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quinta-feira, 23 de julho de 2026

MEMORIAL DOS SENTIDOS


RAY CUNHA
Haverá obra de arte mais emocionante do que mulher muito linda?
Sim, nua!
Cheirando a púbis!
E mais bela do que isso?
Grávida!
Amamentando!
Mais belo
Só crianças rindo!
Luz se eternizando!
Sinto cheiro de mulher nua
Ostra com Antarctica enevoada, em julho, às 9 horas
No ar saturado de mulheres lindíssimas e suadas, em Salinas
Tu precisas me lamber com teus olhos verdes como lápis-lazúli
Para eu sentir o acme
Precisas apenas sorrir e tocar nos meus finos lábios
Para que eu morra como as rosas, que não morrem nunca
Porque são imortais na sua explosiva beleza
Imobilizo minha amante pelos cabelos
Beijo-a na boca, faço-a gritar de prazer
Ela é a própria noite
Café noturno, cheio de mulheres misteriosas de tão lindas
Que dizem oi quando passo
O cheiro de púbis ruivo
Inunda meu olfato, meu paladar, meu cérebro.
Degusto Antarctica, com Jorge Tufic, em Manaus, no Nathalia
Lambo o rosto da Tharcilla
Beijo os lábios carnudos e mordo o pescoço da Mara
Como fez Isnard Brandão Lima Filho, oferto rosas para a madrugada
Ao extrair gemidos da mulher amada, percorrendo sua pele de jambo
E sonho com leões caminhando na praia, ao amanhecer
Igual Picasso, com seus olhos negros, nonagenários
Sou como pássaro que nunca envelhece
Nasci com asas invisíveis
Que se equilibram no éter, como avião de caça
Riscando um golpe vermelho no azul
A noite chega, ouço os alísios
Que me falam de Macapá e da Estação das Docas
Então compreendo que o som que vem do vento
São vozes e risos femininos
Como a nudez das mulheres muito lindas
Boeing pousando
Navio todo iluminado e em festa, no porto
Cataclismo de rosas
O atrito da Terra no éter
O Concerto Para Piano e Orquestra, em Ré Menor, de Mozart,
O choro dos jasmineiros
Chanel 5
Shoppings lotados
De mulheres seminuas
Em Brasília, e em todas as grandes cidades do mundo
Os lábios de Alinne Moraes ao meu ouvido
Prenhes de romance e mistério
A mulher amada
Que habita o azul dos meus gritos
Na minha memória
Barcos deslizam na latitude da Linha Imaginária, na boca do rio Amazonas
E despencam no Atlântico
Espero as chuvas com a mesma sofreguidão com que aguardo
O outono, o inverno e a primavera
O verão, como ocorre em todas as estações da vida,
Inunda um planeta de rosas tão azuis que sangram
E mangas doces como seios de mulheres de olhos de esmeraldas
E, se é madrugada, a chuva se confunde ao som
Que não se interrompe nunca
Do mar
Então, o atrito da Terra no espaço invade minha alma
E se mistura ao perfume das virgens ruivas
Misterioso como mulher nua
Como a luz, como o éter, como o próprio triunfo
Ah! meu amor, tu és meu amor porque teu riso impulsiona meu coração
Porque tu crias a vida, pois à tua passagem os jardins se levantam
E a luz infinita vibra em oração
Que escapa dos teus lábios
Quisera eu ser poeta, e dominar a força de gravidade com palavras
Para te dedicar versos
Que contivessem o mar
Um oceano inteiro de rubis, azuis como o céu
Depois que te conheci, exorcizei o medo
Aprendi a escutar o silêncio das madrugadas
Comecei a voar no perfume dos jasmineiros
Sou teu, todo teu, inteiramente teu
Pertencer-te é o mesmo que a liberdade
É ascender, vencer a eternidade, e sentir a presença de Deus!
A noite mais azul é quando
Assassinos me perseguem, derroto-os
E durmo com a princesa.
Isto só acontece nas noites tão azuis
Que um Boeing 777 fere-as
E sangue verte sobre as rosas
Que o acme da princesa
Transforma em rosas colombianas.
A noite mais azul é tórrida e os jasmineiros choram
O mundo recende a maresia
E o meu corpo
Volta a ser rijo como os punhos de Muhammad Ali
Quando acabou com George Foreman, no Zaire.
Então me transformo em luz
Nesta noite excessivamente azul
Estou sentado em um quiosque defronte ao Macapá Hotel
Mas há mulheres tão lindas que as vemos apenas em grandes aeroportos internacionais
Estou só, mas o rio Amazonas, o maior do mundo, ruge como o mar em Copacabana
Na maré cheia, e salpica meu rosto, escanhoado para esta noite
Estou aparentemente só
Pois ouço merengue
E meu Pai enviou uma legião que me acompanha por todo o sempre
Estou só com meu coração
Pois sinto o perfume das virgens ruivas
Relicário de pedras preciosas como acme da mulher amada e o choro dos jasmineiros
Nas tórridas noites da Linha Imaginária do Equador
Estou só
Mas estão comigo Belém, Manaus e Rio de Janeiro
E meus amigos logo chegarão
Minha solidão é como a dos pugilistas e dos escritores
Quando começa o assalto ninguém os pode socorrer e eles só contam com a própria luz
Por isso nunca estou só
Pois ouço do mar o Concerto para Piano e Orquestra, em ré Menor, de Mozart
Estou só
Mas o céu é tão azul que chove rosas vermelhas colombianas
E o ar é prenhe do cheiro de mulher nua
Sinto rosas desabrochando como a vertigem do primeiro beijo
No ar prenhe de Chanel 5
Meu coração respira o sabor da mulher amada
Cheiro de mar numa tarde de julho
Ao choro dos jasmineiros
Em tórrido anoitecer na Estação das Docas
Sinto o cheiro de madrugadas
Acme nos lábios da mulher amada
Secos de gozo, e que ela umidifica com a língua
Tirando os cabelos do rosto
