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| O conflito de Ernest Hemingway com as mulheres começou na sua infância |
RAY CUNHA
BRASÍLIA, 27 DE ABRIL DE 2026 – As Neves do Kilimanjaro é um dos mais requintados contos de Ernest Hemingway, mestre na arte da história curta, e o tema da história é o casamento, fio da meada que perpassa toda a obra do Nobel americano. A trama é a seguinte: um escritor e sua esposa, americanos, ela, bilionária, estão em um safári na África. Ele se fere e não liga para o ferimento, que gangrena. O avião de resgate demora a chegar. Ele vê que vai morrer e faz um retrospecto de sua vida. Casou-se várias vezes, sempre com mulheres ricas, e acabou se prostituindo, caiu no ócio, na bebedeira, na preguiça, em vez de fazer o que os escritores fazem: escrever.
O grande conflito do gigante americano, conflito que perpassou toda a sua vida, foram as mulheres, a começar pela sua mãe. Quando Hemingway era criança, sua mãe, Grace Hall Hemingway, que queria que Hemingway fosse menina, vestia-o de menina, e quando ele era adolescente, ela, que era musicista, queria que ele fosse músico, também, e Hemingway não demonstrava talento para isso. Ele a odiava. Era alcoólatra. O pai de Hemingway, Clarence Edmonds Hemingway, matou-se, e o escritor também se matou.
A primeira mulher por quem Hemingway se apaixonou foi a enfermeira americana Agnes von Kurowsky, que conheceu durante a Primeira Guerra Mundial, em 1918, em Milão, na Itália, onde ele serviu como motorista de ambulância da Cruz Vermelha. Hemingway tinha 19 anos e ela era sete anos mais velha. Houve um romance, porém breve. Agnes se apaixonou por outro oficial, o que devastou Hemingway. Isso feriu fundo Hemingway, mas lhe rendeu um dos mais extraordinários romances de guerra: Adeus às Armas, no qual Hemingway, usando o único poder que os escritores têm de modificar a realidade, transformou Agnes na personagem de ficção Catherine Barkley.
Usei, aqui, o termo realidade do jeito que entendo por realidade, que, provavelmente, não exista.
Hemingway casou-se quatro vezes: Hadley Richardson (1921-1927), dona de casa; Pauline Pfeiffer (1927-1940), jornalista da revista Vogue, rica, com quem Hemingway se envolveu antes de se divorciar de Hadley; Martha Gellhorn (1940-1945), escritora e correspondente de guerra, com quem Hemingway cobriu a Guerra Civil Espanhola e que deu com o pé na bunda do escritor; e Mary Welsh Hemingway (1946-1961), dona de casa, que permaneceu com ele por 16 anos, até Hemingway se matar, em 1961.
Sem as quatro mulheres provavelmente Hemingway não teria ido tão longe, pois as quatro o suportaram e organizaram a vida dele. Suportaram, talvez porque Hemingway fosse puro charme, embora levasse uma vida perigosa e não soubesse nada de finanças. Começou a beber cedo, por volta dos 12 anos de idade. Em 1937, os médicos já o aconselhavam a parar de beber. No auge da sua bebedeira, chegou a tomar, no bar El Floridita, em Havana, Cuba, 17 daiquiris duplos, o Papa Doble, o que equivale a um litro de rum. Só vi outro gênio beber tanto, de uma vez: o pintor amapaense Olivar Cunha, que era capaz de beber um litro de rum ao longo de uma noite.
O Papa Doble, coquetel que recebeu esse nome em homenagem a Hemingway, que era apelidado de Papa, é preparado sem açúcar e com o dobro de rum branco, suco de limão, toranja e licor maraschino. Hemingway também era capaz mamar uma garrafa de whisky de uma assentada. Eu ficava logo porre com whisky. Cheguei a tomar meia garrafa. Mas, certa vez, tirei o selo de uma garrafa de Pitú e a bebi sozinho, ao longo de três hora, enquanto batia papo, e, no dia seguinte, cedo, foi buscar meu sogro no Aeroporto de Val-de-Cães, em Belém. Contudo, Hemingway não bebia enquanto escrevia pela manhã. Nem eu.
