terça-feira, 19 de julho de 2022

O dia em que recebi a visita de Roberto Carlos

Roberto Carlos e eu, no Hotel Amazonas, em Manaus, em 1976

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 19 DE JULHO DE 2022 - Em agosto de 1994, lancei, em Brasília, o jornal mensal Intelligentsia, tiragem de 3 mil exemplares. Durou até fevereiro do ano seguinte – 7 edições, portanto. Era um tabloide de 16 páginas, parcialmente em cores, diagramado e ilustrado pelo artista plástico André Cerino, com fotografia do repórter fotográfico e ensaísta Ivaldo Cavalcante, e inteiramente redigido por mim. O primeiro número causou polêmica nos meios em que circulou, devido a uma coletânea de poemas eróticos, que intitulei DE TÃO AZUL SANGRA, ilustrados por André Cerino, que carregou no grafite. O trabalho foi um escândalo. 

Em junho de 2018, sonhei com Roberto Carlos. Ele estava todo de branco e na minha casa, na 711 Sul, em Brasília, onde morei durante alguns anos, mas, no sonho, era uma casa enorme e arejada. Eu chegava e o encontrava lá, e alguém me dizia que Roberto queria falar comigo. No instante seguinte, como só nos sonhos acontece, ele e eu estávamos na biblioteca da casa, ampla, bem iluminada e aconchegante. Lembro que Roberto segurava uma folha de papel e me pediu autorização para trocar uma palavra de um poema meu, para ajustá-lo à melodia na qual estava trabalhando. “Sim, é claro, Roberto” – disse-lhe, e acordei. 

Acordei com o livro DE TÃO AZUL SANGRA na cabeça e passei aquele dia e os dias seguintes trabalhando nisso. Reuni os poemas publicados no Intelligentsia, mais os poemas eróticos produzidos até julho de 2018, e publiquei, em dezembro daquele ano DE TÃO AZUL no Clube de Autores e na amazon. 

No início dos anos 70, Roberto Carlos já era uma celebridade internacional, encantando o mundo com a melodia da sua voz, a Música Suave que ecoa na alma dos amantes. Em 1976, eu morava em Manaus e trabalhava no jornal A Notícia, de Andrade Netto, pai da Natacha Fink de Andrade, uma das grandes chefs brasileiras, profunda conhecedora dos sabores da Amazônia, e que deixou sua marca no Rio de Janeiro, onde foi proprietária do Espírito Santa, um dos restaurantes mais badalados da cidade, na Rua Almirante Alexandrino 264, bairro de Santa Teresa. 

Pois bem, naquele ano, 1976, Roberto foi fazer um show em Manaus e a produção do jornal conseguiu entrevista exclusiva com ele, no antigo Hotel Amazonas, centro da cidade, onde Roberto estava hospedado. 

Na época, eu assinava a coluna mensal No Mundo da Arte e era sempre eu que cobria matérias de cultura. O chefe de reportagem instruiu-me a perguntar ao Rei se ele usava, antes dos shows, meia de mulher como touca, para que sua cabeleira ficasse bem bacana. Esse assunto fora objeto de revista de fofoca. A pergunta era bizarra, mas satisfaria o suposto perfil dos leitores do jornal, que tendia ao sensacionalismo. 

Tudo bem! O problema era outro: o único gravador do jornal estava falhando, e isso foi meu terror, porque se chegasse à redação sem a entrevista só me restaria fazer o que fiz tempos depois: demiti-me e fui para A Crítica, levado pelo senador Fábio Lucena, de quem fiquei amigo no Clube da Madrugada, sediado nos bares Caldeira e Nathalia, e que reunia jornalistas, artistas e apreciadores da enevoada Antarctica manauara. 

Saí para fazer a entrevista, marcada para o fim daquela manhã. No hotel, fomos conduzidos, o fotógrafo e eu, ao corredor do apartamento do Rei, onde dois seguranças pediram para aguardamos ali. Roberto não nos recebeu no apartamento; acho que o apartamento era simples demais para as fotos. Ele me recebeu no corredor, e me deu a entrevista ali mesmo. 

O Rei é um sujeito carismático. Ele me deixou à vontade e eu me senti como se fosse velho amigo dele. Perguntei-lhe sobre o negócio da meia e ele me respondeu numa boa. Nem me lembro mais o que ele disse. Eu estava de olho no gravador, preocupadíssimo com o funcionamento dele, vigiando para ver se o rolo de fita estava girando. Fazia perguntas ao Rei e voltava-me para o gravador, um velho gravador de tamanho médio. Eu costumava fazer entrevistas anotando rapidamente a resposta, mas a orientação que recebera era a de que eu teria que transcrever ipsis litteris as palavras do Roberto. 

Mais tarde, na redação, ao degravar a entrevista, vi o quanto foi burocrática, a pior que fiz como jornalista, e logo com quem, o Rei Roberto Carlos. Mas tudo bem! O jornal publicou a matéria, ninguém reclamou, e ainda restou uma fotografia com o Rei, por insistência do fotógrafo, de quem não lembro mais quem era. 

Fui cobrir também o show do Roberto, e, naquele clima dos grandes shows, senti, na alma, o perfume que exalam muitas das canções do grande artista, algumas delas compostas com Erasmo Carlos. Certas gravações do Roberto nos remetem, em um salto quântico, à eternidade da juventude, quando transitar pelos labirintos de uma mulher é como montar a luz, tão azul que sangra. 

Segue-se o que o contista e ensaísta Fernando Canto escreveu como prefácio da coletânea de 1994. 

VERSOS PROFANOS 

FERNANDO CANTO 

Nem fesceninos ao estilo bocageano, nem pornográfico à moda Boris Vian. Contudo, profanos são os novos versos do poeta Ray Cunha. Não no sentido antirreligioso – assim a poesia teria prosélitos fanáticos –, mas no sentido da irreverência, da violação, da transgressão do texto, em cuja tessitura surge o inopinado, que fragmenta, com certeza, a reação dos ouvidos suscetíveis. 

Estes poemas, De tão azul sangra, evocam, invocam, enfocam a mulher, aliás, o sexo feminino; a afirmação do adolescente, o orgulho do adulto, ou, talvez, o fruto da observância do mundo mundano – experiência edipiana a penetrar em barreiras antes inacessíveis. Poemas que denotam a sensualidade e detonam-se em palavras lúbricas. Sutis, ás vezes, como em Bethania. Impolidas, como em Olhar para a mulher amada – um rasgo narcisista, um produto da consciência machista e desembocadura para o gozo psicológico do autor. 

A apologia de Ray Cunha à mulher é feita, então, sem disfarces. Despojada da roupa ela se torna provedora de sentidos, manancial e matéria-prima ao fabricante de versos. Está ali nua, nuinha na sua forma ímpar de ser apenas mulher, vênus perscrutada pela oportuna fresta que faz a felicidade de um voyeur; deusa mítica em seu mistério, desvendada pelo arguto e fulminante olhar e pelo sensível olfato do poeta. 

Bem poderia chamar-se Essa Copacabana triste mulher o conjunto desta obra. O melhor poema da coletânea traz o melhor do autor, embora o contraste do “triste” trace o “ideal” do jovem solitário, qualquer jovem solitário nas praias deste Brasil afora. Essa irreverência trata da socialização do sexo no entendimento paradoxal de que todos possam ser burgueses em bacanais tropicais regadas a coquetéis afrodisíacos, num tempo hedonista que ficou há muito nos salões dos palacetes romanos. É forma compacta de abarcar o mundo. É válido. É poesia. Nela está o sol, o azul do mar no verão. Pois aí o azul que sangra não é o azul do céu. É o azul açoitado pela relação geográfica e íntima entre o sol e o mar. É o azul afetado pela natureza do gasoso (as nuvens) no espelho sangrado do mar. Mar que sangra, que se esvai, que beija a praia de Copacabana e salga o corpo nu da mulher desejada, da mulher que brilha com a clivagem dos grãos de areia e à noite vai para a cama gemer seu gozo e se sangrar de mar de Copacabana. Enorme, a cama de Copacabana. 