Meu coração está prenhe do sabor indescritível
De púbis, abismo de galáxias
Inalcançáveis, mas que cintilam no azul da minha vida
Anoitece
O rio Amazonas ruge defronte ao Macapá Hotel,
Debaixo do Trapiche, rodovia que conduz à noite
Tão azul que sangra
Estou sentado
Sozinho
Em um quiosque
Degusto Cerpinha enevoada
Parece que estou só
Mas converso com meus antepassados
Com a mulher amada
Com meus anjinhos e minha princesa
Com Isnard Brandão Lima Filho
Alcinéa Maria Cavalcante
Iara Marcille
Deury Farias
Olivar Cunha
Joy Edson
José Montoril
Fernando Canto
Raimundo Peixe
Alcy Araújo
Luiz Tadeu Magalhães
Manoel Bispo
Myrta Graciete
Tereza, Leila, Sílvia e Telma
Um cataclismo de rosas vermelhas
Juntam-se a nós Ernest Hemingway
Antoine de Saint-Exupéry
Gabriel García Márquez
Vargas Llosa
Pablo Picasso
André Cerino
Ouço merengue
Um navio, grande como uma cidade, surge, lento, até aportar, feérico
Despeja uma legião de espíritos e anjos
Que se juntam a nós
Chanel Número 5, Dom Pérignon, maresia e leite da mulher amada
Tomam conta de tudo
Como paz se alastrando na minha memória
Por que escreves? – pergunta-me o jornalista
– Para viver – respondo
Pois só com as palavras desnudo a luz
E voo até o fim do mundo
Por isso, escrevo granadas intensas como buracos negros
E garimpo o verbo como o primeiro beijo
Escrevo porque escrever traz aos meus sentidos
Cheiro de maresia
Dom Pérignon, safra de 1954
O labirinto do púbis no abismo do acme
Mulher nua como rosa vermelha desabrochando
Que sensação estranha
Na hora de ser enforcado
Ser salvo e dormir com a princesa
O primeiro beijo que me deste explodiu
Como relâmpago na minha alma
Feriu-me, doce como brisa,
Pétalas pousando no púbis de um anjo
Desde então, flor da minha vida,
Sou prisioneiro do teu olhar
Grávido de ti, como um abismo,
Mulher amada
Segue-me, pois te mostrei quase nada.
Tenho a chave dos sonhos,
Que conduz para a eternidade
A fogueira do nosso amor, minha namorada,
O voo vertiginoso
Da luz movida a acme
Meu bem, estou à tua espera, vibrando de alegria
Pois esperar-te é como a emoção que precede o garimpeiro
Ao encontrar a maior pepita de ouro, dez anos depois
No morro do Salamangone, Serra Lombarda, município de Calçoene
É como a felicidade de abraçar crianças que escaparam de um naufrágio
Ao largo de Marajó
Ver rosas nuas em toda parte
Só de te esperar!
Amor da minha vida, esta noite será eterna
Porque nesta casa
Só haverá nós dois e a noite, presente de Deus,
para ti
Já arrumei tudo, as flores, o vinho e a comida, camusquim com camarão pitu
Seremos nós dois e os diamantes que garimpei toda a minha vida
E que só encontramos no céu de Macapá, em agosto, nos anos 1960
Ouviremos La Cumparsita, na voz de Julio Iglesias
E dançaremos lentamente, nossos lábios se roçando
E ouviremos Suave é a Noite, com Alcione
E Amarcord, de Nino Rota
Então, voando nas asas de Dom Pérignon, safra de 1954
Beberei colostro e sentirei o sabor da tua pele e do teu púbis
E será madrugada
A quem ofertarei teus gemidos, que espalharei no jardim da minha alma
Mulher amada
Vem logo
Pois a noite já chegou
Como um navio, um continente, uma galáxia
Só nossa!
Teu dorso, à sombra da tarde que finda e escoa em murmúrios
É alvo como pétala de rosa vermelha; sinuoso; nu
Agarro-me aos cabelos, às ancas, aos ombros, ao perfume, bêbedo de gemidos
A noite se instala como transatlântico no porto
Feérico, iluminado como o Copacabana Palace
Tuas costas são alvas como jambo
De olhos fechados, sorvo cheiro de nudez
Sabor de Dom Pérignon, safra de 1954
Ouço Concierto de Aranjuez, de Joaquin Rodrigo
E os 14 minutos e 10 segundos do Bolero, de Maurice Ravel,
Sob a regência de Silvio Barbato
Abro os olhos e enxergo o halo azul da noite
Suave como o primeiro movimento, allegro,
Do Concerto para Piano e Orquestra, em Ré Menor,
Número 20, K. 466, de Mozart
Pulsar longínquo, o atrito da Terra no espaço
Gemidos femininos se esvaindo
Som de maresia
Sangue circulando nos tímpanos
O segundo movimento, romanze,
É de estrelas se acamando no azul da alma
O terceiro movimento, rondó,
Flores se abrindo ao riso de crianças
Solto o urro, vibrante, de leão alado, ao ouvir gritos abafados,
E sentir que desmaias ao acme
Ah! Tu és como uma flor rindo ao sol
Linda como asas que sustentam o voo impossível
Intensa como a vida
Nua, sob vestido de seda
Esplendorosamente inalcançável
Ah! Tu és a alegria que não finda
Luz que inunda a galáxia
Iridescente como pedras preciosas
Néctar que sorvo em sonhos
Enlevado na vertigem da subida íngreme
Azul abismal
Leva-me para a cumeeira
Inda que eu não regresse
Nem desperte
Procuro na luz dos teus olhos
Misteriosos como a noite
Nos teus lábios de rosa vermelha esmigalhada
Nos meridianos do teu mar
Perder-me no azul
E sentir o sabor da tua boca
Do teu leite
Do teu púbis
Num desejo que me consome e não cessa nunca
As mulheres são a ilusão mais pungente
Que existe
Porque tornam o desejo inesgotável
E não saciam nunca
Porque, por mais que as amemos, são inacessíveis
E, no entanto,
Basta o olhar da mulher
Para acenderem-se todas as chamas
Munir de asas o homem mais medíocre
E engravidar de perfume o mundo
Em movimento imperceptível, como estrelas nascendo,
