domingo, 26 de fevereiro de 2012

Entrevista/ZENALDO COUTINHO: Belém precisa voltar a ser a capital da Amazônia


BRASÍLIA, 26 DE FEVEREIRO 2012 – Fundada em 12 de janeiro de 1616, Belém, a capital do estado do Pará, é a mais importante cidade da Amazônia. Um mergulho na história e na cultura da Amazônia Clássica, a análise da geografia do Trópico Úmido e um estudo geopolítico do Mundo das Águas confirmará isso.

À noite, lembra um óvni pairando sobre a baía de Guajará. O município, com 1.064,918 quilômetros quadrados, é integrado ainda por 38 ilhas habitadas, tem cerca de 1,5 milhão de habitantes (IBGE/2010) e sua região metropolitana já conta em torno de 2,1 milhões de habitantes. Os dois últimos prefeitos dessa cidade ensolarada foram desastrosos. O então petista e hoje do Psol Edmilson Rodrigues, 55 anos, foi prefeito de 1997 a 2004 (foi para o segundo turno, agora em 2020, contra o delegado Eguchi, da Polícia Federal). Só não foi pior do que a ex-governadora do Pará, a petista Ana Júlia Carepa, porque isso é impossível, mas foi substituído por um quase Ana Júlia Carepa: Duciomar Costa, 57 anos, do PTB, que esquenta (ou esfria) a poltrona de prefeito desde 2005. Hoje, a Metrópole da Amazônia é uma sombra do que foi. Por isso, a Cidade Morena precisa de um prefeito, talentoso, que a entenda.

Entre os vários pré-candidatos, um se destaca pelo seu preparo, não só sobre Belém, mas também sobre a chamada questão amazônica. Zenaldo Rodrigues Coutinho Júnior, 51 anos, jovem advogado no quarto mandato de deputado federal pelo PSDB, foi quem liderou o não à divisão do estado do Pará em três, e agora coleta assinaturas para a formação da Frente Parlamentar em Defesa da Amazônia. A Amazônia, diga-se, continua sendo vista, criminosamente, como celeiro e pulmão do mundo, e a massa da sua população, de 25 milhões de habitantes, é cada vez mais espoliada por uma elite que passa por cima da própria mãe para morder dinheiro.

A questão é: a energia elétrica gerada na Hileia e a produção mineral no Trópico Úmido precisa enriquecer também o amazônida, proibido até de abater jacaré, que dá no meio da canela, e come também canela. A grande imprensa vê uma Amazônia mitológica, por jornalistas descredenciados, em nível mundial, mas principalmente no Brasil, e, especialmente, em Brasília, a Ilha da Fantasia; e, pasmem, por desinteligência na própria Amazônia. Por isso é que a Amazônia precisa ser divulgada tal qual ela é, para que os amazônidas se livrem do pensamento de colonizado, a síndrome do vira-lata.

Zenaldo Coutinho me recebeu no seu gabinete no Anexo IV da Câmara dos Deputados, na manhã de 14 de fevereiro de 2012, uma terça-feira, para a seguinte entrevista:

O principal problema de Belém seria rede de esgoto e de galerias de águas pluviais defasadas?

O principal problema de Belém é ausência de autoridade. Nós temos um conjunto de problemas que decorrem da falta de ação; muitas vezes, da absoluta inoperância da administração municipal, o que resulta em situações dramáticas. Belém é uma das capitais com menor índice de esgotamento sanitário do país, temos trânsito caótico, serviço de saúde ineficaz, insignificante, sistema educacional irrisório. Precisamos modernizar, aparelhar, equipar e ampliar a rede municipal de ensino fundamental, da mesma forma que temos que ampliar os serviços de saúde. As pessoas estão padecendo muito em Belém. Além da ausência de autoridade, há ainda falta de carinho para com a população. Belém precisa ser vista como extensão das casas de todos. Belém já foi a metrópole da Amazônia, e tem que voltar a sê-lo.

O senhor pensa Belém como um arquipélago?

Belém é a única capital-arquipélago do país, mas, nela, o transporte público fluvial é subutilizado. Implementar o transporte público fluvial já foi tentado, mas não logrou êxito. Creio que por não ser um serviço de excelência, com garantia de segurança e rapidez, como, por exemplo, a Rio-Niterói, com barcaças, catamarãs etc. É necessário que tenhamos um olhar sobre Belém de modo a não vê-la apenas como continente, mas uma cidade que tem 38 ilhas povoadas e onde há pessoas, portanto, com necessidade de transporte. Obviamente esse não é o grande nó do trânsito belenense, mas, resolvido, ajudará a desafogar o trânsito. Icoaraci, por exemplo, pode abrigar um porto rodo-fluvial.