Nostálgico e terrível é romper o laço em Um cheiro de madrugada. Neste poema Ray Cunha instiga um sentido amargo sobre o que se convenciona chamar de amor. É um trabalho sincero, diria, onde o conteúdo está exposto para o leitor atento; onde nada mais se precisa dizer, pois que a lembrança adquire a possibilidade de entrega a outros caminhos, nos quais existem outros remédios para os males da paixão. É simples, realista. 

Ray Cunha ironiza a relação poética entre a morte e a poesia. Morrer na mesa de um bar é produto do inconsciente etilizado. Ser salvo, porém, é dormir com a princesa e metáfora-tônica de um anti-valor, concessão do sono ao acordar de sopetão de um pesadelo borgeano: sensação esquisita, estapafúrdia. Morte e poesia andando juntas, porque o trágico pode ser frenético, fétido e cômico – dura realidade! – exatamente na hora irônica do enforcamento. 

Poemas como Sessenta e nove I e II trazem sobretudo o rústico, o rude, o seco mal lixado. São versos extraídos de uma realidade obstinadamente crua, ausentes de recursos semânticos mais elaborados, e duros como a pretensa e voraz virilidade do poeta. Nem por isso ele peca. 

Se transgredir é a virtude do recurso, doces são as circunscrições colocadas em Ah! Se tu fosses minha e nos dois poemas sem títulos que se entrepõem a ele. Chegam á trazer à tona a ingenuidade do poeta, que verdadeiramente ama sua musa de Parnaso, líricos como uma aquarela a Belle-Époque. 

Não se pode deixar de enfocar o trato poético-erótico-libidinosos dos classificados de Acompanhantes. O autor ousa de várias maneiras. E coopta o leitor a acompanha-lo em aventuras sexomaníacas de pleno envolvimento. Comunicação, mídia impressa, espurcícia? Não. Mistura de elementos cuidadosamente colocados sob a arquitetura da realidade atual, ossatura forte dos arrabaldes das megalópoles. Assim é a estrutura desse poema. Real. Firme e transparente. Enfoque de uma sociedade periférica desprezada pela tradicional e hipócrita sociedade burguesa. É retrato da nova cultura urbana, nascida, infelizmente, ainda da miséria, da perda de status, de poder aquisitivo e que se torna antepasto para qualquer Sade pós-moderno, certamente. Instigante, claro e azul, o poema indica água fervendo, páprica picante, poesia nova, e acima de tudo coragem de inovar pela forma e revolucionar pelo conteúdo da ideia.

Esta é a marca poética de Ray Cunha, que, sob o céu nas nuvens, descobre que o azul sangra como a vagina menstruada de uma nereida de qualquer gangue dos subúrbios brasileiros.

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segunda-feira, 18 de julho de 2022

Se Lula voltar à Presidência acabará com a propriedade privada, venderá a Amazônia para a China e corromperá as crianças nas escolas

Foro de São Paulo pariu molusco de 9 cabeças e 9 ventosas

RAY CUNHA

BRASÍLIA, 18 DE JULHO DE 2022 – Buda, há 2.500 anos, já alertava: o maior sofrimento da Humanidade é a ignorância, ou trevas, como se dizia então. O poeta frustrado que foi Karl Marx invejava Deus, e para ser Deus procurava matá-Lo por meio dos seus poemas doentios, tentativa que o deixava cada vez mais frustrado. Ao ver que não podia matar Deus, passou a se dedicar a corromper a criação do Pai: o espírito humano. Escreveu, assim, as bases para a escalada da corrupção da Humanidade: O Capital. E as trevas se encarregaram de enviar o agente da derrocada do espírito: Vladimir Lenin, em 1917. 

A partir daí, o marxismo, popular comunismo, chegou ao poder e se transformou no próprio Estado. A corrupção, a devassidão, o assalto, o estupro, o assassinato em massa, a destruição da família e da igreja, e a escravidão do povo, passaram a ser controlados por uma elite de um partido político único. A partir de 1917, a ordem agora era implementar em todo o planeta o vírus da ignorância, principalmente o desconhecimento do mundo espiritual. 

Na Ibero-América, destruíram Cuba e Venezuela e agora começam a arrasar com Argentina, Chile e Colômbia, marchando em direção à joia do planeta: o Brasil. Para isso, foi criado o Foro de São Paulo, para organizar os exércitos de terroristas, narcotraficantes e facções rumo ao Palácio do Planalto. 

O líder desses exércitos é um dos seres humanos mais abjetos que já encarnaram aqui no planeta, um ser de nove cabeças e nove ventosas. Lula é candidato à Presidência da República. Foi presidente duas vezes seguidas e elegeu seu sucessor, e nessa década e meia perpetrou todo tipo de crime, os mais imundos que se possa imaginar, foi condenado à jaula por mais de uma dúzia de juízes e desembargadores, para ser singelamente solto pelo Supremo Tribunal Federal (STF) para disputar a Presidência da República contra o presidente Jair Messias Bolsonaro, que, ainda candidato, em 2018, recebeu uma facada que mataria até um búfalo. Mas escapou. 

Estima-se que durante a década e meia em que o Partido dos Trabalhadores (PT) esteve no poder desviaram mais de 1,5 trilhão de dólares, dinheiro que poucas nações possuem. Lula chegou a meter a mão até no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), chegando a financiar a construção do porto de Mariel, em Havana, Cuba, e o metrô de Caracas, quando o Brasil precisa tanto de portos e metrôs. Bancos federais, estatais como a Petrobras e os Correios, fundos de pensão, nada escapou ao assalto. 

Paralelamente, Lula aparelhou o país. Exceto as Forças Armadas. Bolsonaro já desmontou alguns galhos do cabide federal de empregos alimentado pelo PT, monstruoso, mas o buraco é muito mais embaixo: assassinatos e mortes misteriosas, que a Polícia Federal não consegue elucidar, e chantagem. 

Pior: a Justiça vem soltando, em ritmo inquietante, cada vez mais bandidos perigosíssimos, e sabotando, na mesma medida, o trabalho da polícia; e cada vez mais sufoca a liberdade de expressão e faz vista grossa para as mentiras da velha mídia, a dos balcões de negociatas. E há políticos e jornalistas presos políticos. 

Uma coisa é certa: se um ladrão e assassino do porte de Lula voltar a pôr suas nove ventosas na teta da burra nem o diabo segurará o posto dele próprio de mandachuva no inferno. 

Aliás, ele já vem dizendo, para quem quiser ouvir, o que fará se conseguir ganhar as eleições no Tribunal Superior Eleitoral (TSE): prenderá Bolsonaro e família; amordaçará a mídia; acabará com a propriedade privada; liberará aborto até para feto de nove meses; crianças determinarão o sexo com que querem ser educadas; derrubará teto de gastos; o Estado estatizará tudo; venderá a Amazônia para a China; corromperá as crianças nas escolas e viverá de mandioca descascada pronta para estuprar até parturiente anestesiada. O sistema eleitoral brasileiro, totalmente eletrônico, está preparado. 

