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| Ray Cunha: Ao publicar Muito Além de Mim aconteceu uma coisa engraçada. Uma amiga minha julgou que se tratava de memórias e se solidarizou comigo. Então, expliquei a ela que se trata de um conto |
BRASÍLIA, 13 DE JULHO DE 2026 – O conto Muito Além de Mim, incluído no livro AMAZÔNIA, de Ray Cunha, é uma das narrativas mais densas e autobiograficamente sugestivas do autor. Embora apresente-se como ficção em primeira pessoa, o texto dissolve deliberadamente as fronteiras entre memória, confissão, romance de formação (Bildungsroman) e reflexão sobre o próprio fazer literário. O resultado é uma narrativa de extraordinária intensidade existencial, cuja verdadeira matéria não é a miséria social nem a boemia amazônica, mas o nascimento de um escritor.
Desde a primeira linha, o narrador anuncia seu eixo temático: “Tenho tentado escrever ficção”. Esse enunciado aparentemente simples organiza toda a narrativa. O casamento fracassado, a pobreza extrema, a vida na Casa do Estudante Universitário do Pará (Ceup), os personagens grotescos e as recordações da juventude são menos acontecimentos do que degraus de uma iniciação artística.
Ray Cunha constrói um narrador que jamais pede piedade. Ao contrário, observa a própria desgraça com uma lucidez quase clínica. Em poucas páginas ele perde emprego, casamento, conforto e estabilidade, mas não sucumbe ao sentimentalismo. Há uma secura narrativa que lembra certos momentos de Hemingway, autor citado explicitamente no final do conto, embora filtrada pela exuberância amazônica e pela oralidade brasileira.
O episódio da separação sintetiza perfeitamente essa postura estética. Ao encontrar a esposa na cama com outro homem, o narrador não reage com violência nem melodrama. Recolhe seus pertences e decide partir. A resposta da mulher — perguntando simplesmente se ele buscara suas roupas na lavanderia — transforma a tragédia em ironia cruel. O grotesco nasce justamente da absoluta indiferença diante daquilo que convencionalmente seria um grande drama humano.
É precisamente na Ceup que ocorre a verdadeira transformação do protagonista. A residência estudantil aparece quase como um purgatório dantesco: personagens extravagantes, quartos imundos, loucura, alcoolismo, miséria, suicídio, violência, doenças e decadência moral convivem diariamente. No entanto, para o narrador, tudo isso constitui matéria-prima da literatura.
Os inúmeros personagens — Rei Momo, Ribamar, Duende, Mão de Sucuri, Punheteiro, Distribuidor de Esperma, Padre, Sequoia — dificilmente podem ser entendidos apenas como indivíduos. Eles compõem um vasto painel humano, quase carnavalesco, lembrando em certos aspectos o universo de Rabelais, de Nelson Rodrigues ou mesmo de Lima Barreto, onde o grotesco revela dimensões profundas da condição humana.
Nesse aspecto, o conto aproxima-se da tradição picaresca. O
narrador percorre um mundo marginal povoado por figuras excêntricas, observando
tudo com humor ácido e inteligência crítica. Mas Ray Cunha vai além da simples
sátira social. Cada personagem representa uma possibilidade de fracasso
existencial da qual o narrador procura escapar por meio da literatura.
Essa talvez seja a maior qualidade do conto: transformar a criação artística em experiência espiritual.
Há um momento central em que o narrador declara: “A criação literária é minha igreja; e eu, o padre que oficia a missa”. Essa frase funciona como verdadeira profissão de fé estética. Escrever deixa de ser profissão ou passatempo para tornar-se destino. A literatura aparece como única forma possível de organizar o caos da existência.
Ao longo da narrativa surgem diversas reflexões sobre disciplina, leitura, solidão e concentração. O protagonista estabelece para si uma rotina quase monástica: escrever diariamente, ler atentamente, observar as pessoas, meditar, rezar, experimentar o mundo com todos os sentidos. É uma concepção profundamente artesanal da literatura, distante tanto da inspiração romântica quanto da produção industrial da escrita.
Outro aspecto notável é a relação entre espaço e identidade. A Amazônia de Ray Cunha não aparece como cenário exótico nem como floresta mítica. Surge através de Belém, do Ver-o-Peso, das ruas, dos bares, da universidade, dos bairros populares, da comida regional, da farinha d'água, do açaí, do tacacá, das pequenas experiências cotidianas. Trata-se de uma Amazônia urbana, cultural e profundamente humana.
