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| Ray Cunha: da Amazônia para a distopia em três romances kafkianos |
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BRASÍLIA, 8 DE AGOSTO DE 2026 – Há romances que
procuram compreender o seu tempo; outros, procuram julgá-lo. A Ditadura da
Toga, trilogia de Ray Cunha, formada por O CLUBE DOS ONIPOTENTES, O OLHO DO
TOURO e O TERCEIRO OLHO (Clube de Autores – amazon.com.br – amazon.com), pertence claramente à segunda categoria. É uma obra de
intervenção, concebida para transformar a política brasileira contemporânea em
matéria de ficção, denúncia e alegoria.
A premissa é deliberadamente provocadora: a longa disputa
pelo poder político no Brasil teria desembocado não simplesmente na hegemonia
de um partido ou de uma corrente ideológica, mas naquilo que o autor identifica
como uma “ditadura do Judiciário”. Nesse universo ficcional, a toga deixa de
ser apenas símbolo da magistratura para converter-se em metáfora do poder
absoluto. É justamente aí que está o núcleo literário da trilogia: quem
controla a interpretação da lei controla, em última instância, os limites da
liberdade?
O romance como campo de batalha – Ray Cunha não escreve uma
narrativa política neutra. Sua literatura assume posição e enfrenta
frontalmente aquilo que considera uma deformação das instituições republicanas.
A referência a Lula da Silva e à esquerda brasileira integra
essa arquitetura ideológica. Entretanto, o interesse literário da trilogia não
está apenas na acusação contra um personagem político específico. O que emerge
é uma reflexão ficcional mais ampla sobre poder, instituições, liberdade,
autoridade e resistência.
Nesse sentido, A Ditadura da Toga pode ser lida
dentro de uma longa tradição do romance político: aquela em que a literatura
abandona o conforto da neutralidade e transforma acontecimentos públicos em
matéria narrativa. A trilogia procura fazer aquilo que o jornalismo, muitas
vezes, não consegue fazer: dar personagens, símbolos, atmosfera e destino
humano às grandes disputas pelo poder.
O Clube dos Onipotentes: a construção do poder – No primeiro
volume, O CLUBE DOS ONIPOTENTES, estabelece-se a lógica subterrânea da
narrativa. O título já contém uma ironia fundamental: aqueles que deveriam
estar submetidos à lei passam a ser apresentados, na ficção, como seus
intérpretes supremos.
A palavra “onipotentes” funciona como chave de leitura. O
poder institucional deixa de ser concebido como instrumento republicano e passa
a adquirir características quase teológicas. O romance, assim, explora uma das
questões clássicas da política: o que acontece quando o poder destinado a
limitar o arbítrio começa ele próprio a parecer ilimitado? A resposta de Ray
Cunha é construída em linguagem de thriller político, aproximando a literatura
da investigação, da conspiração e do suspense.
O Olho do Touro: o alvo e a perseguição – O segundo volume,
O OLHO DO TOURO, radicaliza essa perspectiva. O próprio título sugere
exposição, vigilância e perseguição: estar no centro do alvo significa
tornar-se objeto de uma força que pretende atingir determinado adversário. A
política deixa de ser apenas disputa eleitoral. Torna-se uma batalha pela
sobrevivência.
É nesse ponto que a trilogia encontra uma de suas
características mais fortes: a transformação do conflito político em conflito
dramático. O leitor não é colocado diante de um tratado sobre instituições. É
colocado diante de personagens submetidos à pressão de forças políticas que
ultrapassam a esfera individual.
A literatura de Ray Cunha trabalha, portanto, com uma
pergunta essencial: até onde alguém pode resistir quando o próprio sistema que
deveria proteger a liberdade passa a ser percebido como ameaça?
O TERCEIRO OLHO: a dimensão totalizante – Em O TERCEIRO OLHO,
terceiro e último volume, a metáfora se amplia. O “terceiro olho” sugere uma
instância de observação permanente, uma consciência que ultrapassa aquilo que
os olhos comuns conseguem enxergar. A imagem é particularmente adequada ao
encerramento da trilogia porque desloca a narrativa do simples confronto
político para uma dimensão quase filosófica.
