
Machado de Assis: o mais brasileiro dos romancistas do subcontinente
BRASÍLIA, 30 DE JANEIRO DE 2026 – O brasileiro é um solitário, sem identidade nacional. Nossos Hermanos sempre tiveram fortes laços com a cultura hispânica, enquanto nós, brasileiros, lutamos, ostensivamente, para cortar nossa raiz lusitana. Os brasileiros se afastaram e continuam se afastando da raiz lusitana, ajeitando-se na cultura francesa ou americana, trocando a autenticidade pela caricatura.
A identidade está na literatura. “A narrativa ágil e quase jornalística dos romances de Hemingway é sempre americana, quer a história se passe em Paris ou se adorne de acento espanhol. Imitada em francês, em malaio ou em urdu, permanece americana, pela força da matriz linguística onde foi gerada como solução americana para problemas expressivos americanos” – observou Olavo de Carvalho. “Mais nos valeria, pois, ter desenvolvido a novela camiliana, mesmo que fosse em histórias passadas na África ou no planeta Marte, do que adaptar os temas nacionais ao modelo proustiano ou ao realismo socialista, ainda que temperados de gíria baiana ou mineira.”
Para Olavo de Carvalho a forma é a identidade: “Cobras e índios no molde literário de Apollinare não são cultura brasileira: são o delírio de um turista francês, intoxicado de cauim. O segredo da brasilidade autêntica do teatro de Ariano Suassuna não está nos temas, comuns a tantas obras epidermicamente nacionalistas, nem na imitação da linguagem popular, obrigação dogmática que se tornou cacoete: está em que a fórmula estrutural de suas peças não se inspirou em Sartre ou Brecht, e sim nos autos medievais lusitanos. Suassuna não é brasileiro porque come coco, mas porque digere a fruta local no estômago da tradição lusa. A forma é tudo. E um candomblé na Sorbonne não é sincretismo brasileiro: é a antropologia francesa engolindo o Brasil”.
Olavo de Carvalho afirma que a literatura brasileira falha “em refletir a realidade e as angústias do povo, o que, por sua vez, criou um abismo entre os brasileiros e a sua própria produção literária, prejudicando a formação de uma identidade nacional coesa”. Para ele, existe um fosso crescente entre a população brasileira e a literatura em língua portuguesa, por não refletir os problemas reais da população, impedindo a compreensão da sociedade e da história.
Isso se agrava pelo desconhecimento da história do país e da sua própria região, e falta de estímulo pela leitura da grande literatura, que é o pilar da identidade nacional.
E como o Brasil é um continente de língua portuguesa, composto de subcontinentes regionais, temos um Brasil múltiplo, com caraterísticas geográficas, sociais e culturais diversas, refletidas no que se convencionou chamar de Regionalismo. Assim, é reconhecido como literatura nacional apenas o que é produzido no eixo Rio-São Paulo, que são os dois únicos centros difusores nacionais, localizados na Região Sudeste.
Quando se trata de escritores de outras regiões, só entram no cânone nacional quando moram, ou moraram, no Rio ou São Paulo, ou são editados por editoras do Rio e São Paulo. Por exemplo: somente três escritores da Amazônia, a região mais isolada do país, são conhecidos nacionalmente, todos os três do Estado do Amazonas: o diplomata e poeta Thiago de Mello e os romancistas Márcio Souza e Milton Hatoum. Todos eles viveram no Rio de Janeiro e em São Paulo.
Assim, temos, na identidade brasileira, características de cinco regiões. A Região Sudeste, difusora do que é conhecida como literatura nacional, caracteriza-se pela ambientação urbana, o modernismo e a crítica social nas grandes metrópoles, como Rio de Janeiro e São Paulo. Seu representante máximo é Machado de Assis.
Na Região Nordeste, onde o Brasil português começou, a literatura é caracterizada pela seca, cangaceiros, migração, cultura açucareira e religiosidade. Seu cânone literário é integrado por monstros sagrados, como Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, José Lins do Rego e Jorge Amado.
A Região Centro-Oeste é caracterizada pelo Cerrado, o Pantanal, o Sertão, a identidade do homem interiorano e a natureza. Seu maior nome é o mineiro Guimarães Rosa, conhecido nacionalmente e internacionalmente, famoso por criar uma linguagem própria para retratar o sertão mineiro e goiano.
Na Região Sul, a literatura aborda temas como a imigração, guerras civis e a vida no Pampa. Seu nome máximo é o gaúcho Érico Veríssimo.
Finalmente, a Região Norte, a mais isolada, aborda a floresta amazônica, os rios, a cultura indígena e o colonialismo (que continua vigente na Amazônia), as relações entre o homem e o meio ambiente e o colonizador, hoje, os políticos da região. O cânone da Amazônia é o paraense Dalcídio Jurandir e os manauaras Márcio Souza e Milton Hatoum.
O estrangeiro comum está longe de saber o que é o Brasil, tanto pela falta de divulgação da grande literatura brasileira quanto pela diversidade continental do país. Em primeiro lugar, a literatura brasileira tem pouquíssimas traduções nas línguas que contêm, no seu bojo, a filosofia ocidental e tecnologia. Em segundo lugar, os escritores brasileiros acabam escrevendo do ponto de vista europeu ou norte-americano. É o complexo do macaco. Em terceiro lugar, são raros os escritores brasileiros que fazem da sua província o centro do mundo, como, por exemplo, Machado de Assis.
Quando lemos Ernest Hemingway, não importa que a ação se passe em Paris, ou em Cuba, sabemos de pronto que é sob o ponto de vista americano.
Quanto a
mim, sigo o exemplo de Machado e Hemingway: sejam ambientados na Amazônia, no
Rio de Janeiro ou em Buenos Aires, nos meus romances e contos há sempre pegadas
de caboco ribeirinho da Amazônia. Ao menos, um sutil rastro de pitiú.
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