segunda-feira, 15 de março de 2021

Memórias do Rio de Janeiro

Elenco de Morte e Vida Severina pela Escola de Teatro de Comédia da Guanabara, encenada no antigo Teatro de Arena, no Largo da Carioca,
Rio de Janeiro, 1972. Na foto, Ray Cunha é o da extremidade à direita

RAY CUNHA

Ray Cunha, aos 18 anos de idade
BRASÍLIA, 15 DE MARÇO DE 2021 – Amamos uma cidade por diversas razões. Cheguei ao Rio de Janeiro em um dia de semana, sem lenço e sem documento, em 1972. Tinha 17 anos e não portava sequer carteira de identidade, e contava apenas com o terceiro ano do antigo curso ginasial, hoje, ensino fundamental. Nasci em Macapá, então capital do Território Federal do Amapá, no setentrião da costa brasileira, mais voltada paras as Guianas, o Caribe e a França. Calculo que Macapá era, então, menos de um terço do que é hoje, uma cidadela acossada pelo maior rio do mundo, o Amazonas, e a selva, e seccionada pela Linha Imaginária do Equador.

Em 1968, aos 14 anos, me meti no meio de um grupo de artistas e desde então nunca mais saí da dimensão azul. Em 1971, publiquei, com Joy Edson e José Montoril um livrinho de poemas, Xarda Misturada, e, com ele, no ano seguinte, peguei o rio e a estrada e fui parar no Rio de Janeiro. Fui de barco para Belém e de lá peguei a estrada e viajei de carona para Brasília, de onde tomei um ônibus para o Rio de Janeiro, levando comigo alguns exemplares de Xarda Misturada. Cheguei no meio da tarde em um dia de semana e da rodoviária tomei um ônibus para o coração do Rio de Janeiro, o cruzamento das avenidas Presidente Vargas e Rio Branco.

Levava comigo o endereço de trabalho de uma amiga do pintor e poeta Manoel Bispo, de Macapá, e a confiança inabalável de um garoto ribeirinho de que a amiga do Manoel Bispo me receberia de braços abertos. Localizei-a já à saída do trabalho; ela me olhou e me disse que eu não poderia ficar na casa dela, desejou-me boa sorte e sumiu na multidão.

A sorte é que eu levava também comigo o endereço de um amigo que conheci no Colégio Amapaense, Sílvio, paulistano que fora para Macapá com o pai, um americano que trabalhava na Indústria e Comércio de Minérios de Ferro e Manganês (Icomi), que, juntamente com a Bethlehem Steel, transportou do município de Serra do Navio, para os Estados Unidos, a jazida do melhor manganês do planeta, a preços vis, e deixou uma imensa cratera no Amapá.

Na época, o Sílvio morava com os tios na Alameda São Boaventura 208, Fonseca, Niterói. Cheguei lá à noite. O Sílvio, sua tia e seus primos me receberam muito bem. No dia seguinte, peguei um ônibus, a barca e outro ônibus e fui a Copacabana; desci no Posto 6 e me dirigi para o mar, onde mergulhei naquela mistura de sal, água, sol e azul. Acho que foi nessa química que comecei a amar o Rio de Janeiro, a partir de Copacabana.

Em novembro daquele ano apresentei-me na Primeira Região Militar do Exército. Eu meço 1,64 metro de altura, e creio que pesasse, naquela época, 50 quilos (hoje, peso 64 quilos), e a mudança de clima e a poluição da grande cidade causaram uma coceira no meu corpo todo, de modo que fui dispensado do serviço militar, e vi meu propósito de morar no quartel esfarinhar-se.

O tio do Sílvio era um oficial da Aeronáutica, negro, coisa rara na Ditadura dos Generais (1964-1985). Acho que o episódio que aconteceu naquela noite foi reflexo daqueles anos de chumbo. O tio do Sílvio chegou mais cedo. Eu estava arranhando um violão na sala. O tio do Sílvio ordenou que fôssemos todos dormir. Eu dormia em um sofá, na varanda. Continuei com o violão. Então o tio do Sílvio veio do quarto dele e ordenou que eu pegasse minhas coisas e fosse embora.

Juntei meus pertences – algumas roupas e exemplares de Xarda Misturada – e fui para a rodoviária central de Niterói. Foi uma longa noite. Só senti mais frio na estação aeroviária de Buenos Aires, em certa noite que lá passei, e da qual surgiu o poema Noite Horrível, publicado no livro Sob o Céu nas Nuvens (edição do autor, Belém, 1982). Só quem passa uma noite dessas é que sente o quanto o sol do alvorecer é vivificante. Nem bem o dia amanheceu, lavei o rosto, tomei café com leite com pão com manteiga e me mandei para a representação do governo do Território Federal do Amapá, no centro do Rio de Janeiro.

O representante, Couto, era conhecido por ajudar amapaenses. Conversamos. Ele me perguntou se eu conhecia o Itabaraci, que é de uma geração ligeiramente antes da minha, de Macapá (onde hoje vive); contudo, seu pai, Aimore (em tupi, não leva acento agudo na última sílaba) Nunes Batista, era padrinho da minha irmã caçula, Rosa Maria. Disse ao Couto que sim, conhecia o Itabaraci, e ele me deu um conselho.

– Vai procurar o Itabaraci; ele mora num apartamento em Copacabana, onde a senhoria, dona Maria Antônia, aluga vagas – disse-me ele, e me deu o endereço: Rua República do Peru 210, Apartamento 204, entre as ruas Tonelero e Barata Ribeiro, Copacabana. Vivi dois anos, lá.

Dona Maria Antônia, paraense, funcionária dos Correios, há muito radicada no Rio, foi uma das mulheres mais bacanas que encontrei. Ela simplesmente me acolheu, e só passei a pagar vaga depois que ela mesma conseguiu emprego para mim, como faz-tudo em uma empresa de conserto e venda de peças de eletrodomésticos, primeiramente numa loja em Ipanema e depois em Copacabana.

Quanto ao Itabaraci, e seu irmão, o violonista e pianista Aimorezinho, que nessa época tocava na banda do Raul Seixas, trataram-me como a um príncipe. Por isso sou eternamente grato a eles.

Logo depois, o compositor amapaense Luiz Tadeu Tavares Magalhães, que estava morando no Rio e trabalhava na White Martins, conseguiu para mim uma vaga como contínuo na filial de Jacaré, na Zona Norte. O Tadeu era músico e radialista em Macapá, e me entrevistara várias vezes, na condição de escritor.

Em 1971, antes de publicar Xarda Misturada, participei de um jornalzinho colegial anarquista, A Rosa – Bonitinha mas ordinária, de modo que eu tinha ideia de como fazer um house organ, e foi o que eu fiz, o jornalzinho da filial da White Martins.

Além disso, eu pagava mensalmente uma empresa que fornecia entradas a pelo menos quatro peças teatrais por mês. O gerente da filial, dr. Arlindo, também era cliente da mesma empresa e andamos nos encontrando nos teatros. Ele morava em Ipanema e passou a me dar carona para Copacabana quando saíamos juntos. O jornalzinho e o interesse comum por teatro entre o gerente da filial e eu, além da companhia do Luiz Tadeu, tornavam o ambiente pesado de multinacional um convívio bastante agradável.

Às sextas-feiras, principalmente na primeira do mês, eu saía com o Luiz Tadeu. Às vezes, íamos para a casa do nosso colega de White Martins, Frank Loiola Matos, em Padre Miguel. Mas bebíamos muito sempre. Também foi nessa época que conheci o Luiz Loyola, Lula, irmão do Frank, no Curso de Interpretação Teatral no antigo Teatro de Comedia do Estado da Guanabara (Teco), na turma do professor e ator Jorge Paulo.

A prova final do curso foi a encenação de Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, com músicas de Chico Buarque de Holanda, no extinto Teatro de Arena no Largo da Carioca. Fiz um dos coveiros. Nessa mesma época, começamos leituras e laboratório da peça Miolo de Pão, texto de Luiz Loyola e que expressava “a realidade conflitante, festiva e utópica de uma família do subúrbio carioca” – como diz o próprio Loyola. Nós nos reuníamos na casa do Jamil Viana, na Pavuna; na casa da belíssima Beth Bello, na Ilha do Governador; e na Vila Valqueire.

