
XARDA MISTURADA representa a odisseia da adolescência
de três poetas no Estado mais isolado do país, o Amapá,
na Amazônia Oriental. O batismo de fogo da própria vida
BRASÍLIA, 25 DE AGOSTO DE 2026 – Pergunta: O ChatGTP conhece o livro XARDA MISTURADA? Seria capaz de dizer a importância histórica desse livro para a literatura amapaense? E de escrever uma resenha crítica sobre XARDA MISTURADA, de Ray Cunha, Joy Edson e José Montoril?
Resposta: Sim. E, depois de consultar fontes disponíveis, eu diria que XARDA MISTURADA merece ser tratado como um documento fundador da literatura amapaense moderna, embora isso não signifique necessariamente que seja, do ponto de vista estritamente estético, o livro mais importante produzido no Amapá.
Há um ponto particularmente revelador: o próprio Ray Cunha, ao recordar o livro cinquenta anos depois, faz uma avaliação bastante rigorosa de sua obra juvenil e afirma que ele provavelmente não entraria na história da literatura do Amapá pelo mérito isolado dos poemas. Ao mesmo tempo, reconhece o livro como seu “batismo de fogo” literário.
Por que XARDA MISTURADA é historicamente importante?
1. É uma obra de juventude produzida por três autores de apenas 17 anos. O livro foi publicado em Macapá, em 1971, com 45 páginas, reunindo poemas de Joy Edson (José Edson dos Santos), José Montoril e Ray Cunha.
2. É um registro raro da formação de uma geração literária no Amapá. O livro não aparece isoladamente: nasce de um círculo de jovens artistas que frequentava escritores, poetas, jornalistas e artistas plásticos de Macapá, entre eles Isnard Brandão Lima Filho, Olivar Cunha, Manoel Bispo e Fernando Canto.
3. Documenta uma época cultural específica. Macapá ainda era uma cidade relativamente pequena e periférica no circuito editorial brasileiro. Os próprios autores tiveram dificuldade para financiar a publicação; segundo o relato de Ray Cunha, a mãe de José Montoril acabou pagando a impressão.
4. Antecede a trajetória literária posterior de Ray Cunha e Joy Edson. No caso de Ray, XARDA MISTURADA inaugura uma trajetória que posteriormente passaria pela poesia, pelo conto, pelo romance e pela literatura amazônica. No caso de Joy Edson, fontes literárias registram XARDA MISTURADA como sua estreia poética.
5. O livro possui valor documental além do literário. Ele permite observar o momento em que uma juventude amapaense começa a se perceber como produtora de literatura e não apenas como consumidora da cultura que chegava de Belém, Rio de Janeiro ou outros centros. É justamente aí que está sua dimensão histórica.
E há um detalhe fascinante: o prefácio de Isnard Brandão Lima Filho percebeu nos três jovens algo que ultrapassava o livro. Ele chamou a publicação de “batismo de fogo” e projetou para aqueles adolescentes um futuro artístico.
Minha leitura crítica – Sem ter diante de mim uma reprodução integral das 45 páginas, eu evitaria atribuir ao livro características formais específicas que exigiriam uma leitura direta de todos os poemas. Mas, a partir dos registros bibliográficos, testemunhais e de poemas posteriormente publicados por Joy Edson, é possível fazer uma leitura crítica histórica bastante consistente.
XARDA MISTURADA: o batismo de fogo da literatura amapaense moderna
Há livros que entram para a história da literatura por sua excelência estética. Há outros que entram por aquilo que representam. E existem aqueles, mais raros, que possuem as duas dimensões em proporções diferentes ao longo do tempo: podem ser vistos simultaneamente como obras literárias e como documentos de uma transformação cultural.
XARDA MISTURADA, livro de poemas publicado em Macapá em 1971 por Ray Cunha, Joy Edson e José Montoril, pertence sobretudo à segunda categoria — mas é justamente por isso que sua importância literária e histórica cresce quando observado em perspectiva.
