativo, distante dos
acontecimentos. É um personagem que entra fisicamente na realidade que
investiga. Ele procura provas, conversa com policiais, acompanha pistas,
utiliza contatos e mobiliza recursos tecnológicos. O jornalismo, em sua
trajetória, assume uma dimensão quase detetivesca.
A morte de Clarice Melo intensifica essa perspectiva. A
jovem repórter representa a imprensa que busca investigar aquilo que está
oculto. Sua morte transforma a informação em questão de vida ou morte.
Descobrir a verdade deixa de ser apenas uma atividade profissional e passa a
significar resistência.
É nesse ponto que o conto se aproxima do thriller político.
A investigação de um assassinato conduz à descoberta de uma conspiração maior.
O crime individual torna-se sintoma de uma crise sistêmica.
3. A Amazônia como horizonte geopolítico
Embora boa parte da ação se desenvolva no Rio de Janeiro e
em Brasília, a Amazônia ocupa lugar estratégico no imaginário de TRÓPICO. A região surge ligada à própria biografia de Lucas, que
conhece Belém, Manaus e Rio Branco. A Amazônia não aparece, portanto, como
simples cenário exótico. Ela funciona como território de pertencimento,
mistério e poder. Essa dimensão é recorrente na literatura de Ray Cunha. Em
sua obra, a Amazônia tende a ultrapassar o regionalismo convencional. Ela é
apresentada como questão política, econômica e geopolítica.
Em TRÓPICO, essa perspectiva ganha força porque a Amazônia é
inserida numa narrativa de escala mundial. O Brasil é pensado como país
estratégico, e a região amazônica aparece implicitamente como parte de disputas
que transcendem as fronteiras nacionais. O título da narrativa reforça essa dimensão: o trópico não é
periferia do mundo, mas um espaço central para compreender o futuro do planeta.
4. A pandemia como cenário de medo e ruptura
A Covid-19 constitui o grande pano de fundo histórico do
conto. A quarentena, as máscaras, o isolamento e a paralisação das cidades
criam uma atmosfera particularmente adequada ao thriller. A pandemia cumpre, entretanto, uma função mais profunda. Ela
representa uma ruptura histórica.
O mundo conhecido por Lucas parece estar desaparecendo. As
certezas políticas, econômicas e sociais são substituídas por suspeitas. Nesse
ambiente de medo, torna-se difícil separar realidade, hipótese e imaginação. É justamente essa ambiguidade que alimenta a narrativa.
O conto apresenta teorias sobre a origem do coronavírus e
sua possível utilização como arma biológica. Essas ideias aparecem integradas
ao pensamento dos personagens e ao universo político da história. Do ponto de
vista literário, isso é relevante porque mostra como, em momentos de crise, o
indivíduo procura construir explicações para acontecimentos que parecem escapar
ao seu controle. A narrativa, portanto, pode ser lida também como uma ficção
sobre a necessidade humana de encontrar uma ordem por trás do caos.
Lucas tenta compreender a pandemia por diferentes caminhos:
histórico, político, científico e espiritual. A multiplicidade de explicações
não é gratuita. Ela revela uma consciência que não aceita o mundo como algo
simples ou transparente.
5. Ciência, espiritualidade e pensamento oriental
Talvez o elemento mais original do conto esteja na
convivência entre geopolítica e espiritualidade. A formação de Lucas é profundamente marcada pelo pensamento
oriental. A Medicina Tradicional Chinesa, o taoísmo, o zen-budismo e o kung fu
não aparecem apenas como referências decorativas. Eles participam da construção
filosófica do protagonista.
Essa influência alcança seu ponto culminante na cena final. Antes do combate com Noblat, Lucas afirma que prefere pensar
como os budistas e que não teme a morte. O personagem alcança, então, aquilo
que o conto apresenta como um estado de suspensão do tempo e do ego. A luta é
breve porque, para Lucas, ela já está decidida no plano da consciência. A morte de Noblat adquire, assim, uma dimensão quase ritual.
Há uma ironia importante nessa passagem: Noblat aprendeu a
técnica, mas não aprendeu a sabedoria. Lucas, ao contrário, compreendeu que a
técnica só alcança sua plenitude quando subordinada ao domínio do espírito. O conto propõe, dessa maneira, uma visão segundo a qual o
verdadeiro combate não é entre dois homens, mas entre duas formas de
existência.
6. A política como campo de batalha
O núcleo político do conto é claramente marcado pela
polarização brasileira dos anos Bolsonaro. A narrativa assume uma perspectiva crítica em relação à Esquerda
e às estruturas políticas associadas ao Foro de São Paulo, ao comunismo e à
corrupção. Bolsonaro aparece como figura central no imaginário político do
protagonista, enquanto seus adversários são associados a uma estrutura
clandestina de poder.
Literariamente, essa escolha produz um efeito importante:
TRÓPICO não pretende ser uma narrativa politicamente neutra. É uma obra de
intervenção. Ray Cunha utiliza a ficção para elaborar uma interpretação
do Brasil contemporâneo. O conto transforma o thriller em instrumento de
leitura política. A intriga policial funciona como uma espécie de máquina
narrativa destinada a revelar aquilo que, segundo a visão da obra, estaria
oculto sob a superfície institucional.
Nesse sentido, o senador Luiz Cabral Maia representa o
político que transita entre os espaços públicos e subterrâneos do poder. Sua
trajetória sintetiza a crítica do autor ao sistema de alianças, interesses e
estruturas que, na perspectiva narrativa, condicionam a vida política
brasileira.
O personagem Noblat, por sua vez, funciona como a revelação
final dessa engrenagem. O antigo amigo de Lucas transforma-se no inimigo. O
amigo de infância converte-se no assassino. A traição, portanto, é também
política.
7. O conto como narrativa de conspiração
A estrutura de TRÓPICO pertence claramente à tradição da
narrativa conspiratória. O assassinato de Clarice conduz a uma investigação. A
investigação conduz ao supercomputador. O supercomputador contém documentos
secretos. Os documentos revelam um plano maior. E o plano maior está conectado
à crise política e à pandemia.
A estrutura é construída como uma sucessão de círculos
concêntricos: cada descoberta abre uma nova camada de mistério. Essa arquitetura aproxima Ray Cunha de uma tradição
internacional de ficção política em que o indivíduo descobre que os
acontecimentos aparentemente isolados fazem parte de uma engrenagem invisível.
A diferença é que, em TRÓPICO, essa engrenagem possui uma
dimensão brasileira muito marcada. Brasília, o Congresso, o Palácio do
Planalto, a Polícia Civil, a imprensa e a Amazônia são incorporados à narrativa
de maneira concreta. O resultado é uma espécie de thriller geopolítico tropical,
no qual a grande conspiração internacional passa necessariamente pelo Brasil.
8. O excesso como escolha estética
Uma característica evidente do texto é o seu gosto pelo
excesso. Há uma enorme quantidade de informações biográficas, históricas,
geográficas e políticas. O narrador frequentemente interrompe a ação para
explicar personagens, lugares, instituições e acontecimentos.
Sob uma perspectiva estritamente clássica de economia
narrativa, esse procedimento poderia ser considerado excessivo. O conto poderia
alcançar maior tensão com uma redução significativa dessas informações. Entretanto,
esse excesso também constitui uma marca autoral.
Ray Cunha parece interessado em construir não apenas uma
história, mas um universo interpretativo. O leitor é colocado diante de uma
narrativa que deseja explicar o mundo inteiro. O conto quer falar
simultaneamente do Brasil, da China, da pandemia, da espiritualidade, da
política, da Amazônia, do jornalismo e do destino da humanidade.
Essa ambição faz com que TRÓPICO ultrapasse os limites
convencionais do conto. Mais do que uma narrativa breve, ele se apresenta como
uma espécie de romance condensado, uma narrativa panorâmica comprimida em forma
curta.
9. O simbolismo do duelo final
O duelo entre Lucas e Noblat é o momento de maior
intensidade dramática. Toda a narrativa converge para essa cena. Dois amigos de
infância encontram-se frente a frente. De um lado, Lucas, jornalista,
investigador e discípulo das artes marciais; de outro, Noblat, jornalista
transformado em instrumento de uma estrutura de poder.
O combate é também uma disputa pela interpretação do mundo. Noblat
acredita que Lucas traiu sua classe e seus interesses. Lucas acredita que
Noblat traiu a própria humanidade ao assassinar Clarice. O conflito, portanto,
é moral antes de ser físico.
A katana, que atravessou a formação dos dois personagens,
torna-se finalmente o instrumento de julgamento. Noblat morre pela mesma arma
com que matou Clarice. A simetria é evidente. O assassino é destruído pelo
símbolo de sua própria violência.
Mas o mais importante é que Lucas não celebra a morte. Ele
simplesmente limpa a espada, guarda-a e volta para casa. O gesto é frio, quase
ritualístico. A narrativa sugere que, para ele, o combate terminou porque uma
etapa de sua missão foi concluída.
O verdadeiro trabalho, contudo, ainda está por fazer. A
última frase — “A noite seria curta para o que tinha a fazer” — reabre a
narrativa. O herói sobrevive, mas a guerra continua.
10. Considerações finais
TRÓPICO é um conto que deve ser lido menos como uma
narrativa policial convencional e mais como uma ficção política de grande
amplitude, na qual Ray Cunha procura interpretar o Brasil contemporâneo por
meio da mistura de ação, investigação, geopolítica e espiritualidade. Sua
originalidade está precisamente nessa combinação.
O protagonista Lucas Loyola é um personagem singular dentro
da ficção brasileira recente: jornalista, investigador, homem de ação e
discípulo de uma filosofia oriental que procura conciliar corpo e espírito. Sua
trajetória representa uma tentativa de unir mundos aparentemente incompatíveis.
A narrativa também revela uma concepção muito particular da
Amazônia. Em vez de confiná-la ao regionalismo, Ray Cunha a insere no centro de
uma visão geopolítica planetária. O Brasil tropical, longe de ser periferia,
aparece como território decisivo para o futuro da humanidade.
