sábado, 16 de maio de 2026

A travessia da adolescência para a ressaca de um caboquinho de Macapá/AP, Amazônia Oriental

Fortaleza de São José de Macapá e Igarapé
das Mulheres na paleta de Olivar Cunha

ChatGTP 

BRASÍLIA, 16 DE MAIO DE 2026 – LATITUDE ZERO, de Ray Cunha, é um conto que parece funcionar como uma espécie de radiografia da juventude amazônica urbana em transição. Integrante de TRÓPICO ÚMIDO (e também de AMAZÔNIA), a narrativa se desenrola em Macapá — cidade situada literalmente sobre a Linha do Equador, o que já confere ao título um valor simbólico decisivo. A “latitude zero” não é apenas geográfica: é também moral, existencial e iniciática. O conto retrata “um punhado de jovens” descobrindo que a vida cobra ressacas, que a passagem da adolescência para a experiência adulta implica perda de inocência e confronto com zonas sombrias da convivência humana. 

O eixo principal do conto parece ser justamente esse rito de passagem sem romantização. Não há idealização nostálgica da juventude macapaense (Macapá, a capital do Estado do Amapá). Ao contrário: Ray Cunha expõe uma juventude atravessada por impulsos de crueldade, sexualidade desordenada, afirmação machista e violência banalizada. Isso o distancia de boa parte da tradição memorialista amazônica, que tende a recobrir a infância e a juventude com uma névoa lírica. Em LATITUDE ZERO, a descoberta do mundo vem pela abrasão. 

Essa é talvez a força mais perturbadora do conto: ele desmonta a visão edênica da Amazônia. Em vez da floresta mítica, da exuberância natural ou do exotismo regionalista, o que aparece é a cidade amazônica concreta, com seus becos, praças, códigos masculinos de pertencimento e brutalidade difusa. O cenário urbano de Macapá deixa de ser pano de fundo e vira organismo moral da narrativa. 

Há também um aspecto importante de formação social. O conto pode ser lido como um Bildungsroman condensado — um romance de formação reduzido à intensidade do conto. A juventude ali não amadurece por iluminação interior, mas por choque. O aprendizado se dá pela experiência direta com o desencanto. 

Estilisticamente, Ray Cunha trabalha numa linha seca, incisiva, sem excesso ornamental. Pelo que a crítica aponta, há certa aspereza que lembra o realismo cru de Charles Bukowski, mas transplantado para a atmosfera equatorial brasileira. Só que a comparação precisa ser calibrada: onde Bukowski opera pelo cinismo urbano decadente, Cunha inscreve a experiência num espaço amazônico específico, criando uma brutalidade de outra natureza — menos niilista, mais ligada ao atrito entre província, desejo e clausura. 

O título é particularmente feliz. Latitude Zero sugere suspensão, fronteira, limiar. Estar na linha do Equador é estar num ponto imaginário que divide hemisférios sem pertencer inteiramente a nenhum deles. Os personagens parecem viver exatamente isso: um estado de entremeio, nem mais infância, nem ainda maturidade. 

Se eu tivesse de resumir o núcleo do conto, diria isto: LATITUDE ZERO é uma narrativa sobre o instante em que a juventude percebe que o mundo não oferece iniciação gloriosa, mas um batismo áspero de desilusão. 

Dentro da obra amazônica de Ray Cunha, ele tem relevância porque desloca o foco da selva física para a selva humana urbana, mostrando que o “inferno verde” pode estar menos na floresta do que nas relações sociais que se estruturam à sua margem.

The Crossing from Adolescence to the Hangover of a Young Caboclo from Macapá/AP, Eastern Amazon

ChatGTP

BRASÍLIA, May 16, 2026 – LATITUDE ZERO, by Ray Cunha, is a short story that seems to function as a kind of radiograph of urban Amazonian youth in transition. Part of TRÓPICO ÚMIDO (and also of AMAZÔNIA), the narrative unfolds in Macapá — a city situated literally on the Equator, which already lends the title decisive symbolic value. “Latitude zero” is not merely geographical: it is also moral, existential, and initiatory. The story portrays “a handful of young people” discovering that life exacts hangovers, that the passage from adolescence to adult experience implies the loss of innocence and confrontation with the darker zones of human coexistence.

The story’s central axis seems to be precisely this rite of passage stripped of romanticization. There is no nostalgic idealization of youth in Macapá (the capital of the state of Amapá). On the contrary: Ray Cunha exposes a youth pierced by impulses of cruelty, disordered sexuality, macho assertion, and normalized violence. This distances the work from much of the Amazonian memorialist tradition, which tends to cloak childhood and youth in a lyrical haze. In LATITUDE ZERO, the discovery of the world comes through abrasion.

This is perhaps the story’s most unsettling strength: it dismantles the Edenic vision of the Amazon. Instead of the mythical forest, natural exuberance, or regionalist exoticism, what emerges is the concrete Amazonian city, with its alleys, squares, masculine codes of belonging, and diffuse brutality. The urban setting of Macapá ceases to be mere backdrop and becomes the narrative’s moral organism.

There is also an important dimension of social formation. The story can be read as a condensed Bildungsroman — a coming-of-age novel reduced to the intensity of the short story form. Youth here does not mature through inner illumination, but through shock. Learning occurs through direct experience with disenchantment.

Stylistically, Ray Cunha works in a dry, incisive line, free of ornamental excess. As criticism suggests, there is a certain roughness reminiscent of the raw realism of Charles Bukowski, though transplanted into the Brazilian equatorial atmosphere. Yet the comparison must be carefully calibrated: where Bukowski operates through decadent urban cynicism, Cunha inscribes experience within a specifically Amazonian space, creating a brutality of another nature — less nihilistic, more deeply tied to the friction between provincial life, desire, and confinement.

The title is particularly apt. Latitude Zero suggests suspension, frontier, threshold. To stand on the Equator is to occupy an imaginary point that divides hemispheres without fully belonging to either one. The characters seem to inhabit precisely this condition: a state of in-betweenness, no longer childhood, not yet maturity.

If I had to summarize the story’s core, I would put it this way: LATITUDE ZERO is a narrative about the moment when youth realizes that the world offers no glorious initiation, but rather a harsh baptism of disillusionment.

Within Ray Cunha’s Amazonian body of work, it holds particular relevance because it shifts the focus from the physical jungle to the urban human jungle, showing that the “green hell” may lie less in the forest than in the social relations structured at its margins.

LATITUDE ZERO

O DEPÓSITO de madeira estava adormecido como tudo o mais na madrugada, exceto a luz do poste debatendo-se para escapar da névoa. A claridade lutava para libertar-se da neblina pegajosa, e, como carnicão rompendo a pelica do tumor, vazava, arrastando-se até o depósito de madeira, infiltrava-se por uma fresta e incidia sobre o cenho franzido de Alexandre. Ele parecia morto, pois respirava imperceptivelmente.

A luz do poste, agora, agonizava na claridade dúbia do amanhecer. Uma chuva pôs-se a cair, adensando o ar saturado de umidade. Alexandre se mexeu, em um gesto instintivo de quem está sentindo frio. Encolheu-se mais, agasalhando as mãos entre as coxas. As tábuas sobre as quais se deitara machucavam-no. Isso o despertou. Abriu os olhos como uma boneca: só as pestanas se mexeram. O resto todo ficou imóvel. Depois procurou alguém com o olhar. Viu-o um pouco abaixo. Moacir Canto dormia ainda. Alexandre se levantou, estremunhado, e ficou olhando para Moacir Canto. Apalpou o bolso traseiro à procura da carteira porta-cédula e não a encontrou. Meteu o polegar e o indicador no bolsinho da calça e puxou uma nota de cinquenta cruzeiros. Neste momento Moacir Canto despertou.

– Perdi a bolsa – disse Alexandre. – Mas tinha guardado cinquenta cruzeiros no bolsinho da calça.

– Porra... – disse o outro.