Belém é historicamente a cidade mais importante da Amazônia, mas seu patrimônio arquitetônico está se deteriorando.

Isso é gravíssimo, e se soma ao desleixo, falta de carinho, de atenção da autoridade para com tudo aquilo que é de todos. Repito: a cidade tem que ser vista como nossa casa. Jogamos lixo no chão da nossa casa? A cidade precisa do sentimento coletivo de respeito, de carinho.

Belém é a Cidade das Mangueiras; seu subúrbio o é também?

Antônio Lemos (prefeito de Belém, no fim do século XIV e início do século XX) foi o responsável pela plantação das mangueiras, que é uma árvore exótica na Amazônia, originária da Índia. Particularmente, defendo os corredores de mangueiras, mas também uma variação da nossa arborização, as essências amazônicas, estendidas também para os bairros periféricos de Belém, que precisa, como um todo, de mais arborização e jardinagem.

E as portas para o rio?

O turismo em Belém é incipiente. Precisamos de uma ação muito forte voltada para o turismo. Temos muito mais opções do que Manaus. Em Belém, além da floresta e da história, temos praias de rio e de mar, e Marajó, pertinho. Temos que estar antenados com a questão turística.

Que nota o senhor dá para os 7 anos da atual administração municipal?

Eu prefiro aguardar a nota que a população vai dar em outubro.

Caso o senhor seja efetivado como candidato e se eleja prefeito qual será sua linha de atuação?

Já estou trabalhando em um projeto, ousado, moderno, corajoso, por uma Belém que faça justiça à comemoração dos seus 400 anos, o que ocorrerá na próxima administração.

Falta financiamento para a reforma estrutural de Belém?

Financiamento se consegue; o que falta é estabelecer prioridades. Agora mesmo há um embate, desnecessário, da prefeitura com o governo do estado, que, há 20 anos, desenvolve um projeto, com os japoneses, com visão metropolitana, porque ele leva o ônibus expresso de Marituba até o centro de Belém, com investimento de US$ 320 milhões, já garantidos, assegurados, assinados, e a prefeitura tem um outro projeto, de Icoaraci até São Brás. Pretende-se que a prefeitura chegue até só o Entroncamento, para que não haja sobreposição de projetos, até porque os japoneses só financiam se houver apenas um executor da obra. Essas ações de integração são fundamentais, daí porque é importante a harmonia entre a prefeitura e o governo do estado, pois o administrador público não deve ficar isolado, o que inclui um diálogo eficiente com todos os mecanismos de financiamento.

O senhor liderou a campanha pela não divisão do Pará. Por quê?

Em defesa do nosso estado, da população. Durante muitos anos, aqui no Congresso, briguei para que houvesse estudos que antecedessem a consulta popular, sobre os impactos sociais, econômicos, tributários, ambientais, que analisassem as consequências na vida das pessoas em cada região a respeito de uma possível divisão. Infelizmente, foi um discurso para surdos. No caso de Belém, todos os estudos preliminares que havia, incluindo o da Universidade Federal do Pará, apontavam para o empobrecimento das três regiões. Teríamos implemento de despesas sem implemento de receitas. Teríamos que dividir o pouco que o estado do Pará já recebe, e teríamos o ônus de ter três assembleias legislativas, três palácios de governo, ou seja, teríamos uma elite usufruindo das estruturas de poder e uma população empobrecida e sem políticas públicas. Isso ensejou a nossa participação ativa, aqui no Congresso, e, posteriormente, na campanha pelo não no plebiscito. Graças a Deus, dois terços da população disseram não à divisão do Pará.

Que avaliação o senhor faz do governo Dilma Rousseff?