A linguagem acompanha essa proposta estética. O texto alterna registros coloquiais, filosóficos e poéticos sem perder unidade. Há momentos de brutalidade verbal convivendo com passagens de delicada introspecção. A narração ora assume ritmo veloz, quase cinematográfico, ora desacelera para registrar reflexões sobre tempo, memória e criação.
Também chama atenção a quantidade de referências culturais. Fellini, Hemingway, Mozart, Krishnamurti e Gabriel García Márquez aparecem naturalmente integrados ao universo do narrador, revelando um escritor profundamente cosmopolita, apesar de enraizado na Amazônia. Não há ostentação erudita; essas referências fazem parte da formação intelectual do protagonista.
O trecho final sintetiza magistralmente o sentido da narrativa. Após cogitar o suicídio e recordar a traição da esposa, o narrador descobre que seu verdadeiro desforço não será contra pessoas, mas contra o anonimato. Conseguir emprego em O Liberal representa apenas uma etapa; seu objetivo permanece escrever um romance capaz de alcançar grandeza universal. O sonho do iate navegando pela Amazônia e pelo Caribe simboliza a liberdade conquistada pela criação artística.
Naturalmente, o conto também apresenta aspectos discutíveis. A representação feminina é construída quase exclusivamente pelo olhar masculino do narrador, privilegiando o ressentimento decorrente da traição. Além disso, alguns episódios são narrados com uma crueza que pode causar desconforto em determinados leitores. Contudo, essas escolhas parecem coerentes com a voz narrativa adotada e com o projeto estético do texto, que evita idealizações e busca expor a realidade em sua dimensão mais áspera.
No conjunto da obra de Ray Cunha, Muito Além de Mim ocupa posição singular por condensar diversos elementos recorrentes de sua ficção: a Amazônia urbana, a observação psicológica, a crítica aos ambientes institucionais, a busca da liberdade individual e, sobretudo, a convicção de que a literatura constitui uma forma de transcendência. O título revela-se profundamente significativo: ir “muito além de mim” significa ultrapassar a experiência pessoal para transformá-la em arte.
Mais do que um relato de juventude ou um romance de formação condensado em conto, Muito Além de Mim é uma meditação sobre o nascimento da vocação literária. A pobreza, a humilhação, o abandono e a convivência com figuras marginais deixam de ser simples episódios biográficos para converter-se em matéria estética. Nesse sentido, Ray Cunha demonstra compreender uma das verdades fundamentais da grande literatura: o escritor não vence o sofrimento eliminando-o, mas transformando-o em linguagem.
Por essa capacidade de fundir autobiografia, reflexão filosófica, observação social e elaboração literária numa narrativa de notável vigor, Muito Além de Mim destaca-se como um dos contos mais maduros de AMAZÔNIA e uma das expressões mais consistentes da ficção de Ray Cunha. Nele, a literatura deixa de ser apenas tema para tornar-se destino — não como fuga da realidade, mas como a forma mais profunda de habitá-la.
Muito Além de Mim
RAY CUNHA
TENHO TENTADO ESCREVER FICÇÃO. A gente não precisa de muito para produzir. Basta comer o suficiente para não adoecer. Vinha tendo bem mais que isso, mas tudo acabou como num passe de mágica. No mesmo dia, perdi emprego, mulher, casa, comida e roupa lavada. Conheci Celina Madeira Machado Silva e Silva no Bar do Parque, defronte ao Hotel Hilton Belém, na Praça da República. Ela estava na companhia de uma tipa grande como uma elefanta e de uma outra que era toda uma enguia. Naquela época, andei publicando umas resenhas sobre cinema em O Liberal e Celina era cinéfila. O papo foi longe. Ela me convidou para ir à sua casa no dia seguinte. Morava em um casarão em Nazaré. O pai, com o estômago estourando de câncer, vivia recluso esperando a hora de bater as botas. Para não me estender muito, o caso é o seguinte: Celina e eu nos casamos dias depois. Eu era seu quarto marido. Celina andara à procura de um pai camarada. A mãe de Celina, uma índia que seu pai comprara em Santarém, fora escravizada a vida toda, mas não morrera sem gerar a filha rebelde. Ao chegar de Portugal, o pai de Celina começou como padeiro em Belém. Anos de economia, comendo restos estragados de frutas e se vestindo com duas mudas de roupa, fizeram dele um magnata do pão. Celina vivia esbanjando a fortuna e batendo perna com suas amigas aliá e peixe-elétrico. Era a cadela no trio. Pôs-me um par de cornos de alce. Mas nosso jogo era tácito. Ela me tirara da sarjeta e me usava como atleta sexual. Naquela manhã, peguei o carro que Celina me dera e fui para o trabalho, uma revista picareta que só me pagava com vales, embora, antes de conhecer Celina, era lá que eu repousava a carcaça, em um quartinho decrépito, nos fundos do prédio. Cheguei a tempo de ver o pessoal da Justiça do Trabalho levando tudo. Depois soube que o editor tinha vencido uma causa trabalhista contra o dono da empresa. Voltei para casa. Flagrei minha mulher gemendo, empalada no vergalho do jardineiro em nossa santa cama. Não quis fazer drama. Sentia-me vulnerável e cansado. Fui à cozinha beber água. “A vida é um jogo perdido; o melhor que podemos fazer é jogar bem” – pensei. “A criação literária é minha igreja; e eu, o padre que oficia a missa. A razão da minha vida é escrever ficção. Se não escrevo, sinto-me vazio, despencando na fossa, no nada. Por isso, necessito criar. E quando estou no lugar ideal nada pode me atingir. Nada! Eu sempre soube que esse casamento é apenas uma passagem de chuva.” Passado algum tempo voltei ao quarto, peguei minhas coisas. Na sala, encontrei Celina.
