sexta-feira, 17 de maio de 2024

A IDENTIDADE CARIOCA: Roberto Carlos, Olivar Cunha e o Tesouro do Morro do Castelo

Ebook da amazon.com.br de A IDENTIDADE CARIOCA

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 17 DE MAIO DE 2024 – Sessenta e sete toneladas de ouro e uma imagem em tamanho natural de Santo Inácio de Loyola, também em ouro, com olhos de brilhantes e dentes de pérolas, esse é o Tesouro dos Jesuítas do Morro do Castelo. Existe, ou se trata apenas da maior lenda urbana do Rio de Janeiro? 

O jornalista Reinaldo Loyola de Carmela, da revista A Carioca, descobre, na Biblioteca Nacional, um documento mencionando o tesouro e parte para uma investigação a fim de elucidar o mistério. Se o tesouro existe, onde está? A jornada revela muito mais: como nasceu a identidade carioca e o Brasil. Saiba onde se encontra o maior tesouro da Cidade Maravilhosa neste thriller de tirar o fôlego. 

Esse é o argumento do romance A IDENTIDADE CARIOCA, que, além de fazer uma revisão da História do Brasil, regatando-a das lentes dos historiadores marxistas e positivistas, mistura personagens de ficção com pessoas reais, como o cantor e compositor Roberto Carlos, ícone vivo do Rio de Janeiro. 

Reinaldo Loyola de Carmela é o herói da trama. Trata-se de personagem de ficção. Seu avô, Santiago Bragança de Carmela, migrou da Galícia para o Rio de Janeiro, juntamente com a esposa, Aline Martinez de Carmela, e o casal de filhos, Reinaldo e Lorena, em 1940, fugindo da Guerra Civil Espanhola. 

Empresário, contava com recursos guardados em bancos dos Estados Unidos e do Brasil. Escolhera o Rio de Janeiro devido ao seu único irmão, Felipe, que já morava na cidade e era proprietário de alguns imóveis no Centro e em Copacabana, onde inauguraram, em 20 de julho de 1969, o Hotel Tropical, no Posto 6 da Avenida Atlântica, entre as Ruas Francisco Otaviano e Joaquim Nabuco, defronte ao Forte de Copacabana, com infraestrutura futurística. 

O complexo arquitetônico do shopping e Hotel Tropical tinha três subsolos de garagem. O Bunker, a escola de tiro, ficava no terceiro subsolo, contando com cinco baias com 50 metros de comprimento e transportadores de alvos digitais e alvos metálicos, e salas de aula. Sobre o subsolo seguiam-se dois pisos de lojas. 

No terceiro pavimento funcionava uma praça de alimentação, três cinemas, sendo um de arte, um teatro e uma ampla galeria de artes plásticas, onde Reinaldo guardava parte das obras de arte que colecionava na Reserva Técnica. Possuía inclusive um Pablo Picasso, um nu, grafite sobre papel, formato 21 por 14, da fase figurativa; um Diego Velásquez, um óleo sobre tela do tamanho de dois A4 sobrepostos horizontalmente, sem preço, simplesmente magnífico: uma mulher nua montando um touro; um casal obeso de Fernando Botero, de um por meio metro; três mulatas de Di Cavalcanti, de meio metro por meio metro cada um; e 21 Orquídea Sá Tamborindeguy, de Roberto Bragança Tamborindeguy, posando de todo jeito, principalmente nua. 

Mas seu pintor favorito era Olivar Cunha, nascido na Amazônia, em Macapá/AP, cidade que fica na margem esquerda do Canal do Norte do Rio Amazonas, quando o maior rio do mundo se posiciona para despejar no Oceano Atlântico 200 mil metros cúbicos de água, por segundo. Reinaldo tinha sete telas de Olivar Cunha, entre as quais o impressionante Tuiuiú Crucificado, “o berro mais fovista, o grito mais expressionista” do pintor. 

Ele a pintou em três meses, em 1992, em Jacaraípe, distrito de Serra, na Grande Vitória do Espírito Santo. Trata-se de uma acrílica sobre tela, em espátula e pincel, de 1,20 metro por 1 metro. Pertence à fase que o pintor chama de Habitat Transform, desenvolvida no Rio de Janeiro/RJ e em Jacaraípe, após pesquisa sobre a devastação da flora e da fauna do Pará, do Amapá e do Pantanal. No centro do quadro, um tuiuiú crucificado emerge de uma Baía de Guanabara atolada em dejetos industriais, tendo ao fundo o Pão de Açúcar e os Arcos da Lapa. 

Olivar Cunha morava em Conduru, distrito de Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, cidade natal do maior astro da música popular brasileira, Roberto Carlos. Pintor e restaurador, com cursos no Parque Lage, onde foi aluno de Charles Watson, e no Museu Nacional, Olivar Cunha se tornou o grande restaurador de arte sacra do Espírito Santo, tanto de estátuas quanto de telas. Foi assim que conheceu e pintou Santa Rita de Cássia, e aí resolveu pintar, em grafite sobre tela, com espátula e pincel, em tamanho natural, Santa Rita de Cássia abençoando Roberto Carlos. 

Um dos maiores ícones do Rio de Janeiro, e do Brasil, Roberto Carlos Braga mora na Urca, pertinho de onde Estácio de Sá fundou o Rio de Janeiro. Roberto nasceu em Cachoeiro de Itapemirim, em 19 de abril de 1941. Começou a sua carreira no início dos anos 1960, sob influência da Bossa Nova. Compositor, geralmente em parceria com o carioca Erasmo Carlos, fundou as bases do rock brasileiro. Estrelou um programa de auditório na TV Record chamado Jovem Guarda, que daria nome ao primeiro movimento musical do rock no Brasil. 

Os idealizadores do programa se inspiraram em uma frase do revolucionário russo Vladimir Lenin: “O futuro pertence à jovem guarda porque a velha está ultrapassada”. Gíria usada na Marinha, velha-guarda faz referência aos marinheiros mais antigos. No primeiro embarque em navio, os oficiais são chamados guarda-marinha, de modo que velha-guarda se refere aos instrutores mais antigos. O termo migrou para outras áreas, qualificando fundadores e pioneiros, como no mundo do samba, por exemplo. 

A casa da família em Cachoeiro de Itapemirim, no alto de uma ladeira no bairro do Recanto, é hoje a Casa de Cultura Roberto Carlos. Aos seis anos de idade, no dia de São Pedro, padroeiro de Cachoeiro, Roberto sofreu fratura da perna direita. Levado para o Rio de Janeiro, teve sua perna amputada abaixo do joelho e passou a usar prótese. Sonhava, na infância, tornar-se arquiteto, caminhoneiro, aviador ou médico, mas aprendeu a tocar violão e piano, a princípio com sua mãe e depois no Conservatório Musical de Cachoeiro de Itapemirim. 

Incentivado pela mãe, apresentou-se pela primeira vez em um programa infantil na Rádio Cachoeiro, aos nove anos, cantando o bolero Amor y más amor. O prêmio foram balinhas. Em 1955, apresentou-se na Rádio Industrial de Juiz de Fora (ZYT-9). Continuava cantando bolero. 

Na segunda metade dos anos 1950, Roberto Carlos se manda para o Rio de Janeiro, ouvindo muito rock and roll, como Elvis Presley, Bill Haley, Little Richard e Chuck Berry. Em 1957, conheceu um grupo de amigos que se reunia na Rua do Matoso e no Bar Divino, na Rua Haddock Lobo, na Tijuca: Sebastião (Tim) Maia, Edson Trindade, José Roberto China e Wellington Oliveira. Surgiu The Sputniks. Mas a banda não durou muito tempo. 

No ano seguinte, Roberto Carlos conhece Erasmo Carlos e começa a carreira solo na boate do Hotel Plaza, em Copacabana, cantando samba-canção e bossa nova. O cantor, compositor e produtor Carlos Imperial apresentava Roberto Carlos como o “Elvis Presley brasileiro”. Em 1959, Roberto lança o compacto João e Maria/Fora do Tom, imitando João Gilberto, um dos inventores da Bossa Nova, e dois anos depois lança seu primeiro álbum, Louco Por Você. 

Em 1968, no Festival de San Remo, na Itália, Roberto Carlos, então com 26 anos, conquista o primeiro lugar, com a música Canzone per te, de Sergio Endrigo e Sergio Bardotti. Foi a primeira vez na história do evento que um cantor estrangeiro conquistou o festival. 

De 1961 e 1998, Roberto lançou um disco inédito por ano. Já vendeu mais de 140 milhões de cópias de discos, gravados em português, espanhol, inglês, italiano e francês. Foi além da carreira musical: estrelou três filmes, inspirados na fórmula lançada pelos Beatles: Roberto Carlos em Ritmo de Aventura (1968), Roberto Carlos e o Diamante Cor-de-Rosa (1970) e Roberto Carlos a 300 Quilômetros por Hora (1971). 

No quadro de Olivar Cunha, Roberto Carlos é imortalizado recebendo a bênção de Santa Rita de Cássia. Margherita Lotti, Santa da Rosa e dos Impossíveis, Advogada das Causas Perdidas, nasceu em Roccaporena, Itália, em 1381, e faleceu em Cássia, Itália, em 22 de maio de 1457. Freira agostiniana da diocese de Espoleto, Itália, foi beatificada em 1627 e canonizada em 1900. Quando ela morreu, um suave perfume se espalhou por todo o Mosteiro das Irmãs Agostinianas, em Roccaporena. Seu corpo, que permaneceu incorrupto ao longo dos séculos, é venerado em uma urna de vidro no santuário de Cascia.

