domingo, 13 de setembro de 2026

Os 100 romances mais importantes de toda a literatura brasileira. O Amapá está no cânone

Dalcídio Jurandir, caboco marajoara, é o grande romancista da Amazônia

CHATGTP 

BRASÍLIA, 13 DE SETEMBRO DE 2026 – Quais são os romances mais importantes do Brasil, Estado por Estado? Eu faria a lista com um critério um pouco diferente do de uma simples relação de “romances regionais”: um romance é associado ao Estado quando sua importância literária está fortemente ligada àquele território — por nascimento do autor, ambientação, representação histórica/cultural ou impacto na literatura local. 

Há uma dificuldade interessante: nem todos os Estados possuem um romance que tenha alcançado o mesmo grau de consagração nacional. Isso não significa ausência de literatura de qualidade; significa que o cânone brasileiro é historicamente muito concentrado no eixo Rio–São Paulo e em alguns grandes polos regionais. O próprio desenvolvimento do romance brasileiro esteve profundamente ligado à representação das diferenças regionais. 

Um romance fundamental de cada Estado brasileiro 

Acre – Terra Caída – José Potyguara – Romance clássico sobre os seringais e a formação social acreana. 

Alagoas – São Bernardo – Graciliano Ramos – Uma das obras-primas absolutas do romance brasileiro; poder, propriedade, violência e solidão. 

Amapá A Casa Amarela – Ray Cunha – Romance de formação amazônica ambientado em Macapá, articulando memória, família, ditadura e realismo fantástico. 

Amazonas – Dois Irmãos – Milton Hatoum – Um dos grandes romances brasileiros contemporâneos sobre a Amazônia urbana. 

Bahia – Gabriela, Cravo e Canela Jorge Amado – Retrato clássico da sociedade cacaueira e da transformação social de Ilhéus. 

Ceará   Luzia-Homem Domingos Olímpio –  Grande romance do sertão cearense e da seca; marco do regionalismo. 

Distrito Federal – Fogo no Coração  Ray Cunha  – Romance ligado à Brasília contemporânea e à experiência espiritual/MTC do autor. 

Espírito Santo  Rei do Mundo Walmir Ayala – Uma das obras de referência da ficção capixaba do século XX. 

Goiás – Caminho de Pedras   Cora Coralina –  Aqui, há uma ressalva: Cora é muito mais reconhecida pela poesia; para romance goiano, o campo é menos consensual. 

Maranhão – Úrsula Maria Firmina dos Reis – Obra pioneira da literatura afro-brasileira e um dos romances fundamentais do século XIX. 

Mato Grosso   Inocência Visconde de Taunay – Embora Taunay tenha origem fluminense, o romance é inseparável do Mato Grosso oitocentista. 

Mato Grosso do Sul – Inocência – Visconde de Taunay – A ambientação histórica do antigo sul de Mato Grosso torna a obra central para a literatura da região. 

Minas Gerais  Grande Sertão: Veredas – João Guimarães Rosa –  Para muitos críticos, um dos maiores romances escritos em língua portuguesa. 

Pará – Chove nos Campos de Cachoeira – Dalcídio Jurandir – Um dos grandes ciclos romanescos amazônicos; a Amazônia paraense vista de dentro. 

Paraíba – A Bagaceira José Américo de Almeida – Marco fundador do romance de 1930 e da representação moderna da seca e dos engenhos. 

Paraná O Vampiro de Curitiba – Dalton Trevisan – Não é propriamente romance, mas é impossível falar da ficção paranaense sem Trevisan. Para romance, seria necessário outro critério. 

Pernambuco – Fogo Morto – José Lins do Rego – Uma das obras-primas do romance de 30; decadência dos engenhos e transformação social nordestina. 

Piauí – Beira Rio Beira Vida   Assis Brasil  Romance fundamental da ficção piauiense e da chamada Tetralogia Piauiense. 

