domingo, 21 de julho de 2024

O estado do Amapá e a cidade de Santana são os mais violentos. Rápida geopolítica do Setentrião

Tromba d'água na orla de Macapá (foto de Caio Gato)

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 21 DE JULHO DE 2024 – Segundo o Anuário da Segurança Pública de 2023, divulgado quinta-feira 18 pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o estado do Amapá é o mais violento do Brasil e Santana a cidade onde mais se mata. No Amapá, houve 69,9 mortes violentas por 100 mil habitantes, três vezes mais do que a média nacional. 

Foram 513 mortes, em 2023, um aumento de 39,8% em comparação a 2022. A violência na região explode em Santana, vizinha de Macapá, e em Macapá, a capital. Santana é um porto, rota do narcotráfico internacional. 

Por que o Amapá chegou a esse ponto? Até 1943, fazia parte do estado do Pará. Era uma região selvagem. De 1943, até 1990, foi território federal e era administrado e bancado pela União. A partir de 1991, virou estado, e aí a coisa degringolou. 

O ex-presidente José Sarney, que quase leva o país ao caos, transferiu seu domicílio eleitoral do Maranhão, onde não se elegeria nem síndico, para o Amapá, e se candidatou ao Senado. Os amapaenses ficaram orgulhosos e elegeram Sarney senador vitalício. Ele só largou o osso porque estava velho e doente, e o Maranhão fica longe do Amapá. 

Quando Sarney se elegeu senador e inventou a história da Zona Franca de Macapá, atraiu uma multidão de desesperançados do Maranhão. A população de Macapá e de Santana, que era um bairro de Macapá, cresceu da noite para o dia, amontoando-se no subúrbio, sem emprego e sem perspectiva. 

Não deu outra. As facções se organizaram e empregaram parte dessa população no narcotráfico. Aí, a violência tomou conta da grande Macapá, onde escolas são como presídios, cercadas por muros altos. Hoje, Santana, um dos melhores portos da Amazônia, é um entreposto do tráfico internacional de drogas. 

Além de ser o estado da federação mais isolado do Brasil, o Amapá não conta com energia elétrica firme. A salvação do estado seria o linhão de Tucuruí, mas os políticos não estão nem aí para isso. O Porto de Santana, que deveria ser federalizado para ontem, é municipal. 

Trata-se de um porto com calado para qualquer tipo de navio e é o mais próximo dos mercados dos Estados Unidos, Europa e Ásia (via Canal do Panamá). Localizado à margem do maior rio do mundo, o Amazonas, poderia receber cargas de toda a Amazônia e do Centro-Oeste e despachá-la para o exterior. 

Pela sua posição, o Amapá deveria ter um serviço não só portuário, mas também aeroviário, de primeira categoria, pois poderia ligar São Paulo com os Estados Unidos e Europa, principalmente com a França, pois o Setentrião, ou Amapá, faz fronteira com a Guiana Francesa e Macapá é ligada por rodovia com Caiena, a capital da Guiana Francesa. 

Macapá tem duas atrações turísticas únicas: fica à margem do maior rio do mundo, o Amazonas, e é seccionada pela Linha Imaginária do Equador. Mas não tem rede de esgoto, assim como Santana, seu serviço de água encanada é ruim (às vezes sai lama das torneiras) e está sujeita a apagões trágicos. 

E o poder público, não investe? Bem, tem os cabides de emprego, as diárias, a corrupção, o narcotráfico. Para piorar a situação, a velha imprensa e os intelectuais de rabo preso vivem numa bacanal permanente, regada a cerveja bem geladinha, porque o calor lá é abrasador, e picanha. 

E depois, ninguém é besta de abrir a boca na Amazônia. Não tem para onde correr. Principalmente no Setentrião. Se correr para o mato, onça, sucuri, ou malária, pega; se correr para o rio, morre afogado, ou papado por jacaré.

Se você, leitor, quiser conhecer a fundo não somente a geopolítica do Amapá, como da Amazônia, leia meu romance ensaístico JAMBU, que pode ser adquirido no Clube de Autores ou na amazon.com.br

sábado, 20 de julho de 2024

Romance histórico-policial conta a história da Cidade Maravilhosa e identifica o local onde está o Tesouro dos Jesuítas do Morro do Castelo

Capa da edição do Clube de Autores

A história de São Sebastião do Rio de Janeiro, desde a França Antarctica até a maior lenda urbana carioca, o Tesouro dos Jesuítas do Morro do Castelo, é contada em A IDENTIDADE CARIOCA, thriller histórico-policial de Ray Cunha, que revela o paradeiro do Tesouro do Morro do Castelo!

Todos que amam a Cidade Maravilhosa e quer saber mais sobre a Paris do Hemisfério Sul devem ler A IDENTIDADE CARIOCA, que pode ser adquirido no brasileiro CLUBE DE AUTORES ou na amazon.com.br

Capa da edição da amazon.com.br

Ray Cunha. Ao fundo, o Copacabana Palace

quinta-feira, 18 de julho de 2024

O terror dos machos: próstata inchada. Visão da Medicina Chinesa. Gergelim preto e melancia

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 18 DE JULHO DE 2024 – A hiperplasia prostática benigna (HPB), “próstata inchada” ou “próstata aumentada”, é um problema urinário que afeta os homens, principalmente aqueles com mais de 50 anos, quando a produção de testosterona começa a diminuir e a próstata a crescer, aumentando o desejo de urinar, reduzindo o jato de urina e a ereção. 

A próstata é a glândula responsável por produzir o líquido que nutre e transporta os espermatozoides. É semelhante a uma noz e pesa de 7 a 16 gramas, mas pode ficar do tamanho de uma bola de tênis. Localiza-se sob a bexiga, em frente ao reto, e envolve a uretra. A pressão da próstata inchada sobre o aparelho urinário pode provocar obstrução da uretra e retenção da urina, causando dores, incontinência urinária, infecção e rompimento de vasos da uretra. 

Até 1986, os urologistas faziam rotineiramente toque retal nos pacientes para prevenir câncer de próstata. O toque consiste em meter um dedo, com luva e lubrificado, no ânus do paciente e tatear a próstata. Se estivesse maior do que o normal partia-se para outros exames. Em 1986, surgiu o exame de antígeno prostático específico (PSA, na sigla em inglês), realizado a partir de sangue extraído do paciente. O toque continua, para quem o prefere, mas o PSA é rápido e eficiente. 

Na Medicina Tradicional Chinesa, a próstata está ligada aos rins, que armazena a energia primordial Qi, utilizada também na reprodução. A ligação se dá pelos vasos Governador (Du Mai) e da Concepção (Ren Mai), mares do Yin e do Yang. Assim, os rins são responsáveis pelo nascimento, crescimento, reprodução, envelhecimento e morte. Tudo a ver com o sistema reprodutor. 

