quinta-feira, 6 de maio de 2021

Como desenvolver a mediunidade na acupuntura

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 6 DE MAIO DE 2021 – A maioria dos pacientes que atendo todos os meses, quase nunca menos de 20, é de pessoas com mais de 60 anos, geralmente mulheres, muitas delas ansiosas, com fibromialgia, insônia, sobrepeso, presas ao passado e com sentimento de culpa pelo que fizeram e não fizeram. 

Em Medicina Tradicional Chinesa são diagnosticadas basicamente com afundamento do Qi do baço e fogo de fígado invadindo coração e pulmões. Isso quer dizer o seguinte: energeticamente, o baço é o órgão que produz e tonifica o sangue, governa e dá tônus aos músculos e nos eleva, inclusive psicologicamente, e Qi é a energia básica da vida. Quando ele afunda no baço é sinal que a morte se aproxima. 

O elemento do fígado é madeira. Quando a madeira pega fogo, devido à raiva em que se tornou a vida do paciente e à quantidade de medicamentos que está ingerindo por dia, e atinge o coração, de elemento fogo, a pessoa entra em colapso nervoso, e quando atinge os pulmões, de elemento metal, e o metal derrete, entra em colapso total. 

O terapeuta, então, por meio da acupuntura, moxa, massagens, fitoterapia e alimentação terapêutica, procura reequilibrar as energias Yin e Yang naquele corpo. É aí que entra a mediunidade, ou sensibilidade, que é considerar os corpos sutis do paciente. 

Procuro explicar, a cada um, o que é a mente e como episódios do passado podem segurar e impedir a evolução. Geralmente, o fogo do fígado é gerado por um poço de ressentimentos. 

Atendi um caso, por exemplo, de uma senhora que parecia um monte de lamentos e gemidos na maca, e que, segundo ela, não nutria atrito mental com ninguém. Conversando com ela, aos poucos ela foi desfiando um rosário de horror, sofrimento imposto pelo seu pai e depois pelo seu marido. 

Instruí-a sobre práticas de perdão e de gratidão, e de amor próprio. Ela compreendeu e já saiu do ambulatório aliviada. Tonifiquei seu baço, fi-la relaxar e abri os poros da sua mente, conectando-a à sua natureza espiritual. 

Todos nós somos médiuns. É claro que sim, pois somos seres espirituais. A percepção do mundo espiritual é algo que adquirimos. É só querer. Principalmente querer fazer o bem, amar o próximo. 

A rigor, mediunidade é uma ponte entre humanos encarnados e espíritos desencarnados; ponte que pode ser percorrida de diversas formas. A mediunidade sempre esteve presente ao longo da História, mas só a partir do século XIX é que começou a ser objeto de investigação científica. 

Há desde sensitivos, como eu – capaz de perceber a vibração de corpos sutis, como os corpos astral, das emoções, e etéreo, dos cinco sentidos –, até médiuns que fazem viagens astrais, como o astrofísico brasileiro Laércio Fonseca. O corpo físico é mera roupa, escafandro para que o espírito possa se materializar na sufocante atmosfera terrestre. 

Como, por exemplo, André Luiz, por meio de Chico Xavier, forneceu informações complexas e corretas sobre a fisiologia da glândula pineal 60 anos antes de a ciência as confirmarem? Chico Xavier tinha baixa escolaridade. 

Pessoas conversando sozinhas estariam sozinhas mesmo? Ou conversam com encostos? A mecânica é simples. No ambiente de prostíbulos, por exemplo, é fácil sentir-se uma atmosfera carregada, pois a vibração de espíritos que vagam no Umbral, loucos por uma gota de álcool e um pouco de sexo, obsedam os convivas. 

Da mesma forma, quando o terapeuta estuda, pesquisa, para servir ao próximo com amor e dedicação, seus mentores espirituais entram em sintonia com ele e a luz de Deus o conduz. 

Lembro de certa vez, no voluntariado do Centro Espírita André Luiz (Ceal), no Guará I, que um médium do centro, ali se tratando em acupuntura, comentou:

– Aqui, hoje, está cheio de homens altos, de dois metros de altura, vestidos com jalecos brancos, orientando vocês.

quarta-feira, 5 de maio de 2021

O que é ficção e o que é jornalismo? Qual o ponto em comum entre as duas tarefas?

O escritor Ernest Hemingway buscava a verdade na invenção

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 5 DE MAIO DE 2021 – Além da palavra – a ferramenta de que escritores e jornalistas lançam mão na construção de seus edifícios –, ficção e jornalismo nada apresentam, aparentemente, em comum. Como água e óleo, não se misturam. Mas Os Sertões, de Euclides da Cunha; Kaput, de Curzio Malaparte; A Sangue Frio, de Truman Capote; Verdade ao Amanhecer, de Ernest Hemingway, são alguns exemplos de reportagens com valor literário. Como, pois, ambas as formas de escrita, ficção e jornalismo, podem ocupar a mesma prateleira, lado a lado, se ficção é criação, invenção, mentira, enquanto jornalismo atua como um sopro de luz sobre a verdade? 

Em determinado momento, ficção e jornalismo se amalgamam e se confundem, a ponto de não mais sabermos o que é mentira e o que é verdade. Se a missão do repórter é se aproximar, o mais perto possível, da verdade, mesmo se movendo em terreno pantanoso, “a tarefa do escritor é dizer a verdade” – observou o ficcionista e jornalista americano Ernest Hemingway. A verdade, por conseguinte, é o nervo que liga ficção e jornalismo. 

Móvel, fluida, enganadora, habitante de uma zona morta, a verdade simplesmente não pode ser resgatada. Entrevistando vários oficiais na Guerra da Criméia (1854), o correspondente do The Times de Londres, William Howard Russel, descobriu que “os relatos de testemunhas são, frequentemente, contraditórios”. Como, então, o escritor e o repórter poderão se aproximar de algo que se dilui e desaparece? 

O artista e o jornalista perseguem o mesmo fim. Nisso, suas tarefas são semelhantes. A diferença consiste tão-somente em que enquanto o repórter, caminhando sobre areias movediças, procura chegar o mais perto possível da verdade, o escritor simplesmente inventa a verdade. Enquanto a atividade do jornalista se corporifica por meio da investigação e da coleta de provas, a do artista se incorpora pela criação. E se o jornalista e o escritor, conforme exige o trabalho de cada qual, resgatam como as coisas eram, de forma tal que o relatório do jornalista, ou a criação do artista, se mova para sempre, ambos terão alcançado a verdade. 

