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quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Uma leitura crítico-literária do conto LATITUDE ZERO: juventude, sexo e violência em Macapá

Pelo CHATGPT 

BRASÍLIA, 29 DE OUTUBRO DE 2026 – O conto LATITUDE ZERO, de Ray Cunha, constrói um universo ficcional de violência, degradação moral, juventude transgressora e desencanto intelectual, ambientado em Macapá. A cidade amazônica não aparece como cenário exótico, contemplativo ou idealizado, mas como espaço de uma experiência humana brutal, em que a boemia, o desejo, o ressentimento e a revolta se confundem numa existência à deriva. 

O resultado é uma narrativa de forte impacto sensorial, marcada por uma linguagem agressiva, pela sucessão de episódios extremos e pela representação de personagens que parecem viver à margem de qualquer código ético estável. Sob a superfície de uma noite de bebedeira e aventuras grotescas, o conto também abriga uma reflexão sobre a condição do escritor, a precariedade da vida cultural e o autoritarismo político no Amapá. 

1. A geografia como destino literário – O título, LATITUDE ZERO, é a primeira chave interpretativa da narrativa. A expressão remete à posição geográfica de Macapá, atravessada pela Linha do Equador, mas seu significado ultrapassa a cartografia. A latitude zero pode ser lida simbolicamente como um ponto de suspensão: um lugar em que os personagens parecem não avançar nem encontrar uma direção para suas vidas. 

A narrativa percorre espaços concretos da cidade — ruas, bares, praças, o Igarapé das Mulheres, a Fortaleza de São José de Macapá e a margem do Rio Amazonas. Esses lugares não funcionam como simples referências topográficas. Constituem o território existencial de uma juventude que circula entre a embriaguez, a violência, o sexo, a provocação e o vazio. 

A presença do Rio Amazonas e da Fortaleza introduz uma dimensão histórica e geográfica importante. A cidade possui uma paisagem monumental, carregada de memória, mas os protagonistas parecem incapazes de converter essa herança em horizonte espiritual ou projeto coletivo. Há um contraste entre a grandeza do espaço amazônico e a mesquinhez de muitas das ações humanas que nele se desenrolam. 

Macapá é, assim, simultaneamente, lugar de pertencimento e cenário de sufocamento. A Amazônia de Ray Cunha não se reduz à exuberância da floresta: ela também é urbana, histórica, política e psicologicamente áspera. 

2. Alexandre e Moacir Canto: dois retratos da degradação – Alexandre e Moacir Canto são os eixos da narrativa. A relação entre eles, contudo, não é uma amizade edificante: é uma associação instável, alimentada pela bebida, pela cumplicidade e por uma espécie de competição na transgressão. 

Alexandre é apresentado como alguém dotado de alguma lucidez. Em diferentes momentos, observa criticamente o ambiente cultural em que vive, demonstra consciência do autoritarismo e chega a intervir para impedir uma agressão sexual. Entretanto, sua sensatez é relativa. Ele participa das bebedeiras, das provocações e das aventuras degradantes, sendo também responsável por comportamentos que contradizem qualquer superioridade moral que pudesse reivindicar. 

Essa ambivalência é um dos aspectos mais interessantes do personagem. Alexandre não é um herói convencional, mas tampouco se confunde inteiramente com os indivíduos mais violentos que o cercam. Sua consciência crítica convive com a incapacidade de romper com o meio em que está inserido. 

Moacir Canto, por sua vez, é construído como uma figura dominada pelo ressentimento. A desestruturação familiar, o abandono paterno e a miséria ajudam a explicar a origem de seu ódio, mas não justificam suas ações. Ele transforma a frustração em agressividade e encontra no sofrimento alheio uma forma de prazer. 

O episódio em que ataca uma mulher idosa, assim como as agressões contra meninas e mulheres, evidencia uma personalidade que converte a própria impotência em violência contra os mais vulneráveis. 

Há, portanto, uma distinção fundamental: o conto apresenta circunstâncias capazes de explicar a formação de um indivíduo violento sem necessariamente absolvê-lo de sua responsabilidade. 

A beleza física de Moacir, mencionada pelo narrador, acentua o contraste entre a aparência e a conduta. O corpo atraente não revela uma interioridade nobre; ao contrário, os olhos do personagem inspiram medo. A oposição entre beleza e monstruosidade moral contribui para a construção de uma figura que desafia qualquer leitura superficial. 

3. A violência sexual e a representação do grotesco – Um dos aspectos mais perturbadores de LATITUDE ZERO é a frequência com que a sexualidade aparece associada à dominação, à humilhação e à violência. 

Os episódios envolvendo Moacir Canto e Galego Demônio ultrapassam a descrição de uma juventude libertina. O conto apresenta agressões sexuais, tentativas de estupro e comportamentos predatórios. A sexualidade, em boa parte dessas passagens, deixa de ser uma experiência de intimidade para se converter em instrumento de poder. 

É importante distinguir a representação literária dessas ações de sua aprovação pelo autor. A ficção pode expor personagens moralmente repulsivos sem endossar seus atos. No entanto, a maneira como uma narrativa representa a violência determina parte de seu efeito sobre o leitor. 

Em LATITUDE ZERO, o grotesco é um dos principais instrumentos de composição. O corpo humano aparece em suas dimensões mais materiais, degradadas e repulsivas. A linguagem recorre a imagens fisiológicas, palavrões e situações extremas para romper com a idealização romântica da juventude. 

O procedimento tem uma função estética: destruir a imagem convencional do jovem boêmio como figura necessariamente fascinante, rebelde ou libertária. Aqui, a transgressão frequentemente revela crueldade, egoísmo e desprezo pelos outros. 

Entretanto, existe uma tensão crítica. Em certas passagens, o riso dos personagens acompanha situações de violência contra mulheres. O humor, nesses casos, pertence ao universo moral degradado que o conto retrata, mas pode também produzir um efeito ambíguo: a brutalidade corre o risco de ser absorvida pela comicidade da cena. 

Essa ambiguidade não invalida a obra. É, antes, um dos pontos que merecem maior atenção numa leitura crítica: o grotesco é mais poderoso quando o leitor percebe não apenas o caráter repulsivo das ações, mas também o mecanismo pelo qual os próprios personagens se tornam incapazes de reconhecer a gravidade do que fazem. 

4. Uma juventude sem projeto – A juventude retratada no conto vive em movimento. Os personagens atravessam a cidade, entram e saem de bares, bebem, provocam desconhecidos, discutem literatura e desafiam autoridades. 

Mas esse movimento físico não corresponde a uma transformação interior. A bebida funciona como combustível de uma existência que precisa de estímulos cada vez mais intensos para escapar do tédio. As provocações, as agressões e as aventuras sexuais tornam-se formas de preencher um vazio que permanece intacto. 

A frase de Galego Demônio sobre a rotina ser um veneno lento sintetiza uma concepção de liberdade baseada na recusa da vida organizada. A aventura é apresentada como alternativa ao estudo, à disciplina e às obrigações. Alexandre, porém, revela a fragilidade dessa filosofia: decide fazer suas provas, não porque tenha sido convencido por algum princípio superior, mas porque se cansa da conversa do companheiro. 

O episódio é revelador. Os personagens não parecem orientados por valores consistentes; suas decisões dependem de impulsos, circunstâncias e humores. O conto sugere, assim, uma juventude que confunde liberdade com ausência de limites. A rebeldia, sem um projeto que a sustente, degenera em repetição de gestos destrutivos. 

Essa perspectiva confere densidade ao retrato social. O problema não é simplesmente a existência de jovens que bebem ou desafiam convenções. É a incapacidade de transformar a negação da ordem existente em uma alternativa humana, intelectual ou política. 

