quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

A mulher carioca, Machado de Assis, Guimarães Rosa, William Faulkner e Dalcídio Jurandir

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 25 DE FEVEREIRO DE 2026 – Observava a fauna que desfilava à minha frente quando fui apresentado a Bob Herman, assessor de William Popp. Acabei engatando um longo papo com ele. Formado em Literatura Americana e especializado em Literatura Ibero-Americana, Herman era surpreendente. Lembrava um Baby Herman negro, nascido na Louisiana, e tinha na figura de João Guimarães Rosa o escritor máximo brasileiro. 

Rosa criou uma das personagens femininas de ficção mais extraordinárias de toda a literatura brasileira, e mundial: Reinaldo, ou Diadorim, ou Maria Deodorina da Fé Bittencourt Marins, mulher travestida de homem, capaz de fazer quase qualquer coisa que um homem faz. Quando a TV Globo transpôs Grande Sertão: Veredas para a telinha, quem encarnou Diadorim foi Bruna Lombardi, uma das mais belas atrizes brasileiras, entre tantas e tantas beldades. Mas quando se trata de mulher estou mais para Capitu do que para mulheres ambíguas. 

– Gosto muito, também, de Machado de Assis – disse Bob, puxando papo exatamente para um terreno familiar. 

– Trata-se do escritor mais emblemático do Brasil, por ser muito conhecido e mulato. Na escola, tanto no ensino fundamental como no médio, os professores costumam apresentar uma foto dele feita talvez com o propósito de disfarçá-lo, de maquiá-lo como branco, uma tentativa de esconder que a mestiçagem é base da etnia brasileira; somos um caldeirão étnico misturando três elementos: o europeu, o ameríndio e o africano. O resultado é o povo mais maravilhoso que há na face da Terra, um povo que não discrimina a cor da pele nem religiões – eu disse. 

Bob ouvia atentamente. Pensou um pouco. 

– Machado de Assis é um dos meus escritores brasileiros favoritos – Bob repetiu. 

– Machado é o escritor que melhor representa o Brasil, que, por sua vez, tem uma importância fundamental no concerto das nações. O Brasil é fundamental para o resto do mundo porque o nosso potencial em produzir alimentos, o nosso continente tropical, o nosso sincretismo, nos fazem o coração do mundo, a pátria do Evangelho, a potencial pátria de uma nova humanidade. Machado é emblemático porque nasceu no morro; era pobre, é claro. Estudou em escolas públicas, jamais frequentou universidade e foi funcionário público a vida toda. Mas, mesmo assim, fundou a Academia Brasileira de Letras – eu disse. 

Bob sorveu um bom gole de Johnnie Walker. Continuei. 

– Nós, brasileiros, gostamos de academias. Acho que em cada uma das 5.570 cidades brasileiras há uma academia de letras; e seus membros se sentem tão importantes quanto Machado. Não sei o que os portugueses, que são os criadores do Brasil, acham de Machado; talvez achem que é mais um negro tentando dizer alguma coisa da senzala. Só não é conhecido mundialmente porque era brasileiro e escrevia em português. Se tivesse nascido, hoje, estaria ferrado. 

Bob ficou atento. 

– Brasileiro, e não sei se sempre foi assim, fazer sucesso é uma ofensa pessoal. Não sei de onde vem essa inveja, mas é assim. Jorge Amado só fez sucesso porque foi ajudado pelo Partido Comunista, que é uma espécie de igreja: de um lado, os cardeais; do outro lado, a miudeza dos corruptos e a multidão de ingênuos. Amado era cardeal. 

Dei um bom gole do Periquita. 

  Creio que o ponto mais alto de Machado é Dom Casmurro, romance que tem como sinopse o ciúme. Ou fofoca? Ciúme é um elemento muito forte na cultura brasileira. O que é ciúme? É possessividade, uma pessoa dona do outro; e é assim que é, todo mundo é dono do outro, aqui no Brasil. Contudo, Machado cria, em Dom Casmurro, senão a personagem feminina mais sensual de toda a literatura brasileira, o que eu identifico como a mulher carioca. 

Bob mamava o Walker como um bebê sugando o pipo. 

