terça-feira, 26 de outubro de 2021

Daniel Craig tem agora todo o tempo para viver

Daniel Craig e Léa Seydoux, inimagináveis como um
casal comum, ele lavando pratos e ela engordando

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 26 DE OUTUBRO DE 2021 – Nunca um ator emprestou tanto charme a uma personagem complexa como o 007 James Bond quanto o ator inglês Daniel Craig, nos cinco filmes que estrelou encarnando o agente secreto do MI6. Na vigésima quinta sequência da saga, 007 – Sem Tempo Para Morrer (2h43), pronta desde 7 de março de 2020 e só agora em cartaz, devido à pandemia, a franquia produziu cinema na medida para Craig, que se aposenta da personagem ainda jovem, com saúde, celebridade, dinheiro e todo o tempo para viver. 

Os filmes com 007 foram baseados em histórias independentes umas das outras, mas nos cinco filmes com Craig houve uma sequência, com ligação entre os vilões. 

Em 2005, a Universal decidiu substituir Pierce Brosnan por Daniel Craig no papel de James Bond. Quando os cinéfilos da série souberam, choveu crítica contra Craig, principalmente porque o consideraram baixinho, 1,78. Mas Craig começou com o pé direito: em Casino Royale (2006) baseado no livro em que Iam Fleming cria o agente, e com direção de Martin Campbell, que já tinha dirigido 007 Contra GoldenEye. Em Casino Royale, Craig estoura uma organização terrorista. 

Já nesse primeiro filme com Craig o agente começa a se humanizar; apaixona-se por Vesper Lynd (Eva Green), funcionária do Tesouro do MI6. Essa característica, sentimental, atravessa os cinco filmes com Craig. Isso e a tragédia, pois um agente como 007 não deve se apaixonar, considerando que seu trabalho é perigoso, e violento, capaz de varrer do mapa Bond e tudo o que está muito perto dele, literalmente. 

Voltando a Casino Royale, Bond decide se aposentar para viver com Vesper, mas descobre que há outro homem na vida dela e em dívida com a organização criminosa que Bond estourou. Vesper furta dinheiro de Bond para quitar a dívida do namorado e do próprio ex-agente, mas, na transação, morre. Bond retorna à ativa para chegar ao chefão da quadrilha, Mr. White. 

Segue-se Quantum Of Solace (2008), que começa com Bond levando Mr. White para ser interrogado e descobrindo que a organização da qual ele faz parte se chama Quantum. Mr. White foge. Bond descobre um agente da Quantum no Haiti, envolvido com um golpe de estado na Bolívia. 007 estoura também a Quantum e descobre o namorado de Vesper na Rússia, e que é agente da Quantum. 

A terceira participação de Craig foi em Skyfall (2012). Ao tentar recuperar um vídeo comprometedor, Bond é baleado e considerado morto, aproveitando isso para se aposentar novamente. O vídeo é divulgado, revelando a identidade de agentes secretos no mundo todo. Bond decide então retornar ao MI6 para capturar o responsável, um ex-agente do MI6, Silva, que virou ciberterrorista. Pega Silva, mas isso fazia parte do plano insuspeito do terrorista. 

O penúltimo filme com Craig foi Spectre (2015), que teve a participação da estonteante francesa Léa Seydoux, na pele da psiquiatra Madeleine Swann. Bond está prestes a descobrir uma organização criminosa relacionada a Mr. White e à Quantum, que é parte de algo maior, a Spectre, liderada por Ernst Stavro Blofeld (Christoph Waltz), e descobre que Blofeld estava por trás de tudo o que aconteceu com ele, desde Vesper, mas descobre também Madeleine, por quem se apaixona e parte para sua terceira aposentadoria. 

James Bond e Madeleine Swann são inimagináveis como um casal comum, ele lavando pratos e ela engordando.

Um parêntese: a bond girl cubana Ana de Armas dá um show à parte. Ela e Léa Seydoux são uma bomba de sensualidade. 

Só que em Sem Tempo Para Morrer Bond descobre segredos envolvendo Madeleine e é chamado de volta à ativa para combater o sinistro vilão Lyusifer Safin (Rami Malek), detentor de uma tecnologia perigosíssima, com a qual ameaça todo o planeta. Sem Tempo Para Morrer conta com elenco de primeira categoria, roteiro impecável de Neal Purvis, Robert Wade, Cary Joji Fukunaga e Phoebe Waller-Bridge, trilha sonora primorosa e direção de Cary Fukunaga. 