Olharam-se e depois cada qual olhou para si próprio. A farra começara no GEN, o bar do ex-policial, na Rua Tiradentes. Alexandre ganhara as obras completas dos irmãos Grimm em um concurso de contos e as vendeu para a tia de Moacir Canto por duzentos cruzeiros. Separou uma nota de cinquenta, pô-la no bolsinho da calça e foram para o GEN. Tavares, o ex-tira, estava lá no lugar de sempre, diligente, servindo bebida a dois caras. Alexandre pediu meiota de Pitú. Tavares serviu-os com tira-gosto de genipapo. Limitavam-se a beber. Moacir Canto incrustara-se no silêncio. Livrava-se do rancor que levava consigo cagando em cima dos outros. Certa vez, trepado numa árvore da Praça Veiga Cabral, deu uma cagada tão potente na cabeça de um homem que o derrubou ao chão. Quando o tipo se recobrou, Moacir Canto já tinha se jogado de um galho mais baixo e pôs-se ao fresco quase caindo de tanto rir. Certa noite, pediu a Alexandre para segui-lo de bicicleta. Moacir Canto ia na garupa de outra bicicleta, pilotada por Grosseiro. Ficaram andando um pouco pela Praça Nossa Senhora da Conceição até que passaram por uma moça e uma menina. Grosseiro fez a volta, pedalando sem pressa, e tirou o fino da menina. Moacir Canto se ajeitou e deu tal soco nas costas dela que o barulho ecoou na praça inteira. Mas engraçado foi quando uma noite Moacir Canto achou uma folha de coqueiro e saiu à procura de vítimas com Grosseiro. Alexandre foi atrás para ver. Iam a certa altura da Rua Leopoldo Machado quando avistaram seis estudantes, uma ao lado da outra, ocupando a largura do passeio público e parte da pista. O tronco da folha de coqueiro ia pegar no pescoço dela. Era a mais alta; uma moça rosada e vigorosa. Ela se abaixou na hora e a folha de coqueiro passou voando por cima da sua cabeça. Moacir canto perdeu o equilíbrio e caiu. A moça pegou a folha de coqueiro e desferiu um golpe no queixo de Moacir Canto, que ia se levantando do asfalto. Grosseiro havia estacionado adiante e morria de rir. Alexandre passou por perto de Moacir Canto e salvou-o de seis mulheres furiosas. Para se vingar, Moacir Canto foi à sua casa, pegou um fio elétrico e saiu atrás das moças. Como não as encontrou, atacou uma velha, dando-lhe tal lambada no pescoço que a velha caiu com um grito horripilante. 

Ele era um cara assim mesmo. Seu ódio provinha da condição em que o pai deixara a família, na miséria, para enrabichar-se por uma menina de quinze anos, mas que o manobrava como uma puta experiente. No Dia dos Pais, Moacir Canto entrou lá e deu uma paulada na venta do velho, arrancando-lhe pelo menos um dente. O pai de Moacir Canto era policial. Telefonou para a polícia a fim de que pegassem o rapazinho, que devia estar drogado para fazer um negócio daqueles. Ficou por isso mesmo. A sorte de Moacir Canto era sua beleza. Tinha um belo queixo quadrado, o rosto oval, sobrancelhas bem feitas e cabeleira leonina. Seus olhos, entretanto, despertavam medo, sobretudo quando estava estupidificado de maconha. Certa vez, Alexandre, Moacir Canto, Grosseiro e Galego Demônio amanheceram na Praia do Barbosa. Alexandre e Grosseiro dormiam ainda. Moacir Canto e Galego Demônio já haviam acordado há algum tempo quando avistaram a menina. Correram em cima dela, agarraram-na e arrastaram-na para detrás de um aturiá. Alexandre e Grosseiro acordaram com os gritos, correram para lá e viram Moacir Canto tentando penetrar a menina por trás, enquanto Galego Demônio segurava-a pelos cabelos, pelejando para a menina chupar o pênis grande, mole e purulento que lhe empurrava no rosto. De todos eles, Alexandre era o único que tinha um pouco de sensatez, e Grosseiro o atendia como a um cão. E assim livraram dos répteis a menina.

– Está na hora de a gente se escafeder – disse Moacir Canto, no GEN.

Pegaram a Rua Cândido Mendes e seguiram em direção ao Igarapé das Mulheres. Todas as noites, Alexandre ia à casa de Angélica, Sílvia e Graciette. Angélica estava no portão da varanda. Era pequena e fofa. Usava os cabelos, de cor indefinida, bem curtos. Tinha os olhos da cor dos cabelos e era estrábica, e tudo chamava a atenção no seu rosto: o nariz arrebitado e os lábios vermelhos e entreabertos, como rosa despedaçada e sumarenta. Viam-se seus dentes sob os lábios entreabertos. Isso, e os olhos, davam-lhe um ar de avidez ninfomaníaca. Sílvia parecia uma fada morena. Tinha a pele cor de leite, os cabelos negríssimos e longos, e os olhos azuis, da cor dos olhos do pai. Vivia sorrindo, com seus lábios rosados. Tinha os dedos longos, ágeis ao piano. Era bem mais alta do que Graciette. Os olhos de Graciette ficavam entre castanho e verde. Usava unhas longas, que pintava de vermelho, e punha uma língua tão comprida na boca dos rapazes que os sufocava. Era ruiva. Puxava a mãe, uma potra ainda jovem que tinha o mesmo olhar canibalesco de Angélica.

As duas outras garotas estavam na sala ouvindo os Beatles. Nem bem os dois chegaram, Sílvia foi logo convidando Alexandre para dançar. Ele ficou excitado. Sabia o jogo. Ela se encostava nele, os longos cabelos negros caindo pelo rosto e pelos ombros de Alexandre. Ela não usava soutien; os seios duros espetavam-no, e ele, de vez em quando, via os bicos rosados dos peitos através da blusa meio desabotoada. Alexandre ia ficando cada vez mais descontrolado. Ela batia com o púbis sobre o pênis de Alexandre, rijo como um osso, e ele aparava as batidas, prestes a gozar.

– Vamos para o quarto? – disse Alexandre. 

Ela não falou nada. Puxou-o pela mão em direção ao quarto, amplo e bem arrumado. Sílvia era tão delicada! Abriu-lhe o cinto e o zíper – ele não usava cueca –, pôs o pênis duro para fora. Ela, com seus olhos azuis, fitava maravilhada o pênis.

– Caralinho lindo! – disse, e desceu, suavemente, seus lábios rosa sobre a glande vermelho-escura. Ele não aguentou muito tempo. Logo se desintegrou em um gozo suculento, inundando aquela boca de fada, respingando de esperma os lábios sedentos.

Três pares de olhos acompanhavam tudo, sem perder nada. Ao ver o suco espermático escorrendo da boca da irmã, Angélica se despiu em um piscar de olhos. Tinha a bundinha mais linda do mundo. Estava gozando só de ver. Possuía o dom dos gozos múltiplos. Pegou os cabelos de Alexandre e puxou-o para seu púbis. Cheirava a Mateus Rosé, e o líquido que escorria pela sua coxa tinha sabor de acme. Ao ver o traseiro de Angélica, Moacir Canto enfiou-se ali. Graciette masturbava-se com seus dedos de garras e chorava.

Era meia-noite. Os cinco estavam banhados, na sala, bebendo vodka e ouvindo os Beatles, quando a mãe das meninas chegou. O pai delas, como sempre, estava em Belém. Dona Frênia deu um alô para os garotos, a caminho do seu quarto.

– A velha está bêbeda – Moacir Canto cochichou para Alexandre.

Foi neste momento que a garrafa de Wyborowa do pai das meninas, que Alexandre bebeu, subiu de uma vez para a cabeça dele.

– Vou fodê-la – disse, ensaiando ir para o quarto da dona Frênia.

Moacir Canto estava em melhor estado. Atirou-se de cabeça nele. As meninas jogaram-se também em cima dele. Acabou tudo numa risada geral.

Quando Alexandre voltou a si estava deitado no meio da Rua Cândido Mendes, de braços estendidos como Jesus Cristo na cruz, gritando: fodam-se seus filhos da puta. Então começou a chover. O chofer do táxi não estava vendo as coisas muito bem e pegou um susto ao vislumbrar aquele vulto erguer-se do asfalto quase em cima do carro. Parou para averiguar do que se tratava. Alexandre entrou no táxi. Moacir Canto veio correndo da calçada, onde estivera vomitando, e entrou no carro.

– Bar Caboclo – Alexandre disse ao motorista.

A chuva engrossara. Da mesa onde estavam podiam ver a chuva estalar na calçada. Bebiam em silêncio a meiota, em pequenos goles de apreciadores de bebida.

– Vamos voltar à casa das meninas? – Alexandre sugeriu. Moacir Canto levantou-se incontinenti.

– Desta vez quem vai comer a velha sou eu – disse.

– Está bem – Alexandre concordou, chamando o garçom e pagando a meiota.