Pouso o olhar nas penugens do teu corpo.
Durante muito tempo meu olhar permanece imóvel,
E agora é navalha te lambendo.
Avião rasgando o azul do céu de agosto da Amazônia,
Que, de tão azul, sangra.
Ainda te agarrando com as tenazes do meu olhar
Começo a imaginar meu falo na tua boca,
Esguichando morno suco, que bebes avidamente.
Então a fera faminta e enjaulada fenece, arquejante, até ressuscitar,
Como erupção de desejos.
Mas isso é só no olhar, porque vou sugar-te a vida com minhas mãos ensandecidas
E devolvê-la com mais fogo ainda.
Por ora, o olhar desliza no dorso imobilizado, suplicante.
Tu pareces adormecida, mas estás atenta, à beira da explosão,
À espera da minha língua, das mãos que te pegam suavemente.
Tu suplicas ação, mas meu olhar te lambe pacientemente,
Até deixar tua pele penugenta úmida de saliva.
Meu olhar é como uma boca.
Meu olhar estaciona no teu olhar.
Teu olhar é sorridente e meigo, mulher amada.
Meus olhos sugam teus seios como bebê faminto.
Tentas pegar-me. Mas ainda não deixo.
Deslizo pelo teu ventre, vagarosamente,
Até o tufo de pelos, que sugo avidamente,
À porta que se abre para meu olhar latejante.
Perfume da minha vida, tu e eu somos só fogo, assim como as rosas
Mas não nos consumimos, ilusão alguma nos detém na jornada
Nem o abismo, que a tudo cerca, pode nada
Pois tu e eu, como as rosas, somos eternos porque agora
Querida, nem lágrimas, nem o pavor do incompreensível
Nem as ilusões, o horror, os pesadelos
Têm o poder de abalar as rosas, na sua tênue existência
Simplesmente porque elas são indestrutíveis
Música da minha alma, nossa viagem no éter
A caminhada sem começo nem fim
Apenas começou nesta fogueira
A luz que alimenta o infinito
É a lei que a tudo governa
O fogo que vivifica, amor da minha vida
Estou pronto para ti
Sereno como um homem deve ser diante de uma mulher nua
Pegar-te-ei com tanta suavidade, e firmeza,
Que lamentarás o prazer, intenso como o voo do orgasmo
Tocarei cada ponto dos teus meridianos
No fundo mais recôndito dos teus abismos insondáveis
Cavalgar-te-ei, preso em ti, na tua boca, nos teus seios, no teu sexo
Como a Terra gravitando em torno do Sol
A 108 mil quilômetros por hora
O sistema solar girando em volta do núcleo da
Via Láctea
A 830 mil quilômetros por hora
A Via Láctea indo para o Grupo Local
A 144 mil quilômetros por hora
O Grupo Local voando para o aglomerado de Virgem
A 900 mil quilômetros por hora
E tudo isso seguindo em direção ao Grande Atrator
A 2,2 milhões de quilômetros por hora
O Grande Atrator fica para além de Centauro
A 137 milhões de anos-luz da Terra
Como deve o acupunturista proceder nos casos das paixões avassaladoras?
Haverá agulha tão comprida, e fina, que atinja a alma?
Ou prescindiriam, os danados, de cura?
Pois os pacientes desse mal, ou bênção, sobrevivem nas trevas e na luz
São cinza e asas
E seus corações atingem a velocidade dos despenhadeiros
Do mergulho no maremoto
Do olho do furacão
Do desespero
Não será tamanho sentimento, em si mesmo, o triunfo?
Voo concedido a poucos?
Eterno porque agora?
Creio que descobri um mal – ou bênção?
Que a acupuntura não sana
Pois como apagar a luz com luz
Como ouvir o som da Terra no espaço
Se o coração não se inflama?
Ah! Tu és como flor se abrindo ao sol
Nua como preciosas pedras
Leve como asas que sustentam o voo
Do abismo a queda
Conduz-me à cumeeira
Dos sonhos
Ainda que eu não desperte
Como se estivesse morto
Na bacanal de rosas vermelhas
Esvaem-se os sentidos
Embriagados de estrelas
No labirinto do teu púbis
Afogo-me na maresia
E ressuscito em gozos múltiplos
Vou acalantar-te nesta noite
Vou te dizer coisas carinhosas
E tu e eu seremos dois amantes lúcidos.
Mais tarde, quando eu te penetrar e sentirmos
O gosto do sexo, da carne, da vida
Suspirarei baixinho ao teu ouvido.
E quando o sexo, a carne, a vida terminarem
Haverá mais sexo, carne e vida para
comermos
Até irmos ao banheiro.
Tua boca é pura flor embelezando-se ao sol de Copacabana
E tua figura é um desenho gostoso esculpido ao sol de Copacabana
E quando Copacabana inteira se prostituir
Os gemidos de amor serão a canção da moda em
Copacabana
Então a praia Copa será uma enorme cama.
Impor-nos o abandono físico
Ingerir grandes quantidades de álcool
E fumar interminavelmente
É o pior que se faz
Quando uma mulher se ausenta
Definitivamente.
Mas ela tinha cheiro de madrugada
Um leve sabor de vinho
E qualquer coisa espanhola
Sinto, agora, mais intenso ainda, perfume de jasmineiros
Chorando nas tórridas madrugadas de Macapá
Chanel 5, o mar, azul sangrando.
A eternidade se aproxima
Vertiginosa como a Terra girando
Profunda como o mistério de mulher nua
Como galgar o Pico da Neblina
Morar no Hilton Internacional Belém
Viver em Copacabana.
Agora compreendo, claramente,
Só há éter, energia, vibração, sintonia,
Nem matéria, nem tempo, existe
A vida é abismo interminável, e ascendente,
É como cair para cima
Cheiro de púbis de virgem ruiva, sabor de gozo,
Como se eu engravidasse de rosas vermelhas.
É permanente, agora, a sensação de autografar livros
De bater papo com Fernando Canto
Sobre telas de Olivar Cunha
Flutuando numa garrafa de Dom Pérignon, safra de 1954,
Neste 7 de agosto, como em todos os anos