Está tudo em um livro chamado O CLUBE DOS ONIPOTENTES, à venda no clubedeautores.com.br, na amazon.com.br e na amazon.com.

domingo, 17 de julho de 2022

A corrupção das crianças pelo sexo

Uma das maneiras de os comunistas destruírem a família e o Estado e gerarem o caos para então instalarem a ditadura é a corrupção por meio da pornografia, conduzindo as crianças nas escolas a práticas abjetas envolvendo uma parte profunda e misteriosa de suas mentes: o sexo.

O livro O CLUBE DOS ONIPOTENTES mergulha sobre essa questão, também! Trata-se de um romance ensaístico profético, que submete o comunismo à dissecação total! Leia, com urgência, O CLUBE DOS ONIPOTENTES e entenda o que está acontecendo politicamente neste momento no Brasil!

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sábado, 16 de julho de 2022

Outsider

O escritor amapaense e seu último livro: O CLUBE DOS ONIPOTENTES

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 16 DE JULHO DE 2022 – Tenho sido um estranho no ninho. Não tive também gurus que me guiassem por caminhos seguros na trilha que escolhi seguir: a de escritor. Até hoje, quando alguém sabe que procuro me levantar às 4 horas para escrever me olha com pena, como se eu fosse um miserável. E quando sabem que eu nunca ganhei dinheiro para valer fazendo isso, aí é que me olham como se eu fosse um condenado. Obviamente não ligo, pois o prazer de me encontrar com a madrugada, com o silêncio, com os sons que só ouvimos por meio dos tímpanos espirituais, esse prazer é simplesmente incrível. 

Desde cedo percebi que sou outsider. Poderia traduzir essa palavra como estranho, mas outsider, em inglês, é mais específica: significa um indivíduo que não pertence a um grupo determinado, e no turfe se trata de um cavalo com fracas possibilidades de vencer. É o meu caso. Minha igreja tem sido eu mesmo; eu oficio a missa, como a hóstia e bebo o vinho. E sempre soube que minhas possibilidades de me tornar um escritor conhecido são remotas. É claro que todos nós, escritores, desejamos ardentemente pagar as contas com dinheiro proveniente da venda de nossos livros, mas alguns devem esquecer isso e se ater apenas a curtir sua vida do modo como der. 

Isso eu sempre fiz, sempre curto adoidado, e, também, tenho estoicismo suficiente para não reclamar. Se alguém me ouvir gemer é porque estou à morte. Quando criança, não morri por pouco contaminado por ameba. Comecei a beber cedo. Aos 14 anos chegava a dormir na rua, desmaiado de tanta cachaça. Só não morri de tanto beber porque encontrei um anjo que me salvou. Hoje, não bebo mais; nem Cerpinha enevoada no sétimo andar dos hotéis cinco estrelas. Em 13 de novembro de 2019, sofri um infarto, mas consegui chegar andando ao hospital e logo depois desmaiei. Agora, estou com covid. 

Por isso mergulhei ainda mais nos livros. Acabei de ler O Outsider – Minha Vida na Intriga, de Frederick Forsyth. É o tipo do sujeito que teve toda a sua vida conduzida para a literatura. Ele fez todo tipo de coisa que achou importante para ele mesmo, e, no seu caso, havia seu pai, que o apoiava. 

Não recebi esse tipo de apoio direto do meu pai, porque meu pai era ainda mais outsider do que eu, mas recebi dele coragem, aquele tipo de coragem que chega a ser ingênua, recebi disciplina para trabalhar e responsabilidade para procurar, de alguma forma, defender os mais fracos. Meu pai também lia muito. Aos 17 anos, peguei a estrada. 

Era o ano de 1972, em Macapá. Até então, só saíra da cidade para ir a Belém do Pará, que me pareceu outro planeta, que descobrimos de repente e percebemos que não é um sonho, que estamos lá mesmo. Eu era um adolescente inquieto e não aparecia ninguém para me apoiar na minha tentativa inicial de me tornar escritor. Eu recebi estímulos, mas de colegas na mesa dos bares, na mesma situação que eu. Assim, um dia, peguei um barco, fui para Belém, e, de lá, para o Rio de Janeiro. 

A estrada durou dez anos. Rio, Buenos Aires, Santarém, Manaus, Rio Branco, Belém novamente, onde, estimulado por um anjo, me graduei em Jornalismo pela Universidade Federal do Pará, em 1987, doze anos depois de ter começado nessa profissão como repórter policial no Jornal do Commercio de Manaus. 

Na estrada, encontrei muita gente interessante. Quando somos jovens – jovens são belos e imortais – todos querem ajudar, especialmente as mulheres. Assim, fui amado por deusas e retribuí esse privilégio com amor mais intenso ainda. Também encontrei homens que me apontaram algumas portas, que me ensinaram alguns truques e me ajudaram a entender uma coisa: que não somos outsider, ninguém é outsider, que outsider é apenas um conceito alheio, e que ser outsider é chegar ao poder de oficiar a própria missa. Então, em vez de outsider, nos sentimos cidadãos do mundo. 

Em Macapá latejam minhas raízes, mas hoje meu portal para mergulhar fundo na cidade é o escritor Fernando Canto, da mesma idade que eu e que também trilha a estrada azul. Comemos e bebemos como sátiros e conversamos dias a fio, e rimos demais. A dama azul, Alcinéa Maria Cavalcante, não quis mais me ver, recolheu-se em meio a suas flores e se confundiu com as flores. Também as mulheres que povoaram minha adolescência sumiram; só deixaram um rastro de perfume. 

Assim, sinto-me mais e mais outsider. Às vezes, percebo vultos se movendo perto de mim; sei que são mortos à minha espera, ou estão aqui para me ajudarem, para me apontarem a direção a tomar, o rumo que devo seguir, na minha nova profissão de terapeuta, monge taoísta, iniciado em Medicina Tradicional Chinesa. Quanto ao jornalismo, faço como todo mundo; hoje, a comunicação social é pessoal e global ao mesmo tempo; barões da mídia, dos balcões de negócios, das negociatas, da política, se encontram no beco das máfias, inclusive nos negócios políticos do narcotráfico. 

Forsyth viveu da intriga internacional. Foi jornalista antes de descobrir que tinha nas mãos material extraordinário para criar histórias de primeira categoria, e foi o que fez, mas teve a sorte de encontrar, aparentemente de forma fortuita, um editor. Forsyth é inglês e cedo aprendeu com fluência francês e alemão, e depois espanhol e russo, e esteve em muitos lugares interessantes e conheceu muita gente influente, na hora certa. Isso fez dele um outsider de sucesso. 

Mas todos nós somos o que somos e temos o que conseguimos obter. Sou outsider apenas porque sou o padre que oficia a própria missa, e isso é bom, muito bom, pois há aquele tipo de outsider que quer ser escritor, mas não recebeu dos deuses as antenas que conectam com o astral. 

Cada um de nós somos únicos e todos somos outsider para o outro, a menos que acolhamos o outro como irmão, como um só, vindos da mesma origem, e que brancos, negros, índios, mulatos, cafuzos e mamelucos somos feitos da mesma substância, como nas ruas de Macapá. Acho que a universalidade que há em mim vem daí, das ruas de Macapá. 

Devorando um galinho de jambu e um camarão pitu numa cuia de tacacá criada por Olivar Cunha e batendo papo com Fernando Canto é que curto o outsider que vive em mim, capaz de sentir o perfume dos jasmineiros chorando nos dias tórridos de Macapá, de ouvir sons que vêm do Caribe e vislumbrar uma negra de olhos verdes sob um vestido de seda branca – elas surgem assim, para mim, e tudo o que tenho a fazer e pô-las nas minhas histórias.