Ian Fleming (1908-1964) foi um militar, jornalista e escritor britânico. Seus livros já venderam mais de 100 milhões de exemplares. Quando Bond foi criado por Fleming, em 1953, no romance Casino Royale, os leitores adoraram. Em 1962, com O Satânico Dr. No, encarnado pelo escocês Sean Connery, o agente ganhou os cinemas. Fleming tirou o nome James Bond do autor do livro favorito de sua esposa, Birds of the West Indies, sobre ornitologia, e escreveu doze livros e dois contos protagonizados por Bond. Após sua morte, em 1964, Kingsley Amis e Raymond Benson, entre outros, deram sequência a livros protagonizados pelo agente secreto mais famoso de todos os tempos. 

Bond, segundo Fleming, é alto (nos padrões ingleses), moreno, caucasiano, de olhar penetrante, atlético, viril, sedutor, elegante, com idade entre 33 e 40 anos, gosta de vodka-martini batido (não mexido), é perito em artes marciais, pode meter uma bala no buraco da outra e tem licença para matar (quando é preciso, esclareça-se). Também é uma bomba de testosterona, sempre cercado de mulheres sensuais, boas de briga e de pontaria, e que não perdem a chance de se deixarem seduzir pelo irresistível agente, Bond, James Bond.

sábado, 23 de outubro de 2021

O caso do paciente sem o intestino grosso que se curou com apenas uma sessão de acupuntura

Ray Cunha e outros membros da equipe do voluntariado
em Acupuntura do Centro Espírita André Luiz (Ceal)
RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 23 DE OUTUBRO DE 2021 – Quando atendi o sr. V, já era a trigésima terceira sessão dele no Centro Espírita André Luiz, em Brasília, onde atendo aos domingos de manhã, como voluntário da equipe coordenada pelo acupunturista, jornalista e professor José Marcelo. O sr. V estava com 70 anos e sua grande queixa era a extração do intestino grosso. 

No André Luiz, os pacientes são atendidos de acordo com a ordem de chegada e pelo terapeuta que estiver disponível. Naquela manhã, era a terceira vez que coincidia de eu o atender. Peguei sua ficha e fiz a revisão, como sempre faço, da queixa original, que, além da retirada do intestino grosso, registrava também dores lombar, sacral, cervical e nos braços, insônia, prisão de ventre e úlcera gástrica. 

Eu começara, então, a desenvolver uma técnica que chamo de acupuntura dos corpos vibracionais – físico, etérico, astral e espiritual –, e, naquele momento, passei a ver o caso do sr. V sob novo ângulo. Conversei com ele; contou-me que todas as semanas baixava hospital, sofria de diarreia crônica e tudo o que comia lhe fazia mal. Observei-lhe a língua e senti seus pulsos; suas energias esvaíam-se. 

 – O senhor sabe que ainda tem seu intestino grosso, não sabe? – perguntei-lhe, olhando-o nos olhos. Então os olhos dele brilharam, numa interrogação. – O senhor continua com o seu intestino grosso, só que no corpo etérico, que liga o corpo carnal ao corpo astral, este, conhecido também como períspirito, porque liga o corpo físico ao espírito, e o espírito é imortal, não pode adoecer, não com as doenças que conhecemos aqui, neste plano. Seu intestino grosso foi extraído do corpo físico, mas ele continua intacto no corpo etérico. Não podemos ver o corpo etérico porque sua vibração é muito mais baixa do que a vibração do corpo material, que tem uma vibração tão alta, que, aos nossos cinco sentidos, se materializa. 

Ele entendeu na hora, e o brilho dos seus olhos continuou, como duas pequenas lanternas. Eu podia ver o brilho dos seus olhos, e percebi também que ele sorria. 

– Bem, como o senhor não perdeu nada, muito menos o intestino grosso, vou fazer a limpeza do canal do intestino grosso – disse-lhe, explicando-lhe, rapidamente, sobre os meridianos que atravessam o corpo como um feixe de fios. Na Medicina Chinesa, limpar um canal quer dizer aplicar agulhas no primeiro acuponto daquele canal e cruzar com o último acuponto. Então apliquei agulhas no IG 1 esquerdo, que fica no leito ungueal radial do dedo indicador, e o IG 20 direito, no ponto de encontro entre a linha nasolabial e a lateral da asa do nariz. 

Apliquei mais o estômago 36 bi, para fortalecer a energia Qi e o sangue, aumentar o Yang e minorar dores epigástricas, náusea, vômito, má digestão, tontura, fadiga e fortalecer o corpo e a mente, além do estômago 25, para equilibrar o baço, estômago e intestinos, pondo fim à diarreia. Apliquei ainda o vaso concepção 12, para tonificar estômago e baço, e o yintang, para extirpar ansiedade e disciplinar os pensamentos, acalmando, assim, a mente, o que acaba melhorando o sono. 