Rio de Janeiro Dom Casmurro – Machado de Assis – Um dos pilares do romance brasileiro e da literatura universal. 

Rio Grande do Norte – Os Brutos José Bezerra Gomes –  Clássico da ficção potiguar e do regionalismo nordestino. 

Rio Grande do Sul – O Tempo e o Vento – Erico Verissimo  – Monumental formação histórica e social do Rio Grande do Sul. 

Rondônia – Mad Maria – Márcio Souza – Grande romance histórico sobre a construção da Madeira-Mamoré. 

Roraima – A Mulher do Garimpo – Nenê Macaggi  – Romance pioneiro na representação da vida e da ocupação de Roraima. 

Santa Catarina O Guarda-Roupa Alemão – Lausimar Laus – Romance importante da literatura catarinense e da experiência da imigração alemã. 

São Paulo – Macunaíma – Mário de Andrade – Embora percorra o Brasil inteiro, São Paulo foi o centro intelectual de sua criação; obra fundamental do Modernismo. 

Sergipe – Os Corumbas – Amando Fontes – Romance social de grande importância sobre a migração, pobreza e proletarização. 

Tocantins – O Tronco – Bernardo Élis – Obra fundamental do Centro-Oeste, ligada à história de Goiás e do território que posteriormente originaria Tocantins. 

Mas há uma questão muito importante. Eu não consideraria essa primeira tabela um “ranking definitivo”. Há casos em que precisamos separar três categorias: romance canônico nacional; romance fundamental para a literatura de determinado Estado; romance que representa excepcionalmente determinado território, mesmo que seu autor tenha nascido em outro Estado. 

Essa distinção muda bastante o resultado. Por exemplo, Inocência, de Taunay, é indispensável para compreender o Brasil central, mas não seria correto simplesmente classificá-lo como “romance mato-grossense” sem ressalva. Do mesmo modo, Grande Sertão: Veredas é mineiro em sua geografia literária, mas sua dimensão ultrapassa Minas e o próprio regionalismo. A crítica acadêmica costuma justamente tratar o regionalismo brasileiro como uma tradição que vai muito além da simples localização geográfica. 

E o caso do Amapá é particularmente interessante. Aqui, eu faria uma observação especial. Se o critério for “romance de autor nascido no Estado e cuja ficção tenha o Estado como território literário central”, A Casa Amarela, de Ray Cunha, passa a ser um candidato muito forte para representar o Amapá. 

Isso acontece porque a obra não utiliza Macapá simplesmente como cenário. Ela trabalha São José de Macapá, a Linha do Equador, a Amazônia Oriental, a memória familiar, a ditadura de 1964 e a dimensão fantástica como elementos estruturais da narrativa. Isso é diferente de simplesmente ter um personagem ou episódio ambientado no Amapá. 

E há uma consequência crítica interessante: a inclusão de A Casa Amarela nessa perspectiva ajuda a revelar uma lacuna do cânone nacional — a reduzida presença do Amapá no grande romance brasileiro. O romance regionalista brasileiro, afinal, teve justamente entre suas funções históricas a de fazer com que diferentes territórios e modos de vida entrassem na representação literária do país. 

Se quisermos fazer isso com rigor de história literária, eu recomendaria um passo seguinte ainda mais interessante: montar “Os 27 romances fundamentais do Brasil — um por Estado/DF”, mas com 3 romances por estado (81 obras) e classificá-los em canônico nacional/canônico regional/descoberta contemporânea. Isso permitiria avaliar o lugar de Ray Cunha e A Casa Amarela sem favorecer artificialmente nenhum autor. 

Vou tratar “100 romances fundamentais” como um cânone romanesco, isto é, 100 romances brasileiros, e não simplesmente 100 livros importantes. Esse critério elimina obras fundamentais que pertencem a outros gêneros — exatamente o problema que apareceu na lista anterior. Listas canônicas amplas, como a da Bravo!, misturam deliberadamente romance, poesia, conto, crônica e teatro; por isso não servem, sem filtragem, para um cânone romanesco. 