A presidente Dilma tem acertado em adotar uma série de modelos que nós, do PSDB, legamos, como a questão da privatização. Os petistas transformaram em demônio a questão das privatizações, mas agora o próprio governo federal, através da presidente Dilma, reconhece que se trata de um modelo que dá mais eficácia na gestão dos serviços públicos, se o modelo for aplicado de maneira adequada, como o foi na telefonia, quando nós o aplicamos. Eu me lembro que antes que o PSDB privatizasse a telefonia, telefone era tão caro que era declarado no Imposto de Renda. Hoje em dia, todos os brasileiros que quiserem têm acesso a telefone, graças à privatização. Também o Brasil se mantém equilibrado, mesmo com a crise internacional, graças aos fundamentos da macroeconomia brasileira deixados pelo governo do PSDB, como é o caso da Responsabilidade Fiscal, que foi um item extremamente criticado pelo PT, na época em que nós o adotamos, e hoje é modelo até na Europa, no combate à crise europeia. Ainda, o governo petista mantém o Plano Real, o maior instrumento de justiça social estabelecido no país. Mas, apesar de pouco mais de um ano de governo, sete ministros caíram flagrados em corrupção, o que é muito grave. E precisamos agilizar as obras nacionais, que estão muito vagarosas, especialmente as do chamado PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), que estão empacadas. Temos que agilizar isso. Nós, da oposição, estamos fiscalizando para que as coisas efetivamente aconteçam.

Se o PT lê a cartilha do PSDB, por que os tucanos não conseguem voltar para ao Palácio do Planalto?

Porque existe transição democrática. Nós passamos oito anos no poder e o PT está caminhando para os doze anos, mas em muitos estados, de norte a sul, o PSDB está no poder. A democracia é, portanto, um processo natural, legítimo. Mas os partidos têm que viver, sempre, na busca da realização dos seus projetos, buscando eficiência, eficácia para melhorar a qualidade de vida da população, o que quer dizer que o projeto de poder não é um projeto de poder pelo poder, e também não quer dizer que se o partido não está naquele momento no poder ele está liquidado. Nós podemos exercer o poder no governo e na oposição. Aquele que está no governo exerce o poder do fazer e o que está na oposição exerce o poder político da pressão, do monitoramento, da fiscalização, da cobrança, para que os projetos públicos aconteçam. Nenhuma dessas duas posições é inadequada. A democracia só persiste porque existem essas posições diferentes. O importante é que o PSDB tem lutado a favor do Brasil, e continuaremos a nossa caminhada. Temos já o nosso pré-candidato a presidente da República, Aécio Neves, que foi grande governador de Minas Gerais e é senador respeitado. Estamos construindo um diálogo com a população para voltar à presidência da República.

Goya e políticos brasileiros



BRASÍLIA, 26 de fevereiro de 2012 – O Museu Nacional dos Correios expõe Mestres da Gravura, coleção da Fundação Biblioteca Nacional (Rio de Janeiro), de terça-feira a domingo, das 10 às 19 horas, até 22 de abril, no Setor Comercial Sul (SCS), Quadra 4, Bloco A, Edifício Apolo, próximo ao shopping Pátio Brasil, na Avenida W3 Sul.

Gravuras são como, digamos, a fotografia antes da fotografia. Sua matriz pode ser em pedra, madeira ou metal, neste caso, como o prelo do alemão Johannes Gutenberg (1398-1468), ou um predecessor do daguerreótipo do francês Louis-Jacques-Mandé Daguerre (1787-1851). Pode-se reproduzir cópias até a matriz se desgastar. No Brasil, Oswaldo Goeldi (1895-1961) é um dos gravuristas mais incensados.

A mostra perpassa a Europa renascentista e iluminista dos séculos XV ao XVIII. São 171 joias; destacam-se, entre 81 gravadores, o holandês Rembrandt Hermenszonn Van Rijn (1600-1669) e o espanhol Francisco José Goya Y Lucientes (1746-1828). Verdadeira reportagem sobre a velha Europa. Mas é de Goya que quero falar um pouquinho.

Goya foi precursor do expressionismo, escola pictórica que, no Brasil atual, tem em Olivar Cunha, pintor nascido em Macapá, na Amazônia, um dos mais talentosos representantes, bem como o gaúcho Giovane Bellinazo, que vive em Brasília (ou no Rio Grande do Sul). Goya viveu na Espanha dos séculos XVIII e XIV, da Inquisição, pestes, guerras eternas e totalitarismo. Quem desagradasse o rei perdia a cabeça, literalmente. No entanto, Goya pintava até reis como eles eram. Como Julian Froid fazia com seus modelos até recentemente.

A realidade é uma dama fluida, enganosa como um pântano, e sempre fugaz. O pintor expressionista, além de captar os momentos fugazes da realidade, tem o poder de lhe dar eternidade; no caso do artista plástico, por meio de traços que se movimentam para sempre.