Ao mesmo tempo, TRÓPICO é uma obra marcada por forte
posicionamento ideológico. Sua visão da política brasileira, do comunismo, da
pandemia e das relações internacionais é assumidamente parcial e combativa.
Essa característica pode provocar resistência em leitores que não compartilhem
de suas premissas políticas, mas é justamente essa ausência de neutralidade que
dá ao texto sua identidade.
Do ponto de vista literário, o conto se destaca sobretudo
por sua ambição de totalidade. Ray Cunha não quer contar apenas o assassinato
de uma jornalista. Quer narrar, por meio desse crime, uma batalha pelo destino
do Brasil e, em última instância, pelo destino da própria humanidade.
Por isso, TRÓPICO pode ser entendido como uma espécie de
thriller geopolítico espiritualizado, no qual o conflito político exterior
corresponde a um conflito interior entre ego e disciplina, vaidade e humildade,
poder e consciência.
No centro dessa visão está Lucas Loyola, personagem que
atravessa o caos contemporâneo munido de duas armas aparentemente
incompatíveis: a investigação jornalística e a sabedoria oriental. A primeira
procura descobrir os segredos do mundo; a segunda procura dominar os segredos
de si mesmo. É nessa fusão que reside a força simbólica do conto.
TRÓPICO, em última análise, é uma narrativa sobre um mundo
em crise e sobre a necessidade de encontrar, em meio ao ruído da política, da
violência e da desinformação, algum princípio de ordem. Ray Cunha responde a
essa crise com uma literatura de combate: uma literatura que investiga,
denuncia, confronta e, ao mesmo tempo, procura uma saída espiritual para a
desordem histórica.
O conto, assim, ocupa um lugar particular na produção do
autor: é uma obra em que o jornalismo, a geopolítica, a Amazônia, a política
brasileira e o pensamento oriental se encontram numa mesma corrente narrativa.
E talvez seja justamente essa mistura, tão ampla quanto controversa, que faça
de TRÓPICO uma das narrativas mais representativas da vertente política e
geopolítica da ficção de Ray Cunha.
O conto político entre a Amazônia, a espionagem e o
apocalipse contemporâneo
1. Introdução: um conto que ultrapassa o conto
O conto TRÓPICO ocupa uma posição singular dentro da ficção
brasileira contemporânea. Sua extensão narrativa, sua multiplicidade de
personagens, a amplitude temporal da história e a quantidade de núcleos
temáticos mobilizados fazem com que o texto ultrapasse as fronteiras
tradicionais do conto breve e se aproxime da novela condensada, do romance de
espionagem em miniatura ou mesmo de uma narrativa de largo fôlego comprimida em
forma curta.
A história acompanha Lucas Miguel Benítez Loyola, jornalista
carioca de ascendência amazônica e formação marcada pelo pensamento oriental,
cuja trajetória pessoal se cruza com a política brasileira, o jornalismo
investigativo, a criminalidade organizada, a geopolítica internacional e a
pandemia de Covid-19. A morte brutal da jornalista Clarice Melo desencadeia uma
investigação que conduz o protagonista a uma trama de conspiração política,
espionagem e enfrentamento armado.
Entretanto, reduzir TRÓPICO a um thriller político seria
insuficiente. A narrativa incorpora elementos do conto policial, da literatura
de espionagem, da ficção conspiratória, do romance de ação, da narrativa de
artes marciais, da ficção geopolítica e do espiritualismo. O texto procura,
portanto, construir uma visão totalizante de um mundo em crise.
A palavra "trópico", nesse sentido, ganha valor
metafórico. O trópico é simultaneamente espaço geográfico e lugar
civilizacional. É o Brasil visto a partir de suas contradições, mas também como
território estratégico no rearranjo do poder mundial. A narrativa desloca o
centro do olhar: em vez de imaginar o mundo a partir exclusivamente dos grandes
centros políticos do Hemisfério Norte, propõe uma perspectiva em que o Brasil e
a Amazônia participam ativamente das disputas planetárias.
Essa mudança de perspectiva é fundamental para compreender o
lugar de TRÓPICO na obra de Ray Cunha.
2. O conto brasileiro e a ruptura com a narrativa de
concisão
A tradição do conto brasileiro é marcada por uma tensão
entre duas tendências. De um lado, encontra-se a narrativa concentrada, de
economia extrema, na qual o autor procura produzir um efeito único e intenso.
De outro, há contistas que utilizam a forma breve como espaço de expansão,
experimentação e fragmentação. TRÓPICO aproxima-se mais da segunda vertente.
O texto não se organiza em torno de um único acontecimento
isolado. Ao contrário, sua estrutura é acumulativa. A biografia de Lucas, a
história de seus amigos, a formação de suas convicções, a trajetória
profissional, a política brasileira, a pandemia e a conspiração constituem
camadas sucessivas. A narrativa parece obedecer a uma lógica de expansão
centrífuga: parte de um personagem e, progressivamente, abre-se para o mundo.
Esse procedimento produz um efeito interessante. O leitor
começa acompanhando a história de Lucas, mas logo percebe que o personagem é
apenas uma porta de entrada para uma realidade muito maior. Sua vida individual
é atravessada por forças históricas que ele não controla completamente.
É possível estabelecer, nesse ponto, uma aproximação
distante com certas vertentes da tradição narrativa brasileira que utilizam a
trajetória individual como instrumento de interpretação social. Em Machado de
Assis, o indivíduo frequentemente revela as estruturas invisíveis da sociedade;
em Graciliano Ramos, a existência pessoal pode condensar tensões históricas; em
Guimarães Rosa, o espaço regional adquire dimensão metafísica.
Ray Cunha realiza operação diferente, mas igualmente
ambiciosa: transforma a trajetória individual em um ponto de observação da
geopolítica contemporânea. O conto deixa, assim, de ser apenas história de
personagem e passa a funcionar como ficção de interpretação histórica.
3. Da tradição policial ao thriller político
O assassinato de Clarice Melo insere imediatamente TRÓPICO
no território da narrativa policial. Existe um cadáver. Existe uma
investigação. Existem suspeitos. Existem pistas. Existe uma verdade oculta. Existe
um antagonista. Mas Ray Cunha rapidamente desloca o eixo do policial
tradicional. O crime não é apresentado como acontecimento isolado. A morte da
jornalista constitui apenas a superfície visível de uma estrutura subterrânea.
A pergunta narrativa deixa de ser apenas: Quem matou
Clarice? E passa a ser: Que forças políticas estão por trás do assassinato? Essa
transformação é precisamente uma das características centrais do thriller
político contemporâneo.
Na narrativa policial clássica, o crime rompe a ordem e a
investigação procura restaurá-la. No thriller político, entretanto, a
investigação frequentemente revela que a própria ordem institucional já está
contaminada. O problema não é descobrir quem violou o sistema, mas descobrir
quem controla o sistema. É nesse ponto que TRÓPICO se aproxima da literatura
política internacional contemporânea.
A morte de Clarice não significa apenas o desaparecimento de
uma personagem. Simboliza a tentativa de silenciar o jornalismo investigativo.
A jornalista é assassinada porque descobriu algo que não deveria descobrir. A
informação, portanto, transforma-se em arma. E quem controla a informação
controla o poder.
4. A tradição da espionagem e o "Estado invisível"
A literatura de espionagem, especialmente aquela
desenvolvida no século XX, construiu uma imagem recorrente: a existência de
estruturas de poder que operam paralelamente às instituições oficiais. A
narrativa de Ray Cunha trabalha intensamente com essa tradição. O
supercomputador, os arquivos secretos, os contatos com agentes de inteligência,
os hackers, os policiais e as informações clandestinas constituem elementos
característicos do gênero.
Entretanto, há uma diferença significativa. Na tradição
clássica da espionagem, como em autores como John le Carré, a ambiguidade moral
costuma ser central. O agente frequentemente descobre que não existem heróis
absolutos. Os Estados mentem, manipulam e sacrificam indivíduos em nome de
interesses estratégicos. Em TRÓPICO, a divisão moral é mais nítida.
O universo narrativo tende a organizar-se em torno de uma
oposição entre a "banda boa" e as forças consideradas corruptoras ou
conspiratórias. Lucas pertence ao primeiro campo; seus adversários, ao segundo.
Essa escolha aproxima a narrativa menos da espionagem realista e mais do
thriller político de ação, em que o leitor é convidado a acompanhar o
protagonista em sua luta contra uma estrutura identificada como inimiga.
O conto, portanto, não trabalha prioritariamente com a
ambiguidade moral, mas com a ideia de uma guerra moral invisível. É justamente
essa concepção que transforma o assassinato de Clarice em algo maior do que um
crime. Ela é vítima de uma guerra. E Lucas, ao descobrir a verdade, torna-se
automaticamente um combatente.
5. O protagonista como jornalista-detetive
Lucas Loyola é uma figura particularmente interessante
porque ocupa uma posição intermediária entre dois arquétipos narrativos. Ele é
simultaneamente jornalista e detetive. Sua investigação não nasce de uma
autoridade policial. Ele não representa oficialmente o Estado. Sua legitimidade
nasce da busca pela verdade. Isso aproxima o personagem de uma tradição muito
forte do jornalismo investigativo: a ideia de que a imprensa pode atuar como
mecanismo de fiscalização do poder.
Mas Lucas vai além. Ele não apenas investiga. Ele age. A
narrativa transforma o jornalista em personagem de ação. O profissional da
informação torna-se também especialista em artes marciais e combatente. Essa
fusão produz um personagem incomum na literatura brasileira.
Lucas é, ao mesmo tempo: jornalista; investigador; intelectual;
praticante de artes marciais; discípulo do pensamento oriental; observador da
política; personagem ligado à Amazônia; homem de ação. Sua complexidade deriva
justamente dessa multiplicidade. Ele representa uma espécie de intelectual
combatente, alguém que acredita que conhecer a realidade implica também estar
disposto a enfrentá-la.
