sábado, 29 de novembro de 2025

Fair play

Pedra da Ceasa/DF (Lúcio Bernardo Jr./Agência Brasília)

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 29 DE NOVEMBRO DE 2025 – Conto novo para novo livro de contos: 

SOU ROBERTO SILVA LEÃO, paraense de ascendência espanhola, viúvo, aposentado e meus dois filhos e uma filha moram no exterior. O mais velho, Ricardo, é formado em informática, no que é muito bom, mora nos Estados Unidos, em Miami, é casado com uma americana rica e tem um casal de filhos; o do meio, Romeu, mora em Viena, é músico, talentoso, solteiro; a terceira, Rafaela, mora na Espanha, é casada com um aristocrata espanhol, rico, e tem uma filha, uma netinha linda. Eu moro em Brasília. Sou jornalista aposentado pelo Senado Federal, o que quer dizer que posso viver como um príncipe, e vivo! Moro no Sudoeste, o melhor bairro de Brasília, pelo menos é o que acho. Sempre coloquei comida à mesa e paguei as contas como jornalista, mas o que sou, realmente, é escritor. Tenho três romances e um livro de contos publicados no Clube de Autores e na amazon.com.br. Não vendem, mas estão publicados. Meu amigo Alexandre Rodrigues Alves acha que meus livros poderiam facilmente ganhar concursos literários, mas nunca entrei em um, por razões que explicarei adiante. 

Hoje, é sábado, e estou na Pedra da Ceasa. A Pedra é uma área dentro das Centrais de Abastecimento do Distrito Federal (Ceasa/DF), onde produtores rurais de municípios da Ride/DF (Região Integrada de Desenvolvimento do Distrito Federal e Entorno) comercializam seus produtos, no atacado, às segundas-feiras e quintas, e no varejo aos sábados, das 4h30 às 15 horas. A Ride é integrada pelo Distrito Federal, 29 municípios de Goiás e quatro municípios de Minas Gerais. Quanto à Ceasa, é uma extensa área destinada a empresas estatais ou de capital privado que comercializam produtos sem atravessador, daí que saem mais em conta. 

Sou frequentador da Pedra, que é uma amostra em três por quatro do Brasil. Adoro ir à Pedra para ver as frutas, os peixes, as iguarias, as mulheres, tudo. Hoje, fui com meu amigo Alexandre Rodrigues Alves. Ele é mestre em Literatura e revisa meus livros. Insisto em pagá-lo por isso, mas ele recusa, irredutível. É rico, diga-se. Alexandre quer que eu vá trabalhar com ele, mas não dá: eu sou conservador e, ele, comunista. Para mim, comunismo é máfia, e uma pessoa como o Alexandre, com nível cultural acima da média, só pode ser comunista por duas razões. Uma delas é a estupidez. O ignorante não sabe, já o estúpido tem certeza, absoluta, de que sabe o que não sabe. Dá para entender? O sujeito não sabe, mas ele acha, tem certeza, de que sabe. Isso é alienação. Está fora da realidade comum. 

Comecei a entender isso lendo três filósofos. Dois deles são o historiador italiano Carlo M. Cipolla e o teólogo e filósofo alemão Dietrich Bonhoeffer. Cipolla escreveu As Leis Fundamentais da Estupidez Humana, no qual argumenta que as pessoas estúpidas causam danos a outros sem obter benefício próprio, diferentemente de um bandido, que sempre busca um benefício pessoal. Já Dietrich Bonhoeffer, que foi preso e executado por sua resistência ao regime nazista, sustenta que a estupidez não é apenas uma questão de falta de inteligência, mas um fenômeno social e psicológico, perigoso. Para ele, a estupidez é uma falha moral e intelectual que leva à perda da independência de pensamento e à recusa em questionar a autoridade. De modo que, contra a estupidez, somos indefesos, pois ela não pode ser combatida com argumentos lógicos, mas somente com a libertação das amarras que cegam o indivíduo. 

Não é o caso de Alexandre Rodrigues Alves. Ele não é estúpido. Ele manobra os estúpidos. Ele está incurso no segundo caso: é mafioso. O que nos une, basicamente, é que ele entende, como ninguém, de literatura, e está certo de que se eu participasse de um concurso de romance ou conto ganharia facilmente. Só que tenho um amigo que já foi convidado para ser jurado de um concurso de contos, um concurso importante, e, lá pelas tantas, foi informado de que o concurso era um jogo de cartas marcadas. Como se tratava de um sujeito honesto, ele se retirou do negócio. 

O que ocorre é que concursos importantes ganham a mídia, e, os jurados, invariavelmente pessoas com um currículo acadêmico quilométrico, são apresentados no proscênio, e quase sempre jurados são uma caixinha de pose. Quando ao concurso em si, os currículos pomposos dão um ar de seriedade ao negócio. 

Nos concursos sem prêmios em dinheiro, ou com prêmios fajutos, só participa quem não é escritor e tenta, desesperadamente, parecer escritor. E, geralmente, esses concursos premiam todo mundo com um diploma. Aí, o cara faz o maior auê na internet. Quanto aos concursos que pagam bem, também cobram bem por participação, e, assim, arrecadam uma boa grana. Como os prêmios são bons, milhares de escritores tentam a sorte. Os jurados são, quando muito, meia dúzia, com prazo exíguo para ler os milhares de contos, ou romances, e o resultado dessa equação é uma farsa.

Mas, suponhamos que a coisa seja séria. Nesse caso, o resultado será sempre subjetivo. Em milhares de contos, ou romances, como um pode ser melhor do que todos os outros, em todos os aspectos?

– Acho que Ernest Hemingway pensava do mesmo jeito que eu – disse, certa vez, a Alexandre. – Até onde sei, ele nunca participou de concurso literário aberto. Ganhou os prêmios Pulitzer e o Nobel, que são concedidos por júris ou academias que avaliam a obra publicada e a contribuição literária do autor. 

– Geralmente, os jurados dos concursos importantes são mestres, doutores e até pós-doutores – Alexandre argumentava. 

Ele se impressionava com títulos acadêmicos. Conheço pessoas graduadas em Literatura que são leitores funcionais; se um mestre que não entende o que lê fizer doutorado e pós-doutorado, continuará sendo semialfabetizado. 

Também a estupidez no Brasil não é por falta de dinheiro. Lembrem-se do orçamento do Ministério da Cultura (MinC), em 2025: 2,9 bilhões de reais. A maioria dessa grana vai para o bolso dos medalhões do show bizz, via Lei Rouanet. São múmias tipo Fafá de Belém, que estão morrendo, mas, quando veem o dinheiro reúnem força para gritar igual Geraldo Alckimin, popular picolé de chuchu, segundo vice-presidente de Lula da Silva. A primeira vice é Janja da Silva, primeira dama da nação tupiniquim. Alckimin, que lá atrás tinha gritado publicamente que Lula é ladrão, nas eleições para presidente, em 2022, gritou, com voz de traveco enfezado: Lula! Lula!, para presidente, afirmando que era comunista de carteirinha. Logo depois Lula o despachou para o Irã, para uma reunião com a nata do terrorismo mundial. Desde aí que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o maior líder da Direita mundial, está de olho no picolé de chuchu, e não é para chupá-lo. 