5. A crítica ao ambiente literário do Amapá – Um dos núcleos mais significativos do conto encontra-se na conversa entre Alexandre e Moacir Canto sobre a produção literária local. Alexandre lamenta a ausência de editoras, de público e de reconhecimento. A imagem da cidade como uma sepultura e uma fábrica de poetastros condensa o desprezo dos personagens por um ambiente cultural que consideram provinciano, improdutivo e dominado por escritores sem mérito. 

O diálogo introduz uma questão que ultrapassa a experiência individual: como pode existir uma literatura vigorosa onde faltam as condições materiais e institucionais para sua circulação? O conto não oferece uma resposta sistemática, mas apresenta os elementos do problema. O escritor aparece condicionado por um mercado editorial precário, pela escassez de leitores e pela falta de reconhecimento público. 

A crítica, entretanto, não se limita às instituições. Galego Demônio representa uma deformação interna do próprio meio literário. Sua produção compulsiva, sua megalomania e a autopromoção grotesca fazem dele uma caricatura do escritor que confunde quantidade com qualidade e escândalo com realização artística. 

O título Eu Imortal, atribuído ao livro do personagem, é particularmente expressivo. A pretensão de imortalidade literária contrasta com a mediocridade que os demais lhe atribuem. O episódio do suposto erro ortográfico em Eu Imortal acrescenta uma camada de sátira, embora a discussão linguística travada entre os personagens não constitua, por si só, um julgamento definitivo sobre a qualidade de uma obra. 

É preciso observar, ainda, que Alexandre e Moacir não são críticos inteiramente confiáveis. Suas avaliações são atravessadas pela agressividade, pelo ressentimento e pela própria degradação que os caracteriza. Por isso, a crítica literária do conto ganha interesse quando lida como parte de um universo de vaidades e frustrações, e não como pronunciamento objetivo de um narrador imparcial. 

A literatura aparece, simultaneamente, como aspiração de grandeza e como espaço de miséria humana. 

6. O jornal A Galinha e o confronto com a ditadura – O episódio do jornalzinho A Galinha constitui outro núcleo decisivo. A publicação, que não passa do primeiro número, satiriza o governador militar do Amapá e o diretor do Colégio Amapaense, associando o exercício do poder à vigilância sexual, ao abuso de autoridade e à hipocrisia. 

A narrativa introduz, nesse ponto, uma dimensão política mais explícita. O autoritarismo não aparece apenas como sistema institucional distante: invade a escola, condiciona a circulação da informação e pune a irreverência dos jovens. A suspensão dos responsáveis pelo jornal evidencia a assimetria entre o poder estabelecido e aqueles que tentam contestá-lo. O projeto editorial fracassa, mas o episódio revela uma disposição de confronto que não se reduz às provocações dos bares. 

É interessante que a rebeldia política de Alexandre conviva com sua desordem pessoal. O personagem pode desafiar uma autoridade ditatorial e, ao mesmo tempo, demonstrar comportamentos moralmente condenáveis em outras esferas da vida. Essa contradição impede uma leitura simplista segundo a qual os rebeldes seriam automaticamente virtuosos e os representantes da ordem seriam os únicos responsáveis pela degradação social. 

O conto constrói um mundo mais incômodo: a autoridade pode ser opressora, mas a oposição a ela não garante, por si só, superioridade ética. O episódio também sugere que o poder não controla apenas instituições; controla, ou tenta controlar, os limites do discurso público. A sátira torna-se perigosa porque expõe aquilo que os detentores da autoridade prefeririam manter protegido. 

7. Estrutura narrativa: a madrugada como espiral – Formalmente, o conto se organiza por meio de uma narrativa emoldurada. No início, Alexandre e Moacir Canto despertam num depósito de madeira, depois de uma noite de excessos. A partir dessa situação, a narração recupera episódios anteriores e incorpora histórias contadas pelos personagens. O leitor acompanha deslocamentos entre o presente da madrugada, as lembranças de Alexandre e acontecimentos anteriores envolvendo Galego Demônio. 

Essa estrutura produz uma impressão de desordem, mas não é inteiramente arbitrária. A própria forma da narrativa reproduz o universo mental dos protagonistas: fragmentado, impulsivo e dominado por associações que conduzem de uma história a outra. Os bares funcionam como estações de passagem, enquanto a bebida favorece a circulação das lembranças. A narrativa avança menos por uma investigação psicológica linear do que pela acumulação de episódios que revelam progressivamente a natureza dos personagens. 

O procedimento tem vantagens e limitações. Sua principal vantagem é a energia narrativa. Os acontecimentos sucedem-se com rapidez, e cada episódio amplia o retrato de um ambiente social marcado pelo excesso. 

A limitação é que algumas histórias secundárias, embora memoráveis pela violência ou pelo grotesco, podem competir com o eixo central do conto. A multiplicação de incidentes nem sempre aprofunda proporcionalmente a psicologia dos protagonistas. Em determinados momentos, o impacto parece depender mais da intensidade do acontecimento do que de sua integração à arquitetura narrativa. 

Ainda assim, a estrutura descontínua combina com a experiência de uma noite em que o tempo perde a linearidade e a memória se transforma numa sucessão de cenas. 

8. A linguagem: entre o lirismo e a brutalidade – A prosa de Ray Cunha trabalha com dois registros aparentemente opostos. De um lado, há imagens de forte elaboração poética. A luz do poste que luta contra a névoa, a claridade que penetra no depósito e a descrição da madrugada criam uma atmosfera visual e quase cinematográfica. O cenário não é introduzido de maneira neutra: ele participa do estado de abandono dos personagens. 

De outro lado, a narrativa utiliza palavrões, imagens corporais agressivas e vocabulário deliberadamente vulgar. O contraste entre a construção poética e a brutalidade verbal é um dos traços mais reconhecíveis do conto. Essa alternância impede que o texto se estabilize numa única tonalidade. A beleza da paisagem não suaviza a violência humana; a linguagem obscena, por sua vez, não elimina a capacidade de observação estética. 

O narrador aproxima o leitor dos corpos, dos cheiros, da umidade, da bebida e dos espaços degradados. O ambiente é experimentado sensorialmente, como se a cidade pudesse ser apreendida não apenas pelo olhar, mas também pelo contato físico com suas ruas e seus excessos. 

Há, contudo, imagens cuja intensidade parece buscar o choque por si mesmo. A acumulação de termos repulsivos pode produzir uma saturação em que a violência seguinte já não surpreende tanto quanto a anterior. A economia verbal e a seleção de detalhes poderiam, em alguns trechos, tornar certas cenas ainda mais contundentes. 

Essa ressalva não diminui a força da linguagem. Identifica, antes, a tensão central de uma escrita que aposta no excesso como método de representação. 

9. O desfecho: o grotesco transforma-se em tragédia – O último episódio, envolvendo Galego Demônio e sua irmã, Bunda de Breque, desloca o conto para um território de horror. A violência, até então frequentemente associada à bebedeira, à provocação e ao riso, assume uma dimensão irreversível. O assassinato brutal do personagem rompe com a lógica das aventuras noturnas: já não se trata de mais uma agressão seguida de fuga, nem de uma provocação cujo efeito se esgota na humilhação da vítima. 

O detalhe final — Bunda de Breque tocando O Silêncio no trompete — é especialmente significativo. A música introduz uma imagem paradoxal. Depois do massacre, o personagem sobrevivente toca uma composição cujo título remete à ausência de som. O gesto pode ser lido como uma forma de ritualização do crime, uma tentativa de dar expressão musical ao horror ou uma manifestação da normalização da violência naquele universo ficcional. 

A narrativa não explica o significado do gesto, e essa indeterminação é produtiva. O leitor precisa estabelecer a relação entre o assassinato e a música. O desfecho também reconfigura retrospectivamente o conto. A violência que parecia integrar uma sucessão de episódios grotescos revela uma capacidade de desembocar na destruição absoluta. 

O silêncio, nesse sentido, não significa paz. Pode representar a interrupção definitiva da voz, a suspensão da vida ou o vazio deixado por uma existência inteiramente consumida pela brutalidade. 