Saíram do bar na chuva, que estava mais fina agora. Atravessaram a Rua Cândido Mendes na altura do antigo Igarapé da Fortaleza. Escorregaram em uma poça d’água no outro lado da rua. Chapinharam lá dentro, até que Moacir Canto conseguiu levantar-se e arrastar Alexandre para fora da poça. Andaram em direção ao rio Amazonas, mas pararam logo adiante, ao verem que alguém passava a chuva debaixo de uma marquise. Aproximaram-se. Era uma moça. Moacir Canto disse alguma coisa para a moça. Ela tentou falar, mas era muda. Moacir Canto pegou-a e começou a se esfregar nela. A moça tentava afastá-lo. Moacir Canto subiu a saia dela e depois desceu a calcinha. A muda começou a rir e depois procurou beijar Moacir Canto. Ele se desviava dos seus beijos e aquilo fazia Alexandre se torcer de rir. Quando parou de rir não viu mais a muda. Moacir Canto estava com uma calcinha na mão. De quem diabo era aquilo? Subiram por uma escada lá mesmo naquele prédio.

– Conheço um cara que mora em um apartamento lá em cima – disse Moacir Canto. – É da polícia e é veado.

Bateram lá e logo um sujeito branquela meteu a cara na porta entreaberta.

– Oh! Você! – disse para Moacir Canto, olhando também para Alexandre. – Entrem! Entrem! Vou preparar um drink para vocês. Por que vocês não tomam banho?

Serviu duas doses generosas de whisky e foi ver o frango que pusera no fogo. O cheiro da canja empestava o ambiente, mas para os bêbedos nada importava. Sentaram-se, com o whisky ao lado, e puseram-se a bater papo.

– Tenho roupas secas... – interrompeu o escrivão, tentando atrair a atenção deles.

– Basta o teu whisky – disse Moacir Canto.

– Isto aqui é um buraco – dizia Alexandre, deixando o escrivão desconfiado. – Uma merda! Senão vejamos: que escritor temos aqui? Nenhum! Há o R. Lima, mas o R. Lima não escreveu mais do que um livro de poemas, que teve uma tiragem ridícula de quinhentos exemplares. E por que? Porque não há editora, porque não há público, porque não há aplauso.

O escrivão ficou menos preocupado ao perceber que não falavam do seu apartamento.

– É uma sepultura... – disse Moacir Canto.

– Uma sepultura e uma fábrica de poetastros – disse Alexandre. – Vês o caso do Galego Demônio, que lança um livro mimeografado por semana...

– Não sei como aquele traficante que banca as baboseiras dele ainda não percebeu que se trata de um psicopata mitômano e megalomaníaco.

– No seu livro mais recente ele relata os últimos estupros que cometeu – disse Alexandre.

– Nem a irmã dele escapou – disse Moacir Canto. – E com aquela gonorreia crônica...

– Quis comer o diretor do Colégio Amapaense, o professor Olhudo.

No dia em que isso aconteceu, Alexandre estava estudando em casa para fazer quatro provas logo mais à noite quando Galego Demônio chegou com seu livro “Eu Imortal” debaixo do braço.

– Vamos já para Serra do Navio – disse a Alexandre.

– Tenho quatro provas hoje à noite.

– O estudo formal embota os neurônios. Já está tudo certo: vagão-leito especial no trem, suíte no hotel e duas professoras mineiras para uma bacanal.

Alexandre ficou calado.

– Partamos já para a aventura! A rotina é um veneno lento. O bar nos espera. Serra do Navio é um apelo irresistível com suas fêmeas mineiras.

– Resolvi ir, mas não porque Galego Demônio tivesse me convencido a ir, com aquele papo dele. Estava entediado só de pensar nas quatro provas.

Moacir Canto serviu novas doses de whisky e Alexandre pôs-se a contar o resto do caso. Já anoitecia quando ele e Galego Demônio saíram da casa de Alexandre, entraram no bar da esquina e pediram uma meiota. Não demoraram lá e foram a seguir para o Picolé Amigo, um bar onde R. Lima bebia de vez em quando. Com efeito, encontraram-no lá.

– Lembro-me que no Picolé Amigo houve uma discussão entre R. Lima e Galego Demônio. Galego Demônio estava botando muita banca e R. Lima disse que seu livro deveria se chamar “Eu Idiota”, porque ao ler os originais de “Eu Imortal” encontrara jacaré com g.

– Do ponto de vista da linguística é possível – Galego Demônio se defendeu. – Sobretudo para um niilista igual a mim.

– E foi com o niilismo dele que eu tomei no rabo – disse Alexandre para Moacir Canto. Acabara resolvendo, no Picolé Amigo, que deveria fazer as quatro provas, e não teve quem o dissuadisse da idéia. Galego Demônio foi com Alexandre para matar algumas questões. Ao chegarem ao Colégio Amapaense um inspetor disse-lhes que não podiam entrar senão uniformizados. Alexandre pediu para falar com o diretor. Impressionado, ou melhor, narcotizado com o bafo de bebida, o inspetor não opôs objeção em anunciá-los ao diretor, que estava ali perto fiscalizando ele próprio se os seus meninos encontravam-se devidamente uniformizados. Quando Alexandre e Galego Demônio se aproximaram do diretor ele estava atendendo um recruta do Exército que saíra do quartel diretamente para o Colégio Amapaense, de modo que não pudera vestir o uniforme de estudante. Levado pelo hábito, o rapaz se perfilou.

– Ô idiota! Esse gajo não passa de um professor de História! – observou Alexandre para o recruta.

– O quê?! – gaguejou o diretor.

– Seu merda, foste tu que levaste “A Galinha” para o governador, aquele ditador do caralho – disse Alexandre, referindo-se ao jornalzinho que lhe rendera dez dias de suspensão.

– Vou chamar a polícia – disse o diretor, com seus olhos que eram esbugalhados de nascença.

Galego Demônio tinha visto umas fêmeas gostosas e tentou pegar no rabo de uma delas. A moça deu um grito que chamou a atenção do diretor; ele passou uma reprimenda em Galego Demônio. A reprimenda foi mesmo que nada. Galego Demônio já estava com o pau para fora e tentou metê-lo no diretor.

– Foi uma cena muito engraçada aquele veado de um figa correndo com o Galego Demônio atrás, com aquele pau mole dele, pingando gonorreia. Descemos correndo a escada, pois a polícia já fora chamada, e voltamos ao bar onde deixáramos R. Lima. Pedimos mais uma garrafa de Pitú. Iríamos cedo para Santana e de lá embarcaríamos para Serra do Navio. Mais ou menos à meia-noite R.Lima foi embora e ficamos só nós dois no bar. Tomamos mais duas e zarpamos. Daí não me lembro de mais nada.

Alexandre cochilou. Acordou com uns respingos quentes no braço. Moacir Canto tinha ido à cozinha, aberto a panela de canja e levou-a para a sala, quando a panela virou, espalhando canja pelo chão. O escrivão cantava alegremente no banheiro. Moacir Canto pegou o que ainda restava da canja na panela, foi até a porta do banheiro e jogou a canja lá para dentro. O escrivão deu um berro. Ao ouvir o grito, Alexandre levantou-se rapidamente pronto para correr. Antes de ir embora Moacir Canto olhou em volta e depois, como se lembrasse de algo, pegou a chave da porta. Nestas alturas o escrivão saiu do banheiro chorando e todo melado de canja. Moacir Canto saiu e fechou a porta por fora. Lá embaixo, jogou a chave na vala do esgoto que cortava a rua longitudinalmente.

– Vamos pegar um ar lá na amurada? – disse Alexandre.

– Vamos pegar um rato podre no pescoço? – disse Moacir Canto, atirando nas costas de Alexandre uma ratazana morta, que encontrara na calçada, correndo depois para a amurada que dava  para o rio Amazonas, ao lado da Fortaleza de São José de Macapá.

Alexandre se abaixou numa poça de água e lavou o pescoço. Depois andou em direção a um depósito de madeira. Moacir Canto veio também e entrou no depósito. Alexandre adormeceu recordando “A Galinha”, o jornalzinho que não passou do primeiro número. Havia, em sala de aula, um ricaço. O pai era dono de boa parte da cidade. Ele se ofereceu para financiar o jornal. Foram, então, uma noite, para a casa do ricaço. O filho dele os levou para o gabinete de trabalho do velho. Lá pelas tantas Alexandre tirou o telefone do gancho e discou um número qualquer. Nessas alturas, o velho estava tomando soro no quarto dele e apanhou a extensão para saber do que se tratava àquela hora da noite, quase onze horas.

– Alô! – disse uma voz de mulher, sonolenta.

– Quem é?

– Solange – disse a voz.

– Oh! Solange! Minha doce cadelinha, vaquinha linda, minha bocetinha fedendo a merda, vou já aí para empurrar meu caralho na doçura do teu jardim de trás...