Bom, o terceiro cientista que li para compreender a estupidez brasileira foi Antonio Gramsci. Se Vladimir Ilyich Ulianov, Lenin, se tornou capo di tutti i capi de todas as máfias, em 1917, na Rússia, Antonio Sebastiano Francesco Gramsci foi seu grande teórico para a instalação de ditaduras comunistas mundo afora, como está acontecendo, hoje, no Brasil. Gramsci foi filósofo marxista, escritor, jornalista, crítico literário, linguista, historiador e político italiano, membro-fundador e secretário-geral do Partido Comunista da Itália e deputado pelo distrito do Vêneto, preso pelo regime fascista de Benito Mussolini. Sua teoria da hegemonia cultural, usada pelo Estado para conservar o poder, começou a ser difundida em escala no Brasil desde a fundação do Foro de São Paulo, em 1990. E vem dando certo. Depois que Lula da Silva chegou ao poder, em 1 de janeiro de 2003, a mídia, artistas e a academia entraram na folha de pagamento da máfia comunistas, com ganhos anuais de milhões de reais, e até de bilhões de reais. Aparelharam tudo. Até a Academia Brasileira de Letras (ABL). E, claro, todo o resto... Bom, a gente não pode falar mais do que o suficiente, pois já existe o crime de pensamento. Eles chegam às 6 horas da manhã e levam o cara. Jair Messias Bolsonaro está apodrecendo na cadeia. 

Alexandre Rodrigues Alves sustenta que Bolsonaro liderou um golpe de Estado. Tentei argumentar que Bolsonaro nem estava em Brasília no dia do tal golpe e que ninguém estava armado na manifestação que chamam de golpe, mas ele arremete, dizendo que além de golpista, Bolsonaro já tinha tudo pronto para assassinar Lula e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), seu xará, Alexandre de Moraes. 

Sabedor de que a esposa de Alexandre Rodrigues Alves, que, por acaso, é senador pelo Estado de Minas Gerais, e sua esposa ocupa um cargo em comissão de 30 mil reais por mês no Judiciário, sabedor de que ela gosta de mangas, comprei algumas mangas-maçãs, lindas, e pedi a Alexandre para levar para ela. Da Pedra, fomos ao Natural Brasil, onde comprei duas barras de açaí paraense, grosso, para tomar com farinha de tapioca. O carro de Alexandre, com motorista, aguardava. Ele recebeu um telefonema e disse que teria que ir. O cara gosta mesmo de mim. Acompanha-me até na Ceasa para comprar frutas. Mas nossa amizade vem desde a Universidade Federal do Rio de Janeiro, quando éramos rapazes e acreditávamos em Papai Noel, Fidel Castro, Che Guevara e molusco de nove braços.

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

O Olho do Touro

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 28 DE NOVEMBRO DE 2025 – Segue capítulo do romance O OLHO DO TOURO. 

COPACABANA dormitava anestesiada aos 45 graus centígrados, sufocada pelo miasma de esgoto estourado, moradores de rua e sucateamento. No Beco, fazia 21 graus centígrados e a Cerpinha estava enevoada. Bond, que fazia, juntamente com Alex, a revisão final do capítulo sobre o establishment, do livro O Sistema, iria se encontrar, no início da noite, com o filósofo Olavo de Carvalho. 

– O estamento do Estado, o status quo, o establishment, não tolera intrusos e Bolsonaro é um outsider no ninho, uma ameaça à ordem estabelecida, como Donald Trump – Bond comentou. – Os bancos, as grandes empreiteiras, os sindicatos, o funcionalismo público, as grandes indústrias e empresas e o Judiciário estão na cabeça do establishment, em uma relação de troca de favores com os políticos, os burocratas, as famílias tradicionais – que formam a nova aristocracia –, a Igreja, os intelectoides, os jornalistas que mamam com prazer a mandioca dos que dão as cartas a troco de manterem seus empregos e o silêncio das Forças Armadas. Esse pessoal é que deu poder a Alexandre de Moraes. Para derrubar isso, só a guerra ou a fome. 

– Só que a elite governante, devido às inovações tecnológicas, está perdendo o controle das comunicações, da educação e do planejamento civil – disse Alex. 

– Sim, e essa é a razão pela qual uma postura anti-establishment só será bem-sucedida se tiver o respaldo de ideias pró-liberdade. Temos de pensar na Suíça. Para nós, brasileiros, a Suíça pode parecer um país sem graça. Pode ser, mas a Suíça é protótipo da democracia – Bond respondeu. 

Enquanto degustava a melhor cerveja do mundo, Alex lembrou-se de suas passagens no pequeno país europeu, encravado nos Alpes, uma república federal integrada por 26 estados, chamados, lá, de cantões. Berna é sua capital. Situado na Europa Central, faz fronteira com a Alemanha a norte, com a Áustria e o principado de Liechtenstein a leste, com Itália a sul e com a França a oeste. Sua área é de 41.285 quilômetros quadrados, praticamente o tamanho da ilha de Marajó, ao sul da foz do Rio Amazonas, no Estado do Pará. Sua população é de 8,5 milhões de habitantes. Suas maiores cidades são Zurique e Genebra. Seu PIB per capita é de 92 mil dólares americanos. Neutra desde 1815, a Suíça sedia várias organizações internacionais, como o Fórum Econômico Mundial, a Cruz Vermelha e a Organização Mundial do Comércio. Os suíços falam alemão, francês, italiano e romanche, mas são unidos pelo federalismo, democracia direta e neutralidade. 

Antes ainda do nascimento do Império Romano, em 500 a.C., tribos celtas viviam no Centro-Norte da Europa, entre elas a dos Helvécios, que vieram a ser dominados pelos romanos, até cerca do ano 400, quando o território suíço foi invadido por tribos germânicas, até 1033, quando integrou o Sacro Império Romano-Germânico. Em 1 de agosto de 1291, é fundada a Confederação Helvética, mas engolfada em guerras internas, até 1782, quando Napoleão Bonaparte instaurara a aristocracia em Genebra. Espelhados pela Revolução Francesa (1789), em Lausanne, os suíços fazem sua revolução, em 1798, causada pela corrupção e abuso do poder da monarquia. Mas Anexada por Napoleão, a Suíça só faria sua independência após a derrota do imperador na Batalha de Waterloo, em 1815, e, durante o século XIX, com uma guerra civil, em 1847, a Confederação Helvética se torna uma democracia moderna, regida pela Constituição Federal de 1848. 

Da mesma forma do sistema norte-americano, a Suíça adotou a Declaração dos Direitos Humanos, duas câmaras parlamentares – senado e câmara federal –, governo federal e um tribunal de Justiça Suprema. O país cresceu economicamente a partir da Revolução Industrial de 1850, quando começou a estabelecer direito aos trabalhadores. Cada um dos 26 cantões tem autonomia político-econômica, sob o sistema federal, que se ocupa das relações políticas com o exterior, a economia nacional e as Forças Armadas. Já o poder cantonal administra sua própria polícia e os sistemas de saúde e de educação. O presidente da Confederação Helvética é eleito para mandato de um ano apenas, mas quem manda são as instituições. Na Suíça, a democracia é direta, por meio de referendo. Uma lei aprovada em um cantão pode não ser aprovada em outro cantão. No nível federal, a Constituição defende, basicamente, a paz entre as nações, o respeito pelos direitos humanos, a democracia, a lei, os recursos naturais e o desenvolvimento econômico. 

– Não é à-toa que Paulo Coelho escolheu a Suíça para morar – Alex observou. 

– Os petistas, como, de resto, os comunistas, gostam de conforto – Bond respondeu. – Embora Paulo Coelho tenha seus méritos: é um dos maiores vendedores de livros do mundo e entrou na Academia Brasileira de Letras porque tinha como alicerce O Alquimista, diferentemente de alguns comunistas que se infiltraram lá, seguidores do cefalópode de nove garras. 

