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| Auto-retrato (17/02/2026): a vida é um mergulho na lucidez |
RAY CUNHA
BRASÍLIA, 20 DE FEVEREIRO DE 2026 – Nasci em 7 de agosto de 1954, em Macapá/AP, cidade encravada no cruzamento da Linha Imaginária do Equador e a margem esquerda do Rio Amazonas. Macapá era, então, um povoado ribeirinho, afogado no meio do mundo, mas nunca me senti emparedado na solidão da Amazônia, porque, aos 5 anos, os gibis, e depois revistas de informação e livros, de todos os gêneros, me inocularam o vírus da aventura.
Aos 14 anos, eu havia viajado meio mundo, interessava-me por filosofia e arte, e comecei a escrever. Aos 17, recebi meu batismo de fogo, segundo o poeta Isnard Brandão Lima Filho, lançando o livro de poemas Xarda Misturada, juntamente com Joy Edson e José Montoril.
Verdade seja dita, meus poemas são os mais fracos do livro, mas, naquele momento, tiveram poder propulsor, o poder de, mesmo sem sequer carteira de identidade, me mandar de Macapá, que começava a me sufocar. Então, parti de barco para Belém, de onde peguei carona para Brasília e para o Rio de Janeiro. Passei 10 anos na estrada.
Aos 27 anos, cansado de navegar e de rodar, e ainda tonto de um casamento frustrado por absoluto fracasso meu, comecei o curso de jornalismo na Universidade Federal do Pará (UFPa), em Belém, quando reencontrei um velho amigo, a quem chamarei de B. Depressivo e dipsomaníaco, quando começava a falar, em uma linguagem erudita e pessimista, assustava todo mundo, mas as mulheres, até as casadas, ficavam hipnotizadas por ele. Media mais de um metro e oitenta e pesava uns 100 quilos, era rosado e tinha os olhos claros.
Nossa amizade se desenvolveu porque havia uma coisa que interessava a ambos: livros, e escritores. Li muitos livros recomendados por B, e gostei de todos, como, por exemplo, O Apanhador no Campo de Centeio, de J. D. Salinger, que comecei a ler em uma livraria de Niterói/RJ, bebendo Bohemia. Além de um dos leitores mais argutos que conheci, B era também mais experiente do que eu.
Certo dia, numa das pausas da bebida, B profetizou que nossa geração só se tornaria sábia após os 60 anos. Ele morreu antes disso. Quanto a mim, estive, muitas vezes, à beira do abismo, caí no poço dos prazeres mais carnais e frequentei aquela zona cinzenta dos alcoólatras, dos desesperançados, dos desesperados, dos danados, dos mortos-vivos. Contudo, há sempre alguém, ou algo – uma lembrança, uma voz, um sonho, uma rosa, o azul, o mar, personagens de ficção –, me levantando.
Já faz tempo que comecei a descer a ladeira. Às vezes, enfrento trechos muito inclinados, outros, alagados, mas encontro bosques e manhãs ensolaradas também. Entretanto, se aos 21 anos sentia-me leão, hoje, sinto-me leão de asas, como se montasse a luz. Sinto a velocidade quântica com a visão de uma rosa que se desnuda ao sol, do azul que sangra, de jasmineiros que choram nas noites ardentes, de ouvir o som da Terra no espaço.
Descobri que o triunfo da razão pode acontecer a qualquer momento e não somente após os 60 anos de idade. Pelo menos do modo como o entendo. Acho que o triunfo da razão são momentos de lucidez plena, de compreensão da realidade. Em toda a minha vida houve desses momentos. Quando criança, eu via seres de outras dimensões e mortos, e me maravilhava com os gibis, as revistas e a Mata do Rocha, um bosque, perto da Casa Amarela, a casa da minha infância, que representava toda a África, e eu era Tarzan. O primeiro beijo foi minha primeira viagem montado no lombo da luz. E tudo isto está na imaginação.
Aos 21 anos, nunca fui tão lúcido, percorrendo labirintos de mulheres estonteantes, de tão lindas. Nessas alturas eu já criava. Ao criar, atingimos picos de lucidez e, facilmente, viajamos a outros sistemas solares e galáxias.
Agora, velho, a vida é uma farra com absinto. Meus sentidos explodem como granadas de silêncio e solidão. Eu crio vidas e mundos. Onde estou não há espaço nem tempo, apenas há. Sinto cheiro de mulher nua, de azul marinho, o sabor de ostra com Antarctica enevoada, às 9 horas da manhã, em Salinas, e tudo o que as mulheres me ensinaram.
O triunfo da razão é a alegria de, após garimpar durante 71 anos, na floresta mais perigosa da Terra, encontrar o maior diamante do mundo e ofertá-lo à mulher amada. É ouvir o riso, feliz, de uma princesa, um Jasmim. É dar vida a personagens de ficção. Amar é o melhor de tudo. O amor liberta. Baruch Spinoza disse que Deus é a Natureza. Concordo. O amor nos integra à Natureza, coloca-nos diante da face de Deus.
Não há, portanto, uma determinada fase da vida a partir da qual
começamos a sentir lucidez. Lucidez é um estado de espírito. É ouvir
nitidamente, sentir tudo, mesmo no acme, e, ainda assim, raciocinar claramente.
Um poema que saiu perfeito. Um conto redondinho. Um romance irretocável. O riso
da mulher amada.

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