domingo, 20 de setembro de 2026

Brasília surgiu de um gesto desesperado. No Rio de Janeiro não seria possível a Ditadura da Toga

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 20 DE SETEMBRO DE 2026 – Juscelino Kubitschek construiu Brasília porque desejava ardentemente permanecer no cargo de presidente (1956-1961), mas, se permanecesse no Rio de Janeiro o tempo todo, os cariocas, e as Forças Armadas, o teriam derrubado. Como aconteceu com Getúlio Vargas. Assim, com a construção de Brasília, ele vivia lá e cá, talvez mais cá do que lá. Em 31 de janeiro de 1956, Juscelino Kubitschek toma posse. Vendo que não conseguiria chegar ao fim do seu mandato no Rio de Janeiro, em 31 de janeiro de 1961, JK, ainda em campanha, prometeu construir Brasília, aproveitando uma ideia que começou no Brasil-Colônia, no século XVIII, de transferir a capital do Brasil para o interior do país. 

Assim, dedicou seu governo à construção de Brasília, embora sabendo que era uma missão impossível, pois não havia dinheiro para isso. Mas o futuro a Deus pertence. De modo que os primeiros palácios, moradias para abrigar os funcionários públicos transferidos para a nova capital e principais vias foram construídos e a cidade inaugurada, em 21 de abril de 1960. Em 21 de abril aconteceram também dois eventos importantes.  Em 1792, morre Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, enforcado e esquartejado no Rio de Janeiro. Liderou a Inconfidência Mineira, movimento contra o domínio colonial português. E, em 753 a.C., dá-se a fundação de Roma. 

“Juscelino poderia ter descumprido a promessa. Nada o obrigava a cumpri-la. Ele não seria o primeiro político a não cumprir a totalidade do seu programa eleitoral. O que ocorreu foi que Juscelino, um herdeiro do getulismo, se elegeu com apenas 35% dos votos, e setores conservadores da política e das Forças Armadas, os mesmos que haviam levado Getúlio ao suicídio, questionaram essa vitória. No fim de 1955, houve duas tentativas de golpe de Estado para impedir a posse de Juscelino. No início de 1956, uma revolta militar tentou derrubá-lo. Nesse ambiente hostil, Juscelino percebeu que a transferência da capital tinha a capacidade de mobilizar o imaginário da nação e colocá-la ao seu lado. Foi por isso que levou a ideia adiante” – analisa o historiador francês Laurent Vidal, autor do livro De Nova Lisboa a Brasília (Editora UnB). 

Para Vidal, os brasileiros desconhecem a história que antecede Brasília, a partir da vinda da corte de Dom João VI para o Brasil, com todas as Brasílias imaginadas. JK conseguiu criar para si a imagem do mito que fez tudo sozinho: “É importante que os brasileiros conheçam a história completa de Brasília para que, assim, conheçam a si próprios. A ideia de uma nova capital no Planalto Central apareceu de tempos em tempos, sempre em momentos de crise e ruptura, como forma de reaglutinar o país dividido. Foi assim após a Independência, após a Proclamação da República, após a Revolução de 1930, após a ditadura do Estado Novo. A nova capital sempre trouxe essa ideia de progresso, de modernidade, o que mexe forte com o imaginário das pessoas. Mas, na avaliação dos governantes, bastava formular o projeto. Não era preciso ir até o fim. Por 150 anos, o importante foi apenas superar as crises”. 

A primeira capital do Brasil-Colônia foi Salvador de Todos os Santos (1549-1763). O litoral da Bahia era, então, a região mais conhecida dos portugueses no Novo Mundo, até 1763, quando o ouro de Minas Gerais era enviado para Portugal às toneladas, pelo Rio de Janeiro. Não deu outra, o primeiro-ministro do Rei Dom José I (1714-1777), Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal, transferiu a capital do Brasil-Colônia para o Rio de Janeiro, que tinha, então, cerca de 60 mil habitantes. 

Quando a colônia se tornou Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, entre 1815 e 1822, o Rio continuou sendo a capital; em 1822, foi a capital do Império do Brasil; e, em 1889, a capital da República, até 1960, quando a capital foi transferida para Brasília. 

