domingo, 26 de abril de 2026

Por onde anda G. Dias? O elo do golpe?

General G. Dias (foto), Hugo Carvajal e Nicolás Maduro: bombas
de Hiroshima ambulantes (Geraldo Magela/Agência Senado)

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 26 DE ABRIL DE 2026 – O segundo turno das eleições presidenciais de 2022 foi realizado no dia 30 de outubro, último domingo do mês. Estavam aptos a votar, no país e no exterior, 156,4 milhões de brasileiros. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), venceu a chapa Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), e Geraldo Alckmin, do Partido Socialista Brasileiro (PSB), respectivamente presidente e vice, com 60.345.999 votos, e empossada em 1 de janeiro de 2023, para um mandato de quatro anos, duas décadas depois de Lula chegar ao poder e para cumprir um terceiro mandato, aos 77 anos, e já afirmando que Bolsonaro, ou qualquer outro candidato de Direita, não ganharia dele, em 2026. 

Lula venceu em Alagoas, Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Minas Gerais, Paraíba, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte, Sergipe e Tocantins. 

O candidato derrotado, Jair Messias Bolsonaro, do Partido Liberal (PL), que teve 57.797.847 votos, ganhou em mais unidades federativas do que Lula da Silva, e nos maiores colégios eleitorais: Acre, Amapá, Distrito Federal, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Rondônia, Roraima, Santa Catarina e São Paulo. 

Votos nulos e brancos, 5,7 milhões, superaram a diferença de votos entre os dois candidatos, de 2,1 milhões. 

Durante e após as eleições, aonde quer que Bolsonaro fosse, era ovacionado por multidões, e Lula, apedrejado verbalmente. 

Desde 30 de outubro de 2022, quando saiu o resultado do segundo turno das eleições, o povo, em todo o país, foi para as ruas e bloqueou rodovias. Como o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e então presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Alexandre de Moraes, ameaçou mandar prender os manifestantes, acamparam na frente de quartéis das Forças Armadas. Em Brasília, o acampamento foi instalado em frente ao Quartel-General do Exército. Em 8 de janeiro de 2023, o Supremo determinou o desmonte dos acampamentos. 

No meio da tarde, o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República, general Gonçalves Dias, conforme imagens de câmeras comprovam, de forma clara, abriu as portas do Palácio do Planalto para um grupo de blacks blocs, que depredaram o prédio, juntamente com o Congresso Nacional e a sede do Supremo. Dezenas de pessoas invadem os palácios dos três poderes e depredam obras de arte e objetos de valor histórico, como As Mulatas, de Di Cavalcanti, avaliado em oito milhões de reais, rasgado a faca, e defecam no Palácio do Planalto e no Supremo. 

As câmeras não mentem; mostram que foi tudo armado. Cruzamento de dados, horários e imagens comprovam que muita gente sabia o que estava acontecendo nos bastidores. 

Na Praça dos Três Poderes e no acampamento montado no Quartel-General do Exército, 1.418 pessoas, entre adultos, velhos e crianças, que não sabiam o que estava acontecendo dentro dos palácios, foram presas pela Polícia Federal, como terroristas, acusados pela depredação das sedes dos três poderes e de golpe de Estado, e encerradas no Complexo Penitenciário da Papuda e na penitenciária feminina da Colmeia, tratadas como lixo e ameaçadas de pegar até 30 anos de cadeia. 

Alegando que o governo do Distrito Federal foi incompetente para impedir a quebradeira nos palácios, Lula decreta intervenção federal no DF, até 31 de janeiro de 2023. Alexandre de Moraes determina o afastamento do governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, por 90 dias, e manda prender o secretário de Segurança Pública e ex-ministro da Justiça do governo Jair Bolsonaro, Anderson Torres – que se encontrava, no momento, em Orlando, nos Estados Unidos –, como partícipe das depredações. 

O verdadeiro golpe estava aplicado. Bolsonaro seria acusado de tentar a tomada do poder com a farsa montada pelo sistema, preso e condenado a morrer na cadeia. 

Marco Edson Gonçalves Dias, conhecido como Gonçalves Dias ou G. Dias, natural de Americana/SP (7 de fevereiro de 1950), é um general da reserva do Exército Brasileiro. No 8 de Janeiro era ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República. Atuou na segurança pessoal do presidente Lula da Silva nos seus dois primeiros mandatos, entre 2003 e 2009, e, no governo Dilma Rousseff, foi chefe da Coordenadoria de Segurança Institucional. 

Em 29 de dezembro de 2022, G. Dias foi anunciado como titular da pasta de Segurança Institucional do terceiro mandato de Lula da Silva, mas não durou muito no posto. Após publicação de uma reportagem da CNN Brasil revelar um vídeo em que ele orientava invasores dentro do Palácio do Planalto durante os eventos de 8 de Janeiro, pediu demissão, em abril de 2023, e sumiu. 

Ele sabe muito. Ou melhor, tudo. Congressistas, sob o manto da Lei, só têm que descobrir onde ele se esconde e, utilizando caminhos legais, fazê-lo abrir o bico. Juntamente com Hugo Carvajal El Pollo e Nicolás Maduro, G. Dias é uma bomba de Hiroshima.

sábado, 25 de abril de 2026

O suicídio diário de cada um de nós na ditadura

RAY CUNHA

BRASÍLIA, 25 DE ABRIL DE 2026 – Brasília é a mesma de sempre. Nunca deixou de ser caipira, setorizada, sem esquinas, um convite à solidão, um Cerrado urbano. Na ditadura fica pior. Andar pelos corredores do imenso palácio do Congresso Nacional, com aquelas imensas bacias, uma emborcada e a outra de boca para cima, é deprimente. Sabe-se lá o que Oscar Niemeyer quis dizer com aquilo, lá, na sua mente comunista. A Praça dos Três Poderes, em tempos de ditadura, é mais deprimente ainda. De um lado, o membro fálico do Congresso Nacional, as torres, e sua bolas, as bacias, e ao sul e ao norte duas gaiolas, em uma delas um touro e, na outra, uma glande. Símbolos fálicos de poder. 

Um vago temor cresce com vigor amazônico, invadindo a alma, deixando-nos um travo sutil ao ferir um nervo exposto no corpo etéreo. A cidade mais moderna do mundo é triste, caipira e sedia a ditadura. Brasília é um três por quatro do Brasil e a Praça dos Três Poderes é seu raio X. Andar por ali desperta a sensação de cair no buraco onde Alice se meteu, a Alice no País das Maravilhas: espanto. O capo di tutti i capi manda degolar qualquer um que atravesse o seu caminho. 