Na fitoterapia, trato meus pacientes com problemas prostáticos e renais com gergelim preto e melancia, além de acupuntura, com acupontos nos vasos Governador e da Concepção. Gergelim, ou sésamo (Sesamum indicum), é uma planta originária do Oriente. Suas sementes cruas produzem azeite e são consumidas também torradas. São ricas em manganês, cobre e cálcio, contêm vitamina B1 e vitamina E, antioxidante e fitoesterois, que bloqueiam a produção de colesterol. 

O gergelim preto é o que nos interessa. É ele que tonifica os rins. Deve ser utilizado em forma de chá. Meia colher das de sopa de gergelim preto em um copo de água bem cheio, ferver durante 10 minutos. Restará menos de meio copo de chá. Tomar antes de dormir, todos os dias, durante um mês, após o qual fazer pausa de uma semana. Se achar que deve, voltar a tomá-lo durante um mês, e assim por diante. 

Também melancia previne o câncer da próstata. As frutas vermelhas, de um modo geral, como morango, uva roxa, pitanga, açaí, melancia, são ricas em vitamina C, antocianinas, licopeno e resveratrol, antioxidantes que fortalecem o sistema imunológico. Principalmente o licopeno, que reduz colesterol, é anti-inflamatório e protege o DNA das células. Melancia é rica em licopeno. Deve-se comê-la todos os dias. 

Para reforçar a saúde dos homens, prescrevo, se for o caso, também tribulus terretris e maca peruana, que contêm testosterona natural. Contudo, é essencial que toda e qualquer pessoas procure compreender que o corpo físico apenas reflete a mente, que contém, basicamente, três corpos vibracionais: a consciência, ou espírito; o corpo astral, no qual ocorrem as emoções; e o corpo etéreo, ou duplo etéreo, que é a base do corpo físico. O mundo físico é reflexo dos nossos pensamentos e ações. 

Esclareço, para efeitos de direito, que sou formado em Medicina Tradicional Chinesa pela Escola Nacional de Acupuntura (Enac), com diploma reconhecido pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC).

quarta-feira, 17 de julho de 2024

Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. Trata-se apenas de um conto

RAY CUNHA

BRASÍLIA, 17 DE JULHO DE 2024 - Fim de Ditadura é um conto do livro TRÓPICO, deste autor. Qualquer semelhança com fatos é mera coincidência.

DA PRAÇA DO BODE, R seguiu para o Miró, onde almoçou, e de lá foi ao Café Picasso, seguindo após para a redação do Observador da Banânia, que ficava também no Bananas 21, complexo de três hotéis, um centro de convenções, teatro, restaurantes, cafés e três torres de escritórios. Ali, situava-se o coração da Banânia, a capital da República das Bananas, e era também o maior ponto de encontro da Ibero-América, e o mais conhecido do planeta das mais bonitas putas do mundo. Missões diplomáticas disputavam eventos no Banânia 21, pois podiam se banquetear de ninfetas ruivas, negras e índias, ainda impúberes.

Aquela quarta-feira ficaria na história da República das Bananas. Quando R entrou na sua sala encontrou a equipe editorial da capa do jornal em grande efervescência. As Forças Armadas, comandadas pelo general Cágado, depuseram naquela manhã, cedo, e engaiolaram, o ditador Luiz Castro Chávez da Silva, o Bode; a esposa do tirano, uma loira desbotada e com o rosto todo esticado e imobilizado por botox, ministra da Casa Civil, Vilma Winchester; e o presidente do Congresso Nacional, Zé Ribamar, mais conhecido, entre seus detratores, como Jeca. Só que as coisas tiveram um desenrolar inesperado.

Luiz Silva, o Bode, chegara ao poder há precisamente uma dúzia de anos, e pelo caminho natural: as urnas. Via legítima. Não demorou para que convocasse milhões de sindicalistas, seus apoiadores, para um badernaço histórico nas ruas, e logo depois, com apoio de um Congresso Nacional atolado até a alma em corrupção, instalou estado de sítio, que nunca mais acabou, e passou a governar por decreto, ou por bilhete. Ao fim daqueles doze anos, o Bode já tinha transferido para inúmeros paraísos fiscais pelo menos metade do PIB da República das Bananas, quando um acontecimento brutal levou o povo para as ruas, e com apoio da maioria dos oficiais mais graduados das Forças Armadas, sob o comando do Cágado, um brilhante general quatro estrelas, derrubou o Bode.

Naquele dia, ao sol escaldante do início da tarde, o trio foi levada para a Praça do Bode, onde tomou no lombo nu dez chibatadas; de lá, os larápios foram atendidos no ambulatório da prisão conhecida por Papo, nos arredores da Banânia, para cumprir prisão perpétua.

O primeiro a ser encaminhado para o patíbulo foi Jeca. Tinha esse apelido porque, além de cultivar um sotaque caipira de doer nos ouvidos, usava uns paletós tão mal cortados que lembravam paraquedas. Tinha 80 anos; começara a roubar para valer há seis décadas, quando apoiou um dos inúmeros golpes perpetrados naquele antro de corrupção. Antes disso, batia carteira. Com 40 anos, já era o maior patrimonialista do país, atrás apenas, e recentemente, do Bode.

Jeca foi praticamente arrastado até o palanque, onde o amarraram e começaram a lhe cortar a roupa. Estava bem barbeado e com os bigodes bem feitos, reluzentes de tão negros. Alguém apareceu com uma tesoura e começaram a cortar sua camisa. Sem a camisa, viu-se que Jeca estava gordo demais; a banha brilhava ao sol, suarenta e pegajosa. Depois começaram a cortar suas calças e, enfim, a cueca samba-canção, e tiraram-lhe as meias e os sapatos. O homem estava nu. “Homem, não! Verme!” – pensou R, no meio da multidão. Os colhões de Jeca, o todo poderoso presidente do Congresso Nacional, ladrão de merenda escolar, de material hospitalar, da aposentadoria de velhinhos, parecia daqueles touros velhos. Zé Ribamar não opôs mais resistência. Estava completamente humilhado. A primeira lambada, com um chicote de bater em doido, pegou-o no pescoço. Ele praticamente relinchou. E aí o diabo comeu o lombo dele durante a eternidade de um minuto. Levaram-no dali para uma das duas ambulâncias e arrastaram o Bode para o cepo. Vilma Winchester, a ladra mais corrupta que já aparecera por aquelas bandas, chorava. Seu apelido era Winchester porque assaltava banco sempre armada de uma Winchester. Ela desmaiou.