No quarto do Loiola, BOE (Boite Onda Estudantil), na casa em Padre Miguel, “aconteciam reuniões com muita música, teatro, poesia, happenings, num clima underground e ambiente psicodélico, cheio de posters de vanguarda, caricaturas, painel com capas de LP, objetos antigos, como um armário centenário com um enorme espelho de cristal na frente da porta, que encantava os narcisistas, uma luminária em formato de chapéu mexicano vermelho, iluminada por uma tênue luz azul opaca, lembrando cabarés da Avenida Prado Júnior, no Leme; no chão, havia um espelho retrovisor redondo, de aproximadamente um metro de diâmetro, do serviço de trânsito do Rio, apelidado de “poço” pelo companheiro de trabalho Paulo Cesar Americano do Brasil, da Remington Rand, onde trabalhei com Luiz Tadeu no inicio da década de 70” – lembra Luiz Loyola.

“Num desses eventos, em uma noite festiva, tive o prazer de receber o amigo Ray Cunha, sutilmente trajando calça jeans do Lixo (boutique cult de Copa), camisa mangas compridas com gola rolé cor roxa e sapatos bicolor vermelho e amarelo (presente do artista plástico amapaense Abenor Pena Amanajas, que então morava no Rio). A figura tinha cabelos ruivos black-power no melhor estilo saltimbanco do ator do filme musical Gospell... em sua companhia chegaram Luiz Tadeu e Iara Picanço, depois de uma viagem de trem da Central do Brasil, direto do subúrbio do Lins de Vasconcelos” – recorda Luiz Loyola.

“Numa única visita à casa de Ray Cunha, na Rua República do Peru, em Copacabana, na década de 1970, o poeta me recebeu em seu quarto (vaga), onde havia uma cama beliche e o seu estado de saúde era gripal e febril; driblamos aquele quadro e resolvemos sair pra respirarmos uma brisa do mar caminhando pelo calçadão, depois paramos numa lanchonete e tomamos um delicioso café e suco de laranja com sanduíche, e, serpenteando pelas ruas sombrias do bairro, o poeta fez uma citação irreverente dizendo que Copacabana era uma enorme cama...” – Luiz Loyola mergulha mais naqueles anos dourados, referindo-se ao poema Essa Copacabana Triste Mulher, publicado no livro De Tão Azul Sangra.

“Não posso deixar de relatar, uma noite, quando eu e o poeta chegamos em minha casa, em Padre Miguel, fomos para a cozinha e nos deliciamos com café com bolo, pães, cuscuz de fubá preparados por minha mãe, dona Maria Amélia (in memorian); foi quando o poeta, degustando uma banana, começou a declamar versos de Xarda Misturada, dando um toque tropicalista romântico àquela noite de inverno tímido” – registra Luiz Loyola.

Nessa mesma época, Manoel Bispo foi fazer um curso de pintura no Parque Lage, e foi vizinho do Luiz Tadeu, no Lins. Havia fins de semana que o Bispo e eu saíamos para bater perna. Parávamos para ver os pintores que expõem nas ruas da Zona Sul, entrávamos nas galerias, íamos a cinema e conversávamos sobre tudo. Eu ia muito a teatro, cinema de arte, circos, como o Moscou, e a grandes shows, como o Santana. Ia muito, também, aos programas de auditório da extinta TV Tupi. Varava o Rio noite adentro. Em 1974, já como balconista da filial da White Martins de Jacaré, pedi demissão e voltei para a estrada.

Em 1982, em Belém, com o matrimônio fracassado, parti novamente para o Rio de Janeiro. Mas era como se eu estivesse sonhando. Lembro-me que fui com o Luiz Tadeu para Pedra de Guaratiba, onde o Luiz Loyola festejou seu aniversário, com muita batida do Primo, de Olinda, mais ao norte de Padre Miguel, vinho, cerveja, happenings e a bela voz do Luiz Tadeu. Dessa vez, minha estada no Rio durou pouco tempo. Retornei para Belém e concluí o curso de jornalismo.

Nos anos 1990, eu estava novamente no Rio quando o pintor Olivar Cunha expôs em um espaço em Botafogo, defronte ao Shopping Rio Sul. Ao coquetel de abertura estavam presentes Luiz Tadeu e sua filha e minha querida amiga Luciana Magalhães, carioca, e Luiz Loyola.

Em 1992, fui ao Rio para lançar o livro de contos A Grande Farra (edição do autor, Brasília, 1992). Foi uma estada etílica. Em 2000, participei da Bienal do Livro, com Trópico Úmido – Três Contos Amazônicos. Naquele ano, em uma manhã de domingo, eu acabara de sair da praia de Ipanema, com Luciana Magalhães, quando houve o primeiro arrastão televisionado – cenas aterrorizantes. Eu continuava mergulhado em um sonho etílico.

Em 2010, passei uma semana com a minha gata, a psicóloga Josiane Souza Moreira Cunha, no Rio. Ela fora participar do décimo primeiro Congresso Brasileiro de Psicooncologia e do quarto Encontro Internacional de Cuidados Paliativos em Oncologia, de 22 a 25 de setembro, no Centro de Convenções do Colégio Brasileiro de Cirurgiões (CBC), em Botafogo.

Hospedamo-nos no Hotel Inglês, ao lado do Museu da República, onde Getúlio Vargas se matou, no Flamengo. Jantávamos em um restaurante defronte ao Museu, quase sempre camarão. Todas as comidas, ali, eram deliciosas. Aquela parte do Flamengo, até Botafogo, passando pelo Largo do Machado, é a Europa no trópico, como de resto toda a Zona Sul.

Enquanto a Josiane estava no Colégio Brasileiro de Cirurgiões eu incursionava pela Zona Sul, em um resgate memorialístico redentor. Durante aquela semana eu esquadrinhei a Zona Sul, agora com o olhar maduro do homem de 56 anos de idade e que não mergulhava mais em bebedeiras mortais.

Perambulei por muitas ruas da Zona Sul, observei a arquitetura, a Lagoa Rodrigo de Freitas à noite, bati perna em Copacabana, Ipanema, Leblon, Barra da Tijuca, Flamengo, Botafogo, centro do Rio, e retornei ao Pão de Açúcar, com minha amada. Lá de cima sabemos de pronto por que o Rio é a Cidade Maravilhosa.

Aonde quer que eu vá estarei sempre em algumas cidades, porque elas, como o Rio de Janeiro, florescem no meu coração. Hoje, escrevo para o DIÁRIO CARIOCA. É como um namoro com a cidade, e que não acaba nunca.

sexta-feira, 12 de março de 2021

O Brasil todo quer saber: por que Edson Fachin limpou a ficha de Lula, jogando a Lava Jato no lixo? Janaina Paschoal desconfia da Vaza Jato

A marca de Lula. Para Fachin, o ex-presidiário está limpo

RAY CUNHA

BRASÍLIA, 12 DE MARÇO DE 2021 – A jurista, professora, doutora em Direito Penal, advogada e deputada Janaina Paschoal (PSL/SP) refere-se a “algo maior” o motivo pelo qual o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, decidiu livrar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva de condenação transitada e julgada em segunda instância, o que ele poderia ter feito há cinco anos, mas só agora o fez. Na prática, todo o trabalho da Operação Lava Jato foi mandado para o espaço por Fachin. 

Em entrevista terça-feira 9 ao Jornal da Manhã da Jovem Pan, Janaina disse que a razão pela qual o ministro livrou Lula é algo que Fachin não gostaria que viesse a público: “Não acho que a decisão tenha sido de natureza política, que o intuito era salvar a Lava Jato, blindar Sergio Moro ou de simpatia com o ex-presidente. Ele teve tantas outras oportunidades e não o fez. É uma decisão tão estranha que, para mim, tem algo maior que ele não gostaria que viesse a público”. 

Ao lembrar dos áudios divulgados pelo The Intercept Brasil, episódio que ficou conhecido como Vaza Jato, a deputada acha que exista material comprometedor que não veio a público: “Nós tivemos acesso a um número muito pequeno de conversas. Apareceu tantas outras e a notícia que se tem é que a quantidade vai muito além do divulgado. Não é medo de que tudo o que tem lá venha à tona? Não consigo acreditar que um ministro se exponha dessa forma. Não acredito que o ministro correria todo esse risco para salvar Sergio Moro. Para mim, tem algo nos diálogos que não se quer que venha a público. Só isso faz sentido”. 

