terça-feira, 16 de junho de 2026

TRAIÇÃO: conto ambientado em Macapá, Amapá, publicado no livro AMAZÔNIA

RAY CUNHA

BRASÍLIA, 16 DE JUNHO DE 2026 – TRAIÇÃO (Clube de Autores/amazon.com.br/amazon.com) integra meu livro de contos AMAZÔNIA. A trama é uma professora negra no Amapá perseguida por um ex-aluno que quer se apossar das terras da família dela. Qualquer semelhança com pessoas ou acontecimentos é mera coincidência.

MACAPÁ É LINDA. Não é nem mais nem menos bonita do que qualquer outra cidade, é simplesmente linda. Claro que sua beleza é transcendental; só os iniciados podem vê-la despida, como sói acontecer a todo mundo com suas respectivas cidades. Mas Macapá é linda naturalmente. Quem chega pelo rio Amazonas, de manhã cedo, a vê emergindo na Linha Imaginária do Equador como mulher ao sair do rio, nua, os cabelos escorrendo, gotículas de água na epiderme morena, e cheirosa como maresia, lágrimas de jasmineiros em noites tórridas, rosas vermelhas colombianas e Chanel 5 da Guiana Francesa. Imaginas uma cidade à margem do maior rio do mundo, esquina da Linha Imaginária do Equador, o rio correndo mais rapidamente em direção ao oceano Atlântico, até penetrá-lo e despejar o húmus da Amazônia nas suas entranhas, e então tu saberás do que eu estou falando! Pois nesta cidade fantástica, minha família herdou 18 hectares – 18 campos de futebol – a 400 metros do rio Amazonas, ligados pelo Canal do Jandiá, no bairro do Pacoval, em plena Macapá e início da Rodovia Macapá-Oiapoque. Trata-se da propriedade mais ambicionada da cidade. Sou negra, descendente dos escravos que ergueram a Fortaleza de São José de Macapá. Meu pai foi empreendedor, trabalhador incansável, e se tornou, por mérito próprio, proprietário dessas terras impagáveis. Agora, vem o Capiroto querendo tomá-las, dizendo ele que para construir casas populares. Mas o Capiroto não me engana, o que ele quer mesmo é ficar com as terras da minha família, como se o nepotismo, o favorecimento, o protecionismo à sua família não lhe bastasse. Ele está possuído de sanha canina por mais e mais. O Brasil é um continente e o Amapá, um pequeno Estado no subcontinente amazônico, muito longe de São Paulo/Rio de Janeiro, coração do Brasil. Moro no Laguinho, antigo bairro de descendentes de escravos, hoje, tomado por brancos. Sou professora e Capiroto foi meu aluno no Grupo Escolar Barão do Rio Branco. Ensinei a ele todos os princípios de honradez, mas ele está fazendo justamente o contrário. Seu irmão é igual a ele, ou pior, pois troca cocaína por ouro no garimpo de São Lourenço. Eu dei minha vida para formar gerações, em todos os municípios amapaenses, e a paga é esta: um ex-aluno quer tomar o que eu recebi como herança, herança legítima. Comi o pão que o diabo amassou. Quando era solteira, quase morri afogada em um naufrágio na boca do rio Araguari e tive até que caçar jacaré para não morrer de fome, porque, na minha época, o governo do antigo Território Federal do Amapá desconhecia a hinterlândia, principalmente durante a ditadura militar, que foi de 1964 até 1985. Como era muito bonita, fui perseguida por um secretário de Educação, dr. Saúviano (só podia ser), mas, graças à Nossa Senhora de Nazaré, o chefe de gabinete do governador era, inusitadamente, um negro (sinal dos tempos), por acaso meu tio. Quando ele soube da perseguição mexeu lá com os pauzinhos dele e o secretário de Educação caiu em desgraça e acabou como pé-inchado em Oiapoque. Eu nunca soube como meu tio conseguiu isso, mas são coisas da política. A família do Capiroto é toda do Afuá, uma ilha do arquipélago do Marajó, no Estado do Pará. Veio para Macapá, que é mais perto do que Belém, para o Capiroto e irmãos estudarem. Agora, o Capiroto, que sempre esteve