A obra nasceu quando os três autores tinham apenas 17 anos. Era, portanto, uma aventura de adolescentes que decidiram fazer aquilo que, em cidades culturalmente periféricas, costuma ser particularmente difícil: transformar a vontade de escrever em livro. A publicação teve 45 páginas e foi lançada em Macapá no final de 1971, depois de uma verdadeira batalha para conseguir dinheiro para a impressão.
Esse dado aparentemente circunstancial é, na realidade, fundamental para compreender XARDA MISTURADA. O livro não representa simplesmente três adolescentes escrevendo poemas. Representa três adolescentes afirmando que Macapá também podia produzir literatura.
Uma literatura que começa na periferia do mapa – Em 1971, Macapá ocupava uma posição particularmente distante dos grandes centros editoriais brasileiros. A literatura produzida na Amazônia enfrentava dificuldades de circulação, publicação e reconhecimento nacional. O aparecimento de um pequeno livro independente, produzido por três jovens, portanto, tinha um significado que ultrapassava sua tiragem e suas limitações materiais.
O gesto de publicar era, em si mesmo, uma tomada de posição. É nesse sentido que XARDA MISTURADA pode ser compreendido como um documento da modernização cultural do Amapá.
Não se trata de afirmar que a literatura amapaense começou com esse livro. Evidentemente, havia produção literária anterior. O mérito histórico de XARDA MISTURADA é outro: ele registra uma geração que passa a assumir a literatura como vocação, profissão espiritual e forma de intervenção no mundo. O livro é, assim, menos uma fotografia de uma literatura já consolidada do que o registro de uma literatura em processo de nascimento.
O adolescente diante da poesia. A juventude dos autores é inseparável da obra. Aos 17 anos, publicar um livro de poemas implica uma espécie de declaração de independência. O adolescente que escreve ainda não possui as certezas do escritor maduro; possui, porém, algo que muitas vezes desaparece posteriormente: a capacidade de acreditar que a literatura pode mudar sua própria vida.
É significativo que Ray Cunha tenha posteriormente chamado XARDA MISTURADA de seu “batismo de fogo”. A expressão é perfeita. O livro não é apenas uma estreia bibliográfica. É o instante em que uma possibilidade de vida se transforma em destino.
Pouco depois da publicação, Ray Cunha deixaria Macapá e iniciaria uma trajetória que passaria pelo Rio de Janeiro, Buenos Aires, Manaus, Belém e Brasília. Ele carregaria consigo exemplares de XARDA MISTURADA, transformando o pequeno livro produzido na Amazônia em espécie de passaporte literário. A literatura, nesse caso, torna-se estrada.
Joy Edson e a promessa poética – Entre os três autores, a trajetória posterior de Joy Edson permite perceber retrospectivamente uma das dimensões mais interessantes do livro. O próprio Ray Cunha reconheceu, décadas depois, que os poemas de Joy Edson já apresentavam naquele momento qualidade excepcional, chegando a qualificá-los metaforicamente como “pedras preciosas”.
Não é uma observação sem importância. Posteriormente, Joy Edson desenvolveria uma obra poética própria, publicaria outros livros e participaria de antologias. Registros da literatura brasiliense e amapaense confirmam que XARDA MISTURADA constituiu sua estreia poética.
Assim, uma leitura histórica do livro precisa evitar a tentação de considerá-lo apenas como uma experiência adolescente. Ele é também o primeiro documento de trajetórias literárias que continuariam a se desenvolver durante décadas.
O prefácio como profecia – Outro elemento extraordinário de XARDA MISTURADA é o prefácio de Isnard Brandão Lima Filho. O escritor não trata os três jovens simplesmente como estreantes. Enxerga neles uma promessa. Sua apresentação transforma o pequeno livro em uma espécie de rito de passagem: os três adolescentes entram, simbolicamente, na comunidade dos escritores. É justamente por isso que a expressão “batismo de fogo” se tornou tão adequada à memória da obra.