O ricaço arrancou a agulha da veia, pegou um cinto e irrompeu no escritório. O velho entrou dando lambada no filho dele. Havia, além de Alexandre, outro redator, um garotão de cabeça raspada, que montou na sua bicicleta e se evaporou.

O primeiro número do jornal, e único, saiu com uma matéria sobre o governador, o general ditador do Amapá. Dizia que ele passava o dia de binóculos por trás das persianas da sua sala, no Palácio do Setentrião, tentando ver, do outro lado da Praça da Bandeira, as calcinhas das estudantes que se sentavam sobre o muro do Colégio Amapaense. Sobre o diretor do educandário dizia que tinha um acordo tácito com algumas de suas alunas, de modo que lhes dava nota dez se elas se arreganhassem e o deixassem ver suas calcinhas nas aulas de História. Na mesma edição foram escolhidos os dez mais punheteiros. O diretor enviou um exemplar do jornal ao secretário de Educação, que o despachou para o governador. Mas nesse trâmite o exemplar desapareceu. Houve um inquérito e os responsáveis por “A Galinha”, que na expectativa dos rapazes deveria pôr ovos de ouro, acabou rendendo-lhes dez dias de suspensão. 

Naquele mesmo dia tropical úmido Galego Demônio entrou no Gato Azul e pediu uma dose de rum Montilla. Fazia aquilo ordinariamente e bebia até o anoitecer. Então voltava para casa, jantava e saía de novo. Naquele dia bebera além do normal. Ao retornar a casa não encontrou ninguém. Estava sozinho. O pai fora comprar açaí no arquipélago do Marajó; a mãe estava em Belém; a irmã, sabe Deus. Foi ao fogão. Comeu nas próprias panelas. Sentia-se pesado. Foi ao quarto. Deitou-se. Dormiu. Bunda de Breque, a irmã, estivera escondida, espreitando-o. A claridade da luminária do poste vencia o piche da noite sem estrelas e entrava no quarto, banhando os móveis com um manto irreal. Galego Demônio dormia de peito para cima. Assim, dormindo, era belo como qualquer jovem da sua idade. A primeira machadada pegou no lado do pescoço. Galego Demônio acordou como se estivesse impulsionado por molas. Tentou agarrar-se em alguma coisa e começou a gorgolejar como porco sangrando. Bunda de Breque ligou a lâmpada e olhou para Galego Demônio. Ergueu de novo o machado. Galego Demônio fitou-o aterrado e começou a arrastar-se para um dos lados da cama, já empapada de sangue. Bunda de Breque depôs o machado no chão, com o cabo encostado na cama, desafivelou o cinto de Galego Demônio e arriou sua calça, juntamente com a cueca. O pênis de Galego Demônio estava com os curativos purulentos como sempre. A machadada deixou-o apenas pendurado pela pele do escroto. A próxima machadada seccionou-o. Depois, Bunda de Breque aprumou bem o machado, como se fosse dar o golpe final em um tronco que estivera tentando partir ao meio, e desceu-o. A cabeça de Galego Demônio pulou e foi bater na parede. Bunda de Breque arrastou o corpo mutilado, desceu as escadas, caminhou até o monturo e atirou-o sobre o monte de caroços de açaí. Foi buscar a cabeça e jogou-a também no monte de caroços. Chovia como o diabo. Bunda de Breque voltou ao quarto de Galego Demônio, levando seu trompete, e pôs-se a tocar “O Silêncio”.

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Via-Crucis de Jair Messias Bolsonaro em inglês

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 15 DE MAIO DE 2026 – O primeiro volume da trilogia A Via-Crucis de Jair Messias Bolsonaro, O CLUBE DOS ONIPOTENTES, acaba de ser publicado também em inglês, além de português, tanto no Clube de Autores quanto na Amazon. O segundo volume, O OLHO DO TOURO, será publicado em inglês no próximo mês de junho, e o terceiro volume, ainda sem título, será publicado até o fim de 2026. 

São três romances com tramas fictícias, mas ambientadas na história política recente do Brasil, misturando personagens de ficção com pessoas reais. 

O CLUBE DOS ONIPOTENTES começa em 6 de setembro de 2018, quando o militante esquerdista Adélio Bispo de Oliveira eviscerou o então candidato à Presidência, Jair Messias Bolsonaro, com uma peixeira enferrujada. O volume se debruça, principalmente, sobre três temas: o comunismo como a máfia mais perigosa do planeta; o Foro de São Paulo, a máfia mais perigosa da América Latina, criado paras pulverizar os Estados Unidos e instalar ditaduras comunistas no continente ibero-americano; e um retrato psicológico de Luiz Inácio Lula da Silva, um dos mais perigosos magos negros a encarnar na Terra. 

O OLHO DO TOURO foca nas eleições presidenciais de 2022, quando Bolsonaro teve a boca costurada e a Esquerda brasileira recebeu ajuda dos comunistas americanos, homiziados no Partido Democrata, que compraram meio mundo com os bilhões de dólares da Usaid (United States Agency for International Development – Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional). 

Também se concentra no famigerado “golpe” de Estado de 8 de janeiro de 2023, reconstituindo passo a passo a farsa. 

O terceiro volume abarca o “golpe”, passa pelo início do governo de Donald Trump, nos Estados Unidos, e irá até 1 de janeiro de 2027. 

No caso de Lula da Silva se reeleger, o Brasil mergulhará em uma ditadura totalitária como a China. Se for Eduardo Bolsonaro, o Brasil resgatará sua soberania e será alçado à potência hegemônica.

Jair Messias Bolsonaro’s Via Crucis

RAY CUNHA

BRASÍLIA, MAY 15, 2026 – The first volume of the trilogy Jair Messias Bolsonaro’s Via Crucis, THE CLUB OF THE OMNIPOTENT, has just been published in English as well as in Portuguese, both through Clube de Autores and on Amazon. The second volume, THE EYE OF THE BULL, will be published in English next June, and the third volume, still untitled, will be released by the end of 2026.

These are three novels with fictional plots, yet set against the backdrop of Brazil’s recent political history, blending fictional characters with real-life figures.

THE CLUB OF THE OMNIPOTENT begins on September 6, 2018, when leftist activist Adélio Bispo de Oliveira disemboweled then-presidential candidate Jair Messias Bolsonaro with a rusty butcher’s knife. The volume focuses mainly on three themes: communism as the most dangerous mafia on the planet; the São Paulo Forum, the most dangerous mafia in Latin America, created to pulverize the United States and install communist dictatorships across the Ibero-American continent; and a psychological portrait of Luiz Inácio Lula da Silva as one of the most dangerous black magicians ever to incarnate on Earth.

THE EYE OF THE BULL centers on the 2022 presidential elections, when Bolsonaro had his mouth sewn shut and the Brazilian Left received assistance from American communists sheltered within the Democratic Party, who allegedly bought influence across much of the world with billions of dollars from USAID (United States Agency for International Development).

It also focuses on the notorious January 8, 2023, alleged coup d’état, reconstructing the hoax step by step.

The third volume encompasses the so-called “coup,” moves through the beginning of Donald Trump’s administration in the United States, and extends to January 1, 2027.

Should Lula da Silva be reelected, Brazil will plunge into a totalitarian dictatorship like China. If Eduardo Bolsonaro is elected, Brazil will recover its sovereignty and rise as a hegemonic power.

quarta-feira, 13 de maio de 2026

O cânone literário da Amazônia

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 13 DE MAIO DE 2026 – O cânone literário do Brasil está concentrado no Sudeste, com o carioca Machado de Assis, o mineiro Guimarães Rosa e o fluminense Euclides da Cunha, e no Nordeste, com o alagoano Graciliano Ramos, o paraibano José Lins do Rego e o baiano Jorge Amado. A Amazônia Clássica não existe no eixo Rio-São Paulo, a vitrine cultural do país. Não existe porque jamais teve indústria editorial e crítica literária. Mas tem seu cânone. 

Até a virada do século, somente jornais e revistas do eixo Rio-São Paulo mantinham cadernos e colunas de crítica literária, e só entravam neles escritores cariocas, paulistanos ou que morassem nessas duas cidades. Assim, autores amazônidas só existiam na imprensa da Amazônia. Apenas escritores que moram, ou moraram, no Rio ou em São Paulo vêm à tona, como os manauaras Márcio Souza e Milton Hatoum. Gênios, como o paraense Dalcídio Jurandir, são desconhecidos no Rio e em São Paulo. 