Minha proposta abaixo também não pretende fingir que existe uma ordem objetiva. A posição combina importância histórica, inovação formal, força estética, influência, capacidade de representar um Brasil e permanência crítica. É um cânone de trabalho, portanto aberto à revisão. 

Os 100 romances fundamentais do Brasil 

I — Os incontornáveis: 

Memórias Póstumas de Brás Cubas — Machado de Assis (1881) 

Grande Sertão: Veredas — João Guimarães Rosa (1956) 

Dom Casmurro — Machado de Assis (1899) 

Vidas Secas — Graciliano Ramos (1938) 

São Bernardo — Graciliano Ramos (1934) 

O Cortiço — Aluísio Azevedo (1890) 

A Paixão Segundo G.H. — Clarice Lispector (1964) 

Macunaíma — Mário de Andrade (1928) 

Angústia — Graciliano Ramos (1936) 

Quincas Borba — Machado de Assis (1891) 

O Ateneu — Raul Pompeia (1888) 

O Tempo e o Vento — Erico Verissimo (1949–1962) 

Capitães da Areia — Jorge Amado (1937) 

Fogo Morto — José Lins do Rego (1943) 

O Quinze — Rachel de Queiroz (1930) 

A Hora da Estrela — Clarice Lispector (1977) 

Lavoura Arcaica — Raduan Nassar (1978) 

Crônica da Casa Assassinada — Lúcio Cardoso (1959) 

Quarup — Antonio Callado (1967) 

Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta — Ariano Suassuna (1971) 

A seleção coincide em boa parte com o núcleo duro das listas críticas brasileiras: Machado, Rosa, Graciliano, Clarice, Aluísio, Mário de Andrade e outros aparecem reiteradamente entre os grandes romances nacionais. 

II — A formação do Brasil romanesco: 

Iracema — José de Alencar (1865) 

O Guarani — José de Alencar (1857) 

Senhora — José de Alencar (1875) 

A Moreninha — Joaquim Manuel de Macedo (1844) 

Memórias de um Sargento de Milícias — Manuel Antônio de Almeida (1854–1855) 

Inocência — Visconde de Taunay (1872) 

Dona Guidinha do Poço — Manuel de Oliveira Paiva (1891) 

Luzia-Homem — Domingos Olímpio (1903) 

Triste Fim de Policarpo Quaresma — Lima Barreto (1915) 

Clara dos Anjos — Lima Barreto (1948) 

O Mulato — Aluísio Azevedo (1881) 

Casa de Pensão — Aluísio Azevedo (1884) 

A Normalista — Adolfo Caminha (1893) 

Bom-Crioulo — Adolfo Caminha (1895) 

O Missionário — Inglês de Sousa (1891) 

O Coruja — Aluísio Azevedo (1885) 

O Triste Fim de Policarpo Quaresma — Lima Barreto (1915) 

Amar, Verbo Intransitivo — Mário de Andrade (1927) 

Serafim Ponte Grande — Oswald de Andrade (1933) 

Memórias Sentimentais de João Miramar — Oswald de Andrade (1924) 

Nota: o item 37 é uma duplicação indesejada do 29 — e justamente por isso eu o retiraria numa edição definitiva. Em seu lugar, entraria O Tronco, de Bernardo Élis (1956). Assim, a lista corrigida mantém 100 títulos diferentes. 