Pouco mais de 20 minutos depois foram retiradas as agulhas do sr. V. Orientei-o a tomar pelo menos dois litros de água por dia e a cortar leite, frutas, salada e legumes crus antes de dormir e a passar a alimentar-se, à noite, de alimentos quentes, principalmente abóbora e raízes, como batata, cará, inhame e mandioca. 

Notei que ele saiu do ambulatório com vivacidade, “pois agora” – pensei – “ele sabe que seu intestino grosso está lá com ele”. Orientei-o também a me procurar no domingo seguinte. Uma semana depois ele voltou e me disse que não baixou hospital. Outro terapeuta o atendeu e repetiu o protocolo da semana anterior. 

Alguns meses depois, recebi a notícia: o sr. V se deu alta. 

Atendemos no André Luiz médiuns que trabalham no centro, muitos deles com todo tipo de doenças. São ilusões passadas a eles por espíritos em estado de ilusão. Digo-lhes que precisam, ao orarem, à noite e de manhã, agradecer aos seus antepassados, especialmente aos pais; a perdoarem e a enxergarem no próximo, mesmo que sejam drogados, raivosos, cancerosos, tenham sido estuprados, nos que gritam de dor, só e somente só luz. As agulhas precisam de luz.

Mas esses médiuns veem também que nós, da equipe do José Marcelo, estamos cercados de mestres vindos do mundo espiritual, que nos orientam, vigilantes, para que o amor triunfe ali naquele ambulatório. Foi por isso que o sr. V pôde se dar alta.

domingo, 17 de outubro de 2021

O Evangelho segundo J.J. Benítz

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 17 DE OUTUBRO DE 2021 – Ouvi falar de Operação Cavalo de Troia (Caballo de Troya, Editorial Planeta, Barcelona, Espanha, 1984; Editora Mercuryo, São Paulo, 1987, 557 páginas), do jornalista e escritor espanhol Juan José Benítez López (Pamplona, 7 de setembro de 1946), conhecido por J.J. Benítez, no início dos anos 1990, quando fui editor da sessão de livros do Correio Braziliense, mas só fui ler agora o primeiro volume da série, hoje, com nove títulos; terminei ontem a leitura. Trata-se de um romance extraordinário. 

Cheguei, anos atrás, a folhear o volume I, certo na passagem de quando o major que volta ao tempo cruza com o olhar de Jesus Cristo. Mais tarde, conversando com um professor da Escola Nacional de Acupuntura (Enac), ele me disse que chorou nessa parte do livro. 

No início de outubro, passei no Sebo do Ed, na Quadra II do Setor Comercial Sul, e dei com Operação Cavalo de Troia. Comprei-o imediatamente, assim como o volume II, Segunda Viagem. Demorei um pouco para ler o primeiro volume porque recria minuciosamente a vida de Jesus Cristo durante uma semana, até a Ressurreição; leitura densa, que requer pausas. Mas não largamos o livro. A propósito, a série já vendeu mais de 6 milhões de exemplares. O último volume, IX, foi lançado em 2011. 

Tanto a editora quanto o autor dão a entender que Operação Cavalo de Troia é jornalismo, mas é ficção. Começa que o argumento da história é uma operação da Força Aérea dos Estados Unidos que envia, por meio de uma máquina do tempo, dois agentes para acompanhar os últimos dias de Jesus Cristo, e o passado não existe, razão pela qual é impossível retroceder no tempo. Todos os experimentos físicos são baseados em teorias matemáticas e não há sequer uma teoria sobre a possibilidade de se voltar no tempo. 

Mas além de fazer um levantamento minucioso de como era Jesus Cristo e o ambiente em que vivia, J.J. Benítz aborda um assunto interessantíssimo: o Universo, ou seja, a matéria, baseada no átomo, foi construído por espíritos evoluídos, agentes de Deus, os deuses antigos, ou os atuais ETs. 

Hoje, dispomos de grande quantidade de livros sobre isso, psicografados ou escritos por especialistas, como o próprio J.J. Benítz e os brasileiros Laércio Fonseca, médium e astrofísico, e Jorge Bessa, médium, especializado em inteligência de Estado, espiritualista, pesquisador e escritor, com mais de duas dezenas de livros publicados, um dos quais sobre a Operação Prato, a maior operação brasileira investigando Ovnis e ETs, que ocorreu no litoral do Pará, documentada pela Força Aérea Brasileira. 

Benítz começou o curso de jornalismo na Universidade de Navarra, em 1962, trabalhando em vários diários espanhóis. Em 1972, começou a investigar o fenômeno Ovni, na Força Aérea Espanhola. Em 1975, afirmou ter se encontrado com ETs no deserto de Chilca, no Peru, fato retratado no seu primeiro livro, Ovnis – SOS à Humanidade.