Luiz Castro Chávez da Silva, o Bode, castrista-bolivariano, era 10 anos mais novo do que Jeca. Era apelidado de Bode porque usou uma barba igual a do seu ídolo, Fidel Castro, durante muito tempo, e fedia a 51, uma cachaça importada do vizinho Brasil. Os carrascos estavam impacientes naquela manhã de 7 de setembro, quente como o inferno, e cortaram rapidamente a roupa do ex-ditador. “Olha, ele não tem o dedão do pé direito” – uma criança gritou. De fato, o Bode perdera aquele dedão com um tiro que dera no próprio pé. Gordo, a banha despencava dele todo, e quando a pauleira terminou foi carregado, como um porco grande e já pelado, da mesma forma que Jeca, para a ambulância.

R sentiu-se mal. Fora perseguido e torturado e não esperava durar muito tempo mais. Conseguira enviar seus dois filhos e sua esposa para os Estados Unidos, não sem antes que a estuprassem. Quanto a ele, não conseguira fugir. Sua vida vinha sendo um pesadelo 24 horas por dia. Uma semana antes, guarda-costas do Bode estupraram e mataram a esposa de um jornalista desafeto do regime, grávida de gêmeos, e a coisa explodiu na internet. O Ministério das Comunicações do Bode não conseguiu frear a onda, e as multidões começaram a crescer em todo o país, assim, rapidamente. Então o Bode ordenou que as Forças Armadas reprimisse o povaréu, e foi aí que ele perdeu o dedão do pé.

Assim que aquele espetáculo deprimente acabou, a multidão foi se dispersando aos poucos e os pombos começaram a voltar, catando restos de pipoca, milho cozido e assado, e migalhas de todo tipo de salgadinhos comercializados na feira improvisada.

RF permaneceu no Observador da Banânia durante cerca de seis horas. Quando deixou o Banânia 21 dirigiu-se para o estacionamento público, defronte ao complexo arquitetônico. Observou a presença de militares, aqui e ali, e a maior concentração de putas que pudesse imaginar, lindas, sensuais, como mariposas em torno de uma grande luminária em um dia de canícula. Entrou no seu pequeno Fiat e foi para casa.

sábado, 13 de julho de 2024

Onde está o Tesouro do Morro do Castelo?

Ray Cunha e A IDENTIDADE CARIOCA: thriller histórico sobre o Brasil

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 12 DE JULHO DE 2024 – O Tesouro dos Jesuítas do Morro do Castelo são 67 toneladas de ouro e uma imagem em tamanho natural de Santo Inácio de Loyola, também em ouro, com olhos de brilhantes e dentes de pérolas. Onde estará o tesouro? 

Conforme a BBC News Brasil, 171,3 mil toneladas de ouro caberiam em uma sala quadrada com paredes de 20,7 metros de comprimento por 9,8 metros de altura. Segundo a revista Exame, o Brasil ocupa a quadragésima primeira posição no ranking de lastro de ouro, com 67,2 toneladas, 0,8% das reservas do país. O Tesouro dos Jesuítas ocuparia uma sala com cada uma das quatro paredes, chão e teto medindo cerca de sete metros. 

Em 1 de março de 1565, Estácio de Sá desembarca na várzea do Morro Cara de Cão, na Ilha da Trindade, um ponto estratégico, e, em 20 de março, batiza o acampamento com o nome de São Sebastião do Rio de Janeiro, em homenagem ao rei Sebastião I. Na Ilha da Trindade, Estácio acampa em terreno plano, entre os morros Cara de Cão e Pão de Açúcar, onde ergue uma paliçada, embrião da Fortaleza de São João. Havia ainda, na Ilha da Trindade, o Morro da Urca. 

A ilha, que era separada do continente por um canal raso e que, ainda no século XVI, foi aterrado, transformado em um istmo, foi estratégica na defesa aos ataques dos franceses e tamoios. Assim, a Ilha da Trindade, atual bairro da Urca, foi o embrião da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. 

A batalha decisiva de fundação do Rio de Janeiro, Uruçumirim, deu-se no Outeiro da Glória, então uma paliçada franco-tamoia, atacada pelas tropas portuguesas e os temiminós, em 20 de janeiro de 1567. Doze anos antes, em novembro de 1555, os franceses fundavam uma colônia na Baía de Guanabara, a França Antártica, na Ilha de Serigipe, atual Ilha de Villegagnon, onde construíram o Forte Coligny, arrasado, em março de 1560, pelo governador-geral Mem de Sá. 

Mas os franceses se reorganizaram na Glória. Então, naquele janeiro de 1567, Mem de Sá, Estácio de Sá e Arariboia comandaram mais de 200 portugueses e centenas de temiminós contra Uruçumirim. O líder tamoio Aimberê, 600 tamoios e cinco franceses morreram em Uruçumirim, e dez franceses foram enforcados no dia seguinte à batalha. Da Glória, foram para a Ilha do Governador, outro reduto franco-tamoio, e da Ilha do Governador para outras aldeias. Segundo o padre José de Anchieta, foram “160 aldeias incendiadas, passado tudo a fio de espada”. 

Hoje, no alto do outeiro descortina-se a Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro, ou Imperial Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro, mais conhecida como Igreja da Glória, que foi frequentada pela Família Imperial. 

Após a Batalha de Uruçumirim, o núcleo da cidade foi mudado da Urca para o Morro do Castelo, com 63 metros de altura e 184 mil metros quadrados de área no centro do Rio de Janeiro, onde, hoje, fica a Esplanada do Castelo. No morro , foi construída a Casa do Governador, a Câmara, a Cadeia, os Armazéns, o Colégio e a Igreja de São Sebastião. 

Passado um certo tempo, a população da cidade começou a ocupar a área entre outros três morros: São Bento, Santo Antônio e Morro da Conceição. O acesso ao Morro do Castelo era feito pela Ladeira da Misericórdia, primeira via pública da cidade, e, depois, também pelas ladeiras do Castelo, do Poço do Porteiro e do Seminário. 

Fora do Morro do Castelo foram erguidos o Colégio dos Padres Jesuítas da Companhia de Jesus, instalações que depois deram lugar ao Hospital Militar da Corte, e o Observatório Nacional, pois não demorou para que o Morro do Castelo ficasse pequeno demais para a expansão da cidade. 

A reforma urbana do Rio de Janeiro, inspirada no que o barão Georges-Eugène Haussmann fez no Século XIX em Paris, começou com o prefeito Pereira Passos, nomeado pelo presidente Rodrigues Alves (1902-1906). Em 1905, foi aberta uma das principais vias urbanas do país, a Avenida Central, atual Rio Branco, no limite do Morro do Castelo com a Cinelândia. Foi durante as obras de abertura da Avenida Central que se descobriu uma galeria que ia para as entranhas do morro, onde os jesuítas teriam guardado o mitológico tesouro ao serem expulsos pelo Marquês de Pombal. 