Mas por que transferir a capital do país de uma das cidades mais cosmopolitas do mundo para o sertão? O Rio já era, então, a segunda maior cidade do país, superada apenas por São Paulo, além de epicentro da vida cultural brasileira e principal palco da identidade nacional, tema do meu romance histórico A IDENTIDADE CARIOCA. 

A saga de Brasília começou ainda no século XVIII, precisamente 1761, quando o Marquês de Pombal, um dos mais destacados representantes do despotismo esclarecido, responsável por reformas que catapultaram a economia do reino e das colônias, sugeriu a transferência da capital do Brasil-Colônia para o interior do país, contratando o cartógrafo italiano Francesco Tosi Colombina para estudar a geografia do Planalto Central. 

Quando, em 1808, Dom João VI fugiu de Portugal, invadido pelo imperador francês Napoleão Bonaparte, foi para o Rio de Janeiro, então, uma pequena cidade, incompatível para abrigar a corte portuguesa. Também, na época, a localização costeira do Rio de Janeiro deixava a cidade vulnerável a ataques estrangeiros pelo mar. No século XVIII, corsários franceses tomaram o Rio e só o libertaram após dois meses, quando receberam um gordo troféu para deixarem a cidade. 

Em 1813, a interiorização da capital ganhou as páginas do influente Correio Braziliense, editado por Hipólito José da Costa, para quem a nova cidade deveria ser construída na Capitania de Goiás, no ponto onde nascem “caudalosos rios que se dirigem ao norte, ao sul, ao nordeste e ao sudeste”. Segundo Hipólito, isso permitiria o contato fluvial da capital com todo o território brasileiro. O que não é verdade. 

Em 1823, o ministro e deputado José Bonifácio de Andrada e Silva (SP), conhecido como Patriarca da Independência, propôs à Assembleia Constituinte a transferência da capital para o interior e sugeriu que se chamasse Brasília. “Como essa cidade deve ficar equidistante dos limites do Império, tanto em latitude como em longitude, vai-se abrir, por meio das estradas que devem sair desse centro como raios para as diversas províncias, uma comunicação e decerto criar comércio interno da maior magnitude. Vai-se chamar para as províncias do sertão o excesso da povoação sem emprego das cidades marítimas e mercantis” – propôs Bonifácio. 

Só que Dom Pedro I dissolveu a Assembleia Constituinte e a transferência da capital foi para a gaveta, tanto que na Constituição imposta pelo imperador, em 1824, não se fala nisso. Mas no reinado de Dom Pedro II, a campanha pela nova capital renasceu, encabeçada pelo historiador Francisco Adolfo de Varnhagen. Ele argumentava que a permanência da sede do Império no Rio significava a continuidade do atraso colonial, que a entrada do Brasil na modernidade dependia dessa transferência. 

Inspirado por Varnhagen, o senador (1838-1863/PE) Antônio Francisco de Paula de Holanda Cavalcanti de Albuquerque, Visconde de Albuquerque, apresentou um projeto de lei prevendo uma nova capital. Para ele, o sertão teria boa utilidade se fosse ocupado por plantações de café, então o motor da economia nacional. “O Brasil deve, em minha opinião, ser mais uma nação agrícola do que comercial. Ora, o desenvolvimento da agricultura em vasta escala não poderá conseguir-se senão promovendo-se a formação de grandes estabelecimentos no centro do Império. O meio mais óbvio que se antolha para realizá-los é a criação da capital nesse centro” – argumentou Albuquerque. 

Segundo ele, a cidade poderia ficar pronta em dez anos, usando como mão de obra escravos negros, que, aliás, construíram o Brasil debaixo de chicote, até a Lei Áurea, assinada em 13 de maio de 1888, pela Princesa Isabel, quando os negros passaram a outra casta, de escravos para marginais; poderiam ser presos até por olharem nos olhos de uma autoridade, ou policial. A proposta foi para a gaveta e o Cerrado não foi ocupado por cafezais, mas, depois da inauguração de Brasília, em 21 de abril (Tiradentes) de 1960, por extensas plantações de soja. 