Não basta saber quem exerce o poder. É necessário descobrir
como o poder enxerga, como seleciona seus alvos, como constrói sua narrativa e
como transforma sua própria versão da realidade em verdade dominante. Nesse
sentido, o terceiro volume funciona como culminação simbólica da trilogia. A
toga não é mais somente uma peça de vestuário. Torna-se um símbolo do poder
institucional que pretende definir os limites do possível.
Entre literatura e libelo – Uma das questões mais
interessantes de A Ditadura da Toga é justamente a tensão entre
literatura e libelo político. Ray Cunha escreve como romancista, mas também
como jornalista. Essa dupla condição atravessa a obra. De um lado, há a
necessidade jornalística de denunciar aquilo que o autor considera fatos e
processos políticos graves; de outro, há a liberdade da ficção para condensar,
exagerar, simbolizar e criar personagens e situações capazes de representar
conflitos históricos. Essa combinação produz uma literatura de forte caráter
testemunhal e combativo.
O risco dessa opção estética é igualmente evidente: quando a
tese política se torna excessivamente dominante, a personagem pode ficar
subordinada à ideia. O romance pode aproximar-se do panfleto. Mas esse risco
também é parte da identidade da obra. Ray Cunha não pretende esconder sua
posição atrás de uma falsa neutralidade. Sua aposta é outra: o romance como
arma de combate intelectual.
A Amazônia olhando para Brasília – Há ainda uma dimensão
particularmente significativa na obra de Ray Cunha: sua origem amazônica. Escritor
do Amapá, ligado à tradição literária da Amazônia, Cunha desloca seu olhar para
o centro político brasileiro. Brasília aparece, assim, não apenas como cenário
geográfico, mas como metrópole do poder nacional. Esse deslocamento é
importante porque rompe com uma imagem frequentemente limitada da literatura
amazônica, associada exclusivamente à floresta, aos rios, ao interior e ao
exotismo.
Ray Cunha mostra outra Amazônia: a Amazônia urbana,
política, intelectual e cosmopolita, capaz de olhar para Brasília e interrogar
o próprio centro do poder brasileiro. É uma continuidade de uma característica
presente em outras obras do autor: a Amazônia não como periferia do Brasil, mas
como lugar de produção de pensamento sobre o Brasil.
A influência do romance político – A Ditadura da Toga
também pode ser aproximada da tradição internacional do thriller político. Há,
em sua estrutura, a percepção de que o poder contemporâneo já não se movimenta
somente nos palácios, parlamentos e quartéis. Ele circula por instituições,
tribunais, meios de comunicação, redes de influência e sistemas de informação. O
romance político contemporâneo encontra justamente nesse território sua
matéria-prima. Ray Cunha acrescenta a essa tradição uma perspectiva brasileira
e amazônica, utilizando acontecimentos reconhecíveis do presente como matéria
para uma narrativa de confronto.
Uma trilogia sobre o medo do poder absoluto – No fundo,
porém, A Ditadura da Toga não é apenas uma trilogia sobre Lula,
Bolsonaro, esquerda ou direita. Sua questão mais profunda é o medo do poder
absoluto. Esse é o elemento que permite que a obra ultrapasse a circunstância
política imediata.
A história política é povoada por sociedades que acreditaram
ter criado instituições capazes de impedir a concentração do poder. Quando
essas instituições começam a parecer maiores que os indivíduos, surge uma
pergunta inevitável: quem vigia os vigilantes?
É essa pergunta que paira sobre os três romances. A trilogia
de Ray Cunha pode, portanto, ser lida como uma espécie de distopia política
brasileira, ainda que construída sobre acontecimentos e personagens
reconhecíveis do mundo real.