De 1921 a 1922, o Morro do Castelo veio abaixo a peso de dinamite, pás mecânicas, escavadeiras e bombas hidráulicas de jatos de alta pressão. O entulho foi utilizado para construir o Aeroporto Santos Dumont e aterrar a Glória, parte da Lagoa Rodrigo de Freitas e o Jardim Botânico. A obra, monumental, foi idealizada e comandada pelo prefeito Carlos Sampaio, 58 anos. Foi ele que também desmontou o Morro do Senado, ampliou o cais do porto e o aterro do Flamengo, abriu a Avenida Rio Branco e implementou a Light. 

Só há uma obra que ele quis fazer mas não conseguiu: um metrô ligando o Rio de Janeiro a Niterói por debaixo da Baía de Guanabara. Porém rasgou estradas de ferro e pavimentadas, aterrou ilhas, reconfigurou bairros e avenidas, como a Portugal, que deu origem à Urca, e se envolveu com navegação e portos, levantando, ele mesmo, o financiamento, junto a investidores ingleses, canadenses e americanos, entre os quais o financista Percival Farquhar. 

Debate-se, até hoje, a razão pela qual derrubaram o Morro do Castelo, que tinha 4 mil moradores e 408 casas, que foram todas desapropriadas. Pois foi pelo motor da História: o fator econômico. A ideia central era urbanizar a cidade para a Exposição Internacional do Centenário da Independência, aberta em 7 de setembro de 1922, mas a demolição do morro proporcionou o segundo maior investimento na indústria imobiliária no país, depois da construção de Brasília. A abertura da Esplanada do Castelo permitiu que o Rio de Janeiro crescesse para os lados, saneando seus pântanos, e para cima, com arranha-céus. 

Em 20 de janeiro de 1922, foi realizada, com início às 8 horas, a última missa na Igreja de São Sebastião do Morro do Castelo – que viria a ser demolida em novembro daquele ano –, com a presença do presidente da República, Epitácio Pessoa, e do prefeito do Rio de Janeiro, Carlos Sampaio. 

Seguiu-se uma procissão de transladação dos restos mortais do fundador e primeiro governador da cidade, Estácio de Sá, a imagem de São Sebastião, trazida de Portugal por Estácio de Sá, e o Marco da Fundação da Cidade do Rio de Janeiro, até um casarão que pertencia às Monjas do Ajuda, na Rua Conde de Bonfim 290, Tijuca, adquirido pela prefeitura para os capuchinhos se abrigarem, provisoriamente, até que ficasse pronto o novo Santuário Basílica Matriz de São Sebastião dos Capuchinhos do Rio de Janeiro, na Rua Haddock Lobo 266, onde os jesuítas estavam instalados desde 1840. 

A procissão chegou à Rua Conde de Bonfim às 12h30. Os capuchinhos permaneceram lá, com as relíquias removidas do Morro do Castelo, durante nove anos, de 20 de janeiro de 1922 a 15 de agosto de 1931. Às 7h30 daquele 15 de agosto, as relíquias foram transportadas em procissão e com honras militares do casarão na Rua Conde de Bonfim para o Santuário Basílica Matriz de São Sebastião dos Capuchinhos do Rio de Janeiro. Quanto ao casarão da Conde de Bonfim, abrigou uma agência dos Correios e Telégrafos, até 1976, quando foi demolido para a construção do metrô. 

O Santuário Basílica Matriz de São Sebastião dos Capuchinhos do Rio de Janeiro foi erguido entre 1928 e 1931, em estilo neobizantino e neorromânico, em mármores coloridos, mosaicos e vitrais. Entre 1941 e 1942, a fachada da igreja foi alterada pelo arquiteto italiano Ricardo Buffa, autor também do altar-mor. 

Além dos restos mortais de Estácio de Sá e da imagem de São Sebastião, os capuchinhos guardam no templo objetos históricos e artísticos da igreja de São Sebastião do Morro do Castelo, como o marco de pedra da fundação da cidade, com o escudo português esculpido, e a lápide tumular do fundador da cidade, com o brasão de Estácio de Sá em alto-relevo e uma inscrição comemorativa que Salvador Correia de Sá, primo de Estácio e segundo governador do Rio, mandou fazer, em 1583: “Primeiro capitão e conquistador dessa terra e cidade”. 

Os jesuítas teriam escondido seu tesouro nas entranhas do Morro do Castelo, abaixo do nível do mar. Mas as galerias sob o antigo morro foram vasculhadas, esmiuçadas, e nunca encontraram nem uma moeda de ouro. A Esplanada do Castelo é delimitada pela Avenida Rio Branco, o Aeroporto Santos Dumont e a Praça 15 de Novembro, área onde foram construídos os atuais Palácio Gustavo Capanema, que sediou o Ministério da Educação e Cultura, as antigas sedes dos ministérios do Trabalho e da Fazenda, o Museu Histórico Nacional, o Fórum, o Palácio Tiradentes, a Escola Naval, a Igreja de Santa Luzia, a Biblioteca Nacional e a Academia Brasileira de Letras. 

As 67 toneladas de ouro e uma imagem em tamanho natural de Santo Inácio de Loyola, também em ouro, com olhos de brilhantes e dentes de pérolas estariam ainda no subsolo da Esplanada do Castelo ou era muita coisa para ser retirada de lá em uma época na qual ainda não se dispunha da tecnologia de hoje? O tesouro existe, ou é só a maior lenda urbana do Rio de Janeiro? Se existe, onde está? 

Em A IDENTIDADE CARIOCA (Clube de Autores, Amazon, 2024, 233 páginas), deste que vos escreve, não só esse segredo é desvendado, como também o leitor vai saber o que realmente se passou durante a criação do Rio de Janeiro e da identidade brasileira, livre da mentira comunista, ou positivista, com que os professores costumam contar a História do Brasil. 

A IDENTIDADE CARIOCA é fundamental para todos que procuram compreender o Brasil e a identidade brasileira.

quinta-feira, 11 de julho de 2024

Os livros têm seu próprio destino

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 11 DE JULHO DE 2024 – O brasão da Academia Amapaense de Letras (AAL) traz a frase latina “Habent sua fata libelli” – “os livros têm seu próprio destino” –, trecho do verso: “Pro captu lectoris habent sua fata libelli” – “os escritos têm seu destino de acordo com a capacidade do leitor” –, da obra De litteris syllabis pedibus et metris, do poeta e gramático latino Terenciano Mauro (III d.C.). 

Pode-se inferir do contexto do verso que “cada livro é predestinado a ter maior ou menor sorte, independentemente do seu mérito intrínseco”, ou “todo livro é, mais cedo ou mais tarde, fadado ao esquecimento”. 

Essa é uma lembrança dos fundadores da AAL de que a vida é dinâmica, acontece sempre agora. Livros foram escritos, alguns fizeram sucesso, outros são natimortos, e outros ainda estão nascendo e farão sucesso ou não, dependendo das suas circunstâncias. Independentemente disso, a AAL não para, e está sempre se renovando. 