O pintor do Amapá, Olivar Cunha, e o grafite sobre tela de Santa Rita de Cássia

quinta-feira, 16 de maio de 2024

Alexandre Ramagem é a solução para o Rio?

Alexandre Ramagem: especialista no combate ao crime organizado

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 16 DE MAIO DE 2024 – O Rio de Janeiro é a cidade mais exuberante e maravilhosa do planeta e a mais importante do Brasil. Senão vejamos. Ergue-se na margem esquerda da boca da Baía de Guanabara, acidente geográfico que determinou a localização da cidade. Na margem direita, surge sua irmã, Niterói. As praias, tanto de uma como de outra, são, sejamos honestos, as mais encantadoras do mundo. O Rio nasce no mar e levanta voo nas encostas das montanhas, até o Cristo Redentor. De dia, sol, mar, a mais saborosa culinária do planeta, o cadinho étnico nas ruas. À noite, a cidade cintila. 

O Rio não é a capital do Brasil, porém tem mais funcionários públicos federais do que Brasília e sedia grandes estatais e instituições importantes. Muitos dos representantes do establishment brasileiro moram lá. Artistas do país inteiro quando não conseguem ainda jovens se mudar para o Rio sonham pelo menos em morrer lá, pois a cidade é a vitrine da cultura tupiniquim. E é a cidade que mais recebe turistas no Hemisfério Sul. 

Também é o paraíso da bandidagem. Mafiosos de toda parte adoram farrear no Rio. Desde o governo de Leonel Brizola, o crime organizado tornou zonas da cidade um estado dentro do estado. 

Eleger-se prefeito do Rio não é para amador. É necessário convencer quase dois milhões de eleitores de que o candidato vai resgatar o título de Cidade Maravilhosa. O atual prefeito, Eduardo Paes (PSD – Partido Social Democrático), é candidato à reeleição e aparece disparado como favorito. Já ocupou o cargo de 2009 a 2017. Especialista em cosmética, sua política é a do pão e circo. Há uma década administrando a cidade, o Rio é cada vez mais violento, com trânsito medonho e poluído. 

O Rio requer um candidato a prefeito que convença o carioca de que vai atacar, para valer, os problemas cruciais da cidade. Vou citar os quatro mais urgentes. Aparentemente, são problemas que só um presidente da República, ou um governador, poderá pelo menos dar início à solução. Mas não! Eles só precisam de um líder. Dinheiro há. O BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) não financiou porto em Cuba e metrô em Caracas? Até dinheiro chinês serve. 

Pois bem, o candidato do PL (Partido Liberal), deputado federal, o carioca Alexandre Ramagem, delegado da Polícia Federal e ex-diretor-geral da Abin (Agência Brasileira de Informação) no governo de Jair Messias Bolsonaro, tem tudo para isso. Comprometido com a família, a cidade e as instituições voltadas para o desenvolvimento, conhece bem o Rio e é um dos maiores especialistas brasileiros no combate ao crime organizado. 

Vamos lá aos problemas cruciais: em primeiro lugar, o Rio precisa da despoluição da Baía de Guanabara, útero da cidade. 

Em segundo lugar: construção da Linha 3 do Metrô, ligando o Rio a Niterói, por debaixo da Baía de Guanabara. 

Em terceiro lugar: criação de um centro de inteligência com especialistas e tecnologia de ponta capaz de direcionar as polícias Federal, Civil e Militar no combate à bandidagem, sob o lema “tolerância zero”. 

Em quarto lugar: ampliação do fornecimento de água encanada, energia elétrica e esgoto para a população em geral.

O CLUBE DOS ONIPOTENTES é um romance-reportagem que, não
por acaso, tem seu epílogo no Rio de Janeiro. Ao investigar tráfico de crianças em Brasília jornalista descobre plano sinistro para impedir, a qualquer custo, que o presidente da República seja reconduzido ao cargo. Este é o argumento da reportagem política e histórica de Ray Cunha em formato de romance. Misturando personagens de ficção e reais, vivos e mortos, e com ação nos planos material e espiritual, O CLUBE põe a nu o momento político atual, a tentativa permanente de assassinarem o ex-presidente Jair Messias Bolsonaro e destruírem seu núcleo familiar. Trata-se de uma advertência de que o comunismo é um
plano diabólico de magos negros que se materializam na
besta de onze cabeças e nove tentáculos.


segunda-feira, 13 de maio de 2024

Romance de ação e mistério A IDENTIDADE CARIOCA é um culto à cidade do Rio de Janeiro

Capa do e-book: O Último Tamoio, de Rodolfo Amoedo (1883)

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 13 DE MAIO DE 2024 – O thriller de ação e mistério A IDENTIDADE CARIOCA (Amazon, 233 páginas, 2024) investiga a maior lenda urbana do Rio de Janeiro: o Tesouro dos Jesuítas do Morro do Castelo. Em segundo plano, conta a história da Cidade Maravilhosa desde seu início, na Urca, até a Esplanada do Castelo. Também faz uma revisão da história do Brasil, resgatando-a dos historiadores comunistas e devolvendo à ribalta seus heróis. 

O romance, ambientado no Rio de Janeiro, visita os subterrâneos da cidade e algumas de suas instituições mais icônicas, como a Academia Brasileira de Letras (ABL) e o Cristo Redentor, além de escritores como Machado de Assis, Rubem Fonseca e Luiz Alfredo Garcia-Roza, bem como compositores e cantores como Antônio Carlos Jobim e Roberto Carlos. 

Inscrito na nona edição do Prêmio Kindle de Literatura, A IDENTIDADE CARIOCA pode ser adquirido na amazon.com.br ou na amazon.com

Capa da brochura: Cristo Redentor

domingo, 12 de maio de 2024

A mãe

Edição da amazon.com: Seringueira no muro do Colégio Amapaense

RAY CUNHA

BRASÍLIA, 12 DE MAIO DE 2024 – Ao retornar a Macapá, sua cidade natal, 27 anos depois, João Picanço Cardoso seguiu diretamente do aeroporto para a casa onde viveu até os onze anos de idade, e lá só encontrou a Seringueira. Uma velha seringueira esquelética desviava-se do muro do Colégio Amapaense. Ou era o muro que se desviava dela. Tinha uma cavidade no tronco que quase a transpassava. Pediu ao taxista que o aguardasse e foi até a Seringueira. Pegou no seu tronco. Lembranças afloraram à sua memória e o fizeram chorar, acomodado com a testa sobre o braço direito, encostado à seringueira. Uma senhora e uma criança passavam. A senhora quase para, mas seguiu adiante. Eram onze horas. O sol se tornara insuportável. João retornou ao táxi e deu a direção da casa de sua mãe, na Avenida Presidente Vargas. A mãe o aguardava no pátio da casa. Desceu do táxi, abriu o portão da cerca, a cancela do pátio e abraçou a mulher, quase machucando-a, e sentiu entrar no jardim imenso, de onde divisou os galhos mais altos da Mangueira, do Cajueiro e da Seringueira, antes de ultrapassar as grossas paredes amarelas.

Trecho final do romance A CASA AMARELA, à venda no Clube de Autoresamazon.com.br e amazon.com

Edição do Clube de Autores: Fortaleza de São José de Macapá

domingo, 5 de maio de 2024

Amazon lança A IDENTIDADE CARIOCA, novo thriller do romancista amapaense Ray Cunha

A IDENTIDADE CARIOCA, capa da edição em ebook. Foto
de 
O Último Tamoio, óleo sobre tela de Rodolfo Amoedo
– Museu Nacional de Belas Artes  Rio de Janeiro/RJ

RAY CUNHA 

Capa da brochura

BRASÍLIA, 5 DE MAIO DE 2024 O Tesouro dos Jesuítas do Morro do Castelo existe? Ou se trata apenas da maior lenda urbana do Rio de Janeiro? O jornalista Reinaldo Loyola de Carmela, da revista A Carioca, descobre, na Biblioteca Nacional, um documento mencionando a maior lenda urbana do Rio de Janeiro, o Tesouro do Morro do Castelo, e parte para uma investigação para elucidar o mistério: o tesouro existe ou não? Se existe, onde está? A jornada revela muito mais: como nasceu a identidade carioca e o Brasil. Saiba onde se encontra o maior tesouro da Cidade Maravilhosa neste thriller de tirar o fôlego – sinopse de A IDENTIDADE CARIOCA (Amazon, 233 páginas), deste escriba.

O livro foi inscrito e publicado na Amazon, dia 1 de maio, no Prêmio Kindle de Literatura, em sua nona edição. O prêmio, anual, é promovido pela Amazon e Editora Record. 

Em março deste ano, quando estive no Rio de Janeiro para lançar o romance JAMBU, fiz uma revisão das locações que utilizei na trama de A IDENTIDADE CARIOCA, as quais têm tudo a ver com a história da cidade e com a alma carioca, abarcando desde a descoberta da Baía de Guanabara pelos portugueses, em 1502, até os dias de hoje, com um Rio entregue ao crime organizado. Aliás, organizadíssimo. 

Mas a Cidade Maravilhosa está presente também, especialmente com uma Copacabana sempre feérica, bem como artistas que ajudaram a construir a identidade carioca. 

Em segundo plano à trama fictícia do romance faço uma revisão da História do Brasil, reconhecendo o legado com o qual os lusitanos nos presentearam, forjando o Coração do Mundo, Pátria do Evangelho. Conforme digo em JAMBU, caso exploda a terceira guerra mundial, a própria Terra se revoltará e a guerra, já devastadora, seria seguida por cataclismos fatais, que, associados à irradiação nuclear, tornariam inabitável o Hemisfério Norte, gerando êxodo em massa para a América do Sul, Austrália e sul da África. 