O crítico literário americano Carlos Baker identifica três instrumentos estéticos que servem para o registro de como as coisas eram: “o sentido do local, o sentido do fato e o sentido da cena”. Hemingway disse que “se não tivermos geografia, um cenário de fundo, nada temos”. A fusão, pois, de local e fato, por meio da ação, gera a cena, móvel como a própria vida. 

O escritor e jornalista italiano Curzio Malaparte, em despacho da Rússia, em 1942, escreveu para o Corriere de la Sera: “Sob meus pés, impressa no gelo como em cristal transparente, estava uma fileira de belos rostos humanos, uma fileira de máscaras de vidro, como num ícone bizantino. Estavam olhando para mim, fitando-me. Os lábios eram estreitos e gastos, o cabelo comprido, os narizes afilados, os olhos grandes e muito claros. Eram as imagens dos soldados soviéticos que haviam caído na tentativa de cruzar o lago. Seus pobres corpos, aprisionados durante todo o inverno pelo gelo, foram arrastados pelas primeiras correntes da primavera. Mas seus rostos permanecem impressos no límpido cristal verde-azulado. Observam-me serenamente e até pareciam tentar acompanhar-me com os olhos”. 

Fato: Segundo Guerra Mundial. Local: lago na Rússia. Cena: mortos que fitam um viajante. Aqui, o verbo fitar fez da notícia um registro vívido do fato. Deu-lhe ação. Vida. 

Ao erguer o edifício da reportagem de longe fôlego, o repórter deve considerar alguns pequenos truques, comuns no arsenal do ficcionista. Estará, assim, despertando, no leitor, interesse permanente, o mesmo interesse que somente a ficção de primeira categoria pode proporcionar. 

Assim como o escritor, o jornalista classe A evita a falácia patética, que se trata de excesso de emoção. O excesso de emoção dificulta a descrição da realidade, ao passo que, ao controlar a emoção, o repórter verá o que realmente está acontecendo e descrever isso. Ora, sendo a falácia patética um erro de percepção, será, também, um erro de expressão, “já que o que foi visto erradamente não pode ser descrito veridicamente” – observa Carlos Baker. 

O domínio da emoção resulta, segundo Baker, em “vermos aquilo que vemos, em vez daquilo que pensamos ver; aquilo que sentimos, em vez daquilo que somos supostos a sentir; e em dizer diretamente o que vemos realmente, em vez de apresentarmos uma versão falsa do que vemos”. 

A falácia apática é outro inimigo da verdade, porque “a razão é tão fria e tensa que a emoção é inteiramente esmagada” – diz Baker. Enquanto a falácia patética deturpa a realidade, a falácia apática a imobiliza, e a intensidade, que é vida, dá lugar à tensão, que é morte. 

Baker enumera ainda a falácia cinematográfica: “O mesmo que apontar um espelho e um microfone para a vida e registrar, com precisão absoluta, embora seletiva, todos os reflexos e sons”. O fato jornalístico registrado por meio de um espelho e um microfone é limitar a realidade a movimento, diferentemente do efeito produzido pelo sentido da cena, que é ação e, portanto, vida. 

Ernest Hemingway desenvolveu um princípio estético a que chamou de “disciplina da percepção dupla”, que é a descrição do fato e da reação emocional sobre quem o vê. O jornalista americano Januarius Aloysius Mac-Gahan foi o pivô da guerra russo-turca (que teve início em 29 de abril de 1877) e pela independência da Bulgária. A gota d’água foi o que ele escreveu, que se constitui em um exemplo de dupla percepção. O horror descrito pelo repórter foi perpetrado pelos curdos e bashibazouks turcos para esmagar a revolta búlgara de 1876. Mais de 12 mil homens, mulheres e crianças tinham sido mortos. 

“Acho que cheguei com uma disposição de espírito justa e imparcial e, certamente, deixei de lado a frieza. Há coisas demasiado horríveis para permitir algo assemelhado a uma investigação tranquila; coisas cuja vileza o olho se nega a examinar e a mente se recusa a considerar. Deparamos com um objeto que nos encheu de piedade e horror. Era o esqueleto de uma mocinha que não tinha mais de quinze anos. Ainda estava vestida numa camisa de mulher, mas os pezinhos, dos quais os sapatos tinham sido retirados, estavam nus e, devido ao fato de a carne secar, em vez de se decompor, encontravam-se quase perfeitos. O procedimento parece ter sido o seguinte: eles agarravam uma mulher, despiam-na cuidadosamente, deixando-a de camisa e pondo à parte quaisquer enfeites ou jóias que por acaso tivesse sobre si. Então, tantos quantos assim o desejassem, violentavam-na, e o último homem a matava ou não, segundo a disposição com a qual se encontrasse. 

“Fomos informados de que havia três mil pessoas jazendo neste cemitério apenas. Era uma visão horrenda – uma visão para apavorar a pessoa pelo resto da vida. Havia cabecinhas cheias de cachos ali, naquela massa apodrecida, esmagadas por pedras pesadas; pequenos pés que não chegavam ao comprimento de um dedo, nos quais a carne ressecara-se; mãozinhas de bebês projetavam-se para fora, como se pedissem ajuda – criancinhas que morreram espantadas com o reluzir dos sabres e as mãos vermelhas dos homens de olhos ferozes a manejá-los; filhos mortos encolhidos de susto e terror; mães que morreram tentando proteger seus rebentos, com seus próprios corpos fracos, todos jazendo juntos ali, apodrecendo numa única massa horrenda.” 

Um truque final: ao pintar-se o painel da reportagem de longo fôlego, o ato de seleção verbal é de vital importância – o que quer dizer eliminar todas as palavras falsas. “Somente através de um cuidado constante, nunca desencorajado, na formação e ritmo das frases, é que a luz da sugestividade mágica pode ser elevada a atuar por um instante evanescente sobre a superfície do lugar das palavras – das velhas, velhas palavras, já desgastadas, tornadas muito tênues por eras de uso descuidado” – disse Joseph Conrad, o autor de O Coração das Trevas. 