Em um domingo, 21 de junho, data de nascimento de Machado de Assis, de 1953, na sala de estudos da Biblioteca Clemente Mariani, do Grêmio Literário e Cívico Rui Barbosa, entidade estudantil de alunos do Ginásio Amapaense, então instalado em dependências do Grupo Escolar Barão do Rio Branco, nasce a Academia Amapaense de Letras, integrada inicialmente por doze sócios efetivos e cinco sócios honorários. 

Os sócios efetivos eram: Benedito Alves Cardoso (professor de Português e Literatura),  Gabriel de Almeida Café (técnico da Educação e professor de História), João Elias Nazaré Cardoso (professor), Nelson Geraldo Sofiatti (químico e professor), Heitor de Azevedo Picanço (contabilista e professor de Contabilidade), Amilcar da Silva Pereira (médico e diretor do Ginásio Amapaense), Célio Rodrigues Cal (delegado de Polícia e professor), Uriel Sales de Araújo (juiz de Direito e professor), Oton Accioly Ramos (promotor público e professor), Mário Medeiros Barbosa (médico e professor), Lício Mariolino Solheiro (professor) e Jarbas Amorim Cavalcante (juiz de Direito e professor). 

Os sócios honorários: Janary Gentil Nunes (governador do Território Federal do Amapá), Coaracy Gentil Monteiro Nunes (deputado Federal), Hildemar Pimentel Maia (promotor público e suplente de deputado federal), Diniz Henrique Botelho (secretário do Ginásio Amapaense) e Altino Pimenta (diretor do Conservatório Amapaense de Música). 

A posse da primeira diretoria ocorreu no dia 5 de julho de 1953, no Cine Teatro Territorial, anexo ao Grupo Escolar Barão do Rio Branco, com a presença do governador, Janary Gentil Nunes. Depois disso, o silogeu ficou desativado por 35 anos, voltando a abrir as portas em agosto de 1988. 

A primeira diretoria foi assim composta: Presidente: Benedito Alves Cardoso (professor de Português e Literatura); Secretário: Gabriel de Almeida Café (professor de História e jornalista); Tesoureiro: Amilcar da Silva Pereira (médico e professor de Ciências); e Bibliotecário: Heitor de Azevedo Picanço (contador e professor de Contabilidade). 

A atual diretoria, biênio 2023/2024, está assim composta: 

Presidente: Fernando Canto

Vice-Presidente: Paulo Guerra

Secretário: Paulo Tarso

Tesoureiro: Benedito Rostan

Diretor de Biblioteca: Jadson Porto 

Membros vitalícios: Cadeira nº 1 – Gilberto Pinheiro; Cadeira nº 2 – Adaury Salles Farias; Cadeira nº 3 – Ricardo Augusto dos Santos Pontes; Cadeira nº 4 – Fernando Canto; Cadeira nº 5 – Maria Ângela da Costa Nunes; Cadeira nº 6 – Tiago Quingosta; Cadeira nº 7 – Rostan Martins; Cadeira nº 8 –Dom Luiz Soares Vieira; Cadeira nº 9 – Antônio Cabral de Castro; Cadeira nº 10 – Nilson Montoril de Araújo; Cadeira nº 11 – Gian Danton; Cadeira nº 12 – Georgenor de Souza Franco Filho; Cadeira nº 13 - Jackson Corrêa; Cadeira nº 14 – Piedade Lino Videira; Cadeira nº 15 – Fernando Rodrigues dos Santos; Cadeira nº 16 – Paulo Guerra; Cadeira nº 17 – Jadson Porto; Cadeira nº 18 – Wilson Carvalho; Cadeira nº 19 – Jô Araújo; Cadeira nº 20 – César Bernardo; Cadeira nº 21 – João Nascimento Barbosa; Cadeira nº 22 – Saulo Carneiro Ribeiro; Cadeira nº 23 – Luiz Alberto Costa Guedes; Cadeira nº 24 – Ruben Bemerguy; Cadeira nº 25 – Alcinéa Cavalcante; Cadeira nº 26 –Edgar de Paula Rodrigues; Cadeira nº 27 – Pastor Oton de Alencar; Cadeira nº 28 – Cléo Farias de Araújo; Cadeira nº 29 – Professor Maneca; Cadeira nº 30 – Padre Paulo; Cadeira nº 31 – Paulo Tarso; Cadeira nº 32 – Antônio Carlos da Silva Farias; Cadeira nº 33 – Osvaldo Simões; Cadeira nº 34 – Mauro Rabelo; Cadeira nº 35 – Cristóvão Tertuliano de A. Lins; Cadeira nº 36 – Manoel Bispo Corrêa; Cadeira nº 37 – Raquel Tourinho Braga; Cadeira nº 38 – José Queiroz Pastana; Cadeira nº 39 – Alberto Tostes; Cadeira nº 40 – Carlos Nilson da Costa. 

Primeiro sócio correspondente: Ray Cunha (Brasília)

segunda-feira, 8 de julho de 2024

A IDENTIDADE CARIOCA, o thriller histórico que começamos a ler e não conseguimos parar!

Tendo como fio da meada o paradeiro do Tesouro dos Jesuítas do Morro do Castelo, maior lenda urbana do Rio de Janeiro, A IDENTIDADE CARIOCA, de Ray Cunha, faz nova leitura da História do Brasil, sem o ranço comunista, ou positivista!

Adquira seu exemplar no Clube de Autores ou na amazon.com.br

sábado, 6 de julho de 2024

Eu ainda sou eu

Ray Cunha fotografado pelo pintor André Cerino (2013)


RAY CUNHA 


Eu ainda sou eu e sempre serei eu, porque sou eterno

Mesmo em coma viajo em velocidade quântica

Hoje, estou aqui, e em Centaurus, agora mesmo

Posso, como os leões, passar dias namorando

Mas sentindo orgasmos que duram horas

Eu ainda sou eu e sempre serei eu, eterno porque agora

Meu corpo é energia condensada para uma experiência fugaz

Trajo espacial para viver aqui na Terra

Sou uma consciência que viaja na velocidade dos elétrons

Aqui, sou guiado pelas emoções, pelos sentidos

Meu combustível é amar, riso de crianças, gemidos da mulher amada

Eu ainda sou eu e sempre serei eu

Porque sou eterno e viajo pelas estrelas

Com o mesmo prazer de estar em Copacabana

Tentaram matar-me quando eu era criança e jovem

Adulto, tentaram tomar tudo de mim

Mas sempre fui protegido e nunca um desses ataques

Aniquilou-me completamente, nem me aleijou

De modo que ainda sou eu

Entendi, então, que nada é por acaso

Se eu fui preservado é porque minha missão só está começando


BRASÍLIA, 6 DE JULHO DE 2024

sexta-feira, 5 de julho de 2024

O perfume das virgens ruivas

Ray Cunha, fotografado pelo pintor André Cerino (2013)

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 5 DE JULHO DE 2024 – O olfato é dos sentidos o mais primitivo, com a capacidade de provocar desejo ou repulsa. Daí que a memória olfativa é fundamental para o equilíbrio mental. Por exemplo: bebês identificam suas mães pelo cheiro. Os animais, em geral, identificam presas e ameaças, e encontram fêmeas no cio pelo cheiro. Incêndios, vazamento de gás, comida queimada, identificamos pelo cheiro. As pessoas têm cheiros característicos, assim como as cidades, as casas, as circunstâncias das nossas vidas. 