Posso ser o cavalo em que ninguém irá apostar, que participa da corrida para fazer número, que está destinado a produzir sêmen, ou virar charque, mas ainda estou no páreo.

sexta-feira, 15 de julho de 2022

Livro profético alerta para o que está acontecendo neste momento no Brasil. A luta é entre a liberdade e o comunismo. A escolha é sua

José Maria Trindade, um dos maiores jornalistas brasileiros,
já leu O CLUBE DOS ONIPOTENTES e sabe que a polarização não
é entre Bolsonaro e Lula, mas entre a liberdade e o comunismo

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 15 DE JULHO DE 2022 – Alguns livros são proféticos, mas não porque seus autores detenham o dom da profecia, já que o futuro, por ser absolutamente desconhecido, é impossível de ser visto claramente. O que os profetas enxergam são mensagens enviadas do mundo espiritual alertando a raça humana em sua jornada. Assim, livros, ou qualquer tipo de mensagem passíveis de interpretações podem ser vistos como alertas de mentores espirituais. 

É o caso do romance ensaístico O CLUBE DOS ONIPOTENTES (Editoras Clube de Autores, amazon.com.br e amazon.com, 2022, 278 páginas). A edição do Clube de Autores diz em sua sinopse: “Ao investigar tráfico de crianças em Brasília jornalista descobre plano sinistro para impedir, a qualquer custo, que o presidente da República seja reconduzido ao cargo”. Porém é em segundo plano que a história se desenrola verdadeiramente. 

Pouco antes da Revolução Russa de 1917, o príncipe Félix Yussupov participa do plano para matar Grigori Yefimovich Raspútin, o Mago Negro da Rússia, aquele que aparelhou a casa dos Romanov, abrindo as portas para o Comunismo, a peste que, desde 1917, alçou máfias no mundo inteiro ao status de agremiações políticas. Era a chegada definitiva das máfias ao poder em todo o planeta, especialmente o narcotráfico. No Brasil, as máfias, o narcotráfico, chegaram ao poder total pelo Foro de São Paulo. 

O príncipe Félix Yussupov reencarna no Brasil como o jornalista Alex, que agora vai combater aquele que aparelhou o país para a segunda Revolução Russa, neste 2022. A missão do novo mago negro, agora com nove cabeças e nove ventosas, é transformar a Pátria do Evangelho na União das Repúblicas Socialistas da Ibero-América, que, mancomunada com a China, porá fim ao império americano e tornará o Trópico o paraíso da bacanal. 

Mas há um homem que precisa ser eliminado para que isso aconteça. O CLUBE DOS ONIPOTENTES não revela o que virá por aí, ainda este ano, mas, como qualquer acontecimento de natureza profética, faz seu alerta.

quarta-feira, 6 de julho de 2022

Amapá mergulha cada vez mais na sua tragédia. Inauguração da BR-156 é um sopro de esperança

Traçado da BR-156, no Amapá, ligando o Brasil à França

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 6 DE JULHO DE 2022 – Além de assaltar estatais, incluindo bancos, e fundos de pensão, o PT emprestou trilhões de reais a ditadores a fundo perdido, garantindo propina bilionária, e aparelhou o Estado com cabides de emprego que parecem fungo em um assalto que durou uma década e meia e rendeu pelo menos um trilhão de dólares às hienas vermelhas, PIB que poucas nações possuem. Também saqueavam a burra por meio de obras, que iniciavam e jamais concluíam, mas mamavam até o último centavo do dinheiro reservado para elas. 

Em 2019, Jair Messias Bolsonaro assumiu e não deixou ninguém roubar, e vem podando os cabides de emprego. O presidente pegou a grana que vinha sendo desviada e começou a concluir e ampliar as milhares de dezenas de obras inconclusas, visando criar infraestrutura moderna ao país, hoje, o maior produtor de alimentos do planeta. 

Resultado: mesmo com a pandemia do vírus chinês e com a sabotagem do establishment, o Brasil é um dos países que mais se desenvolvem em um planeta acossado por hiperinflação e estagnação econômica. Desde 2019, o Governo Federal já entregou mais de 5 mil obras concluídas em todo o país. 

Um dos exemplos mais emblemático foi a transposição do rio São Francisco. Essa obra era a bacanal predileta do PT e do MDB. Bolsonaro acabou com a farra e hoje o Nordeste nada a braçadas nas águas do rio São Francisco, de poços artesianos e do mar, dessalinizada. 

Na Amazônia, a obra mais simbólica não é petista, pois foi inclusive ignorada pelos petistas, e está à espera de ser concluída. É emblemática por características que costumam ocorrer em obras na Hileia. 

O Amapá é o mais setentrional estado litorâneo, fazendo divisa com a Guiana Francesa. O Porto de Santana, na Região Metropolitana de Macapá, a capital, a sudeste do estado, deveria estar ligado pela BR-156 à Caiene, a capital da Guiana Francesa. Santana foi construído para embarcar o melhor manganês do mundo, o de Serra do Navio/AP, para os Estados Unidos, onde foi estocado como reserva estratégica. Depois que ficaram satisfeitos com a quantidade de manganês exportado fecharam o negócio e o porto foi municipalizado. 

Acontece que Santana pode receber qualquer cargueiro transoceânico e é o porto brasileiro mais próximo, simultaneamente, dos mercados dos Estados Unidos, da Europa e da Ásia, desta, via Canal do Panamá, e pode receber todas as commodities da Amazônia por hidrovias; do Centro-Oeste, por estradas e hidrovias; e do Sudeste e do Sul, por rodovias e hidrovias. 

Mas enquanto o PT preferiu construir um porto gigantesco em Havana, Cuba, com dinheiro pilhado do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o Porto de Santana é subutilizado; serve para o embarque e desembarque de ribeirinhos e o comércio de banana, em vez de também receber e despachar commodities destinadas a todo o planeta, principalmente minérios, via cargueiros transoceânicos; as commodities destinadas à América Central poderiam seguir pela BR-156, que liga o porto à Caiena e de lá para toda a América Central e do Norte. 

O governo federal planejou a construção da BR-156 há 80 anos e vem gastando dinheiro com ela desde então, e nunca foi concluída, um espantoso recorde mundial dos governadores locais, de irresponsabilidade, preguiça e desprezo para com os amapaenses e, de quebra, para com a Amazônia, a teta mais cobiçada pelos comunistas globais; o Amapá é o mais comunista dos estados amazônicos. 

A rodovia termina na cidade de Oiapoque, no norte do Amapá, separado da Guiana Francesa pelo rio Oiapoque. Em 2008, começaram a construir uma ponte binacional, que ficou pronta em 2011, mas não foi inaugurada porque a BR-156 não estava pronta; tornou-se um enfeite até 20 de março de 2017, quando finalmente foi inaugurada, pois a BR-156, mesmo inacabada, é a única via de exportação utilizada por caminhoneiros. 

Quanto à rodovia propriamente dita, no inverno amazônico há trechos que se transformam em atoleiro e, no verão, em um inferno de poeira. O pior é que se ficar ilhado na rodovia não há a quem pedir socorro, pois o Amapá é um dos estados mais selvagens do país, e, Macapá, uma das cidades mais violentas do Brasil, abrigo das facções que aterrorizam todo o país, rota do narcotráfico e paraíso de contrabandistas e de piratas em geral. 

Os amapaenses não veem a hora de o Exército concluir a pavimentação da BR-156 e de o Itamaraty dar um jeito na utilização prática da ponte Oiapoque/AP-Saint-Georges-de-l'Oyapock/França. Quanto à violência em Macapá, a Polícia Federal que o diga. A costa do Amapá, rica em todo tipo de criaturas do mar, é invadida por piratas internacionais. 