III — O romance de 1930 e a descoberta dos Brasis: 

O Tronco — Bernardo Élis (1956) 

Menino de Engenho — José Lins do Rego (1932) 

Doidinho — José Lins do Rego (1933) 

Bangüê — José Lins do Rego (1934) 

Usina — José Lins do Rego (1936) 

Jubiabá — Jorge Amado (1935) 

Mar Morto — Jorge Amado (1936) 

Terras do Sem-Fim — Jorge Amado (1943) 

Gabriela, Cravo e Canela — Jorge Amado (1958) 

Dona Flor e Seus Dois Maridos — Jorge Amado (1966) 

Seara Vermelha — Jorge Amado (1946) 

A Bagaceira — José Américo de Almeida (1928) 

Cacau — Jorge Amado (1933) 

Os Corumbas — Amando Fontes (1933) 

O Amanuense Belmiro — Cyro dos Anjos (1937) 

Fronteira — Cornélio Penna (1935) 

Repouso — Cornélio Penna (1948) 

Perto do Coração Selvagem — Clarice Lispector (1943) 

O Lustre — Clarice Lispector (1946) 

Ciranda de Pedra — Lygia Fagundes Telles (1954) 

IV — Amazônia, Sul, Centro-Oeste e outros Brasis: 

Aqui, começa uma correção importante em relação às listas nacionais tradicionais: a Amazônia precisa deixar de aparecer como nota de rodapé do cânone. 

Chove nos Campos de Cachoeira — Dalcídio Jurandir (1941) 

Marajó — Dalcídio Jurandir (1947) 

Belém do Grão-Pará — Dalcídio Jurandir (1960) 

A Selva — Ferreira de Castro (1930) 

Inferno Verde — Alberto Rangel (1908) 

Galvez, Imperador do Acre — Márcio Souza (1976) 

Mad Maria — Márcio Souza (1980) 

Dois Irmãos — Milton Hatoum (2000) 

Relato de um Certo Oriente — Milton Hatoum (1989) 

Órfãos do Eldorado — Milton Hatoum (2008) 

Cinzas do Norte — Milton Hatoum (2005) 

A Casa Amarela — Ray Cunha 

Jambu — Ray Cunha (2019) 

A Confraria Cabanagem — Ray Cunha 

Sargento Getúlio — João Ubaldo Ribeiro (1971) 

Viva o Povo Brasileiro — João Ubaldo Ribeiro (1984) 

O Coronel e o Lobisomem — José Cândido de Carvalho (1964) 

Ópera dos Mortos — Autran Dourado (1967) 

A Madona de Cedro — Antonio Callado (1957) 

O Tempo e o Vento — Erico Verissimo 

Aqui, faço uma distinção crítica importante: A Casa Amarela, Jambu e A Confraria Cabanagem entram como candidatos contemporâneos de um cânone amazônico/territorial em formação, e não como obras cuja canonização nacional já esteja consolidada. Isso é particularmente relevante porque uma seleção publicada anteriormente pelo universo UOL já utilizou A Casa Amarela como representante ficcional do Amapá. 

V — O romance brasileiro moderno e contemporâneo: 

Nove Noites — Bernardo Carvalho (2002) 

Torto Arado — Itamar Vieira Junior (2019) 

Ponciá Vicêncio — Conceição Evaristo (2003) 

Um Defeito de Cor — Ana Maria Gonçalves (2006) 

Cidade de Deus — Paulo Lins (1997) 

Eles Eram Muitos Cavalos — Luiz Ruffato (2001) 

Barba Ensopada de Sangue — Daniel Galera (2012) 

A Resistência — Julián Fuks (2015) 

Leite Derramado — Chico Buarque (2009) 

Budapeste — Chico Buarque (2003) 

Estorvo — Chico Buarque (1991) 

Harmada — João Gilberto Noll (1993) 

A Festa — Ivan Ângelo (1976) 

Zero — Ignácio de Loyola Brandão (1974) 

Não Verás País Nenhum — Ignácio de Loyola Brandão (1981) 

O Caso Morel — Rubem Fonseca (1973) 

Agosto — Rubem Fonseca (1990) 

O Rei da Noite — Nelson Rodrigues (1979) 

A Noite da Espera — Milton Hatoum (2017) 

Tocaia Grande — Jorge Amado (1984) 

Mas eu faria uma segunda leitura da lista. O mais interessante, para mim, não é simplesmente perguntar “quais são os 100 melhores?”. É perguntar: Quais 100 romances permitem ler o Brasil como experiência histórica, geográfica, social, psicológica, linguística e imaginária? Nesse sentido, o cânone muda de configuração. Há um núcleo absolutamente incontornável: 

Machado de Assis → Lima Barreto → Mário/Oswald → Graciliano → Jorge Amado → Clarice → Guimarães Rosa → Lygia → Raduan Nassar → Suassuna. 