Há uma semelhança trágica entre cubanos, venezuelanos e brasileiros. Os zumbis Fidel Castro e Hugo Chávez Maduro chuparam o tutano de cubanos e venezuelanos durante uma eternidade e os brasileiros estão sendo chupados desde 2003. Nos três palácios, gargalham nas bacanais. Mas o importante é que haja Carnaval. 

Continuo frequentando o Conjunto Nacional. O passa-passa é agora mais agitado e as mulheres ainda mais bonitas. Observo que as mulheres estão sempre tão lindas que parecem nuas. Quase toda semana dou uma volta pelos sebos e livrarias. Por hábito. Folheio livros que ambiciono ler, observo-lhes o número de páginas, leio o início ou alguma coisa sobre o autor, aprecio a edição como um todo e fico imaginando como será bom ver um livro de minha autoria em edição tão primorosa. 

Outro dia, fui premiado com duas descobertas. Lendo o início de O Jardineiro Fiel, de John le Carré, percebi que a literatura classe A é sempre uma teia, e nunca um fio, como também no jornalismo. E folheando Na Outra Margem da Memória, autobiografia de Vladimir Nabokov, percebi que o escritor de primeira categoria tem, sempre, um pé na dimensão do espírito. 

Estas descobertas foram confirmações, pois vi que eu também escrevo assim, embora não me julgue classe A. Por exemplo, meus romances O CLUBE DOS ONIPOTENTES e O OLHO DO TOURO, mesmo que tenham um fio da meada perpassando-os, que é o assassinato a conta-gotas do ex-presidente Jair Messias Bolsonaro, eles foram estruturados como uma espécie de teia de aranha, com fios estendidos para todos os lados. E há, também, neles, um pé no mundo espiritual. Acho que em quase todos os meus livros. 

Quando eu estava fazendo o curso de Medicina Tradicional Chinesa na Escola Nacional de Acupuntura (ENAc), à época, no Bloco A da 404 Sul, ouvi, certa vez, de um colega, a opinião de que uma pessoa muito doente deve morrer, deixar-se matar, ou matar-se, para não exaurir seus familiares; uma exaltação à teoria de Charles Darwin, contribuindo, assim, para a evolução da Humanidade, uma comprovação ao delírio ariano de Adolf Hitler. Mas há sempre as luzes de alguns mestres equilibrando as opiniões que resvalam para o caos, como uma espiral de yin e yang. 

A eutanásia pode significar uma zona de conforto para os que ficam, mas não haveria um propósito em deteriorar-se em cima de uma cama durante anos, dependendo dos outros para tudo? Há mais mistério entre o Céu e a Terra do que supõe nossa vã filosofia, como disse William Shakespeare. Creio que haja sempre um propósito em tudo e que cabe a cada qual descobrir isso. 

Por que sofremos? Por que a população aceita, como o escravo açoitado, como o porco arrastado para o cepo, a ditadura? Bom, o escravo porque está amarrado e o porco porque é arrastado por uma força superior à sua, senão, ambos fugiriam. Ou não fugiriam? Talvez não, se ao escravo lhe prometessem Carnaval e ao porco comida até morrer. O escravo pode até apanhar, desde que pule Carnaval, e o porco pode até morrer, desde que possa comer até estourar, como acontece com certas sucuris e dragões-de-komodo. 

Os brasileiros assistem, atualmente, ao assassinato de Bolsonaro, ao vivo e em cores. Bolsonaro já não aguenta mais a tortura e parece que não vê a hora de desencarnar. Outro dia, um jornalista, esquerdopata, perguntou, no Face: “Tortura? Com televisão e ar-condicionado!” – quis dizer que Bolsonaro, preso na Superintendência da Polícia Federal, estava em uma suíte de luxo. Ar-condicionado pode ser uma tortura para uma pessoa que já está com um pé na cova e, televisão, para qualquer um. Isso foi antes de o espancarem. 

Todos os dias, morremos um pouco. Às vezes, aceleramos o encontro com a morte. É o suicídio de cada um de nós. Só povo – como os familiares dos pacientes que não sabem mais cuidar de si mesmos, tão doentes, tão dementes estão – pode impedir que tirem os aparelhos de Bolsonaro. Mas os brasileiros não são iranianos. Os brasileiros têm Carnaval.

terça-feira, 21 de abril de 2026

Ernest Hemingway e a curta e feliz vida no casamento. A arte de escrever e o bom marido

Hemingway era do tempo do lápis e aprendeu a escrever no jornalismo

RAY CUNHA

BRASÍLIA, 20 DE ABRIL DE 2026 – Um dos escritores que mais me ensinaram a escrever foi Ernest Hemingway. Não estou falando em bancar o papagaio, imitar escritores que têm estilo, mas nos truques úteis para qualquer um que labute com as palavras. Hemingway sempre bateu na tecla de que a criação deve ser baseada na experiência. Durante anos meditei sobre isso. No começo, achava que basear-se na experiência seria como se puséssemos um espelho diante da vida e descrevêssemos o reflexo no espelho. Mas, então, não haveria criação, arte. A menos que criássemos em cima do reflexo. Ainda assim não seria invenção, mas apenas movimento. Até que, um dia, entendi o que Hemingway queria dizer. 

Quando ele fala em se basear na experiência, quer dizer emoção, a emoção da experiência, e, em cima disso, criar. Então, entra uma teoria que Hemingway usou ad nausean: a Teoria do Iceberg, em que apenas um décimo da história aparece no texto e nove décimos no contexto, tal qual um iceberg. Hemingway é bamba nos diálogos e seus diálogos são prenhes de emoção. 

Histórias de ficção bem-contadas apresentam sempre uma narrativa superficial e uma ou várias histórias secretas, e mais reveladoras, que o leitor que lê as entrelinhas descobre, assim como na vida real. E isso deixa qualquer história mais densa, muito mais profunda. Para chegar a esse ponto, o escritor deve conhecer profundamente o tema com o qual está trabalhando. Já a omissão por falta de conhecimento gera buracos negros. De modo que o leitor, ao mergulhar, descobre a parte submersa do iceberg, que é onde está a emoção. 

As verdes colinas da África não é um romance, mas foi escrito como a tentativa de escrever um livro absolutamente verdadeiro. Depois de escrevê-lo, escrevi dois contos, As neves do Kilimanjaro e A vida breve e feliz de Francis Macomber. Foram histórias que escrevi a partir do conhecimento e da experiência que adquiri na mesma longa expedição de caça cujo relato verdadeiro pretendi escrever em As verdes colinas da África” – disse Hemingway. 