Olavo de Carvalho chegou. Viera em jato particular de Richmond, Virgínia, Estados Unidos, especialmente para aquele encontro, como consultor da Intelligentsia. Vivo ou morto, tornara-se o filósofo dos conservadores, autor, em 1996, de O Imbecil Coletivo, e, em 2013, de O Mínimo que Você Precisa Saber para não Ser um Idiota. Identificara algo interessante para quem quisesse começar a combater os idiotas úteis: a esquerda brasileira conseguiu dominar a universidade, a mídia, a cultura e a política do país, sem revolução, seguindo método de Antonio Gramsci. Em 1996, em entrevista ao jornalista Pedro Bial, no telejornal da TV Globo, Bom Dia Brasil, o filósofo profetizou que, apesar do colapso socialista na URSS, a esquerda brasileira iria ascender ao poder, pois, desde a década de 1960, adotaram a estratégia gramsciana, de primeiramente fazer a revolução cultural e depois a revolução política. Olavo de Carvalho advertiu o presidente Jair Messias Bolsonaro para algo que acabou se concretizando e que foi o que alicerçava a ditadura do ministro do Supremo, Alexandre de Moraes: ao longo do seu governo, Bolsonaro foi sempre “aconselhado por generais covardes ou vendidos”. Esses generais-melancia, verdes por fora e vermelhos por dentro, odeiam Bolsonaro, em parte inconformados por ele ser apenas capitão, mas, principalmente, porque Bolsonaro não deixa roubarem o erário, por isso é que foi entregue a Lula a chave da burra, a fim de que o butim ocorra em paz.

Adquira O OLHO DO TOURO no Clube de Autores, na amazon.com.br e na amazon.com

sábado, 22 de novembro de 2025

Bentinho foi criado debaixo da saia da mãe. Ciumento, é corno em potencial. Flora Thomson-DeVeaux e a identidade carioca

A IDENTIDADE CARIOCA faz um corte vertical na eterna capital do Brasil 

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 4 DE JULHO DE 2024 – Bento de Albuquerque Santiago, Bento Santiago, Bentinho ou Dom Casmurro, é o protagonista do romance Dom Casmurro (1899), de Machado de Assis. A trama é contada por Bentinho, daí que ninguém sabe se aconteceu realmente ou é fantasia. Ele foi mimado pela mãe viúva, e a gente sabe que meninos criados dessa forma são paus-mandados das mulheres pelo resto da vida, e, talvez por isso, por serem paus-mandados, acabam, paradoxalmente, desenvolvendo também misoginia. 

Em certo momento da vida de Bentinho ele passa a acreditar que sua esposa, Capitu, pôs chifre nele, com seu melhor amigo, Escobar, que morre afogado, apesar de bom nadador. Capitu pare uma criança, Ezequiel. Segundo Bentinho, Ezequiel é uma cópia de Escobar. Ninguém mais no romance acha isso; só ele. Exila Capitu na Suíça e Ezequiel morre na flor da idade. Só restam a Bentinho dois caminhos: suicidar-se ou conviver com os fantasmas do seu passado. Escolhe a crosta de Dom Casmurro. 

Mas o grande interesse dos leitores de Dom Casmurro é Capitu, Maria Capitolina de Pádua Santiago, nada menos que a personagem de ficção mais famosa do Brasil, passando, inclusive, Maria Deodorina da Fé Bittencourt Marins, ou Reinaldo, ou Diadorim, de Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa. 

Capitu é uma adolescente sensual, que lembra Lolita, de Vladimir Nabokov. Mas uma mulher de personalidade forte, alta, morena, de cabelos grossos e compridos, nariz reto e comprido, boca fina e queixo largo, olhos claros e grandes, “de ressaca, oblíquos e dissimulados”, segundo Bentinho. Olhos de ressaca, o que é isso? Certa vez, banhei-me em Copacabana em mar de ressaca, ou encapelado. Um olhar assim é inquieto e trás à tona um turbilhão interior. Para Bentinho, Capitu era assim. 

Também ele a vê como uma cigana, mulher misteriosa, que olharia o outro de forma indireta, com fingimento. E, no entanto, a gente vê que Capitu não é isso, não é fingida. Há, porém, uma frase fundamental para se entender a trama de Dom Casmurro, proferida pelo próprio: “Capitu era mais mulher do que eu homem”. 

Machado de Assis é considerado pela crítica literária o ponto máximo da literatura brasileira. Creio que a principal coordenada que leva a essa consideração é a poesia. Para mim, poesia é escrever em profundidade. Explico. 

Segundo o historiador Plutarco, por volta de 70 a.C., o general romano Pompeu estava na ilha de Sicília, ao sul da Itália, com a missão de transportar trigo para Roma, que passava por uma crise de abastecimento causada por uma rebelião de escravos. Havia uma tormenta no porto. Naquela época, as limitações tecnológicas tornavam a navegação de alto risco, além dos ataques piratas. Mas diante da situação e do comprometimento de Pompeu com Roma ele se fez ao mar. “Navegar é preciso, viver não é preciso” – proferiu. 

A vida material é finita, mas enquanto a vivemos é preciso navegar, mesmo que haja uma tormenta no porto. É necessário transpor os obstáculos, sejam quais forem. É preciso navegar. Viver não é preciso. Pois que viver é navegar. Isso é poesia. Um corte em profundidade da vida. Assim escrevia Machado de Assis. Além disso, ele tem outros méritos, méritos que o faz emblemático em A IDENTIDADE CARIOCA, meu último romance. 

Joaquim Maria Machado de Assis nasceu no Rio de Janeiro, em 21 de junho de 1839, e morreu na mesma cidade, que tanto amou, em 29 de setembro de 1908. Jamais saiu do Estado do Rio. Mas era cosmopolita. Nasceu no Morro do Livramento, estudou um pouco, em escolas públicas, e não soube o que foi frequentar uma universidade. Mulato, era filho de um negro e uma portuguesa da ilha de São Miguel. Culto, era leitor inveterado. Escreveu cinco livros de poemas, mais de 600 crônicas, folhetins, fez jornalismo, escreveu crítica literária, 10 peças teatrais, 200 contos e 10 romances. Foi um cronista do Rio de Janeiro de sua época; um homem do seu tempo. E fundou a Academia Brasileira de Letras (ABL), tão avacalhada, atualmente. 

Ser um homem do seu tempo é viver intensamente seu tempo. No caso do escritor, ele escreve sobre seu tempo. Por exemplo: pode-se dizer que Luiz Alfredo Garcia-Roza é um homem do seu tempo. Apenas o Rio de Janeiro de Garcia-Roza não é o de Machado de Assis, nem o gênero. Copacabana, que Roza amava, está toda ela, pulsando, neste século, nos seus thrillers policiais. 

A escritora e podcaster americana Courtney Henning Novak viralizou nas redes sociais. Ela lançou um desafio pessoal de ler um livro de cada país do planeta. Do Brasil, escolheu Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado, e escreveu, antes mesmo de terminar a leitura: “Preciso ter uma conversa com o pessoal do Brasil. Por que não me avisaram antes que este é o melhor livro já escrito? O que vou fazer do resto da minha vida depois que terminá-lo?” 

A tradução lida por Novak é da também americana Flora Thompson-DeVeax, que vive no Rio de Janeiro. Conheceu a obra de Machado de Assis na Princeton University, onde estudou língua portuguesa. “Acho que para qualquer pessoa que se propõe a estudar o Brasil chega uma hora que tem que encarar o Machado” – esclarece Flora, para quem Memórias Póstumas de Brás Cubas, publicado em 1881, “me pareceu absurdamente moderno, hilário, surpreendente a cada página. Não consegui conceber por que o autor não era mais conhecido”. 