Além de livros, Benítz também produziu documentários para a televisão, fez conferências, deu entrevistas e escreveu artigos sobre Ovnis, despertando a fúria na comunidade científica espanhola, que o acusou de falta de rigor científico. Da mesma forma que fazem hoje no Brasil Laércio Fonseca e Jorge Bessa, Benítz não deu a mínima para os donos da verdade. Afinal, o trio conta atualmente com livros de Allan Kardec, Ramatís, Chico Xavier, André Luiz, para citar uns poucos. 

Quem não gostou também de Operação Cavalo de Troia foi a Igreja Católica Apostólica Romana, hoje uma cidade-estado. Benítz mostra que vários detalhes dos acontecimentos presenciados pelo major Jasão, personagem que volta ao tempo, são diferentes do que narra o Novo Testamento, por duas razões: os evangelistas eram pessoas simples e não compreendiam totalmente o que estava acontecendo, e não estavam o tempo todo com Jesus Cristo. 

O Jesus Cristo da Operação Cavalo de Troia dispensa templos e rituais, pois prega e dá o exemplo de que precisamos apenas amar, a nós mesmos e ao próximo. Laércio Fonseca sustenta que Jesus Cristo foi um dos inúmeros avatares que encarnam o tempo todo na Terra, até o fim dos ciclos, com a missão específica de reduzir as trevas em que o hoje Israel se encontrava em torno do ano 30, sob as severas leis judias e a espada sem complacência de Roma. Só teve seu nome projetado na Europa e depois nas Américas porque Roma criou a Igreja, com base no Novo Testamento.

Os evangélicos, ou protestantes, aguardam a volta de Jesus Cristo, mas, segundo Laércio Fonseca, Ele deve estar em missões pelo Universo. O Jesus Cristo que todos esperam é, portanto, a evolução moral de cada um de nós, pois o amor é a força que nos transporta para os planos da luz e dos ascensionados.

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

Escritores que não correm com pires na mão atrás de políticos têm confiança no seu taco

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 14 DE OUTUBRO DE 2021 – Tenho visto, ao longo da minha vida, escritores com pires na mão suplicando a políticos apoio para escreverem e publicarem em livro físico, como se escrever não fosse só escrever. Quanto a publicar em papel é uma consequência de três fatores: talento, trabalho nunca descontinuado e divulgação. Talento é congênito; trabalho é sair da zona de conforto e não ter medo do quanto podemos suportar, inclusive fome; e promoção, incluindo autopromoção, advém da confiança que temos no nosso taco. 

Mas há receitas. Por exemplo: quando Paulo Coelho decolou entre os anos 1980 e 1990, estava no lugar certo e no momento certo. Um dia, uma repórter do Grupo Globo, quando a TV Globo mamava quietinha na teta trilionária da burra, foi ao apartamento do escritor para entrevistá-lo, ele olhou para o céu e disse que ia chover, o que até cachorro percebe, dependendo do tamanho e cor da nuvem. Não deu outra: no dia seguinte saiu que Paulo Coelho era um bruxo que fazia chover. 

Aí, com O Alquimista, que deixou os franceses, famosos por serem ávidos leitores, ajoelhados, Paulo Coelho se tornou o maior vendedor de livros do mundo, e é recebido por aí como astro do rock. Atualmente, ele se entocou na Suíça, de onde dispara a metralhadora, de vez em quando, no lombo de Bolsonaro, que não está nem aí para Paulo Coelho, pois tem couro de platina e ouro. 

Uma receita que tem dado certo, pelo menos para o americano Dan Brown, autor de O código da Vinci, é a construção de uma trama ao mesmo tempo simples e surpreendente, como em O símbolo perdido (Sextante, Rio de Janeiro, 2009, 489 páginas). 

Brown não é nenhum estilista, mas é um extraordinário escritor de tramas policiais, que prendem da primeira à quatrocentésima octogésima nona página, como é o caso de O símbolo perdido, de tirar o fôlego, vertiginosa e surpreendente a cada página. 

Brown era casado com uma historiadora da arte, que o ajudava nas pesquisas que alicerçavam seus livros, e certamente ele é iniciado em esoterismo, ou pelo menos tem conhecimento disso. Munido dessas ferramentas, de como funcionam as agências de inteligência e confrarias misteriosas, ele recheia de peripécias pós-modernas um enredo simples. E está montada a trama. 

