quinta-feira, 29 de junho de 2023

Leia, enquanto é tempo, O CLUBE DOS ONIPOTENTES, de RAY CUNHA, escritor de Macapá/AP, a Cidade do Meio do Mundo

O jornalista José Maria Trindade, da Jovem Pan, lê O CLUBE
DOS ONIPOTENTES
, romance ensaístico de RAY CUNHA

Todo mundo sabe como escritores cariocas, paulistas, mineiros etc. estão vendo o atual cenário político brasileiro! Mas como um escritor amazônida, natural de Macapá, a Cidade do Meio do Mundo, capital do estado do Amapá, na Amazônia atlântica, vê e analisa essa questão? Se você quer saber o ponto de vista de um escritor amapaense sobre o cenário político atual leia O CLUBE DOS ONIPOTENTES, romance ensaístico, com personagens de ficção e reais, vivas e mortas, de RAY CUNHA!

O CLUBE DOS ONIPOTENTES pode ser adquirido no Clube de Autores

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E na amazon.com

sábado, 24 de junho de 2023

Academia de Letras do Amapá terá sede própria

Os acadêmicos zelam pela cultura, a identidade dos amapaenses
O Rio Oiapoque une o Amapá à Guiana Francesa

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 24 DE JUNHO DE 2023 – Há duas estrelas posicionadas mais à esquerda na Bandeira Nacional, quase no mesmo alinhamento: Procyon, da Constelação do Cão Menor, que representa o Amazonas, no alto, e, abaixo, Mirzam, da Constelação do Cão Maior, que representa o Amapá. Daí que é fácil encontrar o Amapá na constelação da Bandeira Nacional, assim como é fácil encontrar o próprio estado do Amapá no mapa. 

Delimitado da Guiana Francesa pelo Rio Oiapoque, a noroeste, o quadrilátero setentrional é atravessado pela cordilheira do Tumucumaque até debruçar-se sobre o maior rio do planeta, o Amazonas, ao sul, Rio Jari a sudoeste, e, a leste, há o azul do Atlântico. 

Pois bem, Mirzam começou a cintilar mais no Pavilhão, já que a Academia Amapaense de Letras (AAL), guardiã da língua portuguesa e da literatura e cultura, ou identidade amapaense, comemorou, em grande estilo, nesse 21 de junho, 70 anos, legitimando-se, por sua história, tradição e reconhecimento por parte da sociedade, como o órgão máximo da cultura do povo amapaense. 

De mesma forma que os cariocas defenderam o Rio de Janeiro da França Antártica, os amapaenses defenderam o Amapá da França, até, de comum acordo, Brasil e França colocarem o Rio Oiapoque entre as duas nações, mais como símbolo de amizade do que de separação, e, hoje, Amapá e Guiana Francesa são irmãos, tanto que há a ideia de se publicar um livro bilingue reunindo trabalhos de contistas amapaenses e guianenses, a ser lançado em Macapá, Brasília, Caiene e Paris. 

Os três dias de comemorações do aniversário da AAL foram extraordinários, com a presença dos três poderes e o compromisso de que a Academia terá sua sede própria já no próximo ano. Aliás, abordei esse assunto na palestra que apresentei antes de autografar o romance JAMBU, por ocasião dos festejos. 

A Academia Amapaense de Letras foi fundada por escritores pioneiros do então Território Federal do Amapá, em 21 de junho de 1953. O dia e mês são do aniversário de Machado de Assis, um dos fundadores e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL), que também não tinha sede nos seus primeiros anos. 

Mas o caso da AAL foi pior. Sua primeira diretoria tomou posse no dia 5 de julho de 1953. Os acadêmicos chegaram a reunir-se ao longo de cinco anos e, durante três décadas, permaneceram de portas fechadas, para reabri-las somente em agosto de 1988. Em 1 de dezembro do ano passado, tomou posse a diretoria atual, comandada por um dos intelectuais mais lúcidos do Amapá, o doutor em sociologia, mestre em desenvolvimento regional, ensaísta e ficcionista Fernando Canto. 