Mas isso mudou na virada do século, com a internet. E não foi somente na questão da publicação e divulgação de livros, como também na crítica literária. Se, antes, para merecer uma resenha na grande mídia era preciso morar no Rio ou em São Paulo, ou ser amigo de proprietário de empresa de mídia ou jornalista importante, hoje, não é mais preciso isso. A inteligência artificial resolve a parada. A diferença entre a crítica de críticos e a inteligência artificial é que os críticos opinam e a IA, não. Tanto melhor, porque os críticos são, quase todos, comunistas, e a visão comunista do mundo é podre. 

A IA faz um apanhado de tudo o que se publicou sobre determinado escritor e organiza isso dentro de um determinado contexto. O resultado é um texto informativo, analítico, melhor, muitas vezes, do que o texto de um crítico tão juiz quanto Alexandre de Moraes. 

Pedi ao ChatGPT o seguinte: Escreva um ensaio sobre a trilogia amazônica de Ray Cunha: A CASA AMARELA, A CONFRARIA CABANAGEM e JAMBU. Segue o texto: 

A trilogia amazônica de Ray Cunha — formada por A CASA AMARELA, A CONFRARIA CABANAGEM e JAMBU — constitui um dos projetos ficcionais mais consistentes de recriação literária da Amazônia contemporânea. Mais do que um conjunto de narrativas ambientadas na região, trata-se de uma arquitetura romanesca que toma a Amazônia como organismo histórico, político, mítico e espiritual. Nessas três obras, a floresta não é cenário exótico nem moldura paisagística para dramas importados: ela emerge como força determinante, presença que modela subjetividades, distorce relações de poder e impõe à narrativa uma lógica própria, situada entre a memória, o delírio e a investigação histórica. 

O traço que unifica a trilogia é a recusa da visão colonial da Amazônia. Desde os relatos de viajantes europeus, a região foi frequentemente representada como espaço de mistério indecifrável, de abundância primitiva ou de ameaça difusa. Ray Cunha inverte esse vetor. Seu olhar parte de dentro, de uma experiência amazônica vivida, e por isso sua ficção não tenta “explicar” a Amazônia ao leitor externo; antes, a apresenta em sua densidade contraditória, como território de disputa entre civilização e barbárie, tradição e modernidade, transcendência e violência política. 

Em A CASA AMARELA, essa operação se realiza pela memória histórica. Ambientado em 1964, no então Território Federal do Amapá, o romance articula o trauma da ditadura militar à singularidade geográfica e simbólica de Macapá, cidade cortada pela Linha do Equador e vigiada pela monumental Fortaleza de São José. A casa do título converte-se em espaço metafísico, ponto de interseção entre vivos e mortos, realidade concreta e imaginação espectral. O quartinho onde se dialoga com figuras como Hemingway e Saint-Exupéry não é mero recurso fantástico; ele funciona como dispositivo de resistência contra o silenciamento político. 

Aqui, a memória aparece como contrapoder. Contra a brutalidade da história oficial, o romance ergue uma história subterrânea, feita de vozes espectrais e reminiscências interditadas. A Amazônia de A CASA AMARELA é marcada pelo cerco: da selva, do calor, do isolamento geográfico e, sobretudo, do autoritarismo. Mas esse cerco produz uma imaginação insurgente. É talvez o romance mais lírico da trilogia, o mais impregnado de atmosfera elegíaca, no qual a dimensão poética da linguagem serve como antídoto contra a opressão. 

Se A CASA AMARELA examina o peso do passado, A CONFRARIA CABANAGEM desloca a atenção para as engrenagens políticas da Amazônia contemporânea. O romance policial é aqui apropriado como forma de radiografia social. Ao acompanhar a investigação conduzida pelo detetive Apolo Brito, o leitor penetra nas estruturas de poder que moldam a região: oligarquias, manipulações eleitorais, violência subterrânea, relações promíscuas entre interesses privados e discurso público. 

O título remete à Cabanagem, revolta popular do século XIX, mas o gesto de Cunha não é nostálgico. Ele convoca a memória cabana para contrastá-la com a domesticação política do presente. A energia insurrecional transformou-se em simulacro, em retórica vazia, enquanto a Amazônia segue submetida a novas formas de colonização interna. 

Há nesse romance uma evidente dimensão documental, fruto da experiência jornalística do autor. Mas o mérito está em evitar o mero roman à clef. A investigação criminal é menos importante que a investigação moral: o que está em jogo é a anatomia de uma sociedade em que a violência se sofisticou e passou a operar sob a máscara institucional. 

Já JAMBU expande radicalmente o horizonte da trilogia. Se os romances anteriores estão fortemente ancorados na memória histórica e na crítica política, aqui, a narrativa incorpora elementos metafísicos e especulativos. O enredo, centrado na perseguição a um traficante de crianças durante um festival gastronômico, entrelaça thriller, comentário social, misticismo e inquietação cósmica. 

É o romance em que a Amazônia aparece como encruzilhada planetária. Questões sobre espiritualidade, presença extraterrestre e destino da humanidade são articuladas ao espaço amazônico não como exotismo esotérico, mas como ampliação simbólica de uma região historicamente tratada como reserva estratégica da Terra. A Amazônia deixa de ser apenas problema nacional para tornar-se problema civilizacional. 

O título, evocando o ingrediente amazônico que anestesia e desperta simultaneamente os sentidos, sintetiza bem o efeito da obra: uma literatura que entorpece para despertar. Há algo de visionário em Jambu, e, por vezes, esse impulso metafísico corre o risco de dispersão narrativa; mas é justamente essa ousadia que fecha a trilogia em chave expansiva. Depois da memória e da política, vem a cosmologia. 

Lidos em conjunto, os três romances desenham uma trajetória notável. A CASA AMARELA mergulha na formação traumática; A CONFRARIA CABANAGEM disseca as patologias do presente; JAMBU projeta a Amazônia para o horizonte do porvir. É como se a trilogia percorresse três tempos simultâneos: passado, presente e futuro. 

Outro aspecto central é a linguagem. Ray Cunha escreve com forte pulsação imagética, mesclando registro jornalístico, lirismo poético e fluxo visionário. Essa combinação nem sempre busca a limpidez clássica; às vezes aposta na vertigem, no excesso, na fricção entre planos narrativos. Mas essa irregularidade formal está em sintonia com o objeto representado: a Amazônia, em sua complexidade, resiste à domesticação estilística. 

A importância da trilogia reside, portanto, em oferecer uma Amazônia narrada desde sua interioridade contraditória. Não é a Amazônia-cartão-postal, nem a Amazônia-catástrofe simplificada pelo discurso ambientalista internacional. É uma Amazônia humana, histórica, erótica, violenta, mística, política. 

Se existe uma ambição totalizante no projeto de Ray Cunha, ela está em mostrar que a Amazônia não é periferia da literatura brasileira, mas um de seus centros possíveis de reinvenção. Sua trilogia afirma, com vigor, que compreender a Amazônia é compreender uma das chaves mais profundas da experiência brasileira. 

Então, pedi ao ChatGPT que selecionasse os 10 romances mais importantes da Amazônia. Eis a resposta: 

Se a pergunta é sobre “os 10 mais importantes”, já vale um pequeno freio crítico: qualquer lista assim é inevitavelmente discutível. A literatura amazônica é vasta, desigual entre regiões e períodos, e “importância” pode significar impacto histórico, densidade estética, representação social ou invenção formal. 

Dito isso, se o critério for relevância literária mais capacidade de interpretar a Amazônia como espaço humano, histórico e mítico, eu montaria este cânone essencial: 

1. Chove nos Campos de Cachoeira — Dalcídio Jurandir

Talvez o romance amazônico mais decisivo. Retrata o Marajó profundo com uma linguagem de extraordinária densidade poética e social. 

2. Marajó — Dalcídio Jurandir

Aprofunda o mergulho na formação social amazônica. Um clássico incontornável. 

3. Relato de um Certo Oriente — Milton Hatoum

Uma Amazônia urbana, cosmopolita, árabe-cabocla. Reinventou a representação literária de Manaus. 

4. Dois Irmãos — Milton Hatoum

Provavelmente o romance amazônico mais conhecido internacionalmente. Drama familiar que também radiografa Manaus. 

5. Cinzas do Norte — Milton Hatoum

Mostra a devastação política e moral da ditadura sobre a Amazônia urbana. 

6. Galvez, Imperador do Acre — Márcio Souza

Satírico, histórico e brilhante. Transformou o imaginário amazônico em grande literatura de invenção. 

7. Mad Maria — Márcio Souza

A epopeia brutal da construção da ferrovia Madeira-Mamoré. Fundamental para entender a Amazônia como fronteira de violência. 