O Brasil seria dividido em quatro nações distintas, e somente uma quarta parte do território permaneceria com os brasileiros: a Região Sudeste, o estado de Goiás e o Distrito Federal. Os europeus ocupariam a Região Sul, o Uruguai, a Argentina e o Chile; os asiáticos, principalmente chineses, japoneses e coreanos, ocupariam Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraguai, Bolívia e Peru; o Nordeste seria ocupado pelos russos e povos eslavos; e os norte-americanos, canadenses e mexicanos ocupariam Venezuela, Colômbia e Amazônia brasileira. 

Ao pesquisar e ler amplamente sobre o Rio de Janeiro percebi, claramente, que foi lá que o Brasil começou, e que historiadores preconceituosos, positivistas ou marxistas criaram muitos mitos na História do Brasil. Um deles é o de que os portugueses só queriam saquear o país. Isso não é verdade. Além de garantirem a extensão territorial brasileira e a língua portuguesa em todo o território nacional, Dom João VI modernizou o país e o transformou em um império. 

E depois, os portugueses não tinham o preconceito étnico dos demais europeus. Assim, o Brasil é um cadinho étnico, gerando o povo brasileiro, mestiço de índio, europeu e africano, o que nos dá a vantagem de abrigarmos todas as religiões do mundo. Vantagem? Sim, vantagem! O que somos, senão espírito? E para onde vamos, senão para o plano astral? 

Na prática, atualmente, só precisamos acabar, o mais rapidamente possível, com o assassinato de presos políticos e com a censura, e criar uma instituição que defenda, realmente, a lei, ou seja, a Constituição. 

Você pode adquirir A IDENTIDADE CARIOCA em ebook, brochura ou capa dura. Descubra onde está o Tesouro dos Jesuítas do Morro do Castelo! 

RAY CUNHA nasceu na Amazônia Atlântica, no estado do Amapá, em Macapá, cidade situada na esquina do maior rio do mundo, o Amazonas, com a Linha Imaginária do Equador. É jornalista e terapeuta em Medicina Tradicional Chinesa, além de escritor, autor dos romances: A CASA AMARELA, FOGO NO CORAÇÃO, JAMBU, O CLUBE DOS ONIPOTENTES, HIENA e A CONFRARIA CABANAGEM; dos livros de contos TRÓPICO e AMAZÔNIA; e da coletânea de poemas DE TÃO AZUL SANGRA

domingo, 21 de abril de 2024

Elon Musk aparece no primeiro capítulo do romance-reportagem O CLUBE DOS ONIPOTENTES, do amapaense Ray Cunha

Ao investigar tráfico de crianças para escravidão sexual
em Brasília repórter se depara com indícios de um complô
para derrubar o presidente da República. Romance-reportagem
mistura personagens de ficção e reais, vivas e mortas

Leia o primeiro capítulo de O CLUBE DOS ONIPOTENTES, que você pode adquirir no Clube de Autores, na amazon.com.br e na amazon.com.

NAQUELE início de noite, quente e seco, um sabiá cantava com vigor em algum galho do majestoso ipê-amarelo, que tinha cerca de 30 metros de altura e 60 centímetros de diâmetro, e dourava, naquele primeiro dia da primavera, a frente do casarão. A casa lembrava um navio todo iluminado, ancorado nas imediações do Parque Ecológico Península Sul, na QL 12 do Lago, quadra mais conhecida como Península dos Ministros. A luz que saía da mansão vazava entre as árvores, palmeiras imperiais, uma grande mangueira, abacateiro, jambeiro, goiabeira, cajueiro, primaveras, jasmineiros, roseiras e o pau d’arco. A dona da casa, a magnata das telecomunicações Ana Castelo Branco Sá Dourado, ia receber dois convidados para um jantar restrito.

Ana Sá, viúva do bilionário José Clodovil Rosa Dourado, estava à frente de um império empresarial composto de uma construtora, incorporadora e imobiliária, mais de mil imóveis em Brasília, incluindo edifícios inteiros; uma pequena empresa aérea, Céu de Brigadeiro; hotéis em várias cidades do país; uma fazenda em Minas Gerais, uma em Goiás e uma no Marajó/PA, esta, herdada da sua mãe, Maria Castelo Branco, e onde criava búfalos e produzia queijo de leite de búfala, além de plantar e exportar açaí; o jornal diário Correio do Brasil e a revista semanal Excelência, ambos com circulação nacional; a TV Brasil, aberta, e um canal a cabo, TV Brasil Notícias; e as rádios Brasil, uma de ondas curtas, outra de ondas médias e seis FMs.

O dr. Clodovil a chamava de “o segundo piloti do grupo”, e seu filho, Alex, a chamava de “meu piloti”. Nasceu em 20 de julho de 1969 no Edifício Chopin, em Copacabana, marcada pela chegada do homem à Lua, o que despertou seu interesse por voos espaciais e a influenciou a fazer o bacharelado em física, com especialização em astrofísica, assim como Alfredo, diretor corporativo do Grupo Sá Dourado. Era obsedada pela ideia de entrar na indústria aeroespacial e colocar em órbita seus próprios satélites de comunicação. Passou a infância no apartamento do Edifício Chopin, ao lado do Belmond Copacabana Palace, “o mais tradicional hotel do Rio de Janeiro, inaugurado em 1923, com projeto arquitetônico de Joseph Gire, que se inspirou no Hotel Negresco, de Nice, e no Hotel Carlton, de Cannes, na França”. A Avenida Atlântica, a Princesinha do Mar, como Copacabana é conhecida, e Angra dos Reis, onde passou parte da infância, eram os locais mais vivos na sua memória. Se Brasília, para ela, representava o lugar onde nasceram seu filho e seu império, razão pela qual sentia gratidão sagrada pela cidade, o Rio de Janeiro e Angra dos Reis imperavam na sua memória, vivificando-a, não como nostalgia, mas como raízes. Às vezes, sentia-se junto aos portugueses que desbravaram o Rio e Angra, afinal, a história do Rio de Janeiro estava ligada à origem da sua família no Brasil. E já até tivera muitos sonhos com isso, no mínimo estranhos, pois pareciam tangíveis demais. Porém, isso não era privilégio seu, pois Alex herdara esse mesmo tipo de mediunidade. O fato é que sonhara várias vezes na companhia dos seus antepassados, inclusive em plena guerra.

Assim que o dr. Clodovil morreu, Ana Sá assumiu a presidência do império e o diretor de tecnologia, Alfredo, um velho amigo do dr. Clodovil e uma espécie de historiador do Grupo Sá Dourado, graduado em física e mestre em astrofísica, acumulou a diretoria corporativa. Alfredo era carioca, um negro grande, de mais ou menos 1,90, viúvo; tinha uma filha, casada, que já lhe dera um netinho e morava na cidade do Rio de Janeiro. O dr. Clodovil e Alfredo se conheceram ainda na juventude, no Rio, e foram juntos para Brasília. Eram como irmãos. O dr. Clodovil sempre procurou proteger seu irmão adotivo, porque, para muita gente, a pele negra é uma doença contagiosa. Alfredo funcionava como o CEO do Grupo Sá Dourado, o que deixava Ana Sá despreocupada, ocupando-se basicamente com a filosofia e estratégia do conglomerado das empresas da família. Tinha duas obsessões. Uma delas era a reabertura de cassinos; a outra, foguetes. Morava parte do tempo em Brasília por uma questão prática, mas seu coração estava no Rio de Janeiro, que surgiu da família Sá, de origem judaico-sefardita, convertida pela Inquisição (e quem ela não convertia?) ao catolicismo durante a Idade Média, entre 1492 e 1496, trocando seus sobrenomes judaicos, aramaicos e árabes para o castelhano e o português. A maioria dos judeus optou por adotar a transliteração de seus sobrenomes, mantendo o radical da palavra. Também alguns ramos dos ancestrais da família Sá fugiram da Espanha e se estabeleceram no Marrocos, norte da África. Outros foram para o Oriente Médio, ou se estabeleceram na Itália – Roma, Veneza e Livorno. Sá significa grande sala ou hall, a entrada principal de uma casa. Não por acaso, Ana Sá considerava o Rio de Janeiro, a Cidade Maravilhosa, o hall do Brasil.

Em 1 de janeiro de 1502, o explorador português Gaspar de Lemos descobriu a Baía da Guanabara, palavra de origem tupi-guarani, guaná-pará, que significa “seio do mar”, devido ao formato da baía, rica em peixes, o leite do mar. A região era ocupada por povos de língua tupi procedentes da Amazônia, um dos quais os tamoios, conhecidos também como tupinambás. Meio século depois, em 1 de novembro de 1555, franceses, comandados por Nicolas Durand de Villegagnon, se instalaram na ilha de Sergipe, atual ilha de Villegagnon, na Baía da Guanabara, e se aliaram aos tupinambás, estabelecendo ali uma colônia.