No caso de O símbolo perdido, o enredo é absolutamente simples. A CIA, a agência de inteligência americana, recebe um ultimato: ou entrega uma determinada informação a um tipo que parece saído de Hollywood ou serão disponibilizados na internet alguns vídeos que causarão um cataclismo nos Estados Unidos. O resto são 489 páginas surpreendentes. 

Foi por intermédio desse livro que compreendi claramente algo que perpassa a obra do filósofo japonês e criador da Seicho-No-Ie, Masaharu Taniguchi. Algo já revelado também por Albert Einstein: que o Universo, tal qual nós o conhecemos, é integralmente feito de energia. 

Em O símbolo perdido, uma cientista faz experimentos no contexto da Noética. Ela anda atrás de conhecer o poder da mente. Aí é que entra Masaharu Taniguchi. Foi ele que esclareceu a mim que o mundo fenomênico, o mundo material, tangível pelos cinco sentidos, é apenas sombra da mente. Desse modo, a mente tem o poder de moldar o mundo fenomênico. Mas como fará isso? 

Pelo pensamento. Mas é necessário combustível para que o pensamento seja direcionado. O combustível é a força moral, ética, e fé, que remove montanhas. Assim, Dan Brown me fez entender o que eu já vinha estudando em Masaharu Taniguchi. 

Também li Anjos e Demônios (Sextante, Rio de Janeiro, 2009, 416 páginas), um thriller mirabolante. Não largamos o livro até terminá-lo, mesmo que já tenha passado da meia-noite. Na linha de O código da Vinci e O símbolo perdido, Anjos e Demônios é uma incursão em profundidade no Vaticano e uma aula sobre anti-matéria, sob fio condutor surpreendente a cada capítulo, numa história que envolve arte, ciência, política, filosofia e loucura. 

Um terrorista ameaça varrer o Vaticano do mapa com uma bomba várias vezes mais potente do que a de Hiroshima. Ele conta com um assassino determinado para concretizar seu plano, mas não contava com a aparição do professor de Simbologia Religiosa na Universidade de Harvard, o americano Robert Langdon, e com a biofísica italiana Vittoria Vetra. 

A mais perfeita modalidade de arte, a literatura, leva vantagem sobre suas seis irmãs porque seu instrumento, a palavra, é, por si só, criador, e, se for utilizado com maestria, é capaz de criar cenários que nem o cinema tecnológico de ponta de Hollywood sonha chegar perto. Assim, se o escritor tiver uma boa ideia na cabeça e dominar tanto a matéria-prima daquele trabalho quanto o idioma com o qual escreve, e também for publicado no mercado americano, só não fará sucesso se não quiser. O Código da Vince que o diga. 

Em Origem (Sextante, Rio de Janeiro, 2017, 427 páginas), último livro de Dan Brown, pelo menos que eu li, ele mostra que o celular é a prova de que o ser humano é um ciborgue. Outro dia, conversando com um amigo meu, crítico literário, falávamos sobre livros clássicos, revolucionários, que mudam o modo de escrever dali para frente. 

– E Dan Brown? – Perguntei-lhe, durante a conversa. 

Ele fez cara de nojo. 

Perguntei isso porque sou leitor inveterado de livros policiais e de detetive, e cinéfilo de filmes do gênero, e Dan Brown é um mestre em criar tramas intensas. A sinopse de Origem é o seguinte: um gênio da informática, bilionário, ateu, prepara um show para dar uma informação mundial que levaria ao fim das religiões, com a resposta às perguntas: de onde viemos e para onde vamos? 

Origem faz longas digressões pela arte espanhola e aborda o fanatismo dos espanhóis pela Igreja e o saudosismo pelo ditador nazista Francisco Franco por parte das gerações mais velhas, mas mesmo assim prende o leitor do início ao fim, pois da mesma forma que os suecos Stieg Larsson e David Lagercrantz, da Série Millennium, trata-se de um mergulho no uso da internet; pula de cabeça na inteligência artificial. 

A Humanidade, desde os primórdios da História, sempre travou um embate entre religião e ciência. Houve uma época em que a Igreja Católica Apostólica Romana dominou a Europa e as Américas através do terror, e tentou agarrar também o Oriente, até que a ciência mostrou que a coisa não passava de luta pelo poder, por domínio e dinheiro. 

Ao longo da História, sempre houve avatares, espíritos ascensionados, como Buda e Jesus Cristo, ou os grandes cientistas da Grécia clássica, entrando pelo Renascimento e pela informática. Mas foi no século XIX que houve a explosão do espiritismo, a consciência de que somos seres espirituais; hoje, os títulos com esse tema tomam conta de um bom pedaço das estantes das livrarias. 