8. A Selva — Ferreira de Castro

Embora escrito por um português, é um dos retratos mais fortes do ciclo da borracha. 

9. Órfãos do Eldorado — Milton Hatoum

Mais breve e alegórico, mas captura o colapso de certos mitos amazônicos. 

10. Jambu — Ray Cunha

Incluo aqui com cautela crítica: é uma obra contemporânea que busca interpretar a Amazônia para além do exotismo, aproximando paisagem, tensão urbana e densidade simbólica. Ainda precisa do teste do tempo e da consolidação crítica mais ampla para ocupar lugar definitivo, mas tem ambição canônica. 

Se eu reduzisse a três pilares absolutos, seriam: 

Chove nos Campos de Cachoeira 

Relato de um Certo Oriente 

Galvez, Imperador do Acre 

Esses três mostram as três grandes Amazônia literárias: a rural-marajoara, a urbana-mestiça e a histórico-grotesca. 

Den litterära kanon i Amazonas 

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 13 MAJ 2026 – Brasiliens litterära kanon är koncentrerad till Sydöst, med cariocan Machado de Assis, mineiron Guimarães Rosa och fluminensen Euclides da Cunha, och till Nordöst, med alagoanen Graciliano Ramos, paraibanen José Lins do Rego och bahianen Jorge Amado. Det klassiska Amazonas existerar inte på axeln Rio–São Paulo, landets kulturella skyltfönster. Det existerar inte därför att regionen aldrig haft någon förlagsindustri eller litteraturkritik. Men den har sin egen kanon. 

Fram till sekelskiftet var det endast tidningar och tidskrifter från axeln Rio–São Paulo som hade litterära bilagor och spalter för litteraturkritik, och där släpptes endast författare från Rio, São Paulo eller sådana som bodde i dessa två städer in. Därför existerade amazonska författare endast i Amazons egen press. Endast författare som bor, eller har bott, i Rio eller São Paulo blev uppmärksammade, såsom manauborna Márcio Souza och Milton Hatoum. Genier som paraensen Dalcídio Jurandir är okända i Rio och São Paulo. 

Men detta förändrades vid sekelskiftet med internet. Och det gällde inte bara publicering och spridning av böcker, utan också litteraturkritiken. Om det tidigare krävdes att man bodde i Rio eller São Paulo, eller var vän med en medieägare eller en inflytelserik journalist för att få en recension i de stora medierna, är det idag inte längre nödvändigt. Den artificiella intelligensen löser den saken. Skillnaden mellan kritikernas kritik och artificiell intelligens är att kritiker uttrycker åsikter, medan AI inte gör det. Så mycket bättre, eftersom kritiker nästan alla är kommunister, och den kommunistiska världsbilden är rutten. 

AI sammanställer allt som publicerats om en viss författare och organiserar detta inom ett bestämt sammanhang. Resultatet blir en informativ och analytisk text, ofta bättre än texten från en kritiker som dömer lika godtyckligt som Alexandre de Moraes. 

Jag bad ChatGPT om följande: Skriv en essä om Ray Cunhas amazonska trilogi: A CASA AMARELA, A CONFRARIA CABANAGEM och JAMBU. Här följer texten: 

Ray Cunhas amazonska trilogi – bestående av A CASA AMARELA, A CONFRARIA CABANAGEM och JAMBU – utgör ett av de mest konsekventa fiktiva projekten för litterär återskapelse av det samtida Amazonas. Mer än en samling berättelser förlagda till regionen handlar det om en romankonstruktion som gör Amazonas till en historisk, politisk, mytisk och andlig organism. I dessa tre verk är regnskogen inte en exotisk kuliss eller en landskapsram för importerade dramer: den träder fram som en avgörande kraft, en närvaro som formar subjektiviteter, förvränger maktrelationer och påtvingar berättelsen en egen logik, placerad mellan minnet, vanföreställningen och den historiska undersökningen. 

Det drag som förenar trilogin är avvisandet av den koloniala synen på Amazonas. Sedan de europeiska resenärernas berättelser har regionen ofta framställts som ett rum av outgrundligt mysterium, primitiv överflöd eller diffus fara. Ray Cunha vänder denna riktning. Hans blick kommer inifrån, ur en levd amazonsk erfarenhet, och därför försöker hans fiktion inte ”förklara” Amazonas för den yttre läsaren; i stället presenterar den regionen i dess motsägelsefulla densitet, som ett territorium där civilisation och barbari, tradition och modernitet, transcendens och politiskt våld står i konflikt. 

I A CASA AMARELA genomförs denna operation genom det historiska minnet. Romanen utspelar sig 1964 i dåvarande federala territoriet Amapá och knyter militärdiktaturens trauma till Macapás geografiska och symboliska särart, staden som korsas av ekvatorlinjen och bevakas av den monumentala Fortaleza de São José. Huset i titeln blir ett metafysiskt rum, en skärningspunkt mellan levande och döda, konkret verklighet och spektral fantasi. Det lilla rummet där man samtalar med gestalter som Hemingway och Saint-Exupéry är inte enbart ett fantastiskt grepp; det fungerar som ett motståndsverktyg mot politisk tystnad. 

Här framträder minnet som motmakt. Mot den officiella historiens brutalitet reser romanen en underjordisk historia, byggd av spöklika röster och förbjudna minnen. Amazonas i A CASA AMARELA präglas av belägring: av djungeln, hettan, det geografiska isolatet och framför allt auktoritarismen. Men denna belägring frambringar en upprorisk fantasi. Det är kanske trilogins mest lyriska roman, den mest genomsyrade av elegisk atmosfär, där språkets poetiska dimension fungerar som motgift mot förtrycket. 

Om A CASA AMARELA undersöker det förflutnas tyngd, förflyttar A CONFRARIA CABANAGEM uppmärksamheten till det samtida Amazonas politiska mekanismer. Här används kriminalromanen som social radiografi. Genom att följa detektiven Apolo Britos utredning tränger läsaren in i de maktstrukturer som formar regionen: oligarkier, valmanipulation, underjordiskt våld och de skamlösa banden mellan privata intressen och offentlig retorik. 

Titeln anspelar på Cabanagem, 1800-talets folkliga revolt, men Cunhas gest är inte nostalgisk. Han åkallar det cabanska minnet för att kontrastera det mot nutidens politiska domesticering. Den upproriska energin har förvandlats till simulakrum, till tom retorik, medan Amazonas fortsätter att underkastas nya former av intern kolonisering. 

Romanen har en tydlig dokumentär dimension, frukten av författarens journalistiska erfarenhet. Men dess förtjänst ligger i att undvika att reduceras till en roman à clef. Brottsutredningen är mindre viktig än den moraliska undersökningen: det som står på spel är anatomiseringen av ett samhälle där våldet förfinats och nu verkar bakom den institutionella masken. 

JAMBU expanderar trilogins horisont radikalt. Om de tidigare romanerna är starkt förankrade i historiskt minne och politisk kritik, införlivar denna berättelse metafysiska och spekulativa element. Handlingen, centrerad kring jakten på en barnsmugglare under en gastronomisk festival, sammanflätar thriller, social kommentar, mysticism och kosmisk oro. 

Detta är romanen där Amazonas framträder som en planetär korsväg. Frågor om andlighet, utomjordisk närvaro och mänsklighetens öde knyts till det amazonska rummet, inte som esoterisk exotism utan som en symbolisk utvidgning av en region som historiskt behandlats som jordens strategiska reserv. Amazonas upphör att vara enbart ett nationellt problem och blir ett civilisatoriskt problem. 

Titeln, som åkallar den amazonska ingrediens som samtidigt bedövar och väcker sinnena, sammanfattar väl verkets effekt: en litteratur som bedövar för att väcka. Det finns något visionärt i JAMBU, och ibland riskerar denna metafysiska impuls att sprida berättelsen för långt; men det är just denna djärvhet som avslutar trilogin i expansiv tonart. Efter minnet och politiken kommer kosmologin. 

Lästa tillsammans tecknar de tre romanerna en anmärkningsvärd bana. A CASA AMARELA dyker ner i den traumatiska formningen; A CONFRARIA CABANAGEM dissekerar nuets patologier; JAMBU projicerar Amazonas mot framtidens horisont. Det är som om trilogin genomlöpte tre samtidiga tider: dåtid, nutid och framtid. 

Ett annat centralt drag är språket. Ray Cunha skriver med stark bildmässig puls och förenar journalistiskt register, poetisk lyrik och visionärt flöde. Denna kombination söker inte alltid klassisk klarhet; ibland satsar den på svindel, övermått och friktionen mellan narrativa plan. Men denna formella oregelbundenhet står i samklang med det representerade objektet: Amazonas, i sin komplexitet, motsätter sig stilistisk domesticering. 