Mem de Sá, terceiro governador-geral do Brasil, de 1558 a 1572, nasceu em Coimbra, Portugal, em 1500, e faleceu em Salvador, Bahia, Brasil, em 2 de março de 1572. Chegou a Salvador em 28 de dezembro de 1557 e tomou posse do governo em 1558. Em luta contra os brasileiros que queriam a independência perdeu o filho, Fernão de Sá, na Batalha do Cricaré, na Capitania do Espírito Santo. Em 1560, os portugueses se aliaram a um grupo indígena rival dos tupinambás, os temiminós, com os quais atacaram e destruíram a colônia francesa. Em 1 de março de 1565, tropas portuguesas enviadas por Mem de Sá, sob o comando do seu sobrinho, Estácio de Sá, instalaram-se entre o Morro Cara de Cão e o Morro do Pão de Açúcar, embrião da Fortaleza de São João, sítio a que chamaram cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

São Sebastião, francês nascido em 256, de Narbonne, no sul da França, e cidadão de Milão, morreu em 286, perseguido pelo imperador romano Diocleciano. Sebastião, que deriva do grego sebastós, divino, venerável, era um soldado que se alistou no exército romano por volta de 283. Querido dos imperadores Diocleciano e Maximiano, que ignoravam tratar-se de um cristão, designaram-no capitão da sua guarda pessoal, a Guarda Pretoriana. Em 286, devido à conduta branda de Sebastião para com os prisioneiros cristãos, Diocleciano julgou-o traidor, ordenando sua execução por meio de flechas. Dado como morto e atirado em um rio, Sebastião foi resgatado e socorrido por Irene, Santa Irene, e se apresentou novamente diante de Diocleciano, que ordenou sua morte por espancamento e seu corpo atirado no esgoto público de Roma. Luciana, Santa Luciana, resgatou o corpo, limpou-o, e sepultou-o nas catacumbas romanas.

Pois bem, Sebastião era também o rei-menino de Portugal e Algarves. Em 1567, tinha 9 anos, e sua avó, a rainha viúva Catarina da Áustria, foi a responsável pelo início da construção da cidade do Rio de Janeiro. Estácio de Sá, assim como São Sebastião, foi alvejado por flechas, no caso de Estácio de Sá, uma flexa envenenada que lhe vazou um olho, disparada pelos índios tamoios, aliados dos franceses, no dia 20 de janeiro, e morreu em 20 de fevereiro. Diz a lenda que o próprio São Sebastião lutou, de espada na mão, ao lado dos portugueses, contra os franceses, na batalha de Aruçumirim, em 20 de janeiro de 1567, no mesmo dia em que Estácio de Sá foi flechado. A batalha aconteceu onde hoje é a Glória. Há registro de que 600 tamoios e 5 franceses morreram na batalha e 10 franceses foram enforcados no dia seguinte, 21 de janeiro. Os restos mortais de Estácio de Sá repousam na igreja de São Sebastião, na rua Haddock Lobo, bairro da Tijuca, sob a guarda dos Barbadinhos, a Ordem dos Frades Menores Capuchinhos, ramo da primeira ordem de São Francisco de Assis.

Na luta pela hegemonia portuguesa, Estácio de Sá contou com as tropas da capitania de São Vicente e com os Temiminós, da capitania do Espírito Santo, comandados por Araribóia, que foi recompensado com sesmaria, onde fundou a vila de São Lourenço dos Índios, que deu origem a Niterói.

Com a derrota dos franceses e tamoios no morro da Glória e na ilha do Governador, os portugueses, sob o comando de Mem de Sá, mudaram a povoação para um morro próximo à ilha de Villegagnon, o Morro do Descanso, ou Alto da Sé, ou Alto de São Sebastião, e, finalmente, Morro do Castelo, local privilegiado para vigiar a entrada da Baía da Guanabara, e lá construíram a cidade, murada e com a Fortaleza São Januário. O local contava com a Casa do Governador, a Câmara, a Cadeia, os Armazéns, o Colégio e as Igreja dos Jesuítas e Igreja de São Sebastião. Passado um certo tempo, a população da cidade começou a ocupar a área entre outros três morros:  São Bento, Santo Antônio e Morro da Conceição. O acesso ao Morro do Castelo era feito pela Ladeira da Misericórdia, primeira via pública da cidade, e depois também pelas Ladeira do Castelo, Ladeira do Poço do Porteiro e Ladeira do Seminário. Fora do Morro do Castelo foram erguidos o Colégio dos Padres Jesuítas da Companhia de Jesus, instalações que depois deram lugar ao Hospital Militar da Corte, e o Observatório Nacional, pois não demorou para que o Morro do Castelo ficasse pequeno demais para a expansão da cidade.

O sucessor de Mem de Sá, D. Luís de Vasconcelos, enviado para o Rio em 1570, foi morto por piratas franceses. Assim, o governo ficou sob a responsabilidade de outro sobrinho de Mem de Sá, Salvador Correia de Sá. Em 1763, o ministro português Marquês de Pombal transferiu a sede da colônia de Salvador para o Rio de Janeiro, e, em 1808, fugida de Napoleão Bonaparte, a corte portuguesa segue para o Rio, que se torna, então, capital do Império Português, a única cidade no mundo a sediar um império europeu fora da Europa. Do dia para a noite o Rio inchou. O estabelecimento da família real portuguesa na cidade atraiu, só naquele ano de 1808, 15 mil nobres e gente da alta sociedade portuguesa. Nesse meio tempo descobriu-se ouro, em abundância, em Minas Gerais, e o porto mais próximo para o transporte desse ouro para Portugal era o Rio de Janeiro. Construiu-se, então, uma estrada ligando as minas ao Rio.

Em 1922, o prefeito Carlos Sampaio, pensando em urbanizar a cidade para a Exposição Internacional do Centenário da Independência, arrasou o Morro do Castelo, utilizando suas terras para aterrar parte da Urca, da Lagoa Rodrigo de Freitas, do Jardim Botânico e onde é hoje o Aeroporto Santos Dumont. O Castelo é o coração do Rio de Janeiro, juntamente com a Avenida Rio Branco e a Cinelândia. Acredita-se que no local do Morro do Castelo durma um fabuloso tesouro em uma galeria secreta, escondido pelos Jesuítas. Seriam 67 toneladas de ouro, além de uma imagem em tamanho natural de Santo Inácio de Loyola, toda de ouro, com olhos de brilhantes e dentes de pérolas. Não se sabe se o tesouro é verdadeiro, mas as galerias já foram identificadas. Quem quiser levar a fundo essa informação deve pesquisar no Arquivo Público e nos arquivos do setor de engenharia da prefeitura da cidade. Em 1960, o presidente Juscelino Kubitscheck transfere a capital para Brasília e o Rio é transformado em cidade-estado, com o nome de Guanabara, até 15 de março de 1975, quando ocorreu a fusão com o estado do Rio de Janeiro.

Ana Sá achava sua cidade natal a mais bonita do mundo. Vitrine cultural e maior destino turístico internacional do Brasil, da América Latina e de todo o Hemisfério Sul, o Rio é a segunda maior metrópole do país, atrás somente de São Paulo. É a cidade brasileira mais conhecida no exterior, a Cidade Maravilhosa, um espetáculo, histórico, cultural e geográfico, permanente. O litoral da cidade do Rio de Janeiro tem 197 quilômetros de extensão e mais de 100 ilhas. A cidade começou com os portugueses expulsando os franceses, mas foi graças a um francês, Napoleão Bonaparte, que o Rio de Janeiro, e o Brasil, se desenvolveram. Bonaparte invadiu Portugal, em 1808, mas antes que isso acontecesse a corte portuguesa se mandou para o Rio de Janeiro. Aí a história da cidade mudou de rumo, graças à aristocracia portuguesa, que não precisou mais gastar seu ouro e pedras preciosas, extraídos do sertão brasileiro, somente em Portugal, pois passou a investir no Rio de Janeiro e no resto do país.

Mais ao sul do estado do Rio de Janeiro, a região de Angra dos Reis era habitada pelos tamoios/tupinambás quando a expedição portuguesa comandada por Gonçalo Coelho chegou à região, em 6 de janeiro de 1502. Como era o dia da visita dos Três Reis Magos ao menino Jesus batizaram-na de Angra dos Reis. A primeira expedição de colonização, a mando da Coroa de Portugal, iniciou a povoação no continente, em 1530, mas só a partir de 1556 é que os colonizadores, vindos dos Açores, se estabeleceram na enseada, onde, em 1593, fundaram uma povoação com o nome de Ilha Grande, elevada, em 1608, à categoria de vila, com a denominação de Vila dos Reis Magos da Ilha Grande, depois Vila de Angra dos Reis e, finalmente, Angra dos Reis. Entre o fim do século XVIII e início do século XIX, Angra se transformou em importante porto, na foz do rio Mambucaba, exportador de café e importador de escravos para o Vale do Paraíba. Os portugueses começaram cultivando cana-de-açúcar na região, que, aos poucos, começou a servir como ponto de ligação entre as cidades do Rio de Janeiro e Santos/SP, e depois como porto de exportação e importação ligado a São Paulo e Minas Gerais. Angra contava, ainda, com a indústria da pesca e beneficiamento de baleia.

Contudo, toda essa prosperidade era baseada na escravidão de africanos e a Inglaterra, já então uma potência industrializada, forçou o Império Português a abandonar o tráfico de escravos. De 1839 a 1842, a marinha britânica apreendeu inúmeros navios negreiros, deixando furiosos os grandes proprietários de escravos e de terras, especialmente os cafeicultores, além dos traficantes. Com relação aos traficantes, era como se hoje os britânicos arrasassem os traficantes brasileiros de drogas. Segundo o historiador Caio Prado Júnior, só em 1848, alcançara-se um total de 22.849 africanos desembarcados no país. Em setembro de 1850, foi promulgada a Lei Eusébio de Queirós, proibindo a entrada de africanos escravizados no Brasil. Em 1871, a Lei do Ventre Livre libertou todas as crianças nascidas de mães escravas a partir de então. Em 1872, havia cerca de 1.600.000 escravos registrados no Brasil. Em 1885, a Lei dos Sexagenários tornou livres todos os escravos a partir dos 60 anos de idade. E em 13 de maio de 1888, foi sancionada a Lei Áurea, que extinguiu a escravidão no Brasil, assinada pela princesa Isabel de Bragança, regente do Império Português, pois seu pai, o imperador Pedro II, se encontrava em viagem ao exterior. Mas, em vez de pagar os negros, latifundiários optaram por pagar imigrantes europeus para a mão de obra. Os negros foram entregues à própria sorte, à sanha racista dos brancos.

