quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Memorial dos sentidos



RAY CUNHA


Haverá obra de arte mais emocionante do que mulher muito linda?

Sim, nua!

Cheirando a púbis!                 

E mais bela do que isso?

Grávida!

Amamentando!

Mais belo

Só crianças rindo!

Luz se eternizando!

 

Sinto cheiro de mulher nua

Ostra com Antarctica enevoada, em julho, às 9 horas

No ar saturado de mulheres lindíssimas e suadas, em Salinas

 

Tu precisas me lamber com teus olhos verdes como lápis-lazúli

Para eu sentir o acme

Precisas apenas sorrir e tocar nos meus finos lábios

Para que eu morra como as rosas, que não morrem nunca

Porque são imortais na sua explosiva beleza

 

Imobilizo minha amante pelos cabelos

Beijo-a na boca, faço-a gritar de prazer

Ela é a própria noite

Café noturno, cheio de mulheres misteriosas de tão lindas

Que dizem oi quando passo

 

O cheiro de púbis ruivo

Inunda meu olfato, meu paladar, meu cérebro.

Degusto Antarctica, com Jorge Tufic, em Manaus, no Nathalia

Lambo o rosto da Tharcilla

Beijo os lábios carnudos e mordo o pescoço da Mara

 

Como fez Isnard Brandão Lima Filho, oferto rosas para a madrugada

Ao extrair gemidos da mulher amada, percorrendo sua pele de jambo

E sonho com leões caminhando na praia, ao amanhecer

 

Igual Picasso, com seus olhos negros, nonagenários

Sou como pássaro que nunca envelhece

Nasci com asas invisíveis

Que se equilibram no éter, como avião de caça

Riscando um golpe vermelho no azul           

 

A noite chega, ouço os alísios

Que me falam de Macapá e da Estação das Docas

Então compreendo que o som que vem do vento

São vozes e risos femininos

Como a nudez das mulheres muito lindas

Boeing pousando

Navio todo iluminado e em festa, no porto

Cataclismo de rosas

O atrito da Terra no éter

O Concerto Para Piano e Orquestra, em Ré Menor, de Mozart,

O choro dos jasmineiros

Chanel 5

Shoppings lotados

De mulheres seminuas

Em Brasília, e em todas as grandes cidades do mundo

Os lábios de Alinne Moraes ao meu ouvido

Prenhes de romance e mistério

A mulher amada

Que habita o azul dos meus gritos

 

Na minha memória

Barcos deslizam na latitude da Linha Imaginária, na boca do rio Amazonas

E despencam no Atlântico

Espero as chuvas com a mesma sofreguidão com que aguardo

O outono, o inverno e a primavera

O verão, como ocorre em todas as estações da vida,

Inunda um planeta de rosas tão azuis que sangram

E mangas doces como seios de mulheres de olhos de esmeraldas

E, se é madrugada, a chuva se confunde ao som

Que não se interrompe nunca

Do mar

Então, o atrito da Terra no espaço invade minha alma

E se mistura ao perfume das virgens ruivas

Misterioso como mulher nua

Como a luz, como o éter, como o próprio triunfo

 

Ah! meu amor, tu és meu amor porque teu riso impulsiona meu coração

Porque tu crias a vida, pois à tua passagem os jardins se levantam

E a luz infinita vibra em oração

Que escapa dos teus lábios

 

Quisera eu ser poeta, e dominar a força de gravidade com palavras

Para te dedicar versos

Que contivessem o mar

Um oceano inteiro de rubis, azuis como o céu

 

Depois que te conheci, exorcizei o medo

Aprendi a escutar o silêncio das madrugadas

Comecei a voar no perfume dos jasmineiros

 

Sou teu, todo teu, inteiramente teu

Pertencer-te é o mesmo que a liberdade

É ascender, vencer a eternidade, e sentir a presença de Deus!

 

A noite mais azul é quando

Assassinos me perseguem, derroto-os

E durmo com a princesa.

Isto só acontece nas noites tão azuis

Que um Boeing 777 fere-as

E sangue verte sobre as rosas

Que o acme da princesa

Transforma em rosas colombianas.

A noite mais azul é tórrida e os jasmineiros choram

O mundo recende a maresia      

E o meu corpo

Volta a ser rijo como os punhos de Muhammad Ali

Quando acabou com George Foreman, no Zaire.