O prefácio possui, portanto, valor quase arqueológico. Ele registra como a geração literária mais velha recebeu aqueles jovens e como percebeu, naquele momento, a possibilidade de uma nova geração. A literatura não nasce somente do indivíduo que escreve. Ela nasce também do encontro entre gerações.
XARDA MISTURADA como objeto cultural – O título também merece atenção – XARDA MISTURADA não é um título neutro. Ele sugere mistura, combinação, sobreposição. E essa ideia pode ser aplicada à própria natureza do livro: mistura de vozes, de experiências juvenis, de influências literárias e de desejos de futuro. O livro é uma espécie de laboratório.
Os autores ainda estão procurando suas próprias linguagens. Não seria razoável exigir de três adolescentes a maturidade formal que somente a experiência literária poderia produzir. A eventual irregularidade estética do volume não diminui seu valor; pelo contrário, ajuda a compreender sua natureza.
XARDA MISTURADA é interessante justamente porque deixa à vista o processo de formação. Ele permite observar escritores antes de se tornarem os escritores que seriam.
O verdadeiro significado histórico – É aqui que está, a meu ver, o maior valor de XARDA MISTURADA. Seu significado não reside apenas na pergunta: “Os poemas são grandes poemas?” A pergunta historicamente mais importante é: “O que significou três jovens de 17 anos publicarem poesia em Macapá em 1971?”
A resposta é contundente. Significou que uma juventude amazônica estava reivindicando para si o direito de criar, publicar e participar da literatura brasileira. E isso ocorreu num momento em que Macapá estava muito distante dos grandes circuitos editoriais. Por essa razão, o livro deve ser lido como obra literária, documento geracional e marco da história cultural do Amapá.
Um livro pequeno, uma consequência grande – Há uma ironia bonita na história de XARDA MISTURADA. Fisicamente, trata-se de um livro pequeno: 45 páginas. Historicamente, porém, ele se tornou muito maior que suas dimensões.
Para Ray Cunha, foi o início de uma longa trajetória literária. Para Joy Edson, marcou sua estreia poética. Para a literatura amapaense, registrou uma juventude que decidiu transformar poesia em livro. E para a história cultural da Amazônia, constitui um testemunho de como a criação literária podia surgir longe dos grandes centros e, posteriormente, deslocar-se para eles. A própria trajetória posterior dos autores confirma a importância simbólica daquele primeiro passo.
Conclusão – XARDA MISTURADA não precisa ser transformado artificialmente em uma obra-prima para ser considerado um livro historicamente importante. Sua importância está em outro lugar. Ele é o documento inaugural de uma geração, o registro de uma juventude amapaense que decidiu publicar poesia quando publicar poesia era uma aventura, uma declaração de existência cultural e, para aqueles três rapazes, o começo de uma vida dedicada à criação.
Sua maior força talvez esteja justamente em sua imperfeição juvenil. Porque ali ainda não estão completamente formados Ray Cunha, Joy Edson e José Montoril. Estão nascendo. E talvez seja essa a razão pela qual XARDA MISTURADA mereça ocupar um lugar específico na historiografia literária do Amapá: não necessariamente como o ápice de sua poesia, mas como um de seus documentos de nascimento literário moderno.
Cinco décadas depois, o pequeno volume pode ser lido como uma cápsula do tempo. Dentro dela estão três adolescentes, uma cidade amazônica, uma geração, uma época e uma convicção extraordinariamente simples: a literatura também podia começar em Macapá.
Há, inclusive, evidência acadêmica de que XARDA MISTURADA já vem sendo recuperado em estudos sobre a literatura amapaense: uma dissertação/estudo acadêmico sobre a produção literária do Amapá cita a obra ao tratar da trajetória de Joy Edson.
Isso reforça uma distinção que considero importante: o valor histórico de XARDA MISTURADA não depende de transformá-lo retroativamente numa obra-prima. Seu verdadeiro significado está em ser uma peça documental da emergência de uma geração literária amapaense — e, retrospectivamente, o ponto zero da longa trajetória de Ray Cunha na literatura.
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