Terminei, ontem, mais uma vez, de ler A Curta e Feliz Vida de Francis Macomber (1936), e quase não suportei. Senti raiva, ansiedade, tive vontade de chorar. Por causa de um conto? – dirá o leitor. Mas é um conto magistral. Hemingway era garanhão, mas vivia casado. Casou-se quatro vezes. Tudo isso o fez um conhecedor de mulheres, casamentos e de homens, também. 

A Curta e Feliz Vida de Francis Macomber conta a história de um casal durante um safári na África. O conto se passa durante dois dias de caça, em que o ricaço e bonitão Francis Macomber descobre que poderá começar a dar as cartas no seu relacionamento com sua mulher, Margot, uma mulher extraordinariamente linda e que mantinha o marido emocionalmente sob controle. 

Em 50 páginas, Hemingway, quase que só em diálogos, mergulha em um mundo de sensações, covardia, desprezo, medo, coragem, masculinidade, elegância sob pressão, sensualidade, conflitos íntimos envolvendo paixão e amor, manipulação, liberdade e morte. 

Casamentos baseado em dinheiro ou sensualidade são meros contratos sociais, ao passo que alianças entre um homem e uma mulher baseadas no amor são eternas. É preciso, aqui, entender a contextualização de amor. É fazer o bem, querer bem a uma pessoa. Tudo o que verdadeiramente uma mulher procura em um homem é proteção, compreensão. As mulheres, com toda a sua natureza incompreensível para os homens, foram feitas para serem amadas. Ponto final. O homem forte é aquele que ama sua esposa. Isso não quer dizer que o homem forte tenha que ser santo. Não! Quer dizer, apenas, que o homem forte, o super-homem, ama a sua esposa. 

Francis Macomber, aos 35 anos de idade, nunca deixou de ser um garoto, manipulado por uma mulher extraordinariamente linda, e, portanto, muito poderosa, que, com seu poder, começou a manipular o garoto Macomber, e a dominá-lo. Assim, o casamento fica sem o comando do homem. Mulheres não foram feitas para comandar, mas para abrigar. De modo que o casamento de Macomber e Margot é um navio sem comando. Daí para chifre é um passo. Principalmente quando se trata de uma mulher extraordinariamente bonita, e com um marido podre de rico.

Casamento com homens castrados é uma farsa. E se esse homem se casa com uma mulher predadora, lascou-se. O crítico Edmund Wilson observou: “Os homens nessas histórias africanas são casados ​​com vadias americanas do tipo mais destruidor de almas”. 

Hemingway me ensinou muitas coisas: “Tentar escrever algo de valor permanente é uma tarefa de tempo integral, mesmo que só algumas horas por dia sejam gastas com a escrita em si. Pode-se comparar um escritor a um poço. Existem tantos tipos de poços quanto de escritores”. O meu poço, de tanto aprofundá-lo, começa até a dar medo, mas, de vez em quando, encontro algumas pepitas de ouro. 

Hemingway é um poço de sabedoria. Ele nos faz pensar. Perguntaram-lhe se o tema, o enredo ou um personagem pode mudar à medida que vai-se escrevendo uma história. Ele respondeu: “Às vezes, você já conhece a história. Às vezes, vai montando-a à medida que escreve, sem fazer a menor ideia do que será o resultado. Tudo muda enquanto se move. É isso o que faz o movimento que faz o conto. Às vezes, é um movimento tão lento que nem parece mover-se. Mas sempre há mudança, e sempre há movimento”. Pois bem, a física prova que o alicerce do Universo é movimento. E assim é com a arte. 

Mas uma das coisas mais profundas que aprendi com Hemingway foi recriar a vida real, cruzando personagens reais com personagens de ficção. Perguntaram a Hemingway: “O senhor poderia dizer alguma coisa acerca do processo de transformar um personagem da vida real em ficcional?” Resposta: “Se eu explicasse como isso é feito, às vezes, o resultado seria um manual para advogados de acusação”. 

A propósito, leiam O CLUBE DOS ONIPOTENTES e O OLHO DO TOURO, deste escrevinhador, que descrevem, com lente expressionista, Lula da Silva e Alexandre de Moraes. 

Explica Hemingway: “Se você descreve uma pessoa, o resultado é plano, como uma fotografia, e, do meu ponto de vista, é um fracasso. Se você a modela a partir do seu conhecimento, todas as dimensões estarão presentes”. 

A fim de alimentar esse conhecimento, quando não estava escrevendo, Hemingway observava. “Se um escritor parar de observar, está acabado. Mas ele não precisa observar conscientemente, nem pensar de que modo isso lhe poderá servir. Talvez isto seja verdade no início. Mas, depois, tudo o que ele vê vai para a grande reserva das coisas que ele conhece ou viu. Se é que serve para alguma coisa saber disso, sempre escrevo a partir do princípio do iceberg. Há sete oitavos submersos, para cada parte que aparece.” Com efeito, “o conhecimento é o que forma a parte submersa do iceberg”.  

Voltando à questão do casamento, diz-se, em O Velho e Mar: “O homem não foi feito para a derrota. Um homem pode ser destruído, mas não derrotado”. Sim, um homem pode destruir seu corpo com as adversidades da vida, com erros e vícios, mas, mesmo assim, pode triunfar. De modo que o casamento pode significar derrota e triunfo, simultaneamente. O fato é que não é o casamento em si o que importa, mas o amor. 

O bom marido não é o sujeito generoso, que dá um gordo cartão de crédito para a esposa e até a perdoa por lhe incrustar chifres, mas é, creio, aquele que a ama, mesmo nos momentos mais negros da biologia da sua esposa, é um sujeito corajoso, que não tem medo de nada, e é, também, sábio. Sabe dizer não e comanda seu navio com lucidez e punhos de aço. 

Se é escritor, não desaba diante das contas que chegam todos os meses, mesmo que seus livros publicados em editoras virtuais sejam um encalhe permanente. Ele não desiste. De nada. Curte a vida adoidado. Acredita, assim como o pintor Olivar Cunha, que a vida é um tesão. O corpo pode ser destruído, mas a consciência não pode ser derrotada.