Do livro DE TÃO AZUL SANGRA, à venda no Clube de Autores, amazon.com.br e amazon.com

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Josiane

Ray Cunha, Josiane e Iasmim: família, aniversário, amor

RAY CUNHA

BRASÍLIA, 20 DE MAIO DE 2026


O que é a luz, senão o espaço, o caminho, o éter, Deus?

E a eternidade, o que é, senão sintonia fina?

O tempo, imperturbável, fluindo no Universo

Como granada quântica rumo ao infinito

 

A consciência reflete a imagem verdadeira

Vertiginoso abismo que se abre p’ra cima

Todas as dimensões, agora, da existência

Como buracos negros prenhes de jasmim

 

Rosas da madrugada, rubras, perfumadas

Galáxias fecundadas em jardins de zínias

Sons de risos de crianças, de mulheres grávidas

 

Poesia em estado bruto, emoção dos amantes

Concerto nas estrelas, vibração da vida

O que é tudo isto, o próprio triunfo? Tu, Josiane!

segunda-feira, 2 de março de 2026

Batom é preciso, viver não é preciso

No Brasil, escrever "Perdeu, mané" na Justiça dá 14 anos
de cadeia, mas roubar aposentados do INSS e participar do
butim do Banco Master dá poder (Gabriela Biló/Folhapress)


RAY CUNHA

 

Haverá maior símbolo de liberdade

Do que batom vermelho escrito na Justiça

Tirar, da estátua, a venda dos olhos, do espírito

E contra o verdadeiro golpe erguer a espada?

 

Condenada à prisão por toda a eternidade

Nada cessará o amor que disseminas no éter

A manifestação da vida, o batom, Débora!

Grilhão algum deterá a luz fluindo na galáxia

 

Batom é como pétalas de rosas rubras

Que nascem nos jardins até o fim do Universo

Deus perfumando o mundo com rubis azuis

 

Batom, mesmo que escrito no duro granito

Como pode ameaçar o Estado de direito

Se batom é preciso, viver não é preciso?

 

Este poema é uma homenagem à Débora Rodrigues dos Santos, condenada a 14 anos de prisão e a pagar 30 milhões de reais em multa, pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF). No dia 8 de janeiro de 2023, Débora escreveu na estátua A Justiça, de Alfredo Ceschiatti, instalada defronte ao palácio do STF, “Perdeu, mané”, repetindo o ex-ministro Roberto Barroso, então presidente da Corte. Débora, que está presa desde março de 2023, é casada, mãe de duas crianças, e mora em Paulínia/SP. 