Como disse, a ABL começou de forma semelhante à AAL. Fundada em 20 de julho de 1897, as reuniões da ABL eram realizadas nas dependências do antigo Ginásio Nacional, no Salão Nobre do Ministério do Interior, no salão do Real Gabinete Português de Leitura e no escritório de advocacia do primeiro secretário, Rodrigo Octávio, na Rua da Quitanda 47. 

A partir de 1904, as reuniões passaram a acontecer no Silogeu Brasileiro, um prédio público que abrigava outras instituições culturais, até 1923, quando o governo francês doou à academia o prédio do Pavilhão Francês na Exposição do Centenário da Independência do Brasil, na Avenida Presidente Wilson 203, uma réplica do Petit Trianon de Versalhes, projetado pelo arquiteto Ange-Jacques Gabriel, entre 1762 e 1768. 

Em 1959, assumiu a presidência do silogeu Austregésilo de Athayde, durante 34 anos consecutivos, até 1993. Austregésilo conseguiu com o então presidente Juscelino Kubitscheck o terreno do Pavilhão Inglês na Exposição Internacional comemorativa do Centenário da Independência do Brasil, na Avenida Presidente Wilson 231, ao lado do Petit Trianon de Versalhes. 

Austregésilo fez uma permuta com a Ecisa Engenharia e em 20 de julho de 1975 começou a construção do Edifício Centro Cultural do Brasil, ou Palácio Austregésilo de Athayde, um arranha-céu de 30 andares, 115 metros de altura, projetado pelo arquiteto Mauricio Roberto. O edifício foi inaugurado quatro anos depois, em 1979. 

Parte do Palácio Austregésilo de Athayde ficou com a Ecisa e parte é utilizada para as atividades culturais da ABL e também alugada para várias empresas. É daí que vem a renda da academia. Hoje, além de ter sede própria, e que sede!, os acadêmicos ainda ganham jetons. 

Na Academia Amapaense de Letras os acadêmicos pagam mensalidade. Mas no próximo ano já deverão se reunir em sede própria. Se for um prédio com vários conjuntos de salas, poderão alugar parte delas. Se for um terreno grande, poderão firmar contrato com uma construtora e incorporadora e construir uma torre, como fizeram os acadêmicos da congênere brasileira. 

O que a Academia Amapaense de Letras pode fazer pela cultura do Amapá é um mundo de coisas. Pode fomentar a cadeira de Literatura Amapaense da Universidade Federal do Amapá (Unifap); promover palestras, conferências e seminários na universidade, faculdades e no ensino médio; pode se empenhar por verba para a publicação de escritores do cânone literário amapaense, livros importantes para estudantes e pesquisadores, distribuídos para bibliotecas de todo o país; pode criar uma premiação simbólica anual a escritores amapaenses, vivos ou mortos, pelo conjunto de sua obra etc. etc. etc.

Esse é o zelo que os acadêmicos podem ter pela cultura do povo amapaense, pois é com essa invenção, a escrita, a mais extraordinária da raça humana, que os escritores registram e arquivam a história e a cultura da humanidade, e os acadêmicos do Amapá zelam pela identidade do povo amapaense.

Ray Cunha em palestra sobre o romance ensaístico 
JAMBU e o aniversário da Academia Amapaense de Letras
Ray Cunha autografa JAMBU para o vice-presidente da AAL, Paulo
Guerra
, e o diretor do Memorial Amapá, jornalista Walter Junior

domingo, 18 de junho de 2023

Abismo Azul

Ray Cunha e DE TÃO AZUL SANGRA, na edição do Clube de Autores


RAY CUNHA


Sinto cheiro de mulher nua

Ostra com Antarctica enevoada, em julho, às 9 horas

No ar saturado de mulheres lindíssimas e suadas, em Salinas

 

Tu precisas me lamber com teus olhos verdes como lápis-lazúli

Para eu sentir o acme

Precisas apenas sorrir e tocar nos meus finos lábios

Para que eu morra como as rosas, que não morrem nunca

Porque são imortais na sua explosiva beleza

 

Imobilizo minha amante pelos cabelos

Beijo-a na boca, faço-a gritar de prazer

Ela é a própria noite

Café noturno, cheio de mulheres misteriosas de tão lindas

Que dizem oi quando passo

 

O cheiro de púbis ruivo

Inunda meu olfato, meu paladar, meu cérebro.