A posição da palavra na frase, o ritmo que ela imprime, tudo isso deve ser considerado. Em Os Sertões, os mandacarus assumem vida humana, “despidos e tristes, como espectros de árvores”, e o ritmo pode ser localizado em frases como “Longos dias amargos dos vaqueiros” – um decassílabo com cesura na sexta sílaba. Versos como esses são incontáveis em Os Sertões, abrindo a porta do texto jornalístico para a poesia. 

Ao resgatar o fato jornalístico na reportagem de longo fôlego, mantendo as personagens vivas, como fez Norman Mailer em A Luta, o repórter terá alcançado o ponto culminante da estética jornalística, e o escritor, o ponto culminante da estética artística: a verdade.

 

Este curto ensaio é o resultado do meu trabalho de conclusão do curso de Jornalismo na Universidade Federal do Pará (UFPa.), apresentado em agosto de 1987. A forma técnica de um trabalho acadêmico foi cortada até o osso, seguida de um trabalho de ourivesaria, até resultar neste resumo.

terça-feira, 4 de maio de 2021

Eu autorizo!

Bolsonaro no programa de Sikêra Jr., da TV A Crítica, em Manaus: tudo pelo povo

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 3 DE MAIO DE 2021 – No dia 23 de abril, em Manaus, o presidente Jair Bolsonaro participou do programa do apresentador Sikêra Jr., da TV A Crítica.

– Nós investimos pesado para segurar empregos. Nós terminamos dezembro de 2020 com mais empregados do que dezembro de 2019. Foram criados 600 mil novos empregos, mas temos uma massa que perdeu o ganha pão, em torno de 40 milhões de pessoas; para esse pessoal voltar ao mercado tem que parar de fechar tudo. Desde março do ano passado eu falei que se fechar tudo vai ser o caos. O auxílio emergencial acaba daqui a três meses. Se continuar fechando tudo, vamos ter problemas pela frente – disse Bolsonaro.

Sikêra perguntou se Bolsonaro pensa em uma ação mais enérgica contra as medidas restritivas impostas por governadores e prefeitos contra a população e respaldadas pelo Supremo.

– O pessoal fala no Artigo 142 (da Constituição) e ele é pela manutenção da lei e da ordem, não é para a gente intervir. Para o que eu me preparo: caos no Brasil. Essa política de quarentena, lockdown e toque de recolher é um absurdo! Se tivermos problemas, nós temos um plano de entrar em campo. Nossas forças armadas, se precisar, iremos às ruas não para manter o povo dentro de casa. Eu não posso extrapolar. Estou com meus 23 ministros conversados sobre o que fazer caso o caos seja implantado no Brasil pela fome. O caldo só não entornou no ano passado em função do auxílio emergencial. É fácil falar em manter os 600 reais. O Brasil não pode quebrar. Nós temos responsabilidade e eu sempre disse que tínhamos dois problemas pela frente: o vírus e o desemprego. Se tivermos problemas sérios, pode ter certeza que vamos entrar em campo para resolver o assunto.

Sábado, 1 de maio, milhões de pessoas foram às ruas pelo Artigo 142 e avisando: não mexam com o presidente Jair Messias Bolsonaro, a quem quase matam, deixando-o com uma cicatriz gigantesca na barriga, e a quem vêm tentando desmoralizar, destituir do cargo e prender. Desde 1 de janeiro de 2019 que Bolsonaro não deixa roubar.

A CPI da Covid-19, ou da Pandemia, ou do Coronavírus, ou do Vírus Chinês, ou do Despautério, criada em 13 de abril e instalada no Senado Federal em 27 de abril, investiga supostas omissões e irregularidades nos gastos do governo federal durante a pandemia.

O circo saiu da cabeça do senador Randolph Frederich Rodrigues Alves, conhecido como Randolfe Rodrigues (Rede/AP), pernambucano de Garanhuns, professor, líder da oposição no Senado. Começou sua vida política no Partido dos Trabalhadores (PT), pulou para o Partido Socialismo e Liberdade (Psol) e, finalmente, para a Rede Sustentabilidade, de Marina Silva.

Randolfe se tornou popular por lembrar Harry Potter, mas lembra também outra personagem menos conhecida, Baby Herman, com voz de falsete e muito faniquito. Nutre ódio visceral por Bolsonaro, que teria aplicado um soco no bucho do senador mais votado pelos amapaenses, e o trata como a um garoto travesso, tipo Peter Pan. Agora, Randolfe terá oportunidade de se vingar, e de brilhar, na CPI, da qual é vice-presidente.

O ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo, ordenou ao presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (Dem/MG), a criação da CPI, confirmada por 10 votos a 1 na corte. Randolfe queria que somente Bolsonaro fosse investigado. Só que a coisa se ampliou e os governadores e prefeitos que desviaram bilhões de reais enviados pelo governo federal para os estados e municípios fatalmente serão investigados também. É o que chamam de tiro saindo pela culatra.

E o presidente da CPI? O senador paulista radicado no Amazonas, Omar Aziz (PSD/AM). A esposa dele, deputada Nejmi Aziz (PSD), e seus três irmãos, Murad, Amin e Manssur Aziz, já foram presos, em 2019, acusados de desvio de verbas públicas da saúde do Amazonas. A Justiça bloqueou bens no valor de R$ 92,5 milhões dos investigados. A Polícia Federal concluiu que os desvios começaram quando Aziz era governador do estado, entre 2010 e 2014. Foi reeleito.

Aziz é visto pelos seus críticos, na CPI, como um mapinguari, um contador amestrado tomando conta da contabilidade da burra da pandemia.

E o relator? Nada menos que Renan Calheiros, que dispensa apresentações, pois tem prontuário extenso demais para passar despercebido. José Renan Vasconcelos Calheiros, alagoano de Murici, do MDB, no quarto mandato senatorial, foi presidente do Senado por três períodos, até 2007, quando renunciou ao cargo acusado de corrupção.

Antes de entrar na política, Renan não tinha onde cair morto, ou melhor, tinha, um fusca. Hoje, é dono de fazendas, imóveis e empresas. Um dos seus filhos, Renan Calheiros Filho, é governador de Alagoas. Renan pai teve um caso com a jornalista Mônica Veloso que resultou em uma filha, Maria Catharina Freitas Vasconcelos Calheiros, e um processo de cassação, mas foi absolvido pelos seus pares.