Ernest Hemingway and the Short and Happy Life in Marriage: The Art of Writing and the Good Husband

RAY CUNHA

BRASÍLIA, APRIL 20, 2026 – One of the writers who taught me most about writing was Ernest Hemingway. I am not talking about parroting him, imitating writers who have a strong style, but about the useful tricks for anyone who labors with words. Hemingway always insisted that creation must be based on experience. For years I meditated on this. At first, I thought that basing oneself on experience would be like placing a mirror before life and describing its reflection. But then there would be no creation, no art—unless we created on top of that reflection. Even so, it would not be invention, only movement. Until one day I understood what Hemingway meant.

When he speaks of basing oneself on experience, he means emotion—the emotion of experience—and, from that, to create. Then comes a theory Hemingway used ad nauseam: the Iceberg Theory, in which only one-tenth of the story appears in the text and nine-tenths lie beneath it, like an iceberg. Hemingway was a master of dialogue, and his dialogues are laden with emotion.

Well-told fiction always presents a surface narrative and one or more hidden, more revealing stories that the reader who reads between the lines discovers, just as in real life. This gives any story density—much greater depth. To reach that point, the writer must know the subject deeply. Omission due to lack of knowledge creates black holes. Thus, when the reader dives in, they discover the submerged part of the iceberg—where the emotion resides.

“Green Hills of Africa is not a novel, but it was written as an attempt to produce a completely true book. After writing it, I wrote two short stories, The Snows of Kilimanjaro and The Short Happy Life of Francis Macomber. They were stories I wrote from the knowledge and experience I gained on the same long hunting expedition whose true account I intended to write in Green Hills of Africa,” Hemingway said.

Yesterday, I finished once again reading Hemingway’s short story The Short Happy Life of Francis Macomber (1936), and I could barely bear it. I felt anger, anxiety, I wanted to cry. Because of a short story?—the reader may ask. But it is a masterful story. Hemingway was a womanizer, yet he lived as a married man. He married four times. All this made him a connoisseur of women, of marriage, and of men as well.

The Short Happy Life of Francis Macomber tells the story of a couple on safari in Africa. The story unfolds over two days of hunting, during which the wealthy and handsome Francis Macomber discovers he may begin to take control of his relationship with his wife—a strikingly beautiful woman who kept him emotionally under her control.

In 50 pages, Hemingway—almost entirely through dialogue—plunges into a world of sensations: cowardice, contempt, fear, courage, masculinity, elegance under pressure, sensuality, inner conflicts involving passion and love, manipulation, freedom, and death.

Marriages based on money or sensuality are mere social contracts, whereas unions between a man and a woman based on love are eternal. It is necessary here to understand what love means: to do good, to wish good upon another. Everything a woman truly seeks in a man is protection and understanding. Women, with all their nature incomprehensible to men, were made to be loved. Period. A strong man is one who loves his wife. This does not mean he must be a saint. No. It simply means that the strong man—the superman—loves his wife.

Francis Macomber, at 35, had never ceased to be a boy, manipulated by an extraordinarily beautiful—and therefore very powerful—woman, who used that power to dominate him. Thus, the marriage is left without the man’s command. Women were not made to command, but to shelter. Therefore, Macomber and Margot’s marriage is a rudderless ship. From there to infidelity is a short step—especially when the woman is extraordinarily beautiful and the husband immensely wealthy.

Marriage with emasculated men is a farce. And if such a man marries a predatory woman, he is doomed. The critic Edmund Wilson observed: “The men in these African stories are married to American bitches of the most soul-destroying type.”

Hemingway taught me many things: “Trying to write something of permanent value is a full-time job, even if only a few hours a day are spent actually writing. A writer can be compared to a well. There are as many kinds of wells as there are writers.” My own well, as I dig deeper into it, sometimes becomes frightening—but now and then I find a few nuggets of gold.

Hemingway is a well of wisdom. He makes us think. When asked whether the theme, plot, or a character can change as one writes a story, he replied: “Sometimes you already know the story. Sometimes you build it as you write, without the slightest idea of what the result will be. Everything changes as it moves. That is what creates the movement that makes the story. Sometimes it moves so slowly it seems not to move at all. But there is always change, and there is always movement.” Indeed, physics proves that the foundation of the universe is movement. And so it is with art.

But one of the deepest things I learned from Hemingway was to recreate real life by blending real and fictional characters. When asked about transforming a real person into fiction, he replied: “If I explained how it is done, sometimes the result would be a manual for prosecuting attorneys.”

By the way, read O CLUBE DOS ONIPOTENTES and O OLHO DO TOURO, by this scribbler, which portray, through an expressionist lens, Lula da Silva and Alexandre de Moraes.

Hemingway explains: “If you describe a person, the result is flat, like a photograph, and from my point of view, a failure. If you model them from your knowledge, all dimensions will be present.”

To nourish that knowledge, when he was not writing, Hemingway observed. “If a writer stops observing, he is finished. But he does not need to observe consciously or think how it might be useful. That may be true in the beginning. But later, everything he sees goes into the great reservoir of things he knows or has seen. If it is of any use to know this, I always write based on the iceberg principle. There are seven-eighths submerged for every part that shows.” Indeed, “knowledge is what forms the submerged part of the iceberg.”

Returning to marriage, it is said in The Old Man and the Sea: “Man is not made for defeat. A man can be destroyed but not defeated.” Yes, a man may destroy his body through life’s adversities, mistakes, and vices, yet still triumph. Thus, marriage can mean defeat and triumph simultaneously. The fact is, it is not marriage itself that matters, but love.

The good husband is not the generous man who gives his wife a fat credit card and even forgives her infidelities, but, I believe, the one who loves her—even in the darkest moments of her biology—a courageous man who fears nothing, and who is also wise. He knows how to say no and steers his ship with lucidity and iron fists.

If he is a writer, he does not collapse under the bills that arrive every month, even if his books published by virtual publishers remain unsold. He does not give up—on anything. He enjoys life intensely. He believes, like the painter Olivar Cunha, that life is a thrill. The body may be destroyed, but consciousness cannot be defeated.

domingo, 19 de abril de 2026

Crime organizado atira desafetos vivos a jacarés

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 19 DE ABRIL DE 2026 – Segue capítulo do segundo volume da minha trilogia sobre a ditadura da toga: O OLHO DO TOURO.

