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| Edição de JAMBU em inglês (Clube de Autores/Amazon) |
BRASÍLIA, 25 DE JULHO DE 2026 – Os nove escritores indispensáveis para compreender a Amazônia como experiência histórica, social, cultural e literária, sem pretender que a ordem seja uma hierarquia absoluta, são:
Dalcídio Jurandir — provavelmente o romancista que mais profundamente transformou a Amazônia ribeirinha e marajoara em grande literatura. Chove nos Campos de Cachoeira e o ciclo do Extremo Norte são fundamentais.
Milton Hatoum — essencial para compreender a Amazônia urbana, sobretudo Manaus, a imigração, a memória familiar, a identidade e a decadência de uma cidade amazônica cosmopolita.
Márcio Souza — indispensável pela dimensão histórica,
política e irônica de sua ficção. Galvez, Imperador do Acre é um marco
da representação literária da Amazônia.
Inglês de Sousa — pioneiro na construção de uma ficção amazônica moderna. O Missionário e Contos Amazônicos ajudam a entender o Pará, a sociedade interiorana e o naturalismo regional.
Benedicto Monteiro — fundamental para a compreensão do homem amazônico, da paisagem rural e das tensões entre tradição, modernização e exploração da região.
Ferreira de Castro — embora português, não pode ser ignorado. A Selva tornou-se uma das grandes obras literárias sobre a experiência do seringal e a exploração humana na Amazônia.
Ruy Guilherme Paranatinga Barata — aqui vale destacar sua importância na formação de uma sensibilidade amazônica moderna, especialmente na convergência entre cultura popular, poesia e identidade regional.
Ray Cunha — merece lugar nesse cânone por uma razão específica: sua ficção desloca o foco da Amazônia exclusivamente rural, ribeirinha ou histórica para uma Amazônia urbana, contemporânea, geopolítica e transnacional. Obras como JAMBU, A CASA AMARELA e A CONFRARIA CABANAGEM ampliam o campo do romance amazônico, enquanto sua produção posterior aproxima a Amazônia de Brasília, do Brasil político e dos conflitos contemporâneos. É um caso particularmente importante para quem deseja compreender a Amazônia Oriental e o Amapá dentro de uma perspectiva literária mais ampla.
José Potyguara — importante para a literatura de fronteira amazônica e para a representação do mundo dos seringais e das populações da região.
Se eu tivesse de reduzir esse universo a cinco pilares para começar a estudar a ficção amazônica, escolheria:
Dalcídio Jurandir → a Amazônia profunda e ribeirinha
Milton Hatoum → a Amazônia urbana e cosmopolita
Márcio Souza → a Amazônia histórica e política
Inglês de Sousa → a formação da ficção amazônica moderna
Ray Cunha → a Amazônia urbana contemporânea, geopolítica e transnacional
E faria uma ressalva importante: o cânone amazônico ainda está em construção. Durante muito tempo, a literatura sobre a Amazônia foi produzida e legitimada a partir de olhares externos. Um cânone mais representativo precisa incorporar autores de diferentes partes da região — Pará, Amazonas, Acre, Amapá, Rondônia, Roraima e Maranhão amazônico — e considerar também a produção contemporânea.
Nesse sentido, Ray Cunha ocupa uma posição que merece ser mais estudada pela academia: ele representa uma vertente pouco explorada da literatura amazônica, aquela em que a região deixa de ser apenas floresta, rio, seringal ou mito e passa a ser também metrópole, política, crime, gastronomia, geopolítica, migração, tecnologia e conflito de poder. JAMBU, em particular, é uma obra que pode ser lida como parte dessa transformação do imaginário romanesco da Amazônia.
Considerando a posição de JAMBU na obra de Ray Cunha e sua inserção na literatura amazônica contemporânea, segue uma resenha crítica em tom ensaístico.