José Sarney, maior patrimonialista do país, depois de Lula Rousseff, e que tentou inclusive anexar o Amapá ao Maranhão, foi o grande aliado de Renan, a quem ensinou os macetes para chegar ao topo e de lá mandar e desmandar. Em 2002, Renan, e o MDB, viram que Lula Rousseff ia ser eleito presidente, pois tinha apoio de Fernando Henrique Cardoso, e aí começou um namoro firme com o ex presidiário, e até hoje é unha e carne com o jacaré.

Em 2007, explodiu o Renangate, a construtora Mendes Júnior pagava 12 mil por mês à ex amante de Renan, Mônica Veloso. Foi a revista Veja, quando ainda era uma revista séria, que fez a denúncia. A partir de então pipocaram denúncias na mídia contra Renan.

Augusto Nunes, um dos jornalistas brasileiros mais destemidos e comprometidos com a verdade, observou que o codinome de Renan na lista de propina da Odebrecht, divulgada pela Lava Jato, operação do Ministério Público e da Polícia Federal desqualificada pelo Supremo, é Atleta. “Irretocável. A folha corrida do senador denuncia um maratonista da delinquência. O prontuário do gerente do MDB alagoano é coisa de matar de inveja até um campeão de bandalheiras promovido a chefão do PCC.”

Ainda Augusto Nunes: “Em nações civilizadas, o Atleta da Odebrecht estaria na cadeia há muito tempo. Num Brasil abastardado pelo Supremo Tribunal Federal, Renan segue driblando a capivara cevada pela pilha de processos e inquéritos. Em vez de temporadas na gaiola, coleciona mandatos na presidência do Senado. Até agora são três. Vai começar a campanha para chegar ao quarto na quinta-feira, fantasiado de relator da CPI da Pandemia. Só no País do Carnaval um investigado investiga. O criador do codinome do senador merece alguma condecoração. Sem sair da Praça dos Três Poderes, sem se afastar de cargos relevantes, Renan Calheiros foge da Justiça há quase 30 anos. É o nosso Usain Bolt da corrupção. É um tremendo Atleta”.

terça-feira, 27 de abril de 2021

Heitor Andrade era como Picasso: um paradoxo

O poeta Heitor Andrade com sua bebida favorita: vinho

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 27 DE ABRIL DE 2021 – A última vez que vi Heitor Andrade foi pouco antes de ele morrer, em 2017. Ele estava morando na Editora Thesaurus, no Setor Gráfico. Fomos andando, naquela tarde, até a Pães e Vinhos, uma cafeteria na Quadra 103 do Sudoeste, a menos de um quilômetro da Thesaurus. Comemos pão torrado com manteiga e café com leite, e conversamos, como sempre, sobre tudo. Ele estava com 80 anos, mas era um garoto. 

Curtia tudo, como só os poetas sabem fazê-lo. Adorava a noite, as luzes, as bebidas, as mulheres, o sol, e tinha aquele charme dos poetas que conseguem sentir cheiro de mulher trazido na aragem de leste. Heitor Humberto de Andrade, H2A, nasceu em Salvador, em 21 de junho de 1937, e morreu em Brasília, a cidade que adotou como sua, em 1 de dezembro de 2017. 

Deixou publicados os livros: Corpos de concreto (Salvador, Imprensa Oficial da Bahia, 1964); Sigla viva (Rio de Janeiro, Grupo de Planejamento Gráfico Editores, 1970); 3x1: a matemática do poema (Brasília, Senado Federal, 1978 – Coleção Machado de Assis, 14); Nas grades do tempo (Brasília, André Quicé, 1994); Minha moldura é o Universo (Brasília, Siglaviva, 2012); O cão selvagem (Brasília, Siglaviva, 2013); Corpos de concreto (Brasília, Siglaviva, 2014); e Probabilidade do jogo (Brasília, Siglaviva, 2016). 

A partir de 1970, são publicados os seguintes pôsteres-poemas: Sigla Viva e Só amo (1970; arte: Sami Mattar), Lirismo (1985; arte: J. L. Paula), Pequena Revolução Burguesa (1989; arte: Simone Queiroz), Vislumbre (1994; arte: Mônica Indig), A Mulher dos Meus Sonhos (2006; arte: Beto Sá), A Mario Quintana (2010; arte: Ilva Araujo), Momento (2010; arte: Marcos Design) e Delicadeza de Lorena (2013; arte: Renato Cunha). 

Em 8 de março de 1985, o poema Lirismo foi ofertado pela Mane do Brasil, com tiragem de mil peças, distribuídas em todas as filiais da empresa no mundo, oferecidas aos grandes clientes como brinde da inauguração da fábrica. A matriz, francesa, foi fundada em 1871 e hoje é administrada pela quarta geração da família Mane. 

Especializada na criação de essências aromáticas do perfumismo e produção de bebidas destiladas, a filial brasileira é sediada no bairro de Jacarepaguá, na cidade do Rio de Janeiro. O designer J. L. Paula criou, em 1960, para a Mane do Brasil, a arte para Lirismo. 

No cartaz, o poema flutua juntamente com uma grande balança, frascos, garrafas e um almofariz: Havia um jasmineiro/lá em casa/florescia todo ano/Nem a fumaça que o envolvia/obscurecia sua alvura/aos olhos da rua/Ele brincava de florir/cuspindo todo mundo/com suas pétalas de perfume. 

Em 2008, Heitor Andrade apresentou o monólogo dramático Teatro do Imprevisto, no Café com Letras, em Brasília. 

Foi editor da revista O Pioneiro, do Clube dos Pioneiros de Brasília – dez edições, de 2000 a 2009, sempre em abril, mês de aniversário de Brasília. Diversos jornais e revistas publicaram reportagens, artigos, resenhas e poemas dele. 

Desconfio que não sabia da sua idade, e nem queria saber. Parecia um monge. Era pequeno, seco, sua pele era rosada e seus olhos verdes. Escrevia poemas o tempo todo e tirava seu sustento do jornalismo. Amou muitas mulheres lindas e todas pelejaram para retê-lo, mas ele era indomável. Contudo, legou filhos e livros para o mundo. O fato é que só tinha compromisso mesmo era com a poesia. Lembra-me Pablo Picasso. 