– O fato é que Capitu é uma personagem deliciosa, o embrião da carioca moderna, que mora ou frequenta Copacabana, Ipanema e o Baixo Leblon, é malemolente e tem olhos de ressaca do mar. Para muitos, Capitu simplesmente metia chifre no marido, com o melhor amigo dele, ou amigo da onça, como se dizia nos anos sessenta do século passado. Para outros tantos, Capitu era apenas objeto de fofoca, e seu marido, Bentinho, paranoico. A questão é que o brasileiro, como de resto o machão ibero-americano, se pela de medo de imaginar sua santa esposa sendo trabalhada por terceiros. Mas fale-me de Faulkner, o grande escritor americano – pedi. 

– William Faulkner usava a técnica do fluxo de consciência, também utilizada por James Joyce, Marcel Proust, Thomas Mann, Virginia Woolf. Foi ele que narrou, como nenhum outro escritor, a decadência do sul dos Estados Unidos, criando inclusive um condado imaginário, Yoknapatawpha. Ele também criava múltiplos pontos de vista simultaneamente e utilizava mudanças bruscas de tempo narrativo. Foi genial, genial! 

Ele se empolgou. 

– Hoje, meu país é muito diferente do país de Faulkner, que nasceu trinta anos após o Sul ter sido derrotado pelo Norte. O Sul, então, vivia sob a supremacia dos brancos de origem inglesa, protestantes, puritanos e coloniais. Antes de se tornar um dos maiores escritores de todos os tempos, foi um faz-tudo. Como era baixinho, media 1,65 metro, foi recusado pelo serviço militar americano, e, assim, se alistou na Força Aérea canadense. Depois, passou um ano na Universidade do Mississippi, em Oxford, onde estudou inglês, francês e espanhol. De lá, foi trabalhar em uma livraria em Nova York, onde, em vez de vender livros, os lia. Foi demitido e voltou para Oxford, onde trabalhou como carpinteiro, pintor de parede e agente dos Correios. 

Bob parecia um conferencista. 

– Seu primeiro livro foi de poemas, The Marble Faun, publicado em 1924. No ano seguinte, foi para Nova Orleans, onde conheceu e foi influenciado por Sherwood Anderson, escreveu artigos para jornais e revistas e publicou seu primeiro romance, Paga de Soldado, em 1926. Deixou Nova Orleans em 1929 e se estabeleceu em Oxford, onde se casou com Estela Oldham e publicou Sartoris, o primeiro romance passado em Yoknapatawpha. Aí, vieram alguns livros que granjeariam respeito da crítica, mas só começou mesmo a vender bem com Santuário, de 1931; porém, quando estava precisando muito de dinheiro conseguia grana em Hollywood, como roteirista. 

Serviu-se de mais whisky. 

– Acho que ele chegou ao seu maior apuro com O Som e a Fúria, de 1929, a história dos Compson, decadente família do Mississippi. Faulkner disse que esse romance surgiu a partir da imagem de uma garotinha, Candance, Caddy, com a calcinha suja de lama, trepada numa árvore, descrevendo para seus irmãos pequenos e para os empregados domésticos negros o funeral da sua avó. A trajetória de Caddy é contada por meio do ponto de vista de seus irmãos, como Benjamin, Ben ou Benjy, que é idiota. 

Nessas alturas, eu já havia tomado meia garrafa de Periquita. 

– “Uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria”, do monólogo de Macbeth, de William Shakespeare, em um fluxo contínuo de passado e presente, com o ar gasto de tanto carregar sons. Quanto à fúria, é a da derrocada. O próprio cansaço. Quando a personagem Dilsey assume a narrativa ela diz que os brancos se cansam facilmente, enquanto ela tinha que fazer todo o trabalho pesado e envelhecia. Mas ela sabia que todos são iguais. Ela diz, abrir aspas: “Os brancos morrem também. A tua avó morreu que nem qualquer negro”. Fechar aspas. 

Ele terminou, meio pensativo: 

– Porém o que mais me impressiona na obra de Faulkner é a transcrição para o papel do fluxo de pensamento. Ele faz isso em longos parágrafos, longos períodos, com pontuação irregular. É o tal fluxo de consciência de Proust e Joyce, o que exige, no mínimo, cumplicidade do leitor, além de muita concentração e mais ainda interesse, se não o leitor não irá adiante – disse Bob, ao longo de uma dose dupla de whisky. 

