RAY CUNHA
BRASÍLIA, 31 DE
DEZEMBRO DE 2025 – Nós, humanos, somos centelhas que nascem no Éter e enveredamos
em uma jornada sem fim, sempre agora, não como loop, mas como recomeço, e
diferente a cada vez. É uma caminhada que acontece no coração.
A raça humana organizou datas comemorativas na sua história
e lhes deu significados. O réveillon é a mais prazerosa delas. Em mensagem
enviada aos ajoianos, Walter Navarro lembrou Rubem Braga: “Desejo a todos, no
Ano-Novo, muitas virtudes e boas ações e alguns pecados agradáveis, excitantes,
discretos e, principalmente, bem-sucedidos”.
Rubem foi o maior cronista do mundo porque, em primeiro
lugar, seu universo era imenso; em segundo lugar, ele era um filósofo; e, em
terceiro lugar, dominava a palavra como um homem, ciente do seu poder
masculino, domina uma mulher nos labirintos do êxtase.
Eu também desejo a todos, em 2026, muitas virtudes,
especialmente justiça, e boas ações, como contribuir para promover a maior
limpeza possível no Congresso Nacional. E, claro, desejo também alguns pecados
agradáveis. Acho que a melhor definição de pecado é a que está implícita nos
Dez Mandamentos. Por exemplo: quem não deseja a mulher do próximo, se ela é
muito linda, está próxima e não se vai lhe tirar nenhum pedaço, mas somente desejá-la?
Quanto aos pecados bem-sucedidos, há os mais exequíveis, como
usar gravata borboleta em um dia qualquer, mesmo um dia quente, escrever, sabendo
que há louça para lavar e lixo para descartar, gastar mais do que devia, passar
alguns dias em Copacabana, ler Baruch Spinoza, embebedar-se com Cerpinha, amar
horas a fio, quando já se teve um infarto.
E há pecados bem-vindos, como escrever contra a ditadura da
toga, de forma nunca desestimulada, até conquistarmos a democracia plena, a soberania.
Aos que amo, aos que estão perto de mim, prometo que
continuarei amando-os, até porque é o que eu sei fazer. Esclareço que amo, mas
sou justo. Quando é preciso, pareço até cruel.
Ao próximo, quero dizer que ainda tenho gás para realizar
trabalho voluntário como terapeuta em Medicina Tradicional Chinesa. Aos que me
leem como jornalista, continuarei lutando contra as injustiças, o banditismo, o
mal. Aos leitores do ficcionista, ainda tenho tutano para criar.
No meu coração, o réveillon é sempre em Copacabana, e há
sempre Dom Pérignon, estrelas riscando o azul, o cheiro do mar, a sensação do
primeiro beijo da mulher amada. Todos os anos.
Quem sabe este ano que se inicia esteja grávido de boas
notícias, de acontecimentos felizes, de grandes possibilidades, de descobertas
magníficas? De algumas coisas tenho certeza: continuarei oficiando minha missa
pessoal, conversando com personagens de ficção, ofertando rosas para a madrugada
e sentindo o latejar da Terra no espaço. E amando, pois para que vivemos, para
que há réveillon, senão para amarmos?

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