RAY CUNHA
BRASÍLIA, 4 DE FEVEREIRO DE 2026 – Certa vez, perguntei ao poeta Max Martins se literatura tinha alguma utilidade prática. Ele me respondeu que não. Disse que, no máximo, a leitura de um poema, um conto ou um romance pode gerar emoções. Que um poema não tem, por exemplo, a utilidade de um quilo de feijão. O filósofo Olavo de Carvalho comentou que a literatura é a máxima manifestação da raça humana. Entendi o que ele quis dizer: que a vida humana flui por meio das emoções e da mente criativa.
Com efeito, acredito que haja dois tipos de homens: os que não leem e os que leem. Os que não leem são mecânicos, robóticos, matemáticos; os que leem são emocionais e criativos, detentores de imaginação. Levando em consideração este ponto de vista, a literatura é, assim, o próprio exercício da vida humana.
Por volta de 1976, em Manaus, o escritor Antísthenes Pinto recebeu seu colega Jorge Amado. Antístithenes avisou ao jornalista Juscelino Taketomi e a mim que ele e Jorge passariam a tantas horas em determinando banho. Banho, em Manaus, é igarapé, onde as pessoas se reúnem para se divertir. Taketomi, que tem a mesma idade que eu (na época, tínhamos 22 anos), já era de Esquerda, mas me dava bem com ele porque, então, eu não dava a mínima para política.
Deu tudo certo. Taketomi viu de perto seu ídolo do Partidão e eu fiquei intimidado com a presença do gigante baiano. Na época, eu não passara de uma participação adolescente em um livro coletivo de poemas e escrevera alguns contos inéditos, contudo, era leitor compulsivo e andava lendo Ernest Hemingway. Estava tão obcecado pelo trabalho de Hemingway que minha única participação ao ver o monstro sagrado foi lhe perguntar, despropositadamente, o que ele achava de Hemingway.
– É um grande contista – Jorge Amado me respondeu.
Não me lembro de outros detalhes desse encontro, ocorrido há 49 anos. Mas, durante todo esse tempo, a resposta de Jorge Amado reverbera na minha mente. Hoje, ao terminar de ler o terceiro volume dos Contos (Bertrand Brasil, Rio de Janeiro, 415 páginas) de Ernest Hemingway compreendi, finalmente, o que Amado quis dizer.
Embora autor de um romance que mudou o modo de escrever de meio mundo de escritores, O Sol Também se Levanta, e de Adeus às Armas e Por Quem os Sinos Dobram, Hemingway ganhou o Pulitzer com um conto, O Velho e o Mar, que também foi decisivo na conquista do Nobel.
A técnica do iceberg, ou teoria da omissão, utilizada por Hemingway, perpassa os Contos – Volume 3, como toda a sua obra, especialmente as histórias curtas, no que ele é mestre. Hemingway acreditava que a força de uma história reside no que não é dito, nas entrelinhas, situadas abaixo da superfície do texto. Os fatos visíveis são apenas a ponta do iceberg. Assim, o significado mais profundo, o gerador das emoções, está submerso, invisível, mas é sentido.
Os contos The Short Happy Life of Francis Macomber (A Curta Feliz Vida de Francis Macomber) e The Old Man and the Sea (O Velho e o Mar) são exemplos da teoria do iceberg. A ação psicológica, emocional, está naquilo que não é verbalizado; é invisível. É como se a ponta do iceberg fossem os olhos e a parte submersa, o coração. A realidade, aquela que não enxergamos com os olhos, está no coração.
Nos romances e contos de Hemingway há muita ação, mas a intensidade das histórias está concentrada abaixo da superfície, prestes a explodir. Daí que os personagens de Hemingway estão sempre à beira do abismo. São homens e mulheres que cumprem o dever genético de sobreviver, mas, se têm que viver, que seja à sua maneira. Se tiverem que explodir, como uma granada, que seja. Hemingway, mesmo, se matou.
Outra característica do grande escritor americano é o diálogo. Ele utiliza longos diálogos. Aparentemente, é uma conversa superficial, mas subjacente a ela é que a trama se desenrola, às vezes, como uma granada.
Eu disse que há dois tipos de homens: os que não leem e os que leem. As mulheres, quando podem escolher, escolhem homens que leem, porque encontra, neles, imaginação, e as mulheres apenas suportam homens sem imaginação, pois não podem levá-las à loucura, não no sentido poético. Levam-nas à loucura porque agem com a mesmice das máquinas.
Quando vivi em Manaus, dos 21 aos 23 anos de idade, eu era um deus, porque todo jovem é um deus. E, mesmo nessa idade, eu bebia com o pessoal do Clube da Madrugada, homens mais velhos do que eu, experientes e cultos, como Jorge Tufic e Antísthenes Pinto, e trabalhei no Jornal do Commercio, em A Notícia e em A Crítica, e pelejava com meus primeiros contos.
Eu morava sozinho em uma casa que eu chamava de Finca Vigia, em homenagem a Hemingway, no bairro de São Francisco. A casa pertencia ao artista plástico Álvaro Pascoa, que, além de alguns trabalhos seus, guardava também, na Finca Vigia, muitas telas de Hahnemann Bacelar. Conheci Álvaro Páscoa por meio do meu inesquecível amigo, e mestre, o cineasta José Gaspar. Anos depois, Gaspar se casaria com a cantora lírica paraense Marina Monarcha e gerariam a famosa cantora lírica Carmen Monarcha.
Naquela época, geralmente, jantava um ovo coberto (é como era chamado; era como se fosse uma coxinha, só que com um ovo cozido dentro da massa) ou um cachorro quente com salsicha e pão de tamanho médio, ou não jantava, quando estava sem grana, mas jamais faltava a Antarctica enevoada do Bar Nathalia, paga pelo Tufic ou pelo Aluízio Sampaio, então presidente do Clube da Madrugada. Não faltavam, também, mulheres. Elas iam para a Finca Vigia e, lá, eu contava histórias para elas, e viajávamos, juntos, em um mergulho poético, no iceberg.

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