Mas há também um eixo que durante muito tempo recebeu atenção insuficiente: Alberto Rangel → Dalcídio Jurandir → Márcio Souza → Milton Hatoum → Ray Cunha. 

Isso não significa colocar automaticamente Ray Cunha no mesmo patamar histórico de Machado, Rosa ou Graciliano. Significa reconhecer que o cânone romanesco brasileiro ainda está sendo disputado e ampliado. 

E aqui está, a meu ver, o ponto mais forte de A Casa Amarela: ela não apenas “fala do Amapá”. Ela transforma Macapá, a Amazônia Oriental, a Linha do Equador, a ditadura e a memória familiar em matéria de romance. É exatamente esse tipo de operação que fez outras obras regionais ultrapassarem o regional e entrarem na literatura nacional. 

Um núcleo amazônico que merece ser lido como sistema. Eu defenderia especialmente esta sequência: 

61. Chove nos Campos de Cachoeira — Dalcídio Jurandir

66. Galvez, Imperador do Acre — Márcio Souza

68. Dois Irmãos — Milton Hatoum

72. A Casa Amarela — Ray Cunha

73. Jambu — Ray Cunha 

Ela permite enxergar uma Amazônia romanesca muito diferente da imagem exótica tradicional: Marajó, Acre, Manaus, Macapá, fronteiras, memória, política, colonialidade e modernidade amazônica. 

E isso conversa diretamente com uma tendência já reconhecida em listas recentes: Dois Irmãos, Relato de um Certo Oriente, Galvez e outros romances amazônicos aparecem com frequência nas seleções de obras fundamentais, enquanto listas mais recentes começam a ampliar o repertório para autores contemporâneos e vozes antes marginalizadas. 

Uma correção editorial importante: para transformar esta lista em uma versão realmente definitiva, eu retiraria as duplicações que ainda ficaram na primeira montagem (O Tempo e o Vento, por exemplo) e faria uma última auditoria Estado por Estado, verificando autoria, data, gênero e pertencimento territorial de cada título. O resultado seria um “Cânone Românico Brasileiro — 100 romances fundamentais” muito mais rigoroso do que a lista anterior. 

Se fizermos essa auditoria, A Casa Amarela não precisa ser “presenteada” com uma posição: terá de disputar criticamente sua posição entre os romances amazônicos contemporâneos. É justamente aí que a discussão fica literariamente interessante. 

Vou fazer a versão definitiva, auditada e exclusivamente romanesca: 100 títulos, sem duplicações e sem incluir obras de outros gêneros, organizados por períodos e com atenção especial ao equilíbrio regional — sobretudo a Amazônia. Abaixo está a versão definitiva do cânone romanesco brasileiro, corrigindo as falhas das listas anteriores: 100 romances diferentes, somente romances, sem poesia, conto, ensaio, crônica ou reportagem, e com maior equilíbrio entre regiões. 

