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| Ray Cunha no Marco Zero do Equador, em Macapá, Amapá, Amazônia |
RAY CUNHA
BRASÍLIA, 16 DE NOVEMBRO DE 2025 – Esta crônica foi inspirada em Ai de ti, Copacabana, de Rubem Braga.
1. Ai de ti, Amazônia, porque tens, nas tuas entranhas, o maior tesouro da Terra, mas és o coração das trevas, tuas crianças são sequestradas para escravidão sexual e extração de órgãos, as nações indígenas estão morrendo como morreram impérios e nações indígenas norte-americanas no fio das espadas ibéricas e fogo inglês, porque és ensolarada e úmida como o inferno e insetos e microrganismos fazem de ti sua morada.
2. Ai de ti, Amazônia, porque te chamaram de pulmão do mundo e de pulmão não tens nada, e cingiram tua fronte com outra mentira, a de que os cabocos devem te preservar e não abater nem jacaré; que comam folhas. Diamantes, ouro, ferro, manganês, bauxita, nióbio, urânio e todos os minerais largamente utilizados na indústria devem ser preservados para as potências hegemônicas. E o grude de gurijuba deve ser exportado, e açaí.
3. Já movi o Rio Amazonas e suas ondas ameaçam Óbidos e Macapá, mas tu, Amazônia, continuas adormecida, como se estivesses comendo muito jambu, perdida e cega no meio de tanta roubalheira, tráfico, estupros e assassinatos.
4. Com o Rio Amazonas se avolumando, ameaçador, quem te governará? Quando o Amazonas e outros gigantes alagarem as cidades, principalmente Belém, Manaus e Macapá, nem os chefões do narcotráfico, nem os mandantes da COP30 sobreviverão.
5. Grandes são teus edifícios do fausto da borracha e teus edifícios modernos, mas não serão nada diante do Rio Amazonas, do Rio Negro, do Rio Madeira, do Rio Xingu e de outros gigantes.
6. E quando o Oceano Atlântico invadir o Rio Amazonas, pirararas, piraíbas, tubarões, piranhas jacarés-açus, sucuris, ariranhas, nadarão nas ruas das tuas cidades e os esgotos cobrirão teus palácios, em um referver de chorume. Então, todas as muralhas ruirão, inclusive a Fortaleza de São José de Macapá, levando, de roldão, os mentirosos, os comunistas e políticos.
7. As serpentes habitarão as casas, os meros se acomodarão nos salões, desde Macapá até Rio Branco.
8. A multidão de mil rios se abaterá sobre ti, para apagar o fogo que te consome. E não valerás mais nada, pois, no teu lugar, surgirá um pantanal medonho.
9. Ai dos que dormem em leitos refrigerados, desprezam o vento e o ar do Senhor e não obedecem à lei; serão perseguidos por sucuris de doze metros de comprimento e 300 quilos de peso, e por onças pintadas de três metros, do focinho à cauda, e serão comidos também por piuns e microrganismos.
10. Ai dos que passam em seus automóveis de 500 mil reais, buzinando alto como trovão, pois frearão bruscamente quando se depararem com poraquês soltando cargas elétricas de mil volts.
11. É preciso acabar com o coração das trevas, razão pela qual tuas donzelas, as amazonas, atrairão os traficantes de mulheres para introduzirem candirus nas suas uretas e os emascularem.
12. Uivai, coronéis de barranco, senadores do inferno; clamai, sequestradores de crianças, porque vocês rebolarão no fogo! Chegaram seus dias!
13. Ai de ti, Amazônia, porque os pirarucus e os filhotes estarão nos poços de teus elevadores, nas tuas casas, e peremas tomarão sol nos terraços dos teus edifícios mais altos.
14. Os peixes de aquário sentirão o sabor da liberdade, como pássaros diante da porta aberta da gaiola.
15. Anfíbios, batráquios, répteis, rezarão nos templos pelos pecados das famiglias.
16. Antes que sumas do mapa, antes que te transformes em pantanal, ficarás mais demente ainda, ao sol implacável, à umidade, aos microrganismos e animais peçonhentos – ai de ti, Amazônia! Os índios tentarão escapar em milhares de canoas para o Atlântico, mas a derrocada se estenderá até a Margem Equatorial. Os canhões da Fortaleza de São José de Macapá, que nunca troaram, troarão, agora, contra a cidade que a construiu com pedras e sangue de negros e índios, sob látego lusitano. Porém, mesmo o Atlântico levará milênios para lavar os teus pecados de um só verão escaldante.
17. Ouçam a minha profecia: cobras-grandes se acomodarão nos palácios, catedrais e teatros, à espera de corpos, que engolirão gulosamente.
18. E nos clubes elegantes de Belém e Manaus siris comerão cabeças de políticos e jornalistas jabazeiros fritas no crânio, ao som de orquestras de fantasmas.
19. Pois grande foi a ambição com que os colonos ibéricos e depois os políticos, mancomunados com Ongs e potências hegemônicas, caíram de boca nas tuas carnes, Amazônia, dando fundas dentadas. Por isso é chegado o momento do teu fim, coração das trevas.
20. A rapina dos políticos, narcotraficantes, guerrilheiros comunistas, terroristas e a ralé da bandidagem te levaram à ruína. Meninas miseráveis não serão mais sacrificadas por homens impotentes, mas iludidos por dinheiro e poder.
