sexta-feira, 26 de junho de 2026

Os escritores nunca se entediam

Ray Cunha: a vida é isto, lembranças, cheiros que nunca nos deixam,
sons que jamais são abafados, emoções que vivem na nossa memória

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 26 DE JUNHO DE 2026 – Do acme só restam lembranças e, dos gemidos, ecos. Há música e jasmineiros chorando perfume nas noites de verão. Estou só. Os amigos estão ausentes. Quase todos são marxistas e foram para Miami, onde há praias, fica perto do Caribe e das Bermudas, e fica nos Estados Unidos. Um, muito querido, partiu para o azul: Fernando Canto. Deixou dezenas de telas de Olivar Cunha e uma saudade tão grande que parte o meu coração. Ainda bem que posso escrever uma crônica. 

Sempre podemos fazer novos amigos. Um dos novos é inusitado. É de Minas Gerais, um enclave no Sudeste, mas morou em Macapá durante muitos anos. Certamente sentiu o cheiro de mar das cafuzas, o perfume das noites tórridas e ouviu música caribenha. Leu alguma coisa que eu escrevi com os olhos do coração: José Aparecido Ribeiro, com quem passei quatro dias inesquecíveis em Belo Horizonte. Eu e minha gata. 

A vida é isto: lembranças. Cheiros que nunca nos deixam, sons que jamais são abafados, mulheres nuas que vivem na nossa memória. Por isso, nós, escritores, escrevemos crônicas, ou poemas. Como crônicas são bem mais fáceis de escrever do que poemas, as preferimos. Tenho, talvez, centenas de crônicas; quem sabe, um dia, selecionarei algumas dezenas para publicação. 

Sou como Franz Kafka e Van Gogh, expresso-me para mim mesmo, para aliviar-me das memórias. Mas, se tenho muitas memórias, é porque vivo intensamente. Contudo, ultimamente, lembro-me mais do que vivo, pois o corpo começa a falhar. Na descida, qualquer escorregão pode ser o último e, então, mergulharmos no azul. 

Está tudo bem no Sudoeste, em Brasília/DF. Há sempre sol, flores e pássaros, e silêncio, à noite. Sinto apenas falta de estrelas, mas há noites de agosto dos anos 1960, em Macapá, na minha memória. 

Não há como reter lágrimas pelos venezuelanos, que, após décadas de massacre perpetrado por Hugo Chávez e Nicolás Maduro, foram atingidos, ontem, por um terremoto. Muitos estão gritando de dor nos escombros, neste momento mesmo, mas o Estado está falido, foi roubado até o tutano, e não há comida, água, remédios. Os Estados Unido, Israel e países capitalistas estão ajudando. 

Minha gata está em Macapá; minha princesinha, em São Paulo. Estou só, com o Projeto Brasil 2040 – Plano Nacional de Reconstrução e Desenvolvimento, de Jorge Bessa, para revisar. O Projeto Brasil 2040 será entregue para Flávio Bolsonaro pela AJOIA Brasil (Associação Brasileira de Jornalistas Independentes e Afiliados). 

Mas nós, escritores, nunca nos entediamos, porque estamos sempre escrevendo. Ernest Hemingway se divertia muito porque começou cedo a ganhar bastante dinheiro e gastava bem. Viajava muito, gostava de safáris e de pesca em alto-mar. Tinha, inclusive, um iate. Mas do que ele realmente gostava era de criar. Eu também! Por isso, nunca me entedio. Terminei meu último romance, O TERCEIRO OLHO, anteontem, mas já tinha começado um novo, que está me proporcionando muito prazer. 

Hemingway se matou porque seu corpo estava todo bichado. Bebeu demais e sofreu duas quedas de avião uma seguida da outra, durante um safári na África. Mas antes de se matar escreveu ainda Uma Festa Móvel e O Velho e o Mar. 

Meu corpo ainda me obedece. Também bebi demais, porém parei a tempo. Comecei aos 14 anos, em 1968. Cheguei e beber, sozinho, ao longo de três horas de papo, uma garrafa de Pitú. Comecei a pôr o pé no freio, em 2008, pois sentia dificuldade de lembrar-me das coisas. Um escritor sem memória é um morto-vivo. 

Eu era o homem dos excessos. De 2013 a 2016, fiz um curso de Medicina Tradicional Chinesa na Escola Nacional de Acupuntura (ENAc). Foi um divisor de águas. Comecei a me alimentar de forma saudável e a me exercitar. Hoje, como duas castanhas-do-pará todas as manhãs. São ricas em selênio, que tonificam os neurônios. Assim, recuperei totalmente a minha memória. Totalmente, não. Há zonas cinzentas, porque passei a maior parte da minha vida no Umbral, encharcado de álcool. 

Não me lembro de algumas sequências da minha vida e, de alguns episódios, muito pouco. Mas é melhor assim, pois os episódios difusos são como pesadelos. Então, queimei a ponte que leva ao passado. Certa vez, um querido amigo, o escritor e jornalista Isaías Oliveira, de Manaus, me disse: “O passado é feito do que há de melhor”. É verdade, querido amigo. 

Assim, procuro me lembrar apenas das noites prenhes de perfume e gemidos da mulher amada, das cidades que amei em determinados momentos da minha vida, dos livros que escrevi e não volto a eles senão na lembrança, e dos personagens de ficção que criei. Além de lembranças, a vida é ação, emoção – o céu estrelado, rosas colombianas vermelhas, o cheiro da mulher amada, silêncio, o prazer de amar.

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