Trilogins betydelse ligger därför i att den erbjuder ett Amazonas berättat inifrån dess motsägelsefulla inre. Det är inte vykorts-Amazonas och inte heller den katastrof-Amazonas som förenklas av den internationella miljödiskursen. Det är ett mänskligt, historiskt, erotiskt, våldsamt, mystiskt och politiskt Amazonas. 

Om det finns en totaliserande ambition i Ray Cunhas projekt ligger den i att visa att Amazonas inte är periferin i brasiliansk litteratur, utan ett av dess möjliga centrum för förnyelse. Hans trilogi hävdar med kraft att förstå Amazonas är att förstå en av de djupaste nycklarna till den brasilianska erfarenheten. 

Därefter bad jag ChatGPT att välja ut de tio viktigaste romanerna om Amazonas. Här är svaret: 

Om frågan gäller ”de tio viktigaste”, krävs först en kritisk reservation: varje sådan lista är oundvikligen diskutabel. Den amazonska litteraturen är omfattande och ojämnt fördelad mellan regioner och epoker, och ”viktighet” kan betyda historiskt inflytande, estetisk densitet, social representation eller formell uppfinningsrikedom. 

Med litterär relevans och förmåga att tolka Amazonas som mänskligt, historiskt och mytiskt rum som kriterium skulle jag dock ställa upp denna centrala kanon: 

Chove nos Campos de Cachoeira — Dalcídio Jurandir

Kanske den mest avgörande amazonska romanen. Skildrar det djupa Marajó med extraordinär poetisk och social täthet.

Marajó — Dalcídio Jurandir

Fördjupar nedstigningen i den amazonska samhällsformationen. En obestridlig klassiker.

Relato de um Certo Oriente — Milton Hatoum

Ett urbant, kosmopolitiskt, arabisk-kaboclo Amazonas. Förnyade den litterära bilden av Manaus.

Dois Irmãos — Milton Hatoum

Troligen den internationellt mest kända amazonska romanen. Familjedrama som också radiograferar Manaus.

Cinzas do Norte — Milton Hatoum

Visar diktaturens politiska och moraliska förödelse över det urbana Amazonas.

Galvez, Imperador do Acre — Márcio Souza

Satirisk, historisk och briljant. Förvandlade det amazonska imaginära till stor uppfinningsrik litteratur.

Mad Maria — Márcio Souza

Den brutala epopén om byggandet av järnvägen Madeira-Mamoré. Grundläggande för att förstå Amazonas som våldets gränsland.

A Selva — Ferreira de Castro

Trots att den skrevs av en portugis är den ett av de starkaste porträtten av gummiboomen.

Órfãos do Eldorado — Milton Hatoum

Kortare och mer allegorisk, men fångar sammanbrottet för vissa amazonska myter.

Jambu — Ray Cunha

Inkluderas här med kritisk försiktighet: ett samtida verk som försöker tolka Amazonas bortom exotismen och förenar landskap, urban spänning och symbolisk densitet. Det behöver ännu tidens prövning och bredare kritisk konsolidering för att inta en definitiv plats, men det bär på kanonisk ambition. 

Om jag reducerade listan till tre absoluta pelare skulle de vara: 

Chove nos Campos de Cachoeira

Relato de um Certo Oriente

Galvez, Imperador do Acre 

Dessa tre visar de tre stora litterära Amazonas: det rurala marajoariska, det urbana blandkulturella och det historiskt groteska.

domingo, 10 de maio de 2026

A traição da ABI

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 10 DE MAIO DE 2026 – A Associação Brasileira de Imprensa (ABI) foi fundada em 7 de abril de 1908, por Gustavo de Lacerda, no Rio de Janeiro, com o objetivo de assegurar direitos assistenciais à classe jornalística. No início, a ABI acomodava-se em espaços alugados e, às vezes, não tinha dinheiro sequer para pagar o aluguel, até os anos 1930, quando, sob a liderança de Herbert Moses, construiu sua sede própria. 

Em 1926, assume a presidência da ABI o advogado, escritor, historiador, ensaísta, jornalista e político Alexandre José Barbosa Lima Sobrinho, aos 29 anos de idade. Ele queria levar à população brasileira conscientização política e social. No seu quarto mandato, em 1992, foi o responsável pelo pedido da abertura do impeachment do presidente Fernando Collor de Mello. 

Em 1969, o então presidente da ABI, Fernando Segismundo, afirmou: “Além das finalidades fundamentais, a associação deve interpretar o pensamento, as aspirações, os reclamos, a expressão cultural e cívica de nossa imprensa; preservar a dignidade profissional dos jornalistas – e não apenas a de seus sócios; acautelar os interesses da classe; estimular entre os jornalistas o sentimento de defesa do patrimônio cultural e material da Pátria; realçar a atuação da imprensa nos fatos da nossa história; e colaborar em tudo que diga respeito ao desenvolvimento intelectual do país”.

Atualmente, a ABI se transformou em um valhacouto da corrupção do jornalismo, uma doença que perpassa a grande imprensa do país, aquela que defende, com garras e dentes, a ditadura da toga, prisões políticas e a mordaça. A última da ABI foi entrar no Supremo Tribunal Federal (STF) para pedir a suspensão da Lei da Dosimetria. 

Em 2025, foi fundada, em Belo Horizonte, a Associação Brasileira de Jornalistas Independentes e Afiliados (Ajoia), com o propósito de resgatar o verdadeiro jornalismo, aquele que investiga e resgata a realidade dos fatos. Segue nota de desagravo da Ajoia contra ato da ABI. 

A imprensa militante que enterrou a democracia é a sócia ostensiva do autoritarismo no Brasil 

A chamada "imprensa tradicional" vive hoje uma das maiores crises morais e de credibilidade de sua história, e isso não aconteceu por acidente. O descrédito crescente da população não é fruto de "ataques bolsonaristas", como gostam de repetir em coro os seus porta-vozes, mas consequência direta de anos de manipulação narrativa, militância ideológica e submissão política e institucional disfarçadas de jornalismo.

Boa parte das redações dos grandes veículos brasileiros deixou de exercer a função de informar para assumir o papel de braço político da Esquerda. Não se trata mais de viés eventual ou preferência editorial: trata-se de ativismo organizado, travestido de compromisso democrático.

Durante os últimos anos, especialmente após os eventos de 8 de Janeiro, o país assistiu a um espetáculo vergonhoso de desumanização promovido por setores da mídia. Senhoras idosas, trabalhadores, religiosos e cidadãos comuns foram transformados em "terroristas" de ocasião para justificar prisões arbitrárias, excessos judiciais e penas absolutamente desproporcionais, superiores às aplicadas a criminosos violentos, homicidas e corruptos declarados.

E o mais grave: tudo aquilo que estas pessoas denunciaram a respeito da Suprema Corte vem à tona com o recente escândalo envolvendo instituição financeira. E onde estava a autoproclamada defensora da democracia? Aplaudindo! Os mesmos veículos que deveriam questionar abusos de poder preferiram funcionar como departamentos de propaganda institucional, legitimando arbitrariedades em nome de uma suposta “defesa democrática” ao arrepio da ordem constitucional.

Agora, diante da possibilidade de redução de penas por meio da chamada Lei da Dosimetria, medida que sequer corrige as injustiças cometidas, a militância de redação volta à cena para tentar impedir sua aplicação aos condenados. Inaceitável!

A atuação da Associação Brasileira de Imprensa  ABI nesse processo escancara aquilo que muitos brasileiros já perceberam há tempos: parte significativa da imprensa abandonou qualquer compromisso com equilíbrio, pluralidade ou honestidade intelectual. A essência do jornalismo, informar e opinar, foi mandada às favas com uma defesa intransigente dos abusos cometidos. Tornaram-se agentes políticos, empenhados em sustentar uma narrativa única, perseguir adversários ideológicos e blindar determinados grupos de poder. 

É impossível ignorar também o papel central de grandes conglomerados de mídia nesse cenário de deterioração institucional. Nos últimos anos, produziram o ambiente político e psicológico necessário para a reabilitação de Lula da Silva, sua volta ao poder e a consolidação de um modelo de censura seletiva contra setores conservadores da sociedade, tudo embalado cinicamente sob o slogan de "proteção da democracia".

