sábado, 21 de fevereiro de 2026

2026 começa para valer nesta segunda-feira 23

Ray Cunha: Brasília não tem esquinas, é a ilha da fantasia,
valhacouto dos onipotentes, mas, depois do Carnaval, suas ruas voltam
a florir com os uniformes dos estudantes das escolas públicas

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 21 DE FEVEREIRO DE 2026 – O novo ano começa para valer quando as ruas ficam floridas com os uniformes de estudantes de escolas públicas, os ônibus se enchem mais, o trânsito fica mais lento e o ar enfumaçado. Pode chover ou não, pois é verão. De 14 a 18 de fevereiro, o Brasil parou para que o povão pudesse pular, para que Lula da Silva fosse ao Sambódromo se exibir. Ele pensa que é um líder mundial, um Vladimir Lenin, um Fidel Castro, um Adolf Hitler. Jamais se deu conta de que é uma caixinha de pose. Seu único talento foi construir seu próprio mito. Mas seu sonho descamba, agora, para um pesadelo. 

Assim, o ano escolar começará, de fato, nesta segunda-feira 23, na ilha da fantasia, valhacouto dos onipotentes. Só então Brasília parece uma cidade grande, rescendendo a café espresso, paletó e gravada, e shopping. Brasília não tem esquinas, não tem comércio nas ruas, com bares, cafés, livrarias, restaurantes, bancas de revistas. As bancas não vendem mais revistas, vendem pamonha, ou revistas e pamonhas. 

Lúcio Costa desenhou Brasília como um crucifixo. Mas uma cidade não pode ser um crucifixo. Cidades são cidades. São muito mais do que um crucifixo. Porém era exatamente o que Juscelino Kubitscheck queria, pois em uma cidade assim nenhum carioca o demitiria da Presidência da República. Para completar o trio, Oscar Niemeyer, comunista de carteirinha, ergueu palácios pós-modernos, esconderijos labirínticos, enquanto os candangos tentavam sobreviver em invasões, favelas, que, depois, se tornaram cidades. 

Em casa, preparo meu café, Melitta, arábica do sul de Minas, gourmet. Uso Melitta por indicação do meu querido amigo José Aparecido Ribeiro, editor do portal Conexão Minas e presidente da Associação Brasileira de Jornalistas Independentes e Associados (Ajoia Brasil). Preparo meu café entre 4 e 5 horas, ao som da madrugada e embalado pela boa sensação de saber que os meus dormem e sonham com rosas. Gosto deste horário. O silêncio é mozartano e as personagens que eu crio me aguardam para me mostrarem seus mundos. 

Sou viajor diário, ora mergulhado na dimensão literária, ora curtindo a cidade com os sentidos da alma. As possibilidades são muitas. Uma das caminhadas que mais me dá prazer começa no Venâncio 2.000 e termina no Conjunto Nacional. Cruzo a Avenida W3 e mergulho no labirinto do Setor Comercial Sul, onde escolho, quase sempre, o mesmo caminho. Gosto de determinada rua, onde fica um endereço que utilizei no meu romance A CONFRARIA CABANAGEM. Ao passar defronte dele, revejo uma personagem, e sigo. 

No conjunto Nacional, paro em um café e, do meu mirante, aprecio as mulheres que transitam por ali, como vitrines oníricas. Entro na Livraria Leitura, onde, durante certo tempo, tive um título à venda, O CASULO EXPOSTO. Às vezes, almoço na Panelinhas do Brasil ou no Giraffas. 

A tarde chega como o pulsar da música de Mozart, trazendo perfume e cheiro de maresia. A tarde contém o mar, de tão azul. Assim, navego a tarde a bordo de um transatlântico.

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