sexta-feira, 7 de agosto de 2026

7 de agosto, como em todos os anos

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 7 DE AGOSTO DE 2026 – Comecei a descer a montanha da vida há algum tempo. Uma montanha modesta. E nem cheguei ao cume, pois o paredão que escalei era escarpado, um abismo. Contudo, cheguei a um ponto plano, onde encontrei uma nascente e árvores. Dali, vi que não iria adiante e resolvi descer. A descida se apresenta menos perigosa, pois descobri um caminho, naquele ponto da montanha, que leva ao adeus. 

Continuo amando as madrugadas. Só precisamos de silêncio e lembranças para amar as madrugadas. De manhã, observo flores dourando-se ao sol. Passo rente às flores, mas elas não me dão a mais remota atenção. Fico feliz de não as importunar. A tarde é um rio azul que deságua na noite. 

É inverno, em Brasília. Os ipês amarelos estão floridos e logo ouviremos os sabiás. As flores e os pássaros são como as mulheres, nunca são nossos. Foram criados para a liberdade. Não podemos ser donos de uma mulher, porque as mulheres serão sempre livres e misteriosas. São feitas de rosas colombianas vermelhas, Chanel 5, música de Mozart e gin fizz. 

Minha mãe, Marina Pereira Silva Cunha, e Macapá, me pariram às 5 horas do dia 7 de agosto de 1954, no Hospital Geral, e, de lá, fui para a Casa Amarela, ao lado do Colégio Amapaense, na Avenida Iracema Carvão Nunes com a Rua Eliezer Levy, ao lado da Mata do Rocha, onde passei 11 anos da minha infância. Restou a Seringueira, que meu pai, João Raimundo Cunha, plantou, em 1952, e que foi salva de ser decepada – porque se recusou a sair do caminho do muro do Colégio Amapaense – pelo agrônomo Luiz Façanha, que se abraçou ao seu tronco em um gesto de amor. 

Aos 17 anos, peguei o rio e a estrada por dez anos. Quando volto à Macapá, só acredito que estou na cidade quando ela me engole. Entro no santuário despido de todas as feridas e mergulho em um mundo prenhe de jasmineiros que choram nas noites tórridas, merengue, mulheres que recendem a maresia, o embalar de uma rede no rio da tarde, tacacá, Cerpinha, e lhe oferto rosas, pedras preciosas, luz, toda a minha riqueza. E nesse mergulho me perco em ti, Macapá, sempre de propósito, em uma vertigem da qual só me recupero em Brasília, dias depois. 

As viagens que fazemos no coração são vertiginosas demais. A casa da minha infância, cada palavra que garimpei em madrugadas eternas, cada gota de álcool com que encharquei meus nervos, cada mulher que amei nos meus trêmulos primeiros versos, cada busca do éter nas noites alagadas de aguardente, o jardim da casa da Leila, no Igarapé das Mulheres, o Elesbão, a casa da Myrta Graciete, a casa do poeta Isnard Brandão Lima Filho, na Rua Mário Cruz, o Macapá Hotel, o Trapiche Eliezer Levy, pulsam para sempre no meu coração, que enterrei na Avenida Iracema Carvão Nunes. Quando enterramos o coração aos 17 anos é com o fervor cego da entrega total. 

Entre as cidades que amo, e cada uma delas é um abismo de rosas, Macapá é como a mulher que desejamos por muito tempo e que, inesperadamente, está diante de nós, nua. As cidades são como as mulheres. Quanto mais as amamos, mais belas ficam, e mais misteriosas. E a cada partida fica implícito o encontro marcado, e as chegadas são regadas de risos, de luz, e perdão. 

Às vezes, na minha descida, sonho com leões caminhando na praia, ao amanhecer. Vou ficando, cada vez mais parecido a Picasso, com seus olhos negros, nonagenários. Sou como pássaro que nunca envelhece. Nasci com asas invisíveis, que se equilibram no éter, como avião de caça, riscando um golpe vermelho no azul. 

À noite, na minha descida, ouço os alísios, que me falam de Macapá e da Estação das Docas, vozes e risos femininos, Boeing pousando, navio todo iluminado, em festa, no porto, cataclismo de rosas, o atrito da Terra no éter, o Concerto Para Piano e Orquestra, em Ré Menor, de Mozart, o choro dos jasmineiros, Chanel 5, Brasília e todas as grandes cidades do mundo, os lábios da mulher amada ao meu ouvido, prenhes de romance e mistério. 

Aguardo as chuvas com a mesma sofreguidão com que aguardo o outono, o inverno e a primavera. O verão, como ocorre em todas as estações da vida, inunda um planeta de rosas tão azuis que sangram e mangas doces como seios de mulheres de olhos de esmeraldas. E, se é madrugada, a chuva se confunde ao som que não se interrompe nunca; o som da natureza, Deus. Então, o atrito da Terra no espaço invade minha alma e se mistura ao perfume das virgens ruivas, misterioso como mulher nua, como a luz, como o éter, como o próprio triunfo. 

Mulher amada, tu és meu amor porque teu riso impulsiona meu coração, porque tu crias a vida, pois à tua passagem os jardins se levantam e a luz vibra em oração. Quisera eu ser poeta e dominar a força de gravidade com palavras para te dedicar versos que contivessem o mar, um oceano inteiro de rubis, azuis como o céu. Depois que te conheci, exorcizei o medo, aprendi a escutar o silêncio das madrugadas, comecei a voar no perfume dos jasmineiros. Sou teu, todo teu, inteiramente teu. Pertencer-te é o mesmo que a liberdade, e ascender, vencer a eternidade, sentir a presença de Deus! 