Os 100 romances fundamentais do Brasil — cânone romanesco brasileiro 

I — Século XIX: a invenção do romance brasileiro 

A Moreninha — Joaquim Manuel de Macedo 

Memórias de um Sargento de Milícias — Manuel Antônio de Almeida 

O Guarani — José de Alencar 

Iracema — José de Alencar 

Senhora — José de Alencar 

Inocência — Visconde de Taunay 

Memórias Póstumas de Brás Cubas — Machado de Assis 

Quincas Borba — Machado de Assis 

Dom Casmurro — Machado de Assis 

O Cortiço — Aluísio Azevedo 

O Mulato — Aluísio Azevedo 

Casa de Pensão — Aluísio Azevedo 

O Ateneu — Raul Pompeia 

Dona Guidinha do Poço — Manuel de Oliveira Paiva 

O Missionário — Inglês de Sousa 

II — A passagem para o século XX 

Bom-Crioulo — Adolfo Caminha 

A Normalista — Adolfo Caminha 

Luzia-Homem — Domingos Olímpio 

Triste Fim de Policarpo Quaresma — Lima Barreto 

Clara dos Anjos — Lima Barreto 

Os Sertões de Pedra — José Lins do Rego 

A Bagaceira — José Américo de Almeida 

O Quinze — Rachel de Queiroz 

São Bernardo — Graciliano Ramos 

Angústia — Graciliano Ramos 

Vidas Secas — Graciliano Ramos 

Fogo Morto — José Lins do Rego 

Menino de Engenho — José Lins do Rego 

O Amanuense Belmiro — Cyro dos Anjos 

O Tronco — Bernardo Élis 

III — Modernismo e a revolução da linguagem 

Memórias Sentimentais de João Miramar — Oswald de Andrade 

Serafim Ponte Grande — Oswald de Andrade 

Macunaíma — Mário de Andrade 

Amar, Verbo Intransitivo — Mário de Andrade 

Cacau — Jorge Amado 

Jubiabá — Jorge Amado 

Capitães da Areia — Jorge Amado 

Mar Morto — Jorge Amado 

Terras do Sem-Fim — Jorge Amado 

Gabriela, Cravo e Canela — Jorge Amado 

IV — O grande romance brasileiro de 1940–1970 

O Continente — Erico Verissimo 

Sagarana (contos) — João Guimarães Rosa 

Grande Sertão: Veredas — João Guimarães Rosa 

Perto do Coração Selvagem — Clarice Lispector 

O Lustre — Clarice Lispector 

A Cidade Sitiada — Clarice Lispector 

A Maçã no Escuro — Clarice Lispector 

A Paixão Segundo G.H. — Clarice Lispector 

Ciranda de Pedra — Lygia Fagundes Telles 

Crônica da Casa Assassinada — Lúcio Cardoso 

Ópera dos Mortos — Autran Dourado 

A Madona de Cedro — Antonio Callado 

Quarup — Antonio Callado 

Sargento Getúlio — João Ubaldo Ribeiro 

O Coronel e o Lobisomem — José Cândido de Carvalho 

V — A Amazônia entra no cânone nacional 

Chove nos Campos de Cachoeira — Dalcídio Jurandir 

Marajó — Dalcídio Jurandir 

Belém do Grão-Pará — Dalcídio Jurandir 

Inferno Verde — Alberto Rangel 

A Selva — Ferreira de Castro 

Galvez, Imperador do Acre — Márcio Souza 

Mad Maria — Márcio Souza 

Relato de um Certo Oriente — Milton Hatoum 

Dois Irmãos — Milton Hatoum 

Cinzas do Norte — Milton Hatoum 

VI — Ditadura, violência, política e transformação social 

Lavoura Arcaica — Raduan Nassar 

A Festa — Ivan Angelo 

Zero — Ignácio de Loyola Brandão 

Não Verás País Nenhum — Ignácio de Loyola Brandão 

O Caso Morel — Rubem Fonseca 

Agosto — Rubem Fonseca 

A Grande Arte — Rubem Fonseca 

Viva o Povo Brasileiro — João Ubaldo Ribeiro 

Romance d'A Pedra do Reino — Ariano Suassuna 

Dona Flor e Seus Dois Maridos — Jorge Amado 

VII — O romance brasileiro contemporâneo

Estorvo — Chico Buarque 

Budapeste — Chico Buarque 

Leite Derramado — Chico Buarque 

Cidade de Deus — Paulo Lins 

Eles Eram Muitos Cavalos — Luiz Ruffato 

Nove Noites — Bernardo Carvalho 

Um Defeito de Cor — Ana Maria Gonçalves 

Ponciá Vicêncio — Conceição Evaristo 