Seu propósito não é oferecer ao leitor uma confortável
resposta. É colocá-lo diante de uma hipótese perturbadora: a de que a
democracia pode não morrer necessariamente quando alguém fecha o Parlamento ou
toma o palácio presidencial; ela também poderia, na lógica ficcional da obra,
ser corroída quando o poder se concentra progressivamente em instituições que
passam a escapar ao controle dos cidadãos.
A Ditadura da Toga é, antes de tudo, uma obra de
combate. Ray Cunha transforma a crise política brasileira em matéria literária
e constrói uma trilogia na qual poder, Judiciário, ideologia, liberdade e
resistência se enfrentam permanentemente. O CLUBE DOS ONIPOTENTES apresenta a
arquitetura do poder; O OLHO DO TOURO coloca o indivíduo no centro do conflito;
O TERCEIRO OLHO amplia a metáfora para uma reflexão sobre vigilância, percepção
e controle.
O resultado é uma obra que não pretende passar despercebida.
Pode-se concordar ou discordar radicalmente da interpretação política de Ray
Cunha. Pode-se discutir suas teses, suas personagens e sua visão do Brasil. Mas
é precisamente aí que reside uma das virtudes da literatura política: obrigar o
leitor a entrar no conflito. E essa é talvez a característica mais marcante de A
Ditadura da Toga: Ray Cunha não olha a crise brasileira da arquibancada. Ele
entra no ringue. E transforma a própria literatura em arena.
A Ditadura da Toga: Ray Cunha e a distopia política
brasileira. Entre 1984, Admirável Mundo Novo, O Zero e o
Infinito e o thriller político contemporâneo
A trilogia A Ditadura da Toga ocupa uma posição
singular dentro da ficção política brasileira contemporânea. Ao transformar a
crise institucional, a polarização ideológica e a disputa pelo controle das
narrativas públicas em matéria romanesca, a obra se aproxima da tradição da
distopia política, mas dela se afasta por um elemento decisivo: seu universo
ficcional nasce diretamente da experiência histórica brasileira do século XXI.
A trilogia pode ser lida, nesse sentido, como uma distopia
do presente. Não se trata de imaginar um futuro remoto no qual uma sociedade
totalitária tenha triunfado. O procedimento de Ray Cunha é mais inquietante:
partir de instituições, personagens, conflitos e acontecimentos reconhecíveis
para construir a hipótese ficcional de uma democracia progressivamente
submetida a mecanismos de concentração de poder. É nessa zona entre realidade e
ficção que se encontra a força estética e política de A Ditadura da Toga.
1. A tradição da distopia e o problema do poder – A
comparação com George Orwell, Aldous Huxley e Arthur Koestler é especialmente
produtiva. Em 1984, Orwell imagina um Estado totalitário que controla
simultaneamente a linguagem, a memória, a informação e a percepção da
realidade. O poder não se contenta em governar os corpos: pretende governar
aquilo que os indivíduos podem pensar.
Em Admirável Mundo Novo, Huxley apresenta mecanismo
diferente. O controle não depende essencialmente da violência aberta, mas da
produção sistemática de conformismo, prazer e condicionamento. O indivíduo é
domesticado antes mesmo de perceber que está sendo dominado.
Já em O Zero e o Infinito, Koestler concentra-se na
dimensão psicológica do totalitarismo: o indivíduo diante de uma máquina
política que reivindica o direito de definir a verdade, a culpa e a própria
legitimidade da existência.
Ray Cunha desloca esse problema para o Brasil contemporâneo.
Sua pergunta não é exatamente: como seria viver sob um Estado totalitário
clássico? É outra: como uma democracia poderia transformar progressivamente
seus próprios mecanismos institucionais em instrumentos de concentração de
poder? Essa diferença é fundamental.