Com ou sem BR-156, o comércio de crianças amapaenses e paraenses é intenso na Guiana Francesa e no Suriname, principalmente em cidades como Kourou, onde fica a base francesa de lançamento de satélites, e os balneários de Montjoly e Saint Laurent. Meninas e meninos amapaenses e paraenses são bastante apreciados para bacanais, corrompidos por promessas de casamento com franceses ou pela possibilidade de ir para a Europa, onde imaginam que possam ganhar até 100 euros, cerca de R$ 500, por programa, escapando, assim, da miséria. 

Dos 200 mil habitantes da Guiana Francesa, pelo menos 50 mil são brasileiros ilegais, amapaenses em sua maioria, que fogem do Amapá, estado assolado pela miséria social, roubalheira de colarinho branco, nepotismo, corrupção endêmica e imigração insuportável. 

A capital, Macapá, é reflexo do desleixo administrativo. Cidade sem esgoto, cheia de ruas esburacadas, com fornecimento precário de energia elétrica e água encanada, apesar de se situar na margem do maior rio do mundo, o Amazonas, a cada dia fica mais inchada e violenta. 

Antes de as meninas seguirem para as três Guianas, passam, geralmente, por um estágio em Oiapoque. Boates locais são internatos de meninas e meninos para o abate. Assim, guianenses que atravessam o rio Oiapoque atraídos por sexo são recebidos na cidade de braços abertos – inúmeros bares nos quais o lenocínio prospera, de manhã à noite, açougues onde é possível comprar crianças de, em média, 13 anos.

No Amapá, cidades como Laranjal do Jari, Tartarugalzinho, Calçoene e Santana, esta, na zona metropolitana de Macapá, são, como Oiapoque, vitrines de carne infantil. O jornal O Liberal, de Belém, o mais influente da Amazônia, contém, no seu banco de dados, várias reportagens que confirmam o que eu estou dizendo, com nomes, lugares e datas. 

O Amapá precisa da presença da União, pois além de fazer divisa com a colônia francesa na Amazônia por meio de um dos maiores rios do planeta, o Oiapoque, é uma espécie de paraíso para o contrabando e o narcotráfico. Suas costas são das mais piscosas do planeta, e sempre cheias de piratas pescando tudo o que podem. 

Uma BR inteiramente pavimentada, com postos da Polícia Rodoviária e de combustíveis, além de restaurantes, ao longo do seu trajeto, e uma política aduaneira decente na ponte Brasil-França, poderá fortalecer a presença do Estado brasileiro em uma região onde os políticos costumam baixar as calças para os barões do paraíso marxista.

Não se ouve nenhum chamado vindo daquelas bandas, pois o povo tem medo de se manifestar. Contudo, o Exército continua trabalhando, com o afinco de sempre, na BR-156. Quem sabe Bolsonaro apareça por lá.

Meu último romance, O CLUBE DOS ONIPOTENTES, é a história de um jornalista, Alex, que foi um príncipe russo em uma encarnação passada e que planejou com sucesso a morte de Raspútin, um dos responsáveis pela Revolução Russa. O príncipe reencarna como Alex, que agora vai lutar novamente contra os magos negros do comunismo, em especial o molusco de nove ventosas e seu clube de nove cabeças togadas e saltitantes. Tudo a ver com o Amapá.

domingo, 3 de julho de 2022

Memórias: 50 anos de XARDA MISTURADA, que deu início à minha fase on the road

Ray Cunha, pela lente do artista plástico André Cerino  1913

RAY CUNHA

BRASÍLIA, 3 DE JULHO DE 2022 – XARDA MISTURADA (poemas, Macapá, 1971, 45 páginas), de Joy Edson (José Edson dos Santos), José Montoril e deste que ora escreve, acabou por marcar uma geração. Tínhamos, os três, 17 anos, frequentávamos as casas do poeta e cronista Isnard Brandão Lima Filho, na Rua Mário Cruz, próximo ao Macapá Hotel, da Alcinéa Cavalcante, do pintor Raimundo Peixe, e batia papo com Olivar Cunha, Manoel Bispo e Fernando Canto. 

Não foi fácil arrecadar dinheiro para bancar XARDA MISTURADA, que acabou sendo pago pela mãe do José Montoril. Hoje, folheando o livro, reconheço que jamais entrará na história da literatura do Amapá pelo mérito de seus poemas, embora os versos de Joy Edson já se revelem, então, pedras preciosas. Mas, para mim, significa meu batismo de fogo, o arranque inicial de uma atividade, a criação literária, que sempre foi essencial na minha vida. Não tenho a menor dúvida de que encarnei na geração dos artistas amapaenses dos anos 1960/1970 com a missão de escrever, criar, e é o que faço desde sempre. 

Disse Isnard Brandão Lima Filho, o autor de Rosas Para a Madrugada, na apresentação do livro: “Este prefácio estava em gestação no meu crânio há alguns meses. Numa tarde azul de verão eles chegaram com a bagagem de seus poemas e uma mensagem que me agradou. Eu sempre olho com respeito a Juventude, inclusive a de 70 anos. Olhei-os de repente e abri a mochila dos garotos. Eles estavam muito sérios e calados, esperando o julgamento de um irmão mais velho... 

“Minhas mãos tocaram pérolas e lentejoulas, testaram rubis e palparam diamantes, e meu olhar cigano acendeu de alegria: eu não estava com certeza diante de embromadores, como conheço muitos pela aí, nesses roteiros amargos que Deus, soberano poeta, às vezes oferta aos palhaços mais ricos do Mundo – os artistas! Fumei meu cigarro e olhei para o Alto e numa prece feliz agradeci ao Mestre. 

“Nem sempre se encontra o milagre da Poesia, ainda verde, procurando a Porta Secreta do Triunfo. Surgiu no olhar deles o brilho esperado; prometi a mim mesmo não deixá-los sozinhos. 

“Lembro-me perfeitamente do meu primeiro poema publicado (nem sei se era) e da crítica severa e positiva de meu pai jogando longe o sonho de três dias, muito bem treinado pela métrica que Waldemiro Gomes me ensinara. O tempo passou, deixou sangue e lágrimas nos meus caminhos. Eu fui andando à procura da Poesia, até descobrir que deveria encontrá-la dento de mim... 

“Um dia, doze anos depois, tomando um copo de vinho e prostituído pela vida, chamaram-me poeta... Eu começava a ser marcado de duas maneiras: pelo mundo e pelo pecado de ser artista. 

“Encontrei agora três meninos que prometem vender seu pão e doar seu sangue. XARDA MISTURADA é um livro de poemas e o batismo de fogo, a hora da verdade de Ray, Montoril e Edson iluminando os corredores da estrada dos iluminados. 

“Haverá muito tropeço e pedras pelo caminho; amor e glória, angústia e dor são fatos positivos no futuro. Mas eles hão de olhar de cima os grandes edifícios e sorrir calados para os cadilacs de luxo. Nada se compara, senão Deus, ao milagre argênteo da Grande Corrente Astral, e na Quinta Azul só podem entrar aqueles que trouxeram, ao nascer, a clara marca dos pequenos deuses”. 

No começo do ano seguinte peguei a estrada. Macapá era uma cidadela ribeirinha, mas seu rio, o Amazonas, conduzia ao mundo. Eu levava minha cota do meu batismo de fogo, agora como Ray Cunha, uma profecia do Isnard de que entrarei no mercado livreiro norte-americano. Meu nome é Raimundo, do gótico “sábio protetor”, em homenagem a meu avô paterno, Manoel Raimundo Cunha, e a meu pai, João Raimundo Cunha, além de uma promessa de vovó Rosa Maria Cunha a São Raimundo Nonato, padroeiro das parteiras e obstetras. 