Em 1877, Varnhagen partiu para a ação. Embrenhou-se pelos sertões do Planalto Central para identificar o ponto onde seria construída a nova cidade, que se chamaria Imperatória, em homenagem ao imperador Dom Pedro II, e seria construída exatamente entre as lagoas Formosa, Feia e Mestre d’Armas. 

O tema foi desengavetado na Assembleia Constituinte de 1891, após a derrubada da Monarquia. O senador constituinte Virgílio Damásio (BA) apresentou uma proposta denominando a nova capital do Brasil de Cidade Tiradentes e argumentou que o Rio de Janeiro estava inchado, com 400 mil moradores; um barril de pólvora. “Nesta cidade populosa, falemos a verdade, encontram-se muitos que vivem entre a ociosidade e manejos ou expedientes poucos confessáveis. Essa grande massa de homens é uma arma, uma alavanca poderosíssima em mãos de agitadores. Uma cidade populosa não convém para capital” – disse Damásio. 

O deputado constituinte Thomaz Delfino (DF) concordou com Virgílio Damásio. “Uma capital não se sente muito bem no meio da multidão da vasta cidade, por sua natureza agitada e, de vez em quando, algum tanto revolucionária. É sabido que nos Estados Unidos da América do Norte os diferentes estados têm geralmente pequenas cidades por capitais. A sede do governo do Estado de Nova York não é a riquíssima cidade desse nome e sim a insignificante Albany. Quando a capital da União Americana foi fixada em Washington, era esta apenas uma pequena cidade de 70 a 80 mil habitantes” – argumentou. 

Como a Constituição de 1891 previa a construção de um novo Distrito Federal no centro do Brasil, os dois primeiros presidentes da República, Deodoro e Floriano, seguiram a lei e criaram uma comissão de técnicos para delimitar, no interior de Goiás, o quadrilátero da futura capital. Em 1892, o belga Louis Cruls mapeou um território no Planalto Central para a construção da nova capital. 

Sucessor de Deodoro e Floriano, e primeiro civil a ocupar a Presidência da República, Prudente de Moraes (1894-1898), engavetou o plano, argumentando que os cofres públicos não tinham dinheiro para a empreitada. Mas o motivo era outro. Quem então mandava no país eram as oligarquias nos Estados, porque eram elas que sustentava o país, e não queriam que a capital saísse do Rio. 

A Revolução de 1930 enfraqueceu as oligarquias estaduais e a transferência da capital para o Planalto Central voltou com força à Constituição de 1934. Foi nesse clima que o diretor do Serviço de Informações e Estatísticas do Ministério da Educação, Mário Augusto Teixeira de Freitas, propôs ao governo de Getúlio Vargas a transferência da capital para o interior, aos poucos. 

A cidade visada foi Belo Horizonte, a capital mineira, planejada e fundada em 1897. Ela se tornaria a capital provisória do país, até que a nova capital, Cabrália (em homenagem a Pedro Álvares Cabral, descobridor do Brasil), fosse construída em Goiás. Teixeira de Freitas não conseguiu nada com Getúlio Vargas, mas, em 1938, ajudou a fundar o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que endossou o projeto da nova capital em duas etapas. 

Na Assembleia Constituinte de 1946, convocada após a queda da ditadura do Estado Novo, os parlamentares acharam que em vez de Belo Horizonte a capital seria Goiânia, inaugurada em 1942. “Não vemos como se possa realizar, nos próximos decênios, a obra ciclópica da nova capital do Brasil, que deve ser projetada com a maior perfeição e caprichosamente executada, para não prejudicar o futuro do país. Planificada e construída em moldes moderníssimos, é Goiânia a cidade ideal, entre todas as suas irmãs, para sede provisória do governo da República. Ela já está ali à nossa vista, ao nosso alcance” – propôs o deputado constituinte Diógenes Magalhães (PSD/GO). 

Os constituintes da bancada de Minas Gerais reagiram a Diógenes Magalhães e ofereceram o Triângulo Mineiro para o novo Distrito Federal, inclusive o deputado Juscelino Kubitschek (PSD/MG). 

– Trago ao conhecimento dos senhores representantes um magnífico trabalho de autoria do secretário de Viação do Estado de Minas Gerais. Nele, além de sugerir a mudança da capital para o pontal do Triângulo Mineiro, são estudados os variados aspectos do problema e apontada uma solução que satisfaz os partidários da ideia da mudança da capital – discursou Juscelino, em 1946. 