Um dos romances mais impressionantes é O Perfume – História de um Assassino, do escritor alemão Patrick Süskind, sucesso mundial, publicado pela primeira vez em 1985. O livro conta a história de Jean-Baptiste Grenouille, um homem que possui um olfato extraordinário, tornando-o capaz de se orientar apenas pelos cheiros. Mas ele não possui odor próprio, o que faz dele um fantasma. “O odor é a essência, e o que não tem essência não existe” – observa Süskind. 

A fim de ser notado pelos outros, Grenouille se torna perfumista e cria essências que utiliza de acordo com as circunstâncias. Jovem ainda, Grenouille encontra uma moça com cheiro absolutamente diferente de todos os perfumes que ele guardava na memória e se torna obcecado por apoderar-se desse odor. Então assassina-a e captura o cheiro do corpo da jovem por meio de técnicas de perfumista. Mas ele quer o perfume perfeito e mata mais 26 jovens mulheres para captar suas essências. 

Cria, afinal, o perfume. Mas, frustrado por ele mesmo não ter cheiro, banha-se com o frasco do perfume perfeito e a visão que tem dele um grupo de prostitutas e ladrões reunidos em uma praça é de um deus sedutor, tão sedutor que é devorado até o último pedacinho pela escória de Paris. 

Cheiros são como a espinha dorsal da nossa vida. Vejam o meu caso. Eu devia ter quatro ou cinco anos quando isso aconteceu. Minha casa, que ficava na esquina das ruas Iracema Carvão Nunes e Eliezer Levy, ao lado do Colégio Amapaense, em Macapá/AP, era frequentada por algumas adolescentes, amiguinhas das minhas irmãs, e uma delas lembrava um arbusto ruivo, uma deusa, como são todas as adolescentes. 

O banheiro ficava no quintal, tinha meio tambor de querosene de aviação que servia como caixa d’água e tomávamos banho despejando água na cabeça com uma lata de leite Ninho ou de óleo. Um dia, a adolescente ruiva (talvez nem fosse ruiva, mas lembro-a assim) foi dar banho em mim e tomar banho também. 

Quando ela tirou a roupa o planeta parou, ou as coisas começaram a andar rápido como a luz. Meu rosto ficou quase da altura do púbis dela, um sol. E então senti o perfume das virgens ruivas. Trata-se de um cheiro de liberdade. Liberdade total. Hoje, quando sinto esse cheiro, eu me transformo em leão de asas, e diante de mim abrem-se inumeráveis possibilidades. É algo tão bom que podemos senti-lo a qualquer momento, basta que tenhamos o gatilho para isso. 

Os cheiros ensinam muitas coisas. Uma delas é que a matéria é apenas uma ilusão, criada não somente pela ótica, o tato, a audição, o paladar, mas, principalmente, pelo cheiro, pois que os cheiros contêm todos os demais sentidos, e eles só existem na memória. 

O perfume das virgens ruivas é azul, é como o primeiro beijo, como ouvir Amira Willighagen, aos 9 anos, cantando Ave Maria, de  Charles Gounod e Johann Sebastian Bach, comer ostra com Antarctica enevoada às 9 horas, em Salinas/PA, no verão. 

Há cheiros que nunca os esquecemos, porque enobrecem a nossa vida, como o cheiro da casa dos meus pais, do feijão com arroz da minha mãe, da minha filha quando era bebê, da minha amada, o cheiro das madrugadas prenhes do perfume dos jasmineiros, em Macapá, de rosas colombianas, do Rio Amazonas.

Esses cheiros são como certos poemas, certas personagens de ficção, certos contos e romances que escrevemos sozinhos, de madrugada, como deuses criando mundos. Aí, dou uma pincelada de azul aqui e ali, como acho que faz Olivar Cunha ao criar seus mundos. São essas reminiscências, inclusive de vidas passadas, que nos conduzem. Certa vez Olivar Cunha disse que “a vida é um tesão”. Sim, é, por causa do perfume das virgens ruivas.

quinta-feira, 4 de julho de 2024

Bentinho foi criado debaixo da saia da mãe. Era corno em potencial, sofria a síndrome do ciúme. Flora Thomson-DeVeaux e a identidade carioca

Jessica Rabbit: cada qual alimenta a Capitu que fantasia

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 4 DE JULHO DE 2024 – Bento de Albuquerque Santiago, Bento Santiago, Bentinho ou Dom Casmurro, é o protagonista do romance Dom Casmurro (1899), de Machado de Assis. A trama é contada por Bentinho, daí que ninguém sabe se aconteceu realmente ou é fantasia. Ele foi mimado pela mãe viúva, e a gente sabe que meninos criados dessa forma são paus-mandados das mulheres pelo resto da vida, e, talvez por isso, por serem paus-mandados, acabam, paradoxalmente, desenvolvendo também misoginia. 

Em certo momento da vida de Bentinho ele passa a acreditar que sua esposa, Capitu, pôs chifre nele, com seu melhor amigo, Escobar, que morre afogado, apesar de bom nadador. Capitu pare uma criança, Ezequiel. Segundo Bentinho, Ezequiel é uma cópia de Escobar. Ninguém mais no romance acha isso; só ele. Exila Capitu na Suíça e Ezequiel morre na flor da idade. Só restam a Bentinho dois caminhos: suicidar-se ou conviver com os fantasmas do seu passado. Escolhe a crosta de Dom Casmurro. 

Mas o grande interesse dos leitores de Dom Casmurro é Capitu, Maria Capitolina de Pádua Santiago, nada menos que a personagem de ficção mais famosa do Brasil, passando, inclusive, Maria Deodorina da Fé Bittencourt Marins, ou Reinaldo, ou Diadorim, de Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa. 

Capitu é uma adolescente sensual, que lembra Lolita, de Vladimir Nabokov. Mas uma mulher de personalidade forte, alta, morena, de cabelos grossos e compridos, nariz reto e comprido, boca fina e queixo largo, olhos claros e grandes, “de ressaca, oblíquos e dissimulados”, segundo Bentinho. Olhos de ressaca, o que é isso? Certa vez, banhei-me em Copacabana em mar de ressaca, ou encapelado. Um olhar assim é inquieto e traz à tona um turbilhão interior. Para Bentinho, Capitu era assim. 