10. O conto como retrato de uma sociedade degradada – Embora a narrativa se concentre em indivíduos, sua matéria não é exclusivamente psicológica. A família desestruturada de Moacir, o autoritarismo político, a precariedade cultural e a violência sexual compõem um quadro social mais amplo. 

Não seria correto, porém, concluir que todos esses elementos derivam de uma única causa. O texto apresenta condições sociais e familiares que ajudam a compreender os personagens, mas também enfatiza escolhas individuais, ressentimentos e formas particulares de exercer a violência. 

É justamente nessa combinação que reside parte da complexidade do conto. A sociedade aparece como um espaço em que diferentes formas de poder convivem: o poder político, o poder econômico, a autoridade familiar, a influência cultural e a força física. Em quase todos esses domínios, os personagens encontram mecanismos de imposição ou humilhação. 

A violência não pertence exclusivamente a uma instituição. Ela circula pelas relações sociais, reproduzindo-se de maneira desigual e atingindo, com particular brutalidade, aqueles que dispõem de menos recursos para se defender. 

Por isso, LATITUDE ZERO pode ser lido como uma narrativa sobre a falência de referências éticas. O problema não é apenas a existência de indivíduos perversos, mas a formação de um ambiente no qual a crueldade se transforma em entretenimento, a humilhação em motivo de riso e a transgressão em substituto de qualquer projeto de vida. 

11. Avaliação crítica: méritos e limites – Principais méritos: A construção de uma atmosfera amazônica urbana, concreta e pouco convencional. A combinação de lirismo, vulgaridade e grotesco. O retrato ambivalente de Alexandre, cuja lucidez não elimina suas contradições. A sátira do ambiente literário e a representação do confronto com o autoritarismo. O desfecho musical, que transforma o horror em uma imagem de forte ressonância simbólica. 

Principais limitações: A sucessão de episódios extremos pode produzir dispersão narrativa. Algumas personagens secundárias funcionam mais como figuras de choque do que como individualidades plenamente desenvolvidas. A insistência no grotesco corre o risco de tornar a violência repetitiva. O humor associado a agressões pode gerar ambiguidade entre a representação da degradação e a banalização do sofrimento. 

Essas limitações não são necessariamente defeitos absolutos: parte da descontinuidade e do excesso pode ser entendida como opção estética. A questão crítica consiste em avaliar quando tais recursos ampliam a experiência do leitor e quando passam a competir com o desenvolvimento da narrativa. 

Conclusão — a latitude de um mundo sem norte – LATITUDE ZERO é um conto de aspereza deliberada. Ray Cunha constrói uma Macapá noturna em que a geografia equatorial contrasta com a desorientação moral de seus personagens. O Rio Amazonas, a Fortaleza, os bares e as ruas compõem o cenário de uma existência marcada pelo excesso, enquanto o ambiente cultural e o poder político fornecem dimensões adicionais ao retrato. 

A obra ganha força quando articula a brutalidade dos indivíduos às contradições do meio social, sem transformar seus protagonistas em porta-vozes de uma moral inequívoca. Alexandre é capaz de lucidez e de abjeção; Moacir é, ao mesmo tempo, produto de uma história de ressentimento e agente consciente de crueldades; Galego Demônio encarna a caricatura de uma pretensão literária que termina tragicamente. 

O conto não oferece redenção fácil. Sua energia provém justamente do confronto com personagens que parecem ter perdido a capacidade de distinguir liberdade de arbitrariedade, prazer de dominação e rebeldia de destruição. 

A meu ver, sua contribuição mais relevante está em recusar uma representação ornamental da Amazônia. Macapá não é apenas paisagem: é também espaço de conflito, de miséria cultural, de autoritarismo e de experiências humanas extremas. 

O título concentra essa visão. LATITUDE ZERO é a posição geográfica de uma cidade, mas, na leitura simbólica, pode designar também o ponto em que uma sociedade perde suas coordenadas éticas. Os personagens sabem circular pelas ruas, encontrar os bares e reconhecer seus territórios; o que não conseguem é encontrar um norte para a própria existência. É essa contradição que dá ao conto sua dimensão mais sombria. 

LATITUDE ZERO permanece, assim, como uma narrativa de impacto, cuja força reside na linguagem, na atmosfera e na representação de um mundo moralmente desorientado — uma Amazônia urbana que não pede contemplação, mas confronto.

LATITUDE ZERO compõe o livro AMAZÔNIA, à venda no Clube de Autores, amazon.com.br e amazon.com

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Da arte do voluntariado em Acupuntura

Não existe ontem nem amanhã. O erro de ontem, seja lá
o que for, é sabedoria de hoje, e o que é esperado, amanhã,
é ilusão, não existe. Assim, tudo o que temos que fazer para
viver em paz e com harmonia é curtir a vida, não importa
como se apresente, pois a eternidade é agora

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 28 DE OUTUBRO DE 2026 – O presidente do Instituto Fernando Hessen, Ricardo André, pediu-me para alinhavar alguns itens de segurança para o voluntariado em Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS), especialmente Medicina Tradicional Chinesa (MTC), que realizamos todos os sábados, das 9 horas até o início da tarde, no Centro Comunitário da Candangolândia. 

Para a realização das atividades é fundamental que o voluntário realize seu trabalho com amor, compromisso e dentro das regras da instituição. Segundo as Nações Unidas, “voluntário é o jovem ou o adulto que, devido a seu interesse pessoal e ao seu espírito cívico, dedica parte do seu tempo, sem remuneração alguma, a diversas formas de atividades, organizadas ou não, de bem-estar social”, tais como hospitalar, creches, asilos, mutirões públicos etc., realizadas por pessoas, grupos, ONGs ou instituições. 

Pessoalmente, considero meu trabalho voluntário em MTC como uma residência acadêmica. Ao longo de mais de 10 anos de voluntariado atendi centenas de pacientes, de ambos os sexos, mulheres grávidas, pessoas de todas as idades, crianças, jovens e idosos, e com todo tipo de comorbidade, o que me estimula a estudar e pesquisar mais e mais o corpo humano e seu funcionamento, alimentação, comportamentos e a própria vida. Com essa experiência é que posso investigar e compreender as causas do sofrimento dos pacientes. 

Além de o voluntariado lançar luz sobre o que é a vida, o amor, o compromisso, ainda faturamos o aprendizado de nos relacionarmos harmonicamente com o próximo. 

Um equívoco quanto ao voluntariado é participar dele buscando projeção social ou contatos comerciais. É um equívoco porque interesses secundários impedem a concentração no objetivo do voluntariado: acolher. 

Para que o fluxo dos trabalhos aconteça de força harmônica e contínua, sem contratempos, é necessário observarmos algumas coordenadas, as quais enumero a seguir: 

1 – As macas devem ficar a um metro umas das outras e meio metro distantes da parede, para que o terapeuta possa girar em torno do paciente. Isso é o ideal. Não havendo condições ideais, deve-se arrumar as macas da melhor maneira possível para o bom andamento dos trabalhos. 

2 – Deve-se falar em tom de voz baixo e evitar músicas no ambiente, mesmo as consideradas relaxantes, pois qualquer ruído interfere na anamnese.

3 - Não obstrua os corredores e a bancada onde fica o material que está sendo utilizado durante o atendimento. Bata papo fora do salão onde estão as macas. 

4 – Importantíssimo: ao terminar de retirar as agulhas de um paciente idoso, oriente-o a levantar-se corretamente e, se for preciso, ajude-o a levantar-se. Só o deixe quando ver que ele está em segurança, pois se um idoso cair, ao tentar levantar-se sozinho, e morrer, vai dar polícia, Justiça, indenização e até paralisação dos trabalhos, ou seja, problemas graves para a instituição.