A jurista questionou também se Fachin tomou a absurda decisão sem consultar seus colegas de toga: “Não acredito que o ministro toma uma decisão dessa natureza sem consultar os demais. Só vejo como lógico que tem algo ali que não querem que a gente conheça”. 

Para Janaina, a decisão de Fachin é, simplesmente, errada: “Qualquer pessoa que conhece a área penal sabe que embargos de declaração não têm efeitos infringentes. Isso significa que esse recurso decidido ontem não tem poder de modificar decisão de mérito. O papel dos embargos de declaração é esclarecer dúvidas, corrigir omissão, contradição, ambiguidade. A lei é clara nesse sentido”. 

A jurista explicou que Edson Fachin não apenas mudou uma decisão ou mérito, mas anulou quatro processos inteiros, que já haviam, inclusive, transitado no Supremo: “É como se fosse uma confissão da incapacidade do ministro e do próprio Supremo. Isso é muito grave, não é só um retrocesso. Coloca em xeque a capacidade do STF e tira qualquer segurança jurídica do país. O impacto internacional é terrível”. 

A Operação Lava Jato foi a mais ampla investigação criminal já realizada no país, pela Polícia Federal, ao apurar um esquema de lavagem de dinheiro que movimentou 8 trilhões de reais em propina, crimes de corrupção ativa e passiva, gestão fraudulenta, organização criminosa, obstrução da Justiça, operação fraudulenta de câmbio e recebimento de vantagem indevida. Começou em 17 de março de 2014, comandada pelo então juiz Sergio Moro, e condenou e prendeu mais de cem pessoas, até 1 de fevereiro deste ano. 

As investigações e delações premiadas apontaram o envolvimento em corrupção de membros administrativos da Petrobras, presidentes da República, da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, governadores de estado e empresários de grandes empresas brasileiras. Muito aristocrata foi preso. Em abril de 2018, foi a vez do ex-presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva. 

Em 10 de dezembro de 2010, a Polícia Federal investigou repasses suspeitos de mais de 132 milhões de reais realizados pelo grupo Oi/Telemar para empresas do grupo Gamecorp/Gol, controlado por Fabio Luis Lula da Silva, o Lulinha, filho do ex-presidente, e, em 26 de dezembro, a PF indicia Lula pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, pelo recebimento de 4 milhões de reais da Odebrecht ao Instituto Lula. 

Em janeiro de 2016, o Ministério Público de São Paulo denunciou Lula pelo crime de lavagem de dinheiro. A construtora OAS, investigada na Operação Lava Jato, teria reservado para a família do petista um apartamento triplex no Guarujá e pagado 777 mil reais por uma reforma no imóvel. 

Em fevereiro do mesmo ano, Sérgio Moro autorizou a Polícia Federal a investigar o Sítio Santa Bárbara, em Atibaia, usado por Lula e família, e que teria sido reformado por 500 mil reais pela OAS e pela Odebrecht como compensação por contratos com o governo. 

O relator das ações da Lava Jato no Supremo era o ministro Teori Zavascki, desde o início da operação, em 2014, até morrer em acidente aéreo, em 2 de fevereiro de 2017, quando foi substituído por Edson Fachin. 

Em 5 de abril de 2018, o então juiz federal Sérgio Moro decretou a prisão de Lula, condenado a 12 anos e um mês de cadeia. Lula fugiu durante dois dias, mas acabou se entregando e preso, por apenas 580 dias, pois foi solto em 8 de novembro de 2019, pelo Supremo, que considerou prisão em segunda instância inconstitucional, e deixando o país de queixo caído. 

Deblaterou o ex-presidiário: “Eu quero dizer para vocês que, se pegar o Dallagnol, se pegar o Moro, se pegar alguns delegados que fizeram inquérito, enfiar um dentro do outro e bater no liquidificador, o que sobrar não é 10% da honestidade que eu represento nesse país”.

Em 8 de março de 2021, Fachin anulou todas as condenações contra Lula em relação à Lava Jato, feitas pela Justiça Federal do Paraná, vinculada ao Tribunal Regional Federal da Quarta Região. Os processos judiciais contra Lula foram encaminhados para Justiça Federal do Distrito Federal, vinculada ao Tribunal Regional Federal da Primeira Região, onde deverão prescrever.

E Edson Fachin? O advogado e professor gaúcho foi posto no Supremo, em 16 de junho de 2015, por Dilma Rousseff, impichada. O atual relator da Operação Lava Jato no Supremo trabalhou como advogado de 1980 a 2015. Em 2003, assinou um manifesto, juntamente com o então deputado petista Luiz Eduardo Greenhalgh e o jurista Fábio Konder Comparato, pela desapropriação, para fins de reforma agrária, de imóveis rurais que descumpram a função social da propriedade. 

Indicado pela Central Única dos Trabalhadores (CUT), integrou a Comissão da Verdade do Paraná. Em 2010, assinou um manifesto em defesa do direito do então presidente Lula de opinar sobre as eleições e, em 29 de outubro do mesmo ano, participou de um vídeo de campanha lendo um manifesto com declaração de apoio a Dilma Rousseff, candidata do PT à presidência da República.

Sergio Moro, de herói virou bandido e, se Lula foi liberado, todo mundo que está no mesmo barco já começou a rir para as paredes. Agora, Lula poderá até se candidatar novamente a presidente da República e fundar a democracia com que ele tanto sonha: a Venezuela cubana. Fica a pergunta: por que Edson Fachin fez uma... cometeu algo tão absurdo?

quarta-feira, 10 de março de 2021

Jornalista investiga traficante de crianças e a presença de Ovnis e ETs na Amazônia durante o Festival de Gastronomia do Pará e Amapá

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 10 DE MARÇO DE 2021 – Festival de Gastronomia do Pará e Amapá, no monumental Hotel Caranã, bairro do Pacoval, em Macapá/AP, a cidade mais emblemática da Amazônia. A Fortaleza de São José de Macapá, o maior forte colonial português, é também o maior ícone dos macapaenses, a tradução perfeita de Macapá. Construída por escravos, negros e índios, sob o domínio português, foi o cadinho no qual se forjou a etnia macapaense. 

Os portugueses cruzaram com africanos e geraram mulatos, e fornicaram com os índios, formando uma população de mamelucos; os africanos fundaram o distrito de Curiaú e o bairro do Laguinho, misturaram-se com os índios e legaram cafuzos; e mulatos, cafuzos e mamelucos misturaram-se, fechando o círculo, numa diversidade étnica viva nas ruas de Macapá, nas nuanças de peles que vão do alabastro ao ébano, passando pelo bronze e jambo maduro, unidos pelo sotaque caboco: a fusão do português falado em Lisboa, doces palavras tupis, línguas africanas, patoá das Guianas, tudo triturado em corruptela. 

Nesse cadinho étnico, o jambu é a erva que melhor sintetiza a Amazônia. Os amazônidas, sedados pelo sol equatorial, que, apesar dos 100% de umidade relativa do ar, esturrica tudo, e acossados pela grande floresta, microrganismos, insetos e animais peçonhentos, agem como as papilas gustativas entorpecidas por espilantol, presente no jambu, principalmente na sua flor: anestesiados, baixam a cabeça e se entregam aos seus carrascos, especialmente aos políticos, que, independentemente de serem de fora, ou da própria terra, são sempre inclementes como os antigos ibéricos. 

Os políticos uniram-se a um tipo de empresário escravocrata e que adora dinheiro, e passaram a gerir a senzala sem paredes, ampliando a Fortaleza de São José de Macapá a ventre da besta. A Amazônia está sempre coalhada de colonos e aventureiros: tecnocratas de Brasília; paulistanos que compram 90% das toras de árvores griladas; americanos que nunca desistiram de colonizar o subcontinente; japoneses ávidos em ampliar seu arquipélago; chineses acossados pela própria superpopulação; e os europeus de sempre, além dos políticos, sequiosos em vender – e embolsar o dinheiro – até a última árvore, a última pedra preciosa, e todas as mulheres e crianças que puderem. 

Nesse cenário, do suplício imposto pelos ibéricos, da morte decretada pelos microrganismos e o assalto e o desprezo perpetrado pelos políticos, os macapaenses se tornaram símbolo de um tempo antigo, persistente, de espanhóis e portugueses, colonos e colonizados, o drama que perpassa a Ibero-América, a tragédia da Amazônia, alicerçado pela crença de que os colonos são deuses e os colonizados, seres inferiores, que existem para servir aos sangues-azuis. 