6. A katana como símbolo narrativo
A katana possui uma função simbólica decisiva. Ela aparece
inicialmente associada à juventude de Lucas e Noblat, à prática do kendo e à
competição entre os dois amigos. Mas, progressivamente, a arma adquire dimensão
moral. Noblat aprende a técnica, mas não supera a vaidade. Lucas, ao contrário,
aprende que a verdadeira técnica exige disciplina interior. Essa oposição é
fundamental.
A katana representa, simultaneamente, poder e autocontrole. Nas
mãos de Noblat, torna-se instrumento de assassinato. Nas mãos de Lucas,
transforma-se em instrumento de justiça narrativa. O duelo final é, portanto,
mais do que uma cena de ação. É a resolução simbólica de uma disputa que
começou décadas antes.
Os dois personagens percorreram caminhos diferentes. Noblat
escolheu o poder. Lucas escolheu a consciência. O resultado é determinado não
apenas pela habilidade física, mas pela diferença espiritual entre os dois. A
narrativa parece afirmar que a técnica sem ética conduz à destruição.
A espiritualidade, por sua vez, não significa passividade.
Lucas é um personagem espiritualmente orientado, mas profundamente ativo. Essa
é uma das características mais interessantes da concepção de mundo de TRÓPICO:
a espiritualidade não elimina o combate; ela fornece ao combatente uma
disciplina interior.
7. O Oriente como contraponto à crise ocidental
O pensamento oriental desempenha função estrutural na
narrativa. Taoísmo, zen-budismo, kung fu e Medicina Tradicional Chinesa formam
uma espécie de contraponto filosófico ao universo político ocidental. Enquanto
o mundo exterior é apresentado como caótico, violento e dominado pela disputa
pelo poder, o pensamento oriental oferece ao protagonista um caminho de
equilíbrio.
Essa oposição não é absoluta, pois Lucas participa da luta
política e utiliza armas. Contudo, há uma diferença entre a violência movida
pelo ego e a ação orientada pela consciência. O duelo final cristaliza essa
ideia. Lucas fecha os olhos. Noblat interpreta o gesto como fraqueza. Mas o
leitor sabe que ocorre exatamente o contrário. Lucas está concentrado. A
imobilidade exterior corresponde ao máximo de movimento interior. O golpe
decisivo nasce do vazio.
Essa concepção aproxima a cena de uma tradição estética das
artes marciais orientais na qual o guerreiro perfeito não é aquele que
demonstra força, mas aquele que elimina o excesso de movimento. A narrativa
brasileira de Ray Cunha, portanto, incorpora ao thriller político uma filosofia
de ação que não é predominantemente ocidental. É uma tentativa de combinar
geopolítica e metafísica.
8. A Amazônia além do regionalismo
Um dos pontos mais relevantes para situar TRÓPICO na
produção de Ray Cunha é a presença da Amazônia. A região não é apresentada como
simples paisagem. Não há, aqui, o regionalismo tradicional baseado apenas na
descrição da natureza, dos costumes ou da vida local. A Amazônia aparece como
território estratégico. Essa perspectiva é coerente com a trajetória ficcional
do autor, cuja obra frequentemente desloca a Amazônia do espaço da periferia
para o centro das disputas políticas, econômicas e culturais.
Nesse aspecto, TRÓPICO participa de uma tendência
contemporânea da literatura amazônica que procura superar o exotismo. A
Amazônia deixa de ser "paisagem distante" e passa a ser questão
mundial. Esse movimento é particularmente importante porque a literatura sobre
a região historicamente oscilou entre dois extremos: a representação exótica da
floresta e a denúncia social.
Ray Cunha acrescenta uma terceira perspectiva: a Amazônia
geopolítica. O território amazônico é visto como espaço de soberania, recursos
naturais, interesses internacionais e futuro planetário. Essa visão aproxima
TRÓPICO de uma literatura amazônica que não pretende apenas representar a
região, mas disputar sua interpretação.
9. A pandemia e a estética do apocalipse
A pandemia de Covid-19 introduz no conto uma atmosfera de
excepcionalidade histórica. A cidade vazia, a quarentena, as máscaras e o medo
criam um cenário quase pós-apocalíptico. Mas o apocalipse, em TRÓPICO, não é
apenas sanitário. É político. É econômico. É moral. É espiritual. A pandemia
funciona como catalisador de uma crise geral da civilização. O mundo parece
estar diante de uma encruzilhada.
A narrativa apresenta, então, diferentes sistemas
explicativos: a geopolítica, a conspiração, a história, a ciência, o
espiritismo e a astrologia. Essa multiplicidade pode ser interpretada como
característica do imaginário contemporâneo. Em períodos de grande incerteza, o
homem procura explicações totais. O mundo não parece mais governado por
acontecimentos isolados, mas por forças ocultas que precisam ser decifradas. É
justamente nesse ambiente que nasce a narrativa conspiratória.
O conto utiliza essa atmosfera para criar uma pergunta
fundamental: Quem controla o destino do mundo quando as instituições deixam de
ser confiáveis? A resposta narrativa de Ray Cunha é radical: existe uma guerra
invisível pelo controle da sociedade. Lucas torna-se, assim, o homem que tenta
enxergar essa guerra.
10. Entre ficção e intervenção política
Um dos aspectos mais controversos de TRÓPICO é seu
posicionamento político explícito. A narrativa não pretende esconder sua visão
ideológica. A política de Jair Bolsonaro, a crítica ao comunismo, ao Foro de
São Paulo e às estruturas de corrupção fazem parte da arquitetura do texto.
Do ponto de vista acadêmico, essa característica deve ser
analisada não como defeito automático, mas como procedimento estético e
ideológico. A literatura política nunca foi neutra. Desde os romances de tese
até a ficção distópica, escritores utilizam a narrativa para interpretar e
disputar a realidade.
O que distingue TRÓPICO é a intensidade dessa intervenção. Ray
Cunha não escreve sobre a política como observador externo. Escreve como autor
que pretende participar do debate. O conto assume, portanto, uma função de
literatura de intervenção. Seu objetivo não é apenas entreter, mas persuadir,
provocar e oferecer uma interpretação dos acontecimentos. Essa característica o
aproxima mais da tradição do romance político de tese do que do policial
clássico.
11. A verdade como obsessão narrativa
Existe, finalmente, um tema que percorre todo o conto: a
busca da verdade. Lucas abandona a Medicina porque se revolta contra aquilo que
considera práticas injustas. Torna-se jornalista porque descobre que pode
investigar e denunciar. Acompanha o assassinato de Clarice porque acredita que
a verdade sobre sua morte precisa ser descoberta. Procura o supercomputador
porque sabe que ali estão as provas. E, no final, enfrenta Noblat porque
compreende que a verdade não pode ser silenciada. A estrutura do conto é,
portanto, uma estrutura de revelação.
O personagem passa continuamente: da aparência à descoberta;
do segredo à informação; da informação à prova; da prova ao confronto. Essa
dinâmica é característica tanto do jornalismo investigativo quanto do thriller
de espionagem.
Mas, em Ray Cunha, existe uma camada adicional. A verdade
não é apenas política. É também espiritual. Lucas precisa compreender não
apenas quem controla o poder, mas qual é o sentido da existência humana diante
da morte. Por isso, a morte de Clarice e o duelo com Noblat adquirem uma
dimensão filosófica. O personagem que não teme morrer é aquele que se tornou
mais difícil de controlar. A ausência de medo da morte transforma-se, assim, em
liberdade.
12. TRÓPICO no contexto da obra de Ray Cunha
Dentro da produção ficcional de Ray Cunha, TRÓPICO pode ser
compreendido como um texto de convergência. Nele se encontram elementos que
atravessam diferentes momentos de sua obra: a Amazônia, a política, o
jornalismo, a investigação, a geopolítica e a espiritualidade.
Se em outras narrativas do autor a Amazônia aparece como
espaço de identidade, aventura ou conflito, aqui ela adquire uma dimensão ainda
mais ampla. O regional torna-se nacional. O nacional torna-se internacional. E
o internacional torna-se planetário. Esse movimento pode ser representado
esquematicamente assim:
Amazônia → Brasil → Geopolítica → Humanidade
É precisamente essa expansão que define a arquitetura
intelectual do conto. A Amazônia não é o fim da narrativa. É o ponto de partida
para pensar o mundo.
13. Conclusão: uma literatura de combate
TRÓPICO é, em essência, uma narrativa de combate. Combate
político. Combate jornalístico. Combate espiritual. Combate físico. Mas,
sobretudo, combate pela interpretação da realidade. Seu protagonista acredita
que existe uma verdade oculta e que essa verdade precisa ser investigada. A
narrativa acompanha essa busca até transformá-la em confronto físico.
Nesse sentido, o conto possui uma estrutura quase clássica: o
jornalista descobre; o jornalista investiga; o jornalista é ameaçado; o
jornalista enfrenta o poder; o jornalista sobrevive.
Mas Ray Cunha acrescenta a esse esquema uma dimensão
singular: o jornalista é também um homem formado por uma filosofia oriental que
lhe ensina a dominar o medo e o ego. O resultado é um protagonista que
representa uma síntese improvável entre Sherlock Holmes, o repórter
investigativo, o agente de espionagem e o guerreiro zen. Essa síntese define a
originalidade de TRÓPICO.
Do ponto de vista estético, o conto pode ser criticado por
seu excesso informativo, por sua exposição direta de ideias e pela pouca
ambiguidade ideológica. Mas esses mesmos elementos revelam uma escolha
consciente: Ray Cunha não busca uma literatura de neutralidade, silêncio ou
contenção. Busca uma literatura de intervenção. Sua narrativa quer disputar o
presente. Quer interpretar a crise brasileira. Quer inserir a Amazônia no
centro da geopolítica. Quer aproximar o thriller da espiritualidade. Quer
transformar o jornalista em combatente.
E quer sugerir que, por trás da violência política e das
disputas pelo poder, existe uma batalha mais profunda entre consciência e
corrupção, disciplina e vaidade, verdade e manipulação.