– Estou indo embora – disse-lhe. Quase não acreditei no que ela respondeu.
– Tu pegaste a roupa na lavanderia? – eram uns casacos que ela usava quando viajava e que eu levara à lavanderia.
Nessas alturas, tinha feito novas amizades e um amigo, um verdadeiro irmão, me acolheu na casa dele. Minha passagem pela casa de Celina proporcionou-me a oportunidade de me preparar para o vestibular. Ela pagara o cursinho e eu consegui entrar na Universidade Federal do Pará, para fazer o curso de jornalismo. Foi desse modo que obtive uma vaga na Casa do Estudante Universitário do Pará (Ceup).
Naquela manhã lamacenta de abril a
Ceup dormia ainda, por trás do alto muro na Rua São Francisco, bairro da
Campina. Era um conjunto de três prédios: a Casa Nova, já com sinais de
decrepitude; a Vila Sapo, com quatro quartos lado a lado; e a Casa Velha, um
casarão do século dezenove, em ruínas.
– Gostaria de falar com o presidente
– disse a um ancião escaveirado que surgiu no vão da porta, imaterial como um
fantasma.
Fui conduzido a um quarto no
terceiro andar da Casa Nova. Bati na porta. Apareceram dois olhos negros,
famintos. Pertencia a um camponês de cabeça excessivamente chata. Estendi-lhe a
carta da reitoria da Universidade Federal do Pará. Ele a leu.
– Meu nome é Ribamar – disse, e me
convidou para entrar no quarto.
O quarto fedia a mofo, roupa suja e
gordura. Encostada à parede havia uma bicicleta toda enfeitada. “Parece chapéu
de vaqueiro nordestino” – pensei.
– Você vai para o quarto do Rei Momo
– disse o presidente.
O quarto do Rei Momo ficava na Vila
Sapo. Era o primeiro de quem ia da Casa Nova para a Casa Velha. Estava fechado.
Ribamar bateu na porta. Ouviu-se movimento lá dentro e depois a porta foi
aberta. Vi uma aparição de olhos esbugalhados, um homem de meia idade,
barrigudo e assustado.
– Este aqui é o João. Ele vai morar
aí – disse o presidente.
– Aqui? – Rei Momo não acreditou no
que ouviu. Desde que viera de Santarém, há dez anos, não dividia o quarto.
Agora, o subversivo do Piauí vinha com aquela conversa. – Um momento – disse
Rei Momo, fechando a porta. Daí a alguns minutos reapareceu. Vestira uma camisa
e escovara os cabelos. – Podem entrar – convidou-nos.
O fedor de mofo era sufocante. Em um
dos lados do quarto havia uma cama com um bom colchão, com trapos espalhados
sobre ele. No outro lado, encostada à parede, vi uma dessas camas de armar e
desarmar. Na parede dos fundos erguia-se uma respeitável pilha de livros, ao
lado de um guarda-roupa em ruínas, e no centro do quarto jazia uma mesinha
atulhada de tudo quando se possa imaginar. Rei Momo sentara-se sobre a cama e o
presidente e eu ficamos em pé.
– Eu sempre morei sozinho – disse
Rei Momo, zangado.