Até os cachorros que tomaram conta das calçadas bombardeadas de Brasília (são inauguradas e um mês depois começam a estourar), o golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023 é uma narrativa tão fantasiosa, esdrúxula, que nem os mais delirantes roteiristas de Hollywood conseguiriam criar. Jair Messias Bolsonaro, o maior líder da Direita brasileira, foi acusado de comandar o golpe, embora nem no Brasil estivesse. Pegou 25 anos de cadeia. 

Em 6 de setembro de 2018, mandaram matar Bolsonaro. O assassino escalado para o abate foi o militante Adélio Bispo de Oliveira, do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), de extrema Esquerda. Durante um comício em Juiz de Fora/MG, Adélio aplicou uma facada em Bolsonaro, com um facão enferrujado, que quase atravessa o Mito no baixo ventre. Bolsonaro só sobreviveu porque é um verdadeiro búfalo, mas a facada fez estragos e o capitão adoeceu seriamente e está morrendo à míngua na cadeia, por falta de acompanhamento médico adequado, tortura acompanhada do sofá, pela televisão, por toda a população brasileira. 

Como não houve golpe de Estado, as centenas de presos políticos têm de ser soltos imediatamente e o Estado os indenizar, ou a suas famílias, pois vários já morreram à mingua na prisão. 

Quanto ao batom, a arma de Débora, é um cosmético que realça os lábios de uma mulher. Batom é do francês “bâton”, “bastão” em português. Trata-se do cosmético mais utilizado em todo o mundo. As mulheres sempre o utilizaram ao longo da História. Haverá algo mais bonito do que os lábios de uma mulher? Sim, lábios pintados de vermelho, como rosa colombiana. 

Batom é Preciso, Viver não é Preciso é um soneto com versos alexandrinos, com cesura na sexta sílaba.

domingo, 22 de fevereiro de 2026

És! (para Iasmim Moreira Cunha Moriya)

Iasmim, que há 36 anos pilota o mundo, utiliza, na sua nave, que navega pelas galáxias em velocidade quântica, um combustível chamado amor


RAY CUNHA

 

De toda a criação divina

És o amor mais puro

Com a missão de animar a vida

E levar luz ao mundo

 

Da manifestação do átomo à dinâmica das galáxias

Nasceste para ativar tudo

Espalhar alegria até a eternidade

Pois do azul és o azul mais profundo

 

És, da fartura, a pujança

Da beleza, a perfeição da mulher grávida

Do mistério, o perfume

 

És, do Universo, o próprio campo

Da existência, a explicação

De Deus, o triunfo!

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Memorial dos sentidos



RAY CUNHA


Haverá obra de arte mais emocionante do que mulher muito linda?

Sim, nua!

Cheirando a púbis!                 

E mais bela do que isso?

Grávida!

Amamentando!

Mais belo

Só crianças rindo!

Luz se eternizando!

 

Sinto cheiro de mulher nua

Ostra com Antarctica enevoada, em julho, às 9 horas

No ar saturado de mulheres lindíssimas e suadas, em Salinas

 

Tu precisas me lamber com teus olhos verdes como lápis-lazúli

Para eu sentir o acme

Precisas apenas sorrir e tocar nos meus finos lábios

Para que eu morra como as rosas, que não morrem nunca

Porque são imortais na sua explosiva beleza

 

Imobilizo minha amante pelos cabelos

Beijo-a na boca, faço-a gritar de prazer

Ela é a própria noite

Café noturno, cheio de mulheres misteriosas de tão lindas

Que dizem oi quando passo

 

O cheiro de púbis ruivo

Inunda meu olfato, meu paladar, meu cérebro.

Degusto Antarctica, com Jorge Tufic, em Manaus, no Nathalia

Lambo o rosto da Tharcilla

Beijo os lábios carnudos e mordo o pescoço da Mara

 

Como fez Isnard Brandão Lima Filho, oferto rosas para a madrugada

Ao extrair gemidos da mulher amada, percorrendo sua pele de jambo

E sonho com leões caminhando na praia, ao amanhecer

 

Igual Picasso, com seus olhos negros, nonagenários

Sou como pássaro que nunca envelhece

Nasci com asas invisíveis

Que se equilibram no éter, como avião de caça

Riscando um golpe vermelho no azul           

 

A noite chega, ouço os alísios

Que me falam de Macapá e da Estação das Docas

Então compreendo que o som que vem do vento

São vozes e risos femininos

Como a nudez das mulheres muito lindas

Boeing pousando

Navio todo iluminado e em festa, no porto

Cataclismo de rosas

O atrito da Terra no éter

O Concerto Para Piano e Orquestra, em Ré Menor, de Mozart,

O choro dos jasmineiros

Chanel 5

Shoppings lotados

De mulheres seminuas

Em Brasília, e em todas as grandes cidades do mundo

Os lábios de Alinne Moraes ao meu ouvido

Prenhes de romance e mistério

A mulher amada

Que habita o azul dos meus gritos

 

Na minha memória

Barcos deslizam na latitude da Linha Imaginária, na boca do rio Amazonas

E despencam no Atlântico

Espero as chuvas com a mesma sofreguidão com que aguardo

O outono, o inverno e a primavera

O verão, como ocorre em todas as estações da vida,

Inunda um planeta de rosas tão azuis que sangram

E mangas doces como seios de mulheres de olhos de esmeraldas

E, se é madrugada, a chuva se confunde ao som

Que não se interrompe nunca

Do mar

Então, o atrito da Terra no espaço invade minha alma

E se mistura ao perfume das virgens ruivas

Misterioso como mulher nua

Como a luz, como o éter, como o próprio triunfo

 