Por isso, TRÓPICO pode ser definido como um conto
político-geopolítico de matriz amazônica, construído na interseção entre o
thriller contemporâneo e a narrativa de espionagem, mas atravessado por uma
concepção espiritual do destino humano. Sua importância na obra de Ray Cunha
está precisamente nessa capacidade de síntese.
Se JAMBU amplia a Amazônia como espaço de tensão
geopolítica, gastronômica e cultural, TRÓPICO desloca essa mesma preocupação
para o território da conspiração política e da crise planetária. Se outros
textos do autor exploram a violência, o poder ou a identidade amazônica, aqui
esses temas se articulam numa visão abrangente do mundo contemporâneo.
No conjunto da ficção de Ray Cunha, TRÓPICO pode ser lido,
portanto, como uma obra de passagem: entre o regional e o universal, entre a
Amazônia e o planeta, entre o jornalismo e a literatura, entre a ação e a
meditação, entre o real e o imaginário conspiratório.
É uma narrativa que pretende transformar o Trópico,
historicamente visto como margem, em centro. E talvez essa seja sua ideia
literária mais profunda: o futuro do mundo também pode ser narrado a partir da
Amazônia e do Brasil.
A imaginação geopolítica do Brasil contemporâneo
Este ensaio analisa o conto TRÓPICO a partir de sua inserção
na literatura política e geopolítica contemporânea. A narrativa, centrada no
jornalista Lucas Miguel Benítez Loyola, articula elementos do conto policial,
do thriller político, da literatura de espionagem, da ficção conspiratória e da
espiritualidade oriental, ao mesmo tempo em que desloca a Amazônia de uma
posição tradicionalmente periférica para o centro de uma imaginação geopolítica
de alcance planetário.
O estudo procura situar o texto em diálogo comparatista com
diferentes tradições da literatura brasileira e internacional, aproximando-o,
por contraste e afinidade, de Machado de Assis, Euclides da Cunha, Graciliano
Ramos, Guimarães Rosa, Rubem Fonseca, John le Carré e Umberto Eco.
Argumenta-se que TRÓPICO constitui uma narrativa híbrida e
de intervenção, cuja principal singularidade reside na tentativa de conciliar
jornalismo, política, investigação, artes marciais, pensamento oriental e
questão amazônica. O ensaio sustenta que a obra pode ser compreendida como um
thriller geopolítico de matriz amazônica, no qual a busca pela verdade se
converte em metáfora da luta pelo controle da narrativa sobre o Brasil e seu
lugar no mundo.
1. Introdução
A literatura brasileira contemporânea tem produzido, nas
últimas décadas, diferentes formas de representação da crise política,
institucional e social do país. Entre romances, contos, narrativas policiais e
ficções distópicas, observa-se uma crescente aproximação entre literatura e
geopolítica, sobretudo quando escritores procuram interpretar o Brasil não
apenas como espaço nacional, mas como território inserido em disputas
internacionais de poder.
É nesse horizonte que se insere TRÓPICO, de Ray Cunha. O
texto apresenta uma estrutura narrativa híbrida, na qual o assassinato de uma
jornalista desencadeia uma investigação que progressivamente se amplia até
alcançar a política brasileira, as estruturas clandestinas de poder, a
espionagem, a pandemia de Covid-19, as disputas geopolíticas e uma
interpretação espiritual da existência humana.
A trajetória do protagonista, Lucas Miguel Benítez Loyola,
constitui o eixo de articulação dessas dimensões. Jornalista, ex-estudante de
Medicina, praticante de kendo e discípulo de uma tradição filosófica
influenciada pelo taoísmo e pelo zen-budismo, Lucas representa uma figura pouco
habitual na ficção brasileira: o intelectual de ação. Ele investiga, escreve,
interpreta e combate.
A narrativa parte, portanto, de uma pergunta aparentemente
policial — quem matou Clarice Melo? — para alcançar uma questão muito mais
ampla: quem controla o poder e quem controla a narrativa sobre o poder? A
partir dessa pergunta, TRÓPICO constrói uma visão do mundo contemporâneo
marcada pela suspeita, pela crise das instituições e pela existência de forças
invisíveis que atuariam nos bastidores da história.
O objetivo deste ensaio é examinar como essa construção
narrativa dialoga com diferentes tradições literárias. Não se pretende afirmar
uma filiação direta entre Ray Cunha e os autores aqui mencionados, mas
identificar afinidades, contrastes e linhas de tensão que permitam compreender
melhor a singularidade de sua proposta.
A hipótese central é que TRÓPICO deve ser lido como uma
narrativa situada na interseção entre quatro grandes tradições: a tradição
brasileira da crítica social; o conto policial e urbano; a literatura
internacional de espionagem e conspiração; e a ficção amazônica de caráter
geopolítico.
2. A literatura como interpretação do Brasil
Uma das características mais fortes da tradição literária
brasileira é a utilização da ficção como instrumento de interpretação da
realidade nacional. Desde o século XIX, a literatura brasileira frequentemente
ultrapassa a representação individual para investigar estruturas sociais,
políticas e culturais.
Em Machado de Assis, a ironia e a análise psicológica
revelam as contradições profundas da sociedade brasileira. O poder raramente
aparece apenas em sua forma institucional; manifesta-se também nas relações
pessoais, no interesse, na vaidade e na manipulação. TRÓPICO opera de maneira diferente, mas compartilha essa
preocupação com as estruturas invisíveis do poder.
O que em Machado aparece muitas vezes sob a forma da ironia
e da ambiguidade, em Ray Cunha assume a forma do thriller. O poder deixa de ser
apenas uma rede social e transforma-se em conspiração. A investigação literária
também muda de natureza. Machado frequentemente revela a sociedade por meio da
observação microscópica do indivíduo. Ray Cunha procura revelá-la por meio da
investigação macroscópica da política.
Em ambos, contudo, existe uma questão comum: o que realmente
governa a sociedade? A diferença está no método. Machado desconfia das
aparências por meio da ironia. Ray Cunha desconfia das aparências por meio da
investigação.
3. De Euclides da Cunha à Amazônia geopolítica
A aproximação com Euclides da Cunha é particularmente
significativa quando se considera a posição da Amazônia. Em À Margem da
História, Euclides percebe a região amazônica como um território cuja
importância ultrapassa sua representação convencional. A Amazônia surge como
espaço de contradições, abandono, exploração e potencial histórico.
Há, em Ray Cunha, uma operação semelhante de deslocamento. A
Amazônia não é apresentada como cenário periférico. É uma questão central. A
diferença fundamental está no contexto histórico. Euclides escreve no início do
século XX, quando a Amazônia era frequentemente representada como fronteira
desconhecida e espaço de exploração econômica. Ray Cunha escreve no século XXI,
quando a Amazônia se tornou um dos principais centros das discussões sobre
soberania, recursos naturais, mudanças climáticas e equilíbrio planetário.
A questão amazônica, portanto, muda de escala. Em TRÓPICO,
ela deixa de ser apenas nacional. Torna-se global. O próprio título pode ser
interpretado como uma síntese dessa transformação. O trópico deixa de ser
margem e torna-se centro. Essa perspectiva aproxima a ficção de Ray Cunha de
uma concepção geopolítica segundo a qual o futuro do Brasil está intimamente
ligado ao futuro da Amazônia.
4. Graciliano Ramos e a dimensão ética
A relação com Graciliano Ramos é menos temática do que
ética. Em Graciliano, especialmente em Vidas Secas e São Bernardo,
existe uma literatura profundamente preocupada com o poder e suas consequências
sobre o indivíduo. A linguagem tende à contenção. A narrativa evita o excesso. O
personagem é frequentemente esmagado por estruturas que não controla.
Em TRÓPICO, a situação é quase inversa. Lucas não é esmagado
pelo sistema. Ele enfrenta o sistema. A contenção de Graciliano dá lugar à
ação. Mas existe uma afinidade fundamental: a convicção de que a literatura
deve revelar as estruturas de poder que condicionam a existência humana.
A diferença está na resposta. Graciliano enfatiza
frequentemente a vulnerabilidade. Ray Cunha enfatiza a resistência. Lucas
Loyola é, nesse sentido, um personagem de resistência.
5. Guimarães Rosa e a dimensão metafísica
A aproximação com Guimarães Rosa ocorre em outro nível. Em Grande
Sertão: Veredas, o espaço regional ultrapassa sua dimensão geográfica e se
transforma em espaço metafísico. O sertão é simultaneamente território e
condição existencial. Algo semelhante ocorre, em escala diferente, com a
Amazônia na obra de Ray Cunha. A região não é apenas lugar físico. É horizonte
simbólico.
Em TRÓPICO, a Amazônia participa de uma geografia maior, na
qual o Brasil aparece como espaço de passagem entre diferentes mundos. Essa
dimensão é reforçada pela presença do pensamento oriental e da espiritualidade.
O protagonista vive simultaneamente em dois planos: o plano concreto da
política; e o plano metafísico da existência. A morte, nesse contexto, deixa de
ser simplesmente o fim biológico. Torna-se passagem.
Essa perspectiva explica a serenidade de Lucas diante do
confronto final. O personagem não teme a morte porque já a incorporou à sua
visão de mundo. É possível identificar, aqui, uma afinidade estrutural com a
literatura rosiana: a realidade exterior é atravessada por uma dimensão
invisível. A diferença está no espaço. Em Rosa, o sertão. Em Ray Cunha, o
trópico amazônico.
6. Rubem Fonseca e a violência urbana
A relação com Rubem Fonseca é especialmente produtiva quando
se considera a presença da violência. A ficção de Rubem Fonseca renovou a
narrativa policial brasileira ao introduzir uma linguagem marcada pela
brutalidade urbana, pelo crime, pelo erotismo, pela corrupção e pela dissolução
das fronteiras entre legalidade e ilegalidade. TRÓPICO compartilha com essa
tradição, a compreensão de que o crime não é fenômeno isolado. A violência
individual pode revelar estruturas maiores.