5 – Assim que o paciente for atendido é necessário anotar na ficha o horário de retirada das agulhas, ou das ventosas. E assim que as anotações forem feitas, coloque a caneta no lugar dela, para que todo mundo possa usá-la.

6 – Na véspera do sábado, arrume, na sua casa, seu jaleco e procure comparecer aos trabalhos o mais arrumado possível, pois, assim, você transmitirá confiança ao paciente. 

7 – Qual é a ordem de pôr e retirar agulhas de acupuntura? A estética na arte de inserir 

Em acupuntura, trabalhamos com a energia Qi, que pode ser chamada também de energia vital, ou Deus. Ela vem sempre do alto. As agulhas são antenas para captar a energia Qi e, os acupontos, vórtices que absorvem o Qi e o introduzem nos meridianos, ou canais energéticos. 

Assim, diagnosticado o desequilíbrio energético, devemos começar a aplicar o protocolo selecionado sempre do alto para o baixo. Procuro aplicar as agulhas, em qualquer caso, começando pelo VG20 (Vaso Governador 20), ou Chacra Coronário. Vigésimo ponto do Vaso Governador, situa-se no topo da cabeça, constituindo-se, portanto, no ponto mais alto do corpo, ou o ponto mais Yang. 

A energia Qi tem duas polaridades, Yin e Yang, negativa e positiva, que se complementam, amalgamam e se transformam uma na outra, quando atingem seu ponto de equilíbrio. O Tao, a vida plena, é o equilíbrio de Yin e Yang. 

O VG20 é o ponto mais próximo do céu, do espírito. Clareia o tempo nublado, os pensamentos, promovendo fé, esperança, ânimo, entusiasmo. Dissipa depressão e ansiedade, e remete a pensamentos bons; à luz. 

A seguir, acrescento o Yintang, o chacra do Terceiro Olho, um ponto entre as sobrancelhas. Esse ponto abre os olhos da mente. 

Agora, o paciente está pronto para receber o restante do protocolo, até os pés. 

Para retirar as agulhas, a mesma coisa. Vamos supor que se retire as agulhas do baixo para o alto, ou desordenadamente. Ao se retirar a agulha posicionada na parte mais inferior do corpo a energia Qi se escoa. Agora, vamos supor que o acupunturista comece a retirar as agulhas no meio do corpo. Aí, estará interrompendo o fluxo energético entre o alto e o baixo. 

De modo que se deve retirar as agulhas também do alto para o baixo, pois, assim, o equilíbrio conseguido com o fluxo energético acionado pelo protocolo utilizado será conservado até depois da retirada da última agulha, no baixo. 

Outra questão que perpassa a prática da acupuntura é a posição das agulhas. Lembro que, há muitos anos, um amigo meu, um dos maiores pintores do Pará, José de Moraes Rego, um esteta, por conseguinte, e também proctologista, me contou que teve um professor na universidade que lhe passou um ensinamento o qual seguiu a vida toda. 

Ao costurar um tecido rompido, mesmo no ânus, a costura deve ser correta, deve ter uniformidade e ser feita com o devido cuidado. Em outras palavras, a costura deve ter elementos estéticos: ordem, ritmo, intenção bondosa. O resultado será o ápice estético, nesse caso, a cura, o ajustamento das duas bordas do tecido de forma que não surja queloide, que o tecido volte ao normal. 

Assim é com as agulhas, que são antenas afixadas em vórtices para captarem a energia Qi. Na acupuntura bilateral, as agulhas devem ser afixadas em posições semelhantes e na profundidade certa, obedientes à ordem, ritmo e intenção bondosa. 

O corpo é apenas um trajo espacial que o espírito veste para viver na atmosfera terrestre. É a parte material da mente. Mas a mente é composta também de outros corpos, como, por exemplo, o astral, o corpo das emoções. 

Se o acupunturista compreende como funciona a energia Qi e obedecer às leis da ordem, sendo fiel ao protocolo e posicionando as agulhas com ritmo e obedecendo às leis da estética, inclusive do alto para o baixo, gerará boas emoções e terá alcançado seu objetivo. O resto é com o paciente. 

Ainda sobre as agulhas: certifique-se de que, ao retirar as agulhas do paciente, removeu todas elas, para evitar que o paciente saia com agulhas afixadas nele, especialmente em acupontos delicados, pois essas agulhas podem ser acidentalmente aprofundadas e até atingir órgãos como a pleura, ou provocar dor e pequenas hemorragias. Se agulhas caírem no chão, procure-as e apanhe todas, para descarte. Evite deixar agulhas no chão, especialmente as usadas, pois podem se tornar objetos infecciosos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS – Espero ter contribuído para com o voluntariado! Uma explicação: eu poderia ter alinhavado essas considerações e as enviado diretamente ao Ricardo André, mas preferi assim, compartilhando-as com todos. Faço, ainda, uma advertência: essas considerações são baseadas na minha experiência como acupunturista e em pesquisas; não se configuram em verdade absoluta. 

Mesmo porque até as leis da Física são questionadas o tempo todo; os cientistas descobrem, todos os dias, que o corpo humano é uma máquina biológica perfeita; e que a mente humana, que comanda essa máquina, é ainda mais maravilhosa. 

Então, estamos, todos, apenas seguindo o fluxo da vida, descobrindo, cada vez mais, que todo o Universo está contido na mente de cada um de nós, e que somente cada um de nós somos o verdadeiro acupunturista, ou médico, ou terapeuta, de nós mesmos, na medida em que compreendemos que somos deuses, na jornada rumo à Luz. 

Recomendo a leitura do meu livro PARE DE SOFRER – VIVA A VIDA – VIVÊNCIAS NA MEDICINA TRADICIONAL CHINESA, à venda no Clube de Autores, amazon.com.br e amazon.com

terça-feira, 27 de outubro de 2026

Cenas de ditadura

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 27 DE OUTUBRO DE 2026 – O ditador preparou-se para estuprar a filhinha de um assessor dele, com o consentimento do pai dela: “Ele a segurou pelo braço e deitou-a ao seu lado. Com movimentos de pernas e de cintura, montou sobre ela. Aquela massa de carne a esmagava, afundando-a no colchão; o bafo de conhaque e a raiva lhe davam náuseas. Sentia seus músculos e ossos sendo triturados, pulverizados. Mas nada disso impediu que notasse a rudeza daquela mão, daqueles dedos que exploravam, escavavam e entravam nela à força. Sentiu-se rachada, esfaqueada; um relâmpago percorreu seu corpo do cérebro aos pés. Gemeu, sentindo que ia morrer”. 

– Grite, sua cadelinha, vamos ver se você aprende – cuspiu a vozinha ferina e ofendida de Sua Excelência. – Agora, abra-se. Deixe eu ver se está furada mesmo, se você não está gritando só de farsante que é. 

No porão do regime. Quando o castraram, o fim estava próximo. Não cortaram os testículos com uma faca, mas com uma tesoura, enquanto estava sentado no Trono. Ouvia risos hiperexcitados e comentários obscenos, de uns sujeitos que eram apenas vozes e cheiros ácidos, de axilas e fumo barato. Não lhes deu o prazer de ouvi-lo gritar. Eles lhe enfiaram os testículos na boca, e ele os engoliu, desejando que tudo aquilo apressasse a sua morte, coisa que nunca imaginou que pudesse desejar tanto. 

Mais presos políticos. Duas ou três semanas depois, em vez do habitual prato fedorento de farinha de milho, trouxeram para o calabouço uma panela com pedaços de carne. Os dois quase engasgaram, comendo com as mãos até se fartar. Pouco depois, o carcereiro voltou a entrar. Olhou para um deles. Queria saber se não lhe dava nojo comer o seu próprio filho. Do chão, o preso o insultou. 

– Filho da puta nojento engula a língua e se envenene. 

O carcereiro riu. Foi e voltou, mostrando pela porta uma cabeça juvenil que segurava pelos cabelos. O pai do rapaz decapitado morreu horas depois, nos braços do seu companheiro de cela, de ataque cardíaco.