Ela passou cinco anos traduzindo o livro, entendendo o significado de certas palavras, a época em que o livro se passa, a geografia e o meio social, a história do Brasil, a identidade carioca. Hoje, Flora é daquelas cariocas como eu, que morou na cidade e se apaixonou por ela. Não porque a cidade é maravilhosa, linda, esplêndida, mas, principalmente, porque contamos, Flora e eu, com o terceiro olho bem aberto, aquele que proporciona a visão em corte vertical. 

Viver no Rio de Janeiro, em algum momento da vida, é preciso; viver não é preciso. Machado foi além: viveu o tempo todo no Rio. Navegava o mundo por meio do terceiro olho, no seu caso, os livros.

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

A COP30 já era. Acabou antes do fim

Incêndio na COP30. Não é na África; é em Belém do Pará

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 21 DE NOVEMBRO DE 2025 – Há maior tragicomédia do que o golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023? Sim! Há! A COP30. Esta instituição é o maior embuste jamais perpetrado contra a raça humana. É uma reunião da aristocracia global cercando a maior província biológica e mineral do planeta, a Amazônia. O mais trágico é que o presidente do Brasil, Lula da Silva, é quem serve o banquete; já presenteou até mina de urânio para a China. 

A Trigésima Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP30), em Belém do Pará, começou dia 10 e termina, hoje, 21 de novembro, com o objetivo de promover negociações intergovernamentais sobre mudança climática. 

Ao decidir Belém como sede da COP30, Lula da Silva mostrou que conhece a Amazônia tanto como Alfa Centauro. Em novembro, começam a cair tempestades no Portal da Amazônia, como Belém é conhecida, e parte da cidade vai para o fundo. O calor, especialmente no subúrbio, que não conta com arborização decente, é infernal. Foram cortadas 100 mil árvores para a construção de uma estrada VIP do Aeroporto de Val-de-Cães até o local da COP30, dentro de Belém. As COPs sempre atraíram mais de 100 chefes de Estado; a esta foram 18. 

Como não há hotéis na cidade suficientes para um evento desses foram alugados transatlânticos para abrigar os milhares de convidados, e para mover tudo isso foram alugados centenas de geradores movidos a óleo diesel. Resultado: fios elétricos expostos à água e incêndio. Também não há comida suficiente para todo mundo. Muita gente com fome e os preços dos alimentos inacreditáveis de tão caros. Um lanche por 100 pratas. E faltou água para desentupir vasos sanitários. Água para beber, 25 pratas. 

Lula da Silva delirou que a COP30 seria seu grande palco para posar como herói do clima e ser reconduzido à Presidência da República pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em 2026. Estupidez! Ele apagou da sua memória que o Brasil é um narcoestado na mira do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que já estacionou uma força militar na América do Sul capaz de fazer frente a uma guerra mundial. Para os Estados Unidos, narcotráfico é terrorismo. 

Janja da Silva, a esposa do molusco, fez um discurso inaugural. Afirmou que a Amazônia brasileira tem “50 milhões de habitantes e 300 idiomas”. Tem 30 milhões e as línguas são de tribos praticamente extintas. Nenhuma é língua comercial, que é o que interessa na prática. Línguas mortas interessam a cientistas. Só faltou discurso da ex-presidenta Dilma Rousseff. Quanto à fala de Lula, já disse tanta bobagem que dá até um show tragicômico de duas horas. 

A Amazônia apresentada ao mundo é mitológica. Começa que é conhecida como “pulmão do mundo”. Nunca foi.  O planeta tem 511 milhões de quilômetros quadrados, dos quais 361 milhões são oceanos e 150 milhões os continentes. A Amazônia internacional tem 7 milhões de quilômetros quadrados, 1% da superfície da Terra. Como pode, então, influenciar a atmosfera na produção de oxigênio? 

A atmosfera conta com 70% de nitrogênio, 28% de oxigênio; e míseros 0,04% de dióxido de carbono, CO2, gás que gera o efeito estufa. A COP quer reduzir 2% desses 0,04%, ou seja, reduzir nada a nada. Até agora, as COPs não reduziram nada. 

É claro que com 8 bilhões de habitantes, megalópoles com mais de 20 milhões de habitantes e queimando combustível o tempo todo a temperatura do planeta sobe e que se o desmatamento da Amazônia e outras florestas, e a poluição dos mares, continuar, a coisa vai ficar realmente quente. Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), grupo de cientistas climáticos da ONU, desde 1850, a temperatura média global aumentou 1,1°C. 

Uma cordilheira de dólares e euros é alocada todos os anos para proteger o clima, mas a temperatura só faz aumentar. Em Belém, viu-se o quanto pode aumentar. Neste ponto de vista, o aquecimento global seria uma farsa sofisticada, a grana destinada a frear a subida da temperatura indo parar no bolso de mafiosos de colarinho branco, via ONGs. 

Só para o evento em Belém foram alocados 5 bilhões de reais do dinheiro do contribuinte brasileiro e o que foi feito? Maquiagem urbana. Belém continuará sendo uma palafita sobre esgoto a céu aberto, como, de um modo geral, as cidades da Amazônia, tomada por urubus, violência desenfreada, calor insuportável, trânsito infernal e a famiglia Barbalho.

Para entender a Amazônia leia JAMBU, deste jornalista, à venda no Clube de Autores, amazon.com.br e amazon.com

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

10 romances fundamentais da Amazônia

O cânone do ChatGPT contempla apenas três Estados da da Amazônia Clássica: Amazonas, Pará e Amapá, este, com o romance JAMBU 

ChatGPT

BRASÍLIA, 20 DE NOVEMBRO DE 2025 – Segundo a inteligência artificial ChatGPT, segue uma lista de 10 romances considerados entre os mais importantes já escritos por autores da Amazônia, contemplando diferentes Estados, épocas, estéticas e visões da região. Não é um ranking, mas um cânone representativo:

1. Galvez, Imperador do Acre – Márcio Souza (AM). Um clássico do romance histórico e satírico sobre a epopeia acreana e o delírio épico amazônico.

2. Mad Maria – Márcio Souza (AM). A saga da construção da Ferrovia Madeira-Mamoré, símbolo máximo do choque brutal entre modernidade e selva.

3. Doidinho – Dalcídio Jurandir (PA). Segundo volume do monumental Ciclo do Extremo Norte, romance de formação, pobreza e poesia humana do Marajó.

4. Chove nos Campos de Cachoeira – Dalcídio Jurandir (PA). O romance inaugural do ciclo que deu ao Pará sua grande comédia humana literária.

5. Inferno Verde – Alberto Rangel (AM). Publicado em 1908, é a obra que primeiro transformou a Amazônia em personagem dramática universal.

6. Órfãos do Eldorado – Milton Hatoum (AM). Romance mágico-realista que revisita mitos amazônicos dentro de uma história trágica familiar e social.

7. Dois Irmãos – Milton Hatoum (AM). Embora urbano, é uma das obras mais representativas sobre Manaus no século XX, com dimensão épica nacional.

8. Belém do Grão-Pará – Dalcídio Jurandir (PA). Uma das recriações mais importantes do imaginário histórico e social da capital paraense.

9. Jambu – Ray Cunha (AP). Romance político, amazônico e geopolítico, que revela a Amazônia como centro de disputa internacional contemporânea.

10. A Selva – Ferreira de Castro (escritor português, mas marco absoluto da literatura amazônica). Embora não amazônida de nascimento, é impossível excluir: tornou a floresta protagonista e inaugurou sua épica internacional.

2026 é o ano do resgate das nossas esperanças

A matéria é impermanente. Somos eternos, agora, como rosas de nióbio

RAY CUNHA

BRASÍLIA, 20 DE NOVEMBRO DE 2025 – Meus amigos partiram. Alguns, para o mundo espiritual; outros permanecem fiéis a Karl Marx. Houve, inclusive, um, que, depois de ler artigo meu referindo-me a Lula como aborto de ditador enjaulado, pôs fim a uma estupenda amizade. E há os que sumiram nas dobras do tempo.