Então me transformo em luz

Nesta noite excessivamente azul

 

Estou sentado em um quiosque defronte ao Macapá Hotel

Mas há mulheres tão lindas que as vemos apenas em grandes aeroportos internacionais

Estou só, mas o rio Amazonas, o maior do mundo, ruge como o mar em Copacabana

Na maré cheia, e salpica meu rosto, escanhoado para esta noite

Estou aparentemente só

Pois ouço merengue

E meu Pai enviou uma legião que me acompanha por todo o sempre

Estou só com meu coração

Pois sinto o perfume das virgens ruivas

Relicário de pedras preciosas como acme da mulher amada e o choro dos jasmineiros

Nas tórridas noites da Linha Imaginária do Equador

Estou só                         

Mas estão comigo Belém, Manaus e Rio de Janeiro

E meus amigos logo chegarão

Minha solidão é como a dos pugilistas e dos escritores

Quando começa o assalto ninguém os pode socorrer e eles só contam com a própria luz

Por isso nunca estou só

Pois ouço do mar o Concerto para Piano e Orquestra, em ré Menor, de Mozart

Estou só

Mas o céu é tão azul que chove rosas vermelhas colombianas

E o ar é prenhe do cheiro de mulher nua

 

Sinto rosas desabrochando como a vertigem do primeiro beijo

No ar prenhe de Chanel 5

Meu coração respira o sabor da mulher amada

Cheiro de mar numa tarde de julho

Ao choro dos jasmineiros

Em tórrido anoitecer na Estação das Docas

Sinto o cheiro de madrugadas

Acme nos lábios da mulher amada

Secos de gozo, e que ela umidifica com a língua

Tirando os cabelos do rosto

Meu coração está prenhe do sabor indescritível

De púbis, abismo de galáxias

Inalcançáveis, mas que cintilam no azul da minha vida

 

Anoitece

O rio Amazonas ruge defronte ao Macapá Hotel,

Debaixo do Trapiche, rodovia que conduz à noite

Tão azul que sangra

Estou sentado

Sozinho

Em um quiosque

Degusto Cerpinha enevoada

Parece que estou só

Mas converso com meus antepassados

Com a mulher amada

Com meus anjinhos e minha princesa

Com Isnard Brandão Lima Filho

Alcinéa Maria Cavalcante

Iara Marcille

Deury Farias

Olivar Cunha

Joy Edson

José Montoril

Fernando Canto

Raimundo Peixe

Alcy Araújo

Luiz Tadeu Magalhães

Manoel Bispo

Myrta Graciete

Tereza, Leila, Sílvia e Telma

Um cataclismo de rosas vermelhas

Juntam-se a nós Ernest Hemingway

Antoine de Saint-Exupéry

Gabriel García Márquez

Vargas Llosa

Pablo Picasso

André Cerino

Ouço merengue

Um navio, grande como uma cidade, surge, lento, até aportar, feérico

Despeja uma legião de espíritos e anjos

Que se juntam a nós

Chanel Número 5, Dom Pérignon, maresia e leite da mulher amada

Tomam conta de tudo

Como paz se alastrando na minha memória

 

Por que escreves? – pergunta-me o jornalista

– Para viver – respondo

Pois só com as palavras desnudo a luz

E voo até o fim do mundo

Por isso, escrevo granadas intensas como buracos negros

E garimpo o verbo como o primeiro beijo

Escrevo porque escrever traz aos meus sentidos

Cheiro de maresia

Dom Pérignon, safra de 1954

O labirinto do púbis no abismo do acme

Mulher nua como rosa vermelha desabrochando      

 

Que sensação estranha

Na hora de ser enforcado

Ser salvo e dormir com a princesa

 

O primeiro beijo que me deste explodiu

Como relâmpago na minha alma

Feriu-me, doce como brisa,

Pétalas pousando no púbis de um anjo

 

Desde então, flor da minha vida,

Sou prisioneiro do teu olhar

Grávido de ti, como um abismo,

Mulher amada

 

Segue-me, pois te mostrei quase nada.

Tenho a chave dos sonhos,

Que conduz para a eternidade

 

A fogueira do nosso amor, minha namorada,

O voo vertiginoso

Da luz movida a acme

 

Meu bem, estou à tua espera, vibrando de alegria

Pois esperar-te é como a emoção que precede o garimpeiro

Ao encontrar a maior pepita de ouro, dez anos depois

No morro do Salamangone, Serra Lombarda, município de Calçoene

É como a felicidade de abraçar crianças que escaparam de um naufrágio

Ao largo de Marajó

Ver rosas nuas em toda parte

Só de te esperar!

