RAY CUNHA
BRASÍLIA, 16 DE OUTUBRO DE 2026 – Império à Deriva – A corte portuguesa no Rio de Janeiro, 1808-1821 (Objetiva, Rio de Janeiro, 2004, 326 páginas), de Patrick Wilcken, é “Brilhante... Um modelo de narrativa histórica” – como disse The Guardian; “Leitura excelente e prazerosa” – disse The Times Literary Supplement. Só mesmo um inglês, inglês de Sydney, Austrália, brazilianist, é capaz de levantamento histórico tão sério, narrado com leveza quase de romance.
Uma coisa é ler história do Brasil escrita por brasileiros; outra, escrita por ingleses. A escrita por brasileiros é, muitas vezes, pontuada por um tom quase de lamentação, como se pudéssemos voltar no tempo e, em vez de lusitanos, sermos colonizados por ingleses, como os Estados Unidos. E quando o historiador é marxista, então, deixa de ser história e passa a ser masturbação colonial. Já os historiadores ingleses ignoram as baboseiras de Carl Marx e, baseados em documentos e cartas, recriam, de forma convincente, o que realmente se passou, como se passou e como eram as pessoas envolvidas. É o caso de Patrick Wilcken.
Império à Deriva foi fundamental para a minha compreensão do que se passou no Rio de Janeiro, de 1808 a 1821. A primeira coisa que percebi é algo que nunca encontrei em livro algum: se Dom João não fosse tão frouxo, ele poderia ter permanecido em Lisboa e ter enfrentado Napoleão Bonaparte. O corso jamais atacaria Lisboa por mar, pois a Inglaterra, que dominava os mares, estava só aguardando a marinha francesa. E o ataque por terra significava que o exército francês tinha que ultrapassar os Pireneus e as serras da Estrela e do Buçaco, de modo que quando chegava a Portugal encontrava-se faminto, esfarrapado e pela metade.
Mas os ingleses, que protegiam os portugueses, tinham interesse na extraordinária colônia sul-americana dos lusitanos, um mercado gigantesco para tudo o quanto era produto da Inglaterra, e então convenceram Dom João e fugir para o Brasil e instalar seu reinado na colônia, no Rio de Janeiro. Dom João pensou durante dias e dias e acabou topando, e fez a mais inacreditável fuga de toda a história humana, deixando Portugal desnorteado, entregue à própria sorte.
A chegada ao Rio de Janeiro é outra coisa inacreditável. Dez mil pessoas chegaram, de repente, a uma cidadezinha quase sem nada, como era o Rio de 1809. Não havia, ainda, Brasil, mas províncias, onde eram proibidos jornais e livros e o povo vivia para produzir açúcar, ouro e diamantes, que eram enviados para Portugal, e para pagar impostos. A mão de obra era escrava, 300 anos explorando africanos escravizados. Assim, Dom João teve que começar a construir o Brasil.
Treze anos depois, outra viagem impossível, a volta, a jato, para Lisboa, pois se Dom João não retornasse, Portugal, hoje, não seria Portugal, mas, provavelmente, uma colônia da Inglaterra, ou parte da Espanha. De modo que, de uma hora para outra, o Brasil voltava a ser colônia. Contudo, os cariocas não aceitaram voltar à condição de colônia e pressionaram três pessoas a lideraram a nossa independência: Dom Pedro I, Maria Leopoldina e José Bonifácio de Andrada e Silva. Mas isso é outra história.
Outra coisa que Patrick Wilcken esclarece é a dificuldade dos europeus com o Trópico e um Rio de Janeiro oitocentista, precário, fedorento, alagado, calorento, “um porto colonial de escravos”, como define o próprio Wilcken. Talvez o Trópico seja o fator mais importante da cultura brasileira quando comparada aos portugueses.
No final do livro, Wilcken dispensa algumas páginas para Dom Pedro I. Debate-se, até hoje, o que determinou a unidade do Brasil, diferentemente do que aconteceu com a América Espanhola, dividida em vários países. Eu já havia notado que há um fator fundamental que garantiu a unidade brasileira: Dom Pedro I. Assim que fez a independência do Brasil, Dom Pedro sufocou várias tentativas regionais de independência, inclusive manifestações no Rio de Janeiro. Enfrentou a todas com a brutalidade dos seus antepassados e a todas sufocou.
A saga de Dom Pedro I assemelha-se a de Flávio Bolsonaro (PL/RJ), no seu esforço de uma segunda independência do Brasil, agora, das mãos da máfia petista e a ditadura da toga. Com Dom Pedro I foi em um 7 de setembro; com Flávio Bolsonaro será agora, 25 de outubro.
Desta vez, o Brasil não é explorado por uma potência colonialista, mas por uma máfia que vem roubando tudo, até a aposentadoria dos velhinhos do INSS, com inflação estratosférica, desemprego em massa e violência absurda nas ruas. Em muitas cidades do Brasil e bairros pessoas são surradas porque disseram que votarão em Flávio Bolsonaro, e as facções terroristas avisam: se Bolsonaro ganhar vamos voltar.
Flávio Bolsonaro já avisou: vai ganhar e vai combater o
crime organizado. As duas primeiras medidas será libertar centenas de presos
políticos, que estão sendo torturados e estão morrendo nos porões, e indenizar
suas famílias, e, juntamente com o Escudo das Américas, combater as quadrilhas
terroristas e o crime organizado, principalmente dentro da cúpula dos três
poderes, com a brutalidade de Dom Pedro I.

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