Goya, hoje, caso fosse incumbido de pintar políticos brasileiros, encheria a galeria dos Correios com um zoológico perigosíssimo: camaleões, ratos, Crocuta crocuta, serpentes, escorpiões, dragões-de-komodo, cachorros devorando dinheiro.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Iasmim, 22 anos




As mãos que te embalam, o anjo que zela pelo teu triunfo
Sou o que te guarda desde o nascimento.
Agora, o sol aquece o rubi azul em que desabrochas
Como latejar da música de Mozart
Um trovejar silencioso
O atrito da Terra no espaço
O voo das crianças
O esplendor da luz:
Iasmim!

Brasília, 18 de fevereiro de 2012

Minha filha, Iasmim, completa 22 anos, neste 22 de fevereiro. Escrevi para ela o poema acima, o azul mais profundo que encontrei, e que tirei do meu coração, numa prece. Pedi ao Criador para arrumar todas as manhãs da minha filha, pintar suas tardes de perfume e adornar suas noites com os maiores diamantes do mundo, e espargir, à sua passagem, riso de crianças e de flores. Sua mãe, Josiane, ensinou-a a demonstrar gratidão aos nossos antepassados estendendo as mãos para os que tateiam no escuro, e a ensinamos a ser justa e valente, e a jamais sentir medo. E, no entanto, é ela minha luz!

Ano passado, meu presente também foi azul. Sou escritor, e esculpir o azul com palavras é o que sei fazer. Assim, dou sempre a ela, no seu aniversário, no Natal, todos os dias, meu coração.

Iasmim, meu amor!

Comecei a sentir tua presença logo nos primeiros dias após tua concepção, pois Josiane, tua mãe, começou a ficar ainda mais bonita, a desabrochar como rosa grávida. Eu sentia no ar tua presença como a luz na alma, a música de Mozart nunca pulsou tão divina e o perfume da vida me extasiava. Eras tu que estavas vindo, para alegrar, para sempre, minha vida.

Logo o ventre da tua mãe começou a crescer. Eu o beijava e tu tentavas, lá do teu mundo uterino, tocar em mim. Os meses passavam e eu, agora, tinha duas namoradas. E queria também ficar juntinho do ventre da tua mãe, e líamos contos dos gênios da literatura infantil para ti. Abraçado à tua mãe, eu te sentia; e me sentia Deus. Já não criava somente personagens de ficção, mas estava prestes a ver o triunfo de uma criação perfeita.

Josiane ficou esplêndida, um santuário que eu beijava ajoelhado. Uma noite, 22 de fevereiro de 1990, o rio da tarde acabara de desaguar no Ocidente quando tu anunciaste que querias nascer. Joanira, um anjo que te acompanha desde sempre, levou tua mãe e eu ao Hospital Regional da Asa Norte, e, às 23h40, os jardins do mundo se iluminaram, pois nasceu um jasmim.

Na manhã do dia seguinte, fui te conhecer. Quando te vi, filha, senti uma emoção tão azul que vertia rubis, diante da luz, intensa, redentora, que tu emanas. Sabíamos que somos um só, tua mãe, tu e eu. Pedi a Deus, meu Pai, que arrumasse a manhã para ti, a manhã da tua vida. Ele, então, me muniu de amor, luz, sabedoria, gentileza, para que eu cuidasse de ti.

E tu cresceste como um botão que abre imperceptivelmente as pétalas ao sol, como um poema cada vez mais azul. Eu lia histórias para ti, até um dia que tu mesma começaste a ler, e não paraste mais. O riso da tua infância, que guardo no relicário do meu coração, é minha perene alegria. 

Completas 21 anos neste 22 de fevereiro. Todos os anos eu te dou o mesmo presente, que sou eu. Pertenço à tua mãe, de quem tu fazes parte, e sou teu também, porque és parte de mim, por isso te dou meu coração, que é o que me resta, pois nas histórias que te contei já te dei o mundo, e todos os jardins, e todas as rosas, e os girassóis de Van Gogh, e todo o perfume, e a música de Mozart.

E eu serei sempre um ser híbrido de anjo e leão, empunhando uma espada de luz, para garantir que teu caminho esteja seguro.

Teu!

Ray Cunha


quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

A vida boêmia dos rapazes do Trem

O bairro do Trem tinha aquele movimento agradável de início de noite. Latejava, na conversa, a expectativa de beber.

- Vamos para o GEM? – disse Gig.