Não conheci Picasso, que nasceu em Málaga, Andaluzia, Espanha, onde veio à luz em 25 de outubro de 1881, e, aos 91 anos, em 8 de abril de 1973, após uma noite de trabalho, morreu de infarto, em Mougins, na Côte d'Azur, França. Pintor, escultor, ceramista, cenógrafo, poeta e dramaturgo, foi criador inesgotável, artista incansável e amante intenso da vida. Sei apenas, além do que li sobre Picasso, que ele, como Heitor, podia sentir o cheiro de mulher nua trazido pela aragem de leste. 

Criador do cubismo, ao lado de Georges Braque, e inventor da escultura construída e da colagem, era prolífico como seu nome de batismo: Pablo Diego José Francisco de Paula Juan Nepomuceno María de los Remedios Cipriano de la Santísima Trinidad Ruiz y Picasso. Era também bom marqueteiro de si mesmo. Contava que nasceu morto, mas o médico, Don Salvador, o salvou, trouxe-o de volta à vida soprando-lhe fumo de um charuto na face, que o fez chorar, e viver. Gênios têm que viver. 

Em 1968, aos 87 anos, já então uma das maiores celebridades do mundo, produziu em sete meses uma série de 347 gravuras, inclusive com temas da juventude. Aos 90 anos, o Museu do Louvre comemora o aniversário de Picasso com exposição na grande galeria. Era a primeira vez que dispensavam esse tratamento a um artista vivo. 

Na véspera de morrer, aos 91 anos, brindou com os amigos: “Bebam à minha saúde. Vocês sabem que não posso beber mais”. Depois foi pintar, até as 3 da manhã, antes de ir dormir. Acordou na manhã seguinte com dores no peito e não conseguiu se levantar. Poucos minutos depois sofria um infarto fulminante. Foi sepultado no Castelo de Vauvenargues, na Costa Azul, sul da França. 

Marina Picasso, neta de Pablo, disse: “Ninguém na minha família conseguiu escapar do domínio da sua genialidade. Ele precisava de sangue para assinar cada uma de suas pinturas: o sangue do meu pai, do meu irmão, da minha mãe, da minha avó e o meu. Ele precisava do sangue daqueles que o amavam”. Picasso: “Para mim, existem apenas dois tipos de mulheres: deusas e capachos”. 

Para Marina, o tratamento que seu avô dispensava às mulheres era parte vital de seu processo criativo: “Ele as submeteu à sua sexualidade animal, as domou, as embrulhou, as ingeriu e as esmagou em suas telas. Depois de ter passado muitas noites extraindo sua essência; uma vez que foram sangradas, ele iria se livrar delas”. 

Cada homem vê a vida, e as mulheres, a seu jeito. São o que são. As mulheres que voam em torno desses homens o fazem por alguma razão. Há homens apagados em torno de quem nenhuma mulher sobrevoa. Outros, brilham tanto que matam as mulheres que voam na sua direção. E há homens que eles é que voam em direção a mulheres de luz. Como se vê, há todo tipo de voo.

Os gênios são sempre luminosos, mas sua luz não é necessariamente a dos santos e pode queimar, porque o sol, se nos expusermos a ele em um local muito alto e por muito tempo, ninguém resiste ao seu calor.

segunda-feira, 19 de abril de 2021

Roberto Carlos canta para Santa Rita de Cássia a música suave que vem do éter azul das estrelas

Roberto Carlos e Ray Cunha em Manaus - junho de 1976

Olivar Cunha e Santa Rita de Cássia, em Conduru/ES

RAY CUNHA

BRASÍLIA, 19 DE ABRIL DE 2021 – No dia 22 de maio, a Casa de Cultura Roberto Carlos, na Rua João de Deus Madureira, bairro do Recanto, na cidade natal de ícone da música popular brasileira, Cachoeiro do Itapemirim, sul do Espírito Santo, receberá uma acrílica sobre tela imortalizando Roberto e a padroeira do distrito cachoeirense de Conduru, Santa Rita de Cássia, em espátula e pincel de um dos grandes expressionistas do país e restaurador de obras sacras do Espírito Santo, Olivar Cunha, que mantém ateliê em Conduru.

É uma homenagem ao maior cantor e compositor pop do Brasil, que hoje completa 80 anos. A Casa de Cultura Roberto Carlos é onde Roberto nasceu e viveu até os 13 anos, com seus pais e os irmãos. Adquirida pela prefeitura de Cachoeiro, tornou-se museu, com documentos, fotos, discos, quadros, instrumentos musicais, como o piano em que Roberto tinha aulas quando criança, e um aparelho no qual a família ouvia a Rádio Cachoeiro, onde o músico cantou pela primeira vez, em um programa infantil, aos 9 anos. 

No pavimento superior, foi criado o Cantinho do Artesão, sede da Associação dos Artesãos de Cachoeiro de Itapemirim, onde se pode comprar produtos artesanais em pedra, contas, madeira e tecido, além de doces, pães e compotas. O museu, que ajuda a resgatar a história do mais conhecido artista pop do Brasil, é frequentado por milhares de fãs, turistas e curiosos, o ano inteiro. 

Em 2013, foi inaugurado o Corredor Cultural Roberto Carlos, que consistiu na revitalização da ladeira onde Roberto brincava de carrinho de rolimã em frente à casa. As calçadas foram reformadas em granito avermelhado, um dos maiores produtos de exportação de Cachoeiro. E em 2015, a praça Pedro Cuevas Júnior, que integra o Corredor Cultural Roberto Carlos, recebeu uma estátua do cantor, em mármore branco, esculpida pela artista plástica Angela Borelli. 

Em 2009, Roberto visitou a casa durante uma turnê em celebração aos seus 50 anos de carreira. Disse, então, que pensava ampliar o acervo com objetos que marcaram a história da Jovem Guarda. Comenta-se, em Cachoeiro, que aqui e ali Roberto sai do Rio de Janeiro e vai até Cachoeiro, anonimamente. Sobrevoa a cidade de helicóptero e percorre-a de automóvel. Acredita-se que ainda este ano, ou em 2022, ele doará ao museu um grande acervo. 

