sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas – disse a raposa ao Pequeno Príncipe

Josiane, Fran, José Aparecido e Ray Cunha, no 7 de agosto

Ray Cunha e Fernando Canto no Marco Zero do Equador

RAY CUNHA

BRASÍLIA, 29 DE AGOSTO DE 2025 – Foi Gabriel García Márquez que me chamou a atenção para o fato de que temos amigos de infância e juventude, e novos amigos, mesmo depois de velho. Ainda tenho contato com alguns raros amigos de infância, mas, agora, estamos tão diferentes do que éramos! Tenho também amigos da juventude, que é um momento, nas nossas vidas, em que somos imortais. Assim, eles, principalmente as mulheres, evitam que os reveja septuagenários ou octogenários.

Há os amigos eternos, como o poeta, contista, cronista, ensaísta e músico Fernando Canto, que, agora, é um dos meus muitos amigos mortos, que estão em outro plano. O Fernando Canto e eu nos conhecemos aos 14 anos de idade, ambos, no Laguinho, em Macapá. Naquela época, 1968, já bebíamos e engatinhávamos na literatura e o Fernando também na música. Depois, convivemos em Belém, o Fernando fazendo o curso de sociologia na Universidade Federal do Pará e eu trabalhando como repórter em  O Liberal. Bebíamos muito, escrevíamos e batíamos papo.

Anos depois, o Fernando voltou para Macapá e eu vim morar em Brasília. Quando eu ia a Macapá, o Fernando e eu passávamos quase que o tempo todo juntos, batendo papo, bebendo, expondo nossos planos literários e conversando sobre tudo, e bebendo. Sempre bebemos muito. Quando ele adoeceu, cuidei dele como terapeuta em Medicina Tradicional Chinesa, mas o Fernando, além de beber, fumava também, e vivia na velocidade da luz.

Agora, ele está, certamente, batendo papo com outros amigos nossos: Isnard Brandão Lima Filho, Ernest Hemingway, Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa, Antoine de Saint-Exupéry, são muitos. Eu quase fui para lá antes do Fernando. Em 13 de novembro de 2019, sofri um infarto; cheguei andando no hospital e desmaiei a seguir. Já acordei na UTI. Só contei isso para o Fernando anos depois. Ele ficou pálido. Passados alguns dias, queixou-se, no Facebook de que estava “perdendo” velhos amigos, que seus amigos estavam morrendo.

Mas não nos perdemos. Quando nos cativamos é para sempre. O Fernando e eu estamos na jornada da vida há muito tempo, pois conversávamos sobre o passado, o futuro e a eternidade do agora, sobre a matéria e o espírito, tudo. Culto, educadíssimo, o Fernando me tratava como se eu fosse um príncipe.

Eu estou sempre satisfeito comigo mesmo, com o que conquistei, com minhas possibilidades, mas quando o Fernando partiu para o bar que Hemingway frequenta confesso que me senti um pouco só. Contudo, compreendi que nossa jornada, aqui no mundo material, é curta e cheia de desafios, que há mais coisas, além. Por isso, partimos para descobrir que coisas são essas.

Às vezes, sinto tédio. Acho que é da idade. Tenho 71 anos. Mas, aí, vejo o quanto tenho: uma mulher e uma filha que me amam, uma aposentadoria, casa e roupa lavada, boa comida e amigos.

Meus amigos, atualmente, são poucos, mas os tenho. Perdi muitos, ao longo do tempo, e sempre porque vou me tornando menos cativante. Aqui, em Brasília, tenho apenas um amigo com quem me encontro, de vez em quando, para papos de horas. Mas ele é parecido comigo: pouco sai de casa. Tem a mesma idade que eu. Quando nos encontramos pomos o papo em dia e conversamos sobre tudo. Ele é jornalista, também.

Recentemente, cativei um novo amigo, o jornalista José Aparecido, de Belo Horizonte, que morou em Macapá/AP. Descobri que ele estava publicando artigos meus no seu blog, Conexão Minas. Ele leu alguns livros meus e me disse, com a maior seriedade, que meus livros ocupam a mesma prateleira de Gabriel García Márquez e Mário Vargas Llosa. Fiquei encantado. José Aparecido é como Fernando Canto, cativante.

Comemorei meus 71 anos, em 7 de agosto, na companhia do Aparecido e Fran. Passei cinco dias em Belo Horizonte, com minha gata, Josiane. Hospedamo-nos no Caesar Business Belvedere, excelente! Conheci também Ouro Preto e Congonhas.

Não é a primeira vez que vou a Minas Gerais, mas, agora, senti bem, isto: é como se estivéssemos em outro país, um país alicerçado por História carregada de sentimento pátrio e muito trabalho. Senti, também, a gentileza própria dos mineiros. José Aparecido me fez sentir um príncipe, como Fernando Canto o fazia.

A atenção que recebemos é muito importante, pois, além de alimentar a bateria da nossa alma, também confirma que o trabalho que realizamos ilumina, de alguma forma, o caminho de outras pessoas.

– Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas – disse a raposa ao Pequeno Príncipe.

Com efeito, cativar significa chamar a atenção para si, pelo afeto, pelo caráter, pelo comportamento, pelas ações. Cativar é encantar, criar laços, sedução, fascínio. Queremos ficar sempre junto das pessoas que nos cativam, como acontece com a mulher amada, porque sua simples visão, seu contato, sua voz, seu riso, nos fazem bem. Creio que, de certa forma, é assim com os amigos.

Além disso, as conversas nos levam a outros mundos, outras realidades, outras eternidades, outros sonhos. Que é a vida senão beber Cerpinha e sonhar, ter amigos como Fernando Canto e José Aparecido, conviver com a Josiane, amar? 

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