Mas isso não mudou nada na minha vida; continuo rico, paparicado pelos meus amores, e na minha estante encontro todo o planeta e amigos eternos, como Ernest Hemingway, Antoine de Saint-Exupéry, Gabriel García Márquez, Masaharu Taniguchi, bem como novos amigos, que estão me levando para conhecer a Via Láctea.

Além da família, da estante e dos amigos que vivem no meu coração, como Fernando Canto, tenho as madrugadas, jasmineiros e rosas, que são eternas, o mar, o azul, o Sudoeste e o Rio de Janeiro. Às vezes, Mozart toca ao piano o som da Terra no espaço. E quando escrevo um poema, o terremoto do primeiro beijo se instala em mim durante vários dias.

O amigo com quem eu conversava durante horas sobre escritores foi para Cuba e eu voltei a conversar com vivos e mortos nos livros e ao computador. O século 20 ficou para trás. Com a invenção da web os políticos são flagrados, um a um, mentindo, roubando, assassinando, e a população toda agora é de jornalistas, e suas redações são a internet.

Desde 20 de janeiro de 2025, ditadores, terroristas, mafiosos, ladrões, assaltantes, estupradores, traficantes, escravocratas, assassinos, corruptos em geral, estão furiosos, especialmente os supremos, mergulhados em bacanais nos seus palácios, nos seus automóveis com vidraças negras, nas suas mansões. Bandidos honoráveis, carcaças carcomidas pelas larvas da corrupção, os beiços macilentos agarrados, numa bocada, nas tetas da burra, estão desmoronando.

Macapá/AP, minha cidade natal, ainda não saiu do século passado; continua sobre fossas sépticas e com falta de água tratada, embora durma à margem do maior rio do mundo, o Amazonas. Macapá não tem rede de esgoto porque seus prefeitos, e os governadores do Amapá, estão, e estiveram sempre, absolutamente ocupados com mordomias, diárias, cabides de emprego e verbas federais.

Mas os novos tempos vieram para ficar. Lula da Silva foi enjaulado para sempre, porque ninguém, por mais trevoso que seja, poderá, jamais, soltá-lo da prisão moral onde a hiena velha foi esquecida. A boca do abismo se escancarou tragando as cinzas da injustiça. 2026 é o ano do resgate das nossas esperanças.

A ciência começa a descobrir que a raça humana é de seres espirituais, que o corpo é somente uma experiência material necessária para evoluirmos para a sabedoria e ascendermos, e que a matéria não existe de fato, pois tudo muda de um momento para outro. A matéria é impermanente. Nascemos, tornamo-nos criaturas magníficas, perdemos energia, regredimos, assemelhamo-nos a maracujá de gaveta e desaparecemos fisicamente.

O passado não existe, nem o futuro. Somos eternos, agora, como rosas de nióbio, intensos como o perfume dos jasmineiros no verão. A felicidade é o porto seguro do apartamento, a mulher amada, uma xícara de café gourmet do sul de Minas, às 4 horas da madrugada.

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Roberto Carlos DE TÃO AZUL SANGRA

Roberto Carlos e eu no Hotel Amazonas – Manaus, 1976

RAY CUNHA

ROSAS PARA A MADRUGADA 

Por que escreves? – pergunta-me o jornalista

– Para viver – respondo

Pois só com as palavras desnudo a luz

E voo até o fim do mundo

Por isso, escrevo granadas intensas como buracos negros

E garimpo o verbo como o primeiro beijo

Escrevo porque escrever traz aos meus sentidos

Cheiro de maresia

Dom Pérignon, safra de 1954

O labirinto do púbis no abismo do acme

Mulher nua como rosa vermelha desabrochando

BRASÍLIA, 19 DE NOVEMBRO DE 2025 – Em agosto de 1994, lancei, em Brasília, o jornal mensal Intelligentsia, com tiragem de 3 mil exemplares. Durou até fevereiro do ano seguinte – 7 edições, portanto. Era um tabloide de 16 páginas, parcialmente em cores, diagramado e ilustrado pelo artista plástico André Cerino, com fotografia do repórter fotográfico e ensaísta Ivaldo Cavalcante, e inteiramente redigido por mim. O primeiro número causou polêmica nos meios em que circulou, devido a uma coletânea de poemas eróticos, que intitulei DE TÃO AZUL SANGRA, ilustrados por André Cerino, que carregou no grafite. O trabalho foi um escândalo.

Em junho de 2018, sonhei com Roberto Carlos. Ele estava todo de branco e na minha casa, na 711 Sul, em Brasília, onde morei durante alguns anos, mas, no sonho, era uma casa enorme e arejada. Eu chegava e o encontrava lá, e alguém me dizia que Roberto queria falar comigo. No instante seguinte, como só acontece nos sonhos, ele e eu estávamos na biblioteca da casa, ampla, bem iluminada e aconchegante. Lembro que Roberto segurava uma folha de papel e me pediu autorização para trocar uma palavra de um poema meu, para ajustá-lo à melodia na qual estava trabalhando. “Sim, é claro, Roberto” – disse-lhe, e acordei.

Acordei com o livro DE TÃO AZUL SANGRA na cabeça e passei aquele dia e os dias seguintes trabalhando nisso. Reuni os poemas publicados no Intelligentsia, mais os poemas eróticos produzidos até julho de 2018, e publiquei, em dezembro daquele ano DE TÃO AZUL no Clube de Autores e na amazon.

A ideia do título DE TÃO AZUL SANGRA surgiu de uma visão que tive: céu azul cobalto. De repente, um caça rasga o azul, que, de tão azul, sangra. Sangra porque é um azul vivo, e os poemas nascem no azul, como sangue.

No início dos anos 1970, Roberto Carlos já era uma celebridade internacional, encantando o mundo com a melodia da sua voz, a Música Suave que ecoa na alma dos amantes. Em 1976, eu morava em Manaus e trabalhava no jornal A Notícia, de Andrade Netto, pai da Natacha Fink de Andrade, uma das grandes chefs brasileiras, profunda conhecedora dos sabores da Amazônia, e que deixou sua marca no Rio de Janeiro, onde foi proprietária do Espírito Santa, um dos restaurantes mais badalados da cidade, na Rua Almirante Alexandrino 264, bairro de Santa Teresa.

Pois bem, naquele ano, 1976, Roberto foi fazer um show em Manaus e a produção do jornal conseguiu entrevista exclusiva com ele, no antigo Hotel Amazonas, centro da cidade, onde Roberto estava hospedado.

Na época, eu assinava a coluna mensal No Mundo da Arte e era sempre eu que cobria matérias de cultura. O chefe de reportagem instruiu-me a perguntar ao Rei se ele usava, antes dos shows, meia de mulher como touca, para que sua cabeleira ficasse bem bacana. Esse assunto fora objeto de revista de fofoca. A pergunta era bizarra, mas satisfaria o suposto perfil dos leitores do jornal, que tendia ao sensacionalismo.

Tudo bem! O problema era outro: o único gravador do jornal estava falhando, e isso foi meu terror, porque se chegasse à redação sem a entrevista só me restaria fazer o que fiz tempos depois: demiti-me e fui para A Crítica, levado pelo senador Fábio Lucena, de quem fiquei amigo no Clube da Madrugada, sediado nos bares Caldeira e Nathalia, e que reunia jornalistas, artistas e apreciadores da enevoada Antarctica manauara.