Ah! meu amor, tu és meu amor porque teu riso impulsiona meu coração

Porque tu crias a vida, pois à tua passagem os jardins se levantam

E a luz infinita vibra em oração

Que escapa dos teus lábios

 

Quisera eu ser poeta, e dominar a força de gravidade com palavras

Para te dedicar versos

Que contivessem o mar

Um oceano inteiro de rubis, azuis como o céu

 

Depois que te conheci, exorcizei o medo

Aprendi a escutar o silêncio das madrugadas

Comecei a voar no perfume dos jasmineiros

 

Sou teu, todo teu, inteiramente teu

Pertencer-te é o mesmo que a liberdade

É ascender, vencer a eternidade, e sentir a presença de Deus!

 

A noite mais azul é quando

Assassinos me perseguem, derroto-os

E durmo com a princesa.

Isto só acontece nas noites tão azuis

Que um Boeing 777 fere-as

E sangue verte sobre as rosas

Que o acme da princesa

Transforma em rosas colombianas.

A noite mais azul é tórrida e os jasmineiros choram

O mundo recende a maresia      

E o meu corpo

Volta a ser rijo como os punhos de Muhammad Ali

Quando acabou com George Foreman, no Zaire.

Então me transformo em luz

Nesta noite excessivamente azul

 

Estou sentado em um quiosque defronte ao Macapá Hotel

Mas há mulheres tão lindas que as vemos apenas em grandes aeroportos internacionais

Estou só, mas o rio Amazonas, o maior do mundo, ruge como o mar em Copacabana

Na maré cheia, e salpica meu rosto, escanhoado para esta noite

Estou aparentemente só

Pois ouço merengue

E meu Pai enviou uma legião que me acompanha por todo o sempre

Estou só com meu coração

Pois sinto o perfume das virgens ruivas

Relicário de pedras preciosas como acme da mulher amada e o choro dos jasmineiros

Nas tórridas noites da Linha Imaginária do Equador

Estou só                         

Mas estão comigo Belém, Manaus e Rio de Janeiro

E meus amigos logo chegarão

Minha solidão é como a dos pugilistas e dos escritores

Quando começa o assalto ninguém os pode socorrer e eles só contam com a própria luz

Por isso nunca estou só

Pois ouço do mar o Concerto para Piano e Orquestra, em ré Menor, de Mozart

Estou só

Mas o céu é tão azul que chove rosas vermelhas colombianas

E o ar é prenhe do cheiro de mulher nua

 

Sinto rosas desabrochando como a vertigem do primeiro beijo

No ar prenhe de Chanel 5

Meu coração respira o sabor da mulher amada

Cheiro de mar numa tarde de julho

Ao choro dos jasmineiros

Em tórrido anoitecer na Estação das Docas

Sinto o cheiro de madrugadas

Acme nos lábios da mulher amada

Secos de gozo, e que ela umidifica com a língua

Tirando os cabelos do rosto

Meu coração está prenhe do sabor indescritível

De púbis, abismo de galáxias

Inalcançáveis, mas que cintilam no azul da minha vida

 

Anoitece

O rio Amazonas ruge defronte ao Macapá Hotel,

Debaixo do Trapiche, rodovia que conduz à noite

Tão azul que sangra

Estou sentado

Sozinho

Em um quiosque

Degusto Cerpinha enevoada

Parece que estou só

Mas converso com meus antepassados

Com a mulher amada

Com meus anjinhos e minha princesa

Com Isnard Brandão Lima Filho

Alcinéa Maria Cavalcante

Iara Marcille

Deury Farias

Olivar Cunha

Joy Edson

José Montoril

Fernando Canto

Raimundo Peixe

Alcy Araújo

Luiz Tadeu Magalhães

Manoel Bispo

Myrta Graciete

Tereza, Leila, Sílvia e Telma

Um cataclismo de rosas vermelhas

Juntam-se a nós Ernest Hemingway

Antoine de Saint-Exupéry

Gabriel García Márquez

Vargas Llosa

Pablo Picasso

André Cerino

Ouço merengue

Um navio, grande como uma cidade, surge, lento, até aportar, feérico

Despeja uma legião de espíritos e anjos

Que se juntam a nós

Chanel Número 5, Dom Pérignon, maresia e leite da mulher amada

Tomam conta de tudo

Como paz se alastrando na minha memória

 

Por que escreves? – pergunta-me o jornalista

– Para viver – respondo

Pois só com as palavras desnudo a luz

E voo até o fim do mundo

Por isso, escrevo granadas intensas como buracos negros

E garimpo o verbo como o primeiro beijo

Escrevo porque escrever traz aos meus sentidos

Cheiro de maresia

Dom Pérignon, safra de 1954

O labirinto do púbis no abismo do acme

Mulher nua como rosa vermelha desabrochando      

 

Que sensação estranha

Na hora de ser enforcado

Ser salvo e dormir com a princesa

 

O primeiro beijo que me deste explodiu

Como relâmpago na minha alma

Feriu-me, doce como brisa,

Pétalas pousando no púbis de um anjo

 

Desde então, flor da minha vida,

Sou prisioneiro do teu olhar

Grávido de ti, como um abismo,

Mulher amada

 

Segue-me, pois te mostrei quase nada.