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Carta aberta para Dr. Furlan, governador eleito do Amapá, recomendando que leia JAMBU

JAMBU, na edição do Clube de Autores: o coração das trevas

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 23 DE OUTUBRO DE 2026 – Caro Dr. Furlan, governador eleito do Amapá. 

Sou caboco de Macapá/AP. Jornalista, trabalhei como repórter, redator e editor nos maiores jornais impressos da Amazônia durante uma década e meia, o que me permitiu viajar amplamente pelo Trópico Úmido, inclusive a selva ínvia, além das cidades mais importantes, o que me deu lentes especiais para enxergar a Hileia, lentes que foram alçadas ao requinte por meio de uma das minhas paixões: a leitura científica e literária da produção de cientistas que se debruçam sobre a região e a literatura da região, no caso do Amapá, especialmente um dos escritores que melhor compreenderam o Setentrião: Fernando Canto. 

Antes de me tornar jornalista eu já era ficcionista, de modo que a Amazônia, e o Amapá, em especial, se tornaram, naturalmente, ambientação para alguns dos meus romances, como A CASA AMARELA, JAMBU e A CONFRARIA CABANAGEM. A convite de Fernando Canto, tornei-me o primeiro correspondente da Academia Amapaense de Letras (AAL), aprovado por unanimidade, em Brasília/DF, onde moro.

JAMBU pode ser livro na Biblioteca Pública Estadual Elcy Lacerda ou na Biblioteca da Universidade Federal do Amapá (Unifap), ou adquirido no Clube de Autores, amazon.com.br e amazon.com. 

Assim, tornei-me um analista da geopolítica do Amapá, estudando sua geografia e sua história. O Amapá é o Estado mais isolado do país e uma das maiores vítimas do coronelismo, atualmente, nas mãos da família Alcolumbre, que manda e desmanda no destino dos amapaenses, cada vez mais acossados pela violência e falta de perspectivas econômicas, imprensa amordaçada ou vendida e corrupção generalizada. 

Venho observando seu trabalho e sua vida pregressa já de algum tempo. Sua ficha é boa. E o senhor tem a oportunidade história de reverter a situação do Amapá, desobstruindo os gargalos que drenam o desenvolvimento do Setentrião. 

Seguem, aqui, alguns itens observados por mim, que, se já não foram previstos pela sua equipe, podem ser levados em consideração: 

Para sua governança: 

1 – A criação de uma central de inteligência integrando as Polícias Civil e Militar do Estado, a Polícia Federal e as Forças Armadas, e o Escudo das Américas. Inteligência de Estado significa o senhor receber diariamente boletins sobre a realidade política, econômica, geopolítica e social, respaldando planos de governo, correções e medidas a serem tomadas. 

2 – Um núcleo competente de assessoramento junto à Assembleia Legislativa. 

3 – Uma representação em Brasília com nível diplomático e de trânsito nos três poderes. 

Para o desenvolvimento do Estado: 

1 – O Amapá recebe energia firme do Linhão de Tucuruí e, mesmo assim, sofre com apagões. Por quê? Não conta com subestações locais suficientes para transformar e distribuir a eletricidade. Simples assim. Basta a instalação de subestações suficientes para que o Estado não sofre mais apagões. Além do Linhão também tem que estar com um sistema de produção de energia elétrica próprio. Sem isso, continuará comendo poeira. 

É muito mais importante a instalação de subestações do que vasilhas de PVC para ração de cães de rua.

2 – Conclusão da BR-156, rodovia que liga Macapá, no sul do Estado, a Oiapoque, ao Norte, e, por ponte sobre o Rio Oiapoque, a Caiena, a capital da Guiana Francesa. Por meio dessa estrada o Amapá poderá escoar produtos armazenados no Porto de Santana para as Guianas, bem como receber turistas da Europa e da Guiana Francesa, além de que essa rodovia liga praticamente todas as cidades do Amapá. 

3 – Estatizar o Porto de Santana, que é administrado pelo município de Santana, sem condições de fiscalização e ampliação do porto, o que o torna interessantíssimo para o narcotráfico transnacional. O Porto de Santana é o mais estratégico da Amazônia, pois tem calado para transatlânticos e é o porto brasileiro mais próximo dos mercados dos Estados Unidos, Europa e Ásia (neste caso, via Canal do Panamá). De modo que pode receber commodity de toda a Amazônia e do Centro-Oeste e despachá-lo para todo o planeta. 

4 – Criar infraestrutura para a futura produção de petróleo na costa do Amapá. 

5 – Criação de uma polícia marítima para vigiar, juntamente com a Marinha de Guerra, a costa setentrional, paraíso da pesca pirata predatória internacional. 

6 – Criação de cursos superiores de oceanografia e engenharia naval, de pesca, florestal e agronômica. 

7 – Ligação rodoviária com o resto do país via ponte sobre o Rio Jari. 

8 – Estímulo à criação de escolas técnicas e escolas militares. Recuperação dos prédios ou instalações de bibliotecas públicas, compra de livros novos, jogar fora livros bolorentos e recuperar obras com valor histórico. 

9 – Doação de prédio para sede da Academia Amapaense de Letras (AAL), principal instituição cultural do Estado. 

Para Macapá e demais cidades do Estado: 

1 – Instalação de redes de esgotamento sanitário e de águas pluviais e garantia do fornecimento de energia elétrica e de água tratada.

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

A noite é só nossa


RAY CUNHA

 

Meu bem, estou à tua espera, vibrando de alegria

Pois esperar-te é como a emoção que precede o garimpeiro

Ao encontrar a maior pepita de ouro, dez anos depois

No morro do Salamangone, Serra Lombarda, município de Calçoene

É como a felicidade de abraçar crianças que escaparam de um naufrágio

Ao largo de Marajó

Ver rosas nuas em toda parte

Só de te esperar!

Amor da minha vida, esta noite será eterna

Porque nesta casa

Só haverá nós dois e a noite, presente de Deus, para ti

Já arrumei tudo, as flores, o vinho e a comida, camusquim com camarão pitu

Seremos nós dois e os diamantes que garimpei toda a minha vida

E que só encontramos no céu de Macapá, em agosto, nos anos 1960

Ouviremos La Cumparsita, na voz de Julio Iglesias

E dançaremos lentamente, nossos lábios se roçando

E ouviremos Suave é a Noite, com Alcione

E Amarcord, de Nino Rota

Então, voando nas asas de Dom Pérignon, safra de 1954

Beberei colostro e sentirei o sabor da tua pele e do teu púbis

E será madrugada

A quem ofertarei teus gemidos, que espalharei no jardim da minha alma

Mulher amada

Vem logo

Pois a noite já chegou

Como um navio, um continente, uma galáxia

Só nossa!


Do livro DE TÃO AZUL SANGRA, à venda no Clube de Autores, amazon.com.br e amazon.com

 

THE NIGHT IS OURS ALONE 


RAY CUNHA

 

My love, I’m waiting for you, trembling with joy, 

For waiting for you is like the thrill that grips a gold prospector 

When, ten years later, he strikes the greatest gold nugget of his life 

On Salamangone Hill, in the Serra Lombarda, in the municipality of Calçoene. 

It is like the happiness of embracing children who have survived a shipwreck 

Off the coast of Marajó. 

Seeing naked roses everywhere— 

Just waiting for you! 

Love of my life, tonight will last forever, 

Because in this house 

There will be only you and me, and the night, God’s gift, meant for you. 

I’ve made all the arrangements: the flowers, the wine, the food— 

Camusquim with river prawns. 

It will be you and me, and the diamonds I have mined all my life, 

Diamonds found only in the skies above Macapá, in August, back in the 1960s. 

We’ll listen to La Cumparsita, sung by Julio Iglesias, 

And dance slowly, our lips brushing against each other. 