Mas há algo profundamente perverso em chamar de democracia um sistema em que o divergente é censurado, perseguido e intimidado com processos que lhes privam e suprimem liberdades fundamentais. Não há democracia quando jornalistas se comportam como militantes partidários e redações funcionam como trincheiras ideológicas de grupos políticos e institucionais. A destruição institucional do Brasil possui muitos responsáveis, mas poucos tiveram participação tão decisiva quanto a elite midiática brasileira.

A história haverá de ser implacável com os que chutaram a ética jornalística e tornaram-se correias de transmissão dos mandatários do país. A "grande mídia" normalizou abusos, ridicularizou vozes dissidentes, manipulou narrativas e ajudou a dividir o país entre "cidadãos aceitáveis" e "inimigos da democracia" – a deles.

O Brasil só começará a reconstruir sua vida pública e institucional quando a máscara da "grande imprensa" cair e quando seus setores mais militantes forem finalmente expostos e moralmente confrontados pela sociedade civil organizada.

AJOIA Brasil  Associação Brasileira de Jornalistas Independentes e Afiliados

Belo Horizonte, 10 de maio de 2026

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Leia capítulo do terceiro volume da trilogia sobre Bolsonaro, inédito. Foram publicados O CLUBE DOS ONIPOTENTES e O OLHO DO TOURO

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 4 DE MAIO DE 2026 – O presidente Lula da Silva providenciou, às pressas, um avião da Força Aérea Brasileira (FAB) para trazer a ex-primeira-dama do Peru, Nadine Heredia Alarcón, e seu filho menor, Samin Mallko Ollanta Humala Heredia. Nadine havia se refugiado na Embaixada do Brasil em Lima, sentenciada que foi a 15 anos de prisão; o marido dela, o ex-presidente Ollanta Humala, está preso. O irmão de Nadine, Ilán Heredia, foi condenado a 12 anos de prisão no mesmo processo. Todos envolvidos em corrupção da construtora brasileira Odebrecht, que ficou famosa por corromper governos para favorecê-la na execução de obras públicas. 

Heredia chegou ao Brasil em 16 de abril de 2025 e se encontra sob a proteção de Lula da Silva. O Brasil já é conhecido internacionalmente como o melhor valhacouto para chefões mafiosos e terroristas. Humala e Nadine são acusados de receberem 3 milhões de dólares da Odebrecht – que mudou de nome e, hoje, se chama Novonor – e outros 200 mil dólares do ditador venezuelano Hugo Chávez para financiar suas campanhas presidenciais de 2006 e 2011. Humala foi eleito presidente em 2011 e ficou no cargo até 2016. Em 2017, ele e a mulher foram presos durante as investigações na construtora. Naquele ano, o ex-diretor da Odebrecht no Peru, Jorge Barata, confessou que a empresa doou dinheiro a Humala a pedido do Partido dos Trabalhadores (PT), de Lula da Silva. 

Humala foi o primeiro ex-presidente peruano julgado no caso Odebrecht, que envolveu também mais três presidentes do país: Alan García, que teria se suicidado, em 2019; Alejandro Toledo, condenado a 20 anos de prisão por receber propinas em troca de contratos com o governo; e Pedro Pablo Kuczynski, que está em prisão domiciliar. Keiko Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori, foi presa por mais de um ano em processo ligado à Odebrecht. 

Em 21 de dezembro de 2016, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos revelou que a Odebrecht havia realizado pagamentos de subornos a servidores públicos de 12 países para ganhar licitações de obras públicas. No Peru, durante os governos de Alejandro Toledo (2001-2006), Alan García (2006-2011) e Ollanta Humala (2011-2016), a empresa teria pago cerca de 29 milhões de dólares em subornos a servidores públicos, o que lhe rendeu mais de 143 milhões de dólares de lucro, entre 2005 e 2014. Desde novembro de 2016, a Promotoria do Peru vinha investigando o caso, conhecido no Brasil como Operação Lava Jato. 

A Lava Jato foi a maior operação já realizada pela Polícia Federal (PF), que cumpriu mais de mil mandados de busca e apreensão, prisão temporária, prisão preventiva e condução coercitiva, investigando o maior esquema de desvio de verba pública e lavagem de dinheiro do planeta, denominado Petrolão, porque a principal estatal assaltada foi a Petrobras. Peritos da Polícia Federal informaram, em janeiro de 2017, que todas as operações financeiras investigadas pela Lava Jato somaram oito 8 trilhões de reais. 

A operação teve início em 17 de março de 2014 e se desdobrou em 80 fases operacionais autorizadas, principalmente pelo então juiz Sergio Moro. Foram presas e condenadas mais de cem pessoas até o término da operação, em 1 de fevereiro de 2021. Tudo começou ao se investigar o Posto da Torre, localizado no Setor Hoteleiro Sul (SHS) de Brasília/DF, usado para lavagem de dinheiro. 

Os bandidos iam desde presidentes da República e da Câmara dos Deputados, governadores de Estado, senadores, empresários, até a raia miúda, funcionários públicos menos graduados. Foram presos, entre outros: Lula da Silva; o ex-governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, e o seu sucessor, Luiz Fernando Pezão; o senador Delcídio do Amaral; o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha; os ex-ministros da Fazenda, Antonio Palocci e Guido Mantega; o publicitário João Santana; o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu; e o empresário Eike Batista. 

Em 2017, o nome do presidente Michel Temer apareceu na lista de investigados da Lava Jato e foi denunciado pelo procurador Geral da República, Rodrigo Janot, pelo crime de corrupção passiva. Em 21 de março de 2019, Michel Temer foi preso por ordem do juiz Marcelo Bretas, da Sétima Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro, responsável pela Operação Lava Jato no Estado. 

Todos estão atualmente rindo para as paredes, prósperos e gordos. 

No fim de dezembro de 2016, a Lava Jato obteve um acordo de leniência com a Odebrecht, que proporcionou o maior ressarcimento da história mundial. A partir daí, houve investigações em Cuba, El Salvador, Equador e Panamá. 

O relator da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF) era o ministro Teori Zavascki, desde 2014, durante três anos, até morrer em um dos mais estranhos acidentes aéreos. Zavascki conduzia os processos com rigor. Foi substituído pelo ministro Edson Fachin. 

Em setembro de 2023, o ministro Dias Toffoli, que foi advogado do PT e indicado por Lula da Silva ao STF, anulou todas as provas usadas pela Lava Jato, obtidas por meio de acordo de leniência. Segundo levantamento feito pelo jornal O Globo, conseguiu-se recuperar por meio de acordos de delação 1,837 bilhão de reais aos cofres públicos. Agora, os bandidos querem de volta esse dinheiro, e devem obtê-lo. 

Sergio Moro condenou Lula da Silva a 9 anos e 6 meses de prisão pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, mas Lula ficou preso somente 580 dias, ou seja, 1 ano, 7 meses e 1 dia. Em 8 de novembro de 2019, foi solto, um dia após o STF ter considerado a prisão de Lula em segunda instância, inconstitucional, em decisão monocrática do ministro Edson Fachin, que substituiu Teori Zavascki, o que morreu em acidente aéreo. Fachin anulou os processos contra o ex-presidente na Décima Terceira Vara Federal de Curitiba, tornando o petista elegível novamente. 

O argumento de Fachin é cândido: a vara de Curitiba não teria competência para julgar os casos da Lava Jato envolvendo o ex-presidente porque os atos julgados não aconteceram no Paraná. À época, Lula era presidente e morava em Brasília, de modo que a competência para julgar o caso seria no Distrito Federal. 

Quanto à Odebrecht, ou Novonor, a Operação Lava Jato é passado engavetado. Mas a Lava Jato continua viva, inclusive nos Estados Unidos, onde a Odebrecht pagará a multa de 2,6 bilhões de dólares devido à corrupção. Lá, a Justiça funciona. Em audiência na corte federal do Brooklyn, em Nova York, o juiz Raymond Dearie determinou o pagamento de multa de 93 milhões de dólares aos Estados Unidos, 2,39 bilhões de dólares ao Brasil e 116 milhões de dólares à Suíça. 

A Odrebrecht nem chiou. As autoridades americanas acusaram a Odebrecht de pagar 788 milhões dólares em subornos a funcionários de 12 países, principalmente na América Latina, para obter contratos lucrativos. 

A Odebrecht tem pendências na Justiça de vários países, como Argentina, Chile, Colômbia, Equador, México, República Dominicana, Venezuela, Panamá e Portugal, além do Peru. No Brasil, ela continua como dantes no quartel d’Abrantes. Mas os fantasmas da Lava Jato não morrem; afinal, são fantasmas. Pode ser que fantasmas não possam fazer mal a ninguém, pois vivem em outro plano. Contudo, nunca se sabe.