– No Brasil, temos um escritor que me lembra Faulkner, um Faulkner amazônida, Dalcídio Jurandir, que nasceu na ilha de Marajó. Ele é pouco conhecido, porque os paraenses, que é também o povo da ilha de Marajó, não são bons para aplaudir e vender seus próprios escritores, pelo que já observei. No seu livro mais emblemático, Chove Nos Campos de Cachoeira, publicado em 1941, Dalcídio cria personagens de carne, osso e alma. O personagem central do romance, o menino Alfredo, sonha em sair do Marajó e morar em Belém, sonho que ele reparte com um caroço de tucumã, que é um coquinho da Amazônia. Em contraste com Alfredo, seu irmão, Eutanázio, de 40 anos, é destituído de sonhos; não tem sequer um objetivo, nem sentido na própria vida. Vive em um mundo absurdo. Para completar sua miséria, a jovem Irene o despreza. 

Bob ficou bastante interessado. 

– E, assim como fazia Faulkner, as personagens de ficção de Dalcídio povoam seus livros como fantasmas, ora em um, ora em outro, em épocas diferentes, às vezes com o mesmo nome. Enquanto Faulkner recria o sul dos Estados Unidos mergulhado em sangue coagulado, espirrado da negrura do preconceito, Dalcídio apresenta uma Amazônia suja de lama, caboclos, ou cabocos, com a alma amortecida por cachaça, da mesma forma que seu doce linguajar silencia no amortecimento da língua pelo espilantol, o princípio ativo do jambu, a emblemática erva do tacacá, que é uma comida de origem indígena. 

Ficamos em silêncio durante alguns segundos. Bob tomou mais um gole de Johnnie Walker. Parecia empolgado com o meu conhecimento literário. 

– Preciso ler esse Dalcídio – disse. 

– Foram publicados 15 romances dele; creio que conseguirei pelo menos metade, em Belém, onde uma editora, Cejup, deve ter acervo dele em estoque, pois editou a obra de Dalcídio, senão toda, mas quase toda. 

– Maravilha! 

– Como nunca entraram no mercado para valer, os livros de Dalcídio são raros, e desconhecidos, é claro. Ele é o tipo de escritor que deveria ser editado e distribuído em edições comentadas, mas, como eu disse, os paraenses não são bons para vender arte. Creio que haja vários trabalhos acadêmicos sobre Dalcídio, mas não chegam às livrarias. Aliás, pouco da produção acadêmica do Brasil, quanto mais da Amazônia, chega ao mercado. Dalcídio está naquele grupo de escritores clássicos, como William Shakespeare, Miguel de Cervantes Saavedra, Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, e todo esse pessoal que escreve em vernáculo, e que deve ser lido em edições comentadas, a menos que o leitor os conheça muito, ou se identifique muito com eles. 

A conversa acabou bruscamente, pois William Popp chamou Bob. 

– Vou providenciar para que os livros cheguem às suas mãos – eu disse, meio gritando, enquanto Bob se afastava, e me preparando para dar o fora também. Eu ia dar o fora porque aquela segunda-feira começara atípica, fazendo-me voltar a pensar em um assunto que surgiu na minha vida devido a uma adolescente georgiana escravizada pela máfia russa.

The Carioca Woman, Machado de Assis, Guimarães Rosa, William Faulkner, and Dalcídio Jurandir

 

RAY CUNHA

 

BRASÍLIA, MAY 8, 2023 – I was observing the parade of fauna before me when I was introduced to Bob Herman, an aide to William Popp. We ended up striking up a long conversation. A graduate in American Literature with a specialization in Ibero-American Literature, Herman was surprising. He resembled a Black Baby Herman, born in Louisiana, and regarded João Guimarães Rosa as the greatest Brazilian writer.

 

Rosa created one of the most extraordinary female fictional characters in all of Brazilian—and world—literature: Reinaldo, or Diadorim, or Maria Deodorina da Fé Bittencourt Marins, a woman disguised as a man, capable of doing almost anything a man can do. When TV Globo adapted Grande Sertão: Veredas for television, Diadorim was played by Bruna Lombardi, one of the most beautiful Brazilian actresses, among so many beauties. But when it comes to women, I lean more toward Capitu than toward ambiguous women.

 

“I also like Machado de Assis very much,” Bob said, steering the conversation onto familiar ground.