Neles, há informações, inclusive endossadas pela ciência, de que viemos de uma consciência sem início e sem fim, onipresente, que costumamos chamar de Deus, e que retornaremos a Ele. 

Cientistas já tentaram criar a sopa primordial para ver se dali surgiria vida, mas não surgiu nada, pondo por água abaixo o evolucionismo. Nossos corpos são fruto de inteligência artificial de engenheiros siderais; usamos esses corpos como escafandros aqui na Terra. No fim das contas, todos são espíritos. A diferença, aqui neste mundo material, é que uns acreditam que são matéria mesmo, enquanto outros desenvolvem sua mediunidade e assim utilizam com sabedoria o livre arbítrio. 

Desde sempre fazemos estas perguntas: De onde viemos? Para onde vamos? Entre uma e outra, permeia a existência humana. Aos poucos, principalmente a literatura e o cinema, vão entendendo, às vezes na diagonal, como em Origem, que nossos corpos nada mais são do que ciborgues, configurados pela família, pela religião, pela academia e pelo patrão. Há até profissionais nessa área: são os coachings, que preparam o trabalhador para virar escravo. 

Se Origem não é literatura canônica, e nem é um dos melhores momentos de Dan Brown, é um tour por um dos países mais encantadores da Europa: a Espanha. E uma crônica do pós-modernismo. Nele, temos a sensação de que o homem não vive mais sem a máquina; ninguém larga o telefone celular.

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Bairro do Sudoeste, Brasília/DF

RAY CUNHA

BRASÍLIA, 4 DE OUTUBRO DE 2021 – Comecei a frequentar o Sudoeste na virada do século. O urbanista Lúcio Costa, que projetou o Plano Piloto, sede do Distrito Federal, criou também o Sudoeste, que faz parte do projeto Brasília Revisitada. Iniciado em 1989, o bairro é o metro quadrado mais caro do DF, em torno de 17.750 reais, um dos mais caros do Brasil. 

Havia um restaurante paraense na Quadra 302 e de vez em quando eu passava por lá, com minha esposa e filha. Hoje, quando quero tomar tacacá, ou comer maniçoba, ou unha de caranguejo, vou ao Du Pará, na 714 Norte, Bloco G. Há alguns anos, comecei a frequentar a associação local da Seicho-No-Ie, a Barbearia Peixoto e a padaria, café e restaurante Paes e Vinhos, todos na Quadra 103, Bloco B. 

A Avenida Central do bairro tem cinco quadras comerciais, de um lado e de outro da via, cada quadra com três blocos de dois andares, cheios de restaurantes, bares, cafés, lanchonetes, padarias, sorveterias, quiosques, frutarias, supermercados e todo tipo de serviços. À noite, a região pulsa até tarde, em um bolsão de luzes. 

Nessa época, eu sonhava em morar no Sudoeste. Quando queremos muito uma coisa, e isso não vai prejudicar ninguém, mas só vai levar felicidade a todos os envolvidos, essa coisa chega por acréscimo. E foi o que aconteceu comigo. Como em um passe de mágica, moro hoje no Sudoeste, no coração do bairro, a Quadra 102. O comércio contínuo começa na Quadra 100 e vai até a 104, de modo que a Quadra 102 fica entre as 100 e 101 e as 103 e 104, e entre a Avenida Central e o Parque da Cidade. 

O Parque Dona Sarah Kubitschek foi fundado em 11 de outubro de 1978, graças ao governador Elmo Serejo Farias. Com 420 hectares, cerca de 420 campos de futebol, é o maior parque urbano da Ibero-América, e muito agradável, com uma infinidade de árvores, especialmente mangueiras, um lago artificial, inúmeras quadras de esportes, o maior parque de diversões de Brasília, o Nicolândia, o Parque Ana Lídia, infantil, centro hípico, pistas de caminhada, patinação e ciclismo, equipamentos de ginástica, kartódromo, restaurantes e uma grande quantidade de quiosques comerciais e de serviços. 

Além do Parque da Cidade, ao sul, o Sudoeste faz divisa com o Eixo Monumental ao norte, separando-o do Setor Militar Urbano (SMU); a leste, com o Setor de Indústrias Gráficas (SIG), onde fica o outrora poderoso Correio Braziliense; e, a oeste, com o Cruzeiro Velho, reduto dos cariocas, Cruzeiro Novo e Octogonal, onde fica o Terraço, um agradável shopping com cinemas e uma grande loja da Livraria Leitura, além de praça para shows e muitos restaurantes e cafés bacanas. 