Amor da minha vida, esta noite será eterna

Porque nesta casa

Só haverá nós dois e a noite, presente de Deus,

para ti

Já arrumei tudo, as flores, o vinho e a comida, camusquim com camarão pitu

Seremos nós dois e os diamantes que garimpei toda a minha vida

E que só encontramos no céu de Macapá, em agosto, nos anos 1960

Ouviremos La Cumparsita, na voz de Julio Iglesias

E dançaremos lentamente, nossos lábios se roçando

E ouviremos Suave é a Noite, com Alcione

E Amarcord, de Nino Rota

Então, voando nas asas de Dom Pérignon, safra de 1954

Beberei colostro e sentirei o sabor da tua pele e do teu púbis

E será madrugada

A quem ofertarei teus gemidos, que espalharei no jardim da minha alma

Mulher amada

Vem logo

Pois a noite já chegou

Como um navio, um continente, uma galáxia

Só nossa!

 

Teu dorso, à sombra da tarde que finda e escoa em murmúrios

É alvo como pétala de rosa vermelha; sinuoso; nu

Agarro-me aos cabelos, às ancas, aos ombros, ao perfume, bêbedo de gemidos

A noite se instala como transatlântico no porto

Feérico, iluminado como o Copacabana Palace

Tuas costas são alvas como jambo

De olhos fechados, sorvo cheiro de nudez

Sabor de Dom Pérignon, safra de 1954

Ouço Concierto de Aranjuez, de Joaquin Rodrigo

E os 14 minutos e 10 segundos do Bolero, de Maurice Ravel,

Sob a regência de Silvio Barbato

Abro os olhos e enxergo o halo azul da noite

Suave como o primeiro movimento, allegro,

Do Concerto para Piano e Orquestra, em Ré Menor,

Número 20, K. 466, de Mozart

Pulsar longínquo, o atrito da Terra no espaço

Gemidos femininos se esvaindo

Som de maresia

Sangue circulando nos tímpanos

O segundo movimento, romanze,

É de estrelas se acamando no azul da alma

O terceiro movimento, rondó,

Flores se abrindo ao riso de crianças

Solto o urro, vibrante, de leão alado, ao ouvir gritos abafados,

E sentir que desmaias ao acme

 

Ah! Tu és como uma flor rindo ao sol

Linda como asas que sustentam o voo impossível

Intensa como a vida

Nua, sob vestido de seda

Esplendorosamente inalcançável

Ah! Tu és a alegria que não finda

Luz que inunda a galáxia

Iridescente como pedras preciosas

Néctar que sorvo em sonhos

Enlevado na vertigem da subida íngreme

Azul abismal

Leva-me para a cumeeira

Inda que eu não regresse

Nem desperte

 

Procuro na luz dos teus olhos

Misteriosos como a noite

Nos teus lábios de rosa vermelha esmigalhada

Nos meridianos do teu mar

Perder-me no azul

E sentir o sabor da tua boca

Do teu leite

Do teu púbis

Num desejo que me consome e não cessa nunca

 

As mulheres são a ilusão mais pungente

Que existe

Porque tornam o desejo inesgotável

E não saciam nunca

Porque, por mais que as amemos, são inacessíveis

E, no entanto,

Basta o olhar da mulher

Para acenderem-se todas as chamas

Munir de asas o homem mais medíocre

E engravidar de perfume o mundo

 

Em movimento imperceptível, como estrelas nascendo,

Pouso o olhar nas penugens do teu corpo.

Durante muito tempo meu olhar permanece imóvel,

E agora é navalha te lambendo.

Avião rasgando o azul do céu de agosto da Amazônia,

Que, de tão azul, sangra.

Ainda te agarrando com as tenazes do meu olhar

Começo a imaginar meu falo na tua boca,

Esguichando morno suco, que bebes avidamente.

Então a fera faminta e enjaulada fenece, arquejante, até ressuscitar,

Como erupção de desejos.

Mas isso é só no olhar, porque vou sugar-te a vida com minhas mãos ensandecidas

E devolvê-la com mais fogo ainda.

Por ora, o olhar desliza no dorso imobilizado, suplicante.

Tu pareces adormecida, mas estás atenta, à beira da explosão,

À espera da minha língua, das mãos que te pegam suavemente.

Tu suplicas ação, mas meu olhar te lambe pacientemente,

Até deixar tua pele penugenta úmida de saliva.

Meu olhar é como uma boca.

Meu olhar estaciona no teu olhar.

Teu olhar é sorridente e meigo, mulher amada.

Meus olhos sugam teus seios como bebê faminto.

Tentas pegar-me. Mas ainda não deixo.

Deslizo pelo teu ventre, vagarosamente,

Até o tufo de pelos, que sugo avidamente,

À porta que se abre para meu olhar latejante.