O povoado de Angra dos Reis foi elevado ao status de freguesia em 1808, e, em 1835, de cidade. Mas, em 1872, após a ligação ferroviária entre São Paulo e Rio de Janeiro, o porto entrou em decadência, agravada, em 1888, com a libertação dos escravos, o que levou à decadência das fazendas de café da região. Em 1938, foi construída uma estrada de ferro para Minas Gerais e o porto foi reativado. A instalação do Estaleiro da Verolme, nos anos 1960, estimulou a economia local, e, nos anos 1980, foram instalados no município a Usina Nuclear de Furnas, Angra I, e o Terminal da Petrobrás, e, já no século XXI, Angra II, a Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto, no distrito de Mambucaba. Em 1969, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) tombou o conjunto arquitetônico e paisagístico da vila de Mambucaba, que significa passagem ou abertura, pois subindo o rio Mambucaba se alcançava a trilha usada pelos índios para ultrapassar a Serra do Mar. Hoje, além da pesca, atividades portuárias e a indústria naval, por meio do estaleiro Keppel Fels, antigo Verolme, a grande atividade econômica de Angra é o turismo, principalmente na Ilha Grande. Com área de 816,3 quilômetros quadrados, continental e insular, com 365 ilhas, uma para cada dia do ano, a maior delas a Ilha Grande, Angra conta com oito baías e duas mil praias em mar azul turquesa e águas tépidas, areia branca e fina, e sol praticamente o ano todo, temperatura tropical e sem cataclismos. A comida é saborosa, brasileira, e a cultura é rica, um cadinho étnico com três elementos: o europeu, o indígena e o africano. Por estrada, fica a 152 quilômetros, duas horas do Rio de Janeiro.

Entre as lembranças da juventude, uma das que mais estavam conservadas no consciente de Ana Sá era o rio Carioca, um riacho que nasce na Floresta da Tijuca, passa pelos bairros de Cosme Velho, Laranjeiras, Catete e deságua na Baía de Guanabara, na Praia do Flamengo, junto à estação de tratamento de efluentes. Atualmente, a maior parte de seu curso é subterrânea. O nobre espanhol Dom Juan Francisco de Aguirre, que esteve no Rio em março de 1782, registrou que os naturais da cidade passaram a ser apelidados de “cariocas” devido ao seu deslumbramento com o Aqueduto da Carioca: “Foi esse deslumbre pelo seu aqueduto que fez com que os naturais desta cidade ficassem conhecidos como cariocas, nome da fonte de onde vem a água que abastece a região. Logo que estabelecem contato com um europeu, os cariocas apressam-se em dizer-lhe que essa água tem o poder de enfeitiçá-lo e de fazê-lo fixar residência na cidade”.

Em 1783, decreto do vice-rei do Brasil, D. Luiz de Vasconcelos, criou novo gentílico, “mais civilizado”, para os nascidos no Rio de Janeiro: “fluminense”, do latim “flumen”, que significa “rio”. Em 1834, Ato Adicional à Constituição de 1824 separava o município do Rio de Janeiro da Província do Rio de Janeiro, constituindo um Município Neutro, com administração vinculada diretamente à corte imperial brasileira. Como carioca é um termo indígena, os membros da Corte torceram o nariz e optaram por se intitularem fluminenses, mas o povo continuava usando o gentílico carioca.

Após a Proclamação da República do Brasil, em 1889, o Município Neutro foi transformado em Distrito Federal e a província do Rio de Janeiro no estado do Rio de Janeiro. Em 1960, com a mudança da capital do país para Brasília, o antigo Distrito Federal se tornou estado da Guanabara, que adotou então oficialmente a designação carioca pela primeira vez para seus filhos. Com a fusão dos estados da Guanabara e do Rio de Janeiro, em 1975, a opção do gentílico oficial do novo estado foi fluminense, reduzindo-se carioca a gentílico municipal. Mas os fluminenses preferem a designação carioca, especialmente na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, Costa Verde e Região dos Lagos, e, desde 2000, o movimento Somos Todos Cariocas busca o reconhecimento de carioca como gentílico oficial do estado do Rio de Janeiro, 43.780,172 quilômetros quadrados e litoral de 636 quilômetros de extensão, a paisagem mais exuberante da Terra.

Assim, era natural que houvesse cassinos no Rio. Ana entendia que a clandestinidade do jogo se constituía em uma estupidez tão grande quanto o moralismo pelo moralismo. O controle do jogo pelo estado, e não pelo crime organizado, gera impostos, ao mesmo tempo em que o estado fiscaliza toda a indústria do jogo, uma das mais rentáveis que existe em todo o mundo. Sir Leonard Woolley descobriu, em 1920, dados em forma de pirâmide em túmulos reais da civilização sumeriana de Ur. Descobriu-se também na tumba do faraó Tutankamon dados em formatos de hastes com as faces numeradas de 1 a 4. Sumérios e assírios usavam dados de seis faces, feitos de osso, moldados de modo que pudessem cair em quatro posições diferentes. No Império Romano, jogavam o “hazard”, do árabe “al-azar”, que significa “dado”, e em inglês e francês, “risco” ou “perigo”, introduzido na Europa com a Terceira Cruzada. Jogos de carta apareceram por volta do século IX, na China, e no século XIV na Europa. Quanto à loteria, os primeiros registros são os cartões Keno dos chineses da Dinastia Han, entre 205 e 187 aC. Já as primeiras loterias europeias também começaram no Império Romano. O pôquer e a roleta apareceram no século XIX.

O jogo é legal em quase todos os países civilizados do mundo, como Alemanha, Áustria, Bélgica, Canadá, Espanha, Estados Unidos, França, Grécia, Holanda, Inglaterra, Itália, Mônaco, Portugal, Suíça, Uruguai e até na China, uma ditadura totalitária – a Região Administrativa Especial de Macau, que antes de passar para mãos chinesas pertencia a Portugal, é o Eldorado dos jogadores, a Meca do jogo, desbancando Las Vegas como “capital mundial dos cassinos”. Os mais de 100 cassinos de Las Vegas faturam 8 bilhões de dólares por ano e só uma de suas maiores redes conta com 50 mil empregados.

No Brasil, os cassinos surgiram com a independência de Portugal, proclamada em 1822, e durou até 1917, quando foram proibidos pelo presidente Venceslau Brás. Voltaram a ser legalizados em 1934, por Getúlio Vargas, e novamente proibidos, em 30 de abril de 1946, pelo presidente Eurico Gaspar Dutra. Havia então no Brasil uma indústria de 70 cassinos e mais de 40 mil trabalhadores regularmente empregados, e que foram para o olho da rua. Em 1993, foram liberadas casas de bingo e máquinas caça-níqueis, que voltaram a ser proibidas em 2004. O jornalista e presidente do Instituto Brasileiro Jogo Legal (IJL), Magno José Santos de Sousa, afirma que o Brasil tem uma das legislações mais atrasadas do mundo relativa ao jogo de azar, e filosofa: a clandestinidade não anula a prática. O Brasil é um dos países em que mais se joga no mundo, movimentando, na virada do século, cerca de 5 bilhões de dólares por ano, clandestinamente. Só o jogo do bicho movimenta 10 bilhões de reais por ano, sem pagar nenhum centavo de imposto e sem gerar empregos formais. Mas estudo do Instituto Brasileiro Jogo Legal (IJL)/BNLData indica que o mercado de jogos no Brasil tem potencial de arrecadar 15 bilhões de dólares por ano, deixando para o erário 4,2 bilhões de dólares, além de 1,7 bilhão de dólares em outorgas, licenças e autorizações, isso, sem somar investimentos e geração de empregos na implementação das casas de apostas. Além disso, seriam gerados mais de 658 mil empregos diretos e mais de 619 mil empregos indiretos.

“A prática dos jogos de azar é socialmente aceita e está arraigada nos costumes da sociedade. O jogo do bicho existe há mais de um século (desde 1892), tendo se tornado contravenção em 1941. Ele faz parte da cultura, já se tornou um folclore na nossa sociedade. A lei penal não tem o poder de revogar a lei econômica da oferta e da procura. Se a demanda não for suprida pelo mercado lícito, será suprida pelo mercado ilícito” – disse o sociólogo francês Loïc Wacquant.

Ana Sá pretendia criar um cassino no seu Hotel Atlântico, em Copacabana, no Posto 6, onde já funcionava uma casa de shows, cinema de arte, teatro e galeria de arte, tudo com agenda para o ano todo, e outro cassino em outro hotel da rede em Angra dos Reis.

