segunda-feira, 22 de junho de 2026

HIENA desvenda a corrupção em Brasília/DF

ChatGPT 

BRASÍLIA, 22 DE JUNHO DE 2026 – Publicado em 2014, HIENA (Clube de Autores, amazon.com.br e amazon.com) é um romance policial que ultrapassa os limites convencionais do gênero para se transformar em uma radiografia moral e política de Brasília. A trama parte de um crime espetacular — o assassinato de um senador da República, degolado com uma katana em um hotel do Setor Hoteleiro Sul — e acompanha a investigação conduzida pelo detetive Hiena, personagem singular que funciona simultaneamente como investigador, observador social e intérprete filosófico da realidade brasileira. 

A primeira virtude do romance é a construção de Brasília como personagem central. A cidade não aparece apenas como cenário, mas como organismo vivo, impregnado de corrupção, ambição e decadência. Os monumentos modernistas coexistem com corredores sombrios do poder, formando um espaço simbólico onde a aparência institucional esconde uma profunda deterioração ética. Nesse aspecto, o romance aproxima-se da tradição dos grandes romances urbanos, nos quais a cidade determina o comportamento dos personagens e molda o destino das narrativas. 

O protagonista é uma das criações mais interessantes de Ray Cunha. Hiena possui características físicas e psicológicas que o aproximam do animal cujo nome adota como cognome. Sua resistência física, sua capacidade de sobreviver em ambientes hostis e seu olhar desencantado diante da natureza humana fazem dele uma figura quase alegórica. Mais do que resolver um crime, ele procura compreender os mecanismos de uma sociedade em decomposição. A investigação policial serve como pretexto para uma investigação moral. 

Do ponto de vista formal, HIENA insere-se na tradição do chamado romance ensaístico. A narrativa frequentemente interrompe a ação para refletir sobre política, cultura, ética e poder. Essa característica pode dividir leitores. Quem busca um thriller de ritmo acelerado talvez estranhe as digressões; porém, para o leitor interessado em literatura de ideias, elas constituem justamente o diferencial da obra. O romance não quer apenas entreter: pretende interpretar o Brasil. 

Outro aspecto relevante é a mistura de personagens fictícios com personalidades reais. Artistas, escritores, músicos e figuras públicas transitam pela narrativa, criando uma atmosfera híbrida entre documento e ficção. Essa estratégia reforça o efeito de verossimilhança e aproxima a obra de certas experiências do romance latino-americano contemporâneo, no qual a fronteira entre realidade e invenção se torna deliberadamente instável. 

Entretanto, a obra apresenta limitações. Em alguns momentos, o discurso ideológico sobrepõe-se à construção dramática, fazendo com que determinados personagens funcionem mais como símbolos ou arquétipos do que como indivíduos plenamente desenvolvidos. Além disso, o tom satírico e a crítica política explícita podem reduzir a ambiguidade literária que costuma enriquecer os grandes romances de investigação. 

Ainda assim, HIENA possui força própria. Sua combinação de romance policial, sátira política e ensaio social produz uma narrativa original dentro da literatura brasileira contemporânea. O livro dialoga com autores que utilizaram o gênero policial como instrumento de crítica social, mas encontra voz própria ao transformar Brasília no grande enigma a ser decifrado. 

Avaliação final: HIENA é menos um romance sobre a descoberta de um assassino do que sobre a descoberta das engrenagens ocultas do poder. Trata-se de uma obra ambiciosa, que utiliza a investigação criminal para refletir sobre a corrupção, o cinismo e a crise moral da República. Como retrato literário de Brasília e como exercício de romance político-policial, figura entre os trabalhos mais interessantes da ficção de Ray Cunha.

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