terça-feira, 13 de janeiro de 2026

O Rio continua sendo uma trincheira tropical

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 13 DE JANEIRO DE 2026 – O Brasil lutou na Segunda Guerra Mundial a pulso. E lutou bem. Um dos maiores jornalista do país e o mais carioca dos cariocas, Ruy Castro, lançou, ano passado, seu livro mais ambicioso: Trincheira Tropical – A Segunda Guerra Mundial no Rio (Companhia das Letras, São Paulo, 2025, 413 páginas), após seis anos de trabalho, com a leitura de centenas de livros e jornais sobre o Rio durante a Segunda Guerra Mundial. 

A guerra explodiu em todos os continentes, mas na América apenas navios – mercantes, de passageiros e militares – foram afundados, às centenas, por submarinos alemães, na costa. A guerra não chegou à terra firme no continente americano, exceto pelo trabalho de espiões alemães e italianos, e pela presença do aparato bélico e de propaganda americanos no Brasil, especialmente no Rio de Janeiro, então, a capital. 

Ruy Castro escreve de tal jeito que eu me senti caminhando no Rio, tomando uma no Amarelinho ou bebendo com Orson Welles. Além de levantamento minucioso, trabalho de ourivesaria, sobre como era o Rio, de 1935 a 1945, há dois temas que perpassam todo o livro, com informações que são verdadeiras revelações sobre o Brasil: a ditadura Vargas (1930-1945) e a FEB (Força Expedicionária Brasileira). 

Getúlio Vargas era fascista. Fascismo é Estado forte e centralizado, com culto ao líder, repressão da oposição, antiliberalismo e propaganda massiva. O Integralismo do Brasil. As masmorras estavam cheias de presos políticos, pessoas eram torturadas, assassinadas ou sumiam e a censura era total. O Brasil de hoje lembra esse momento de trevas. 

Tudo ia bem para o ditador. As relações de Getúlio Vargas com Adolf Hitler e Benito Mussolini iam às mil maravilhas e o Rio de Janeiro se tornou a Meca de espiões alemães e italianos. Os Estados Unidos estavam quietos. Mas a História é quem manda no desenrolar dos fatos. 

Em 1823, o então presidente dos Estados Unidos, James Monroe, estabeleceu a Doutrina Monroe: o continente americano estava fechado para novas colonizações europeias. A América é dos americanos. Os Estados Unidos não interfeririam nos assuntos europeus e os europeus viram às Américas apenas como empresários ou turistas. A América Latina passou a ser área de influência dos Estados Unidos. 

Em 7 de dezembro de 1941, o Japão, que se aliou à Alemanha e à Itália, atacou a base naval americana de Pearl Harbor, no Pacífico. Foi um tiro no pé do imperador Hirohito. Os Estados Unidos entraram na Segunda Guerra Mundial. Foi aí que o presidente americano, Franklin Delano Roosevelt, acabou com a bacanal de Getúlio Vargas, pressionando-o de tal modo que o ditador, para não perder sua própria festança, abandonou os antigos aliados, Hitler e Mussolini. 

E mais, Vargas teve que enviar 25.334 soldados para a Itália, para lutar contra os alemães, entre meados de 1944 e meados de 1945. Foram os americanos que vestiram os soldados brasileiros e os treinaram, porque as Forças Armadas brasileiras estavam esfarrapadas. Só serviam para dar apoio à ditadura de Vargas. A FEB foi exemplar e fez história, mas, na volta, o episódio lembrou a Lei Áurea, os militares foram entregues à própria sorte. Vargas acabou com a FEB, com medo de que seus integrantes, que agora compreendiam melhor de política, o derrubassem. Mas caiu. O Brasil era outro. 

Trincheira Carioca é livro para ser relido, de tão bom! Perguntado sobre qual é o segredo do seu estilo, em entrevista ao jornalista Luís Antônio Giron, da revista IstoÉ, edição 2501, de 21 de novembro de 2017, disse Ruy Castro: “Ninguém escreve bem, e sim reescreve. Meu segredo é cortar e simplificar o texto ao máximo, sem perder a premissa básica. Isso acontece na coluna: escrevo mais do que o limite do espaço – 1.815 caracteres – e tenho que cortar”. 

– Você ama o Rio de Janeiro. A cidade está decadente? 

– Todos os meus livros são sobre o Rio. Estou preparando para 2019 um panorama sobre o Rio na década de 1920. Continuou apaixonado por esta cidade. O Rio de Janeiro é a cidade mais malhada do Brasil nas mais diversas épocas da história. É impressionante como as acusações são sempre iguais. O Rio já era decadente em 1710, 1795, 1830, 1880, 1930… Paulo Francis achava que o auge do Rio se deu nos anos 1940. Para o Ivan Lessa, o Rio era bom mesmo nos anos 1950. Di Cavalcanti afirmou que o Rio poético morreu em 1922. Se recuarmos, vamos descobrir que o Rio entrou em decadência com o Estácio de Sá. O Rio é decadente há 500 anos. 

– Mas hoje a situação do Rio não é mais alarmante? 

– Claro que hoje assistimos à corrupção total das instituições do Rio, a começar por seus governantes e políticos – e tudo ficou pior quando Lula e Dilma apoiaram Sérgio Cabral e sua turma para “desenvolver” o Rio. Isso foi desastroso. A nova decadência do Rio começou quando deixou de ser Distrito Federal e passou a fazer parte de um estado pobre. Vieram governadores como Moreira Franco, Brizola, Garotinho e Rosinha Matheus, culminando com Cabral e a atual acefalia. 

Como Ruy Castro diz: “Política é a arte da sacanagem”. Como o Brasil de hoje, da ditadura da toga. A mesmice na corrupção, roubalheira, censura, presos políticos, assassinatos. Os assassinatos, hoje, têm uma variante: são cometidos a conta-gotas, com tortura lenta, ao vivo e em cores, para uma plateia politicamente correta, apreciadora de pipoca com Cola-Cola, no sofá da sala. Alguns gozam.

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