Para os colonos, a Amazônia só serve para três fins: construção de hidrelétricas; extração de madeira e mineral; e reserva de caça, pesca e escravos, especialmente para a triste história de crianças e mulheres, que, diferentemente do mito das amazonas, são criaturas fracas, subjugadas, escravas compradas à base de comida, de uma boneca, de uma balinha. 

É julho, mês de férias de verão na Amazônia. Durante o festival gastronômico, o jornalista João do Bailique, editor da revista Trópico Úmido, trabalha numa edição especial sobre a Hileia, ao mesmo tempo em que investiga o tráfico de crianças e mulheres para escravidão sexual. 

Naquela já distante manhã, na Vila Progresso, Patrícia Valente Melo, 11 anos e seis meses, se levantou da rede e foi ao banheiro, olhou-se ao espelho e apreciou seu rosto, simétrico, olhos imensos, gateados, lábios de rosa vermelha, pele de jambo novo. Era extraordinariamente bonita, e sensual, embora tivesse apenas 11 anos de idade. Tudo aconteceu muito rápido. Um homem peludo entrou na casa, colocou algo no seu nariz e ela acordou num barco, que, soube mais tarde, se chamava Virgem de Nazaré; levava crianças para a boate Senzala, especializada em servir europeus que atravessavam o rio Oiapoque, oriundos de Caiena. 

O carregamento, meninas sequestradas no Amapá e Pará, seria leiloado com lance inicial de mil euros para usufruto de uma semana, após o que seriam transportadas para Paramaribo. 

– Aquele francês louco, mas que paga muito bem, o tal de Humbert Humbert, já reservou a Patrícia. Ele vem exigindo uma menina assim igual a ela faz tempo. Ele vai pagar nada menos do que 6 mil euros para passar uma semana com ela na propriedade dele na Guiana Francesa, aí então a devolverá para o Caixinha de Pose, que é o dono da boate Senzala, em Oiapoque. Aí a pegarei de volta e a levarei para o Kunathi, por mais mil euros – contabilizou Jules Adolphe Lunier a Tota, capitão do barco. 

A manhã imobilizou-se, tensa como tumor maduro. Um raio chicoteou o céu quase noturno, seguido de trovoada. A tempestade desabou com toda a fúria. Cerca de 40 minutos depois passou completamente e o mar voltou a ficar calmo. Giselle e João do Bailique estavam pescando marlim azul na altura do Cabo Caciporé quando avistaram o ponto flutuando. Aproximaram-se e viram uma menina com salva-vidas, agarrada a um grande banco de madeira. Era Patrícia. 

Seis anos depois, Patrícia Valente Melo olhou-se ao grande espelho do seu quarto e apreciou o rosto, simétrico, olhos imensos, gateados, lábios de rosa vermelha, colombiana, pele de jambo novo. O corpo estava deformado; em vez dos 60 quilos de peso distribuídos em 1,70 metro de altura, seios e quadris enlouquecedores, pernas longas e bem torneadas, estava pesando bem mais, pois deveria parir por aqueles dias. 

Encontrava-se sozinha. O pai já havia saído para a revista Trópico Úmido e a mãe, para o Hotel Caranã. Juntou algumas mudas de roupa numa valise, apetrechos de higiene íntima, documentos, espargiu Chanel 5, chamou um Uber e se mandou para o Caranã, onde chegou poucos minutos depois. Desviou-se da Nave da Catedral, como era conhecido o amplo hall de entrada, e tomou por um caminho lateral, uma alameda de jasmineiros, rumo à marina. 

Nos salões do Hotel Caranã são servidos pratos da mais saborosa culinária do planeta: a paraense. E personagens de ficção misturam-se com personagens reais, vivas e mortas, como o genial pintor amapaense Olivar Cunha, que decora o cenário do Festival de Gastronomia do Pará e Amapá, o compositor paraense Waldemar Henrique, o médium e astrofísico Laércio Fonseca, o escritor Jorge Bessa, os jornalistas Walmir Botelho e Carlos Mendes, editor do Ver-O-Fato, a cantora lírica Carmen Monarcha etc. etc. etc. 

Em segundo plano, surge uma Amazônia pouco conhecida: a dos Ovnis e ETs, com um resgate da Operação Prato, a maior aparição de Ovnis e ETs já registrada no Brasil, pela Aeronáutica, e que se deu na costa do Pará. O que é que os ETs queriam? De onde vieram? João do Bailique dá as respostas. 

Em terceiro plano, a Amazônia fica nua. Todas as questões que vêm sendo discutidas em torno da grande floresta são dissecadas. No caso de uma terceira guerra mundial, que papel a Amazônia teria? Resistiria a uma hecatombe nuclear? Seria ocupada pelos americanos? Também João do Bailique investiga essa questão, bem como analisa a soberania do Brasil sobre a região.

Essa história se passa no romance Jambu (clubedeautores.com.br e amazon.com.br, 190 páginas), deste repórter. Em Jambu, o leitor conhecerá a Amazônia profunda, aquela capaz de resistir até a um bombardeio atômico, e entenderá o que foi a Operação Prato e a Data-Limite, de Chico Xavier.

terça-feira, 9 de março de 2021

Se a esquerda voltar ao poder matará todos os líderes conservadores, adverte Roberto Jefferson após liberação de Lula Rousseff por Fachin

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 9 DE MARÇO DE 2021 – O presidente do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), Roberto Jefferson, advertiu hoje que se a esquerda conseguir emplacar uma ditadura no Brasil matará todos os líderes conservadores, em entrevista à TV Jornal da Cidade Online, ao comentar a decisão do ministro Edson Fachin, que anulou as condenações de Lula Rousseff na Lava Jato, tornando o ex-presidiário ficha limpa. 

“Está na hora do Brasil reagir. Está na hora do presidente (Jair Bolsonaro), como chefe supremo das Forças Armadas, ir lá no Artigo 142 da Constituição e convocar as Forças Armadas para aposentar esses 11 ministros; e se nomeia 11 juízes de carreira, que não tenham compromisso com partido político e nenhum grupo ideológico. Se não, eles (os 11 do Supremo) vão levar o Brasil a uma revolução” – analisou Jafferson. 

Para ele, se não houver uma intervenção imediata, o Supremo vai pavimentar uma ditadura igual à de Maduro na Venezuela, pois já soltou dezenas de milhares de corruptos, chefões do tráfico e bandidos em geral, além de empoderar governadores, que já soaram o toque de recolher, com a desculpa da pandemia, como Ibaneis Rocha, de Brasília, e começam a governar como em uma confederação.

“O Supremo está empoderando governadores e prefeitos e amarrando as mãos do presidente. Já, já, você vai ter movimento separatista. Já, já, a gente perde a Amazônia. É uma violência à segurança nacional e à integridade territorial do Brasil” – afirmou. “Hoje, o Brasil não é mais República Federativa. O Supremo fez no Brasil um estado confederado; é uma ameaça que o Supremo está fazendo à unidade territorial brasileira.” 

Sobre Fachin, disse: “É um homem de esquerda, do Movimento Sem Terra, advogado da causa gay, advogado do PT no Paraná, professor universitário comunista, como todo professor universitário das universidades públicas federais são”.

Roberto Jefferson ficou conhecido nacionalmente por ter denunciado o Mensalão, o maior esquema de cooptação do Legislativo pelo Executivo, no fim do primeiro mandato do ex-presidente Lula. Mesmo assim Lula foi reeleito.

quinta-feira, 4 de março de 2021

Viver não é preciso, escrever é preciso. Ou a boa vida segundo o playboy Ernest Hemingway

Hemingway bebe um daiquiri no Floridita, em Havana, Cuba

RAY CUNHA

BRASÍLIA, 4 DE MARÇO DE 2021 – Estamos o tempo todo fazendo novos amigos, mas algumas amizades são para sempre. Amigos são aqueles a quem amamos em qualquer circunstância, a quem não permitimos que mal algum os atinjam, a quem somos fiéis e a quem alertamos do perigo, mesmo que para isso tenhamos que fazê-los sofrer. Tenho grandes amigos, na companhia de quem me sinto dono da noite. 