Degusto Antarctica, com Jorge Tufic, em Manaus, no Nathalia

Lambo o rosto da Tharcilla

Beijo os lábios carnudos e mordo o pescoço da Mara

 

Como fez Isnard Brandão Lima Filho, oferto rosas para a madrugada

Ao extrair gemidos da mulher amada, percorrendo sua pele de jambo

E sonho com leões caminhando na praia, ao amanhecer

 

Igual Picasso, com seus olhos negros, nonagenários

Sou como pássaro que nunca envelhece

Nasci com asas invisíveis

Que se equilibram no éter, como avião de caça

Riscando um golpe vermelho no azul

sábado, 17 de junho de 2023

A mulher amapaense na ficção de Ray Cunha

Ray Cunha e a acrílica em tela TUIUIÚ CRUCIFICADO, de Olivar Cunha

RAY CUNHA

BRASÍLIA, 17 DE JUNHO DE 2023 – Uma das personagens femininas mais fascinantes que eu já criei é Danielle Silvestre Castro, heroína de JAMBU (Clube de Autores, 190 páginas, 50 reais), romance ensaístico que estarei autografando em Macapá, nesta terça-feira 20, a partir das 18 horas, no Auditório do Senac, na Avenida Henrique Galúcio 1999, Centro, como parte das comemorações dos 70 anos da Academia Amapaense de Letras (AAL), fundada em 21 de junho de 1953. 

Macapaense, cafuza de pele cor de jambo maduro, ruiva e de olhos verdes, Danielle é chefe de cozinha, oceanógrafa e perita em artes marciais. Ela e seu marido, o jornalista, arqueólogo e oceanógrafo João do Bailique, taxidermista do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá (Iepa), localizado no campus do quilômetro 10 da Rodovia Juscelino Kubitscheck, estão à caça do traficante de crianças e grude de gurijuba Jules Adolphe Lunier, enquanto ele produz uma edição especial sobre a Questão Amazônica da revista Trópico Úmido e ela realizava o Festival de Gastronomia do Pará e Amapá. 

Esta é a sinopse do romance que estarei autografando. Danielle e João do Bailique cruzam com várias personalidades reais, vivas e mortas, como a cofundadora da Academia Amapaense de Letras, a pianista Walkíria Lima, mãe do poeta, também acadêmico, Isnard Brandão Lima Filho; o genial pintor Olivar Cunha; a famosa cantora lírica paraense Carmen Monarcha; o escritor, espião brasileiro em Moscou durante a Guerra Fria, Jorge Bessa, entre muitos outros. 

Reservei um pequeno trecho de JAMBU com Danielle em ação: 

“Um dos peixes mais apreciados da costa do Amapá é a gurijuba; menos pela sua carne e mais pelo grude. A vila do Sucuriju, distrito do município de Amapá, localiza-se no Cabo Norte, à margem direita do rio homônimo, próximo à foz dele, no litoral, distante 220 quilômetros de Macapá. O Sucuriju está à mercê das grandes marés do Atlântico e é completamente percorrido pela pororoca, quando, nas marés cheias, o mar avança nos rios, em ondas de até cinco metros de altura, levando tudo o que encontra pela frente e arrancando árvores do barranco das margens, logo substituídas por filhotes em disputa pelo sol. 

“A vila é toda de palafitas e as ruas são passarelas de madeira. O rio é salobro, por isso os moradores estocam água da chuva para beber. Durante o inverno, as caixas d'água coletivas são abastecidas e na estiagem cada um recebe 30 litros de água por semana. Os habitantes da vila, algumas centenas de famílias, vivem da pesca, principalmente de gurijuba, que desova nas águas mornas dos manguezais, entre a foz do Rio Araguari e a do Rio Cunani, e é pescada do arquipélago do Bailique até o limite com a Guiana Francesa. 

“O povoado surgiu no início do século XX. A partir de uma promessa feita à Nossa Senhora de Nazaré, uma cobra grande abriu a embocadura do Rio Sucuriju, fato celebrado na festa da padroeira, com missas, jogos e bailes. Até a década de 1920, apenas pescadores, sobretudo do arquipélago do Bailique e do lago do Piratuba, andavam por ali, acampavam, dando início ao povoamento, acossado pelo mar e pela Reserva Biológica do Lago Piratuba, região de manguezais e campos alagados, onde vive o pirarucu, capturado com arpão ligado à canoa por uma linha. 

