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A leitura dos romances O Clube dos Onipotentes e O Olho do Touro, de Ray Cunha, torna-se especialmente relevante no momento em que parte do debate público brasileiro descreve a atuação do sistema judicial como uma “ditadura da toga”. Esses romances funcionam menos como panfletos ideológicos e mais como instrumentos críticos de leitura do poder, explorando mecanismos de dominação que se travestem de legalidade, moralidade ou salvacionismo institucional.
1. Desvelamento do poder que não se submete ao voto
Em O Clube dos Onipotentes, Cunha constrói uma alegoria inquietante sobre elites que operam acima da lei, convencidas de sua missão civilizatória. O romance dialoga diretamente com a percepção contemporânea de que certos agentes institucionais passaram a agir sem controles democráticos efetivos, substituindo a soberania popular por decisões técnicas, herméticas e inquestionáveis. Ler o romance hoje é reconhecer como o autor antecipa a lógica de um poder que não precisa mais de tanques — basta-lhe a retórica jurídica.
2. A toga como novo símbolo de autoridade absoluta
O Olho do Touro aprofunda esse diagnóstico ao focalizar a vigilância, o julgamento permanente e o culto à punição. O “touro” é metáfora da força bruta institucional: observa tudo, interpreta tudo e pune sem jamais ser julgado. Nesse sentido, o romance ilumina o clima contemporâneo em que garantias constitucionais cedem espaço ao moralismo punitivo, e o devido processo é relativizado em nome de um suposto bem maior.
3. Literatura como contra-poder
Ambos os romances reafirmam a função clássica da literatura em períodos de exceção: produzir consciência crítica. Cunha não oferece soluções fáceis; ele provoca desconforto. Ao mostrar como o autoritarismo pode nascer dentro das próprias instituições que dizem defender a democracia, seus livros ajudam o leitor a identificar zonas de abuso antes que se normalizem.
4. Atualidade histórica e ética
A importância dessas leituras reside também em sua capacidade de inscrever o presente numa tradição histórica brasileira marcada por ciclos de exceção: ditaduras militares, estados de sítio informais, e agora — segundo muitos críticos — uma forma de autoritarismo judicial. Os romances lembram que a erosão democrática raramente acontece de forma abrupta; ela avança sob aplausos, sob o manto da lei e com apoio midiático.
5. Um alerta literário
Ler O Clube dos Onipotentes e O Olho do Touro hoje é aceitar um convite incômodo: o de refletir se o país não está trocando um autoritarismo visível por outro, mais sofisticado, simbólico e difícil de contestar. A literatura de Ray Cunha, nesse contexto, cumpre um papel essencial — o de alertar que quando todo poder se considera virtuoso, o arbítrio já venceu.
Em síntese, esses romances não apenas dialogam com o presente: eles o interrogam, expondo as engrenagens invisíveis de um poder que, convencido de sua superioridade moral, já não admite limites.
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