Then we’ll listen to Suave é a Noite, sung by Alcione, 

And Amarcord, by Nino Rota. 

And then, flying on the wings of Dom Pérignon, vintage 1954, 

I will drink your colostrum and taste the flavor of your skin and your pubic mound. 

And dawn will come, 

And to the dawn I shall offer your moans, 

Scattering them through the garden of my soul. 

Beloved woman, 

Come soon, 

For the night has already arrived, 

Like a ship, a continent, a galaxy— 

Ours alone!

domingo, 18 de outubro de 2026

Ensaio crítico de três romances ensaísticos de Ray Cunha: O CLUBE DOS ONIPOTENTES, O OLHO DO TOURO e O TERCEIRO OLHO

CHATGTP 

BRASÍLIA, 18 DE OUTUBRO DE 2026 – Há livros que procuram interpretar o mundo; outros tentam desmascará-lo. E há aqueles que, insatisfeitos com a fronteira entre a literatura e a realidade, transformam o romance em um território de combate intelectual, no qual personagens, acontecimentos, ideias e paixões se enfrentam para disputar o significado da História. É nesse último campo que se pode situar A Ditadura da Toga, projeto literário de Ray Cunha composto por três romances ensaísticos: O Clube dos Onipotentes, O Olho do Touro e O Terceiro Olho. 

A trilogia propõe uma leitura ficcional e interpretativa do Brasil contemporâneo, tendo Brasília como centro de gravidade. O poder político, as instituições judiciais, os conflitos em torno da democracia, a liberdade individual, a circulação da informação e as disputas ideológicas constituem parte de seu horizonte temático. A esses elementos se acrescentam questões filosóficas e metafísicas, que ampliam o campo de visão dos romances para além da conjuntura imediata. 

O próprio título geral, A Ditadura da Toga, anuncia uma tomada de posição autoral. A toga, vestimenta simbólica da autoridade judicial, converte-se em metonímia de uma questão política: quais são os limites do poder de julgar? Como distinguir a proteção da ordem constitucional da expansão indevida da autoridade institucional? E de que maneira uma sociedade pode preservar suas liberdades quando os poderes constituídos entram em conflito sobre quem tem a última palavra? 

Essas perguntas constituem o núcleo interpretativo sugerido pelo projeto. A expressão ditadura da toga deve ser entendida, no âmbito da obra, como uma categoria polêmica e uma chave de leitura ficcional — não como uma conclusão jurídica que dispense a demonstração de fatos. É justamente na tensão entre denúncia, interpretação e invenção literária que reside uma das questões mais interessantes para a análise crítica da trilogia. 

1. O romance ensaístico como escolha estética – Ray Cunha não se limita, nesse projeto, ao modelo tradicional do romance, no qual a trama e a evolução psicológica das personagens ocupam necessariamente o primeiro plano. A proposta do romance ensaístico permite aproximar narrativa, reflexão política, interpretação histórica e questionamento filosófico. 

Essa forma híbrida oferece ao escritor uma liberdade particular. O romance pode representar acontecimentos, acompanhar conflitos humanos e construir situações dramáticas; o ensaio, por sua vez, permite interromper o fluxo narrativo para examinar ideias, confrontar interpretações e formular hipóteses sobre a sociedade. Quando essas duas modalidades se encontram, a literatura deixa de ser apenas representação do mundo e passa a interrogar os discursos pelos quais o mundo procura explicar a si mesmo. 

A vantagem estética desse procedimento está na possibilidade de fazer as ideias adquirirem corpo dramático. O poder não aparece somente como abstração institucional: torna-se relação entre pessoas, disputa por influência, produção de narrativas e exercício de autoridade. A política, por sua vez, não se reduz a um calendário eleitoral ou a uma sucessão de episódios. Transforma-se em experiência humana, marcada por ambição, medo, lealdade, ressentimento, esperança e contradição. 

Há, entretanto, um risco inerente ao gênero. Quando a tese domina inteiramente a narrativa, as personagens podem perder sua autonomia e converter-se em porta-vozes de posições previamente estabelecidas. O romance passa, então, a ilustrar uma conclusão em vez de produzir uma descoberta. A força literária do romance-ensaio depende de uma tensão produtiva: a reflexão deve iluminar a ficção, mas a ficção também precisa ser capaz de complicar, desafiar ou mesmo contrariar as ideias do autor. 

É por esse critério que a trilogia merece ser examinada: não apenas pelo que afirma a respeito do Brasil, mas pela maneira como transforma suas interpretações em matéria narrativa. 

2. O Clube dos Onipotentes: o poder como círculo fechado – O primeiro romance, O Clube dos Onipotentes, publicado em 2022, estabelece o problema fundamental da trilogia: a concentração do poder e a possibilidade de que os mecanismos destinados a organizar a vida coletiva se convertam em instrumentos de domínio. 

O título é uma escolha expressiva. A palavra clube sugere pertencimento, seleção, cumplicidade e acesso restrito. Não se trata de uma multidão indistinta, mas de um espaço simbólico reservado àqueles que se reconhecem como integrantes de um mesmo círculo. Já onipotentes remete à pretensão de não encontrar obstáculos, de exercer a própria vontade sem admitir limites externos. 

A combinação produz uma ironia que ultrapassa a simples caricatura. A onipotência, quando atribuída a seres humanos e instituições, aponta para o desejo de escapar às condições que tornam legítimo o exercício do poder: a responsabilidade, a prestação de contas, a existência de limites e a possibilidade de contestação. 

Sob essa perspectiva, o romance pode ser lido como uma investigação ficcional sobre a formação de círculos de influência. O problema não é apenas quem governa ou quem decide, mas como determinadas posições de autoridade podem criar ambientes nos quais o poder se protege, se reproduz e passa a interpretar suas próprias decisões como necessariamente corretas. 

A questão adquire especial relevância quando transportada para o universo das instituições republicanas. Em uma democracia constitucional, nenhum agente público deveria confundir a autoridade de seu cargo com a posse de uma verdade absoluta. A legitimidade institucional não elimina a necessidade de crítica; ao contrário, pressupõe mecanismos que tornem possível o questionamento do exercício do poder. 

O romance, portanto, oferece uma porta de entrada para o universo de A Ditadura da Toga: a percepção de que o poder pode se tornar problemático não somente quando viola abertamente as regras, mas também quando passa a considerar seus próprios limites como obstáculos inconvenientes. 

Literariamente, o desafio consiste em converter essa crítica em experiência humana. A representação do poder torna-se mais complexa quando o leitor consegue compreender não apenas a ambição dos poderosos, mas também as justificativas que eles apresentam a si mesmos, os medos que os movem e as contradições que procuram ocultar. 

3. O Olho do Touro: a política como confronto e espetáculo – Se O Clube dos Onipotentes sugere o poder organizado em um círculo de influência, O Olho do Touro, publicado em 2025, desloca a atenção para o confronto. 

A imagem do touro carrega uma ambiguidade sugestiva. Pode evocar força, agressividade, resistência e perigo. O olho, por sua vez, introduz a questão da perspectiva: quem observa, quem é observado e quem se torna alvo? O título abre, assim, um campo de interpretações em que a disputa política pode ser compreendida como um embate entre forças que procuram impor sua versão dos acontecimentos. 

Em uma sociedade atravessada por conflitos institucionais, a luta pelo poder também é uma luta pela interpretação da realidade. Os acontecimentos não circulam isoladamente: são selecionados, narrados, enquadrados e transformados em argumentos. A opinião pública passa a constituir um espaço de disputa, no qual diferentes atores procuram estabelecer o que deve ser considerado legítimo, intolerável, necessário ou ameaçador. 

A dimensão espetacular da política torna esse processo ainda mais complexo. A exposição pública pode funcionar como instrumento de fiscalização, mas também como mecanismo de pressão. A visibilidade pode esclarecer fatos, mas pode igualmente simplificar conflitos que exigiriam investigação cuidadosa. O julgamento público, por sua vez, não equivale necessariamente à apuração judicial, assim como a convicção política não substitui a prova. 