O GEM ficava na Tiradentes, e Gig, Boi Manco e Gim Garrafa foram para lá, aqueceram-se com três doses iniciais e sentaram-se numa mesa no passeio público, com uma garrafa de Pitú.
- E o Galego Demônio? – o dono do bar quis saber, servindo-os de pedaços de genipapo.
Era sexta-feira e o movimento cresceu logo. Resolveram dar um pulo no Bar Caboclo, para ver como as coisas estavam lá. O bar Caboclo estava lotado, o ar saturado de fumo, sebo, gargalhadas e música ordinária.
- Três de Pitú.
Uma mulher se aproximou deles e pegou no rosto de Gim Garrafa.
- Mas que criancinha bonitinha! Vou te levar para a minha cama... – beijou-o no nariz. – Quantos anos você tem, lindeza? Você é uma criancinha linda...
Ela era muito feia e Gin se chateou com aquilo.
- É melhor a gente pegar rum na taberna do Mário Porreta – disse Gim.
Quando chegaram no Mário Porreta havia um bêbedo dormindo na frente.
- Vamos botar fogo na mão dele? – sugeriu Boi Manco.
- É bom. Só assim ele vai se esquentar – disse Gim Garrafa.
Havia um pedaço de jornal na rua.
- Me dá aqui – pediu Gim Garrafa. – Agora é minha vez – continuou ele, rasgando e colocando um pedaço de jornal na mão do bêbedo e ateando fogo. Era um bêbedo muito velho. Ele se mexeu. Tornou a se mexer, mas não acordou.
- Vamos fazer uma bandalheira com ele – Gim Garrafa decidiu. Mas Boi Manco sabia que ele estava muito doido.
- É melhor a gente pegar rum e ir para a praia.
- É melhor – Gig concordou. – A gente aproveita e rouba também uns enlatados.
- Gig e Boi Manco ficaram vigiando. Gim Garrafa entrou pelo telhado. Ele sabia fazer muito bem o negócio. Depois apanharam coco na casa de Gim Garrafa, que ficava bem perto, e desceram para a Vacaria do Barbosa. Lá pela manhãzinha Gim Garrafa começou a dar pinotes até cair de vez. Gig acendeu um pedacinho de papel na mão dele e disse: “Aguenta firme”. Pois ele aguentou firme e não acordou.
- Vamos tomar banho – disse Gig.
Avistaram uma garota. Boi Manco segurou-a e levaram-na para trás de uma moita de aturiazeiro. Ela chorava, mas depois se calou. Quando acabaram Boi Manco disse: “Vamos, tenho sono”.
O dia amanheceu todo. De noite teriam um baile na casa do Galego Demônio.

Conto do livro A grande farra – edição do autor (Ray Cunha), Brasília, 1992, 153 páginas, esgotado

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

O choro dos jasmineiros

Fortaleza de São José de Macapá; ao fundo, o Trapiche
Eliezer Levy, em foto de 26 de outubro de 2004, do francês
Olivier Marcille, marido da minha amiga Iara Marcille