Tenho a chave dos sonhos,

Que conduz para a eternidade

 

A fogueira do nosso amor, minha namorada,

O voo vertiginoso

Da luz movida a acme

 

Meu bem, estou à tua espera, vibrando de alegria

Pois esperar-te é como a emoção que precede o garimpeiro

Ao encontrar a maior pepita de ouro, dez anos depois

No morro do Salamangone, Serra Lombarda, município de Calçoene

É como a felicidade de abraçar crianças que escaparam de um naufrágio

Ao largo de Marajó

Ver rosas nuas em toda parte

Só de te esperar!

Amor da minha vida, esta noite será eterna

Porque nesta casa

Só haverá nós dois e a noite, presente de Deus,

para ti

Já arrumei tudo, as flores, o vinho e a comida, camusquim com camarão pitu

Seremos nós dois e os diamantes que garimpei toda a minha vida

E que só encontramos no céu de Macapá, em agosto, nos anos 1960

Ouviremos La Cumparsita, na voz de Julio Iglesias

E dançaremos lentamente, nossos lábios se roçando

E ouviremos Suave é a Noite, com Alcione

E Amarcord, de Nino Rota

Então, voando nas asas de Dom Pérignon, safra de 1954

Beberei colostro e sentirei o sabor da tua pele e do teu púbis

E será madrugada

A quem ofertarei teus gemidos, que espalharei no jardim da minha alma

Mulher amada

Vem logo

Pois a noite já chegou

Como um navio, um continente, uma galáxia

Só nossa!

 

Teu dorso, à sombra da tarde que finda e escoa em murmúrios

É alvo como pétala de rosa vermelha; sinuoso; nu

Agarro-me aos cabelos, às ancas, aos ombros, ao perfume, bêbedo de gemidos

A noite se instala como transatlântico no porto

Feérico, iluminado como o Copacabana Palace

Tuas costas são alvas como jambo

De olhos fechados, sorvo cheiro de nudez

Sabor de Dom Pérignon, safra de 1954

Ouço Concierto de Aranjuez, de Joaquin Rodrigo

E os 14 minutos e 10 segundos do Bolero, de Maurice Ravel,

Sob a regência de Silvio Barbato

Abro os olhos e enxergo o halo azul da noite

Suave como o primeiro movimento, allegro,

Do Concerto para Piano e Orquestra, em Ré Menor,

Número 20, K. 466, de Mozart

Pulsar longínquo, o atrito da Terra no espaço

Gemidos femininos se esvaindo

Som de maresia

Sangue circulando nos tímpanos

O segundo movimento, romanze,

É de estrelas se acamando no azul da alma

O terceiro movimento, rondó,

Flores se abrindo ao riso de crianças

Solto o urro, vibrante, de leão alado, ao ouvir gritos abafados,

E sentir que desmaias ao acme

 

Ah! Tu és como uma flor rindo ao sol

Linda como asas que sustentam o voo impossível

Intensa como a vida

Nua, sob vestido de seda

Esplendorosamente inalcançável

Ah! Tu és a alegria que não finda

Luz que inunda a galáxia

Iridescente como pedras preciosas

Néctar que sorvo em sonhos

Enlevado na vertigem da subida íngreme

Azul abismal

Leva-me para a cumeeira

Inda que eu não regresse

Nem desperte

 

Procuro na luz dos teus olhos

Misteriosos como a noite

Nos teus lábios de rosa vermelha esmigalhada

Nos meridianos do teu mar

Perder-me no azul

E sentir o sabor da tua boca

Do teu leite

Do teu púbis

Num desejo que me consome e não cessa nunca

 

As mulheres são a ilusão mais pungente

Que existe

Porque tornam o desejo inesgotável

E não saciam nunca

Porque, por mais que as amemos, são inacessíveis

E, no entanto,

Basta o olhar da mulher

Para acenderem-se todas as chamas

Munir de asas o homem mais medíocre

E engravidar de perfume o mundo

 

Em movimento imperceptível, como estrelas nascendo,

Pouso o olhar nas penugens do teu corpo.

Durante muito tempo meu olhar permanece imóvel,

E agora é navalha te lambendo.

Avião rasgando o azul do céu de agosto da Amazônia,

Que, de tão azul, sangra.

Ainda te agarrando com as tenazes do meu olhar

Começo a imaginar meu falo na tua boca,

Esguichando morno suco, que bebes avidamente.

Então a fera faminta e enjaulada fenece, arquejante, até ressuscitar,

Como erupção de desejos.

Mas isso é só no olhar, porque vou sugar-te a vida com minhas mãos ensandecidas

E devolvê-la com mais fogo ainda.

Por ora, o olhar desliza no dorso imobilizado, suplicante.

Tu pareces adormecida, mas estás atenta, à beira da explosão,

À espera da minha língua, das mãos que te pegam suavemente.

Tu suplicas ação, mas meu olhar te lambe pacientemente,

Até deixar tua pele penugenta úmida de saliva.