2. Da polícia política à autoridade institucional – Nos
grandes romances distópicos do século XX, o poder costuma aparecer de maneira
ostensiva. Em Orwell, há o Partido, a Polícia das Ideias, a vigilância
permanente e o Grande Irmão. Na trilogia de Ray Cunha a imagem do poder assume
outra forma: a toga. A escolha do símbolo é literariamente inteligente porque a
toga representa, simultaneamente, autoridade, lei, julgamento e legitimidade
institucional. É justamente essa ambiguidade que sustenta a metáfora central da
obra. O problema não seria apenas o poder arbitrário, mas a possibilidade de o
arbítrio apresentar-se revestido de legalidade.
A expressão “Ditadura da Toga” funciona, portanto, como uma
fórmula paradoxal: junta duas palavras que, em princípio, deveriam ser
incompatíveis — a ditadura, associada ao arbítrio, e a toga, associada à
Justiça. O paradoxo constitui o centro semântico da trilogia.
3. Orwell e Ray Cunha: o controle da realidade – Há uma
aproximação particularmente fecunda entre 1984 e A Ditadura da Toga:
a disputa pelo controle da realidade. Orwell compreendeu que o poder político
se torna extraordinariamente forte quando consegue determinar não apenas aquilo
que acontece, mas aquilo que pode ser reconhecido como verdadeiro.
Ray Cunha transpõe essa questão para o ambiente
institucional brasileiro. Sua trilogia sugere ficcionalmente que o controle
político contemporâneo não precisa necessariamente eliminar a informação. Pode,
ao contrário, disputar sua interpretação. Quem determina o significado jurídico
de um acontecimento? Quem estabelece quais discursos são aceitáveis? Quem
decide quais personagens são vítimas, culpados, heróis ou ameaças? Quem possui
autoridade para definir os limites do discurso público? Essas questões
aproximam a trilogia do problema orwelliano da linguagem e da verdade.
Entretanto, Ray Cunha não constrói uma “Novilíngua”
brasileira. Seu instrumento é outro: o conflito entre narrativas políticas e
instituições encarregadas de interpretar a realidade jurídica.
4. Huxley e o desaparecimento silencioso da liberdade – A
comparação com Huxley acrescenta outra camada. Em Admirável Mundo Novo,
o totalitarismo não precisa necessariamente parecer totalitário. A sociedade
pode aceitar sua própria servidão porque acredita estar recebendo segurança,
estabilidade e bem-estar.
Essa ideia ajuda a compreender uma preocupação presente na
trilogia de Ray Cunha: a possibilidade de a perda gradual da liberdade
acontecer sem que a sociedade perceba imediatamente a dimensão da
transformação. A democracia, nessa leitura, não desapareceria de uma vez. Ela
seria esvaziada progressivamente. As instituições continuariam existindo. As
eleições continuariam ocorrendo. Os tribunais continuariam funcionando. A
linguagem constitucional continuaria presente. Mas o conteúdo efetivo da
liberdade poderia, segundo a lógica ficcional da obra, ser progressivamente
reduzido. É justamente esse mecanismo silencioso que aproxima a trilogia da
tradição distópica de Huxley.
5. Koestler: o indivíduo diante da máquina política – A
relação com O Zero e o Infinito é ainda mais profunda no plano
psicológico. Koestler constrói seu romance em torno do revolucionário Rubachov,
confrontado por uma máquina política que exige dele não apenas obediência, mas
a aceitação da própria lógica que o condena.
Em Ray Cunha, a tensão desloca-se para o indivíduo que
enfrenta estruturas institucionais que parecem muito maiores que ele. Daí a
importância do título O OLHO DO TOURO. A expressão sugere o indivíduo
transformado em alvo. O poder passa a ser percebido não apenas como estrutura
abstrata, mas como força capaz de selecionar, vigiar e atingir pessoas
concretas. A literatura política ganha então uma dimensão existencial. Não se
trata mais apenas de perguntar: “Quem governa?” Mas: “O que acontece com o
indivíduo quando ele se torna inimigo do poder?”