Saí para fazer a entrevista, marcada para o fim daquela manhã. No hotel, fomos conduzidos, o fotógrafo e eu, ao corredor do apartamento do Rei, onde dois seguranças pediram para aguardamos ali. Roberto não nos recebeu no apartamento; acho que o apartamento era simples demais para as fotos. Ele me recebeu no corredor, e me deu a entrevista ali mesmo.

O Rei é um sujeito carismático. Ele me deixou à vontade e eu me senti como se fosse velho amigo dele. Perguntei-lhe sobre o negócio da meia e ele me respondeu numa boa. Nem me lembro mais o que ele disse. Eu estava de olho no gravador, preocupadíssimo com o funcionamento dele, vigiando para ver se o rolo de fita estava girando. Fazia perguntas ao Rei e voltava-me para o gravador, um velho gravador de tamanho médio. Eu costumava fazer entrevistas anotando rapidamente a resposta, mas a orientação que recebera era a de que eu teria que transcrever ipsis litteris as palavras do Roberto.

Mais tarde, na redação, ao degravar a entrevista, vi o quanto foi burocrática, a pior que fiz como jornalista, e logo com quem, o Rei Roberto Carlos. Mas tudo bem! O jornal publicou a matéria, ninguém reclamou, e ainda restou uma fotografia com o Rei, por insistência do fotógrafo, de quem não lembro mais quem era.

Fui cobrir também o show do Roberto, e, naquele clima dos grandes shows, senti, na alma, o perfume que exalam muitas das canções do grande artista, algumas delas compostas com Erasmo Carlos. Certas gravações do Roberto nos remetem, em um salto quântico, à eternidade da juventude, quando transitar pelos labirintos de uma mulher é como montar a luz, tão azul que sangra.

Segue-se o que o poeta, contista, ensaísta e compositor Fernando Canto escreveu como prefácio da coletânea de 1994.

Versos profanos

FERNANDO CANTO

Nem fesceninos ao estilo bocageano, nem pornográfico à moda Boris Vian. Contudo, profanos são os novos versos do poeta Ray Cunha. Não no sentido antirreligioso – assim a poesia teria prosélitos fanáticos –, mas no sentido da irreverência, da violação, da transgressão do texto, em cuja tessitura surge o inopinado, que fragmenta, com certeza, a reação dos ouvidos suscetíveis.

Estes poemas, De tão azul sangra, evocam, invocam, enfocam a mulher, aliás, o sexo feminino; a afirmação do adolescente, o orgulho do adulto, ou, talvez, o fruto da observância do mundo mundano – experiência edipiana a penetrar em barreiras antes inacessíveis. Poemas que denotam a sensualidade e detonam-se em palavras lúbricas. Sutis, ás vezes, como em Bethania. Impolidas, como em Olhar para a mulher amada – um rasgo narcisista, um produto da consciência machista e desembocadura para o gozo psicológico do autor.

A apologia de Ray Cunha à mulher é feita, então, sem disfarces. Despojada da roupa ela se torna provedora de sentidos, manancial e matéria-prima ao fabricante de versos. Está ali nua, nuinha na sua forma ímpar de ser apenas mulher, vênus perscrutada pela oportuna fresta que faz a felicidade de um voyeur; deusa mítica em seu mistério, desvendada pelo arguto e fulminante olhar e pelo sensível olfato do poeta.

Bem poderia chamar-se Essa Copacabana triste mulher o conjunto desta obra. O melhor poema da coletânea traz o melhor do autor, embora o contraste do “triste” trace o “ideal” do jovem solitário, qualquer jovem solitário nas praias deste Brasil afora. Essa irreverência trata da socialização do sexo no entendimento paradoxal de que todos possam ser burgueses em bacanais tropicais regadas a coquetéis afrodisíacos, num tempo hedonista que ficou há muito nos salões dos palacetes romanos. É forma compacta de abarcar o mundo. É válido. É poesia. Nela está o sol, o azul do mar no verão. Pois aí o azul que sangra não é o azul do céu. É o azul açoitado pela relação geográfica e íntima entre o sol e o mar. É o azul afetado pela natureza do gasoso (as nuvens) no espelho sangrado do mar. Mar que sangra, que se esvai, que beija a praia de Copacabana e salga o corpo nu da mulher desejada, da mulher que brilha com a clivagem dos grãos de areia e à noite vai para a cama gemer seu gozo e se sangrar de mar de Copacabana. Enorme, a cama de Copacabana.

Nostálgico e terrível é romper o laço em Um cheiro de madrugada. Neste poema Ray Cunha instiga um sentido amargo sobre o que se convenciona chamar de amor. É um trabalho sincero, diria, onde o conteúdo está exposto para o leitor atento; onde nada mais se precisa dizer, pois que a lembrança adquire a possibilidade de entrega a outros caminhos, nos quais existem outros remédios para os males da paixão. É simples, realista.

Ray Cunha ironiza a relação poética entre a morte e a poesia. Morrer na mesa de um bar é produto do inconsciente etilizado. Ser salvo, porém, é dormir com a princesa e metáfora-tônica de um anti-valor, concessão do sono ao acordar de sopetão de um pesadelo borgeano: sensação esquisita, estapafúrdia. Morte e poesia andando juntas, porque o trágico pode ser frenético, fétido e cômico – dura realidade! – exatamente na hora irônica do enforcamento.

Poemas como Sessenta e nove I e II trazem sobretudo o rústico, o rude, o seco mal lixado. São versos extraídos de uma realidade obstinadamente crua, ausentes de recursos semânticos mais elaborados, e duros como a pretensa e voraz virilidade do poeta. Nem por isso ele peca.

Se transgredir é a virtude do recurso, doces são as circunscrições colocadas em Ah! Se tu fosses minha e nos dois poemas sem títulos que se entrepõem a ele. Chegam á trazer à tona a ingenuidade do poeta, que verdadeiramente ama sua musa de Parnaso, líricos como uma aquarela a Belle-Époque.

Não se pode deixar de enfocar o trato poético-erótico-libidinosos dos classificados de Acompanhantes. O autor ousa de várias maneiras. E coopta o leitor a acompanha-lo em aventuras sexomaníacas de pleno envolvimento. Comunicação, mídia impressa, espurcícia? Não. Mistura de elementos cuidadosamente colocados sob a arquitetura da realidade atual, ossatura forte dos arrabaldes das megalópoles. Assim é a estrutura desse poema. Real. Firme e transparente. Enfoque de uma sociedade periférica desprezada pela tradicional e hipócrita sociedade burguesa. É retrato da nova cultura urbana, nascida, infelizmente, ainda da miséria, da perda de status, de poder aquisitivo e que se torna antepasto para qualquer Sade pós-moderno, certamente. Instigante, claro e azul, o poema indica água fervendo, páprica picante, poesia nova, e acima de tudo coragem de inovar pela forma e revolucionar pelo conteúdo da ideia.

Esta é a marca poética de Ray Cunha, que, sob o céu nas nuvens, descobre que o azul sangra como a vagina menstruada de uma nereida de qualquer gangue dos subúrbios brasileiros.

Adquira DE TÃO AZUL SANGRA no Clube de Autores, na amazon.com.br e na amazon.com

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Belém do Pará

RAY CUNHA

BRASÍLIA, 17 DE NOVEMBRO DE 2025 – Naquela época eu trabalhava no jornal Diário do Pará e na revista Enfoque Amazônico. À noite, ia quase sempre ao bar de um amigo meu, na Avenida Nazaré, próximo à Basílica, onde ele era sócio e barman. Conheci-o no Cosa Nostra, um dos melhores bares de Belém. Na primeira vez que estive no Cosa Nostra fui atendido por esse meu amigo e pedi um daiquiri, descrevendo-o do modo como Ernest Hemingway gostava de bebê-lo. Ele preparou a bebida tal qual pedi e, naturalmente, entabulamos conversa. Essa conversa se alongou até 1987, quando eu resolvi morar de novo no Rio de Janeiro, onde vivi de 1972 a 1974. Acabei ficando em Brasília, trabalhando com meu grande mestre no jornalismo, Walmir Botelho.