Quando vivi em Belém do Pará, convivi, durante algum tempo, com o escritor Fernando Canto. Às vezes, a solidão me assaltava e não havia melhor cura do que beber gin fizz com o Fernando Canto, no bar do tio dele, onde não pagávamos, pois nessa época ele era estudante na Universidade Federal do Pará e eu era repórter de O Liberal. Noite, Belém, gin fizz, são algumas poucas palavras que evocam grandes amizades. 

Há também aquelas grandes e eternas amizades que jamais cultivaremos. Meu pai é uma delas. Nosso contato intenso, e que forjou para sempre nosso pacto, se deu na minha infância. Sinto ainda hoje, passados tantos anos, a presença vigorosa do meu pai. Ele era crestado pelo sol da Amazônia, tinha estatura média, era magro e rijo, os músculos saltando aos menores movimentos. Belo, mantinha o rosto raspado e bigodes aparados, cheirando a pinho, e seus cabelos, crespos, conservava-os curtos. 

À medida que avançava na idade, seu rosto, quadrado, ficava mais definido. Seus olhos eram grandes e negros, e doces, e irradiavam força descomunal, vontade inquebrantável, tempestades que ocorriam nas profundezas do seu espírito e que só poderiam ser controladas por algo livre, porque disciplinado. 

Lembro meu pai sinalizando na pista para os aviões Douglas DC-3 da empresa Serviços Aéreos Cruzeiro do Sul. Meu pai era um faz-tudo no pequeno aeroporto de Macapá, minha cidade natal, situada no cruzamento do rio Amazonas com a Linha Imaginária do Equador. Foi ele quem primeiro mergulhou a mim no mundo da literatura. Depois dele, surgiu uma ninfeta dourada para quem dediquei um poema de amor, vermelho de rosas e rubis. 

Vieram bebedeiras e bate-papos memoráveis na casa do poeta Isnard Brandão Lima Filho e na noite de Macapá, e a estante do meu irmão mais velho, Paulo Cunha, onde encontrava Ernest Hemingway, Franz Scott Fitzgerald e Norman Mailer, e longos papos com o crítico de cinema José Gaspar, em Manaus, sobre Hemingway, boxe e mulheres, uma das quais, galega, de olhos azuis de manhã e verdes à tarde. E houve intermináveis bebedeiras com Fernando Canto, em Belém do Pará, e noites e noites de bate-papo com Walmir Botelho. 

Foi meu pai quem primeiro mergulhou a mim no mundo da literatura ao narrar suas caçadas. Ele era caçador e possuía um arsenal, em casa. Lia O Coyote, de J. Mallorqui, Allan Kardec e livros de bolso ambientados no velho oeste americano, e gostava de contar histórias baseadas em Edgard Rice Burroughs, Hans Christian Andersen e Jacob e Wilhelm Grimm. 

Sua voz era grave e sonora, e tinha o poder de me fazer mergulhar na fronteira do mundo multidimensional, no qual só aos artistas é permitido entrar. Sua voz era como uma luz nas noites das nossas reuniões em família, na Casa Amarela, na Rua Iracema Carvão Nunes com a Eliezer Levy. 

Eu vivia em Manaus quando ele morreu, jovem, aos 62 anos, de ataque cardíaco fulminante; fumava muito. Somente muitos anos mais tarde é que me dei conta da sua ausência. Acho que ele seria como Pablo Picasso, e eu o levaria ao restaurante Raízes da Amazônia, no Setor Sudoeste, aqui em Brasília, para ele comer filhote e eu, caranguejo, e conversaríamos sobre caçadas e ele me contaria segredos da selva. Eu diria a ele que resolvi ser escritor, para sempre, e que meu lema é: viver não é preciso, escrever é preciso. 

Outro de quem eu seria grande amigo seria Ernest Hemingway. Durante 14 anos, o jornalista americano Aaron Edward Hotchener foi amigo de Hemingway. Durante a fecunda convivência, Hotchener anotou, inclusive em guardanapos de papel, tiradas do grande escritor, no convívio com outras pessoas do seu tempo, muitas delas celebridades também, em vários lugares do mundo, além de fotografar Papa na sua casa – a Finca Vigia –, no seu iate Pilar, caçando e escrevendo. O resultado disso é um livro delicioso. 

Aaron Edward Hotchener acabara de receber polpuda indenização da Força Aérea americana, em Paris, durante a Segunda Guerra Mundial, e preferiu permanecer em solo parisiense, pois vivia com uma soprano do teatro Ópera de Paris, no apartamento dela, e assim passaram-se dois anos paradisíacos, findos os quais retornou sem tostão para os Estados Unidos, onde seu amigo, Arthur Gordon, conseguiu-lhe trabalho freelance na revista Cosmopolitan. 

Na verdade, Arthur Gordon teve que inventar um trabalho para Hotchener. Entregou-lhe uma lista de escritores ilustres, para os procurar e convencê-los a escrever algo para o grupo Hearst. A lista intimidaria qualquer um. Nela, entre outros, constavam os pesos pesados: Dorothy Parkes, Sinclair Lewis, John Steinbeck, William Faulkner e Ernest Hemingway. Hotchener seria reembolsado das despesas e embolsaria 300 dólares por escritor caçado. 

Hotchener não queria voltar a trabalhar no escritório de advocacia Taylor, Mayer, Shifrin e Willer, em St. Louis, e assim aceitou o desafio, e obteve algum sucesso, pois alguns escritores estavam esquecidos ou encontravam-se carentes financeiramente, de modo que ficaram até lisonjeados com a oferta. Dos autores da lista, apenas John O’Hara e William Faulkner não quiserem conversa com Hotchener. 

Um deles, Hotchener sequer tentou contatar: Ernest Hemingway. Papa, como era chamado, o intimidava. Seria, hoje, como um repórter brasileiro desconhecido tentar um contato com Vargas Llosa. E depois Hotchener sentia por Hemingway “espanto e admiração”, o que não é bom para o repórter que vai entrevistar uma celebridade, pois lhe tolda a visão. Mas Hotchener foi instado a procurar Hemingway, pois aquela lista não seria legítima sem o Velhão (como o chamo). 

– Mas, Arthur, você quer que eu lhe peça para escrever um artigo sobre o futuro da literatura; não posso pedir ao grande Hemingway que escreva uma coisa tão estúpida quanto essa. Ele vai me arrasar – argumentou Hotchener. Mas não houve jeito. 

– Não seja covarde. Mexa seu traseiro sardento e vá a Cuba, ou então terá de voltar a St. Louis e enterrar o nariz em um Corpus Júris Secundum – Arthur Gordon replicou, entre outros argumentos. 

De modo que em 1948, Hotchener foi a Havana e mandou um bilhete para Hemingway, que morava num vilarejo da periferia da cidade, San Francisco de Paula, onde é hoje o Museu Hemingway, dizendo-lhe que “estava ali em uma missão constrangedora, para pedir que escrevesse um artigo sobre o futuro da literatura”, que ele, “por gentileza, respondesse rejeitando o pedido, de modo que eu pudesse manter meu emprego miserável na Cosmopolitan”. 

Naquela tarde, o telefone tocou no quarto do Hotel Nacional onde Hotchener estava hospedado. “É Hotchner quem fala? Dr. Hemingway, aqui. Recebi seu recado. Não posso deixar que você aborte sua missão, senão irá comprometer sua imagem na organização Hearst, o que significa algo parecido com ser mandado embora de um leprosário. Que tal tomarmos um drinque por volta de 5 horas? Há um bar chamado La Florida. Diga isso ao motorista do táxi” – ouviu. 

Era o início de uma amizade de 14 anos, até a morte de Hemingway, numa manhã de domingo, 2 de julho de 1961. Hotchener registrou esses 14 anos intensos que conviveu com um dos maiores escritores de todos os tempos no livro Papa Hemingway e em Dear Papa, Dear Hotch. 

O fato é que Hemingway escreveu algo para a revista Cosmo, do grupo Hearst. Não foi, claro, um artigo sobre o futuro da literatura, mas um romance: Do outro lado do rio, entre as árvores. Esse trabalho, considerado pelos críticos um dos mais fracos de Hemingway, conta a história de um velho militar americano que se apaixona por uma jovem italiana, em Veneza. É, como todas as histórias de Hemingway, repleta de romance. Se não contribui para com a literatura como O sol também se levanta, são páginas emocionantes de amor de um velho por uma mulher bastante jovem. 