A morte de Clarice é, nesse sentido, um acontecimento
político. O cadáver não é apenas evidência de um crime. É mensagem. É
intimidação. É tentativa de silenciamento. A diferença é que Ray Cunha desloca
a violência urbana de Fonseca para uma escala geopolítica. O crime deixa de ser
apenas expressão da metrópole. Torna-se instrumento de guerra política. O
assassino não atua apenas por interesse individual. Atua dentro de uma
estrutura. A violência, portanto, transforma-se em mecanismo de poder.
7. John le Carré e a literatura de espionagem
Se a tradição brasileira fornece a TRÓPICO instrumentos para
pensar o país, a literatura internacional de espionagem oferece sua arquitetura
narrativa. É nesse ponto que a comparação com John le Carré se torna
inevitável. Em le Carré, a espionagem raramente é apresentada como aventura
simples. O mundo é formado por redes de informação, agentes duplos, manipulação
e interesses ocultos. O indivíduo frequentemente descobre que não possui
controle sobre a totalidade dos acontecimentos.
Em TRÓPICO, existe também uma estrutura subterrânea. A
diferença fundamental é que Ray Cunha tende a organizar o universo narrativo de
forma mais polarizada. Le Carré trabalha intensamente com a zona cinzenta. Ray
Cunha trabalha com a oposição. De um lado, o protagonista e aqueles que
procuram revelar a verdade. De outro, os agentes que procuram ocultá-la.
Essa diferença não diminui a importância da comparação. Ao
contrário. Ela evidencia que TRÓPICO pertence a uma vertente específica do
thriller político: aquela em que a investigação é também uma forma de
resistência. O jornalista ocupa o lugar que, em outras narrativas, seria
ocupado pelo espião. Sua arma principal é a informação. Seu inimigo principal é
o segredo.
8. Umberto Eco e a imaginação conspiratória
A comparação com Umberto Eco permite compreender outro
aspecto central da narrativa: a relação entre conhecimento, interpretação e
conspiração. Em O Pêndulo de Foucault, Eco constrói uma sofisticada
reflexão sobre a necessidade humana de encontrar conexões ocultas entre
acontecimentos.
A conspiração, nessa perspectiva, não é apenas uma realidade
externa. É também uma forma de organizar o mundo. O indivíduo diante do caos
procura padrões. Procura relações. Procura causas. Procura um centro invisível
capaz de explicar acontecimentos aparentemente desconectados.
TRÓPICO participa dessa mesma problemática. A pandemia, a
política, o assassinato de Clarice e a atuação de estruturas clandestinas são
articulados em uma narrativa de causalidade ampliada. O texto apresenta ao
leitor uma hipótese de mundo. Essa hipótese pode ser aceita ou contestada, mas
sua função literária é clara: transformar a fragmentação do presente em uma
estrutura inteligível. Nesse aspecto, o conto pode ser lido como uma narrativa
sobre a necessidade humana de interpretar o caos.
A diferença em relação a Eco é novamente importante. Eco
tende a desconstruir a lógica conspiratória. Ray Cunha utiliza a conspiração
como estrutura narrativa afirmativa. O primeiro pergunta: e se estivermos vendo
conexões onde elas não existem? O segundo pergunta: e se as conexões existirem
e ninguém quiser reconhecê-las? Entre essas duas possibilidades encontra-se uma
das tensões intelectuais mais interessantes de TRÓPICO.
9. O jornalista como herói contemporâneo
Lucas Loyola representa uma transformação importante do
arquétipo heroico. Ele não é militar. Não é policial. Não é agente secreto. É
jornalista. Sua primeira arma é a informação. Sua segunda é a investigação. A
terceira é a disciplina. Somente quando todas as outras possibilidades se
esgotam surge o combate físico. O personagem encarna, assim, uma figura
particularmente adequada ao século XXI: o jornalista-investigador. Em um mundo
no qual o poder pode ser exercido por meio do controle da informação, o
jornalismo torna-se uma forma de resistência.
Clarice morre porque descobriu. Lucas sobrevive porque
consegue compreender o que ela descobriu. A informação torna-se, portanto,
questão de sobrevivência. Esse aspecto aproxima TRÓPICO de uma tradição
internacional de narrativas em que o protagonista é um cidadão comum que
descobre uma estrutura extraordinária de poder.
Mas Ray Cunha acrescenta uma característica própria. Lucas
não é um homem comum. Sua formação oriental faz dele um personagem preparado
para o confronto. Ele une: informação + disciplina + espiritualidade + ação. Essa
combinação define seu heroísmo.
10. O duelo final como resolução filosófica
A cena final é, provavelmente, o momento mais literariamente
concentrado do conto. O confronto entre Lucas e Noblat resolve uma tensão que
começou décadas antes. Os dois eram amigos. Treinaram juntos. Competiram
juntos. Seguiram profissões semelhantes. Mas escolheram caminhos morais
diferentes. Noblat representa a técnica dominada pelo ego. Lucas representa a
técnica submetida à consciência. A vitória de Lucas, portanto, não é apenas
física. É filosófica. Ele vence porque não teme morrer. E não teme morrer
porque, para ele, a matéria não constitui a totalidade da existência.
Essa concepção dá ao combate uma dimensão metafísica. O
golpe final é rápido porque a narrativa sugere que o verdadeiro combate já
havia sido decidido interiormente. O corpo de Noblat cai. Lucas permanece. Mas
o que realmente venceu foi uma concepção de mundo. A morte do antagonista não
significa apenas a eliminação de um criminoso. Significa a derrota simbólica da
vaidade.
11. A pandemia como ruptura histórica
A inserção da pandemia de Covid-19 transforma TRÓPICO em uma
narrativa profundamente marcada pelo presente histórico. O conto captura um
momento em que as certezas políticas, científicas e institucionais foram
submetidas a uma pressão inédita. O confinamento cria uma atmosfera de
suspensão. A cidade está paralisada. As pessoas estão isoladas. O espaço
público se torna estranho. É precisamente nesse ambiente que a conspiração
floresce. O vazio exterior corresponde ao excesso de hipóteses interiores. O
mundo está silencioso, mas a mente dos personagens trabalha incessantemente. A
pandemia torna-se, assim, metáfora de um mundo em que a realidade parece ter
perdido sua estabilidade.
É nesse sentido que TRÓPICO participa de uma literatura
emergente da pandemia: uma literatura do isolamento, da suspeita e da ruptura
histórica.
12. O excesso narrativo como estética do mundo contemporâneo
Uma crítica possível ao conto diz respeito ao excesso de
informação. A narrativa acumula biografias, datas, nomes, lugares,
acontecimentos históricos e referências políticas. Do ponto de vista de uma
estética minimalista, essa característica poderia ser vista como problema. Entretanto,
outra leitura é possível. O excesso pode ser interpretado como representação
formal de um mundo saturado de informação.
O século XXI é o século do excesso. Excesso de dados. Excesso
de notícias. Excesso de teorias. Excesso de versões. Excesso de interpretações.
TRÓPICO reproduz essa condição. Sua forma é, em certo sentido, uma estética da
saturação. O leitor recebe mais informações do que consegue imediatamente
organizar. É necessário separar o essencial do secundário. A narrativa,
portanto, reproduz a própria experiência contemporânea. Nesse sentido, o
excesso não é apenas um problema técnico. É também um sintoma histórico.
13. O trópico como centro do mundo
A dimensão mais original de TRÓPICO talvez esteja na
transformação do espaço tropical em centro da narrativa geopolítica. Historicamente,
a literatura brasileira frequentemente foi produzida a partir de uma posição
periférica diante dos grandes centros culturais. Ray Cunha realiza uma operação
simbólica inversa. O centro do mundo desloca-se para o trópico. O Brasil deixa
de ser espectador. A Amazônia deixa de ser margem. O trópico torna-se
território estratégico. Essa perspectiva constitui uma das contribuições mais
importantes do conto para a literatura amazônica contemporânea.
Em vez de representar a Amazônia como objeto de observação
externa, Ray Cunha procura construir uma narrativa na qual a própria região
participa da interpretação do planeta. É uma mudança de posição. Não se trata
mais de perguntar: como o mundo vê a Amazônia? Mas: como a Amazônia pode
interpretar o mundo? Essa inversão é fundamental.
14. Considerações finais
TRÓPICO, de Ray Cunha, é uma narrativa que desafia
classificações simples. É conto, mas possui dimensões de novela. É policial,
mas ultrapassa o crime. É thriller, mas incorpora filosofia. É ficção política,
mas procura interpretar a história. É narrativa amazônica, mas projeta a região
no cenário planetário. É literatura de ação, mas possui uma dimensão
espiritual. Sua principal singularidade está justamente nessa capacidade de
cruzar fronteiras.
Em diálogo comparativo, pode-se dizer que Ray Cunha
compartilha com Machado de Assis a preocupação com as estruturas invisíveis do
poder; com Euclides da Cunha, a percepção de que o território brasileiro contém
questões históricas de dimensão nacional; com Graciliano Ramos, a preocupação
ética com as estruturas que condicionam o indivíduo; com Guimarães Rosa, a
transformação do espaço regional em território metafísico; com Rubem Fonseca, a
exploração da violência e do crime como reveladores da sociedade; com John le
Carré, a arquitetura da informação secreta e da espionagem; e com Umberto Eco,
a problemática da interpretação e da conspiração.
Mas TRÓPICO não se reduz a nenhuma dessas influências ou
aproximações. Sua identidade nasce precisamente da combinação delas. O
resultado é uma narrativa que pode ser definida como thriller geopolítico de
matriz amazônica, construído a partir da figura de um jornalista que transforma
a busca pela verdade em combate.
A obra de Ray Cunha, nesse sentido, propõe uma imagem
particular do escritor contemporâneo: não o observador distante da história,
mas aquele que entra no campo de batalha das ideias. Em TRÓPICO, a literatura
torna-se investigação. A investigação torna-se denúncia. A denúncia
transforma-se em resistência. E a resistência conduz ao confronto.
O conto também apresenta uma concepção particular da
Amazônia. Em vez de espaço periférico ou simples paisagem, a região surge como
território de importância planetária. O trópico deixa de ser margem e passa a
ocupar o centro da imaginação geopolítica. Essa mudança de perspectiva
constitui talvez a contribuição mais significativa de Ray Cunha.