Passei a frequentar o Cosa Nostra. Inclusive estive lá com Fernando Canto. Acabei entrevistando meu amigo barman para a Enfoque Amazônico. Lembro-me que o título principal da matéria foi “Tim-tim”. Um dia, ele foi convidado a fundar um novo bar, em sociedade com mais uma ou duas pessoas, e se mudou para a Avenida Nazaré.

O bar vivia cheio. Suas portas eram de vidro fumê e o salão, refrigerado. A fauna que transitava ali era variada. Jornalistas, homens de negócios, artistas, contrabandistas, vigaristas, prostitutas, todos bem à vontade, conversavam, telefonavam, bebiam, riam, atentos uns aos outros, disfarçando a verdadeira missão de cada qual no enfumaçado ambiente.

Eu não pagava nada no bar e não raro saía dali ziguezagueando, completamente bêbedo. Naquela noite, resolvi me embebedar com dry martini. Meu amigo reservou uma garrafa de gin inglês e outra de vermute italiano para meus drinks. Eu havia chegado cedo e no início da madrugada começara a escorregar para aquele mundo vertiginoso dos bêbedos quando ela entrou.

Era uma das mulheres mais sensuais que já vi. Entrou e se dirigiu diretamente para mim, como se tivéssemos marcado um encontro. Veio e se aboletou no tamborete ao meu lado, sorriu para mim e entabulou conversa. Como quase não havia movimento, meu amigo barman veio se juntar a nós. Eu já havia parado de beber, mas depois que ela chegou voltei a beber dry martini. Ela parecia fresca, mas estava chumbada também, e entornava um dray martini atrás do outro.

Não me lembro sobre o que conversamos, só me lembro de que entramos em um táxi e fomos para um dos melhores motéis da cidade. Quando chegamos, ela estava tão bêbeda que tirou toda sua roupa e se deitou de bruços na enorme cama. Eu fiquei parado, no meio do quarto, vendo-a se despir e se deitar. Ela era demais linda! Peguei uma cadeira, pu-la no meio do quarto, sentei-me e fiquei um tempão observando a garota. Lembrava uma modelo renascentista, dourada pelo sol da Amazônia. Suas ancas pareciam ter sido cinzeladas. Penso que ela não teria mais que 17 anos.

Fiquei ali, sentado, lambendo com os olhos o corpo maravilhoso da jovem adormecida. Ela sonhava. Certamente sonhava com rosas colombianas, vermelhas.

No dia seguinte, um domingo, eu teria que chegar o mais tardar às 7 horas no jornal, pois era julho, auge do verão amazônico, e fora pautado para fazer uma matéria em Salinas, na costa paraense. Assim, acordei antes das 6 horas e despertei minha bela adormecida. Incrível como ela me olhou fresca e sorridente, beijou-me, foi ao banheiro,  vestiu-se, com a desenvoltura de uma esposa já bastante familiarizada com o marido, e saímos. Deixei-a na casa dela, no subúrbio, e fui para o jornal.

Naquela manhã, fiz o desjejum em Salinas, meia dúzia de ostras cruas, com sal e limão, e Antarctica enevoada. Salinas é uma das mais belas praias do planeta, escancarada para o Atlântico. O que a torna especial é que lá podemos comer os mais saborosos peixes do mundo, tomar tacacá e ouvir o sotaque das belenenses que fervilham nas praias quilométricas.

Eu era setorista no palácio do governo. Dias depois, estava lá, no batente, quando recebi um telefonema. Era ela. Ligara para o jornal, obtivera o número do telefone da sala de imprensa do palácio e ligou para mim. Sua voz era límpida, voz de mulher linda. Ela me disse que iria à sua cidade natal, no interior do estado – não me lembro mais qual era a cidade –, e que precisaria de uma certa quantia. A soma era pelo menos quatro vezes o que eu ganhava por mês nos dois trabalhos. Ela pronunciou o valor como se fosse uma ninharia. E de certa forma era isso mesmo. Respondi a única coisa que me ocorreu, que era a verdade: eu não tinha sequer um centavo. Ela riu e disse que na volta telefonaria para mim novamente.

Não voltou a telefonar e não a vi mais. Muito tempo depois compreendi que sua missão fora a de ajustar minhas antenas, para que eu descobrisse a poesia, única, que é cada mulher. E sei que não foi um sonho, porque seu perfume perdura para sempre na minha memória.

domingo, 16 de novembro de 2025

Ai de ti, Amazônia!

Ray Cunha no Marco Zero do Equador, em Macapá, Amapá, Amazônia

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 16 DE NOVEMBRO DE 2025 – Esta crônica foi inspirada em Ai de ti, Copacabana, de Rubem Braga.

1. Ai de ti, Amazônia, porque tens, nas tuas entranhas, o maior tesouro da Terra, mas és o coração das trevas, tuas crianças são sequestradas para escravidão sexual e extração de órgãos, as nações indígenas estão morrendo como morreram impérios e nações indígenas norte-americanas no fio das espadas ibéricas e fogo inglês, porque és ensolarada e úmida como o inferno e insetos e microrganismos fazem de ti sua morada. 

2. Ai de ti, Amazônia, porque te chamaram de pulmão do mundo e de pulmão não tens nada, e cingiram tua fronte com outra mentira, a de que os cabocos devem te preservar e não abater nem jacaré; que comam folhas. Diamantes, ouro, ferro, manganês, bauxita, nióbio, urânio e todos os minerais largamente utilizados na indústria devem ser preservados para as potências hegemônicas. E o grude de gurijuba deve ser exportado, e açaí. 

3. Já movi o Rio Amazonas e suas ondas ameaçam Óbidos e Macapá, mas tu, Amazônia, continuas adormecida, como se estivesses comendo muito jambu, perdida e cega no meio de tanta roubalheira, tráfico, estupros e assassinatos. 

4. Com o Rio Amazonas se avolumando, ameaçador, quem te governará? Quando o Amazonas e outros gigantes alagarem as cidades, principalmente Belém, Manaus e Macapá, nem os chefões do narcotráfico, nem os mandantes da COP30 sobreviverão. 

5. Grandes são teus edifícios do fausto da borracha e teus edifícios modernos, mas não serão nada diante do Rio Amazonas, do Rio Negro, do Rio Madeira, do Rio Xingu e de outros gigantes. 

6. E quando o Oceano Atlântico invadir o Rio Amazonas, pirararas, piraíbas, tubarões, piranhas jacarés-açus, sucuris, ariranhas, nadarão nas ruas das tuas cidades e os esgotos cobrirão teus palácios, em um referver de chorume. Então, todas as muralhas ruirão, inclusive a Fortaleza de São José de Macapá, levando, de roldão, os mentirosos, os comunistas e políticos. 

7. As serpentes habitarão as casas, os meros se acomodarão nos salões, desde Macapá até Rio Branco. 

8. A multidão de mil rios se abaterá sobre ti, para apagar o fogo que te consome. E não valerás mais nada, pois, no teu lugar, surgirá um pantanal medonho. 

9. Ai dos que dormem em leitos refrigerados, desprezam o vento e o ar do Senhor e não obedecem à lei; serão perseguidos por sucuris de doze metros de comprimento e 300 quilos de peso, e por onças pintadas de três metros, do focinho à cauda, e serão comidos também por piuns e microrganismos. 