6. O thriller político como forma contemporânea – A trilogia
também deve ser examinada à luz do thriller político contemporâneo. O thriller
tradicional organiza-se em torno de segredo, conspiração, perseguição, perigo e
revelação. O thriller político acrescenta a essas categorias a disputa pelo
poder. Ray Cunha utiliza esse mecanismo para transformar conflitos
institucionais brasileiros em suspense narrativo.
A vantagem dessa forma é evidente: assuntos normalmente
restritos à análise política — Judiciário, governo, eleições, ideologia,
instituições, poder — tornam-se dramaticamente legíveis. O leitor não recebe
apenas uma tese. Recebe uma narrativa. E a narrativa cria uma experiência
emocional que o ensaio político dificilmente consegue produzir.
7. A trilogia como “romance de tese” – Do ponto de vista
acadêmico, A Ditadura da Toga também pode ser aproximada do chamado
romance de tese. Nesse tipo de literatura, a narrativa não existe apenas para
contar uma história. Ela também pretende demonstrar, questionar ou defender
determinada interpretação da realidade. Ray Cunha assume claramente esse
procedimento.
A trilogia não procura esconder sua perspectiva ideológica.
Ao contrário, faz dela um dos motores de sua construção narrativa. Isso produz
uma tensão estética importante. Quanto mais forte é a tese, maior é o risco de
a literatura transformar-se em panfleto. Por outro lado, quando a tese consegue
ser incorporada à estrutura dramática, ela pode produzir uma literatura de
intervenção extraordinariamente vigorosa. A qualidade da trilogia deve ser
avaliada justamente nessa fronteira.
8. Literatura e jornalismo – A experiência jornalística de
Ray Cunha é decisiva para compreender sua técnica narrativa. O jornalista
procura o fato. O romancista procura o significado do fato. O jornalista
pergunta: “O que aconteceu?” O romancista pergunta: “O que esse acontecimento
revela sobre o ser humano?”
Em A Ditadura da Toga, as duas perspectivas se
encontram. A matéria-prima é política, mas a ambição é literária. O autor
procura transformar acontecimentos públicos em símbolos. A toga torna-se
símbolo do poder. O olho torna-se símbolo da vigilância. O alvo torna-se
símbolo da perseguição. O terceiro olho torna-se símbolo de uma percepção que
ultrapassa aquilo que é imediatamente visível. A trilogia, portanto, constrói
uma gramática simbólica própria.
9. O TERCEIRO OLHO e a epistemologia do poder – É
particularmente importante observar o terceiro volume, O TERCEIRO OLHO, sob uma
perspectiva filosófica. O terceiro olho, presente em diferentes tradições
culturais e filosóficas, pode ser entendido como metáfora da percepção além do
visível. Aplicado à trilogia, ele ganha uma dimensão epistemológica. A questão
passa a ser: quem tem o poder de definir aquilo que todos os outros devem
enxergar? Essa é uma questão profundamente contemporânea. O poder político
moderno não depende apenas da força. Depende da capacidade de produzir
interpretações. O poder que controla a interpretação controla parte
significativa da realidade social.
Nesse sentido, O TERCEIRO OLHO funciona como fechamento
conceitual da trilogia: depois do “clube” que concentra o poder e do “olho do
touro” que identifica o alvo, surge o “terceiro olho”, associado à percepção
superior e à disputa pela verdade.
10. A Amazônia entra no centro do romance político
brasileiro – Há ainda uma contribuição particularmente relevante de Ray Cunha. A
trilogia é escrita por um autor do Amapá, Amazônia, mas sua matéria narrativa
desloca-se para o centro político do Brasil. Isso rompe com determinada
tradição do regionalismo brasileiro que frequentemente transforma a Amazônia em
cenário exótico.
Ray Cunha faz movimento contrário. A Amazônia observa
Brasília. O escritor amazônico transforma-se em intérprete do poder nacional. A
consequência é significativa para a literatura brasileira: a Amazônia deixa de
ser somente objeto da narrativa e passa a ser sujeito intelectual da
interpretação do país. Essa característica aproxima A Ditadura da Toga
de uma tendência maior da obra de Ray Cunha: a construção de uma literatura
amazônica urbana, política e cosmopolita.