Se a literatura brasileira tradicionalmente buscou
compreender o país a partir do sertão, da cidade, da casa, da família ou da
formação histórica, TRÓPICO procura compreendê-lo a partir de sua posição no
mundo. É uma literatura do Brasil observado de dentro da Amazônia, mas
projetado sobre o planeta. Por isso, o conto pode ser lido como uma espécie de
manifesto ficcional de uma nova consciência geopolítica amazônica.
Sua pergunta fundamental não é apenas quem matou Clarice
Melo. É uma pergunta muito maior: quem decide o futuro do Brasil — e quem tem o
direito de narrá-lo? A resposta de Ray Cunha é literária e política. O futuro,
para ele, não deve ser narrado exclusivamente pelos centros tradicionais de
poder. Pode ser narrado também a partir do trópico. A partir do Brasil. A
partir da Amazônia. E, sobretudo, a partir daqueles que se recusam a aceitar o
silêncio como resposta.
TRÓPICO
LUCAS MIGUEL BENÍTEZ LOYOLA. Lucas, em homenagem ao pai;
Miguel, ao avô paterno; Benítez, sobrenome paterno da sua mãe; e Loyola,
sobrenome paterno do seu pai, paraense de Belém, e que desde que fora fazer
faculdade no Rio sempre morou em Copacabana, Rio de Janeiro. Lucas pai era
neurocirurgião. Conheceu sua esposa, a bela psicóloga catalã Andreza Isabel
Navarro Benítez, durante encontro internacional de psiquiatria e psicologia no
Copacabana Palace. Casaram-se e viajaram imediatamente para a cidade natal de
Isabel, Barcelona, a imperatriz do Mediterrâneo, onde sua família descendia de
uma linhagem de mestres em Medicina Tradicional Chinesa. Não deu outra, Lucas
pai conheceu o Instituto Superior de Medicinas Tradicionais (Ismet), onde se
especializou em medicina chinesa. Brilhante, aprendeu mandarim com facilidade
espantosa e mergulhou nos clássicos da milenar ciência, bem como no taoísmo e
no zen-budismo, e procurou transmitir ao filho a essência de tudo o que
aprendera.
Lucas nasceu em 20 de julho de
1969, ao lado do Copacabana Palace Hotel, no apartamento da família, no sétimo
andar do Edifício Chopin. Nasceu no mesmo momento em que os astronautas Neil
Armstrong e Buzz Aldrin alunissavam o módulo lunar Eagle. Dezessete anos
depois, em 1986, o médium Chico Xavier conversava com o escritor e editor
Geraldo Lemos Neto e a médica Marlene Nobre quando falou a respeito do que
Geraldo Lemos chamou de Data-Limite, moratória de 50 anos (20 de julho de 1969
a 20 de julho de 2019) que o Comando Planetário do Sol dava para a Humanidade.
Se nesse intervalo não fosse deflagrada a Terceira Guerra Mundial, a Humanidade
entraria em uma era de amor, paz, luz e prosperidade. Em caso de uma guerra
atômica, poucas regiões do planeta escapariam do armagedom, uma série de
cataclismos que se sucederiam a explosões nucleares. O Brasil seria uma região
abençoada, onde se abrigaria a maior parte da Humanidade, especialmente os
habitantes do Hemisfério Norte, que seria arrasado. Assim, pensou Lucas,
considerando-se que a ameaça de uma guerra nuclear no intervalo da Data Limite
já é passado, a era da luz já começou, e os avatares que trarão a boa-nova,
seres de civilizações muito mais avançadas do que a terráquea, começaram, aos
poucos, a se apresentar para a raça humana.
Lucas tinha dois grandes amigos
de infância: Luiz Cabral Maia Júnior e Octávio de Oliveira Noblat. Ingressaram
juntos na Universidade Federal do Rio de Janeiro; Luiz Cabral Júnior no curso
de Direito, Octávio de Oliveira Noblat no de Jornalismo e Lucas no de Medicina,
o qual abandonou um ano depois, fez novo vestibular e entrou no curso de
Jornalismo, formando-se um ano depois de Noblat, como Octávio era conhecido. A
mudança se deu pelo seguinte: ainda no primeiro ano de Medicina, mas
conversando com alunos do último ano e com residentes, Lucas observou,
consternado, que o aprendizado da ciência médica requeria experiências e
treinamento com cobaias, e Lucas percebeu que as cobaias sofriam com os
protocolos a que eram submetidas. Observou também que, embora supervisionados
pelos professores, alunos sem o menor talento para procedimentos médicos
submetiam pacientes carentes a sofrimento e a perigo inclusive de vir a óbito.
Ao fazer essa investigação, que surgira de conversas com colegas seus, a coisa,
para ele, ficou insustentável. Então se dedicou, durante um mês, a coletar
dados e provas sobre o que chamou de corredor da morte, após o que escreveu
longo artigo sobre o assunto e o enviou para o jornal O Globo, que o publicou. Foi aí que descobriu que se não tinha
talento para a Medicina, tinha-o para o Jornalismo.
Noblat vinha de uma família que
praticava tai-chi chuan, rompeu com essa tradição e, ainda rapazola, começou a
treinar kendo, e convenceu Lucas e Luiz Cabral a treinarem também. Um mês
depois, Luiz Cabral desistiu; quanto a Lucas, sentiu que tinha habilidades
insuspeitas com a katana. Noblat se dedicava de corpo e alma ao kendo, mas
Lucas descobriu que ele cometia um pecado capital: a vaidade. Noblat treinava
muito, e Lucas descobriu que Noblat treinava inclusive secretamente apenas para
exibir suas habilidades nos embates com Lucas.
Foi nessa época, aos 18 anos, que
houve uma reviravolta na vida de Lucas. Ele soube que havia um mosteiro Shaolin
em Limeira/SP, e, nas férias de fim de ano, viajou para lá.
O famoso Templo Shaolin foi
construído em 495, pelo imperador Xiaowen, da dinastia Wei do Norte (386-557),
para abrigar o mestre indiano Batuo Buddhabhadra, primeiro abade do mosteiro.
Em 520, o mosteiro abrigou o monge indiano Bodhidharma, também conhecido como
Ta Mo, em chinês, e Daruma Taishi, em japonês, vigésimo oitavo patriarca budista
e primeiro patriarca zen-budista, que criou o estilo chan (zen) do budismo e o
estilo shaolin de kung fu. Para fortalecer os monges, fisicamente debilitados
com tanta meditação, Bodidarma impôs um exaustivo treinamento físico, o que se
tornaria a arte marcial do kung fu shaolin, além de exercícios de paciência e
humildade, e técnicas de meditação, que os levariam a desenvolver o verdadeiro
poder: o da mente. Em 1733, os Manchus, que haviam invadido a China, destruíram
o templo. Mas sobreviveram cinco mestres e quinze discípulos, que se espalharam
e começaram a treinar secretamente alguns eleitos. Nesse meio tempo, o mosteiro
foi destruído e reconstruído várias vezes, mas funciona até hoje, embora se
constitua em uma pálida lembrança do que foi. Em 2000, o abade Shi Yongxin
autorizou a abertura de filiais do mosteiro fora da China.
Durante dois meses, todos os
dias, Lucas se dedicou a um treinamento até o desmaio para desenvolver sua
resistência e habilidade, a ponto de ser capaz de atingir com a espada uma
abelha em pleno voo. De volta à Copacabana, viu, logo no primeiro encontro com
Noblat, que ele se tornava cada vez mais fanfarrão, gabando-se da sua evolução
no kendo e no tiro ao alvo, no qual, realmente, demonstrava rapidez e pontaria
inacreditáveis.
Durante a década de 1990, Lucas e
Noblat estagiaram em O Globo e foram
contratados pelo jornal, e depois pela revista Veja Rio. Quanto a Luiz Cabral Júnior, foi efetivado em uma banca
especializada na defesa de políticos. Seu pai, o clínico geral Luiz Cabral
Maia, velho amigo de Lucas pai, se elegeu senador, em 1998; no ano seguinte,
Luiz Cabral Júnior seguiu para Brasília, para assumir a chefia de gabinete do
pai, e Noblat, a assessoria de imprensa do senador. Lucas, que tinha então 29
anos, foi apresentado, durante première no Copacabana Palace, à deslumbrante
atriz acriana de origem holandesa Brigitte Van Dijk Nassau. Estrela dos filmes Filhinha do papai e O que fazer para prender minha esposa?, do cineasta carioca Arlindo
Ipanema, ela agora brilhava no seu novo filme: A garotinha cresce, da cineasta também carioca Luciana Magalhães.
Dormiram juntos, naquela noite, no próprio Copacabana, e, dois dias depois,
embarcaram para Belém, onde tomaram um navio para Manaus, e, de lá, foram de
avião para Rio Branco. Passaram dois meses na Amazônia, ao fim do que
retornaram para o Rio de Janeiro e se casaram. Um ano depois, nasceu Andreza
Isabel Nassau Loyola. E foi aí que a coisa desandou. Brigitte teve um caso com
Arlindo Ipanema e engravidou dele. Lucas pediu divórcio e se separaram, e ficou
com a guarda de Andreza. No início de 2000, Brigitte entrou em trabalho de
parto para ter o bebê de Arlindo Ipanema quando a tragédia aconteceu: ela e a
criança morreram por complicações durante o parto. O bebê morreu estrangulado
pelo próprio cordão umbilical e ela, de hemorragia. Assim, a pequena Andreza
foi criada, desde bebê, pela avó. Mas Lucas se tornou amicíssimo de um tio de
Brigitte, Maurício Nassau, especializado em informática nos Estados Unidos, com
experiência no Vale do Silício e no setor de inteligência do governo federal
brasileiro.