– Isto aqui está precisando de uma
limpeza. Vou convocar um mutirão para pôr em ordem este quarto – disse o
presidente, que era recém-empossado. Eu soube mais tarde que o presidente
anterior permanecera no cargo durante dez anos.
Rei Momo olhou-o apavorado.
– Não será preciso um mutirão. Nós
dois nos daremos bem – eu disse, estendendo a mão para Rei Momo. Ele pareceu
não ter visto meu gesto. – Parece-me que ambos gostamos de Fellini – apontei
para uma lombada que se salientava na pilha de livros. – E não te preocupes com
barulho; gosto também de silêncio.
Nasci em 22 de abril de 1939.
Estamos em 22 de abril de 1972. Tenho, portanto, 33 anos de idade. Sinto que já
comecei a descer o morro da vida. Para um escritor permanecer no embalo dos 21
anos só com muita dedicação – dedicação religiosa – a tudo o que diz respeito à
criação literária, como: disciplina espartana e trabalho duro como um assalto
de boxe, sem trégua, contínuo, árduo e nunca desestimulado. E é assim que venho
fazendo na Ceup, aproveitando essa oportunidade que Deus me deu. O fim do meu
casamento serviu para que descobrisse o quanto realmente as coisas valem. A
Ceup foi o gatilho que eu precisava disparar para me tornar escritor e, antes
dela, Celina.
As melhores horas eram as da
madrugada, quando o silêncio se impunha à horda piolhenta que ali se escondia.
Às vezes, deixava-me sentar em frente à televisão para ver um resto de filme,
ou simplesmente ficava ali, no hall de entrada da Casa Nova, mais pela
claridade das inúmeras lâmpadas fluorescentes. Nas férias, quando todos iam
para suas cidades natais e a Ceup ficava quase abandonada, eu varava as noites
escrevendo, absolutamente fiel a mim mesmo. Escrevia todos os dias, mesmo que
fosse por alguns minutos apenas. Se não dava, tentava no dia seguinte. E dormia
bastante. Lia tudo e atentamente. Rezava, meditava, via, ouvia, sentia,
cheirava, degustava, bebia, comia, vagabundava, batia papo e escrevia cartas.
Escrever não me saciava nunca. Atingia picos de concentração, lucidez e
produção que pareciam a embriaguez do primeiro gim fizz. Vivia o agora e o
agora, o momento mesmo da vida. Nada de nostalgia, nada de remorso, o passado
era feito do que havia de melhor; nada de sonho, pois a realidade proporcionava
prazer intenso; nada de preocupação, pois não havia futuro; nada de raivas, pois
a raiva, acionada, só a morte pode detê-la, é tão devastadora que atinge tudo
ao seu redor, incluindo objeto e sujeito; nada de reclamações; nada de se meter
na vida dos outros, nem deixar que os outros se metessem na minha vida. Eu era,
apenas, um mero observador da realidade, embora, sempre que achasse necessário,
interviesse na realidade. Hoje, sei que não se pode intervir na realidade, pois
a realidade é. Nossa vida é apenas o caminho que leva à realidade. Até as
mulheres se tornaram para mim, naquela época, abstrações, e somente pensando
nelas é que ousava sonhar. Sonhava com uma companheira, amiga, amante, o colo
onde repousava minha cabeça, ainda dolorida devido aos cornos. A luz do seu
amor me conduzindo naquelas encruzilhadas da vida mergulhadas nas trevas,
guiando-me pela mão, com segurança, emergindo comigo na claridade e na trilha
segura. Nos meus mergulhos interiores eu me via também como protetor das
crianças, gentil e caridoso, senhor de mim, poderoso como um anjo, e frágil,
pois me via pedindo perdão a todos quanto ofendi, ou causei mal.
Geralmente me alimentava de pão
dormido, que o padeiro da esquina me arranjava sempre. Fiz amizade também com o
açougueiro, que me dava ossos ainda munidos de excelentes nacos de carne, que
eu cozinhava e comia com a boa farinha d’água que minha família me mandava de Oiapoque,
cidade do Território Federal do Amapá. Às vezes, eu faturava alguma coisa na
mídia. Aí, almoçava no Ver-O-Peso. Meio litro de pirão de açaí com dourada, e
adormecia nocauteado pela canícula, até o anoitecer, quando tomava banho,
vestia a melhor muda de roupa de que dispunha e ia para o Cosa Nostra bater
papo com o barman, meu amigo. Mas, a maior parte do tempo, vivia a minha
vida de modo quase recluso, quase sem participar da agitação que era sempre a
Ceup. Minha participação no dia a dia da casa era mais a de expectador. Os
acontecimentos se sucediam como os bancos de uma roda-gigante em movimento.