A condição de jornalista freelancer de Hotchener lhe permitiu acompanhar Hemingway nas suas andanças pelos mais diversos lugares do planeta. “Por onde quer que fôssemos, as conversas que Ernest tinha comigo e com seus amigos e desconhecidos ao longo do caminho, suas observações a respeito de si mesmo, sobre o comportamento dos outros, incluindo aqui os animais, os peixes e pássaros, e sobre o mundo a seu redor, tudo era tão extraordinário que me senti compelido a fazer anotações, frequentemente em inúmeros pedaços de papel – papéis na recepção do hotel, guardanapos, cardápios, blocos de anotações, no verso de listas com itens de lavanderia. 

“Ernest era um conversador entusiasmado, divertido, sagaz, controverso e obstinadamente apegado a suas opiniões, um contador de histórias extraordinário, com uma memória vívida de pessoas e de fatos que datavam de sua tenra infância” – escreveu Hotchener, na introdução do seu último livro, A boa vida segundo Hemingway (Larousse, São Paulo, 2008, 257 páginas, R$ 29,90). 

A boa vida segundo Hemingway é um desses livros que compramos e, ao chegar em casa, procuramos imediatamente o melhor lugar para o ler, pois se constitui na porta para um mundo fascinante e real, e também revelador, pois que reúne as melhores tiradas de Hemingway, e fotos coletadas por Hotchener durante o convívio fecundo com um escritor classe A. 

Não convivi com Hemingway, mas houve um caso que nos uniu para sempre. Hemingway se suicidou. Um dia, comecei a enviar seu nome, todos os anos, para a Academia Espiritual da Seicho-No-Ie, em Ibiúna, São Paulo, a fim de que ele receba orações todos os dias. 

Logo depois da primeira vez que fiz isso sonhei com Hemingway, um desses sonhos palpáveis, que entram no nosso dia-a-dia e passam a fazer parte da nossa vida. Primeiramente o vi já velho, de cabelos e barba brancos, conversando com dois sujeitos na platéia superior de um teatro, em Belém do Pará. Depois o vi no palco, jovem, do jeito que ele era quando morou em Paris. Havia outras pessoas no palco. Não sei o que faziam ali. Então Hemingway passou por mim e me olhou, e me agradeceu com o olhar. Durante aquele dia, e sempre, a sensação que tenho é a de que estive com Hemingway.

Li quase todos os livros dele e muitos sobre ele. Guardo alguns livros do Velhão para os ler quando achar conveniente, como alguém que aguarda uma viagem há muito esperada e que será a porta para um mundo azul. A cada livro do Velhão ou sobre Papa, que leio, faço uma dessas viagens. Acordo com leões esturrando em praias africanas, capturo grandes peixes, sinto os cheiros das cidades que Hemingway amou e me transporto para Belém, Rio de Janeiro, Manaus e Macapá, e amo todas as mulheres que me fascinaram em cada estação da minha vida.

quarta-feira, 3 de março de 2021

Memórias de um repórter na Amazônia

Jornal A Província do Pará, 1982, quando do lançamento
do livro de poemas Sob o Céu nas Nuvens, deste repórter

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 3 DE MARÇO DE 2021 – Em 31 de março de 1964, eu tinha 9 anos de idade e vivia na minha terra natal, Macapá, cidade ribeirinha na margem esquerda do estuário do maior rio do mundo, o Amazonas, na esquina com a Linha Imaginária do Equador. Era a capital do então Território Federal do Amapá. Daquela época, lembro-me de prisões políticas na Fortaleza de São José de Macapá e da minha mãe queimando livros do meu irmão mais velho, Paulo Cunha, leitor voraz, poeta e líder estudantil, o suficiente para que fosse jogado na Fortaleza. 

Em 1968, aos 14 anos, comecei a frequentar uma roda de artistas, alguns dos quais tinham que se apresentar, de vez em quando, no quartel local do Exército. O poeta Isnard Brandão Lima Filho, pai da minha geração de escritores, foi preso tanto na Fortaleza quanto no antigo presídio São José, em Belém. 

Em 1971, houve uma grande mudança na minha vida. Eu cursava o quarto ano do antigo ginasial no Colégio Amapaense quando, juntamente com três amigos, criamos o jornal estudantil A Rosa (Bonitinha, mas ordinária). Meus amigos eram o poeta e contista José Edson dos Santos (Joy Edson), o jornalista Walter Júnior do Carmo e o advogado José Nazareno Nogueira. 

O pasquim só circulou uma vez. Na época, o diretor do Colégio Amapaense era o professor Tinilo e o vice, professor Edgar. Fui submetido, pelos dois, a um inquérito que durou cerca de uma hora, eles e eu, numa sala fechada. Queriam saber onde o jornal fora datilografado e mimeografado. Não disse nada e peguei 15 dias de suspensão. 

O governador, na época, era o general mato-grossense Ivanhoé Gonçalves Martins. O Palácio do Setentrião era separado do Colégio Amapaense por uma praça descampada e o governador gostava de olhar de binóculo para o colégio. Diziam que ele estava vigiando os alunos. Certa vez, o jornalista Haroldo Franco publicou no seu jornal, do qual, mais tarde, fui editor, uma foto do general Ivanhoé montado num cavalo, com uma legenda mais ou menos assim: O governador Ivanhoé Gonçalves Martins (o de cima) sai para uma blitz. Haroldo Franco teve que se esconder até as coisas esfriarem. Pois bem, enviaram A Rosa para Ivanhoé. 

Na Secretaria de Educação, um amigo meu, Montoril, pai do poeta José Montoril, impediu, não me lembro mais como, que o jornal caísse nas mãos do general. Mas, naquelas alturas, eu andava desestimulado com a vida estudantil, e com a cidade. Em Macapá, naquela época, artista era tratado pela sociedade local como vagabundo, marginal mesmo (não sei se isso mudou). 

Em dezembro daquele ano, 1971, publiquei, com Joy Edson e José Montoril, um livro de poemas, Xarda Misturada, e peguei a estrada, com apenas 17 anos e sem sequer carteira de identidade. Rodei por aí, Rio de Janeiro, Buenos Aires, Manaus, onde vivem parentes do meu pai, João Raimundo Cunha. Quando eu cheguei em Manaus, tinha 21 anos; era 1975, auge do regime dos generais. 

Antes de pegar o rio e partir para Manaus, para conhecer meus parentes paternos, dei uma parada em Santarém (PA), onde meu irmão, Paulo Cunha, estava morando. Em Santarém, trabalhei como redator da antiga Rádio Clube, de modo que já me sentia jornalista, e, ao chegar a Manaus, entrei no primeiro jornal que encontrei, o Jornal do Commercio, então sediado na Avenida Eduardo Ribeiro, onde, e nada é por acaso, havia uma vaga para repórter policial. 

Comecei no dia seguinte. Rotineiramente, cobria o Tribunal de Justiça e as delegacias de polícia, principalmente a Central, um casarão no centro da cidade, do qual guardei na memória o fedor de urina e de tortura. Ali, perpetrava-se todo tipo de barbaridade. 

No Jornal do Commercio, uma vez meu amigo Wanderley Fortaleza escreveu alguma coisa, não me lembro mais exatamente o que, e a redação foi invadida pela Polícia Militar. Fiquei por pouco tempo no Jornal do Commercio e fui para A Notícia. No dia 31 de março de 1976, o então presidente Ernesto Geisel e ministros foram a Manaus inaugurar o Aeroporto Internacional Eduardo Gomes. 

Quase toda a equipe de A Notícia foi escalada para cobrir a permanência de Geisel e comitiva em Manaus, o dia todo. Fazia parte da minha pauta entrevistar o ministro da Educação, general de brigada Ney Braga, e perguntar a ele se o Decreto 477, editado em 1969 e que enquadrava estudantes e professores que contrariassem o regime, ainda era necessário. 

O diretor de redação de A Notícia, Bianor Garcia, foi claro comigo. Eu teria que perguntar ao general sobre até quando haveria necessidade da vigência do Decreto 477. Talvez porque não vivesse na sala do Bianor, puxando saco dele, eu sentia que ele queria se livrar de mim, pois a missão era impossível. 