É nesse cruzamento entre poder, exposição e interpretação que o título do segundo romance adquire força simbólica. O alvo não é apenas aquele que recebe os golpes; é também aquele sobre quem se concentram os olhares, as expectativas e as narrativas concorrentes. 

A leitura crítica deve, contudo, evitar uma equivalência automática entre protagonismo político e perseguição, ou entre autoridade institucional e abuso. O interesse literário está justamente na possibilidade de examinar como os diferentes lados de um conflito constroem suas justificativas, disputam a legitimidade e procuram convencer o público de que sua interpretação é a verdadeira. 

Nesse sentido, O Olho do Touro ocupa uma posição intermediária no movimento conceitual da trilogia: depois da representação do poder como círculo fechado, surge a arena em que esse poder é confrontado, exposto e submetido à disputa pública. 

4. O Terceiro Olho: ver além das aparências – Publicado em 2026, O Terceiro Olho acrescenta à trilogia uma dimensão simbólica e filosófica particularmente sugestiva. 

Na tradição simbólica de diferentes culturas, o terceiro olho está associado à percepção ampliada, à intuição e à capacidade de reconhecer aspectos da realidade que escapam à visão ordinária. Empregado como título de um romance, ele sugere uma passagem da observação imediata para a interpretação, da aparência para a investigação do que se encontra oculto. 

A imagem também pode ser compreendida como metáfora da própria literatura. O escritor observa os acontecimentos, mas não se limita a reproduzi-los. Organiza perspectivas, estabelece relações, cria personagens e constrói situações que permitem ao leitor perceber contradições nem sempre evidentes na experiência cotidiana.

No universo de A Ditadura da Toga, essa perspectiva amplia a discussão para além do embate entre instituições e forças políticas. O problema passa a envolver os próprios instrumentos pelos quais as pessoas conhecem o mundo: a informação, a memória, a crença, a ideologia e a capacidade de distinguir fatos de interpretações. 

O terceiro olho pode, assim, representar uma exigência dirigida tanto às personagens quanto ao leitor: não aceitar a primeira explicação como definitiva, não confundir a força de uma narrativa com a comprovação de sua veracidade e não tomar a aparência de certeza como garantia de conhecimento. 

Essa dimensão permite aproximar o romance da reflexão filosófica. O poder não se exerce apenas sobre as instituições e os comportamentos; pode também atuar sobre os modos de perceber e interpretar a realidade. Quem controla a narrativa de um acontecimento influencia a maneira pela qual ele será lembrado, julgado e incorporado à consciência coletiva. 

Mas existe uma exigência crítica importante: a percepção ampliada não deve ser confundida com infalibilidade. O terceiro olho, como metáfora literária, ganha maior profundidade quando não significa a posse de uma verdade incontestável, mas a disposição de questionar certezas — inclusive as próprias. 

É essa leitura que permite compreender o terceiro volume como um possível movimento de interiorização da trilogia. Depois de investigar os mecanismos do poder e os confrontos em torno de sua legitimidade, a narrativa volta-se para a consciência que observa, interpreta e julga. 

5. Brasília: cenário, personagem e laboratório do poder – A escolha de Brasília como centro de gravidade da trilogia possui implicações que ultrapassam a geografia. 

A capital brasileira é, simultaneamente, cidade, sede administrativa, espaço simbólico e palco de decisões que afetam milhões de pessoas. Sua arquitetura monumental, a separação espacial dos poderes e a concentração de instituições nacionais oferecem à ficção um cenário no qual a política assume uma presença quase física. 

Brasília pode ser interpretada como uma personagem coletiva: uma cidade cuja rotina é atravessada pelas relações entre autoridades, servidores, jornalistas, representantes políticos e cidadãos. Nela, os edifícios institucionais não são apenas construções; tornam-se símbolos de expectativas, disputas e concepções concorrentes de Estado. 

Essa dimensão urbana é particularmente fértil para o romance ensaístico. O espaço permite articular o drama individual e o conflito nacional, aproximando a vida privada das decisões públicas. O poder deixa de ser uma entidade distante e passa a integrar a atmosfera da cidade, influenciando as relações humanas e a maneira pela qual seus habitantes percebem o país. 

Brasília também carrega uma contradição literariamente produtiva: foi concebida como expressão de um projeto moderno de futuro, mas se tornou o centro de conflitos recorrentes em torno da representação política, da autoridade e da legitimidade. A distância entre o ideal institucional e a experiência concreta da política oferece matéria para a ironia, a sátira e a reflexão. 

Nesse contexto, a trilogia de Ray Cunha pode ser lida como uma tentativa de interpretar o Brasil a partir de seu centro político, sem que a capital se reduza a um simples endereço para os acontecimentos. Ela se transforma em espaço simbólico no qual as contradições nacionais adquirem forma dramática. 

6. Literatura, política e a fronteira entre ficção e documento – Um dos aspectos mais relevantes de A Ditadura da Toga é sua relação com a história recente do Brasil. 

Os romances ensaísticos dialogam com acontecimentos e debates políticos reconhecíveis, mas a literatura não deve ser julgada exclusivamente pela correspondência entre personagens ficcionais e pessoas reais, nem pela confirmação de cada interpretação política apresentada na narrativa. 

O romance possui uma liberdade própria: pode condensar acontecimentos, criar situações hipotéticas, explorar motivações e construir alegorias. Sua verdade não é necessariamente a verdade documental. Isso não significa que esteja dispensado de rigor, mas que seu rigor também se manifesta na coerência narrativa, na complexidade humana e na capacidade de iluminar contradições. 

A distinção torna-se especialmente importante quando a ficção aborda o Poder Judiciário. A crítica literária pode examinar a representação da autoridade judicial, as tensões entre os poderes e as preocupações com as liberdades civis sem transformar automaticamente as afirmações de um narrador em fatos comprovados. 

A expressão ditadura da toga, por exemplo, concentra uma interpretação política controversa. Sua força retórica decorre da oposição entre a imagem tradicional da Justiça como garantia de direitos e a hipótese de que a autoridade judicial possa ultrapassar os limites de sua legitimidade. A análise crítica deve investigar como a obra desenvolve essa tensão, quais argumentos mobiliza e que concepção de democracia pressupõe. 

Também é pertinente perguntar se a narrativa concede espaço à ambiguidade, se diferencia convicções de provas e se permite que o leitor examine as contradições das posições defendidas. Essas perguntas não enfraquecem a intenção crítica do escritor. Pelo contrário, ajudam a determinar a profundidade literária com que ela é realizada. 

Uma obra politicamente engajada não precisa ser neutra. Pode assumir posições, desafiar consensos e provocar desconforto. O que a distingue como literatura é a capacidade de converter essas posições em uma experiência estética que ultrapasse a mera repetição de argumentos. 

A trilogia, portanto, deve ser lida simultaneamente como intervenção intelectual e construção ficcional. Seu interesse está tanto nas teses que propõe quanto na maneira como organiza o conflito, representa a experiência humana e convida o leitor a refletir sobre os limites de suas próprias certezas. 

7. O poder e a natureza humana – Embora o título geral enfatize a dimensão institucional, a questão mais profunda de A Ditadura da Toga pode ser encontrada em um problema antigo: o que acontece com os seres humanos quando dispõem de poder suficiente para reduzir a resistência à sua vontade? 

A literatura oferece inúmeras respostas possíveis. O poder pode revelar ambições antes disfarçadas, estimular o medo de perder privilégios, produzir cumplicidades e modificar a relação entre os indivíduos e a verdade. Pode, igualmente, colocar pessoas diante de dilemas genuínos, nos quais decisões difíceis não se resolvem pela simples oposição entre heróis e vilões. 