Três dos nomes mais ilustres de Cachoeiro são Roberto Carlos; o maior cronista brasileiro, Rubem Braga; e Santa Rita de Cássia, que nasceu em Margherita Lotti, Roccaporena, Itália, em 1381, e morreu em Cássia, Úmbria, Itália, em 22 de maio de 1457. Freira agostiniana da diocese de Espoleto, Itália, foi beatificada em 1627 e canonizada em 1900 pela Igreja Católica. É a Santa da Rosa, a advogada das causas perdidas, a santa do impossível e protetora das mães e esposas que sofrem maus-tratos dos maridos. Seu corpo, incorrupto, é venerado hoje no santuário de Cássia. 

Rubem Braga é o Sabiá da Crônica e Roberto, o quarto e último filho do relojoeiro Robertino Braga (1896-1980) e da costureira Laura Moreira Braga (1914-2010), conhecido, quando criança, como Zunga. Aos 6 anos, no dia da Festa de São Pedro, padroeiro de Cachoeiro, brincando sobre a linha férrea, Roberto foi acidentado por uma locomotiva e sofreu fratura em sua perna direita. Foi levado ao Rio, onde sofreu a amputação da perna, um pouco abaixo do joelho. Até hoje usa prótese. 

Começou a tocar violão e piano ainda criança, ensinado por sua mãe e depois no Conservatório Musical de Cachoeiro de Itapemirim. Sonhava, então, ser arquiteto (hoje, é dono de construtora), caminhoneiro (há muitos em Cachoeiro, principalmente transportando mármore e granito), aviador ou médico, mas sua genialidade (criatividade e timbre de voz) estava na música. 

Incentivado pela mãe, Roberto cantou pela primeira vez em um programa infantil na Rádio Cachoeiro, aos 9 anos, o bolero Amor y más amor. Primeiro lugar. O prêmio foram balas. “Eu estava muito nervoso, mas muito contente de cantar no rádio. Ganhei um punhado de balas, que era como o programa premiava as crianças que lá se apresentavam. Foi um dia lindo” – recorda-se. A partir daí, todos os domingos, lá estava Roberto na rádio. 

Em meados dos anos 1950, Roberto se muda para o Rio, onde começa a escutar rock and roll: Elvis Presley, Bill Haley, Little Richard, Gene Vincent, Chuck Berry. Em 1957, seu colega de escola Arlênio Lívio Gomes levou Roberto para conhecer um grupo de amigos que se reunia na Rua do Matoso e no Bar Divino, na Rua Haddock Lobo, na Tijuca. A Turma do Matoso era integrada por Sebastião Maia, que depois se tornaria famoso como Tim Maia, Edson Trindade, José Roberto China e Wellington Oliveira. Não deu outra. Roberto formou com eles seu primeiro conjunto musical, The Sputniks. Em 1958, Roberto conheceu Erasmo Carlos. 

Depois de muito pelejar, os Sputniks conseguiram uma apresentação no programa Clube do Rock, na TV Tupi, apresentado por Carlos Imperial. Após a apresentação, Roberto conseguiu falar com Imperial e agendar uma participação solo no programa. Sebastião Maia descobriu e achou que aquilo era uma traição, discutiu com Roberto e Roberto caiu fora dos Sputniks; foi procurar outro foguete. O grupo não aguentou sem Roberto e se desfez. Edson Trindade, Arlênio, China e Erasmo Carlos formaram The Snakes. 

Roberto continuou a se apresentar no Clube do Rock, onde Imperial o apresentava como o Elvis Presley brasileiro e Tim Maia como o Little Richard brasileiro, e começou a cantar na boate do Hotel Plaza, em Copacabana, samba-canção e bossa nova, acompanhado pelos Snakes, que também acompanhavam Tim Maia. 

Em 1959, Roberto conseguiu gravar João e Maria e Fora do Tom, um compacto simples no qual imitava João Gilberto, e, em 1961, lançava seu primeiro álbum, Louco Por Você, com a maioria das canções composta por Carlos Imperial. Em novembro de 1963, lançou seu segundo álbum, Splish Splash, versão de Roberto e Erasmo Carlos para gravação de Bobby Darin. Mas o disco já trazia canções como Parei na Contramão. Em 1964, Roberto explodia com o álbum É Proibido Fumar. 

Em 1968, Roberto primeiro venceu o Festival de San Remo, Itália, com Canzone Per Te, de Sergio Endrigo e Sergio Bardotti. De 1961 a 1998, Roberto lançou um disco inédito por ano e estrelou três filmes: Roberto Carlos em Ritmo de Aventura (1968), Roberto Carlos e o Diamante Cor-de-rosa (1970) e Roberto Carlos a 300 Quilômetros por Hora (1971). É o artista com mais álbuns vendidos na história da música popular brasileira: mais de 140 milhões de cópias, em todo o mundo, e é chamado por Rei. 

Estive com Roberto uma única vez, em junho de 1976, em Manaus. Roberto é 14 anos mais velho do que eu. Na época, eu estava com 21 anos e Roberto com 35. Assinava a coluna No Mundo da Arte no jornal A Notícia e fui entrevistá-lo no Hotel Amazonas, no centro de Manaus. O Rei fora fazer um show de aniversário de quatro anos da TV Baré, no Olímpico Clube, no dia 4 de junho. 

No fim da entrevista, Roberto posou comigo para uma foto. Ele é mais alto do que eu; mede 1,70 metro e eu, 1,64. É um cara com quem entabulamos conversa muito facilmente. Suas repostas fluem naturalmente. Já entrevistei artistas de respostas labirínticas e o tempo todo drogados. Roberto é natural, e, pelo que leio e vejo na mídia, creio que 45 anos depois ele continua como naquele dia. 

Uma coisa é certa, ele continua compondo e gravando, por uma razão simples: os gênios só param quando morrem. E quando falo morrer, quero dizer desencarnar, porque a vida continua em outro plano; neste, Roberto já mergulhou no éter e sente o cheiro do azul, entrou naquele momento da sua vida cármica em que só há paz, a música suave que vem das estrelas. 

Com a Wikipédia

sexta-feira, 16 de abril de 2021

Establishment começa a sangrar Jair Bolsonaro em luta fatal à navalha. Voltaremos a tirar as máscaras e sentir o perfume dos jasmineiros?