Tomei um barco no trapiche de Macapá e parti rumo a Belém, onde, com ajuda do meu irmão Paulo Cunha e de amigos peguei carona pela Belém-Brasília, ainda em construção, e, literalmente sem lenço e sem documento, fui bater em Brasília, onde consegui, no antigo Ministério da Educação e Cultura (MEC), passagem para o Rio de Janeiro. 

Cheguei ao Rio em um dia de semana, naquele ainda tão vívido 1972. Como disse, eu tinha 17 anos e não portava sequer carteira de identidade, e contava apenas com o terceiro ano do antigo curso ginasial, hoje, ensino fundamental. Cheguei no meio da tarde e na rodoviária pedi informações, tomei um ônibus para o coração do Rio de Janeiro, o cruzamento das avenidas Presidente Vargas e Rio Branco, onde fica a Igreja de São Sebastião. 

Levava comigo o endereço de trabalho de uma amiga do pintor e poeta Manoel Bispo, de Macapá, e a confiança inabalável de um garoto ribeirinho de que a amiga do Manoel Bispo me receberia de braços abertos. Localizei-a quase à saída do trabalho; já na rua ela me olhou e me disse que eu não poderia ficar na casa dela, desejou-me boa sorte e sumiu na multidão.

Eu levava também comigo o endereço de um amigo que conheci no Colégio Amapaense, Sílvio, paulistano que fora para Macapá com o pai, um americano que trabalhava na Indústria e Comércio de Minérios de Ferro e Manganês (Icomi), empresa que, juntamente com a Bethlehem Steel, transportou do município de Serra do Navio, para os Estados Unidos, a jazida do melhor manganês do planeta, a preços vis, e deixou uma imensa cratera no Amapá. 

Na época, o Sílvio morava com os tios na Alameda São Boaventura 208, Fonseca, Niterói. Cheguei lá à noite. O Sílvio, sua tia e seus primos me receberam muito bem. Em novembro daquele ano apresentei-me na Primeira Região Militar do Exército. Eu meço 1,64 metro de altura e creio que pesasse, naquela época, 50 quilos (hoje, peso 64 quilos), e a mudança de clima e a poluição causaram uma coceira no meu corpo todo, de modo que fui dispensado do serviço militar, e vi meu propósito de morar no quartel esfarinhar-se. 

O tio do Sílvio era um oficial da Aeronáutica, negro, coisa rara na Ditadura dos Generais (1964-1985). O tio do Sílvio chegou mais cedo. Eu estava tocando violão na sala. Aprendera-o em Macapá com um amigo de adolescência, Ribamar Teixeira. O tio do Sílvio ordenou que fôssemos todos dormir. Eu dormia em um sofá na varanda. Continuei tocando violão. Então o tio do Sílvio veio do quarto dele e ordenou que eu pegasse minhas coisas e fosse embora. Juntei meus pertences – algumas roupas e exemplares de XARDA MISTURADA – e fui para a rodoviária central de Niterói. 

Foi uma longa noite. Só senti mais frio na estação aeroviária de Buenos Aires, em certa noite que lá passei, e da qual surgiu o poema Noite Horrível, publicado no livro Sob o Céu nas Nuvens (edição do autor, Belém, 1982). 

Só quem passa uma noite dessas é que sente o quanto o sol do alvorecer é vivificante. Nem bem o dia amanheceu, lavei o rosto, tomei café com leite e pão com manteiga e me mandei para a representação do governo do Território Federal do Amapá, no centro do Rio de Janeiro. 

O representante, Couto, era conhecido por ajudar amapaenses. Conversamos. Ele me perguntou se eu conhecia o Itabaraci, que é de uma geração ligeiramente antes da minha, de Macapá (onde hoje vive); contudo, seu pai, Aimore (em tupi, não leva acento agudo na última sílaba) Nunes Batista, era padrinho da minha irmã caçula, Rosa Maria. Disse ao Couto que sim, conhecia o Itabaraci, e ele me deu um conselho. 

– Vai procurar o Itabaraci; ele mora num apartamento em Copacabana, onde a senhoria, dona Maria Antônia, aluga vagas – disse-me ele, e me deu o endereço: Rua República do Peru 210, Apartamento 204, entre as ruas Tonelero e Barata Ribeiro. Vivi dois anos lá. 

Dona Maria Antônia, paraense, funcionária dos Correios, há muito radicada no Rio, foi uma das mulheres mais bacanas que encontrei. Ela simplesmente me acolheu, e só passei a pagar vaga depois que ela mesma conseguiu emprego para mim, como faz-tudo numa empresa de conserto e venda de peças de eletrodomésticos, primeiramente numa loja em Ipanema e depois em Copacabana. Quanto ao Itabaraci, e seu irmão, o violonista e pianista Aimorezinho, que nessa época tocava na banda do Raul Seixas, trataram-me como a um príncipe. Por isso sou eternamente grato a eles. 

Logo depois, o compositor amapaense Luiz Tadeu Tavares Magalhães, que estava morando no Rio e trabalhava na White Martins, conseguiu para mim uma vaga como contínuo na filial de Jacaré, na Zona Norte. O Tadeu é músico e radialista, e me entrevistara várias vezes, na condição de escritor, em Macapá. 

Em 1971, antes de publicar XARDA MISTURADA, participei de um jornalzinho colegial anarquista, A Rosa, de modo que eu tinha ideia de como fazer um house organ, e foi o que eu fiz, o jornalzinho da filial. Além disso, eu pagava mensalmente uma empresa que fornecia entradas a pelo menos quatro peças teatrais por mês. O gerente da filial, dr. Arlindo, também era cliente da mesma empresa, e andamos nos encontrando nos teatros. Conclusão: ele morava em Ipanema e passou a me dar carona para Copacabana quando saíamos juntos. O jornalzinho e o interesse comum por teatro entre o gerente da filial e eu, além da companhia do Luiz Tadeu, tornavam o ambiente pesado de multinacional em um convívio bastante agradável. 

Às sextas-feiras, principalmente após recebermos o salário, eu saía com o Luiz Tadeu. Às vezes, íamos para a casa do nosso colega de White Martins, Frank Loiola Matos, em Padre Miguel. O fato é que bebíamos muito. Também foi nessa época que conheci o Luiz Loyola, Lula, irmão do Frank, no Curso de Interpretação Teatral no antigo Teatro de Comedia do Estado da Guanabara (Teco), na turma do professor e ator Jorge Paulo. A prova final do curso foi a encenação de Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, com músicas de Chico Buarque de Holanda, no extinto Teatro de Arena no Largo da Carioca. Fiz um dos coveiros. 

Nessa mesma época, começamos leituras e laboratório da peça Miolo de Pão, texto de Luiz Loyola e que expressava “a realidade conflitante, festiva e utópica de uma família do subúrbio carioca” – como diz o próprio Loyola. Nós nos reuníamos na casa do Jamil Viana, na Pavuna; na casa da belíssima Beth Bello, na Ilha do Governador; e na Vila Valqueire. 

No quarto do Loiola, BOE (Boite Onda Estudantil), na casa em Padre Miguel, “aconteciam reuniões com muita música, teatro, poesia, happenings, num clima underground e ambiente psicodélico, cheio de posters de vanguarda, caricaturas, painel com capas de LP, objetos antigos, como um armário centenário com um enorme espelho de cristal na frente da porta, que encantava os narcisistas, uma luminária em formato de chapéu mexicano vermelho, iluminada por uma tênue luz azul opaca, lembrando cabarés da Avenida Prado Júnior, no Leme; no chão, havia um espelho retrovisor redondo, de aproximadamente um metro de diâmetro, do serviço de trânsito do Rio, apelidado de “poço” pelo companheiro de trabalho Paulo Cesar Americano do Brasil, da Remington Rand, onde trabalhei com Luiz Tadeu no inicio da década de 70” – lembra Luiz Loyola. 