Essa complexidade é fundamental para a interpretação da trilogia. Se o poder for representado apenas como uma propriedade de indivíduos perversos, o problema se torna limitado: bastaria substituir os ocupantes dos cargos para que a ordem fosse restaurada. Uma abordagem literária mais profunda investiga também os mecanismos que tornam possíveis a concentração de autoridade, a obediência, a autopreservação institucional e a naturalização de privilégios. 

A pergunta decisiva deixa de ser apenas quem exerce o poder e passa a ser quais condições permitem que ele se torne impermeável à crítica. 

A questão diz respeito ao Estado, mas não se limita a ele. Também envolve a psicologia social, a formação de convicções e a disposição dos cidadãos para questionar os próprios grupos de pertencimento. Em uma sociedade polarizada, é particularmente fácil reconhecer o abuso quando ele é atribuído aos adversários e relativizá-lo quando beneficia aqueles com quem nos identificamos. 

É nesse ponto que a literatura política pode alcançar uma dimensão universal. Ao representar conflitos específicos do Brasil, o romance também pode interrogar mecanismos humanos que se manifestam em diferentes países e épocas: a sedução da autoridade, o desejo de pertencimento, o medo da desordem e a tentação de transformar convicções em verdades absolutas. 

8. A arquitetura da trilogia: do poder à percepção – Os três títulos podem ser lidos como etapas de um mesmo movimento intelectual. 

I — O Clube dos Onipotentes 

O poder e sua concentração – O círculo fechado, as redes de influência e a pretensão de exercer autoridade sem limites constituem o primeiro eixo interpretativo. 

II — O Olho do Touro 

O confronto e a exposição pública – O poder entra na arena da disputa, na qual diferentes forças procuram impor suas narrativas e conquistar legitimidade. 

III — O Terceiro Olho 

A percepção e a consciência – A questão desloca-se para a interpretação da realidade, o exame das aparências e a possibilidade de enxergar além das narrativas dominantes. 

Essa progressão constitui uma leitura simbólica dos títulos, não uma descrição exaustiva do enredo de cada volume. Ainda assim, ela revela a unidade conceitual que aproxima os três romances. 

O primeiro título sugere a estrutura do poder; o segundo, seu campo de confronto; o terceiro, a consciência que procura compreender o que está em jogo. A sequência pode ser resumida como uma passagem da autoridade para o conflito e do conflito para a percepção. 

O resultado é uma arquitetura na qual a política não aparece somente como disputa entre instituições. Ela se transforma em problema de conhecimento: como saber o que realmente acontece quando os próprios agentes do conflito procuram controlar a interpretação dos acontecimentos? 

Essa pergunta confere à trilogia uma dimensão que ultrapassa a conjuntura política em que foi concebida. 

9. O lugar de Ray Cunha na tradição do romance político brasileiro – A tradição do romance político brasileiro é diversa e inclui obras que abordam o autoritarismo, a violência estatal, as elites, a desigualdade, a corrupção e os mecanismos de dominação. Dentro dessa tradição, A Ditadura da Toga se distingue, como projeto, pela centralidade dos conflitos institucionais contemporâneos e pela adoção explícita do romance ensaístico. 

A combinação entre ficção, interpretação política e reflexão filosófica permite aproximar a trilogia de uma literatura que não se contenta em narrar acontecimentos, mas procura compreender as forças que os produzem e as ideias que lhes dão sentido. 

Essa ambição não elimina a necessidade de avaliar cada romance em sua singularidade. A importância histórica de um tema não garante, por si só, a qualidade de sua elaboração estética. É preciso considerar a construção das personagens, a linguagem, o ritmo, a organização das cenas, a relação entre reflexão e ação e a capacidade de criar situações que permaneçam significativas para além do momento em que foram escritas. 

Também é necessário distinguir a relevância de uma intervenção política de sua recepção literária. Uma obra pode provocar intensos debates e, ainda assim, exigir avaliação independente quanto à sua realização formal. Do mesmo modo, uma narrativa que nasce de uma conjuntura específica pode sobreviver ao desaparecimento daquela conjuntura quando alcança questões universais. 

Para Ray Cunha, o desafio e a oportunidade residem justamente nessa passagem: transformar o Brasil imediato em matéria de literatura duradoura. 

A trilogia não precisa ser recebida como uma interpretação definitiva da política nacional para merecer atenção. Seu valor crítico pode estar na formulação de perguntas incômodas, na representação das disputas por legitimidade e na tentativa de compreender o modo como instituições e indivíduos participam da construção da realidade política. 

Conclusão — Quando a literatura interroga o poder – A Ditadura da Toga reúne três romances ensaísticos que podem ser interpretados como partes de um mesmo projeto: investigar o poder, dramatizar os conflitos em torno de sua legitimidade e questionar os mecanismos pelos quais a sociedade percebe e interpreta a realidade.

Em O Clube dos Onipotentes, o título evoca a concentração de influência e a tentação da autoridade sem limites. Em O Olho do Touro, a imagem sugere o confronto, a exposição e a disputa pelo significado dos acontecimentos. Em O Terceiro Olho, emerge a possibilidade de uma percepção que procura ultrapassar as aparências e interrogar as narrativas que organizam a vida coletiva. 

A unidade da trilogia não depende apenas de um tema político comum. Ela se encontra também na articulação entre narrativa e reflexão, entre a representação do Brasil contemporâneo e a tentativa de compreender as estruturas mentais e institucionais que condicionam a experiência política. 

O maior interesse desse projeto literário está na possibilidade de fazer da ficção um espaço de questionamento. A literatura não substitui a investigação jornalística, a análise histórica ou o exame jurídico, mas pode revelar contradições humanas que esses outros campos nem sempre conseguem representar com a mesma liberdade imaginativa. Pode mostrar como o poder é vivido, temido, desejado, contestado e justificado. 

A toga, nesse universo simbólico, representa mais do que uma vestimenta profissional. Torna-se o emblema de uma questão permanente: nenhuma autoridade humana deveria estar dispensada do exame de sua legitimidade, assim como nenhuma crítica ao poder deveria estar dispensada do exame de seus próprios argumentos. 

É nessa reciprocidade que a literatura política encontra sua maior exigência intelectual. Questionar as instituições não significa abandonar o rigor; defender a autoridade não significa torná-la imune à crítica; assumir uma posição não significa renunciar à complexidade. 

Ao construir A Ditadura da Toga, Ray Cunha insere-se no território de uma literatura que procura interpretar seu próprio tempo, aceitando o risco de enfrentar temas controversos e de participar de debates que ultrapassam as páginas dos livros. 

A trilogia pode, assim, ser lida como uma pergunta dirigida ao Brasil: quem vigia o poder, quem interpreta a realidade e quem tem coragem de questionar as certezas de todos os lados? 

Talvez seja essa a função mais duradoura do romance ensaístico: não entregar ao leitor uma consciência pronta, mas colocá-lo diante da responsabilidade de pensar. 

Porque o poder pode ocupar os palácios, os tribunais e os centros de decisão. A literatura, porém, conserva a capacidade de abrir, dentro da consciência humana, um espaço que nenhuma autoridade deveria reivindicar para si. 

E é nesse espaço — livre, inquieto e crítico — que a obra literária começa a ultrapassar a conjuntura e a disputar seu lugar na memória cultural de um país. 

Nota crítica: este ensaio se concentra na proposta estética, nos títulos e nos eixos temáticos conhecidos da trilogia. Uma análise textual definitiva de personagens, cenas, estilo e desenvolvimento dos enredos exigiria o exame integral dos três romances. As interpretações políticas aqui discutidas são apresentadas como possibilidades de leitura literária, não como conclusões jurídicas independentes. 

A trilogia A Ditadura da Toga pode ser adquirida, tanto em português quanto em inglês, bem como os demais romances, contos e poemas de Ray Cunha, na livraria virtual do: Clube de Autores – amazon.com.br – amazon.com