“Como a água dos lagos é escura, os pescadores aguardam as borbulhas que antecedem o pirarucu ao emergir para respirar. Já na pesca da gurijuba, ou bagre do mar, é utilizado o espinhel – centenas de anzóis conectados a uma linha de cerca de dois quilômetros, firmada em âncoras e boias. A bexiga natatória da gurijuba é conhecida como grude, matéria prima no fabrico de cola de precisão, medicamentos, cosméticos e bebidas. Os chineses pagam os melhores preços pelo grude, que apreciam na culinária. Esse peixe é tão procurado que corre o risco de ser extinto. 

“A bexiga natatória é extraída, secada, durante três a quatro dias, ao sol ou na estufa, e vendida, principalmente para China, Japão, Europa e Estados Unidos. Muito parecida com o bagre de água doce, de cabeça grande, barbatanas e um corpo relativamente curto e amarelado, a gurijuba chega a 20 quilos, mas sua carne não é muito apreciada entre os cabocos, embora a cabeça do animal renda um caldo saboroso e nutritivo. O quilo da carne do peixe custa em torno de meio dólar. Mas o grude contém substâncias que, beneficiadas, produzem uma cola de alto teor de adesão, usada na indústria espacial e em cirurgias de alta precisão, pois o corpo humano não a rejeita. 

“Pescadores de Sucuriju, Bailique, Calçoene e Oiapoque vendem o grude para atravessadores em torno de 5 dólares o quilo, revendido por cerca de 20 dólares no Pará e Maranhão, e alcançando 75 dólares no exterior. A exportação de grude chega a mais de 200 toneladas por ano pelos portos do Pará e do Amapá. Os pescadores de Sucuriju vinham entregando o quilo do grude por até 2 dólares, mas quando Danielle criou a cooperativa todo mundo passou a receber 37,5 dólares pelo quilo do grude, causando grande prejuízo aos atravessadores. E isso só foi possível graças aos contatos internacionais de Danielle, especialmente em Hong Kong. 

“O caldeirão vaporizava-se ao sol da tarde, provocando alucinações, quando Danielle avistou o assassino, ao sair de casa para retornar ao Catalina, fundeado no rio Sucuriju; ele avançava na estiva, a uns cem metros de distância da palafita, o rosto coberto por um saco de tarlatana creme, óculos escuros e chapéu de feltro marrom, segurando na mão esquerda, que deu para ver que era branca e peluda, uma pistola com silenciador. Instintivamente, Danielle retornou à casa e correu para a cozinha, pegou uma peixeira, esgueirou-se para o quintal e internou-se na vegetação. 

“Desde que começara a correr ouvira três cusparadas; o chumbo da última passara tão rente ao seu ouvido esquerdo que sentiu uma pontada nos rins. Sabia que era seguida perigosamente de perto e procurava distanciar-se do perseguidor, a fim de surpreendê-lo. Normalmente alagado, o chão apresentava-se quase seco naquela baixa-mar de 30 de junho, facilitando o avanço da mulher, que trajava calças jeans e botas. Atingiu uma pequena clareira e viu um ponto mais elevado, onde emergia majestoso taperebazeiro. Alcançou-o e se posicionou ali. 

“Se o homem parasse no meio da clareira não erraria a peixeira na garganta dele. Era exímia atiradora de faca. Aguardou. Pelo jeito o fantasma estava planejando o mesmo que ela. Então começou a se mover num grande círculo, até alcançar a cooperativa, uma hora depois. A aparição sumira em uma lancha há uma hora, precisamente. Não, ninguém se aproximou do Catalina, afirmou o caboco que ficara de vigia. Quem teria interesse em matá-la? Ou assustá-la?

“Tu não perdes por esperar” – pensou Danielle.