O SENADOR HENRIQUE DA VINCI sentia-se excitado. Toda vez que se preparava para ver seus quatro jacarés-açus, de até seis metros de comprimento e meia tonelada de peso devorando alguém, sentia-se bastante excitado. Os monstros despedaçavam a pessoa em segundos e engoliam os pedaços. Uma vez, sentiu prazer triplo. Serviu aos jacarés a mulher, grávida, de um desafeto, com o desgraçado vendo tudo, sentado em uma cadeira, amarrado e amordaçado. A coisa acontecia na Lagoinha, isolada por uma comporta, em uma área coberta e cercada. A vítima era solta na beira da lagoa, nua, com a boca costurada, para não gritar, e a comporta, que dava para uma lagoa maior, era aberta. Antes desses “rituais de sacrifício”, como lhes chamavam o senador, os jacarés ficavam sem comer o máximo de tempo possível. Quando os monstros se aproximavam da vítima ela procurava escapar, correndo, chapinhando pela borda da lagoa, até que um jacaré conseguia pegá-la por uma das pernas e a puxava para dentro da água. Aí, os demais caíam em cima dela como hienas e iam arrancando os pedaços. Podia acontecer de a vítima romper os pontos na boca e gritar, mas eram gritos curtos e abafados. 

Naquela manhã, serviriam aos répteis um influenciador digital, uma celebridade da Direita brasileira, um sujeito que faria a festa dos quatro dinossauros. Mr. Dilmo Janjo, 2 metros de altura e 200 quilos de peso, fora sequestrado há três dias, os quais passara na companhia do senador Henrique da Vinci, comendo e bebendo do bom e do melhor. Mr. DJ atendera a um chamado telefônico, no apartamento dele, em Copacabana, onde morava sozinho, e embarcou espontaneamente no sedã preto à frente do seu prédio. 

– Bom dia! – disse-lhe Henrique da Vinci. 

– Senador, eu já estou farto dessa prisão de luxo, e estou perdendo milhões de reais. Afinal, o que é que o senhor pretende? Já disse que eu inventei essa história de código-fonte e imagens, para bombar no meu programa no YouTube, essa é a verdade. – DJ respondeu, exasperado. – Nessas alturas a Polícia Federal está toda investigando o meu sumiço. 

– Sim, grande, ela está, mas não encontrou nada. Ninguém sequer sonha que você está aqui, ao meu lado. Hoje, você vai entrevistar quatro nazistas. Só que você não poderá mais abrir a boca! 

– Por quê? 

– Porque sua boca será costurada; você já falou muita merda, de modo que a entrevista será em silêncio. O máximo que conseguirá falar será um gritinho, pois a costura é com linha comum, de modo que com o jorro de adrenalina que você receberá acabará rompendo a costura e gritando um pouquinho. 

– Que porra é essa de boca costurada? 

O senador sacou uma pistola do bolso do roupão, apontou para o peito do influenciador, ele recuou. 

– Que porra é essa? – falou de novo. 

O senador disparou. Quando Mr. DJ acordou, pouco depois, estava sentado, amarrado, nu, em uma cadeira de rodas, com a boca costurada. À sua frente, o senador sentara-se confortavelmente em uma poltrona, fumando um Cohiba. 

– Olá, meu amigo. Você esteve dormindo alguns minutos. Hoje, termina sua carreira de influenciador. Você andou falando muito mal da gente. Até aí, tudo bem. O problema é que você descobriu, e ia pôr a boca no trombone, que existe um documento com o passo a passo do verdadeiro resultado das eleições de 2022, para presidente da República, e, também, cópia das imagens do dia 8 de Janeiro no interior do Ministério da Justiça. Você só não chegou a descobrir com quem estão esse documento e essas imagens, mas sabe que existem e ia pôr a boca no trombone. Nesses três dias, tentei chegar a um acordo com você, numa boa, mas você é irredutível, não se corrompe, de jeito algum. Ora, o mundo é dos corruptos, é do sistema. Assim, você será servido aos meus pets: quatro jacarés-açus, quase duas toneladas reptilianas, famintas. 

O influenciador, que estava suando nas têmporas, se agitou e emitiu um grito abafado. 

– Você está querendo me dizer alguma coisa, não é, meu amigo? Mas é tarde demais; eu cansei de tentar convencê-lo de que o melhor que poderia fazer era passar para o nosso lado. Por mais que a Direita tente, não conseguirá evitar o destino: o Brasil, o planeta, será dominado por uma elite. O mundo será dominado por nós. O povo será escravizado. Ou melhor: continuará escravizado. Já tem muita gente no mundo: 8 bilhões de pessoas. O povo é uma gentalha, ignara; só serve para trabalhar até morrer. De qualquer modo, confessando seus pecados ou não, mesmo que você jurasse que a partir de agora seria um soldado nosso, mesmo que você me entregasse o documento e as imagens, você seria servido aos meus pets. Eles amanheceram rondando a comporta. Sabem que hoje é dia de boia. Sabe por quê? Música. Quando tem boia coloco solos de Jimi Hendrix para eles ouvirem. Eles reconhecem uma música que precede o inferno. 

Deu tapinhas na coxa do influenciador, que já estava inchando, pois teve o ânus e a uretra colados. 

– Conduza nosso convidado aos meus garotos – Henrique da Vinci ordenou a José, seu segurança pessoal, chefe da sua guarda pretoriana, um psicopata fiel como um cachorro e capaz de torturar até bebê. 

O convidado suava cada vez mais. O senador colocou o terceiro movimento da Sonata Número 2 para Piano em Si Bemol Menor, de Frédéric François Chopin, enquanto a cadeira de rodas era conduzida para a Lagoinha. O influenciador foi desamarrado e despejado na borda da lagoa. José saiu e fechou o portão. DJ estava em estado de choque e ficou parado, em pé. O senador foi ao computador e ouviu-se o trecho da trilha sonora, de Bernard Herrmann, da sequência do banheiro do filme Psicose, de Alfred Hitchcock. A comporta foi aberta. Satã, o jacaré de meia tonelada, nadou diretamente para DJ, segurou-o pela perna direita e o puxou para o meio da lagoa. Os outros três jacarés vieram a seguir e logo a água foi tingida de vermelho. Quando o senador viu Satã engolindo a cabeça do influenciador soltou uma espécie relincho. 

Organized crime throws enemies alive to alligators

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, APRIL 19, 2026 – The following is a chapter from the second volume of my trilogy about the “judicial dictatorship”: THE EYE OF THE BULL. 