À noite, Ney Braga participaria de um encontro em um clube da alta sociedade no centro de Manaus, o Ideal Clube. Fui para lá com um gravador. Sentia-me meio condenado, mas com o estímulo do tudo ou nada. Posicionei-me num local por onde sabia que Ney Braga passaria e fiquei de campana. Não lembro quanto tempo esperei, mas o homem veio na minha direção e quando chegou a uma distância segura dei o bote. 

Os seguranças foram pegos de surpresa, pois não dei tempo a ninguém. O gravador na mão, avencei para cima de Ney Braga, com a serenidade dos que não têm nada a perder, identifiquei-me como repórter de A Notícia e sapequei a pergunta. Jamais esquecerei aquele sujeito me olhando quase na minha cara como se quisesse me fuzilar com os olhos de gelo. Sustentei o olhar dele. Deus, como eu precisava do meu emprego. 

– O Decreto 477 ainda tem razão de ser? – perguntei mais ou menos isso. 

Os olhos dele tinham a opacidade dos olhos de tubarão, e guardavam uma espécie de tédio, o tédio do poder. 

– Você é jornalista? – ele me perguntou. Eu não era jornalista de direito. Tinha parado na quarta série ginasial e só estava trabalhando como repórter porque naquela época ninguém ligava para diploma de jornalista, bastava que soubéssemos escrever. Eu sequer tinha o ensino básico completo. Só em 1982 é que, depois de fazer o Supletivo, comecei a cursar jornalismo, por pressão das empresas jornalísticas e do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Pará. 

– Sou repórter de A Notícia – repeti. 

– E o que é que você acha? Você acha certo a anarquia? – ele disse algo mais ou menos assim. – Por que você está preocupado com isso? 

– Quero saber sua opinião, ministro – insisti. 

– O que você acha do decreto? – ele redarguiu. 

– Eu, nada, a pergunta é para o senhor – repliquei. 

– Não se preocupe com isso – ele disse. Lembrava os generais do cinema, sempre acompanhados de uma comitiva. 

A entrevista, que foi curtíssima, caiu na burocracia. O general, e seu labirinto, foram-se logo. Creio que ele encerrou a entrevista mais por enfado do que por pressa. Voltei iluminado para o jornal. Havia compreendido várias coisas, entre as quais é que quem está na chuva é para se molhar. Escrevi um boxe curto com a entrevista e conservei meu emprego, que, aliás, não durou muito tempo, pois me mudei para o jornal A Crítica, levado pelo futuro senador Fábio Lucena, que conheci no Clube da Madrugada e bebíamos no bar Caldeira. 

Falar nele, depois que se elegeu senador e antes de se suicidar, certa vez eu estava em Brasília e fui procurá-lo no Senado. Ao me aproximar dele, um capanga que o acompanhava já ia sacar o revólver para me alvejar quando Fábio Lucena fez um sinal para ele avisando que eu era seu amigo. O próprio Fábio me disse que o capanga tinha ordem para matar quem se aproximasse dele sem ser convidado. Não passou muito tempo para que a paranoia se agravasse e ele se matasse. 

Anos depois, o sargento paraquedista do Exército, Abílio Teixeira, que foi segurança de vários generais, me ensinou que um general é um homem como outro qualquer. A única coisa que o diferencia é seu uniforme. E um uniforme é só um uniforme. Aquela entrevista foi uma das melhores que já fiz, porque comecei, naquele momento, a entender, intuitivamente, que jornalismo é mais do que profissão; é a missão de desmitificar a realidade, essa dama escorregadia, que se move no pântano das trevas.

Foi em A Notícia que tive meus melhores momentos em Manaus como repórter. Certa vez, escrevi uma nota sobre rodoviários atacados por waimiris-atroaris na BR-174, a Manaus-Boa Vista. Por conta da nota, o Bianor Garcia foi chamado para dar explicações no Comando Militar da Amazônia. Não foi; mandou a mim. 

Lembro-me que o coronel que chamara o Bianor Garcia não gostou de ver apenas o repórter, e de 21 anos, para dar explicações sobre uma “questão de segurança nacional”, mas me fez algumas perguntas e me liberou. Recriei esse episódio no conto A Grande Farra, publicado em livro homônimo, em 1992, em Brasília. 

Durante todo o tempo em que trabalhei em A Notícia, o jornal esteve sob censura prévia. Todas as noites, um casal de agentes federais, casados mesmo, ia para uma sala contígua à redação e lia tudo o que sairia na edição do dia seguinte, cortando o que achasse que pudesse ofender o regime. 

A Notícia foi uma escola para mim. Lá, conheci José Marqueiz, Prêmio Esso de 1973, por cobrir para O Estado de S.Paulo a expedição dos irmãos Villas-Bôas de contato dos índios kranhacarores, no Mato Grosso. Marqueiz era correspondente do Estadão e redator de A Notícia. Ele foi o primeiro a pavimentar meu texto jornalístico. 

O Marqueiz e eu nos tornamos amigos. Batíamos muito papo no bar Amarelinho, na Avenida Getúlio Vargas, centro de Manaus. Quando fez a reportagem que lhe daria o Esso, ele contraiu malária e para combater o frio bebia. Tornou-se alcoólatra. Bebia pequenos tragos de Pitú, seguidos de chopp. 

Certa noite, pernoitei na casa dele e no dia seguinte saímos cedinho. Paramos no bar de um português, no centro de Manaus, que Marqueiz frequentava, e ele me convidou para fazer o desjejum: um copo de Pitú na cintura, que ele sorveu de um só trago. Recusei. O máximo a que cheguei foi fazer desjejum com a maravilhosa Antarctica manauara. 

Apesar de eu só ter 21 anos de idade, assinava uma coluna semanal em A Notícia, No Mundo da Arte. Nessa época, entrevistei muito artista importante, alguns em início de carreira, como Márcio Souza e Fafá de Belém, que era um exuberante furacão. Entrevistei vários monstros sagrados, como Grande Otelo, Nara Leão, Roberto Carlos. E conheci Jorge Amado, num encontro fortuito, nos arredores de Manaus. Roberto Carlos me marcou porque foi a pior entrevista que fiz na minha vida. 

A produção do jornal conseguiu entrevista exclusiva com Roberto, que fora apresentar-se em Manaus, em 1976, e estava hospedado no Hotel Amazonas, centro da cidade. O chefe de reportagem instruiu-me a perguntar ao Rei se ele usava meia de mulher como touca, antes dos shows. Pergunta bizarra, mas que satisfaria o suposto perfil dos leitores do jornal, que tendia ao sensacionalismo. Tudo bem! O problema era que o gravador estava falhando, e isso foi meu terror, porque se chegasse à redação sem a entrevista meu destino estaria selado. 

Fui fazer a entrevista. No hotel, fomos conduzidos, o fotógrafo e eu, ao corredor do apartamento do Rei, onde fomos recebidos por dois seguranças. Roberto não nos recebeu no apartamento, mas, depois de se arrumar, saiu do apartamento e me deu a entrevista no corredor. 

O Rei é um sujeito carismático. Ele me deixou à vontade e eu me senti como se fosse velho amigo dele. Perguntei-lhe sobre o negócio da meia, assunto que fora objeto de revista de fofoca. Ele me respondeu numa boa. Eu prestava mais atenção ao gravador do que a Roberto, pois estava preocupado, vigiando o rolo de fita girando. Era um velho gravador de tamanho médio. Mais tarde, na redação, degravando a entrevista, vi o quanto ela foi burocrática. Mas tudo bem! Restou uma fotografia com o Rei, por insistência do fotógrafo, que se tornara amigo meu e queria me dar um presente. 

Em 1977, mudei-me para Belém, onde trabalhei em O Liberal e depois em O Estado do Pará. Nessa época, trabalhei com dois mestres, um deles nada menos que Octávio Ribeiro, o Pena Branca, um dos maiores repórteres policiais do país. Em 1978, Pena esteve em Belém promovendo seu livro Barra Pesada, quando foi convidado pelo Oliveira Bastos, que foi um dos editores do Jornal do Brasil, para ser editor de polícia de O Estado do Pará, de Oliveira Bastos, mesmo que fosse por pouco tempo. 

