sábado, 16 de dezembro de 2023

Uma história de terror. Os comunistas tentam matar Deus. Acorda, Brasil, antes que seja tarde

O CLUBE DOS ONIPOTENTES, edição do Clube de Autores

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 16 DE DEZEMBRO DE 2023 – O comunismo de fato eclodiu na Rússia, em 1917. O estopim foi uma passeata feminina em comemoração ao Dia Internacional da Mulher, em fevereiro daquele ano, que se alastrou em greves de milhares de trabalhadores exigindo a abdicação do tzar e o fim da participação da Rússia na Primeira Guerra Mundial. 

Em Petrogrado, soldados começam a se juntar à rebelião e em março de 1917, o tzar é aconselhado pelos seus generais a abdicar ao trono, o que ocorreu no dia 15 desse mês, dando fim a três séculos da Dinastia dos Romanov. A família imperial partiria para o exílio na Inglaterra, ou na França. Nicolau II tentou ainda garantir a Dinastia dos Romanov nomeando seu irmão, Miguel da Rússia, para sucedê-lo, honra que foi recusada. 

Imediatamente, a Duma elegeu um Governo Provisório, formado principalmente por liberais e socialistas moderados, com a responsabilidade de escrever uma constituição e tirar o país do lodaçal em que se metera. Mas a guerra prosseguia e Nicolau e sua família foram postos sob custódia pelo novo governo. 

Em outubro de 1917, os bolcheviques e socialistas revolucionários tomaram o poder do estado, sob o slogan: “Paz, pão e terra”. Vladimir Ilitch Ulianov, Lênin, o revolucionário bolchevique e marxista exilado na Suíça por causa de suas atividades subversivas, com o apoio secreto do inimigo alemão, retornara secretamente à Rússia e lançou a palavra de ordem: “Todo o poder aos sovietes”. 

Lênin chegou a Petrogrado em 16 de abril de 1917, disseminando que o Governo Provisório era incapaz de atender aos desejos e necessidades do proletariado russo e defendendo uma organização política baseada no controle dos meios de produção, a nacionalização das empresas estrangeiras e o controle do estado pelos trabalhadores, como forma de implementar o socialismo na Rússia, prometendo pão, ou seja, alimento para todos; paz, a saída da Rússia da guerra; e terra, a reforma agrária. 

Começa aí o rosário de promessas que jamais são cumpridas pelos líderes comunistas. 

Em 7 de novembro de 1917 (25 de outubro no calendário antigo), uma insurreição armada começa em Petrogrado contra o Governo Provisório, culminando na invasão do Palácio de Inverno, a antiga residência do tzar e sede do Governo Provisório, pelos bolcheviques, que se declararam os novos governantes da Rússia. Esse episódio foi o início da Grande Revolução de Outubro de 1917, como é chamada pelos comunistas. 

Em 3 de março de 1918, Lênin assina com os alemães o tratado de Brest-Litovsk, encerrando a participação da Rússia na Primeira Guerra Mundial, entregando a Finlândia, a Polônia, as províncias do Báltico, a Ucrânia e a Transcaucásia às potências centrais, um terço da população do antigo império, um terço de suas terras agrícolas e três quartos de suas indústrias. 

Os russos anti-bolchevistas aliados ao Governo Provisório revoltaram-se contra o tratado, começando uma guerra civil, mas os bolchevistas utilizaram o terror de forma implacável. Foi criada a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), com a missão de disseminar o comunismo e o ateísmo de estado em todo o planeta. 

Após a abdicação, Nicolau Romanov foi detido em Tsarskoe Selo, por ordem do chefe do governo provisório, o príncipe Georgy Lvov. Ele e sua família seriam enviados para a Inglaterra, mas os revolucionários bolchevistas do Soviete de Petrogrado impediram isso e enviaram Nicolau e família para Tobolsk, na Sibéria Ocidental, e, depois, em maio de 1918, para Yekaterinburg, nos Urais. 

Tanto a França como a Inglaterra – Nicolau era primo do rei inglês George V e sua esposa, Alexandra, neta da rainha Vitória –, antigos aliados do tzar deposto, se recusaram a recebê-lo e à sua família, por medo de provocar espíritos revolucionários em casa, pois o comunismo estava se espalhando como rastilho de pólvora. 

Os Romanov receberam inicialmente garantias de vida por parte do novo líder do governo, Alexander Fyódorovich Kérensky, que substituíra o príncipe Lvov, último primeiro-ministro do Governo Provisório Russo, exercendo o cargo entre 21 de julho e 8 de novembro de 1917. Com a Revolução de Outubro, Kerensky foi forçado a renunciar. Assim, a família imperial ficou refém dos comunistas, só aguardando o momento em que seriam executados, para porem fim, definitivamente, na dinastia dos Romanov. 