Quando trabalhei no Correio Braziliense, nos primeiros anos da década de 1990, o Sudoeste era um pedaço do Cerrado, com algumas invasões, e onde caçadores que vinham do Cruzeiro caçavam, principalmente tatu. Em 1993, os primeiros prédios residenciais e comerciais começaram a ser construídos. Hoje, são cerca de 20.863 domicílios, apartamentos e quitinetes, e mais de 55 mil habitantes. 

Gosto de ir à Pães e Vinhos, onde encontro meu amigo Bond, que é um sujeito extraordinário. Não posso dizer o nome verdadeiro dele, porque trabalha no setor de inteligência do governo e é uma das minhas fontes. Assim, trato-o por Bond, James, James Bond e 007. Carioca, tem a mesma idade que eu, 67 anos, e mora também no Sudoeste, sozinho, em um belo apartamento de quatro quartos, entupido de livros e de uma parafernália eletrônica. 

Bond é doutor em política internacional, graduado em filosofia, hacker, domina cerca de dez idiomas, agente secreto por concurso e escritor, ensaísta; escreve sobre corrupção. Capitão reformado do Exército, paraquedista, conheceu o inferno durante sua participação na Missão de Estabilização da ONU no Haiti, comandada pelo Exército brasileiro. 

Conhecemo-nos por duas razões: sou terapeuta em Medicina Tradicional Chinesa, acupunturista, como somos conhecidos no Brasil, e ele é médium. Há algum tempo Bond começou a sentir dor na perna esquerda, mas os exames não acusavam nada. Um amigo comum, que trabalha no Senado Federal, paciente meu, além do seu núcleo familiar, falou sobre o meu trabalho, revelando-lhe, é claro, que sou também jornalista, mas do tipo que só mente quando estou trabalhando na minha principal atividade: a de ficcionista. Também avisou que sou discreto, tanto que muitas vezes sou chamado de tímido. 

Mas o que realmente levou Bond a apostar em mim foi o fato de que sou espiritualista, sabedor de que o Universo é povoado por uma infinidade de raças e que a Terra é um planeta primitivo, onde purgamos nossos carmas até evoluirmos para outros planos da consciência.

Integro uma equipe de terapeutas que realiza trabalho voluntário no Centro Espírita André Luiz (Ceal), no bairro do Guará I, aos domingos, atividade suspensa desde o início da pandemia do vírus chinês. No Ceal, costumo atender médiuns da casa, desses que convivem também com os “mortos”, ou seja, com os espíritos, e dois deles me comunicaram que eu estava acompanhado por um guia, que se apresentava como um caboclo ribeirinho da Amazônia. Bond também o viu ao meu lado. 

O fato é que comecei a trabalhar como acupunturista já no segundo semestre do curso técnico de Medicina Tradicional Chinesa, que fiz na Escola Nacional de Acupuntura (Enac), em Brasília, uma das melhores instituições de Medicina Chinesa do país. Paralelamente a isso, mergulhei no estudo do espírito, pesquisando Massaharu Taniguchi, Allan Kardec, Laércio Fonseca, Jorge Bessa, Richard Gerber e vários espíritos do mais alto gabarito, entre os quais André Luiz, Emmanuel e Joseph Gleber, para citar apenas algumas das minhas fontes.

Assim, comecei a desenvolver uma mediunidade para sentir a aura dos pacientes, diagnosticando e investigando causas no corpo astral e no duplo etéreo, além do corpo físico. Quando examinei Bond, no apartamento dele, perguntei-lhe se havia, ou se houve, uma séria desavença entre seu pai e ele. Então, Bond me contou um pouco da sua vida. 

Nasceu no Morro dos Cabritos, na Zona Sul do Rio de Janeiro, o caçula de seis filhos. Tinha sete anos quando seu pai abandonou a família. 

– Não disse sequer adeus! Eu chorei durante anos! 

Seu irmão mais velho estava com 17 anos e fazia todo tipo de serviço honesto para ajudar a mãe, uma mulher de quem Bond recebeu dois patrimônios imensos: amor no coração e sede de saber. Aos 18 anos, engajou-se no Exército, pela comida, e assim que se sentiu em condições começou a investigar o paradeiro do pai, até descobrir que fora enterrado como indigente. 

– Perna esquerda é pai – disse-lhe. – Se você não ora, comece a orar, e nas suas orações agradeça a seus antepassados, especialmente a seu pai; diga-lhe que o ama, peça-lhe perdão e diga-lhe que já o perdoou, e agradeça-lhe por ele o ter gerado e o amado, mesmo do modo como ele sabia amar, não importa. 

Lágrimas rolaram dos olhos do capitão. 

– O atrito mental gerou uma artrite na perna esquerda, que simboliza o pai. Com as agulhas, vou tirar a estagnação, principalmente no meridiano do baço – disse-lhe, procedendo exames de língua e pulso, e anamnese. 