O romance JAMBU será autografado nesta terça-feira em Macapá

quinta-feira, 15 de junho de 2023

O romance JAMBU, que será lançado em Macapá nesta terça 20, desperta perfume de jasmineiros chorando, na memória do coração

Ray Cunha na lente do artista plástico André Cerino, em um momento
de descontração no ateliê do pintor, em Brasília, em dezembro de 2013

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 15 DE JUNHO DE 2023 – Macapá, a capital do Amapá, é uma cidade ribeirinha da Amazônia atlântica, na margem esquerda do estuário do maior rio do planeta, o Amazonas. Seccionada pela Linha Imaginária do Equador, os turistas ficam passando de um hemisfério para o outro. Nasci na Maternidade do Hospital Geral, na Avenida FAB, em 7 de agosto de 1954, e fui para casa, pertinho, na Rua Iracema Carvão Nunes com a Eliezer Levy, ao lado do Colégio Amapaense. Na época, só havia uma banda do colégio, e a casa onde eu morava era remanescente do antigo Aeroporto de Macapá, que ficava na hoje Avenida FAB. 

Tinha 13 anos quando escrevi meu primeiro poema, que eu perdi. Foi para a Alcinéa Maria Cavalcante, a poeta que povoou o imaginário da minha geração. Aos 14, eu já bebia como adulto e frequentava a casa do pai da minha geração de escritores, o poeta e cronista Isnard Brandão Lima Filho, que vivia sempre cheia de artistas. Sua mãe, a pianista Walkíria Lima, nos recebia com amor. Bebíamos e fumávamos muito, e conversávamos sobre literatura, artes plásticas, música. O Isnard era bem informado e culto. Se fosse para o Rio de Janeiro, como costumam fazer artistas talentosos de todo o país, certamente seria, hoje, um poeta conhecido nacionalmente. 

Quando o Olivar Cunha, meu irmão, expôs sua primeira individual de pintura, aos 16 anos de idade, na Associação Comercial e Industrial do Amapá, na Rua General Rondon com a Avenida FAB, foi uma farra. R. Peixe, Alcy Araújo, Isnard, o cronista Edevaldo Leal, o poeta Galego, Binga Monteiro, todo mundo caía lá, e a bebida rolava até de madrugada. 

Eu curti muito a noite macapaense. Até hoje seu cheiro impregna a memória do meu coração. Tinha cheiro de jasmineiros chorando e das jovens da minha adolescência, eternamente lindas, pois todos os jovens são imortais. Em dezembro de 1971, Joy Edson (José Edson dos Santos), José Montoril e eu, todos com 17 anos, lançamos, também na Associação Comercial, XARDA MISTURADA, um livrinho de poemas sem consequência, mas que foi nosso batismo de fogo, como disse Isnard. 

No ano seguinte, ainda com 17 anos, e eu não tinha nem carteira de identidade, peguei o rio e depois a estrada, virei beatnik. Até então Macapá era minha pátria. Fui de barco para Belém e de lá para o Rio de Janeiro, e depois continuei andando por aí, e isso durou dez anos. Hoje, moro em Brasília. Mas são minhas raízes de caboco da Amazônia que iluminam, como um farol, o mar da minha vida, nos momentos de tempestade, à noite. 

Nós, escritores, recriamos, às vezes, as cidades que conhecemos melhor, pois não é possível conhecer inteiramente uma cidade. É que as cidades são como mulheres, um labirinto de mistério. De modo que, aqui e ali, recrio alguma coisa de Macapá nos meus romances, ou contos. Em A CASA AMARELA, por exemplo, o Trapiche Elizer Levy, o Macapá Hotel, os bailes na Piscina Territorial, estão todos lá. 

Também recrio Macapá no romance JAMBU (Clube de Autores, 190 páginas, 50 reais), que será lançado em Macapá, nesta terça-feira 20, a partir das 18 horas, no Auditório do Senac, na Avenida Henrique Galúcio 1999, Centro, como parte das comemorações dos 70 anos da Academia Amapaense de Letras (AAL), fundada em 21 de junho de 1953. 

Selecionei duas passagens de JAMBU em que recrio Macapá. A primeira é do Trapiche Eliezer Levy, que transportei para o Canal do Jandiá, no Pacoval: “De madrugada, o píer, de 472 metros, ladeado por embarcações, ao ritmo da maré cheia, lembrava uma avenida nascendo na escuridão do Rio Amazonas, até a marina do Lago do Pacoval, no Canal do Jandiá. 