 

Perfume da minha vida, tu e eu somos só fogo, assim como as rosas

Mas não nos consumimos, ilusão alguma nos detém na jornada

Nem o abismo, que a tudo cerca, pode nada

Pois tu e eu, como as rosas, somos eternos porque agora

 

Querida, nem lágrimas, nem o pavor do incompreensível

Nem as ilusões, o horror, os pesadelos

Têm o poder de abalar as rosas, na sua tênue existência

Simplesmente porque elas são indestrutíveis

 

Música da minha alma, nossa viagem no éter

A caminhada sem começo nem fim

Apenas começou nesta fogueira

 

A luz que alimenta o infinito

É a lei que a tudo governa

O fogo que vivifica, amor da minha vida

Estou pronto para ti

Sereno como um homem deve ser diante de uma mulher nua

Pegar-te-ei com tanta suavidade, e firmeza,

Que lamentarás o prazer, intenso como o voo do orgasmo

Tocarei cada ponto dos teus meridianos

No fundo mais recôndito dos teus abismos insondáveis

Cavalgar-te-ei, preso em ti, na tua boca, nos teus seios, no teu sexo

Como a Terra gravitando em torno do Sol

A 108 mil quilômetros por hora

O sistema solar girando em volta do núcleo da

Via Láctea

A 830 mil quilômetros por hora

A Via Láctea indo para o Grupo Local

A 144 mil quilômetros por hora

O Grupo Local voando para o aglomerado de Virgem

A 900 mil quilômetros por hora

E tudo isso seguindo em direção ao Grande Atrator

A 2,2 milhões de quilômetros por hora

O Grande Atrator fica para além de Centauro

A 137 milhões de anos-luz da Terra

 

Como deve o acupunturista proceder nos casos das paixões avassaladoras?

Haverá agulha tão comprida, e fina, que atinja a alma?

Ou prescindiriam, os danados, de cura?

Pois os pacientes desse mal, ou bênção, sobrevivem nas trevas e na luz

São cinza e asas

E seus corações atingem a velocidade dos despenhadeiros

Do mergulho no maremoto

Do olho do furacão

Do desespero

Não será tamanho sentimento, em si mesmo, o triunfo?

Voo concedido a poucos?

Eterno porque agora?

Creio que descobri um mal – ou bênção?

Que a acupuntura não sana

Pois como apagar a luz com luz

Como ouvir o som da Terra no espaço

Se o coração não se inflama?

 

Ah! Tu és como flor se abrindo ao sol

Nua como preciosas pedras

Leve como asas que sustentam o voo

Do abismo a queda

 

Conduz-me à cumeeira

Dos sonhos

Ainda que eu não desperte

Como se estivesse morto

 

Na bacanal de rosas vermelhas

Esvaem-se os sentidos

Embriagados de estrelas

 

No labirinto do teu púbis

Afogo-me na maresia

E ressuscito em gozos múltiplos

 

Vou acalantar-te nesta noite

Vou te dizer coisas carinhosas

E tu e eu seremos dois amantes lúcidos.

Mais tarde, quando eu te penetrar e sentirmos

O gosto do sexo, da carne, da vida

Suspirarei baixinho ao teu ouvido.

E quando o sexo, a carne, a vida terminarem

Haverá mais sexo, carne e vida para

comermos

Até irmos ao banheiro.

 

Tua boca é pura flor embelezando-se ao sol de Copacabana

E tua figura é um desenho gostoso esculpido ao sol de Copacabana

E quando Copacabana inteira se prostituir

Os gemidos de amor serão a canção da moda em

Copacabana

Então a praia Copa será uma enorme cama.

 

Impor-nos o abandono físico

Ingerir grandes quantidades de álcool

E fumar interminavelmente

É o pior que se faz

Quando uma mulher se ausenta

Definitivamente.

 

Mas ela tinha cheiro de madrugada

Um leve sabor de vinho

E qualquer coisa espanhola

 

Sinto, agora, mais intenso ainda, perfume de jasmineiros

Chorando nas tórridas madrugadas de Macapá

Chanel 5, o mar, azul sangrando.

A eternidade se aproxima

Vertiginosa como a Terra girando

Profunda como o mistério de mulher nua

Como galgar o Pico da Neblina

Morar no Hilton Internacional Belém

Viver em Copacabana.

Agora compreendo, claramente,

Só há éter, energia, vibração, sintonia,

Nem matéria, nem tempo, existe

A vida é abismo interminável, e ascendente,

É como cair para cima

Cheiro de púbis de virgem ruiva, sabor de gozo,

Como se eu engravidasse de rosas vermelhas.

É permanente, agora, a sensação de autografar livros

De bater papo com Fernando Canto

Sobre telas de Olivar Cunha

Flutuando numa garrafa de Dom Pérignon, safra de 1954,

Neste 7 de agosto, como em todos os anos

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