Brasília, 2 de fevereiro de 2012 - Macapá, minha cidade natal e capital do estado do Amapá, completa 254 anos depois de amanhã - foi criada em 4 de fevereiro de 1758. Ela é singular, porque se debruça para o maior rio do planeta, o Amazonas, na margem esquerda, próximo à boca, e na confluência da Linha Imaginária do Equador. Não há como não a localizar no mapa. O Amazonas despeja pelo menos 200 mil metros cúbicos por segundo da sua água túrbida no Oceano Atlântico, e chega a despejar 600 mil metros cúbicos de água por segundo no mar. Deposita também no Atlântico 3 milhões de toneladas de sedimento por dia, 1,095 bilhão de toneladas por ano. Assim, a costa do Amapá está crescendo. A boca do rio, se escancarando do arquipélago do Marajó, no Pará, até a costa do Amapá, mede 240 quilômetros, e sua água prenhe de húmus penetra 320 quilômetros no mar, atingindo o Caribe nas cheias e fertilizando o Atlântico com 20% da água doce do planeta. O húmus torna a costa do Amapá uma explosão de vida marinha, o ponto mais rico da Amazônia Azul, no Brasil mais mal guardado pela Marinha de Guerra e menos estudado pela academia.
Apesar de se debruçar no maior manancial de água doce do mundo, as torneiras de Macapá, às vezes, vertem lama. Também é recorrente a falta de energia elétrica na cidade, que dorme na Idade Média. É porque alcaides, governadores, parlamentares e representantes do Amapá no Congresso Nacional costumam cagar e mijar na teta que os alimentam, e que mordem com fome canina, como víboras furiosas. Não incluo nessa matilha de cães sarnentos os políticos sérios. E nesta época do ano, Macapá fica ainda mais esburacada. Sem redes de esgoto e de águas pluviais e asfaltada com material vagabundo, as ruas da cidade são perigosas - as funerárias, os pronto-socorros, as oficinas de automóveis e as borracharias que o digam.
E, no entanto, se trata de uma cidade estratégica, pois o Porto de Santana, na Região Metropolitana de Macapá, é o mais próximo simultaneamente dos mercados dos Estados Unidos, Europa e Ásia (via Canal do Panamá), e seria um ponto natural de convergência de produtos de toda a Amazônia brasileira, e também peruana, além da Região Centro-Oeste. Isso, e a costa do Amapá, a mais rica do planeta em vidas marinhas, dão um extraordinária potencial de riqueza à região. Só falta concluir a BR-156, que liga Macapá à América Central. Mas a rodovia é construída há 70 anos, já enriqueceu muita gente e não tem data para ser inaugurada. O município de Macapá conta com 407.032 habitantes (IBGE/2011), e sua região metropolitana, com 509.883 habitantes. Trata-se da terceira maior aglomeração urbana do Norte - 60% da população do Amapá.
Macapá vem do tupi, macapaba, lugar de muitas bacabas, palmeira nativa da região, a bacabeira (Oenocarpus bacabat), de suco inigualável. Macapá também já se chamou Adelantado de Nueva Andaluzia, em 1544, por Carlos V de Espanha, numa concessão ao navegador espanhol Francisco de Orellana. Creio que seus grandes cartões postais são a Fortaleza de São José de Macapá, uma das sete maravilhas brasileiras, escolhidas por internautas; o Trapiche Eliezer Levy, com 472 metros de comprimento; o Monumento Marco Zero; e o Estádio Milton Corrêa, conhecido como Zerão, e que é dividido pela Linha Imaginária do Equador, com capacidade para 5 mil pessoas.
Nós, amapaenses, não somos colônia da França, como a Guiana Francesa o é, graças ao barão do Rio Branco. E éramos paraenses. Em 13 de setembro de 1943, o presidente Getúlio Vargas criou o Território Federal do Amapá, que, em 1990, foi transformado em estado. Se continuássemos paraenses Macapá seria mais uma Afuá, na ilha de Marajó, pois os governadores do Pará, todos eles, parecem alcaides, só se importam com Belém, a capital.
Sou macapaense da gema, e vivi, ininterruptamente, em Macapá, até os 17 anos, quando me mudei para o Rio de Janeiro e, atualmente, vivo em Brasília. Sempre que posso estou lá... Amo várias cidades, e ando nelas da mesma forma que faço descobertas no corpo sempre inesgotavelmente misterioso das mulheres, maravilhando-me com a descoberta das chaves dos segredos que vou desvendando na caminhada de aventura. Moro em Brasília, mas vivo numa dimensão em que Brasília se mistura a Belém do Pará, ao Rio de Janeiro, a Manaus, a Rio Branco, a Goiânia, a Santarém, a Buenos Aires, a Macapá, porque todas essas cidades cabem no meu coração, mas Macapá é uma das amantes que mais me emocionam, pois seu cheiro de jasmineiros chorando perfume em noites tórridas, minha infância absolutamente mágica, a sensação dos primeiros beijos, que serão sempre cataclismos de rosas vermelhas, o Trapiche, o Macapá Hotel, as primeiras paixões, os Beatles, a casa do poeta Isnard Brandão Lima Filho, as exposições de pintura de Olivar Cunha, a casa do poeta Herbert Emanuel, que era criança quando a frequentei e ia lá para curtir suas irmãs e prima, a casa da Leila e da Sílvia, irmãs do compositor Osmar Júnior, que na época era criança, os papos que varavam a madrugada, regados a Pitú, as madrugadas debruçado sobre o papel em branco, o milagre que se renovava a cada vez que a poeta Alcinéa Maria Cavalcante ofertava um olhar e um sorriso só para mim, guardo tudo isso num relicário, no meu coração.
Cai a noite e o rio Amazonas ruge na frente do Macapá Hotel. O Trapiche lembra uma rodovia que leva ao mar, e a noite é tão azul que sangra. Estou sentado, sozinho, num quiosque, e degusto Cerpinha enevoada, no meu delírio. Parece que estou só, mas converso com Isnard Brandão Lima Filho, Alcinéa Maria Cavalcante, Iara Marcille, Deury Farias, Olivar Cunha, Joy Edson, José Montoril, Fernando Canto, Raimundo Peixe, Alcyr Araújo, Luiz Tadeu Magalhães, Manoel Bispo... Myrta Graciete, Tereza, Leila, Telma, me beijam, um cataclismo de rosas vermelhas. Ouço merengue. Um navio, grande como uma cidade, surge, lento, até passar por nós, como uma nave feérica. O cheiro de Chanel número 5, Dom Pérignon, maresia e leite da mulher amada toma conta de tudo, na minha memória.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Gozo