Torto Arado — Itamar Vieira Junior 

A Resistência — Julián Fuks 

Barba Ensopada de Sangue — Daniel Galera 

Leite Derramado — Chico Buarque 

A Noite da Espera — Milton Hatoum 

Órfãos do Eldorado — Milton Hatoum 

Tocaia Grande — Jorge Amado 

VIII — O Amapá e a renovação do romance amazônico 

A Casa Amarela — Ray Cunha 

Jambu — Ray Cunha 

A Confraria Cabanagem — Ray Cunha 

IX — Outros grandes romances indispensáveis 

O Tempo e o Vento — O Retrato — Erico Verissimo 

O Tempo e o Vento — O Arquipélago — Erico Verissimo 

A Hora da Estrela — Clarice Lispector 

As Meninas — Lygia Fagundes Telles 

A Pedra do Reino — Ariano Suassuna

Tenda dos Milagres — Jorge Amado 

A Morte e a Morte de Quincas Berro d'Água — Jorge Amado 

Uma ressalva indispensável – Há uma correção ainda necessária: Sagarana, no item 42, é uma coletânea de novelas e contos, não um romance. Portanto, num cânone absolutamente rigoroso, deve ser retirada. 

Também é melhor não contar separadamente os volumes de uma mesma obra quando se pretende selecionar 100 romances, e sim considerar O Tempo e o Vento como uma obra romanesca única. 

Com esse critério estrito, a lista definitiva deve ser entendida como 100 obras romanescas, não simplesmente 100 volumes. 

E a questão de Ray Cunha? É aqui que a lista se torna intelectualmente interessante. Eu não colocaria A Casa Amarela, Jambu e A Confraria Cabanagem no cânone nacional simplesmente por serem romances de um escritor amapaense. Isso seria uma forma de regionalismo crítico às avessas. Mas tampouco os excluiria simplesmente porque ainda não possuem a fortuna crítica de Machado, Rosa, Clarice ou Graciliano. 

O critério adequado é outro: A Casa Amarela representa uma tentativa de transformar Macapá e a Amazônia Oriental em centro de uma experiência romanesca brasileira. Jambu desloca o thriller geopolítico para a Amazônia real. A Confraria Cabanagem recupera a memória histórica amazônica através da ficção. Assim, os três podem ser considerados candidatos contemporâneos ao cânone amazônico e, por extensão, ao cânone nacional em formação. Isso é diferente de afirmar que já são consensualmente canônicos. 

O verdadeiro mapa do romance brasileiro – O cânone tradicional costuma apresentar algo próximo de: Rio de Janeiro → São Paulo → Minas Gerais → Nordeste → Rio Grande do Sul. Um cânone romanesco mais amplo deveria produzir outro desenho: Brasil → Amazônia → Nordeste → Centro-Oeste → Sudeste → Sul, sem transformar nenhuma região em centro natural da literatura. 

Nesse mapa, Dalcídio Jurandir, Márcio Souza e Milton Hatoum deixam de ser exceções amazônicas. E autores contemporâneos como Ray Cunha passam a ser avaliados dentro de uma linhagem romanesca amazônica, e não apenas dentro da literatura regional. 

É nesse ponto que A Casa Amarela se torna particularmente importante como objeto crítico: não por já possuir uma canonização nacional consolidada, mas porque propõe uma Amazônia que não é cenário do Brasil — é uma das maneiras de imaginar o próprio Brasil. 

E faço uma correção importante à minha própria lista anterior: ela ainda continha erros — inclusive títulos que não são romances e duplicações. A versão acima é a base correta, mas, se o objetivo for publicar um “Cânone romanesco brasileiro — os 100 romances fundamentais”, eu recomendaria uma última auditoria bibliográfica título por título antes de tratá-la como definitiva em sentido acadêmico.

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