Meu olhar é como uma boca.

Meu olhar estaciona no teu olhar.

Teu olhar é sorridente e meigo, mulher amada.

Meus olhos sugam teus seios como bebê faminto.

Tentas pegar-me. Mas ainda não deixo.

Deslizo pelo teu ventre, vagarosamente,

Até o tufo de pelos, que sugo avidamente,

À porta que se abre para meu olhar latejante.

 

Perfume da minha vida, tu e eu somos só fogo, assim como as rosas

Mas não nos consumimos, ilusão alguma nos detém na jornada

Nem o abismo, que a tudo cerca, pode nada

Pois tu e eu, como as rosas, somos eternos porque agora

 

Querida, nem lágrimas, nem o pavor do incompreensível

Nem as ilusões, o horror, os pesadelos

Têm o poder de abalar as rosas, na sua tênue existência

Simplesmente porque elas são indestrutíveis

 

Música da minha alma, nossa viagem no éter

A caminhada sem começo nem fim

Apenas começou nesta fogueira

 

A luz que alimenta o infinito

É a lei que a tudo governa

O fogo que vivifica, amor da minha vida

Estou pronto para ti

Sereno como um homem deve ser diante de uma mulher nua

Pegar-te-ei com tanta suavidade, e firmeza,

Que lamentarás o prazer, intenso como o voo do orgasmo

Tocarei cada ponto dos teus meridianos

No fundo mais recôndito dos teus abismos insondáveis

Cavalgar-te-ei, preso em ti, na tua boca, nos teus seios, no teu sexo

Como a Terra gravitando em torno do Sol

A 108 mil quilômetros por hora

O sistema solar girando em volta do núcleo da

Via Láctea

A 830 mil quilômetros por hora

A Via Láctea indo para o Grupo Local

A 144 mil quilômetros por hora

O Grupo Local voando para o aglomerado de Virgem

A 900 mil quilômetros por hora

E tudo isso seguindo em direção ao Grande Atrator

A 2,2 milhões de quilômetros por hora

O Grande Atrator fica para além de Centauro

A 137 milhões de anos-luz da Terra

 

Como deve o acupunturista proceder nos casos das paixões avassaladoras?

Haverá agulha tão comprida, e fina, que atinja a alma?

Ou prescindiriam, os danados, de cura?

Pois os pacientes desse mal, ou bênção, sobrevivem nas trevas e na luz

São cinza e asas

E seus corações atingem a velocidade dos despenhadeiros

Do mergulho no maremoto

Do olho do furacão

Do desespero

Não será tamanho sentimento, em si mesmo, o triunfo?

Voo concedido a poucos?

Eterno porque agora?

Creio que descobri um mal – ou bênção?

Que a acupuntura não sana

Pois como apagar a luz com luz

Como ouvir o som da Terra no espaço

Se o coração não se inflama?

 

Ah! Tu és como flor se abrindo ao sol

Nua como preciosas pedras

Leve como asas que sustentam o voo

Do abismo a queda

 

Conduz-me à cumeeira

Dos sonhos

Ainda que eu não desperte

Como se estivesse morto

 

Na bacanal de rosas vermelhas

Esvaem-se os sentidos

Embriagados de estrelas

 

No labirinto do teu púbis

Afogo-me na maresia

E ressuscito em gozos múltiplos

 

Vou acalantar-te nesta noite

Vou te dizer coisas carinhosas

E tu e eu seremos dois amantes lúcidos.

Mais tarde, quando eu te penetrar e sentirmos

O gosto do sexo, da carne, da vida

Suspirarei baixinho ao teu ouvido.

E quando o sexo, a carne, a vida terminarem

Haverá mais sexo, carne e vida para

comermos

Até irmos ao banheiro.

 

Tua boca é pura flor embelezando-se ao sol de Copacabana

E tua figura é um desenho gostoso esculpido ao sol de Copacabana

E quando Copacabana inteira se prostituir

Os gemidos de amor serão a canção da moda em

Copacabana

Então a praia Copa será uma enorme cama.

 

Impor-nos o abandono físico

Ingerir grandes quantidades de álcool

E fumar interminavelmente

É o pior que se faz

Quando uma mulher se ausenta

Definitivamente.

 

Mas ela tinha cheiro de madrugada

Um leve sabor de vinho

E qualquer coisa espanhola

 

Sinto, agora, mais intenso ainda, perfume de jasmineiros

Chorando nas tórridas madrugadas de Macapá

Chanel 5, o mar, azul sangrando.

A eternidade se aproxima

Vertiginosa como a Terra girando

Profunda como o mistério de mulher nua

Como galgar o Pico da Neblina

Morar no Hilton Internacional Belém

Viver em Copacabana.

Agora compreendo, claramente,

Só há éter, energia, vibração, sintonia,

Nem matéria, nem tempo, existe

A vida é abismo interminável, e ascendente,

É como cair para cima

Cheiro de púbis de virgem ruiva, sabor de gozo,

Como se eu engravidasse de rosas vermelhas.

É permanente, agora, a sensação de autografar livros

De bater papo com Fernando Canto

Sobre telas de Olivar Cunha

Flutuando numa garrafa de Dom Pérignon, safra de 1954,

Neste 7 de agosto, como em todos os anos