sábado, 17 de janeiro de 2026

A eutanásia de cada um de nós

Esfaqueado e torturado, Bolsonaro parece estar desistindo da vida

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 17 DE JANEIRO DE 2026 – É verão em Brasília. Chove de vez em quando. Os dias entardecem nublados. A cidade é a mesma de sempre, parece que foi bombardeada: ruas esburacadas, sujas, calçadas estouradas e mato. O matagal cresce com vigor amazônico, atingindo as rotas calçadas e invadindo nossa alma, deixando-nos um travo sutil, ao ferir um nervo exposto do corpo etéreo. A cidade mais moderna do mundo está sucateada. 

Brasília é um três por quatro do Brasil, especialmente a Praça dos Três Poderes. A sensação que se tem é a mesma de Alice no País das Maravilhas: espanto. O capo di tutti i capi manda degolar qualquer um que atravesse seu caminho. A impressão que se tem é de que o povo brasileiro gosta de ser assaltado, da mesma forma que os cubanos e os venezuelanos. O urubu Fidel Castro e o zumbi Hugo Chávez Maduro chuparam o tutano de cubanos e venezuelanos durante uma eternidade. No Congresso Nacional, os políticos gargalham, nas suas bacanais. O importante é que haja Carnaval. 

Continuo frequentando o Conjunto Nacional. O passa-passa é agora mais agitado e as mulheres ainda mais bonitas. Observo que as mulheres estão sempre mais belas, tão lindas que parecem nuas. Quase toda semana passo na Livraria Leitura. Por hábito. Folheio livros que ambiciono ler, observo-lhes o número de páginas, leio o início ou alguma coisa sobre o autor, aprecio a edição como um todo e fico imaginando como será bom ver um livro de minha autoria em edição tão primorosa. 

Outro dia, fui premiado com duas descobertas. Lendo o início de O Jardineiro Fiel, de John le Carré, percebi que a literatura classe A é sempre uma teia, e nunca um fio, como também no jornalismo. E folheando Na Outra Margem da Memória, autobiografia de Vladimir Nabokov, percebi que o escritor de primeira categoria tem, sempre, um pé na dimensão do espírito. 

Estas descobertas foram confirmações, pois vi que eu também escrevo assim, embora não me julgue classe A. Por exemplo, meus romances O CLUBE DOS ONIPOTENTES e O OLHO DO TOURO, mesmo que tenham um fio da meada perpassando-os, que é o assassinato do ex-presidente Jair Bolsonaro, eles foram estruturados como uma espécie de teia de aranha, com fios estendidos para todos os lados. E há, também, neles, um pé no mundo espiritual. Acho que em quase todos os meus livros. 

Quando eu estava fazendo o curso de Medicina Tradicional Chinesa na Escola Nacional de Acupuntura (Enac), à época no Bloco A da 404 Sul, ouvi, certa vez, de um colega, a opinião de que uma pessoa muito doente deve morrer, deixar-se matar, ou matar-se, para não exaurir seus familiares; uma exaltação à teoria de Charles Darwin, contribuindo, assim, para a evolução da humanidade, uma comprovação ao delírio ariano de Adolf Hitler. Mas há sempre as luzes de alguns mestres equilibrando as opiniões que resvalam para o caos, como uma espiral de yin e yang. 

A propósito, a eutanásia pode significar uma zona de conforto para os que ficam, mas não haveria um propósito em deteriorar-se em cima de uma cama durante anos, dependendo dos outros para tudo? Há mais mistério entre o Céu e a Terra do que supõe nossa vã filosofia, como disse William Shakespeare. Creio que haja sempre um propósito em tudo e que cabe a cada qual descobrir isso; cabe a cada um descobrir sua missão. 

Por que sofremos? Por que a população aceita, como o escravo açoitado, como o porco arrastado para o cepo, a ditadura? Bom, o escravo porque está amarrado e o porco porque é arrastado por uma força superior à sua, senão, ambos fugiriam. Ou não fugiriam? Talvez não, se ao escravo lhe prometessem Carnaval e ao porco comida até morrer. O escravo pode até apanhar, desde que pule Carnaval, e o porco pode até morrer, desde que possa comer até estourar, como acontece com certas sucuris e dragões-de-komodo. 

Os brasileiros assistem, atualmente, ao assassinato de Bolsonaro, ao vivo e em cores. Bolsonaro já não aguenta mais a tortura e parece que não vê a hora de desencarnar. Outro dia, um jornalista me perguntou: “Tortura, com televisão e ar condicionado?” – referia-se a Bolsonaro, preso na Superintendência da Polícia Federal. Ar condicionado pode ser uma tortura para uma pessoa que já está com um pé na cova e, televisão, para qualquer um. 

Todos os dias, morremos um pouco. Às vezes, aceleramos o encontro com a morte. É a eutanásia de cada um de nós. Só povo – como os familiares dos pacientes que não sabem mais cuidar de si mesmos, tão doentes, tão dementes estão – pode impedir que tirem os aparelhos de Bolsonaro. Mas os brasileiros não são iranianos. Os brasileiros têm Carnaval.

Nenhum comentário:

Postar um comentário