Brasília, 28 de janeiro de 2012 - A Feira do Guará é o ponto turístico mais visitado de Brasília. Acho que turismo de negócios, ou de lazer. O turismo histórico da cidade é muito pobre. Quem quiser fazer turismo de história do Brasil deve procurar cidades como Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, Recife, Belém etc. Em Brasília, só há para ver o trabalho genial de Oscar Niemeyer (se é apropriado para o trópico, ou prático, nisso está a polêmica). Suponho que a Esplanada dos Ministérios e a Praça dos Três Poderes sejam, para os turistas, apenas uma curiosidade sobre a devassidão da roubalheira em Brasília, a cada dia mais ousada, desde que o PTMDB tomou conta do estado brasileiro, a partir de 2003, lançando sua ventosa canina na teta do Erário.

Falávamos da Feira do Guará. Fundada em 1983, atualmente conta com 11.056,25 metros quadrados de área coberta e 526 bancas, como informa seu site (www.feiradoguara.com), de quinta-feira a domingo, das 8 às 18 horas. Vende tudo. Desconfio que até avião. Roupa, então, nem se fala. As confecções vêm principalmente de Goiânia, que é um polo de costura, e também do próprio Guará, que exporta biquínis, por exemplo, para a Europa. Eu moro na 711 Sul, no Plano Piloto. Quando não vou à Feira do Guará no JEY, que é meu carango, um Ford K de 1997, vou de metrô. Ando três quadras até chegar à estação do metrô, na 112 Sul. Caminho até a 512, pela Avenida W3, pego a rua comercial da 312 e depois a 112, e em poucos minutos desço na estação da Feira.

O Guará é um distrito distante cerca de 6 quilômetros do Plano Piloto e a meio caminho de Águas Claras, distrito conurbado a Taguatinga, maior cidade do Distrito Federal, depois de Brasília. Águas Claras foi construída em um dos governos de Joaquim Roriz, que dava incondicional apoio aos barões da especulação imobiliária, com Paulo Octávio à frente. Paulo Octávio é o sujeito mais rico de Brasília, com interesses na construção civil e incorporação, no setor de comunicação social, hoteleiro etc. É dono de um terço da cidade. Outro terço é de Luiz Estêvão, senador cassado, que, juntamente com o juiz Lalau (Nicolau dos Santos Neto), roubou cerca de R$ 203 milhões das obras do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) de São Paulo. Luiz Estêvão foi condenado a devolver R$ 55 milhões. Paulo Octávio e Luiz Estêvão eram amigões de Fernando Collor de Mello.

Águas Claras, uma selva de arranha-céus, foi construída sobre um aquífero. Há locais na região de onde a água mina na rua. Quando chove muito, há pontos que vão para o fundo. Também foi tão mal planejada que tem poste até em calçada. Aliás, nunca se deu muito importância à calçada no Distrito Federal, tanto que se diz que Brasília é para cabeça, tronco e rodas. Com efeito, caminhar no Plano Piloto é uma aventura perigosa.

A Feira do Guará é sempre, aos meus sentidos permanentemente maravilhados, uma viagem romanesca. Logo nas primeiras horas da manhã, ainda há poucas pessoas, então aproveito para ver os peixes e frutos do mar. Adoro ver peixes. Quando morei em Belém do Pará, um dos meus programas prediletos era ver peixes no Ver-O-Peso. Há duas peixarias na Feira, com todo tipo de peixes de água doce e do mar. Até truta, que é um peixe das águas cristalinas dos Estados Unidos e do Canadá, a gente encontra, trazida de criatórios nas montanhas de Minas Gerais. A maior parte dos peixes, principalmente tucunaré, que é o mais saboroso do mundo (mais do que truta), vem do lago de Tucuruí, no Pará. Gosto também de ver os camarões rosa, as lagostas, e todos os animais da água.