11. A obra como documento literário de uma época – Independentemente
da concordância ou discordância com sua interpretação política, a trilogia
possui outro interesse: seu valor como documento literário de uma época
profundamente polarizada. A literatura não precisa concordar com o historiador
para ser historicamente significativa. Ao contrário: muitas vezes, o romance
registra justamente aquilo que os documentos oficiais não registram — medos,
ressentimentos, esperanças, convicções, fantasias políticas e percepções
coletivas.
Nesse sentido, A Ditadura da Toga registra uma
percepção existente em parte da sociedade brasileira: a de que o equilíbrio
entre os Poderes da República teria sido profundamente alterado e de que
instituições judiciais teriam adquirido protagonismo político excessivo. A
afirmação pode ser contestada politicamente e juridicamente. Mas sua existência
como percepção social é matéria legítima para a literatura. É aí que reside a
importância histórica do romance.
12. A trilogia e a tradição brasileira do romance político –
Dentro da literatura brasileira, A Ditadura da Toga pode ser relacionada
à tradição do romance político que passa por autores como Graciliano Ramos,
Jorge Amado, Érico Veríssimo e Antonio Callado, embora sua forma seja bastante
diferente daquela encontrada nesses escritores. O que muda é a natureza do
conflito. No romance político clássico brasileiro, frequentemente encontramos a
luta de classes, o coronelismo, a ditadura, a desigualdade social e a formação
do Estado.
Em Ray Cunha, o conflito desloca-se para as instituições
democráticas e para a disputa contemporânea pelo controle do Estado. É uma
literatura política própria da era da polarização digital, das redes sociais,
da judicialização da política e da guerra de narrativas.
13. Uma distopia sem futuro – Talvez a melhor definição para
a trilogia seja esta: uma distopia sem futuro. Orwell imaginou 1984. Huxley
imaginou um futuro condicionado. Ray Cunha escreve sobre o presente. Seu
procedimento é transformar o presente em futuro possível. É como se o autor
dissesse ao leitor: olhe cuidadosamente para aquilo que está acontecendo agora;
se essa lógica continuar, onde ela poderá nos levar? Esse é o mecanismo
clássico da literatura distópica. A distopia não prevê necessariamente o
futuro. Ela adverte sobre o futuro. E é nessa dimensão que A Ditadura da
Toga encontra sua maior legitimidade literária.
Conclusão: uma literatura para tempos de ruptura – A
Ditadura da Toga deve ser lida menos como simples romance partidário e mais
como uma experiência de ficcionalização radical da crise política brasileira. Ray
Cunha escolhe o thriller, a alegoria, a distopia e o romance de tese para
investigar uma questão que ultrapassa a conjuntura imediata: o que acontece com
a liberdade quando o poder institucional deixa de reconhecer seus próprios
limites? Essa pergunta aproxima a obra de Orwell, Huxley e Koestler, mas não a
transforma em mera derivação deles.
Ray Cunha escreve outra coisa. Orwell escreveu sobre o
controle da linguagem e da memória. Huxley, sobre o controle pelo
condicionamento. Koestler, sobre o indivíduo esmagado pela lógica
revolucionária. Ray Cunha escreve sobre a transformação do poder institucional
em objeto de disputa política e sobre a possibilidade de uma democracia ser
corroída por dentro. Sua trilogia é, portanto, menos uma profecia do que um
alerta literário.
E talvez seja precisamente por isso que A Ditadura da
Toga mereça ser discutida para além das fronteiras da disputa partidária:
porque, por trás da controvérsia sobre Lula, Bolsonaro, Esquerda, Direita ou
Judiciário, permanece a questão essencial que atravessa toda grande literatura
política: quem vigia o poder quando o poder passa a vigiar todos os outros? Essa
pergunta é maior que qualquer governo. Maior que qualquer partido. E é ela que
dá à trilogia de Ray Cunha sua dimensão literária mais duradoura.