Foi também nessa época que Isabel
Navarro Benítez descobriu que seu marido tinha uma amante e resolveu retornar
de vez para Barcelona, levando a neta. Assim que partiu, a amante de Lucas pai
morreu atropelada. Foi quando o senador Luiz Cabral Maia o convidou para
assumir a direção do Hospital Juscelino Kubitscheck, que adquirira após um ano
de mandato, e, a Lucas filho, ofereceu o cargo de assessor de imprensa,
trabalhando com seus dois amigos de infância: Luiz Cabral filho e Noblat.
Em 2006, Luiz Cabral pai se
reelegeu, mas Lucas caiu fora do seu gabinete; o senador estava atolado no
Mensalão, monumental esquema de compra de votos de parlamentares no Congresso
Nacional. Nesse meio tempo, Lucas começou a trabalhar no Correio Braziliense e, depois, na Trópico – Revista Geopolítica, editada por uma das jornalistas mais
brilhantes de Brasília: Natacha Fabre Tahan, que fazia mestrado em política
internacional nos Estados Unidos. Quando terminou a pós-graduação, retornou
para Brasília. Era filha do pioneiro e magnata da construção civil, o
judeu-russo Vladimir Tahan, e da francesa Catherine Fabre, que vieram para
Brasília a convite de Juscelino Kubitscheck e fizeram fortuna. Ao retornar à
cidade, em 2004, casou-se com o pintor gaúcho radicado em Brasília, André
Bellinazo, e logo depois fundou a Trópico
– Revista Geopolítica. Lucas a conhecera no gabinete do senador Luiz Cabral
Maia. Ela ia lá atrás de informações e costumavam almoçar juntos. Logo que
Lucas saiu da assessoria de imprensa e foi para o jornal Correio Braziliense, como redator, escreveu uma série de artigos
geopolíticos sobre o Brasil, especialmente sobre a Amazônia, por quem era
apaixonado, desde que fora conhecer a família do seu pai, espalhada em Belém e
Manaus, e a de Brigitte, em Rio Branco. Em 2011, aconteceram duas coisas
importantes na vida de Lucas: seu pai faleceu e Lucas se sentiu miseravelmente
só, pensando em passar um tempo em Barcelona, mas, poucos dias depois da morte
de Lucas pai, Natacha Tahan o convidou para assumir a subeditoria da revista. Ele
aceitou. Um dia, naquele ano, ficaram enrolando até tarde na revista, até que
ela resolveu tomar a iniciativa. Foram para o apartamento de Lucas e passaram o
restante da noite trabalhando, mas em outra ordem de atividade. Entre Natacha e
seu marido, André Bellinazo, não havia segredos, nem tabus. Assim, Natacha
comunicou a Lucas que André Bellinazo achou natural que ela tivesse um amante,
que achava Lucas um cara bacana e até deu a entender que se Natacha quisesse
ela poderia ir para a cama com os dois, o que Lucas descartou imediatamente.
Quanto ao senador Luiz Cabral
Maia, tornou-se, em 2019, presidente da Mobilização Nacional (Mona), partido ao
qual Lucas chamava de Magos Negros.
Assim, o apartamento em
Copacabana fora vendido e comprado outro no Sudoeste, bairro no Plano Piloto de
Brasília, na Quadra 102, Bloco H, Edifício Le Triumph, onde Lucas morava desde
março de 2000, quando o prédio foi inaugurado, e para o qual se mudara
juntamente com seu pai. Gostava do bairro, Setor de Habitações Coletivas
Sudoeste (SHCSW), ou, simplesmente, Sudoeste, criado em 10 de julho de 1989,
quando o urbanista Lúcio Costa assinou o Projeto Brasília Revisitada. Em 1993,
começaram a surgir os primeiros prédios residenciais e comerciais e os
primeiros moradores se mudaram para lá. Logo no início, o bairro era conhecido
como Sudalama, pois quando chovia um rio de lama escorria do Sudoeste para o
Parque da Cidade Sarah Kubitschek, ao sul, cobrindo a Estrada-Parque Indústrias
Gráficas (Epig), que separa o Sudoeste do Parque da Cidade, mas, pouco tempo
depois, o Sudoeste se tornou um dos metros quadrados mais caros do país.
O Le Triumph se localiza quase de
frente ao centro hípico do Parque da Cidade, cruzando-se a Epig. No outro lado
do prédio há uma pracinha. Lucas desceu e tomou a calçada entre a pracinha e o
Bloco J, Edifício Fênix, e se dirigiu a Pães e Vinhos. Era outono, início de
maio, e a ordem era só sair de casa quando absolutamente necessário, e de
máscara, por causa da pandemia de coronavírus.
Logo no início de 2019, o senador
Luiz Cabral Maia começou a bater ponto no Palácio do Planalto, levando consigo,
sempre que ia lá, uma saca de confete.
De volta ao
apartamento, enquanto degustava pão com manteiga e café com leite, Lucas
repassava a conversa que tivera com Natacha, à noite, na revista, situada no
estratégico Brasil 21, no Setor Hoteleiro Sul (SHS). A Trópico ocupava um conjunto de salas na Business Center Tower, com
vista para a Torre de TV, no Eixo Monumental.
– Observei que você vem conversando muito com
a Clarice; tem alguma coisa a ver com essa investigação?
Clarice
Melo trabalhava há um ano e meio na revista. Tinha 27 anos. Lucas instruiu-a a
colar no senador e em Noblat.
– Sim! Ela
também está perto de encontrar provas irrefutáveis do plano do senador.
Em torno
das 10 horas, Lucas foi até a cozinha e pegou uma goiaba. Depois, ligou para
seu velho amigo Maurício Nassau, tio de Brigitte, da Total Segurança. Maurício
era um gênio, um hacker talentoso. Trabalhou na Agência Brasileira de
Informações (Abin), de 1969 até dezembro de 2003, ao fim do que se desligou da
instituição. Percebera, ao longo de 2003, que mudanças profundas começaram a
ocorrer no país, e que seria mais útil, como patriota, trabalhar para a banda
boa das instituições brasileiras. Maurício tratava Lucas como a um filho.
– Maurício,
você tem que descobrir onde fica o supercomputador do senador, ainda hoje! –
disse Lucas, em um tom meio desesperado.
– Vou
descobrir.
Assim que
Lucas desligou o celular o aparelho tocou novamente. Atendeu. Ficou pálido.
Desligou o aparelho. Trocou de roupa às pressas e desceu do apartamento, tomou
pelo caminho, ao lado do Instituto Chico Mendes de Conservação da
Biodiversidade, entre as Quadras 103 e 104, e saiu na Epig, cruzou-a e entrou
no Parque da Cidade, tomou a calçada atrás do restaurante Gibão Carne de Sol
rumo ao Bosque dos Pinheiros, entre o Gibão e o Alpinus Choperia e Galeteria. A
certa altura viu, ainda longe, o movimento dos policiais. Quando se aproximou,
o delegado Baruch, titular da Terceira DP, do Cruzeiro Velho, se aproximou
dele. Lucas viu que também o delegado Larroyed, da Coordenação de Repressão a
Homicídios e de Proteção à Pessoa (CHPP), estava lá, esperando-o. Conhecia os
dois, pois acompanhara o sequestro e assassinato de uma menor no Sudoeste,
crime solucionado pelos dois delegados. O
local fora isolado por fitas, onde algumas pessoas trabalhavam em torno de um
corpo e de uma cabeça, a cerca de três metros do corpo. Os olhos estavam
arregalados e pareciam olhar para todos. Era a cabeça da repórter da Trópico: Clarice Melo.
– Ela foi
degolada com uma katana – Lucas balbuciou.
– Katana? –
perguntaram, simultaneamente, os dois delegados.
– É uma
espada japonesa – Lucas respondeu.
Naquele
mesmo dia, devia ser pouco mais de 16 horas, a temperatura no gabinete do
delegado Larroyed estava por volta dos 21 graus. A Coordenação de Repressão a
Homicídios e de Proteção à Pessoa fica na sede da Polícia Civil do Distrito
Federal, localizada distante cerca de 500 metros do local onde foi encontrado o
corpo de Clarice, no Parque da Cidade.
– Noblat
tem um álibi perfeito: passou a noite no gabinete do senador Cabral, e a câmera
do corredor mostra que a Clarice deixou o gabinete às 21 horas – disse o
delegado.
– O senhor
precisa olhar de novo a fita, para ver quem saiu do gabinete depois de Clarice,
e, a partir daí, quem entrou. Precisamos ver se a mesma pessoa saiu e entrou
das 21 horas até às 10 horas de hoje – Lucas observou. – E também precisamos
ver as fitas do prédio onde Noblat mora, na 302 do Sudoeste. Essa, eu sei como
conseguir. Trata-se da empresa de um grande amigo meu.
– Sim,
vamos fazer isso! – Larroyed exclamou, sem discutir os métodos de Lucas. – Ainda
hoje terei uma cópia da fita. O chefe da segurança do Senado é meu amigo de
infância e fizemos faculdade juntos.
Lucas deixou a Coordenação de
Repressão a Homicídios e de Proteção à Pessoa em torno das 18 horas. Havia ido
para lá de pés. Cruzou a Epig na altura da Quadra 105 do Sudoeste e se dirigiu
para a Pães e Vinhos, na 103. Comprou pães, queijo e salgadinhos. Ao sair, deu
a volta por trás do bloco e pegou a calçada que liga as quadras. Quando já
estava atravessando a rua que separa as Quadras 103 da 102 olhou rapidamente
para trás e viu um vulto parado atrás da Pães e Vinhos. Chegou ao calçadão da
103 e tomou por uma entrada paralela à calçada de pedestre, acocorou-se atrás
de uma caçamba de entulho e aguardou. Ficou ali durante mais ou menos dois minutos,
mas nada aconteceu. Saiu dali e esquadrinhou a paisagem, mas não viu nada
suspeito. Então retornou, vagarosamente, para casa. Clarice, a pobre Clarice,
descobrira alguma coisa. Os comunistas, brasileiros e internacionais, os
bolivarianos, o pessoal do clube do Foro de São Paulo, as máfias, os corruptos,
dos mais graduados à raia miúda, tinham recebido um tiro na artéria femoral;
por enquanto, estavam estancando o sangue com torniquete, mas cedo ou tarde
teriam que dar um jeito definitivo nisso. Estavam perdendo bilhões de reais por
dia, por conta da eleição de Jair Messias Bolsonaro à Presidência da República.