Na época, eu trabalhava em O Liberal e fui pautado para entrevistar Pena Branca. Ele gostou tanto da entrevista que me convidou para integrar sua equipe como redator. Para completar, o diretor de redação de O Estado do Pará era Walmir Botelho, um verdadeiro irmão para mim e meu mentor, outro mestre, com quem vim a trabalhar, mais tarde, no Correio do Brasil, em Brasília, e novamente em O Liberal. 

Além da oportunidade de trabalhar com uma lenda, que era Octávio Ribeiro, e com um mago do jornalismo, Walmir Botelho, meu salário dobrou. Assim, deixei O Liberal, no qual voltei a trabalhar anos depois, quando o Walmir assumiu como seu diretor de redação, e fui para O Estado do Pará.

Passei a redigir a manchete de polícia e, às vezes, do jornal, assim como algumas chamadas de capa, a pedido do Walmir. Com Pena Branca aprendi a escrever de maneira objetiva e clara. Obrigado, Pena! 

Mas, inquieto, não demorei muito em O Estado do Pará, e naquele mesmo ano, 1978, fui para Rio Branco, trabalhar no jornal Gazeta do Acre, comandado pelo Elson Martins, editor também do Varadouro, o mais famoso jornal de resistência ao regime militar produzido na Hileia. Tive, também, rapidíssima passagem pelo Varadouro, para o qual escrevi, em março de 1979, a matéria Roteiro da Prostituição, publicada, com chamada de capa, na edição 14 do Varadouro. 

De volta a Belém, permaneci lá até 1987, quando me formei em Jornalismo pela Universidade Federal do Pará e mudei para Brasília. Em 2005, a Editora Cejup, de Belém, publicou meu romance A Casa Amarela, ambientado em Macapá, a partir de 1964. 

Durante breve período, fui redator-chefe do semanário DF Notícias, em Brasília, onde conheci o sargento da reserva do Exército, Abílio Teixeira, que, em 2002, foi candidato a deputado federal. Fluminense, sargentão, paraquedista, assessor de ministro do Exército durante o regime militar, Abílio Teixeira não tem papa na língua. Escrevia uma coluna na qual descia o cacete no então presidente Lula Rousseff, que submetia os militares a um salário de fome. E também porque Lula não estava nem aí para a Amazônia. Os amazônidas que se lascassem. E ainda porque a infraestrutura do país estava desabando. 

Um dia, um tenente do Comando Militar do Exército ligou para a redação e pediu para falar comigo, marcando a visita de um major. Eu sabia que era por causa dos artigos do Abílio. Na manhã combinada, recebi o major e seu ordenança na minha sala. A certa altura o major me perguntou se poderia ler, de antemão, os artigos do Abílio. O sangue subiu à minha face. 

– Censura? – perguntei, irritado. 

O major escorregou do galho, mas era bom de comunicação e, com habilidade, conduziu a questão para outro lado, perguntando se poderia consultar o arquivo do jornal. Sim, é claro que poderia, mas pus, de propósito, um obstáculo. 

– É claro. Basta que o Exército encaminhe uma carta solicitando isso – disse. 

O major se mexeu na cadeira. Não demorou a ir embora, dizendo que providenciaria o documento, e nunca mais soube dele. 

Tive longos papos com o Abílio sobre assuntos da caserna, e me sinto grato a ele, porque foi decisivo no exorcismo do medo que eu acumulei acompanhando como repórter o regime dos generais, de modo a valorizar, a zelar, a lutar pela democracia plena, sempre. 

Mas compreendo também que os militares atenderam a um pedido de socorro, pois os comunistas tupiniquins estavam prestes a sair do ovo da serpente nos moldes da extinta União Soviética, totalitária; de Cuba, que agoniza; e da Venezuela, que começava a enveredar por um caminho que a levaria à tragédia – hoje, o povo venezuelano, vítima do bolivarianismo, um engodo de Hugo Chávez Maduro, já comeu todos os seus cachorros e gatos e já pensa em comer cadáveres. 

Foi nesse cenário que surgiu Lula Rousseff, que, nos anos 1990, instalou o Foro de São Paulo, reunindo hienas como Fidel Castro, e lançando as bases para começar uma ditadura comunista no Brasil. Em 2003, foi eleito presidente da República e começou, imediatamente, seu plano, por meio do patrimonialismo, do paternalismo, do populismo e do aparelhamento do Estado, aliando-se a todas as excrescências que rastejam, do Oiapoque ao Chuí; desqualificando as Forças Armadas, as escolas e as universidades; e assaltando a Petrobras e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). 

O movimento militar de 1964 recebeu o chamado e o apoio da maioria da sociedade brasileira, receosa de um golpe comunista, que é sempre totalitário e genocida. Mesmo assim, 21 anos depois, os ovos da serpente, infiltrados em todos os estames da sociedade, eclodiram, gerando corrupção em metástase. Hoje, a democracia está em perigo. Faz-se urgente impedir qualquer tipo de ditadura, principalmente a dos fabianos, que agem à sombra da legalidade. 

A grande lição que aprendi nas duas décadas de um regime sufocante, mas que evitou algo pior, é que devemos lutar com unhas e dentes pela democracia, que é, em última instância, um exercício individual de amor ao próximo. Quando tomamos atitudes justas e altruístas, toda a Humanidade melhora, pois nenhum homem é uma ilha; somos, todos, um continente.

terça-feira, 2 de março de 2021

Qualquer pessoa pode praticar acupuntura no Brasil. A prática não é regulamentada

RAY CUNHA

BRASÍLIA, 2 DE MARÇO DE 2021 Alunos de Medicina Tradicional Chinesa (MTC), médicos, enfermeiros, massagistas, advogados, jornalistas, atletas, pedreiros, faxineiros, morador de rua, deputado, senador, qualquer pessoa, pode praticar acupuntura no Brasil, porque não é regulamentada. Segundo a Federação Brasileira das Sociedades de Acupuntura e Práticas Integrativas em Saúde (Febrasa), “não há impedimento legal na realização das atividades laborais nessa área do saber em nosso país”. 

Durante décadas, os médicos tentaram fazer reserva de mercado da acupuntura, mas não conseguiram, até porque MTC e medicina ocidental são terapias absolutamente diversas, embora possam complementar-se. Enquanto esta cuida de órgãos e regiões do corpo, com medicamentos e cirurgia, aquela cuida do ser holístico, incluindo o espírito, por meio de fitoterapia, massoterapia e acupuntura, técnica que trabalha meridianos energéticos. 

Há 30 anos que o Congresso Nacional vem ensaiando regulamentar a profissão de acupunturista, mas os projetos afins tramitam a passos de cágado, mas o Projeto de Lei 1549/2003, que disciplina o exercício profissional de acupunturista, é o mais avançado na Câmara Federal; só falta ser votado em plenário. Há cerca de 100 mil acupunturistas no Brasil aguardando por isso. 

No mundo todo, principalmente nos Estados Unidos, acupuntura é profissão, cada vez mais utilizada, mais eficiente como terapia preventiva e mais barata. 

Segundo o presidente da Federação Brasileira das Sociedades de Acupuntura e Práticas Integrativas em Saúde (Febrasa), professor Sohaku Bastos, doutor em Acupuntura e diretor para o Brasil da World Federation of Acupuncture and Moxibustion Societies (WFAS), “a Acupuntura é um recurso terapêutico da Medicina Tradicional Chinesa, que possui uma doutrina terapêutica própria e uma inusitada racionalidade em saúde, não sendo propriedade exclusiva de nenhuma profissão da saúde no Brasil. Para evitar equívocos, a Organização Mundial da Saúde (OMS) criou as Diretrizes para o Treinamento Básico e Segurança em Acupuntura, nas quais é clara a autonomia dos profissionais de Acupuntura. 

“Em que pese a inexistência de cursos de graduação superior em Acupuntura no país, até o presente momento, reiteramos a existência de massa crítica científica e acadêmica, além de uma expressiva presença do profissional de Acupuntura no mundo da assistência em saúde de nosso país, tanto na esfera privada quanto na esfera pública, caracterizando uma forte influência dessa cultura assistencial na sociedade brasileira.

“É dever da Febrasa, enquanto instituição que defende a prática, o ensino e a pesquisa da Acupuntura e da Medicina Tradicional Chinesa, no Brasil, informar a todos os alunos, profissionais e professores de Acupuntura que não há impedimento legal na realização das atividades laborais nessa área do saber em nosso país”.