Brasília foi inaugurada em 21 de abril de 1960. Os militares adoraram, porque achavam que naquela cidade do fim do mundo não existia a possibilidade de protesto popular. Nem povo Brasília tinha, ainda. Mas estavam enganados. Os candangos, os operários que construíram Brasília, recusaram-se a retornar para seus Estados natais e a miséria em que viviam, e começaram as invasões, que, aos poucos, à força de manifestações populares, foram se tornando outras cidades dentro do quadrilátero do Distrito Federal. 

Em 1964, os militares adoraram que JK tivesse construído Brasília. Em 31 de março daquele ano, inauguraram a Ditadura dos Generais, que durou 21 anos, até 1985. Em Brasília, não havia povo para protestar. Mas enquanto os generais governavam, os comunistas estavam aparelhando as universidades, a mídia, os artistas, a máquina administrativa e a suprema corte. Resultado, hoje, até a Academia Brasileira de Letras (ABL) foi infiltrada por comunistas, políticos e artistas que não escrevem. Quanto ao povão, é estupidificado pela bolsa-família, ou bolsa-miséria. 

Contudo, esses 21 anos serviram para consolidar Brasília. A partir de 1988, o goiano Joaquim Domingos Roriz terminou de construir a cidade. Roriz foi governador do Distrito Federal quatro vezes, durante 13 anos, de outubro de 1988 a março de 1990; de março de 1991 a janeiro de 1995; e de janeiro de 1999 a março de 2006. Construiu nove cidades dentro do quadrilátero do Distrito Federal e ampliou o sistema viário. Hoje, Brasília é a terceira maior cidade do país, com 2.982.818 habitantes. Os brasilienses ficam possessos quando viajam pelo Brasil e lhes perguntam se estão roubando muito na capital da República. 

– Sim, é a única coisa que fazem os ladrões que vocês enviam para lá – costumam responder. 

O Distrito Federal abriga a cúpula dos três poderes e o Congresso Nacional recebe representantes de todos os Estados e de todos os segmentos da sociedade e até de facções criminosas. Publiquei um thriller policial, HIENA, que mostra a Brasília de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer e a Brasília subterrânea, especialmente a da Praça dos Três Poderes e da Esplanada dos Ministérios. Nessa ambientação circulam personagens de ficção e reais, vivos e mortos, honestos e corruptos. 

A Brasília mais perigosa é a da Praça dos Três Poderes, atualmente, mergulhada na Ditadura da Toga, com centenas de presos políticos, entre os quais jornalistas, morrendo à míngua, assassinados a conta-gotas, o mais ilustre deles Jair Messias Bolsonaro, acusado de um golpe de Estado que, na verdade, foi aplicado por Lula da Silva, juntamente com o Supremo Tribunal Federal (STF) e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, um mafioso do remoto Estado do Amapá, usando dinheiro lavado pelo Banco Master, o banco do Foro de São Paulo. 

No Rio, não haveria a Ditadura da Toga, pois os chefões de colarinho branco seriam encurralados, embora a cidade, hoje, tenha se tornado a Meca da bandidagem internacional. Mas sempre há uma banda boa nas forças armadas, militares e policiais. Já em Brasília, a cidade foi construída de modo que manifestações tipo Revolução Francesa (1789) são impossíveis. Brasília foi construída com viés comunista: povo é escravo; elite é Deus. Assim, a Praça dos Três Poderes é o símbolo da Santíssima Trindade: Lula da Silva é Deus, Alexandre de Moraes é Jesus Cristo e Davi Alcolumbre, o Espírito Santo. 

Mas há uma Brasília que unifica o país, ao reunir todas as culturas brasileiras. É essa a verdadeira Brasília, a Brasília dos candangos, a Brasília da esperança, à espera de uma águia-careca, de cabeça branca, com penacho laranja. Sobre isso é que se debruça a trilogia A Ditadura da Toga - O CLUBE DOS ONIPOTENTES, O OLHO DO TOURO e O TERCEIRO OLHO – à venda no Clube de Autores, amazon.com.br e amazon.com

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