Além do turismo, seu outro grande interesse empresarial eram as telecomunicações. Descendia também, pela parte da mãe, da nobreza portuguesa, a família Castelo Branco, do Pará, segundo estudos que fizera da sua genealogia. Sua linhagem paraense vinha de Francisco Caldeira Castelo Branco (1566-1619), capitão-mor português, fundador, em 12 de janeiro de 1616, da cidade de Santa Maria de Belém do Grão-Pará, a “capital da Amazônia”. Francisco Caldeira nasceu no Crato, distrito de Portalegre, Portugal, e se chamava Francisco Caldeira de Castelo Branco. Teria nascido na localidade de Castelo Branco, em Portugal, ou, segundo o Arquivo Histórico Ultramarino, em Lisboa.  O fato é que, de 1612 a 1614, foi capitão-mor da Capitania do Rio Grande, que abrangia terras do atual estado do Rio Grande do Norte, além de trechos dos atuais estados do Ceará e da Paraíba. Em 1615, comandou uma expedição militar para expulsar franceses, holandeses e ingleses estabelecidos no Grão-Pará. Em 12 de janeiro daquele ano, desembarcou na enseada da Baía do Guajará, conhecida como Paraná-Guaçu pelos Tupinambás, e, numa pequena elevação, ergueu um forte de madeira, coberto de palha, que denominara Presepe (Presépio), mais tarde chamado Forte do Castelo. O entorno do forte ficou conhecido como Feliz Lusitânia. Em Portugal, deixou como herdeira Francisca de Castelo Branco, que, em 11 de fevereiro de 1623, reivindicou terras no Pará.

Naquela noite, Ana Sá recebeu o encarregado de negócios da embaixada dos Estados Unidos no Brasil, William Popp, e o ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, tenente-coronel da Força Aérea Brasileira (FAB), Marcos Pontes, engenheiro e o primeiro astronauta brasileiro, sul-americano e lusófono; foi ao espaço na Missão Centenário, em referência aos cem anos do voo de Santos Dumont no avião 14 Bis, em Paris, no dia 23 de outubro de 1906. A missão foi fruto de um acordo entre a Agência Espacial Brasileira (AEB) e a Agência Espacial da Federação Russa (Roscosmos), justamente com o objetivo de enviar o primeiro brasileiro ao espaço, a bordo da nave Soyuz TMA-8, da Roscosmos, lançada em 30 de março de 2006 no Centro de Lançamento de Baikonur, no Cazaquistão, com destino à Estação Espacial Internacional (ISS), levando oito experimentos científicos brasileiros para execução em ambiente de microgravidade. Retornou em 8 de abril, a bordo da Soyuz TMA-7. De 2011 a 2018, trabalhou como embaixador da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial.

Ana Sá estava sondando a instalação de uma base de lançamento de foguete no cabo Maguari, município de Soure, ilha de Marajó, Pará, onde possuía um mundo de terras e de búfalos. O cabo Maguari é talvez o melhor ponto do planeta para o lançamento de foguetes. Situado praticamente na Linha Imaginária do Equador, afastado de aglomerações humanas e defronte para o oceano Atlântico, área de escape por excelência em caso de acidente, localiza-se no maior arquipélago marítimo-fluvial do mundo, o Marajó, formado por cerca de 2.500 ilhas, mas que, na verdade, ninguém sabe quantas são, pois algumas surgem de repente, ou somem; a maior delas, homônima, mede 42 mil quilômetros quadrados, quase do tamanho da Suíça, constituindo-se na maior ilha na costa do Brasil e a maior ilha marítimo-fluvial do planeta. O arquipélago é banhado ao norte e a oeste pelo delta do rio Amazonas, o maior do mundo; ao sul, pelo rio Pará, que é um canal formado pelas águas de inúmeros rios, principalmente o Amazonas e o Tocantins, e que desemboca, a sudeste, na baía de Marajó; e, a leste, pelo Oceano Atlântico. A cidade de Soure fica a 80 quilômetros de Belém, a capital do Pará, o estado mais emblemático da Amazônia, pois encerra nele amostras de todo o Trópico Úmido.

Ana pretendia fabricar foguetes, satélites e componentes no Distrito Industrial de Barcarena, com energia hidroelétrica da usina de Tucuruí, transportá-los de balsa do Porto de Vila do Conde, o maior do Pará, para Soure, e lançá-los do cabo Maguari. A primeira série de foguetes já tinha até nome: Jacuraru. O topônimo do município de Soure tem origem na vila homônima no distrito de Coimbra, em Portugal, a qual os romanos chamavam de Saurium, “lagarto”. Os marajoaras apreciam, na panela, jacuraru, uma espécie de camaleão comum nas ilhas. Agora, começariam a enviar jacuraru para o espaço.

Antes que o próprio homem se aventurasse no espaço sideral, enviou animais. Segundo registros, os experimentos começaram em 1783, na França. Os irmãos Montgolfier, que inventaram o balão de ar quente, enviaram uma ovelha, um pato e um galo para o espaço, a bordo de um balão; os animais regressaram ilesos à Terra. Em fevereiro de 1947, os americanos embarcaram várias moscas-das-frutas em um foguete V-2, em voo de poucas horas e que retornou em segurança à Terra; queriam saber o efeito da radiação em altas altitudes. Em 1949, enviaram o macaco Albert II, seguido de aranhas, ratos e sapos. Mas em órbita, mesmo, os pioneiros foram os russos, que, em 3 de novembro de 1957, puseram uma cadela, chamada Laika, a bordo da nave Sputnik; Laika morreu logo após o início da viagem, de estresse.

Se a Alemanha não fosse derrotada na Segunda Guerra Mundial seria ela a iniciar a corrida espacial. Quando os aliados venceram a guerra, os Estados Unidos e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) trataram de capturar a maioria dos engenheiros alemães do projeto Míssil V-2, que começou em 1943. O V-2, Vergeltungswaffe 2, Arma de Vingança 2, foi o primeiro míssil terra-terra a combustível líquido operacional do mundo, contando com controle de voo automático. Aos Estados Unidos coube a sorte de capturar Wernher Magnus Maximilian von Braun (1912-1977), polonês de Wirsitz, província de Posen, hoje chamada Wyrzysk, que já foi parte da Prússia e do Império Alemão. Braun foi o principal responsável pelo desenvolvimento dos foguetes V-2 na Alemanha Nazista e pelo Saturno V, que levou as naves Apollo para a Lua.

Mas coube à Rússia pôr o primeiro homem no espaço, Yuri Gagarin (1934-1968), em voo orbital de 1 hora e 48 minutos, a bordo da nave Vostok 1, em 12 de abril de 1961. É dele, nesse voo, a célebre frase: “A Terra é azul”, e também uma frase comunista: “Olhei para todos os lados, mas não vi Deus”, certamente para agradar a Nikita Khrushchov. O foguete que levou a Vostok 1 foi o Sputnik, graças ao talento do engenheiro soviético Sergei Korolev, então engenheiro-chefe do programa espacial soviético; foi ele que conseguiu convencer Nikita Khrushchov, o então kzar da URSS, a investir no espaço. Ele queria levar o homem à Lua.

Os americanos deram uma resposta quatro meses depois do lançamento do Sputnik 1, em 31 de janeiro de 1958, com seu primeiro satélite, o Explorer I, seguido, tanto pelos Estados Unidos quanto pela União Soviética, por vários satélites, de comunicação, meteorológicos e espiões, além do envio de sondas para satélites naturais e planetas do sistema solar, e, finalmente, para o espaço interestelar. Em julho de 1958, os americanos criaram a National Aeronautics and Space Administration (Nasa), Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço, a agência espacial dos Estados Unidos, com a missão de coordenar a exploração do espaço sideral.

A Apollo 11 concretizava um objetivo estabelecido em 25 de maio de 1961 pelo presidente John Kennedy no Congresso dos Estados Unidos: “Antes de esta década acabar, vamos aterrissar um homem na Lua e retorná-lo em segurança para a Terra”. A coisa começou com os projetos Mercury, Gemini e Apollo. Para lançar o foguete Saturno, os americanos construíram o Centro Espacial John Kennedy, uma base da Força Aérea americana no Cabo Canaveral, ou Cabo Canavial, na Flórida, onde havia um farol em 1843. Trata-se da região da costa leste americana mais próxima do Equador e mais distante de cidades. No Natal de 1968, Frank Borman, James A. Lovell Jr. e William A. Anders entraram em órbita na Lua, e, em 20 de julho de 1969, Neil Armstrong e Buzz Aldrin alunissaram no módulo lunar Eagle. Seis horas depois do pouso, já no dia 21, Armstrong desembarcou, seguido, vinte minutos depois, por Aldrin. Ambos ficaram duas horas e quinze minutos fora do módulo e coletaram 21,5 quilos de solo lunar. O astronauta Michael Collins ficou controlando o módulo de comando Columbia na órbita da Lua durante as 21 horas e meia na ausência de Armstrong e Aldrin. A alunissagem foi mundialmente transmitida ao vivo pela televisão. Ao pisar na Lua, Armstrong disse: “É um pequeno passo para um homem, mas um passo gigante para a humanidade!” A Columbia foi lançada por um foguete Saturno V, no Centro Espacial John Kennedy, em 16 de julho; era a quinta missão tripulada do Programa Apollo da Nasa. Amerissaram no Oceano Pacífico em 24 de julho, após oito dias no espaço e um esforço de 20 bilhões de dólares, envolvendo 20 mil fábricas de peças e componentes e 300 mil trabalhadores. Foram cinco pousos na Lua, com o total de doze americanos passeando no satélite, onde fixaram uma placa: “Aqui, os homens do planeta Terra pisaram pela primeira vez na Lua. Julho de 1969. Viemos em paz, em nome de toda a humanidade”.