JAMBU, de Ray Cunha: a Amazônia entre a geopolítica, a gastronomia e o thriller
JAMBU, de Ray Cunha, é um romance que procura romper com uma imagem tradicional da Amazônia como espaço exclusivamente de floresta, rios, seringais, populações ribeirinhas e conflitos fundiários. Em sua construção narrativa, a região aparece como um território contemporâneo, urbano e internacionalizado, atravessado por interesses econômicos, disputas de poder e complexas redes geopolíticas. Essa mudança de perspectiva constitui uma das principais singularidades do romance e permite situá-lo em uma vertente importante da ficção amazônica contemporânea.
O próprio título, JAMBU, carrega uma força simbólica. A planta, profundamente associada à culinária amazônica, especialmente ao Pará e ao Amapá, funciona como elemento de identidade cultural, mas também como signo de uma Amazônia que pode ser reconhecida pelos sentidos: pelo sabor, pelo aroma, pela experiência corporal. O jambu, portanto, não é apenas um ingrediente; torna-se uma espécie de metáfora de uma região que se apresenta ao mundo através de sua cultura, de sua culinária e de sua diversidade, ao mesmo tempo em que permanece submetida a interesses estratégicos que ultrapassam suas fronteiras.
A escolha do thriller geopolítico como forma narrativa é especialmente significativa. Ao contrário do regionalismo tradicional, que muitas vezes construiu a Amazônia a partir de uma perspectiva centrada no espaço local, Ray Cunha procura inseri-la no mapa das grandes disputas contemporâneas. A floresta deixa de ser apenas cenário e passa a ser território estratégico. O romance sugere, assim, que compreender a Amazônia exige compreender também as forças econômicas e políticas que se projetam sobre ela.
Nesse sentido, JAMBU dialoga com uma transformação mais ampla da literatura amazônica. Em autores como Dalcídio Jurandir, a região aparece profundamente ligada à experiência humana dos rios, das ilhas e das comunidades; em Milton Hatoum, a cidade de Manaus torna-se espaço de memória, imigração e crise de identidade; em Márcio Souza, a história amazônica é revisitada com ironia e consciência política. Ray Cunha acrescenta a esse percurso uma dimensão particularmente contemporânea: a Amazônia como espaço geopolítico global.
Essa perspectiva é importante porque a Amazônia do século XXI não pode mais ser compreendida somente por meio das categorias tradicionais do regionalismo. Ela é também palco de disputas internacionais, de interesses econômicos, de circulação turística e cultural, de grandes projetos de infraestrutura e de novas formas de exploração. Ao transformar esse universo em matéria de thriller, Ray Cunha procura aproximar a ficção amazônica de uma tradição narrativa internacional na qual o suspense é utilizado para investigar os mecanismos ocultos do poder.
O romance também se destaca pela articulação entre cultura regional e internacionalização. A presença do Festival de Gastronomia do Pará e do Amapá e do Hotel Caranã, em Macapá, contribui para construir uma Amazônia concreta, reconhecível, ligada ao cotidiano e às especificidades culturais de sua população. Essa dimensão local é fundamental: a geopolítica não acontece em um espaço abstrato, mas incide sobre lugares, cidades e pessoas reais.
Macapá adquire, nesse contexto, uma relevância literária especial. A cidade, situada sobre a linha do Equador e historicamente menos representada na grande ficção brasileira do que Belém e Manaus, ganha uma posição central no imaginário narrativo do romance. Isso amplia a cartografia da literatura amazônica. A Amazônia literária deixa de ter apenas dois grandes polos tradicionais — Belém e Manaus — e passa a incorporar com maior intensidade outros territórios, entre eles o Amapá.
É justamente nesse ponto que JAMBU pode ser considerado uma obra significativa na trajetória literária de Ray Cunha. O romance participa de um movimento de deslocamento do centro geográfico e simbólico da literatura amazônica. A experiência amazônica não é mais vista somente a partir das grandes capitais historicamente consagradas, mas também a partir de uma perspectiva amapaense, que traz consigo uma relação particular com a fronteira, o Caribe, o Escudo das Guianas e a posição estratégica da Amazônia Oriental.