Também ele a vê como uma cigana, mulher misteriosa, que olharia o outro de forma indireta, com fingimento. E, no entanto, a gente vê que Capitu não é isso, não é fingida. Há, porém, uma frase fundamental para se entender a trama de Dom Casmurro, proferida pelo próprio: “Capitu era mais mulher do que eu homem”. 

Machado de Assis é considerado pela crítica literária o ponto máximo da literatura brasileira. Creio que a principal coordenada que leva a essa consideração é a poesia. Para mim, poesia é escrever em profundidade. Explico. 

Segundo o historiador Plutarco, por volta de 70 a.C., o general romano Pompeu estava na ilha de Sicília, ao sul da Itália, com a missão de transportar trigo para Roma, que passava por uma crise de abastecimento causada por uma rebelião de escravos. Havia uma tormenta no porto. Naquela época, as limitações tecnológicas tornavam a navegação de alto risco, além dos ataques piratas. Mas diante da situação e do comprometimento de Pompeu com Roma ele se fez ao mar. “Navegar é preciso, viver não é preciso” – proferiu. 

A vida material é finita, mas enquanto a vivemos é preciso navegar, mesmo que haja uma tormenta no porto. É necessário transpor os obstáculos, sejam quais forem. É preciso navegar. Viver não é preciso. Pois que viver é navegar. Isso é poesia. Um corte em profundidade da vida. Assim escrevia Machado de Assis. Além disso, ele tem outros méritos, méritos que o faz emblemático em A IDENTIDADE CARIOCA, romance meu recém-publicado. 

Joaquim Maria Machado de Assis nasceu no Rio de Janeiro, em 21 de junho de 1839, e morreu na mesma cidade, que tanto amou, em 29 de setembro de 1908. Nasceu no Morro do Livramento, estudou um pouco, em escolas públicas, e não soube o que foi frequentar uma universidade. Mulato, era filho de um negro e uma portuguesa da ilha de São Miguel. Culto, era leitor inveterado. Escreveu cinco livros de poemas, mais de 600 crônicas, folhetins, fez jornalismo, escreveu crítica literária, 10 peças teatrais, 200 contos e 10 romances. Fundou a Academia Brasileira de Letras (ABL). Foi um cronista do Rio de Janeiro de sua época; um homem do seu tempo. 

Ser um homem do seu tempo é viver intensamente seu tempo. No caso do escritor, ele escreve sobre seu tempo. Por exemplo: pode-se dizer que Luiz Alfredo Garcia-Roza é um homem do seu tempo. Apenas o Rio de Janeiro de Garcia-Roza não é o de Machado de Assis, nem o gênero. Copacabana, que Roza amava, está toda ela, pulsando, neste século, nos seus thrillers policiais. 

Recentemente, a escritora e podcaster americana Courtney Henning Novak viralizou nas redes sociais. Ela lançou um desafio pessoal de ler um livro de cada país do planeta. Do Brasil, escolheu Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado, e escreveu, antes mesmo de terminar a leitura: “Preciso ter uma conversa com o pessoal do Brasil. Por que não me avisaram antes que este é o melhor livro já escrito? O que vou fazer do resto da minha vida depois que terminá-lo?” 

A tradução lida por Novak é da também americana Flora Thompson-DeVeax, que vive no Rio de Janeiro. Conheceu a obra de Machado de Assis na Princeton University, onde estudou língua portuguesa. “Acho que para qualquer pessoa que se propõe a estudar o Brasil chega uma hora que tem que encarar o Machado” – esclarece Flora, para quem Memórias Póstumas de Brás Cubas, publicado em 1881, “me pareceu absurdamente moderno, hilário, surpreendente a cada página. Não consegui conceber por que o autor não era mais conhecido”. 

Ela passou cinco anos traduzindo o livro, entendendo o significado de certas palavras, a época em que o livro se passa, a geografia e o meio social, a história do Brasil, a identidade carioca. Hoje, Flora é daquelas cariocas como eu, que morou na cidade e se apaixonou por ela. Não porque a cidade é maravilhosa, linda, esplêndida, mas, principalmente, porque contamos, Flora e eu, com o terceiro olho bem aberto, aquele que proporciona a visão em corte vertical.

terça-feira, 2 de julho de 2024

Cor de jambo maduro, ruiva e de olhos verdes

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 2 DE JULHO DE 2024 – Já ocorreu várias vezes comigo de reler um conto que escrevi há anos e achá-lo tão bom a ponto de ficar em dúvida se fui eu mesmo que o escrevi. Isso acontece também com personagens. Há uma personagem de ficção que vive em dois ou três romances meus. Sei que é ela por algumas características. Tem pele cor de jambo maduro e é ruiva, e seus cabelos são como uma cascata de fogo que lhe alcançam os quadris de potra. E tem os olhos como duas esmeraldas. 

Já notei, também, que algumas personagens a quem dou à luz gostam de música. Ou nem são elas que gostam de ouvir música, mas é a música que está presente na trama, como se fosse parte natural de determinadas sequências dramáticas. E mais: é comum as pessoas confundirem o autor com personagens de ficção; quanto menos entendem de literatura, mais acham que aquele assassino ou aquele estuprador é o próprio autor do livro. Se assim fosse, quantos escritores estariam atrás das grades! 

Obviamente que ser escritor tem suas pequenas vantagens. Mas são vantagens puramente psicológicas. Uma gracinha que fazemos de alguém real, um soco na boca de um deputado-rachadinha, que levou 24 mil reais de um assessor, e até mesmo exterminar um corrupto com um lápis, fincando o lápis no olho dele, até atingir o cérebro. Ou degolando-o com uma katana. Mas é tudo ficção. 

Assim é também com as beldades que criamos. Não as comemos, no sentido de levá-las para a cama. Apenas as criamos. Até porque normalmente já temos nossa gata na vida real. E depois, a vida real é muito diferente da vida dentro de um livro de ficção. No livro, a coisa é intensa. Intensa como andar a velocidade da luz, ou escalar o Monte Roraima, voar lá de cima de asa delta e pousar em Copacabana. Ou levantar-se às cinco horas só para ver leões caminhando na praia ao alvorecer. 

De qualquer forma, no meu romance O CLUBE DOS ONIPOTENTES, thriller político-policial, há uma dessas sequências que escrevi, porém como se estivesse em transe, porque, lendo-a, sinto-me como se estivesse conhecendo aquela personagem naquele momento; inclusive sentindo-me invadir a alcova alheia. Bom, agora que cheguei até aqui... 

O SOM de respiração ofegante e odor de suor enchiam o quarto. Alesão media 1,67 metro e pesava 49 quilos. Chegaram ao apartamento de Alex antes das 22 horas, pois, naquela noite, deixaram cedo a Trópico. Começaram bebericando Mateus Rosé, mordiscando queijo do reino e ouvindo Dámaso Pérez Prado, começando por Patrícia. Alesão ensaiou alguns passos de mambo. Beijaram-se. Um beijo interminável. Ele lambeu o rosto dela. 