 

“He is the most emblematic writer in Brazil, for being very well known and mulatto. In school, both elementary and high school, teachers usually present a photograph of him taken perhaps with the intention of disguising him, of making him up as white—an attempt to hide the fact that miscegenation is the basis of Brazilian ethnicity; we are an ethnic melting pot mixing three elements: the European, the Amerindian, and the African. The result is the most wonderful people on the face of the Earth, a people who do not discriminate by skin color or religion,” I said.

 

Bob listened attentively. He thought for a moment.

 

“Machado de Assis is one of my favorite Brazilian writers,” Bob repeated.

 

“Machado is the writer who best represents Brazil, which, in turn, has fundamental importance in the concert of nations. Brazil is fundamental to the rest of the world because our potential to produce food, our tropical continent, our syncretism, make us the heart of the world, the homeland of the Gospel, the potential homeland of a new humanity. Machado is emblematic because he was born on a hillside; he was poor, of course. He studied in public schools, never attended university, and was a civil servant his entire life. And yet he founded the Brazilian Academy of Letters,” I said.

 

Bob took a good sip of Johnnie Walker. I went on.

 

“We Brazilians like academies. I think that in each of Brazil’s 5,570 cities there is an academy of letters; and their members feel just as important as Machado. I don’t know what the Portuguese—who created Brazil—think of Machado; perhaps they think he is just another Black man trying to say something from the slave quarters. He is not known worldwide only because he was Brazilian and wrote in Portuguese. If he were born today, he’d be screwed.”

 

Bob stayed attentive.

 

“In Brazil—and I don’t know if it has always been this way—being successful is a personal offense. I don’t know where this envy comes from, but that’s how it is. Jorge Amado only succeeded because he was helped by the Communist Party, which is a kind of church: on one side, the cardinals; on the other, the petty corrupt and the multitude of naïve people. Amado was a cardinal.”

 

I took a good sip of Periquita.

 

“I believe Machado’s highest point is Dom Casmurro, a novel whose synopsis is jealousy. Or gossip? Jealousy is a very strong element in Brazilian culture. What is jealousy? Possessiveness—one person owning another; and that’s how it is, everyone owns everyone else here in Brazil. Yet in Dom Casmurro Machado creates, if not the most sensual female character in all Brazilian literature, what I identify as the carioca woman.”

 

Bob nursed the Walker like a baby sucking on a pacifier.

 

“The fact is that Capitu is a delightful character, the embryo of the modern carioca, who lives in or frequents Copacabana, Ipanema, and Lower Leblon, is loose-limbed, and has undertow eyes of the sea. For many, Capitu simply cheated on her husband with his best friend—or ‘friend of the jaguar,’ as people used to say in the 1960s. For many others, Capitu was merely the object of gossip, and her husband, Bentinho, paranoid. The point is that Brazilians, like the macho Ibero-American in general, freak out at the thought of imagining their saintly wife being ‘worked on’ by third parties. But tell me about Faulkner, the great American writer,” I asked.

 

“William Faulkner used the stream-of-consciousness technique, also employed by James Joyce, Marcel Proust, Thomas Mann, and Virginia Woolf. He narrated, like no other writer, the decadence of the American South, even creating an imaginary county, Yoknapatawpha. He also created multiple simultaneous points of view and used abrupt shifts in narrative time. He was brilliant—brilliant!”

 

He grew enthusiastic.

 

“Today, my country is very different from Faulkner’s country, who was born thirty years after the South had been defeated by the North. The South then lived under the supremacy of whites of English origin—Protestant, puritan, and colonial. Before becoming one of the greatest writers of all time, he was a jack-of-all-trades. Because he was short—about 1.65 meters tall—he was rejected by the American military service and thus enlisted in the Canadian Air Force. Later, he spent a year at the University of Mississippi, in Oxford, where he studied English, French, and Spanish. From there he went to work in a bookstore in New York, where, instead of selling books, he read them. He was fired and returned to Oxford, where he worked as a carpenter, house painter, and postal worker.”

 

Bob sounded like a lecturer.

 

“His first book was a volume of poems, The Marble Faun, published in 1924. The following year, he went to New Orleans, where he met and was influenced by Sherwood Anderson, wrote articles for newspapers and magazines, and published his first novel, Soldiers’ Pay, in 1926. He left New Orleans in 1929 and settled in Oxford, where he married Estelle Oldham and published Sartoris, the first novel set in Yoknapatawpha. Then came some books that earned critical respect, but he only really began to sell well with Sanctuary, in 1931; however, when he badly needed money, he made it in Hollywood as a screenwriter.”