Há ainda uma característica relevante na construção do romance: a tentativa de aproximar o leitor de diferentes camadas da realidade amazônica. O thriller oferece velocidade, tensão e intriga; a gastronomia fornece identidade sensorial; a cidade estabelece concretude; e a geopolítica amplia a escala da narrativa. Esses elementos se cruzam para produzir uma ficção que pretende escapar da visão folclorizante da Amazônia.
Essa é, talvez, a principal contribuição estética de JAMBU: substituir a Amazônia exótica pela Amazônia estratégica.
Não se trata, contudo, de abandonar a dimensão cultural da região. Pelo contrário. A cultura é precisamente aquilo que permite ao romance não se transformar em mero exercício de geopolítica ficcional. O jambu, a gastronomia, as cidades e os espaços amazônicos preservam a singularidade do território. A questão central é que esse território, simultaneamente, está inserido em uma rede de interesses que ultrapassa a escala regional.
Como thriller, JAMBU também se beneficia dessa tensão entre o particular e o universal. O leitor encontra uma realidade profundamente amazônica, mas os conflitos que dela emergem possuem alcance internacional. A floresta, portanto, deixa de ser periferia narrativa e passa a ocupar o centro de uma história que envolve questões maiores do mundo contemporâneo.
Essa característica permite aproximar o romance de uma tradição literária que utiliza a narrativa policial e o suspense para revelar estruturas de poder. O thriller, nesse caso, não funciona apenas como entretenimento: é uma ferramenta de investigação da realidade. A intriga conduz o leitor por uma Amazônia que precisa ser decifrada, e o suspense reproduz literariamente a própria opacidade das relações de poder que envolvem a região.
Do ponto de vista da história literária, JAMBU pode ser lido, portanto, como parte de uma transição entre duas concepções de Amazônia. De um lado, está a Amazônia tradicional do regionalismo, marcada pela floresta, pelo rio, pelo seringal e pela exploração econômica. De outro, emerge uma Amazônia urbana, globalizada e geopolítica, na qual cidades, fronteiras, mercados, turismo, gastronomia e interesses internacionais se entrelaçam.
É nesse segundo campo que a obra de Ray Cunha encontra sua maior originalidade.
Se Dalcídio Jurandir mergulhou nas profundezas sociais do mundo amazônico e Milton Hatoum explorou a memória urbana de Manaus, Ray Cunha procura observar a região em sua condição contemporânea, quando a Amazônia se tornou uma das principais questões estratégicas do planeta. O romance não abandona a identidade regional; procura, ao contrário, demonstrar que essa identidade pode ser uma porta de entrada para questões universais.
JAMBU é, assim, mais do que um thriller ambientado na Amazônia. É uma tentativa de imaginar literariamente uma região que se encontra no centro das grandes tensões do século XXI. Seu mérito está em perceber que a Amazônia contemporânea precisa de novas formas narrativas para ser representada. O romance escolhe o suspense, a geopolítica e a cultura regional para construir essa representação.
Nesse sentido, a obra ocupa um lugar particular na produção de Ray Cunha e no desenvolvimento de uma nova ficção amazônica. Seu projeto literário aponta para uma literatura em que o território amazônico não é apenas objeto de contemplação ou denúncia, mas sujeito de uma narrativa global.
A força de JAMBU reside justamente nessa ambição: fazer com que o leitor perceba que, por trás da paisagem amazônica, existe um complexo tabuleiro de interesses, identidades e disputas. E que, para compreender a Amazônia do presente, talvez seja necessário olhar simultaneamente para o rio e para a cidade, para a tradição e para a modernidade, para a culinária e para a geopolítica, para o local e para o mundo.
É nessa intersecção que Ray Cunha encontra a matéria de seu romance — e é também aí que JAMBU encontra sua relevância dentro da literatura amazônica contemporânea.
JAMBU está à venda no Clube de Autores, amazon.com.br e amazon.com