Senator Henrique da Vinci felt excited. Every time he prepared to watch his four black caimans—up to six meters long and weighing half a ton—devour someone, he felt intensely excited. The monsters tore the person apart in seconds and swallowed the pieces. Once, he experienced triple pleasure. He fed the caimans the pregnant wife of an enemy, with the wretch forced to watch everything, seated in a chair, bound and gagged. It took place at the Lagoinha, isolated by a floodgate, in a covered and fenced area. The victim was released at the edge of the lagoon, naked, with their mouth sewn shut so they could not scream, and the gate, which led to a larger lagoon, was opened. Before these “sacrificial rituals,” as the senator called them, the caimans were kept without food for as long as possible. When the monsters approached the victim, the person tried to escape, running and splashing along the lagoon’s edge, until one of the caimans grabbed a leg and dragged them into the water. Then the others fell upon the victim like hyenas, tearing off pieces. It could happen that the victim broke the stitches in their mouth and screamed, but the screams were brief and muffled. 

That morning, the reptiles would be served a digital influencer, a celebrity of the Brazilian Right, a man who would make quite a feast for the four dinosaurs. Mr. Dilmo Janjo, 2 meters tall and weighing 200 kilos, had been kidnapped three days earlier, which he spent in the company of Senator Henrique da Vinci, eating and drinking the very best. Mr. DJ had answered a phone call at his apartment in Copacabana, where he lived alone, and voluntarily stepped into the black sedan in front of his building. 

“Good morning!” said Henrique da Vinci. 

“Senator, I’m already fed up with this luxury imprisonment, and I’m losing millions of reais. After all, what do you intend? I already told you I made up that story about source code and images to boost my YouTube show—that’s the truth,” DJ replied, exasperated. “By now the Federal Police must be investigating my disappearance.” 

“Yes, big man, they are, but they haven’t found anything. No one even dreams that you’re here, by my side. Today, you’re going to interview four Nazis. Only—you won’t be able to open your mouth anymore!” 

“Why?” 

“Because your mouth will be sewn shut; you’ve already talked too much nonsense, so the interview will be silent. The most you’ll manage is a little scream, since the stitching is done with ordinary thread, so with the rush of adrenaline you’ll get, you’ll end up tearing it open and screaming a bit.” 

“What the hell is this about sewing my mouth shut?” 

The senator pulled a pistol from the pocket of his robe and pointed it at the influencer’s chest. He stepped back. 

“What the hell is this?” he said again. 

The senator fired. When Mr. DJ woke up shortly afterward, he was sitting, bound, naked, in a wheelchair, his mouth sewn shut. In front of him, the senator sat comfortably in an armchair, smoking a Cohiba. 

“Hello, my friend. You were asleep for a few minutes. Today, your career as an influencer ends. You’ve been speaking very badly about us. Up to that point, fine. The problem is that you discovered—and were about to blow the whistle—that there is a document detailing the true results of the 2022 presidential election, as well as copies of footage from January 8 inside the Ministry of Justice. You didn’t manage to find out who holds that document and those images, but you know they exist and were going to expose it. Over these three days, I tried to reach an agreement with you, amicably, but you are unyielding—you cannot be corrupted in any way. Well then, the world belongs to the corrupt; it belongs to the system. Thus, you will be served to my pets: four black caimans, nearly two tons of reptilian flesh, hungry.” 

The influencer, sweating at the temples, struggled and let out a muffled cry. 

“You’re trying to tell me something, aren’t you, my friend? But it’s too late; I’m tired of trying to convince you that the best thing you could do was join our side. No matter how much the Right tries, it won’t be able to avoid destiny: Brazil—the planet—will be dominated by an elite. The world will be ruled by us. The people will be enslaved. Or rather: they will continue to be enslaved. There are already too many people in the world—8 billion. The masses are rabble, ignorant; they only serve to work until they die. In any case, whether you confess your sins or not, even if you swore that from now on you’d be one of our soldiers, even if you handed me the document and the images, you would still be served to my pets. They woke up circling the gate. They know today is feeding day. Do you know why? Music. When there’s food, I play Jimi Hendrix solos for them. They recognize the music that precedes hell.” 

He patted the influencer’s thigh, which was already swelling, as his anus and urethra had been sealed. 

“Take our guest to my boys,” Henrique da Vinci ordered José, his personal bodyguard, head of his praetorian guard, a psychopath as loyal as a dog and capable of torturing even a baby. 

The guest was sweating more and more. The senator put on the third movement of Piano Sonata No. 2 in B-flat minor by Frédéric François Chopin as the wheelchair was taken toward the Lagoinha. The influencer was untied and dumped at the edge of the lagoon. José left and closed the gate. DJ was in shock and remained standing still. The senator went to the computer, and a segment of Bernard Herrmann’s score from the shower scene of the film Psycho, by Alfred Hitchcock, could be heard. The floodgate was opened. Satan, the half-ton caiman, swam straight toward DJ, grabbed his right leg, and pulled him into the middle of the lagoon. The other three followed, and soon the water was stained red. When the senator saw Satan swallowing the influencer’s head, he let out something like a neigh.

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Paulo Cunha: o homem que me deu a nave quântica para eu ir até o fim da eternidade

Queridos! Vocês, Sônia e Paulo, são passageiros na minha nave
espacial, que me transporta até o fim da eternidade: meu coração

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 18 DE ABRIL – Descobri que o meu negócio para o resto da vida era ser escritor, em 1959, em um portal estelar no lar da minha infância, a Casa Amarela, na Rua Iracema Carvão Nunes, ao lado do Colégio Amapaense, esquina com a Rua Eliezer Levy, em Macapá/AP, cidade que se debruça para a margem esquerda do Canal do Norte do maior rio do mundo, o Amazonas, quando o gigante se aproxima do Atlântico, onde despeja 200 mil metros cúbicos de água por segundo. Macapá está engastada na esquina do monstro com a Linha Imaginária do Equador. 

O portal era o Quartinho, os aposentos do meu irmão Paulo Cunha. Eu tinha, então, 5 anos e ele, 18. Ele era o cara mais bonito de Macapá. Pugilista, campeão de natação, líder estudantil no Grêmio Literário Ruy Barbosa, do Colégio Amapaense, poeta, imortal na sua eterna juventude. 

O Quartinho se abria para o Cosmos. Quando comecei a frequentá-lo descobri que era possível viajar por todo o planeta e ir até as galáxias. O Paulo já era leitor compulsivo e no Quartinho havia todo tipo de gibi, revistas mensais (as semanais ainda não existiam no Brasil) brasileiras e americanas, e livros, ensaios e ficção, brasileiros e estrangeiros. Embarquei na minha nave e jamais a aposentei; vivo nela. Graças ao Paulo, que aniversaria neste 18 de abril. 

