sábado, 25 de abril de 2026

O suicídio diário de cada um de nós na ditadura

RAY CUNHA

BRASÍLIA, 25 DE ABRIL DE 2026 – Brasília é a mesma de sempre. Nunca deixou de ser caipira, setorizada, sem esquinas, um convite à solidão, um Cerrado urbano. Na ditadura fica pior. Andar pelos corredores do imenso palácio do Congresso Nacional, com aquelas imensas bacias, uma emborcada e a outra de boca para cima, é deprimente. Sabe-se lá o que Oscar Niemeyer quis dizer com aquilo, lá, na sua mente comunista. A Praça dos Três Poderes, em tempos de ditadura, é mais deprimente ainda. De um lado, o membro fálico do Congresso Nacional, as torres, e sua bolas, as bacias, e ao sul e ao norte duas gaiolas, em uma delas um touro e, na outra, uma glande. Símbolos fálicos de poder. 

Um vago temor cresce com vigor amazônico, invadindo a alma, deixando-nos um travo sutil ao ferir um nervo exposto no corpo etéreo. A cidade mais moderna do mundo é triste, caipira e sedia a ditadura. Brasília é um três por quatro do Brasil e a Praça dos Três Poderes é seu raio X. Andar por ali desperta a sensação de cair no buraco onde Alice se meteu, a Alice no País das Maravilhas: espanto. O capo di tutti i capi manda degolar qualquer um que atravesse o seu caminho. 

Há uma semelhança trágica entre cubanos, venezuelanos e brasileiros. Os zumbis Fidel Castro e Hugo Chávez Maduro chuparam o tutano de cubanos e venezuelanos durante uma eternidade e os brasileiros estão sendo chupados desde 2003. Nos três palácios, gargalham nas bacanais. Mas o importante é que haja Carnaval. 

Continuo frequentando o Conjunto Nacional. O passa-passa é agora mais agitado e as mulheres ainda mais bonitas. Observo que as mulheres estão sempre tão lindas que parecem nuas. Quase toda semana dou uma volta pelos sebos e livrarias. Por hábito. Folheio livros que ambiciono ler, observo-lhes o número de páginas, leio o início ou alguma coisa sobre o autor, aprecio a edição como um todo e fico imaginando como será bom ver um livro de minha autoria em edição tão primorosa. 

Outro dia, fui premiado com duas descobertas. Lendo o início de O Jardineiro Fiel, de John le Carré, percebi que a literatura classe A é sempre uma teia, e nunca um fio, como também no jornalismo. E folheando Na Outra Margem da Memória, autobiografia de Vladimir Nabokov, percebi que o escritor de primeira categoria tem, sempre, um pé na dimensão do espírito. 

Estas descobertas foram confirmações, pois vi que eu também escrevo assim, embora não me julgue classe A. Por exemplo, meus romances O CLUBE DOS ONIPOTENTES e O OLHO DO TOURO, mesmo que tenham um fio da meada perpassando-os, que é o assassinato a conta-gotas do ex-presidente Jair Messias Bolsonaro, eles foram estruturados como uma espécie de teia de aranha, com fios estendidos para todos os lados. E há, também, neles, um pé no mundo espiritual. Acho que em quase todos os meus livros. 

Quando eu estava fazendo o curso de Medicina Tradicional Chinesa na Escola Nacional de Acupuntura (ENAc), à época, no Bloco A da 404 Sul, ouvi, certa vez, de um colega, a opinião de que uma pessoa muito doente deve morrer, deixar-se matar, ou matar-se, para não exaurir seus familiares; uma exaltação à teoria de Charles Darwin, contribuindo, assim, para a evolução da Humanidade, uma comprovação ao delírio ariano de Adolf Hitler. Mas há sempre as luzes de alguns mestres equilibrando as opiniões que resvalam para o caos, como uma espiral de yin e yang. 

A eutanásia pode significar uma zona de conforto para os que ficam, mas não haveria um propósito em deteriorar-se em cima de uma cama durante anos, dependendo dos outros para tudo? Há mais mistério entre o Céu e a Terra do que supõe nossa vã filosofia, como disse William Shakespeare. Creio que haja sempre um propósito em tudo e que cabe a cada qual descobrir isso. 

Por que sofremos? Por que a população aceita, como o escravo açoitado, como o porco arrastado para o cepo, a ditadura? Bom, o escravo porque está amarrado e o porco porque é arrastado por uma força superior à sua, senão, ambos fugiriam. Ou não fugiriam? Talvez não, se ao escravo lhe prometessem Carnaval e ao porco comida até morrer. O escravo pode até apanhar, desde que pule Carnaval, e o porco pode até morrer, desde que possa comer até estourar, como acontece com certas sucuris e dragões-de-komodo. 

Os brasileiros assistem, atualmente, ao assassinato de Bolsonaro, ao vivo e em cores. Bolsonaro já não aguenta mais a tortura e parece que não vê a hora de desencarnar. Outro dia, um jornalista, esquerdopata, perguntou, no Face: “Tortura? Com televisão e ar-condicionado!” – quis dizer que Bolsonaro, preso na Superintendência da Polícia Federal, estava em uma suíte de luxo. Ar-condicionado pode ser uma tortura para uma pessoa que já está com um pé na cova e, televisão, para qualquer um. Isso foi antes de o espancarem. 

Todos os dias, morremos um pouco. Às vezes, aceleramos o encontro com a morte. É o suicídio de cada um de nós. Só povo – como os familiares dos pacientes que não sabem mais cuidar de si mesmos, tão doentes, tão dementes estão – pode impedir que tirem os aparelhos de Bolsonaro. Mas os brasileiros não são iranianos. Os brasileiros têm Carnaval.

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