21. Imensas sucuris se enrolarão nas antenas de televisão que pertenceram a famílias bilionárias, e peixes pequenos morrerão na bebida falsificada de teus bares.
22. Pinta-te como puta e coloca todas as tuas joias, aviva de vermelho teus lábios e tuas unhas e canta a canção mais indecente que conheces, e conheces muitas canções indecentes, pois é tarde para rezar. É hora de o teu corpo pecaminoso ser varrido pela fúria. Canta a tua última canção, Amazônia! E não será uma canção de Fernando Canto.
Woe to You, Amazonia!
RAY CUNHA
1. Woe to you, Amazonia, for in your entrails you hold the
greatest treasure on Earth, yet you are the very heart of darkness; your
children are kidnapped for sexual slavery and organ harvesting, your Indigenous
nations are dying as empires once died upon the blades of Iberian swords and
North American nations vanished, for you are as sunny and humid as hell, and
insects and microorganisms make their home in you.
2.
Woe to you, Amazonia, for they called you the lungs of
the world, though you have nothing of lungs, and they girded your brow with
another lie—that the caboclos must preserve you and not slaughter even an
alligator; that they must eat leaves. Diamonds, gold, iron, manganese, bauxite,
niobium, uranium, and all minerals widely used by industry must be preserved
for the hegemonic powers. And the gurijuba glue must be exported, and açaí as
well.
3.
I
have already moved the Amazon River, and its waves now threaten Óbidos and
Macapá, yet you, Amazonia, remain asleep, as if you had eaten too much jambu,
lost and blind amid so much thievery, trafficking, rape, and murder.
4.
With
the Amazon River swelling, menacing, who shall govern you? When the Amazon and
other giants flood the cities—Belém, Manaus, and Macapá above all—neither the
druglords nor the masters of COP30 will survive.
5.
Great
are your buildings from the rubber-boom splendor, and your modern buildings
too, but they will be nothing before the Amazon, the Negro, the Madeira, the
Xingu, and other giants.
6.
And
when twenty percent of the planet’s surface freshwater and the Atlantic Ocean
invade the Amazon River, pirararas, piraíbas, sharks, piranhas, black caimans,
anacondas, and giant otters will swim through the streets of your cities, and
sewage will cover your palaces in a roiling broth of filth. Then all walls will
fall, including the Fortress of São José de Macapá, sweeping away liars,
communists, and politicians.
7.
Serpents
will inhabit the houses; groupers will settle into the halls, from Macapá to
Rio Branco.
8.
The
multitude of a thousand rivers will descend upon you to extinguish the fire
that devours you. And you will be worth nothing, for in your place will arise a
monstrous swamp.
9.
Woe to those who sleep in air-conditioned beds,
despise the wind and the Lord’s air, and do not obey the law; they shall be
hunted by anacondas twelve meters long and weighing 300 kilos, and by jaguars
three meters long from snout to tail, and shall be devoured as well by
no-see-ums and microorganisms.
10.
Woe to those who drive cars worth half a million
reais, honking like thunder, for they will brake hard when they encounter
electric eels releasing thousand-volt shocks.
11. The heart of darkness must be
destroyed, and for this reason your maidens—the Amazons—will lure the
traffickers of women to emasculate them.
12.
Howl,
riverbank colonels, senators of hell; cry out, child abductors, for you have
rolled in the fire! Your days have come!
13.
Woe to you, Amazonia, for pirarucus and filhotes will
dwell in your elevator shafts and in your houses, and giant lizards will sun
themselves on the terraces of your tallest buildings.
14.
Aquarium
fish will taste freedom, like birds before the open cage door.
15.
Amphibians,
batrachians, reptiles will pray in the temples for the sins of the famiglias.
16.
Before
you vanish from the map, before you become swampland, you shall grow even more
deranged under the merciless sun, the humidity, the microorganisms, and
venomous creatures—woe to you, Amazonia!
The Indians will try to escape in thousands of canoes toward the Atlantic, but
the downfall will reach the Equatorial Margin. The cannons of the Fortress of
São José de Macapá, which never thundered, will thunder now against the city
that built it with stones and the blood of Blacks and Indians under Lusitanian
lash. Yet even the Atlantic will take millennia to wash away your sins of a
single scorching summer.
17.
Hear
my prophecy: great serpents will settle into palaces, cathedrals, and theaters,
awaiting bodies they will swallow greedily.
18.
And
in the elegant clubs of Belém and Manaus, crabs will eat the heads of
politicians and corrupt journalists fried in their skulls, to the sound of
ghost orchestras.
19.
For
great was the greed with which the Iberian colonists and later the politicians,
in league with NGOs and hegemonic powers, sank their teeth deep into your
flesh, Amazonia. Thus the moment of your end has come, heart of darkness.
20.
The
plunder of politicians, drug traffickers, communist guerrillas, terrorists, and
the rabble of banditry has brought you to ruin. Miserable girls will no longer
be sacrificed to impotent men, themselves fooled by money and power.
21.
Immense
anacondas will coil around television antennas that once belonged to
billionaire families, and small fish will die in the adulterated drinks of your
bars.
22.
Paint
yourself like a whore and put on all your jewels, redden your lips and nails,
and sing the lewdest song you know—and you know many lewd songs—for it is too
late to pray. It is time for your sinful body to be swept away by fury. Sing
your final song, Amazonia! And it will not be a song by Fernando Canto.

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