Embora eu não me importasse com eles. Simplesmente não influíam na minha vida.
Eu estava ali com um objetivo e até alcançá-lo vivia intensamente minha vida
interior. O dia a dia da Ceup não alterava o fluxo do meu rio interior. Mas eu
dissecava os protagonistas desses episódios e, às vezes, tomava nota deles. Uma
madrugada, acordei com gritos medonhos à porta do quarto. Abri-a e me deparei
com uma mulher enrolada em um cobertor imundo, cheio de nódoas de gozos
antigos, suplicando que a socorressem. Mão de Sucuri, um vaqueiro, nosso
vizinho, havia levado aquela mulher para o quarto dele, onde morava com
Punheteiro, que se masturbava a noite inteira enquanto Mão de Sucuri trabalhava
nas putas que levava para lá. Naquela noite, Mão de Sucuri, que tinha esse
apelido de tanto ordenhar vaca e ficara com uma força descomunal nas mãos,
queria que a mulher desse uma chupada nele. Ela ficou com vergonha de fazer
aquilo na frente de Punheteiro. Apesar de não se aguentar em pé de tão porre,
Mão de Sucuri imobilizou-a na sua rede tão limpa quando o cobertor em que ela
havia se envolvido na fuga e lhe ferroou uma dentada na bunda. Depois pô-la
nua, a bofetadas, ao relento. Ela conseguira levar o cobertor e ao ver-se ao
relento pôs-se a berrar. Mão de Sucuri caiu na rede em coma e Punheteiro batia
uma feroz punheta para aquela égua nua que passou roçando seu nariz. Outra
madrugada, na Casa Nova, o Doutor, conhecido também como Distribuidor de Esperma,
começou a berrar. Ele queria ser cirurgião plástico. Logrou ingressar na
universidade após doze vestibulares bem contados. Jamais tomava banho e
lembrava um pedaço de sebo. Dizia a todos que vendia esperma para inseminação
artificial. Recebia carne seca do Maranhão e guardava-a sobre uma sucata de
geladeira. Todo dia tirava dali alguns pedaços, que cozinhava e comia com
farinha d’água. Um dia, ratos começaram a brigar sobre a carne seca e um caiu
no Distribuidor de Esperma, que acordou com uma ratazana na cara. Em agosto,
houve o caso do Padre. Um dia, encontrava-me no salão da Casa Velha. Duende
estava encostado à janela. Era meio-dia e o sol dava até para fritar ovo.
– Não dou uma semana para que o
Padre seja levado para o hospício – disse Duende, um goiano vermelho e miúdo,
que só usava camisas de mangas compridas abotoadas nos punhos e no colarinho,
mesmo sob o calor de quarenta e cinco graus. Três dias depois, houve um
corre-corre na Casa Velha. Apareceram quatro enfermeiros, meteram o Padre numa
camisa de força e sumiram. Naquela noite, encontrei-me com Duende e lhe
perguntei como é que ele sabia do internamento de Padre.
– Ele andava de camisas de mangas
compridas abotoadas nos punhos e no colarinho em pleno sol de meio-dia – disse.
Fui a última pessoa a falar com
Duende, que vivia sozinho em um quarto grande da Casa Velha. Como tivesse
perdido a chave da porta, entrava no quarto por meio de um buraco na janela,
vedado com um pedaço de compensado. Duende desaparecera já há três dias.
Naquela manhã, seu Miguer, o faxineiro esquálido, vislumbrou por uma brecha na
janela um movimento qualquer no quarto de Duende. Olhou melhor e viu uma
ratazana agarrada a uma perna. Apurou o olhar e distinguiu um homem enforcado,
com ratazanas aqui e ali no corpo, especialmente na cara. Seu Miguer emitiu um
guincho semelhante ao de seus irmãos roedores e deu o alarme. Foi uma perda
para Rei Momo, já que Duende costumava manter discussões quilométricas com Rei
Momo sobre Khrisnamurt, de quem lera todos os livros. Ironicamente, Khrisnamurt
era sua ansiedade.