 

He poured himself more whisky.

 

“I think he reached his greatest refinement with The Sound and the Fury, from 1929, the story of the Compsons, a decadent Mississippi family. Faulkner said that this novel arose from the image of a little girl, Candance—Caddy—with her underwear smeared with mud, perched in a tree, describing to her younger brothers and to the Black household servants her grandmother’s funeral. Caddy’s trajectory is told through the point of view of her brothers, such as Benjamin—Ben or Benjy—who is an idiot.”

 

By then, I had already drunk half a bottle of Periquita.

 

“‘A tale told by an idiot, full of sound and fury,’ from Macbeth’s monologue by William Shakespeare, in a continuous flow of past and present, with the air worn out from carrying so many sounds. As for the fury, it is that of downfall—the very fatigue itself. When the character Dilsey assumes the narrative, she says that whites tire easily, while she had to do all the heavy work and grew old. But she knew that all are equal. She says, quote: ‘White folks die too. Your grandma died just like any Black person.’ End quote.”

 

He finished, somewhat pensive:

 

“But what impresses me most in Faulkner’s work is the transcription of the flow of thought onto the page. He does this in long paragraphs, long sentences, with irregular punctuation. It is the stream of consciousness of Proust and Joyce, which demands, at the very least, complicity from the reader, in addition to great concentration and even greater interest; otherwise, the reader will not go on,” Bob said, over a double shot of whisky.

 

“In Brazil, we have a writer who reminds me of Faulkner—a kind of Amazonian Faulkner—Dalcídio Jurandir, who was born on the island of Marajó. He is little known because the people of Pará, who are also the people of Marajó, are not good at applauding and selling their own writers, as I have observed. In his most emblematic book, Chove nos Campos de Cachoeira, published in 1941, Dalcídio creates characters of flesh, bone, and soul. The central character of the novel, the boy Alfredo, dreams of leaving Marajó and living in Belém, a dream he shares with a tucumã pit, a little Amazonian palm nut. In contrast to Alfredo, his forty-year-old brother, Eutanázio, is devoid of dreams; he has no goal whatsoever, no meaning in life itself. He lives in an absurd world. To complete his misery, the young Irene despises him.”

 

Bob was quite interested.

 

“And just as Faulkner did, Dalcídio’s fictional characters populate his books like ghosts, now in one, now in another, at different times, sometimes with the same name. While Faulkner recreates the American South immersed in clotted blood splattered from the darkness of prejudice, Dalcídio presents an Amazonia dirty with mud, caboclos—or cabocos—with souls dulled by cachaça, just as their sweet speech is silenced by the numbing of the tongue by espilantol, the active principle of jambu, the emblematic herb of tacacá, a food of Indigenous origin.”

 

We remained silent for a few seconds. Bob took another sip of Johnnie Walker. He seemed excited by my literary knowledge.

 

“I need to read this Dalcídio,” he said.

 

“Fifteen of his novels were published; I believe I can get at least half of them in Belém, where a publisher, Cejup, must have his work in stock, since it published Dalcídio’s oeuvre—if not all of it, then almost all of it.”

 

“Wonderful!”

 

“Because they never really entered the market, Dalcídio’s books are rare and unknown, of course. He is the kind of writer who should be published and distributed in annotated editions, but, as I said, people from Pará are not good at selling art. I believe there are several academic works on Dalcídio, but they never reach bookstores. In fact, little of Brazil’s academic production—let alone that of the Amazon—reaches the market. Dalcídio belongs to that group of classic writers, like William Shakespeare, Miguel de Cervantes Saavedra, Fyodor Mikhailovich Dostoevsky, and all those who write in the vernacular and should be read in annotated editions, unless the reader knows them very well or identifies strongly with them.”

 

The conversation ended abruptly, as William Popp called Bob.

 

“I’ll make sure the books reach your hands,” I said, half shouting as Bob walked away and as I prepared to take off as well. I was leaving because that Monday had begun atypically, making me return to thinking about a subject that had arisen in my life due to a Georgian adolescent enslaved by the Russian mafia.

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