“Num desses eventos, em uma noite festiva, tive o prazer de receber o amigo Ray Cunha, sutilmente trajando calça jeans do Lixo (boutique cult de Copa), camisa mangas compridas com gola rolé cor roxa e sapatos bicolor vermelho e amarelo... a figura tinha cabelos ruivos black-power no melhor estilo saltimbanco do ator do filme musical Gospell... em sua companhia chegaram Luiz Tadeu e Iara Picanço, depois de uma viagem de trem da Central do Brasil, direto do subúrbio do Lins de Vasconcelos” – recorda Luiz Loyola. 

“Numa única visita à casa de Ray Cunha, na Rua República do Peru, em Copacabana, na década de 70, o poeta me recebeu em seu quarto (vaga), onde havia uma cama beliche e o seu estado de saúde era gripal e febril, e driblamos aquele quadro e resolvemos sair pra respirarmos uma brisa do mar caminhando pelo calçadão, depois paramos numa lanchonete e tomamos um delicioso café e suco de laranja com sanduíche, e serpenteando pelas ruas sombrias do bairro, o poeta declamou Essa Copacabana Triste Mulher, do livro Sob o Céu nas Nuvens: “Tua boca é pura flor embelezando-se ao sol de Copacabana/E tua figura é um desenho gostoso esculpido ao sol de Copacabana/E quando Copacabana inteira se prostituir/Os gemidos de amor serão a canção em moda em Copacabana/Então a praia Copa será uma enorme cama.” 

“Não posso deixar de relatar, uma noite quando eu e o poeta chegamos em minha casa em Padre Miguel fomos para a cozinha e nos deliciamos com café com bolo, pães, cuscuz de fubá preparados por minha mãe, dona Maria Amélia (in memorian); foi quando o poeta, degustando uma banana, começou a declamar versos de XARDA MISTURADA, dando um toque tropicalista romântico àquela noite de inverno tímido” – registra meu caríssimo amigo Luiz Loiola. 

Nessa mesma época, Manoel Bispo foi fazer um curso de pintura no Parque Lage, e foi vizinho do Luiz Tadeu, no Lins. Havia fins de semana que o Bispo e eu saíamos para bater perna. Parávamos para ver os pintores que expõem nas ruas da Zona Sul, entrávamos nas galerias, íamos a cinema e conversávamos sobre tudo. Eu ia muito a teatro, cinema de arte, circos como o Moscou e a grandes shows, como o Santana. Ia muito, também, aos programas de auditório da extinta TV Tupi. Varava o Rio noite adentro. Em 1974, já como balconista da filial da White Martins de Jacaré, pedi demissão e voltei para Macapá. 

Em 1982, em Belém, com o matrimônio fracassado, parti novamente para o Rio de Janeiro. Mas era como se eu estivesse sonhando. Lembro-me que fui com o Luiz Tadeu para Pedra de Guaratiba, onde o Luiz Loyola festejou seu aniversário com muita batida do Primo, vinho, cerveja, happenings e a bela voz do Luiz Tadeu. Dessa vez, minha estada no Rio durou pouco tempo. Retornei para Belém e concluí o curso de jornalismo. 

Nos anos 1990, eu estava novamente no Rio quando o pintor Olivar Cunha expôs na Fiesp, em Botafogo, defronte ao Shopping Rio Sul. Ao coquetel de abertura estavam presentes Luiz Tadeu e sua filha e minha querida amiga Luciana Magalhães, e Luiz Loyola. 

Em 1992, fui ao Rio para lançar A Grande Farra (edição do autor, Brasília, 1992, contos). Foi uma estada etílica. 

Em 2000, fui participar da Bienal do Livro, com Trópico Úmido – Três Contos Amazônicos. Num domingo de manhã eu acabara de sair da praia de Ipanema, com Luciana Magalhães, quando houve o primeiro arrastão televisionado – cenas aterrorizantes. Também dessa vez foi como se eu estivesse mergulhado em um sonho etílico. 

Em 2010, passei uma semana com minha gata, Josiane, no Rio. Ela é psicóloga e foi participar do décimo primeiro Congresso Brasileiro de Psicooncologia e do quarto Encontro Internacional de Cuidados Paliativos em Oncologia, de 22 a 25 de setembro, no Centro de Convenções do Colégio Brasileiro de Cirurgiões (CBC), em Botafogo. 

Hospedamo-nos no Hotel Inglês, ao lado do Museu da República, onde Getúlio Vargas se matou, no Flamengo. Jantávamos em um restaurante defronte ao Museu, quase sempre camarão. Todas as comidas daquele restaurante são deliciosas. Aquela parte do Flamengo, até Botafogo, passando pelo Largo do Machado, é a Europa no trópico – fantástico. Durante o dia, enquanto a Josiane estava no CBC, eu incursionava pela Zona Sul, em um resgate memorialístico redentor da cidade que eu tanto amo. Durante aquela semana eu esquadrinhei a Zona Sul, agora com o olhar maduro do homem de 56 anos de idade e que não mergulhava mais em bebedeiras mortais. 

Perambulei por muitas ruas da Zona Sul, observei a arquitetura, a Lagoa Rodrigo de Freitas à noite, bati perna em Copacabana, Ipanema, Leblon, Barra da Tijuca, Flamengo, Botafogo, centro do Rio, e retornei ao Pão de Açúcar, com minha amada. Lá de cima sabemos de pronto por que o Rio é a Cidade Maravilhosa. Há cidades que aonde quer que eu vá estarei sempre nelas, porque elas, como o Rio de Janeiro, vivem para sempre no relicário do meu coração. 

Em 1975, fui a Manaus para conhecer meus parentes paternos. No mesmo dia da minha chegada fui dar uma volta e entrei no primeiro jornal que encontrei, Jornal do Commercio, então na Avenida Eduardo Ribeiro, onde, e nada é por acaso, havia uma vaga para repórter policial. Comecei no dia seguinte. Rotineiramente, cobria o Tribunal de Justiça e as delegacias de polícia, principalmente a central, um casarão no centro da cidade, do qual guardei na memória o fedor de urina e de tortura. Ali, perpetrava-se todo tipo de barbaridade. Depois trabalhei em A Notícia e, finalmente, em A Crítica.

Em 1978, fui para Rio Branco, trabalhar no jornal Gazeta do Acre, comandado pelo Elson Martins, um dos textos mais brilhantes da Amazônia, editor também do Varadouro, o mais famoso jornal de resistência à ditadura produzido na Hileia. Tive, assim, rapidíssima passagem pelo Varadouro, em março de 1979, escrevendo, em jornalismo literário, a matéria Roteiro da prostituição, publicada, com chamada de capa, na edição 14 do Varadouro.

Em 1987, graduei-me em Jornalismo pela Universidade Federal do Pará e resolvi retornar ao Rio, mas, em Brasília, Walmir Botelho, então diretor de redação do Correio do Brasil, me convidou para trabalhar com ele como redator da capa do jornal. Aceitei, casei-me com a gata Josiane Souza Moreira Cunha, nasceu minha princesinha Iasmim Moreira Cunha e até hoje moro em Brasília.