Como a Linha do Equador é o local de rotação mais veloz da Terra, o Jacuraru teria tudo para ampliar a fortuna dos Sá Dourado, assim como o PIB francês é ampliado por três foguetes lançados na base espacial em Kourou, no meio da selva, no Departamento Ultramarino francês, a Guiana Francesa: Ariane, Soyuz e Vega. O maior deles, o Ariane 5, foi criado em 1996, levando para o espaço alguns dos maiores satélites de telecomunicações e meteorologia do planeta. O projeto do Ariane 6, foguete de 62 metros de altura, desenvolvido para lançar espaçonaves ainda maiores do que as transportadas pelo Ariane 5, tem orçamento de 2,4 bilhões de euros, dinheiro dos países da Agência Espacial Europeia (ESA); mais barato e eficiente do que o Ariane 5. Cada lançamento do Ariane custa em torno de 100 milhões de dólares.

Mas uma nova geração de foguetes reduziu os custos. A SpaceX, Space Exploration Technologies, do bilionário Elon Musk, pode fazer a mesma coisa que o Ariane 5 dezenas de milhões de dólares mais barato. Os dois primeiros foguetes da empresa são os Falcon 1 e Falcon 9, homenagem à Millennium Falcon, de Star Wars, e sua primeira nave espacial é a Dragon, em homenagem ao filme Puff the Magic Dragon, tudo isso concretizado em apenas sete anos. Em setembro de 2008, o Falcon 1 fez história: tornou-se o primeiro foguete privado a colocar um satélite na órbita terrestre, e, em 25 de maio de 2012, a Dragon ancorou na Estação Espacial Internacional, tornando-se a primeira empresa privada a fazer isso.

O Brasil possui duas bases de foguetes: o Centro de Lançamento da Barreira do Inferno, em Natal/RN, e o Centro de Lançamento de Alcântara/MA, ambos na Região Nordeste. A Agência Espacial Brasileira (AEB) coordena o programa espacial desde 1994, pesquisando e desenvolvendo tecnologias para a produção de foguetes e satélites, mas o programa enfrenta um gargalo: tanto o centro de lançamento de foguetes do Rio Grande do Norte quanto o do Maranhão vêm sendo estrangulados; o do Rio Grande do Norte por especulação imobiliária e o do Maranhão por questões fundiárias, referentes a demarcações de terras quilombolas. Em 2011, o site WikiLeaks revelou um telegrama do Departamento de Estado americano para sua embaixada em Brasília, enviado em janeiro de 2009, com o seguinte teor: “Não apoiamos o programa nativo dos veículos de lançamento espacial do Brasil. Queremos lembrar às autoridades ucranianas que os EUA não se opõem ao estabelecimento de uma plataforma de lançamentos em Alcântara, contanto que tal atividade não resulte na transferência de tecnologias de foguetes ao Brasil”.

Enquanto Ana Sá focava a Base do Camaleão, Alex se interessava mais por ETs e objetos voadores não identificados (Ovnis), ou Ufos, na sigla em inglês. Até hoje, não há evidência científica para embasar a ideia da existência de uma raça extraterrestre e uma corrente de cientistas relaciona Ovnis a fenômenos atmosféricos ou a histeria. Mas para Alex a existência de incontáveis raças no Universo era ponto pacífico, pois essa certeza vinha de incansável pesquisa e, sobretudo, relatos de médiuns, além da ufologia casuística, largamente conhecida. A expressão disco-voador, por exemplo, vem do inglês flying saucer, pires voador, utilizada pela primeira vez pelo jornal Y East Oregonian, na edição de 25 de junho de 1947, durante entrevista com o piloto civil Kenneth Arnold, que acabara de passar pela experiência de ver nove objetos voadores em forma de pires, muito brilhantes, quando sobrevoava o Monte Rainier, nos Estados Unidos. Ele comparou os objetos a pires quicando sobre a água. O fato é que naves espaciais sempre foram avistadas e registradas em toda a história da humanidade. No Brasil, o mais importante registro da existência de Ovnis e ETs é a Operação Prato, conhecida popularmente como Chupa-Chupa, ocorrida na costa do Pará, com epicentro na ilha de Colares, estendendo-se a Belém e ao Marajó. Realizada oficialmente pela Força Aérea Brasileira (FAB), entre outubro e dezembro de 1977, acredita-se que continuou, secretamente, durante o ano de 1978, segundo indicam documentos oficiais.

O interesse de Alex, no entanto, era sobre a ufologia do ponto de vista espiritualista. No imaginário da maioria dos seres humanos os alienígenas são inimigos, mas, na teoria do astrofísico e médium brasileiro Laércio Fonseca, os seres extraterrestres são espíritos como os seres humanos; obedecem a um comando planetário e se locomovem pelo cosmos em velocidade quântica, manipulando diversos estados da matéria. Segundo o que Laércio Fonseca chama de Projeto Terra, a Humanidade começou a ser planejada por instâncias superiores há cerca de 4,5 bilhões de anos, e os seres humanos começaram a encarnar aproximadamente há 100 mil anos, vindos de outros projetos, dotados de livre arbítrio para agirem conforme suas consciências durante a experiência da jornada na matéria, rumo à consciência cósmica. A questão é que a ciência jamais conseguiu encontrar o espírito, voltando-se então para o átomo, o espaço, as estrelas, acreditando que toda a realidade está à sua volta. Nessa busca, acabou surgindo a competição e com ela o poder.

Que poder? Seria a capacidade do arbítrio, do mando, do autoritarismo, da soberania, do império? Na sua jornada na Terra, desde que começou a encarnar, o homem anda atrás de poder, de monopólio, principalmente econômico e militar; anda atrás de obter a dependência do outro. Thomas Hobbes organizou a ideia do poder ao analisar que a organização do Estado e dos poderes é um contrato social, ou constitucional, que substitui o estado de natureza; neste, domina a força física e a lei do mais forte, que Hobbes denomina de Mundo Cão ou Caos Social. E o poder dos corruptos, do crime organizado? E qual seria o poder máximo? O amor? Será o amor um poder, ou um estado de espírito? Qual seria o poder exercido pelos seres extraterrestres? – Alex perguntava-se, lembrando Laércio Fonseca: “É muito simples para um ET materializar-se entre nós, assim como o é para um espírito, mas isso contraria as normas do Projeto Terra; é o homem quem deve elevar sua consciência e deixar as trevas para alcançar essa realidade, não o contrário”. Isso não seria ir para dentro de si mesmo?

Mas uma coisa lhe parecia clara: os ETs não pousarão em uma praça e se apresentarão aos humanos; levarão muito tempo para se apresentarem, embora Alex acreditasse que eles estão entre nós, disfarçados de nós, desde sempre. Ora, não havia uma alma sequer na Terra e hoje estamos caminhando para os 8 bilhões. Logo, todos viemos de fora, de outro plano, e, segundo cálculos de Laércio Fonseca, pelo menos 5 bilhões de almas estão hoje na primeira encarnação na Terra. Diante disso, o plano físico parece o mais primitivo de todos os planos, o que significa dizer que a raça humana não conquistará o espaço fora do sistema solar com naves movidas pela tecnologia que conhecemos; só conhecerá o nosso sistema solar, como também outras galáxias, fora da matéria tal qual a conhecemos, condensada pela vida, nos seres biológicos, e pela força eletromagnética nos seres inanimados.

E como o plano espiritual se revelará à toda a Humanidade? Há um caminho: por meio dos nossos irmãos de planos superiores. O que requer um nível de preparação interior elevado, um estado amoroso – Alex ponderava. “Paz interior, harmonia com a natureza e coração aberto para as estrelas são as condições para um verdadeiro encontro. Quando uma pessoa muito importante está para nos visitar em nossas casas, nossa primeira atitude é a de limparmos tudo, enfeitarmos com flores, com perfumes, prepararmos o melhor jantar e darmos ao nosso ilustre visitante aquilo que possuímos de melhor. Assim também deve ser com nosso interior, quando um visitante ilustre está para chegar em nosso mundo. Portanto, vamos manter nosso edifício interno preparado para essa visita” – diz Laércio Fonseca, no seu livro Projeto Terra.

Alex pensava nisso enquanto olhava para a fauna que desfilava à sua frente quando foi apresentado a Bob Herman, assessor de William Popp. Acabaram engatando uma conversa em inglês. Herman era surpreendente. Lembrava um Baby Herman negro, nascido na Louisiana, formado em Literatura Americana e especializado em Literatura Ibero-Americana. E Alex era leitor voraz; tomou gosto por literatura com seu avô, Dorinato Kubitschek Dourado, que tinha na figura de João Guimarães Rosa o escritor máximo brasileiro. Com efeito, Guimarães Rosa criou uma das personagens de ficção femininas mais extraordinárias de toda a literatura brasileira, e mundial: Reinaldo, ou Diadorim, ou Maria Deodorina da Fé Bittencourt Marins, mulher travestida de homem, capaz de fazer quase qualquer coisa que um homem faz. Quando a TV Globo transpôs Grande Sertão: Veredas para a telinha, quem encarnou Diadorim foi Bruna Lombardi, uma das mais belas atrizes brasileiras, entre tantas e tantas beldades. Porém, quando se tratava de mulher, Alex estava mais para Capitu do que para mulheres ambíguas.

– Gosto muito de Machado de Assis – disse Bob, puxando papo exatamente para um terreno familiar a Alex.

– Trata-se do escritor mais emblemático do Brasil, por ser muito conhecido e mulato. Na escola, tanto no ensino fundamental como no médio, os professores costumam apresentar uma foto dele feita talvez com o propósito de disfarçá-lo, de maquiá-lo como branco, uma tentativa de esconder que a mestiçagem é base da etnia brasileira; somos, como você certamente sabe, um caldeirão étnico misturando três elementos: o europeu, o ameríndio e o africano. O resultado é o povo mais maravilhoso que há na face da Terra, um povo que não discrimina a cor da pele nem religiões. Há uma discriminação, mas superficial, aquela que é mais um impulso do que um abismo como na Inglaterra, por exemplo, e, por extensão, como nos Estados Unidos – Alex despejou.