A noite mais azul é quando assassinos me perseguem, derroto-os e durmo com a princesa. Isto só acontece nas noites tão azuis que um Boeing 777 fere-as e sangue verte sobre as rosas que o acme da princesa transforma em rosas colombianas. A noite mais azul é tórrida e os jasmineiros choram, o mundo recende a maresia e o meu corpo volta a ser rijo como os punhos de Muhammad Ali quando acabou com George Foreman, no Zaire. 

Então, me transformo em luz, nesta descida excessivamente azul. Estou sentado em um quiosque defronte ao Macapá Hotel. Só. Mas há mulheres tão lindas que as vemos apenas em grandes aeroportos internacionais. Estou só, mas o Rio Amazonas, o maior do mundo, ruge como o mar em Copacabana, na maré cheia, e salpica meu rosto, escanhoado para esta noite. Estou aparentemente só, pois ouço merengue. Meu Pai enviou uma legião que me acompanha por todo o sempre. Estou só com meu coração, pois sinto o perfume das virgens ruivas, relicário de pedras preciosas como acme da mulher amada e o choro dos jasmineiros nas tórridas noites da Linha Imaginária do Equador. 

Estou só. Mas estão comigo Belém, Manaus e Rio de Janeiro. E meus amigos logo chegarão. Minha solidão é como a dos pugilistas e dos escritores. Quando começa o assalto ninguém os pode socorrer e eles só contam com a própria luz. Por isso nunca estou só. Pois ouço do mar o Concerto para Piano e Orquestra, em ré Menor, de Mozart. 

Estou só. Mas o céu é tão azul que chove rosas vermelhas colombianas e o ar é prenhe do cheiro de mulher nua. Sinto rosas desabrochando como a vertigem do primeiro beijo no ar prenhe de Chanel 5. Meu coração respira o sabor da mulher amada, cheiro de mar em uma tarde de julho ao choro dos jasmineiros ao anoitecer na Estação das Docas. 

Sinto o cheiro de madrugadas, acme nos lábios da mulher amada, secos de gozo, e que ela umidifica com a língua, tirando os cabelos do rosto. Meu coração está prenhe do sabor indescritível de púbis, abismo de galáxias, inalcançáveis, mas que cintilam no azul da minha descida. 

Que sensação estranha! Na hora de ser enforcado ser salvo e dormir com a princesa. O primeiro beijo que me deste explodiu como relâmpago na minha alma, feriu-me, doce como brisa, pétalas pousando no púbis de um anjo. Desde então, sou prisioneiro do teu olhar, grávido de ti, como um abismo, mulher amada. Segue-me, pois te mostrei quase nada. Tenho a chave dos sonhos, que conduz para a eternidade, a fogueira do nosso amor, minha namorada, o voo vertiginoso da luz movida a acme. 

Beberei colostro e sentirei o sabor da tua pele e do teu púbis, e será madrugada, a quem ofertarei teus gemidos, que espalharei no jardim da minha alma, mulher amada. Vem logo, pois a noite já chegou, como um navio, um continente, uma galáxia, só nossa! 

Anoitece. O Rio Amazonas ruge defronte ao Macapá Hotel, debaixo do Trapiche, rodovia que conduz à noite. Estou sentado, sozinho, em um quiosque. Degusto Cerpinha enevoada. Parece que estou só. Mas converso com meus antepassados. Com a mulher amada, com meus anjinhos e minha princesa, com Isnard Brandão Lima Filho, Alcinéa Maria Cavalcante, Olivar Cunha, Joy Edson, José Montoril, Fernando Canto, Raimundo Peixe, Alcy Araújo, Luiz Tadeu Magalhães, Manoel Bispo. Juntam-se a nós Ernest Hemingway, Antoine de Saint-Exupéry, Gabriel García Márquez, Vargas Llosa, Pablo Picasso. Ouço merengue. Um navio, grande como uma cidade, surge, lento, até aportar, feérico. Despeja uma legião de espíritos e anjos que se juntam a nós. 

Chanel 5, Dom Pérignon, maresia e leite da mulher amada tomam conta de tudo, como paz se alastrando na minha memória. Por que escreves? – pergunta-me o jornalista. – Para viver – respondo. Pois só com as palavras desnudo a luz e voo até o fim do mundo. Por isso, escrevo granadas intensas como buracos negros e garimpo o verbo como o primeiro beijo. Escrevo porque escrever traz aos meus sentidos cheiro de maresia, Dom Pérignon, safra de 1954, o labirinto do púbis no abismo do acme, mulher nua como rosa vermelha desabrochando. 

A eternidade se aproxima, vertiginosa como a Terra girando, profunda como o mistério de mulher nua, como galgar o Pico da Neblina, morar no Copacabana Palace. Só há éter, energia, vibração, sintonia, nem matéria, nem tempo, existe. A vida é abismo interminável, e ascendente, é como cair para cima, cheiro de púbis de virgem ruiva, sabor de gozo, como se eu engravidasse de rosas vermelhas. É permanente a sensação de autografar livros, de bater papo com Fernando Canto sobre telas de Olivar Cunha, flutuando em uma garrafa de Dom Pérignon, safra de 1954. 

A dimensão da eternidade é um buraco negro, azul. Então percebo que não estou descendo, estou caindo, para cima, neste 7 de agosto, como em todos os anos.

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