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 16 DE ABRIL DE 2021 – Astrólogos, videntes, sensitivos, tarólogos, analistas, são unânimes e ficam à vontade em afirmar duas coisas: 2020 e 2021 são anos do capeta e o presidente Jair Messias Bolsonaro que se cuide, porque o establishment o quer desmoralizado, preso e morto. 

Os anos do demônio ficam por conta do vírus chinês, que já lascou a economia brasileira. O lockendown imposto por governadores e prefeitos comunistas contra a população mata em casa, de covid-19 e fome. Quanto a Bolsonaro, quando viram que ele ia ganhar as eleições o estriparam. Isso é sintomático. Mas ele escapou, por milagre; contudo, pelo que tudo indica, não deverá escapar agora. 

Muita gente fica revoltada contra o Supremo Tribunal Federal (STF), achando que é traidor da pátria. Supremas cortes, em todo o planeta, são apenas tribunais máximos a serviço do establishment. Simples assim. Seu poder vem do que já está estabelecido. Pensar que são guardiões de constituições é ingenuidade. E no Brasil não querem Jair Bolsonaro. 

E com que pode contar Bolsonaro? Com as Forças Armadas? Não! Hugo Chávez Maduro conta com as forças armadas venezuelanas, mas tem praticamente o mundo contra ele. Uma hora vão pegá-lo pelo rabo e estripá-lo como quem limpa peixe. Bolsonaro conta com o povo. É quem pode salvá-lo. Mas terá que ser um movimento gigantesco, quase uma guerra civil. E guerra é guerra; é sempre como se o inferno desabasse. 

O establishment brasileiro tem mil príncipes, nos três poderes e na iniciativa privada, e sempre se roubou muito no país, especialmente na era PT/Lula Rousseff. Bolsonaro não rouba e não deixa roubar. A abstinência está enlouquecendo as hienas. Assim, gente da pesada está atrás de Bolsonaro e família, e só ficarão tranquilos quando não sobrar mais nada dos Bolsonaro. Eis o inferno astral do presidente. 

O STF acaba de instalar no Senado uma CPI para investigar Bolsonaro, a pedido do senador que vive dando chilique, Randolfe Rodrigues, da Rede de Marina Silva, sob a acusação de que foi Bolsonaro quem matou todos os mortos pelo vírus chinês. Só que a CPI pode ser mais um tiro no pé, pois foi ampliada para investigar também governadores e prefeitos que guardaram para si o dinheiro enviado por Bolsonaro para combater o vírus. 

Para se ter uma ideia do poder da Suprema Corte, os ministros não precisam gastar nem um centavo do seu salário vitalício principesco (39,2 mil reais mensais fora penduricalhos), pois contam com verba para moradia (11 mil reais por mês cada um), alimentação (90 mil reais por mês), auxílio-funeral e de natalidade, 222 funcionários para cada ministro e três caminhões (?) a serviço do Supremo. E legislam, acusam, prendem, julgam e executam. 

Além disso, líderes comunistas internacionais, incluindo o Papa, que é argentino, se uniram contra Bolsonaro. Deblateram que é pela Amazônia. Mentira. Não querem o bem da Amazônia; querem seus bens. 

O presidente dos Estados Unidos, Joy Biden, convidou Bolsonaro e outros 39 líderes mundiais para uma cúpula virtual sobre o clima, dias 22 e 23. Estarão presentes a chanceler Angela Merkel, da Alemanha, e o presidente francês Emmanuel Macron, que querem ver o fígado de Bolsonaro degustado por urubus. 

A cúpula é uma preparação para a Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, a COP26, prevista para 1 a 12 de novembro, em Glasgow, Escócia. A meta é não deixar que a temperatura do planeta aumente mais de 1,5º C. Todos botam a culpa, seja lá do que for, em Bolsonaro. Assim, o aquecimento global é coisa dele também. Ainda na campanha para presidente, ano passado, Biden criticou o desmatamento na Amazônia e ameaçou o Brasil com sanções econômicas. Os comunistas brasileiros foram às nuvens. 

As emissões globais de CO2 atingiram 36 bilhões de toneladas em 2017. A China emitiu 9,7 bilhões de toneladas; os EUA, 5,3 bilhões; e a Índia, 2,4 bilhões. Somando os três, dá quase a metade dos 36 bilhões. 

Há chance para Bolsonaro, e para o planeta? As nações desenvolvidas ampliam suas indústrias, principalmente a armamentista, e o consumo de combustíveis fósseis. O risco de morrer prematuramente não é só de Bolsonaro, mas da Humanidade toda. Vejam o exemplo do vírus chinês, que está matando adoidado, e, mesmo assim, muito aproveitam para roubar. 

Quando os americanos resgataram no Pacífico os três astronautas que estrearam na Lua estavam morrendo de medo de uma invasão de micróbios alienígenas mortais. E quando fizeram o primeiro teste da bomba atômica havia a probabilidade de a atmosfera da Terra pegar fogo e destruir toda a vida no planeta. Hoje, as bombas atômicas dos Estados Unidos, Rússia, China, Inglaterra, França, Índia, Paquistão, Coreia do Norte e Israel têm o poder de explodir a Terra 100 vezes. 

Só que os ETs, que são também espíritos, não deixam isso acontecer. Diz uma das maiores autoridades brasileiras em ETs, Ademar José Gevaerd, editor da Revista UFO, publicação do Centro Brasileiro de Pesquisas de Discos Voadores: “Se hoje os extraterrestres chegassem à Terra provocariam uma mudança radical em tudo que sabemos e acreditamos, na nossa ciência e nas nossas religiões. Eles sabem que isso é um perigo, um risco, e, portanto, devem agir com a máxima cautela para impedir a ruptura de uma sociedade”. 

Mas ainda não é a hora: “Eles pensam que não é a hora de contato franco e direto conosco. Somos um planeta com muitas mazelas que nós mesmos temos que consertar. Fome, guerra... Essas coisas têm que ser consertadas, o ser humano tem que ter um convívio mais pacífico consigo mesmo no planeta para que a gente possa receber essas outras espécies muito mais avançadas tecnologicamente, espiritualmente e moralmente”. 