Harold Bloom ouvia atentamente. Pensou um pouco e disse:

– Machado de Assis é o maior escritor negro de todos os tempos, certamente.

– Creio que sim. Maior do que os escritores negros americanos, porque Machado é o maior do Brasil, que, por sua vez, tem uma importância fundamental no concerto das nações. Somos importantes por quê? O nosso sincretismo, nosso potencial em produzir alimentos e nosso continente tropical nos fazem o país do Cruzeiro, a potencial pátria de uma nova humanidade. Machado também é emblemático porque nasceu no morro; era pobre, é claro. Estudou em escolas públicas, jamais frequentou universidade e foi funcionário público a vida toda. Mas, mesmo assim, fundou a Academia Brasileira de Letras. Os brasileiros gostam de academias. Acho que em cada uma das 5.570 cidades brasileiras há uma academia de letras; e seus membros se sentem tão importantes quanto Machado. Não sei o que os portugueses, que são os criadores do Brasil, acham de Machado; talvez achem que é mais um negro tentando dizer alguma coisa da senzala. Só não é conhecido mundialmente porque era brasileiro e escrevia em português. Se tivesse nascido, hoje, estaria ferrado. Entre os brasileiros de hoje, e não sei se sempre foi assim, fazer sucesso é uma ofensa pessoal. Não sei de onde vem essa inveja, mas é assim. Jorge Amado só fez sucesso porque foi ajudado pelo Partido Comunista, que é uma espécie de igreja: de um lado, os cardeais; do outro lado, a miudeza dos corruptos e a multidão de ingênuos. Amado era cardeal. Creio que o ponto mais alto de Machado é Dom Casmurro, romance que tem como sinopse o ciúme. Ou fofoca? Ciúme é um elemento muito forte na cultura brasileira. O que é ciúme? É possessividade, uma pessoa dona do outro; e é assim que é, todo mundo é dono do outro, aqui no Brasil. Contudo, Machado cria, em Dom Casmurro, senão a personagem feminina mais sensual de toda a literatura brasileira, o que eu identifico como a mulher carioca. O fato é que Capitu é uma personagem deliciosa, o embrião da carioca moderna, que mora ou frequenta Copacabana, Ipanema e o Baixo Leblon, é malemolente e tem olhos de ressaca do mar. Para muitos, Capitu simplesmente metia chifre no marido, com o melhor amigo dele, ou amigo da onça, como se dizia nos anos sessenta do século passado. Para outros tantos, Capitu era apenas objeto de fofoca, e seu marido, Bentinho, paranoico. A questão é que o brasileiro, como de resto o machão ibero-americano, se pela de medo de imaginar sua santa esposa sendo trabalhada por terceiros. Mas fale-me de Faulkner, o grande escritor americano – Alex pediu.

– William Faulkner usava a técnica do fluxo de consciência, também utilizada por James Joyce, Marcel Proust, Thomas Mann, Virginia Woolf. Foi ele que narrou, como nenhum outro escritor, a decadência do sul dos Estados Unidos, criando inclusive um condado imaginário, Yoknapatawpha. Ele também criava múltiplos pontos de vista simultaneamente e utilizava mudanças bruscas de tempo narrativo. Foi genial, genial! Hoje, meu país é muito diferente do país de Faulkner, que nasceu trinta anos após o Sul ter sido derrotado pelo Norte. O Sul, então, vivia sob a supremacia dos brancos de origem inglesa, protestantes, puritanos e coloniais. Antes de se tornar um dos maiores escritores de todos os tempos, foi um faz-tudo. Como era baixinho, media 1,65 metro, foi recusado pelo serviço militar americano, e, assim, se alistou na Força Aérea canadense. Depois, passou um ano na Universidade do Mississippi, em Oxford, onde estudou inglês, francês e espanhol. De lá, foi trabalhar em uma livraria em Nova York, mas logo voltou para Oxford, onde trabalhou como carpinteiro, pintor de parede e agente dos Correios. Seu primeiro livro foi de poemas, The Marble Faun, publicado em 1924. No ano seguinte, foi para Nova Orleans, onde conheceu e foi influenciado por Sherwood Anderson, escreveu artigos para jornais e revistas e publicou seu primeiro romance, Paga de Soldado, em 1926. Deixou Nova Orleans em 1929 e se estabeleceu em Oxford, onde se casou com Estela Oldham e publicou Sartoris, o primeiro romance passado em Yoknapatawpha. Aí, vieram alguns livros que granjeariam respeito da crítica, mas só começou mesmo a vender bem com Santuário, de 1931; porém, quando estava precisando muito de dinheiro conseguia grana em Hollywood, como roteirista. Acho que ele chegou ao seu maior apuro com O Som e a Fúria, de 1929, a história dos Compson, decadente família do Mississippi. Faulkner disse que esse romance surgiu a partir da imagem de uma garotinha, Candance, Caddy, com a calcinha suja de lama, trepada numa árvore, descrevendo para seus irmãos pequenos e para os empregados domésticos negros o funeral da sua avó. A trajetória de Caddy é contada por meio do ponto de vista de seus irmãos, como Benjamin, Ben ou Benjy, que é idiota. “Uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria”, do monólogo de Macbeth, de William Shakespeare, em um fluxo contínuo de passado e presente, com o ar gasto de tanto carregar sons. Quanto à fúria, é a da derrocada. O próprio cansaço. Quando a personagem Dilsey assume a narrativa ela diz que os brancos se cansam facilmente, enquanto ela tinha que fazer todo o trabalho pesado e envelhecia. Mas ela sabia que todos são iguais. Ela diz, abrir aspas: “Os brancos morrem também. A tua avó morreu que nem qualquer negro”. Fechar aspas. Porém o que mais me impressiona na obra de Faulkner é a transcrição para o papel do fluxo de pensamento. Ele faz isso em longos parágrafos, longos períodos, com pontuação irregular. É o tal fluxo de consciência de Proust e Joyce, o que exige, no mínimo, cumplicidade do leitor, além de muita concentração e mais ainda interesse, se não o leitor não irá adiante – disse Bob, ao longo de uma dose dupla de bourbon.

– No Brasil, temos um escritor desse nível, Dalcídio Jurandir, que, por acaso, e não existe acaso, nasceu em Ponta de Pedras, na ilha de Marajó. Ele é pouco conhecido, porque os paraenses, que é também o povo da ilha de Marajó, não são bons para aplaudir e vender seus próprios escritores, pelo que já observei. No seu livro mais emblemático, Chove Nos Campos de Cachoeira, publicado em 1941, Dalcídio cria personagens de carne, osso e alma. O personagem central do romance, o menino Alfredo, sonha em sair do Marajó e morar em Belém, sonho que ele reparte com um caroço de tucumã, que é um coquinho da Amazônia. Em contraste com Alfredo, seu irmão, Eutanázio, de 40 anos, é destituído de sonhos; não tem sequer um objetivo, nem sentido na própria vida. Vive em um mundo absurdo. Para completar sua miséria, a jovem Irene o despreza. E assim como fazia Faulkner, as personagens de ficção de Dalcídio povoam seus livros como fantasmas, ora em um, ora em outro, em épocas diferentes, às vezes com o mesmo nome. Enquanto Faulkner recria o sul dos Estados Unidos mergulhado em sangue coagulado, espirrado da negrura do preconceito, Dalcídio apresenta uma Amazônia suja de lama, caboclos, ou cabocos, com a alma amortecida por cachaça, da mesma forma que seu doce linguajar silencia no amortecimento da língua pelo espilantol, o princípio ativo do jambu, a emblemática erva do tacacá, que é uma comida de origem indígena. Mas a lama pode surpreender, pois dela pode sair o Saurium.

Ficaram em silêncio durante alguns segundos. Bob tomou mais um gole de bourbon. Parecia empolgado com o conhecimento literário de Alex.

– Preciso ler esse Dalcídio – disse.

– Foram publicados 15 romances dele; creio que conseguirei pelo menos metade, em Belém, onde uma editora, Cejup, deve ter acervo dele em estoque, pois editou a obra de Dalcídio, senão toda, mas quase toda.

– Maravilha!

– Como nunca entraram no mercado para valer, os livros de Dalcídio são raros, e desconhecidos, é claro. Ele é o tipo de escritor que deveria ser editado e distribuído em edições comentadas, mas, como eu disse, os paraenses não são bons para vender arte. Creio que haja vários trabalhos acadêmicos sobre Dalcídio, mas não chegam às livrarias. Aliás, pouco da produção acadêmica do Brasil, quanto mais da Amazônia, chega ao mercado. Dalcídio está naquele grupo de escritores clássicos, como William Shakespeare, Miguel de Cervantes Saavedra, Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, e todo esse pessoal que escreve em vernáculo; esse pessoal, como você disse, deve ser lido em edições comentadas, a menos que o leitor os conheça muito, ou se identifique muito com eles.

A conversa acabou bruscamente, pois William Popp chamou Bob.

– Vou providenciar para que os livros cheguem às suas mãos – disse Alex, meio gritando enquanto Bob se afastava, e se preparando para dar o fora também. Ele não pretendia ficar mais na festa porque aquela segunda-feira começara atípica, fazendo-o voltar a pensar em um assunto que surgiu na sua vida devido a uma adolescente georgiana escravizada pela máfia russa.