Hemingway tinha 54 anos quando sobreviveu a duas quedas de avião consecutivas, em safári na África, em 23 e 24 de janeiro de 1954. Ele nasceu em 21 de julho de 1899, em Oak Park, subúrbio de Chicago, Illinois, Estados Unidos. No primeiro acidente, o avião Cessna atingiu um fio telegráfico e caiu próximo ao Rio Nilo, em Uganda. Hemingway sobreviveu e, no dia seguinte, embarcou em um avião de resgate para ser levado a um hospital, quando o avião explodiu durante a decolagem. Hemingway sofreu traumatismo craniano, ruptura de fígado, vértebras fraturadas e queimaduras.
Aos 61 anos de idade, pouco antes de morrer, Hemingway estava no que chamamos em Medicina Tradicional Chinesa com afundamento do Qi do baço, os órgãos em prolapso, um estado de deterioração rápida e profunda, física e mentalmente. Estava paranoico, ansioso, deprimido, depressivo e delirante. O que mais o atormentava era a falta de memória, que não lhe permitia escrever. Um escritor quando fica sem escrever enlouquece. Pois não entende a vida senão pela escrita.
Fisicamente, parecia um homem nonagenário. Sofria de hipertensão e diabetes.
Entre o fim de 1960 e 1961, foi internado na Mayo Clinic, no Minnesota, onde passou por tratamentos de choque elétrico, para depressão. Após receber alta da Mayo Clinic, retornou para sua casa, em Ketchum, Idaho.
Segundo Milt Machlin, no livro O Inferno Privado de Hemingway, era cedo da manhã. “Desceu à sala de armas e tirou do armário uma de suas espingardas favoritas, uma Angelini e Bernardon calibre doze, fabricada especialmente para ele. Era uma bela arma, e ele sempre a tratava com a reverência de um objeto religioso. Carregou-a com dois cartuchos, depois meteu os dois canos na boca e puxou os gatilhos ao mesmo tempo.”
Era 2 de julho de 1961. Completaria 62 anos no dia 21 de julho daquele ano.
Hemingway era estoico. Sabia que um homem pode ser destruído, mas não derrotado. No estoicismo, filosofia grega e romana, cultivamos a coragem, a resiliência, a razão, a moderação, a justiça, o autocontrole, por meio dos pensamentos e das ações, aceitando a vida como ela se apresenta, as opiniões alheias, a saúde pessoal, o destino, com serenidade, visando, por meio dessas virtudes, a paz interior. Hemingway não reclamava. Apenas procurava extrair da vida toda a experiência possível, sem apego e causando o menor sofrimento possível aos outros.
Mas, afinal, para que serve o casamento? Trata-se de um contrato social. Assim, é uma sociedade firmada entre duas pessoas. Serve para a perpetuação da espécie e da família. E como manter um casamento longevo? O filósofo Olavo de Carvalho disse que, no casamento, o homem deve amar a mulher. Biologicamente, as mulheres são muito mais complexas do que os homens, daí que os homens não devem tentar compreendê-las, pois tudo o que a esposa precisa é ser amada. Amar quer dizer proteger, querer bem, respeitar. As mulheres serão sempre nossas mães. Sem entender isso, jamais um homem entenderá uma mulher.
O drama de Hemingway é que ele não se dava bem com sua mãe. Por mais estoico que ele fosse, seu subconsciente estava sempre destruindo cada casamento seu. A única coisa que lhe restou, para não ser derrotado, foram seus livros maravilhosos. Ele é desses escritores que lemos aos poucos, ao longo da vida. Lemos aos poucos para termos o prazer de sempre ter alguma coisa para ler daquele autor.
Já li várias biografias de Hemingway, escritas por parentes
seus e jornalistas que o acompanhavam. É verdade que as mulheres tinham
dificuldade de conviver com ele, como só as mulheres sabem fazer, tratando o
marido como a um filho, mas tinham como recompensa o fato de que nunca se entediavam.
É claro que o odiavam, às vezes, mas também sentiram a Terra girar no espaço, o
som da madrugada, rosas perfumando tudo.

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