Ao contrário do que muita, muita gente pensa, o livre arbítrio não é tão livre assim. O establishment também; pode até ser comparado à máfia, mas diferentemente da cosa nostra as famílias do establishment são muitas, e o povo é a família mais poderosa e incendiária, tão incendiária que até hoje a Revolução Francesa causa arrepio. 

Voltando a Bolsonaro, receberá ajuda novamente? Desconfia-se que quando foi estripado em Juiz de Fora alguma coisa interferiu para que ele não se fosse. Estará fazendo valer a pena? Contudo, de uma forma ou de outra, os profetas são unânimes em vislumbrar mudanças de paradigmas neste 2021, fim da pandemia em 2022, com o povo tirando as máscaras e os estudantes espargindo luz nas ruas do mundo, e 2023 tão azul que sangra buganvílias, rosas vermelhas colombianas e perfume dos jasmineiros.

quarta-feira, 14 de abril de 2021

Tomei café com Nelson Rodrigues e Ruy Castro em uma manhã de agosto em Copacabana

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 14 DE ABRIL DE 2021 – Eu chorei ao terminar de ler, ontem, a biografia de Nelson Rodrigues, O Anjo Pornográfico (Companhia das Letras, 1992, São Paulo, 457 páginas), de Ruy Castro. Ruy encerrou-a com uma curta e definitiva crônica de Natal que Nelson escreveu para O Globo, intitulada A vigília dos pastores. “Como se orasse pelo momento de subir ao céu, o anjo pornográfico dizia”: 

Escrevo à noite. Vem da aragem noturna um cheiro de estrelas. E, súbito, eu descubro que estou fazendo a vigília dos pastores. Aí está o grande mistério. A vida do homem é essa vigília e nós somos eternamente os pastores. Não importa que o mundo esteja adormecido. O sonho faz quarto ao sono. E esse diáfano velório é toda a nossa vida. O homem vive e sobrevive porque espera o Messias. Neste momento, por toda parte, onde quer que exista uma noite, lá estarão os pastores – na vigília docemente infinita. Uma noite, Ele virá. Com suas sandálias de silêncio entrará no quarto da nossa agonia. Entenderá nossa última lágrima de vida. 

A vontade que me deu foi de que naquela manhã de 21 de dezembro de 1980, aos 68 anos de idade, Nelson não houvesse morrido ainda. Quando morei no Rio, em 1972, se eu soubesse o que sei hoje sobre Nelson teria ido atrás dele, teria feito vigília até ele me receber, só para pedir a ele que conversasse um pouco comigo, de vez em quando, para saber mais sobre as sendas, às vezes noturnas e sem estrelas, do ato de escrever. 

A vida de Nelson Rodrigues é inacreditável. Nas mãos de Ruy Castro, então, se tornou um romance espetacular. Imagino uma cinebiografia de Nelson, nas mãos de um Francis Ford Coppola, ou de um Steven Spielberg, com Rodrigo Santoro fazendo o papel de Nelson! 

O biografado pode ser quem for, até um Ernest Hemingway, se o biógrafo for um burocrata a biografia ficará igual o diário de uma beata, mesmo que a beata resolva contar o que ela faz com o padre. Também pode acontecer de o biografado ser um artista genial, mas ter levado a vida de dono de casa, como marido obediente de mulher mandona, mas o biógrafo é extraordinário e faz da biografia um romance intimista de arrepiar os cabelos. 

No caso de Nelson, o biografado era um gênio, um desses brasileiros gigantes, e o biógrafo é um desses jornalistas que de tão bons logo viram ensaísta e daí para ficcionista é um passo. E no caso dos dois, ambos são jornalistas de primeira categoria e cariocas. 

Nelson Rodrigues nasceu no Recife, em uma das famílias pernambucanas mais geniais, naquele estado de gênios, e foi para o Rio de Janeiro aos 4 anos de idade, quando nasceu de novo, agora, carioca. Quanto a Ruy Castro, é da República de Minas Gerais, e, como tantos outros mineiros, como Carlos Drummond de Andrade, fez do Rio sua primeira cidade. Nelson era um dos cariocas que mais entendem de Rio de Janeiro e Ruy Castro, no vigor dos 73 anos, é um dos grandes conhecedores da alma carioca. 

O Anjo Pornográfico é uma múltipla biografia. Conta um pouco a história recente da intelectualidade pernambucana, a história da modernização da imprensa carioca, incluindo a TV Globo, revolução que saiu da cabeça e das mãos dos Rodrigues, a história do futebol brasileiro e a história do moderno teatro brasileiro, já que Nelson Rodrigues foi o maior dramaturgo destas terras. 

A vida do pai de Nelson, Mário Rodrigues, um dos criadores do jornalismo moderno brasileiro, a vida de Mário Filho, que dá nome ao Maracanã, os irmãos de Nelson, inesgotáveis jornalistas e escritores, e a inacreditável vida de Nelson, criam, no leitor de O Anjo Pornográfico, dois sentimentos antagônicos, que sufocam e obrigam a que se leia o livro como em curtos rounds. 

Não queremos largar o livro, mas somos obrigados a largá-lo, para respirar e pensar um pouco, tomar água, ir à sacada, para voltar ao combate, porque é como um combate, que nos deixa sem fôlego, mas querendo mais, como, pode-se até comparar, se estivéssemos trabalhando uma dessas mulheres que são só ação, suor e cheiros! 

E há vários outros contrapontos, como a intrigante vida sexual de Nelson com gatinhas da nata carioca, apesar de que ele se vestia mal, era um matuto carioca e tuberculoso, mas mesmo velho e acabado atraía mariposas que podiam ser suas netas. 

Além disso, como disse, Ruy Castro conhece o Rio como todos seus grandes cronistas, pois sem a sensibilidade dos grandes artistas jamais se pode conhecer de fato uma cidade, porque as cidades são como as mulheres, e os segredos das mulheres são infinitos. Devemos nos dar por felizes se podemos ofertar rosas para a madrugada e elas, as rosas, se abrirem como as manhãs ensolaradas de agosto em Copacabana.

Ruy desnuda o Rio de Nelson Rodrigues como o sátiro a ninfeta, e assim, quando Nelson está batendo papo com seus amigos em um café, sentimos o cheiro do café, os sons da rua, a sensualidade do mar.