“O Hotel Caranã emergia de dentro do bosque, na faixa de terra entre a marina e a Rodovia Pacoval, como um ninho de cupim de sete pavimentos, numa simbiose com a floresta, prova de que a tecnologia pode conviver harmoniosamente com a vegetação, sem feri-la, mas unindo-se a ela e passando a fazer parte daquele ecossistema, ajudando-o a defender-se do inchaço da favela que se espraiava desordenadamente nas cercanias. Sentia-se o tumor latejando na margem da BR-156, a população avançando em a natureza, sem contar com nenhum metro de galeria de esgoto, nem de águas pluviais. 

“Assim, o hotel era a garantia de que o bosque que o rodeava não seria torado e transformado em carvão, e de que da terra nua não vicejaria um desses conjuntos residenciais de casinhas populares nascidos da corrupção, sem infraestrutura básica, sem sequer um arbusto remanescente em sinal de arborização. 

“Macapá, a mais emblemática cidade da Amazônia, era uma miragem que vai se materializando na medida em que o sol de julho começa a se levantar do outro lado do Canal do Norte, na cabeceira da Linha Imaginária do Equador, gigantesca bola de rubi transmutando-se em ouro, materializando-se igual mulher que emerge do mergulho, respingando água. Seu nome vem do tupi, “macapaba”, “lugar de muitas bacabeiras”, palmeira nativa da região, de fruto, a bacaba, gerador de suco delicioso, quase tanto quanto açaí, este, de grande significado para os amapaenses, que já foram paraenses, pois o estado do Amapá é um naco do estado do Grão-Pará, e os parauaras são os mais ávidos tomadores de açaí da face da Terra”. 

Também modifiquei o famoso Gato Azul, na Rua São José com a Avenida Presidente Vargas: “Fechado por vidraças que permitiam visão apenas de dentro para fora, com temperatura ambiente de 21 graus e variedade internacional de bebidas, o bar constituía-se no melhor refúgio da cidade. 

“Era possível encontrar nas suas confortáveis cadeiras de palinha e poltronas, de senador da República a contrabandistas e traficantes. Jornalista, então, dava no meio da canela. João do Bailique gostava de passar por lá geralmente naquele momento de transição entre a tarde e a noite, procurava a extremidade sul do balcão e pedia diretamente ao barman, Antônio, um “espilantol”. 

“Era como denominava o daiquiri, coquetel cubano feito com rum, suco de lima, açúcar ou xarope e gelo picado, agitados na coqueteleira e servido em um copo grande; o de Bailique lembrava um pouco o Daiquiri Hemingway, ou Papa Doble, criado no Bar Floridita, em Havana, Cuba, especialmente para o escritor americano Ernest Hemingway, que morou em Havana boa parte de sua vida; Papa era diabético e seu daiquiri não continha açúcar, e era servido com o dobro de rum, Bacardi. 

“Além disso, o de Bailique era com suco de limão. Antônio lhe estendeu a bebida e o jornalista deu o primeiro gole, e veio-lhe a velha sensação que lhe despertava o tacacá da Esmeralda, naquele momento em que a tarde morre, anestesiando o calor, perfume de jasmineiros se insinuando, e um remoto som de merengue. 

“Bebeu mais um gole. A edição de agosto da Trópico Úmido já estava praticamente editada. Bailique vinha trabalhando, intensamente, na matéria da Operação Prato, que começara a tomar corpo após longas conversas com Danielle, intensa pesquisa e uma entrevista com o escritor Jorge Bessa. 

“Estava investigando ângulos da Operação Prato que não foram abordados pela mídia: Existem mesmo ETs? Se existem, quem são, de onde vêm? Por que se interessariam pela Amazônia? Estariam os ETs emitindo sinais de que a Amazônia está guardada para um fim maior?

“Sabe-se que o Brasil é visto nos meios exotéricos como o país mais avançado em termos espirituais: abriga todas as grandes religiões do planeta, além das dos índios e as africanas; e é um cadinho étnico. E a Amazônia, a maior floresta tropical do globo, a maior diversidade biológica da Terra, a maior província mineral do planeta, é a última fronteira, ambicionada por todos e sugada até o osso pelos governos que se sucedem em Brasília”.