– Vou ao banheiro – ela disse. 

– Vou pegar toalha e um roupão para você! 

Enquanto ela tomava banho ele continuou bebericando vinho e mordiscando queijo do reino, ouvindo o japonês Akira Miyagawa, que combinou a Quinta Sinfonia de Beethoven com o Mambo Número Cinco, de Pérez Prado. Havia selecionado várias gravações do Rei do Mambo; a próxima foi April in Portugal, também chamada The Whisp'ring Serenade, conhecida no Brasil como o fado Coimbra, com música de Raul Ferrão e letra de José Galhardo, de 1947, um dos grandes sucessos da portuguesa Amália Rodrigues. A letra na versão inglesa foi escrita por Jimmy Kennedy. Aí, a seleção pulou para Sirtaki, ou Zorba, o Grego, de Mikis Theodorakis. Sempre que ouvia essa música entrava imediatamente no romance Zorba, o Grego (1946), de Nikos Kazantzakis, e também no filme homônimo (1964), dirigido por Michael Cacoyannis, com Anthony Quinn. A canção seguinte foi o Concerto de Aranjuez (1939), para violão e orquestra, do compositor espanhol Joaquín Rodrigo, durante a qual ela entrou no quarto, dentro do alvo roupão, descalça. Pôs-se entre a cadeira onde ele se sentara e a cama, e deixou o roupão deslizar pelo seu corpo. Reinaldo já vira toda espécie de beldade, mas aquela superava tudo o que já experimentara. Degustou, devagarinho, a visão, a fragrância das magnólias, o cantar dos pássaros e o jorrar dos chafarizes na primavera, não dos jardins do Palácio Real de Aranjuez, mas a visão da cafuza ruiva. O concerto estava no segundo movimento, Adagio, esculpido em melodia suave e ritmo lento, uma conversa, tão íntima que só poderia se desenrolar na alcova, entre violão, fagote, oboé e trompa. Ela tomara o cuidado de não molhar os cabelos, que deslizavam como uma cascata de fogo, lambendo-a até a cintura. Tinha os olhos enormes, verde-água, nariz ligeiramente arrebitado, rosto oval e simétrico, e lábios grandes e carnudos. Os seios erguiam-se volumosos, sem serem excessivos, firmes como colunas de mármore, lembrando pequenos vulcões, pois as auréolas dos mamilos eram enormes e rosadas. O umbigo era uma pequena fenda na barriga de tábua e o púbis, ruivo como o sol se pondo. Do púbis, deslizou o olhar ao longo das pernas de jambo maduro, até os graciosos pés, com unhas pintadas de rosa. Ela deu um giro de 180 graus. A cascata de fogo cobria-lhe parcialmente as costas e descia-lhe até as ancas de potra, como um triunfo do escultor renascentista Gian Lorenzo Bernini. Ele a conduziu para a cama e pôs-se a beijá-la. Sentia-se cair, lentamente, em um abismo. O adagio agonizava. Sentiam-se agora em outro plano da vida, onde a sensação psicológica do tempo não existia. Estaria em que mundo, se o espaço-tempo parara de existir? As sensações eram, agora, mais sublimes do que as dos cinco sentidos – visão, tato, olfato, audição, paladar e o sexto sentido se fundiram em um só sentido, fluindo para algum lugar inexistente na expansão infinita do Universo. Sentia, como descreveu Ernest Hemingway em Por Quem os Sinos Dobram, um latejar da Terra no espaço, uma vibração apenas no início. Desceu para os vulcões; ora sugava colostro de um, ora de outro, ávido como um bebê que já se sente senhor de si, isto é, que já sabe o caminho das pedras, ou seja, dos seios. Ela começou a gemer baixinho. Sonhava os sonhos mais ousados. Ele se demorou na barriga. 

Ouvia-se, agora, o Concerto Para Piano e Orquestra, em Ré Menor, de Mozart. Da barriga, ele desceu para os pezinhos, fitou-os, beijou-os, lambeu-os, e foi subindo, vagarosamente, até chegar ao púbis, onde imergiu em um mergulho paciente, embora a paciência fosse tensa, naquele ponto em que o equilíbrio se desequilibra e surge o caos do prazer. Ela gemia alto, agora, a cada sugada mais forte dele, imerso no cheiro das virgens ruivas, de rosas esmigalhadas nas fábricas de perfume, misturado ao odor dos jasmineiros nas noites de agosto, em Macapá, cidade da Amazônia atlântica seccionada pela Linha Imaginária do Equador, e misturado ao sabor de Mateus Rosé, à visão do mar de cobalto de Angra dos Reis e à abertura, allegro, do Concerto Para Piano e Orquestra, em Ré Menor, de Mozart. O primeiro movimento foi um voo vertiginoso até a borda do Universo, quando ele a encaixou, sem pressioná-la, sem pressa, ao ritmo do segundo movimento, romanza, sereno, sonhador, um diálogo entre o piano e a orquestra, um contraponto, a intimidade que descobrimos em certas composições dos Beatles. O hímen rompeu-se no início do rondó, com a primavera ocupando todo o éter da consciência. Estavam os dois, agora, cavalgando um dragão de elétrons, além das galáxias, onde só se sentia o azul da eternidade. Os gemidos dela enchiam o quarto, muito, muito mais sublimes do que a música de Mozart, durante toda uma eternidade, até se diluírem, quase em choro, em silêncio. Ele descansou um pouco. Depois a pôs de lado e penetrou-a de novo, instruiu-a a ficar numa posição em que ele pudesse cavalgá-la, seguro nas ancas esculpidas por Benini, ele, o próprio dragão, leão de asas, relinchando como garanhão, um lamento alto de tanto prazer, batizando-a para sempre, iniciando-a em outra fase da sua vida, pois acabara de promover mudanças na sua roupa carnal, a despertar novos sentidos, não nominados pela ciência, mas que sabemos, pela intuição, que existem. O sol já se erguera quando, exaustos, adormeceram profundamente. 

Acordaram às 10 horas da manhã e ela estava ainda mais linda do que na noite anterior. Levantaram-se e foram para o banheiro, onde demoraram-se, e só foram fazer o desjejum, que ele preparou, lá pelo meio-dia. Nesse meio tempo, ela projetou, indiretamente, todo um noivado e casamento; ele era capaz de ouvir, enquanto comiam a macarronada que ele preparou, a Marcha Nupcial de Mendelssohn, da peça Sonho de uma Noite de Verão, de William Shakespeare, e a de Wagner, do coro nupcial da ópera Lohengrin. No meio da tarde, ela se foi, ao som da Tocata e Fuga em Ré Menor, de Johann Sebastian Bach.