Aqui e ali vou a Macapá, onde tenho encontro marcado com Fernando Canto. A última vez que estive lá, de 11 a 16 de janeiro passado, foi uma grande farra. Estivemos juntos quase o tempo todo, vagabundando por toda a orla, até o Curiaú, e parando em restaurantes e bares da cidade. Encontrei com o Manoel Bispo e bati um longo papo ao telefone com a Alcinéa Maria Cavalcante, musa da minha geração e a grande dama da poesia macapaense.

A realidade é infinita como a própria vida. Cada qual tem a sua própria realidade, assim como cada circunstância e cada local e horário tem realidade específica, de modo que a realidade é um labirinto infinito em sucessão e variação. A sensação de que só há uma realidade é que só nos encontramos em um determinado ponto desse labirinto e em determinado momento, de modo que aquele ponto e aquele momento criam a ilusão de que só há aquela realidade.

De certa forma, isso se parece com a observação do filósofo espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955), de que só é possível chegar ao entendimento ao superar as próprias circunstâncias, que estão, por sua vez, em permanente processo de mudança: “O homem é o homem e a sua circunstância”. Acho que, em suma, esta foi a conversa que tive com Fernando Canto, durante os quatro dias em que estive em Macapá, ora a bordo do carrão tipo James Bond do Fernando, ora em bares, ora ao telefone.

Fui à Macapá para ver minha irmã Linda, que está bem. Fernando Canto e eu batemos muito papo durante esses poucos dias. Senti-me personagem de ficção, o Mundico dos Tempos Insanos, conto que eu acho o melhor do Fernando, publicado inicialmente no livro O Bálsamo e Outros Contos Insanos, pela Editora da Universidade Federal do Pará, em 1995. Na companhia do Fernando sinto a velha sensação de aventura, de novas possibilidades, de coisa nova, uma estrada que se estende a perder de vista, um eterno batismo de fogo, XARDA MISTURADA para sempre.

sexta-feira, 1 de julho de 2022

Aprendi a ser feliz dando uma volta em meu quarto. Meu quarto é um desejo sem conter-se...

Ray Cunha no seu quarto, no Sudoeste, Brasília/DF

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 1 DE JULHO DE 2022 – Meu primeiro livro-solo, SOB O CÉU NAS NUVENS, foi publicado em 1980, em Belém/PA, com prefácio do poeta amazonense Jorge Tufic, quarta capa do ficcionista também amazonense Antísthenes Pinto e orelhas assinadas pelo contista amapaense Fernando Canto. 

Jorge Tufic: “Ray Cunha é o poeta da informalidade. Seu verso é livre como o ar da cidade em que todos sofremos. Um ar saturado de palavras antigas e gemidos novos, onde os significados inerentes à existência dos homens travam batalha de morte com suas próprias raízes semânticas. 

“A interferência descontraída do poeta nos acontecimentos de rotina, nos círculos concêntricos da urbe, dá-se aqui de maneira frontal, de dentro para fora, à maneira extraordinária de um soco que se recebe da imagem nossa, refletida no espelho. O poeta se desnuda, participa, esculhamba e, continuando insatisfeito, remove os escombros da luta e volta a ocupar o mesmo espaço físico para novos confrontos com o Dinossauro. 

“Assim é a poesia deste jovem que se oferta aos leitores dispensando a clássica maturidade da rima e da métrica. Ele prefere antes o atrito gostoso das palavras espontâneas, que a perversão da matéria-vida converte numa sequência de catarses prometidas ao esgoto metafíssil dos outros. Atrevendo-se a velejar sob ventos contrários ao bonitinho das frases bem arranjadas, o vate deixa escorrer seu líquido de fogo modelando estrofes necessárias ao seu grito de libertação. “Se não te importas eu escrever verdades/Então pronto, serei esplêndido!” 

“A juventude poética deste livro jamais acarretará futuros arrependimentos para seu autor. Isto porque eu nunca soube de alguém que fosse autêntico e se arrependesse por isso. Em recente papo com meu amigo Guimarães de Paula, hoje a braços com as artes visuais no seu ateliê do Jardim Haidéya, segredou-me ele, um tanto quanto frustrado, que gostaria de pintar suas telas exatamente como se expressa na roda de seus companheiros do Clube da Madrugada. Pois bem: este nível de igualdade entre o coloquial e o artístico já fora atingido por Ray Cunha. Senão vejamos: 

“Ah se tu fosses minha!

Partiríamos para o sistema das fadas

Sentados no colo das flores

Tomaríamos néctares divinos.

Depois, cavalgando besouros furta-cores

Navegaríamos num mar transparente

Beijando-nos sem fim. 

“Por estes caprichos do mundo, por estas coisas inefáveis que se lançam ao papel, isentas do bolor cancerígeno dos gabinetes fechados, é que antevejo para Ray Cunha o sucesso cabível pela sua recolha de poemas. Eles estarão muito bem melhor quando forem lidos e admirados por quantos, jovens como o autor, sobrestam ainda a respiração para gritar ou cantar, como gritam e cantam as estrofes de Whitman, os poemas de Neruda e O Guardador de Rebanhos, de Fernando Pessoa. 

Antísthenes Pinto: “Os poemas de Ray cunha me maltrataram profundamente. Decorridos vários dias retornei à leitura adredemente preparado para que eles, os poemas, não mais me entortassem com sua força de maldição... 

“O poeta é um dos mais espantosamente loucos que tenho conhecido. O livro SOB O CÉU NAS NUVENS há de ferir muitas suscetibilidades, mas além da temática e da linguagem audaciosas, há aquela preocupação rigorosamente estética”. 

E Fernando Canto: “Nascido na Amazônia em 7 de agosto de 1954, Ray Cunha, estudante que foi rebelde e inquieto, sobrepujou-se  lutando e vencendo seu leão interior. Prosador dos melhores e poeta desmascarador, consegue mostrar-nos a necessidade angustiante do homem de pensar no cosmos e pisar no chão. 

“Sempre buscou nas mulheres uma forma de opção real, detendo-se no belo que dá forma à sua criatividade. Começou a amar as madrugadas ainda adolescente e aos 17 anos publicou Xarda Misturada, uma coletânea de poemas com mais dois jovens do Amapá. Já se manifestava aí o cheiro das palavras bem cozidas que hoje transcende teluricamente no seu SOB O CÉU NAS NUVENS”. 

Escolhi um dos poemas do livro para publicar aqui, NOITE HORRÍVEL, que escrevi em Buenos Aires, em 4 de outubro de 1974, em plena fase on the road:

Noite que não mais termina

Nesta estação aeroviária

Noite que apenas começou

E que não mais termina

Para um aventureiro enveredado na solidão

Inconfortado e sozinho

Revelando sua gana de escrever suas amarguras

Noite miserável rastejando devagar como lesma

Esta noite que não mais termina

Assustará nas noites de recordação

Fazendo estremecer com seu mais leve cheiro

Noite cheirando a prisão desconhecida

Que paralisa os nervos dos forasteiros ao desabrigo

Ar que fulmina

Com seu bafo gelado

Na solidão de uma chegada

Frio que não deixa sossegar.

Eis porque estou cansado e quero o aconchego de um lar

O amor de uma mulher

Ou uma poesia qualquer

Não mais essas noites.

Acho que a incerteza achei numa noite estranha

Agora sou cético

Acredito num prato de sopa

Feito por minha mãe

Não nessas sopas regadas de favores

Aprendi a ser feliz onde moram os que me dizem respeito

Aprendi, mas aprendi por aí

Onde o mar é salgado

O frio gelado

E a solidão mais forte

Quando se é fraco

Aprendi a ser feliz dando uma volta em meu quarto

Meu quarto é minha casa

Meu quarto é um desejo sem conter-se...