Quando eu não estava na Ceup, estava
na universidade. Tive uma professora gorda como uma vaca que promovia debates
sobre marxismo sem jamais ter lido O Capital. Vivia com uma aluna
magrinha, que a gorda agarrava nos corredores da faculdade e lhe aplicava
beijos escandalosos. Durante três semestres vi-me perseguido por um professor
de técnica de alguma coisa, homossexual, coxo, com uma nádega seca e
analfabeto. Um dia, no banheiro, segurei-o pelo cabelo e o fiz beber água do
vaso sanitário. Um santo remédio. Outro mestre inesquecível foi um idiota
nascido no Piauí, educado em Goiás e doutorado numa dessas universidades
perdidas nas estradas dos Estados Unidos. O tipo lecionava uma disciplina
chamada Estudos de Problemas Brasileiros. Suas aulas eram, invariavelmente, um
elogio às obras faraônicas dos ditadores militares. À noite, livrava-me de tudo
aquilo com um bom gole de gim fizz no Cosa Nostra, por conta da casa.
Rei Momo morreu no Natal daquele
derradeiro ano de minha permanência na Ceup. Caiu como um passarinho baleado
diante da parede nua do quarto, onde sempre estivera seu tesouro. Rei Momo era
um ladrão de livro. Possuía uma pilha de dois mil volumes. Ao mudar-me para o
quarto dele tive de colocar Sequoia em ordem. Sequoia chegou a dar uma surra de
cinto em Rei Momo. Mas eu ainda não morava na Ceup. Eu era pugilista amador e
sempre que podia estava lá com a turma da Joe Louis. Acabei com Sequoia apenas
com um tabefe na cara. Ele não revidou. Ficou se cagando de medo. Então, deixou
Rei Momo em paz. Eu gostava de conversar com Rei Momo, que levava uma vida de
rei, mesmo. Matriculava-se em uma única disciplina na universidade e fazia de
conta que estava estudando. Sua família o mantinha ali porque o consideravam
retardado mental. Ele não se importava. Recebia uma mesada relativamente gorda.
Consumia suas tardes conversando fiado nas bancas de tacacá e com os vigias das
redondezas. Pois bem, Sequoia mudou-se. Aproveitou para dar um golpe fatal em
Rei Momo. Na madrugada daquele Natal, ao entrar no tugúrio onde nos
enterrávamos, Rei Momo encontrou um bilhete pregado com fita Durex na parede nua
onde sempre estiveram os livros, a primeira coisa que Rei Momo checava ao
entrar no quarto. “Agradecido pelos livros, bicha louca” – dizia o bilhete.
Vocês sabem como Ernest Hemingway morreu? Segundo Milt Machlin, no livro O Inferno Privado de Hemingway, era cedo da manhã. “Desceu à sala de armas e tirou do armário uma de suas espingardas favoritas, uma Angelini e Bernardon calibre doze, fabricada especialmente para ele. Era uma bela arma, e ele sempre a tratava com a reverência de um objeto religioso. Carregou-a com dois cartuchos, depois meteu os dois canos na boca e puxou os gatilhos ao mesmo tempo.” Houve um tempo em que pensei matar-me. Possuía – e isto era uma das minhas pequenas riquezas – uma pistola, a PT 58, da Taurus. Se eu quisesse me suicidar como Hemingway teria de pôr a boca do cano no céu da boca, de modo que a bala atravessasse o cérebro. A gente não sente nada. Os que ficassem, logo me esqueceriam. Como minha família é de Oiapoque e muito pobre eu seria enterrado como indigente e, assim, desapareceria sem deixar rastro. Cheguei a cogitar isso na época em que aquela cadela, aquela índia duma figa, galinha do caralho, me empurrou de volta para a sarjeta, depois de quase um ano principesco. Mas agora sou grato a ela. Ajudou bastante. E depois somente nós temos a responsabilidade pelo que passamos. Antes de conhecer Celina, estivera sentado em uma cadeira olhando para uma parede. A sorte é que ouvia Wolfgang Amadus Mozart. Concerto para Piano e Orquestra em Ré Menor. Para além da parede, há um anoitecer azul. Azul escuro. Peguei meu canivete italiano, outra joia que possuo, e vibrei contra o céu. O sangue escorreu pelo corte. E o azul intenso respingou em mim. Atravessei o portão da Ceup e tomei pela Rua São Francisco e depois pela Avenida Almirante Tamandaré até a Avenida Presidente Vargas. Sentei-me em um banquinho no Milano e pedi uma Antarctica pequena. “Como vou desforrar!” – pensei, pois acabara de conseguir uma vaga em O Liberal. Já tinha renda garantida, agora. Só precisava escrever um romance que vendesse como Cem anos de solidão, como pão francês. Então compraria um iate para vagabundar por toda a Amazônia e o Caribe.
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