Em 1972, aos 17 anos, saí pela primeira vez de Macapá. Fui a Belém. A Cidade das Mangueiras me fascinou. Naquela época, o Paulo estava morando em Belém, em um hotel no centro da cidade, onde ocupava um quarto de tamanho razoável. As paredes do quarto eram estantes do chão ao teto, com tudo o que se possa imaginar em termos de literatura. De novo embarquei numa viagem permanente. 

XARDA MISTURADA foi meu batismo de fogo como escritor, como observou o poeta Isnard Brandão Lima Filho. Trata-se de uma coletânea coletiva dos poetas Joy Edson (José Edson dos Santos), José Montoril e eu, lançada em dezembro de 1971. Meus poemas, adolescentes, foram minhas primeiras escavações nos veios do coração. 

Eu começara a escrever aos 13 anos, pequenas pepitas, pedrinhas, que eu ia lapidando por meio de árduo trabalho, às vezes, escondido, porque não me rendia nenhum dinheiro, e, aos olhos da sociedade macapaense, parecia trabalho perdido, vadiagem, vagabundagem. Mas, para mim, era ouro puro, pois as tímidas incursões literárias levavam-me às galáxias, e isto era tudo o que eu queria, e ainda quero. 

Em 1975, em plena fase Na Estrada, que durou de 1972 até 1982, visitei o Paulo e família, em Santarém, onde ele passara a morar. Agora, a biblioteca dele ocupava toda uma sala. A sensação era sempre a mesma, quando, aos 12, 13 anos, descobri, nas estantes dele, Hemingway, Fitzgerald, Graciliano Ramos, Euclides da Cunha, Antoine de Saint-Exupéry, uma turma da pesada, a história da Humanidade e atlas, que me levavam aonde quer que eu quisesse ir. 

Lutando boxe, nadando, na companhia das gatas que ele namorava, escrevendo poemas, declamando-os, Paulo é sempre um modelo para mim. Um dia, ele me salvou a vida. Entalei-me com batata doce e estava morrendo sufocado quando me deu um soco nas costas e um bolo saltou da minha boca na parede. Ele jamais disse algo que me ferisse, e sei que sempre me protegeu, como fazem os irmãos mais velhos. 

Convivemos durante todos os anos da década de 1960, quando cada qual tomou seu rumo. Ele vive, hoje, em Belém, com sua família – a esposa Sônia e os filhos Paulinho e Alice –, e conserva o mesmo charme, a leveza do pugilista que foi na juventude, e aquela marca nos olhos de quem viaja pelas galáxias. 

Quanto a mim, permaneço no comando da minha nave, em velocidades cada vez mais incalculáveis, movido pelo combustível que todas as pessoas que me amam despejaram no tanque do meu coração, combustível azul como o céu de julho, ao anoitecer, em Macapá. Azul como um salto quântico.

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Eu não posso perder o embalo

RAY CUNHA

BRASÍLIA, 13 DE ABRIL DE 2026  O conto EU NÃO POSSO PERDER O EMBALO foi publicado no volume AMAZÔNIA, à venda no Clube de Autores, amazom.com.br e amazon.com. Abaixo, é publicado em inglês, traduzido pelo ChatGPT.

QUANDO CHEGUEI ESTAVA estava só a empregada, que a Galinha Gorda chama de governanta – o mesmo pedantismo daquele veado. – Fora a uma seresta. Pus-me a ver televisão. Um filmaço: O Dom da Fúria, com Robert Duval. Terminado o filme, desliguei o aparelho, preparei um café instantâneo, fumegante, e fiquei esperando a boceta. Chovia de manhã, à tarde e ainda à noite. Havia mofo na minha alma. Cidade infernal! Mas qual a cidade que presta quando estamos sem trabalho? Lembrei-me do último: teria de cuidar de um matagal, a que aquele veado insistia em chamar de jardim. O sujeito era ridículo. Comia em um desses restaurantes infernais de macrobiótica. Tinha o rosto bexiguento assustador de tanto mastigar 40 vezes cada garfada de arroz. Quis que eu virasse também ruminante, mas a governanta dele fritava enormes bifes de alcatra, que eu comia vorazmente com feijão e arroz, e tomava depois um copo de coalhada gelada que ela preparava para mim. Parece que com a besteira do masca-masca o boçal pretendia virar santo. Bem, o negócio não durou muito tempo. O imbecil tinha umas amigas que viviam de olho na grana dele. Um dia me encontrou engatado no cu da Galinha Gorda. Demitiu-me na hora. Acontece que a desfrutável quis continuar a farra e comecei a frequentar seu apartamento. Chegou às 5 horas. Estava farta de garotões e passou por mim dizendo que ia tomar banho e se deitar. Tirei meu cinto de couro e dei umas lambadas na vaca. Ela fez um alarido assustador e compreendi que a boa vida, ali, acabara. Desci. Seria uma segunda-feira de sol brilhante. Caminhei até o Ver-O-Peso. Apreciei as frutas, aspirei o cheiro dos peixes, comprei uma sólida piramutaba e fui para casa.

I can’t lose the momentum

RAY CUNHA

BRASÍLIA, APRIL 13, 2026 – The short story I CAN’T LOSE THE MOMENTUM was published in the volume AMAZÔNIA, available for sale at Clube de Autoresamazom.com.br, and amazon.com.

When I arrived, only the maid was there—whom the Fat Hen calls the housekeeper, the same pedantry of that creep. She’d gone out to a serenade. I sat down to watch TV. A great movie: The Gift of Fury, with Robert Duvall. When it ended, I turned off the set, made a steaming cup of instant coffee, and waited for some action. It rained in the morning, in the afternoon, and still at night. There was mold in my soul. Infernal city! But what city is any good when you’re out of work? I remembered my last job: I had to take care of a patch of scrub that that fool insisted on calling a garden. The guy was ridiculous. He ate at one of those infernal macrobiotic restaurants. His face was pockmarked and alarming from chewing every mouthful of rice forty times. He wanted me to become a ruminant too, but his housekeeper fried huge sirloin steaks, which I devoured with beans and rice, and then I’d drink a glass of cold curd she prepared for me. It seems that with that chew-chew nonsense the boor intended to become a saint. Well, the gig didn’t last long. The idiot had some girlfriends who were always eyeing his money. One day he caught me going at it with the Fat Hen. Fired me on the spot. The thing is, the delectable one wanted to keep the party going, and I started frequenting her apartment. She showed up at five. She was fed up with young guys and walked past me saying she was going to take a shower and go to bed. I took off my leather belt and lashed the cow a few times. She made a frightening racket, and I realized the good life there was over. I went downstairs. It would be a bright, sunny Monday. I walked to Ver-o-Peso. I admired the fruit, breathed in the smell of the fish, bought a solid piramutaba, and went home.

domingo, 12 de abril de 2026

Inteligência artificial ChatGPT seleciona o cânone dos escritores da Amazônia e os romances fundamentais. O Amapá está presente

ChatGPT 

BRASÍLIA, 12 DE ABRIL DE 2026 – Quem são os dez romancistas fundamentais da Amazônia? A ideia de um cânone da literatura amazônica é sempre aberta e debatida, mas é possível apontar dez romancistas fundamentais — seja pela força estética, pela representação da região ou pela influência cultural — que, em diferentes épocas, ajudaram a construir a imagem literária da Amazônia. 