10. Ai dos que passam em seus automóveis de 500 mil reais, buzinando alto como trovão, pois frearão bruscamente quando se depararem com poraquês soltando cargas elétricas de mil volts. 

11. É preciso acabar com o coração das trevas, razão pela qual tuas donzelas, as amazonas, atrairão os traficantes de mulheres para introduzirem candirus nas suas uretas e os emascularem. 

12. Uivai, coronéis de barranco, senadores do inferno; clamai, sequestradores de crianças, porque vocês rebolarão no fogo! Chegaram seus dias! 

13. Ai de ti, Amazônia, porque os pirarucus e os filhotes estarão nos poços de teus elevadores, nas tuas casas, e peremas tomarão sol nos terraços dos teus edifícios mais altos. 

14. Os peixes de aquário sentirão o sabor da liberdade, como pássaros diante da porta aberta da gaiola. 

15. Anfíbios, batráquios, répteis, rezarão nos templos pelos pecados das famiglias. 

16. Antes que sumas do mapa, antes que te transformes em pantanal, ficarás mais demente ainda, ao sol implacável, à umidade, aos microrganismos e animais peçonhentos – ai de ti, Amazônia! Os índios tentarão escapar em milhares de canoas para o Atlântico, mas a derrocada se estenderá até a Margem Equatorial. Os canhões da Fortaleza de São José de Macapá, que nunca troaram, troarão, agora, contra a cidade que a construiu com pedras e sangue de negros e índios, sob látego lusitano. Porém, mesmo o Atlântico levará milênios para lavar os teus pecados de um só verão escaldante. 

17. Ouçam a minha profecia: cobras-grandes se acomodarão nos palácios, catedrais e teatros, à espera de corpos, que engolirão gulosamente. 

18. E nos clubes elegantes de Belém e Manaus siris comerão cabeças de políticos e jornalistas jabazeiros fritas no crânio, ao som de orquestras de fantasmas. 

19. Pois grande foi a ambição com que os colonos ibéricos e depois os políticos, mancomunados com Ongs e potências hegemônicas, caíram de boca nas tuas carnes, Amazônia, dando fundas dentadas. Por isso é chegado o momento do teu fim, coração das trevas. 

20. A rapina dos políticos, narcotraficantes, guerrilheiros comunistas, terroristas e a ralé da bandidagem te levaram à ruína. Meninas miseráveis não serão mais sacrificadas por homens impotentes, mas iludidos por dinheiro e poder. 

21. Imensas sucuris se enrolarão nas antenas de televisão que pertenceram a famílias bilionárias, e peixes pequenos morrerão na bebida falsificada de teus bares. 

22. Pinta-te como puta e coloca todas as tuas joias, aviva de vermelho teus lábios e tuas unhas e canta a canção mais indecente que conheces, e conheces muitas canções indecentes, pois é tarde para rezar. É hora de o teu corpo pecaminoso ser varrido pela fúria. Canta a tua última canção, Amazônia! E não será uma canção de Fernando Canto. 

 

Woe to You, Amazonia!


RAY CUNHA

 

1.     Woe to you, Amazonia, for in your entrails you hold the greatest treasure on Earth, yet you are the very heart of darkness; your children are kidnapped for sexual slavery and organ harvesting, your Indigenous nations are dying as empires once died upon the blades of Iberian swords and North American nations vanished, for you are as sunny and humid as hell, and insects and microorganisms make their home in you.

 

2.     Woe to you, Amazonia, for they called you the lungs of the world, though you have nothing of lungs, and they girded your brow with another lie—that the caboclos must preserve you and not slaughter even an alligator; that they must eat leaves. Diamonds, gold, iron, manganese, bauxite, niobium, uranium, and all minerals widely used by industry must be preserved for the hegemonic powers. And the gurijuba glue must be exported, and açaí as well.

 

3.     I have already moved the Amazon River, and its waves now threaten Óbidos and Macapá, yet you, Amazonia, remain asleep, as if you had eaten too much jambu, lost and blind amid so much thievery, trafficking, rape, and murder.

 

4.     With the Amazon River swelling, menacing, who shall govern you? When the Amazon and other giants flood the cities—Belém, Manaus, and Macapá above all—neither the druglords nor the masters of COP30 will survive.

 

5.     Great are your buildings from the rubber-boom splendor, and your modern buildings too, but they will be nothing before the Amazon, the Negro, the Madeira, the Xingu, and other giants.

 

6.     And when twenty percent of the planet’s surface freshwater and the Atlantic Ocean invade the Amazon River, pirararas, piraíbas, sharks, piranhas, black caimans, anacondas, and giant otters will swim through the streets of your cities, and sewage will cover your palaces in a roiling broth of filth. Then all walls will fall, including the Fortress of São José de Macapá, sweeping away liars, communists, and politicians.

 

7.     Serpents will inhabit the houses; groupers will settle into the halls, from Macapá to Rio Branco.

 

8.     The multitude of a thousand rivers will descend upon you to extinguish the fire that devours you. And you will be worth nothing, for in your place will arise a monstrous swamp.

 

9.     Woe to those who sleep in air-conditioned beds, despise the wind and the Lord’s air, and do not obey the law; they shall be hunted by anacondas twelve meters long and weighing 300 kilos, and by jaguars three meters long from snout to tail, and shall be devoured as well by no-see-ums and microorganisms.

 

10.  Woe to those who drive cars worth half a million reais, honking like thunder, for they will brake hard when they encounter electric eels releasing thousand-volt shocks.

11.  The heart of darkness must be destroyed, and for this reason your maidens—the Amazons—will lure the traffickers of women to emasculate them.

 

12.  Howl, riverbank colonels, senators of hell; cry out, child abductors, for you have rolled in the fire! Your days have come!

 

13.  Woe to you, Amazonia, for pirarucus and filhotes will dwell in your elevator shafts and in your houses, and giant lizards will sun themselves on the terraces of your tallest buildings.

 

14.  Aquarium fish will taste freedom, like birds before the open cage door.

 

15.  Amphibians, batrachians, reptiles will pray in the temples for the sins of the famiglias.

 

16.  Before you vanish from the map, before you become swampland, you shall grow even more deranged under the merciless sun, the humidity, the microorganisms, and venomous creatures—woe to you, Amazonia! The Indians will try to escape in thousands of canoes toward the Atlantic, but the downfall will reach the Equatorial Margin. The cannons of the Fortress of São José de Macapá, which never thundered, will thunder now against the city that built it with stones and the blood of Blacks and Indians under Lusitanian lash. Yet even the Atlantic will take millennia to wash away your sins of a single scorching summer.

 

17.  Hear my prophecy: great serpents will settle into palaces, cathedrals, and theaters, awaiting bodies they will swallow greedily.

 

18.  And in the elegant clubs of Belém and Manaus, crabs will eat the heads of politicians and corrupt journalists fried in their skulls, to the sound of ghost orchestras.

 

19.  For great was the greed with which the Iberian colonists and later the politicians, in league with NGOs and hegemonic powers, sank their teeth deep into your flesh, Amazonia. Thus the moment of your end has come, heart of darkness.

 

20.  The plunder of politicians, drug traffickers, communist guerrillas, terrorists, and the rabble of banditry has brought you to ruin. Miserable girls will no longer be sacrificed to impotent men, themselves fooled by money and power.

 

21.  Immense anacondas will coil around television antennas that once belonged to billionaire families, and small fish will die in the adulterated drinks of your bars.

 

22.  Paint yourself like a whore and put on all your jewels, redden your lips and nails, and sing the lewdest song you know—and you know many lewd songs—for it is too late to pray. It is time for your sinful body to be swept away by fury. Sing your final song, Amazonia! And it will not be a song by Fernando Canto.