metido nesses movimentos estudantis e chegou a ser preso na Fortaleza de São José de Macapá na época da Ditadura, foi eleito governador e quer tomar as terras da minha família. E isso porque, além de eu ter sido sua professora, ele e seus irmãos iam matar a fome em casa, sem contar que minha família foi, talvez, o maior cabo eleitoral na sua campanha. Ironia. Traição. Não sei o que dizer. Sou como se fosse viúva, em certo sentido, pois me casei com um caboclo mais para índio do que para caboclo, e sabem como são os caboclos, pois eu lhes direi, são as criaturas mais egoístas e irracionais da raça humana, só pensam na sua barriga, no seu próprio bolso, em enganar o próximo, mentem e tentam ser espertos o tempo todo. Na época, ele era rico e parecia um boto encantado, mas depois dilapidou o patrimônio da sua família e só não dilapidou o da minha família porque sabemos nos defender, temos consciência do que é cidadania. Certa vez, meu marido conseguiu um quilo de ouro e quando reapareceu em casa, um mês depois, parecia um cachorro vira-lata. Mas no começo eu o amava e tinha mesmo ciúme dele, tanto que nas festas, quando éramos solteiros, se uma sirigaita se assanhasse para dançar com ele eu ia lá e tirava ele das mãos da sirigaita e ainda pisava ela. Depois, fui vendo que o encanto do meu marido era só casca, não era o encanto de algumas pessoas, que vem de dentro. Bom, voltando ao Capiroto, o fato é que minha família está pronta para lutar na Justiça pelos seus direitos. E depois, conheci uma filosofia, aqui em Macapá, que nem sonhava que houvesse. Aprendi uma coisa, lá, que Deus é a Harmonia que sustenta o Universo; portanto, Deus é a Lei, e a Lei é bem clara: temos o livro arbítrio de plantar o que quisermos, mas só se colhe o que se planta; se plantarmos mangueiras, não colheremos caju, contudo, a colheita é obrigatória. Se o Capiroto quer tomar nossas terras, alguém vai tomar algo precioso dele. Quanto a mim, cabe-me perdoá-lo, perdoá-lo do fundo do meu coração, e, ao mesmo tempo, vigiá-lo. Bem, aproveitando o Dia de Finados, vou à Academia Espiritual da Seicho-No-Ie em Ibiúna, interior de São Paulo, para agradecer aos meus antepassados tudo o que sou e tudo o que tenho. Essa é outra coisa que aprendi na Seicho-No-Ie, que, aliás, não me proíbe de continuar rezando na Igreja Católica. Soube que Capiroto está dando apoio aos Sem-Terra, que prometeram invasões sangrentas neste novembro. Houve muitas invasões em Macapá, mas as terras da minha família parecem que nem foram vistas pelos invasores, grande parte deles a reboque do senador Jeca Francês, do Estado do Maranhão, que caiu de paraquedas em Macapá e foi eleito pela indiarada senador perpétuo do Amapá e Maranhão. Algo me diz que o mesmo Jeca Francês é quem vai dar um jeito no Capiroto. Trata-se de intuição. Ou mesmo clarividência. Uma coisa é certa: as terras da minha família são maiores do que a ambição do Capiroto. Como se diz na Seicho-No-Ie: “O ser humano tem o poder de traçar o próprio destino. Você é dono do seu destino; é você quem tem domínio sobre sua situação. Portanto, ninguém pode impedi-lo de traçar seu próprio destino pelo poder do pensamento. Seu destino e sua situação evoluem de modo condizente com seus pensamentos”. Eu respondo à perseguição do Capiroto com outro pensamento da Seicho-No-Ie: “Não lute contra o mal aparente. Simplesmente pratique o bem. Mesmo que algo lhe pareça mau, não pense que o mal existe. Encare o mal aparente como um aspecto que antecede à manifestação do bem. Assim, conseguirá serenar sua mente. Em vez de lutar contra o mal aparente, empenhe-se em praticar boas obras a fim de manifestar o bem”. Que Deus o ilumine, Capiroto.

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