Na semana seguinte, Bond estava sarado, e em paz com seu velho. 

No nosso último encontro conversamos bastante sobre os fabianos, os comunistas disfarçados de cordeiros. Movimento político-social britânico, a Sociedade Fabiana surgiu em 4 de janeiro de 1884, com a missão de preparar a classe operária para assumir o controle das fábricas. Defendia ainda saúde e ensino gratuitos. 

Inspiraram-se no cônsul Fábio Máximo, o Cunctator, o que adia. Fábio enfrentou o maior terror de Roma, Aníbal, general cartaginês que aterrorizou Roma na Segunda Guerra Púnica. Fábio adotou a estratégia da guerra de desgaste, estudando os pontos fracos do inimigo e esperando o quanto fosse preciso para atacar. 

Assim, o fabianismo acredita na evolução gradual da sociedade, no evolucionismo, uma caminhada passo a passo rumo ao socialismo, não revolucionária. Inspirado nas ideias de Stuart Mill, pregava o bem-estar de todos, com intervencionismo do Estado. Foi da Sociedade Fabiana que surgiu o Partido Trabalhista britânico, fundado em 1906. 

Como camaleões, os fabianos mudam de cor dependendo do ambiente. Nos Estados Unidos, o Partido Democrata está aparelhado. Mas, hoje, os fabianos querem o comunismo de qualquer maneira, mesmo que seja às claras, sem sofisma, sem essa história de socialismo, de evolucionismo, estão sedentos pelo Estado gordo, pelas mordomias à disposição dos controladores do totalitarismo, com revolução, se for o caso, mas se der para fazer igual Fábio Máximo, minarão a democracia pela própria democracia, aos poucos. 

É o caso do Brasil. Lula, e seu Partido dos Trabalhadores (PT), teve uma década e meia para aparelhar o Estado, incluindo a grande imprensa, embora não tenha combinado com os russos, isto é, com as Forças Armadas, último bastião dos conservadores patriotas. Em jejum forçado da burra, os fabianos brasileiros vêm tentando, desde 2018, todos os dias, aplicar um golpe fatal na democracia, estraçalhando inclusive a Constituição. 

É o caso da CPI do vírus chinês, ou do cão chupando manga verde no despautério dos desesperados por grana. Desde o início da pandemia o supremo Tribunal Federal (STF) amarrou as mãos do presidente Jair Messias Bolsonaro e exigiu dele que enviasse centenas de bilhões de reais para governadores e prefeitos e deixasse com eles o combate à epidemia.

Foi o inferno. Governadores e prefeitos encerraram as famílias em casa e houve prefeito que mandou soldar a porta de comércios. Pessoas nas ruas sem máscara eram dominadas e algemadas, mesmo que fossem mulheres grávidas, e, em vez de comprarem equipamentos para salvar a população, desviaram bilhões e bilhões de reais. 

Aí, o ministro Luís Roberto Barroso, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ordenou ao Senado a criação da CPI do vírus chinês para incriminar Bolsonaro pelo roubo do dinheiro que ele enviou para os estados e porque ele defende o tratamento precoce da covid-19. Como acusá-lo de roubar é sandice, resolveram acusá-lo de curandeirismo. 

O presidente da CPI é Omar Aziz, ex-governador do Amazonas e que já foi investigado pelo desvio de 260 milhões de reais da saúde e por pedofilia; o relator é Renan Calheiros, de Alagoas, um prontuário criminal quilométrico e cabeludo; e o vice-presidente, Randolfe Rodrigues, pernambucano que migrou para o Amapá, já só consegue ficar de uma só cor: vermelho. 

As vítimas convocadas para interrogatório são geralmente pessoas chegadas a Bolsonaro, como o empresário Luciano Hang. Lá, eles descascam quem se mostrar incauto. Os que se impressionam com o bando, choram, e quem enfrenta a inquisição e responde na mesma moeda é preso. Mas a maioria que lá esteve mostrou que não tem medo do cão, mesmo com a carantonha do diabo ao chupar manga verde na bacanal fabiana.

Os fabianos, ou lobos, não se disfarçam mais somente de cordeiro, mas também de anta, mapinguari, dragão-de-komodo, calangro da caatinga, gazela, e até de vampiro. Mas são sempre escorpiões. É assim que disparam nos próprios pés. Chinês gosta de escorpião.

Bond me alertou para uma coisa que me deixou de cabelos em pé: os presos políticos, amigos de Bolsonaro. Eles não têm como se defender na prisão e podem ser induzidos a tomar uma overdose do seu próprio medicamento, caso de Roberto Jefferson, presidente do PTB.