Ele foi radical: cortou pela raiz qualquer fisiologismo, demitiu, e continuava
a demitir, cabides inteiros de emprego, cortou as verbas bilionárias desviadas
para a imprensa amestrada e respondia aos repórteres de plantão e aos
entrevistadores com a franqueza de um santo. Quando viram que ele ganharia as
eleições, mesmo fazendo sua campanha com pouco dinheiro e sem o menor apoio da
grande mídia, despacharam um assassino para acabar definitivamente com aquilo,
mas Bolsonaro sobreviveu, e ficou ainda mais forte, pois soube, então, que
estava jogando com assassinos. Desde que Bolsonaro assumiu o comando do
Executivo que a guerra de terra arrasada começou. Os comunistas se armaram até
os dentes, e continuariam se armando, e só parariam de atirar quando vissem o
capitão exangue, e o explodiriam, ou fariam picadinho dele, ou o incinerariam,
ou o jogariam no mar, amarrado e com uma bigorna atada aos pés, ou dariam um
jeito de prendê-lo, humilhá-lo e matá-lo aos poucos, fazendo-o comer os
próprios bagos. Os comunistas eram capazes de tudo por dinheiro, Lucas sabia
disso; eram capazes de matar uma repórter da banda boa da imprensa como quem
chuta um cachorro vira-lata que estivesse olhando muito de perto o prato de
comida de um sujeito que odeia cães. E o próximo vira-lata poderia ser ele
mesmo. Clarice teria feito uma descoberta muito importante. Em algum lugar, um
computador armazenaria um planejamento completo de como desestabilizar o
governo Bolsonaro, sua defenestração, seu ostracismo, sua humilhação, sua
pulverização, mantendo-o vivo só para atirá-lo às hienas. Um jogo totalmente
bruto.
A pandemia começou na cidade de
Wuhan, no laboratório de pesquisa de vírus mais avançado da China, vinculado ao
programa secreto chinês de armas biológicas. Aliás, tudo na China é secreto.
Com 9,6 milhões de quilômetros quadrados e mais de 1,5 bilhão de habitantes,
seu PIB é de 14 trilhões de dólares, atrás somente do PIB dos Estados Unidos,
de 21 trilhões de dólares. E é uma potência nuclear. Um de janeiro de 1912
estabelece o fim da China imperial e o início da República da China. Em 1949,
Mao Tsé-Tung funda a República Popular da China, em guerra civil que ceifou
dezenas de milhões de chineses, e, já instalada a república popular, matou de
fome mais de meia centena de milhões de civis. Em 1978, o então líder da China,
Deng Xiaoping, abre uma brecha para a economia de mercado, mas o estado
continua totalitário. Jornalistas e pesquisadores dão conta de que a poluição
na China mata milhões de pessoas por ano, inclusive nos corredores da morte,
onde a roleta russa entre dissidentes do Partido Comunista ou reles criminosos
funciona em escala industrial. Esses condenados seriam desmantelados e seus
órgãos vendidos no mercado negro. A internet é vigiada, a imprensa é castrada,
e fazer filhos e professar uma religião ocidental não é tão simples assim. Os
chineses comem basicamente arroz, e qualquer animal, incluindo peçonhentos,
ratos e morcegos, cães e gatos. Uma feira chinesa é aterrorizante para um ocidental.
É comum encontrar-se nelas o principal pet europeu-americano, o cachorro,
aguardando, com olhar triste, em uma jaula, ser abatido ali mesmo. Grandes
pandemias começaram na China, como a pior delas, no século 14, a peste
bubônica, causada não por vírus, mas por uma bactéria, transmitida ao ser
humano por pulga de rato e outros roedores. Em 1343, a peste chegou à Europa
pela rota da seda. Estima-se que matou, então, 15% da população mundial, pelo
menos 75 milhões de pessoas.
Teriam, os comunistas, criado um
vírus capaz de instalar a Nova Ordem Mundial, totalitária? O coronavírus estava
matando no mundo inteiro e derrubando a economia mundial, principalmente a dos
Estados Unidos. Estaria, então, esse vírus, sendo usado como arma biológica? Se
assim fosse, seria uma terceira guerra mundial? Os comunistas, e outras máfias,
partindo para o confronte final contra o capitalismo. Supondo-se que os
comunistas vencessem, então só a elite teria privilégios; a maioria dos humanos
serviria como escrava, inclusive sexual, e para a retirada de órgãos. Mas não
seria isso apenas uma dessas teorias delirantes da conspiração?
Contudo, Lucas nunca descartava a
questão espiritualista. Partindo do pressuposto de que os débitos de carmas
coletivos costumam ser resgatados em tragédias, as pandemias podem ser
incluídas nesses resgates, promovendo desencarnes em massa, reunindo grupos de
espíritos comprometidos com débitos semelhantes em reencarnações pregressas.
Essas calamidades despertam solidariedade e amor. Conforme O Evangelho Segundo o
Espiritismo, de Alan Kardek: “As grandes provas são quase sempre um indício
de um fim de sofrimento e de aperfeiçoamento do espírito”. E, no Livro dos Espíritos, também de Allan
Kardec, lê-se: “Se um povo não avança bastante rápido, Deus lhe provoca, de
tempo em tempos, um abalo físico ou moral que o transforma”. O espírito
reencarna onde tem vínculos de amor e de ódio, ou seja, junto aqueles com quem
tem fortes laços de amor ou de ódio, de forma que os explorados e exploradores
do Brasil colonial para cá estão entre nós, reencarnados ou não, incluindo
assassinos, ladrões, aventureiros, exploradores, malandros e vagabundos. Sempre
foi assim; a Terra é uma escola. Só o cenário muda. Os que viviam à custa do
trabalho escravo, inclusive nos dias de hoje, reencarnarão como um político
honesto? Não! Só mudamos quando aprendemos.
Eram 23
horas quando Lucas desligou o computador. Foi à cozinha, preparou um chá e se
refestelou no grande sofá da sala. “As pandemias apavoram a Humanidade desde
sempre” – pensou. Ele já sabia que pesquisadores apontam 2020 como um divisor
de águas para a Humanidade. Em 2016, os astrólogos Boris Cristoff (1925-2017)
previu uma pandemia para 2020; também a brasileira Celisa Beranger e
Henri-Joseph Gouchon (1898-1978) e Andre Barbault (1921-2019) declararam que
2020 seria crítico, com mudanças políticas e econômicas radicais em todo o
planeta. Mas, a partir de 2023, começaria um período de grande crescimento para
a Humanidade.
Seu celular
tocou; era Maurício.
– Descobri o supercomputador.
Sabe onde? No gabinete do senador. E encontrei o plano, com tudo lá, todas as
informações. Copiei tudo e já te enviei.
– Vou trabalhar na matéria, hoje,
a noite toda, e imprimir a revista amanhã, e, claro, despachar também, ainda
hoje, todo o material para meu contato na Polícia Federal.
– Ok!
Desligou. Logo a seguir Lucas
recebeu outro telefonema. Desta vez de Noblat.
Vestiu-se todo de preto, pegou a
Glock e a katana, pôs a máscara e desceu, dirigindo-se para o Parque da Cidade.
Entrou pelo portão próximo ao seu prédio e foi diretamente para o local onde o
corpo de Clarice foi encontrado. Noblat o aguardava.
– Você sabe que seu fim chegou,
não é?
– Sim, pode ser. Mas pode ser o
seu também.
– Você passou para o lugar errado
e tem que morrer, assim como a sua amiguinha, degolado também. Eu bem que
tentei ensiná-lo a manejar a katana, mas você é burro mesmo, e não aprendeu,
pelo menos o necessário para esticar um pouco mais a sua vida de traíra!
– Traíra?
– Sim, traíra! Você traiu algo
que a vida lhe deu: a boa vida da elite comunista. Fernando Henrique Cardoso
mostrou o caminho das pedras, criando o Foro de São Paulo e Lula, e o senador abriu
a porta para você, mas você jogou tudo isso fora, seu traidor!
Lucas tirou sua katana do estojo,
que parecia uma caixa.
– Ia sugerir que você começasse a
rezar, mas você não aprendeu a rezar; aprendeu a usar a katana, mas de forma
errada, degolando uma pobre moça, que tudo o que desejava era fazer seu
trabalho honestamente.
– Honestamente? Ela descobriu o
Estado paralelo que está governando o país, além do que há por trás do vírus
chinês, e que o senador é peça importante na nova ordem, idiota! Você não vê
que o mundo mudou? – disse Noblat, sacando sua katana. Ele entrara no parque de
novo de automóvel, provavelmente passando em um ponto sem vigilância e fechado
apenas com cones, devido à quarentena.
– Prefiro pensar como os
budistas, que a matéria não existe. Assim, não tenho medo da morte; não sinto
medo algum. Estou esperando.
Noblat havia se aproximado um
pouco de Lucas, posicionado para atacar. Lucas estava também posicionado, mas
inteiramente parado, pois nada se movia nele, e de olhos fechados.
“Esse imbecil está de olhos
fechados; não acredito! Não aprendeu nada do que lhe ensinei” – Noblat pensou.
A coisa teve um desfecho muito
rápido, nada cinematográfico. Lucas estava ali, concentrado; sentia como se
estivesse em um espaço sem tempo, todo o Universo vibrando como um som sem som,
e, de repente, explodiu, inesperado como um raio, e uma cabeça foi expelida do
pescoço, subiu e caiu no chão, como um coco vazio de água, e rolou para uns
cinco metros de distância do corpo, que ainda ficou dois ou três segundos em pé
e depois desmoronou. Lucas limpou a katana na roupa de Noblat, guardou-a na
caixa e voltou para casa. A quarentena estava rendendo. A noite seria curta
para o que tinha a fazer.