Paro na banca da dona Zenaide, de Macapá, irmã do padre Cláudio, que trabalhou durante 10 anos na Paróquia de Nossa Senhora de Fátima, em Macapá, e agora está em outra paróquia, em Santana. Dona Zenaide me disse que depois de 25 anos irá, dia 15 de abril, a Macapá, para passar uma semana, rever sua família, especialmente sua mãe. “É dessas emoções que se abastece de vida nossos corações” – pensei. Compro sempre açaí (Tuíra ou Fruta), do grosso, congelado e importado de Belém. Também compro um tipo de farinha de tapioca que só encontro na banca da dona Zenaide – a farinha se desfaz na boca da gente. Compro-a especialmente para dona Joana, minha sogra. Levo ainda tucupi. Às vezes, tomo suco de taperebá, que aqui chamam cajá e tem o sabor um pouco diferente do taperebá da Amazônia. Não tomei hoje porque já degustara água de coco da Paraíba, delícia. Bebo água de coco numa banca só de mulheres. São lindas e espetaculares manejando o facão.

Há uma banca onde compro farinha do Pará: de tapioca, que como com açaí, e farinha d’água amarela, para farofa, utilizada pela minha gata, Josiane, e minha filha, Iasmim, e a média, para mim. Outro dia a Josiane preparou tamuatá - que é um peixe comum no Pará e no Amapá - no tucupi, e deve ser comido com farinha d’água. É um dos pratos mais saborosos de quantos conheço. Sempre digo que tamuatá no tucupi, com farinha, é capaz de fazer qualquer chef francês cair de joelhos.

Também gosto de olhar as bancas de frutas, legumes e folhas. Quanto mais belos e limpos, mais os aprecio. Às vezes, compro limão, tomate, banana da terra (que em Macapá chamamos banana comprida). Compro sempre, numa banca próxima à da dona Zenaide, castanha-do-pará (assada, pois assim não precisa ser guardada na geladeira), castanha de caju e ameixa desidratada e sem caroço, que utilizo para regular o intestino.

Passo sempre na Universidade do Pastel, um dos melhores da cidade, conforme o ranking da revista Veja Brasília, especializada em gastronomia. Levo pastéis para casa, de palmito com catupiri. Às 11 horas os restaurantes começam a se encher. Servem comida típica de todo o continente brasileiro. Certa vez almocei na Feira com minha irmã, Linda, e uma amiga dela. Comeram galinha caipira e eu, mocotó.

Meio-dia, a Feira está bombando. É um dos maiores magotes de mulheres lindas por metro quadrado de Brasília, criaturas que só é possível ver no verão do trópico, produto de séculos de miscigenação, dentro de leves tecidos decotados e sandálias japonesas. “Isso é gozar para valer” – penso.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Fora de hora

- Pra mim chega – disse Isaías.

- Vem, filho-da-puta – o outro gritou de dentro d’água. – Vamos lá naquele barco!

Não parecia distante e os dois começaram a nadar no rumo do barco. Então notaram que a maré os arrastava para o largo da Fortaleza São José de Macapá. Isaías levantou a cabeça e procurou ver o trapiche, e viu João nadando bem perto dele. O vento da tarde fazia com que a baía parecesse uma cabeleira revolta, afogando o trapiche, na frente da cidade, com as embarcações atracadas na agitação da água. O sol era uma tela fovista a desfazer-se, cedendo a um azul escuro e sólido, que se acamava no estuário do rio.

Os dois rapazes estavam cansados. Queriam pedir socorro. Ridículo. Melhor não. Depois seriam encontrados no canal do Mangue, por onde a água entra na cidade e, no regresso, leva a imundície do bairro central. Isaías levantou a cabeça, viu, bem perto, um barco, e nadou mais ainda. Agora já se aproximara bastante e pôde ver um cabo na popa do barco, bem próximo do seu nariz. Pensou, uma vez, que fosse ferir o nariz no cabo, mas era o desejo de alcançá-lo que lhe dava essa ilusão. Tentou ver de novo o barco... lembrou-se que poderia sentir cãibra. Olhou para o trapiche e não viu ninguém, depois engoliu água, uma, duas, três goladas, e pensou na sua mãe. Estaria fazendo o jantar, e seu pai, na varanda, bebia uma lata de cerveja, lendo um livro de bolso. Esforçou-se e voltou a nadar, desta vez muito lentamente. Observou que perdera terreno e voltara a se afastar do trapiche. Ficou flutuando alguns segundos, e sentiu que a maré não o arrastava mais.



Ray Cunha. Do livro A grande farra, edição do autor, Brasília, 153 páginas, esgotado