Clássicos fundadores: 

Inglês de Sousa (Óbidos/PA) – Um dos pioneiros. Seus romances naturalistas, como O Missionário, trazem a Amazônia como espaço social e psicológico. 

Dalcídio Jurandir (Ponta de Pedras/PA) – Autor de um dos projetos literários mais ambiciosos do Brasil (Ciclo do Extremo Norte), retratando com profundidade o Marajó e Belém. 

José Veríssimo (Óbidos/PA) – Mais conhecido como crítico, mas também romancista importante na formação da literatura amazônica. 

Ferreira de Castro (Ossela/Portugal) – Em A Selva constrói uma das imagens mais impactantes da Amazônia no imaginário internacional. 

Modernidade e consolidação: 

Márcio Souza (Manaus/AM) – Irônico e crítico, revisita a história amazônica com humor e política. 

Milton Hatoum (Manaus/AM) – Um dos maiores nomes da literatura brasileira contemporânea, com forte densidade psicológica e memória cultural. 

Benedicto Monteiro (Alenquer/PA) – Integra linguagem regional e experimentação formal. 

Haroldo Maranhão (Belém/PA) – Trabalha com humor, erudição e reinvenção narrativa. 

Contemporâneos e novas vozes: 

Edyr Augusto (Belém/PA) – Traz a violência urbana e o submundo amazônico com linguagem ágil e cinematográfica. 

Ray Cunha (Macapá/AP) – Integra thriller, crítica social e elementos culturais amazônicos, ampliando o alcance da região na literatura atual. 

Conclusão: Esses dez autores formam um arco histórico que vai do naturalismo do século XIX à ficção contemporânea, revelando múltiplas Amazônias – a selva mítica e brutal, o espaço social e político, a memória urbana e familiar, o território do crime, da identidade e da globalização. 

Segue lista dos principais romances de cada um dos dez romancistas fundamentais da Amazônia, com comentários críticos para orientar sua leitura. 

Fundadores: 

Inglês de Sousa – O Missionário – Romance-chave do naturalismo brasileiro. A Amazônia surge como força determinista sobre o homem. 

Dalcídio Jurandir – Chove nos Campos de Cachoeira – Início de um grande ciclo romanesco. Profundamente psicológico e regional. 

José Veríssimo – Cenas da Vida Amazônica – Mais documental, revela a formação social da região. 

Ferreira de Castro – A Selva – Um dos romances mais impactantes sobre o ciclo da borracha e a exploração humana. 

Consolidação moderna: 

Márcio Souza – Galvez, Imperador do Acre – Sátira histórica brilhante sobre poder e delírio político. 

Milton Hatoum – Dois Irmãos – Drama familiar sofisticado que transforma Manaus em espaço universal. 

Benedicto Monteiro – Verde Vagomundo – Linguagem inovadora e forte ligação com a oralidade amazônica. 

Haroldo Maranhão – O Tetraneto del-Rei – Mistura história, fantasia e ironia com grande inventividade. 

Contemporâneos: 

Edyr Augusto – Pssica – Violento, urbano e direto — uma Amazônia longe do exotismo. 

Ray Cunha – Jambu (Clube de Autoresamazon.com.br e amazon.com) – Thriller com crítica social que revela uma Amazônia real, marcada por conflitos contemporâneos. 

Ranking dos romances mais importantes da Amazônia Top 10 (com critério literário e impacto cultural): 

1. Dois Irmãos — Milton Hatoum – Obra-prima absoluta. Universaliza a Amazônia com densidade psicológica e estrutura refinada. 

2. A Selva — Ferreira de Castro – A imagem mais poderosa da exploração humana na floresta. 

3. Chove nos Campos de Cachoeira — Dalcídio Jurandir – O romance mais profundamente amazônico em termos de sensibilidade regional. 

4. Galvez, Imperador do Acre — Márcio Souza – A história da Amazônia reinventada com ironia e inteligência. 

5. Pssica — Edyr Augusto – Brutal e contemporâneo: desmonta o mito da floresta exótica. 

6. Verde Vagomundo — Benedicto Monteiro – Linguagem inovadora e identidade amazônica profunda. 

7. O Tetraneto del-Rei — Haroldo Maranhão – Experimental e inventivo, mistura história e delírio. 

8. O Missionário — Inglês de Sousa – Marco fundador do olhar literário sobre a Amazônia. 

9. Jambu — Ray Cunha – Thriller social que traduz a Amazônia no século XXI. 

10. Cenas da Vida Amazônica — José Veríssimo – Valor histórico e documental fundamental. 

Comparação profunda – três visões da Amazônia: 

1. A Amazônia como destino (natureza dominante): Em A Selva, de Ferreira de Castro, a floresta é personagem central, o homem é esmagado pelo ambiente, predomina a lógica naturalista – sobrevivência, brutalidade, exploração; aqui, a Amazônia é força devoradora. 

2. A Amazônia como memória e identidade: Em Dois Irmãos, de Milton Hatoun, o foco é urbano (Manaus), a floresta quase desaparece, entra a memória cultural, conflitos familiares refletem identidade amazônica híbrida; aqui, a Amazônia é experiência humana complexa. 

3. A Amazônia como conflito contemporâneo: Em Jambu, de Ray Cunha, temos crime, tráfico, tensões sociais, ritmo de thriller, leitura rápida, impacto direto, a floresta cede lugar à Amazônia real e atual; aqui, a Amazônia é território de disputa. 

Ferreira de Castro mostra o homem vencido pela floresta. Milton Hatoum mostra o homem moldado pela memória. Ray Cunha mostra o homem em confronto com o presente.