A família imperial foi aprisionada em Yekaterinburgo, na Casa Ipatiev, que os bolcheviques chamavam de “casa para fins especiais”. O Conselho Regional do Governo dos Trabalhadores e Camponeses de Yekaterinburgo solicitou ao presidente do Comissário do Povo, Vladimir Lenin, para assassinar a família Romanov. Lênin concedeu a autorização, mas exigiu sigilo, pois não queria passar para a História como o assassino da família imperial da Rússia. 

Na madrugada de 17 de julho de 1918, a família imperial foi acordada às pressas e levada ao porão da Casa Ipatiev. Nicolau II foi despertado pelo médico da família, Eugene Botkin, que lhe transmitiu a ordem para descerem, pois todos seriam transferidos: Nicolau, Alexandra, os filhos Olga, Tatiana, Maria, Anastásia e Alexei, o médico, o criado Alexei Trupp, a camareira Anna Demidova e o cozinheiro Ivan Kharitonov, que por escolha própria acompanhavam a família imperial destronada. 

Foram reunidos no porão, sob a desculpa de que iriam tirar uma fotografia para provar no exterior que estavam vivos. Nicolau II, Alexandra, os cinco filhos do casal e os quatro servidores foram agrupados. Alexandra sentou-se. As filhas e Demidova estavam ao lado dela. Alexei estava sentado na poltrona ao lado delas. Atrás dele, o dr. Botkin, o cozinheiro e os outros estavam de pé. Nicolau ficou em frente a Alexei. Então, o comissário Yakov Yurovsky leu: 

– Nikolai Alexandrovich, seus parentes reais e próximos dentro e fora do país estão tentando salvá-lo. Diante do fato de que seus parentes continuam seus ataques contra a Rússia Soviética, o Soviete de Deputados Operários decidiu fuzilá-los – e ordenou o fuzilamento.

– O que?! O que?! – tartamudeou Nicolau. 

Uma saraivada de tiros ecoou e o pequeno porão ficou tão saturado de pólvora que os atiradores foram obrigados a sair para não sufocarem. Quando o tiroteio parou descobriu-se que os filhos de Nicolau II, Alexei, Olga, Tatiana, Maria e Anastasia, além de Alexandra, estavam cobertos de sangue, mas ainda vivos. O tiroteio recomeçou e Alexandra e Alexei foram mortos, mas embora as filhas de Nicolau também tivessem sido baleadas, elas ainda continuavam vivas. 

Na esperança de serem libertados em transferências de localidade como aquela, todos os membros da família haviam colocado por debaixo das roupas as joias que escondiam zelosamente e que serviria para recomeçarem a vida em outro país. As joias haviam prolongado por alguns segundos a vida das princesas. As balas ricocheteavam nas joias escondidas sob as roupas. Então, foram mortas a coronhadas e golpes de baioneta. 

Quando despiram os corpos descobriram que Alexandra, Olga, Tatiana, Maria e Anastasia usavam corpetes feitos quase inteiramente de diamantes, esmeraldas, alexandritas e outras pedras preciosas e joias de ouro. Os corpos foram levados de caminhão até uma fossa cavada e queimados com benzeno e ácido sulfúrico. 

Os comunistas mantiveram por muitos anos a farsa de que Nicolau, Alexandra e seus filhos estavam vivos em local seguro. Lênin jamais assumiu o crime, imputando-o ao Soviete Regional dos Urais. 

De 1918 a 1921, outros membros da família Romanov que não conseguiram fugir, como o grão-duque Miguel, irmão de Nicolau, tios e sobrinhos do imperador, foram também assassinados pelos bolcheviques. 

A Guerra Civil Russa se prolongou até 1922, quando a Rússia deixou de existir como país e foi substituída pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. 

No dia 17 de julho de 1998 – 80 anos depois de terem sido executados –, os restos mortais dos Romanov foram levados para a cidade de São Petersburgo e sepultados em um enterro solene na cripta da Catedral de São Pedro e São Paulo. 

Começava, aí, o assassinato de centenas de milhões de pessoas. Em O Livro Negro do Comunismo, Stephane Courtois registra o número de pessoas assassinadas pelo comunismo no século XX: URSS, 20 milhões; China, 65 milhões; Vietnã, 1 milhão; Coreia do Norte, 1 milhão; Camboja, 1 milhão; Europa Oriental, 1 milhão; América Latina, África e Afeganistão, 3,5 milhões. 

Para Walter E. Williams, professor de economia na George Mason University, de 1917 até seu colapso, a União Soviética assassinou 61 milhões de pessoas, a maioria delas seus próprios cidadãos; de 1949 a 1976, o regime de Mao Zedong, da China comunista, matou 78 milhões de seus próprios cidadãos. 

O comunismo não passa de um fenômeno psicológico através do qual pessoas ressentidas e vingativas culpam os outros pelos seus fracassos e tentam prejudicá-las. Muitos historiadores mostram que Marx era um perdedor em sua vida pessoal, um homem que nunca trabalhou e que vivia às custas da própria esposa e do amigo Friedrich Engels. 

Em seus poemas, ele se fixava em ver pessoas destruídas, trabalhando com imagens infernais. Mas o que muitos não sabem, ou preferem não saber, é que Karl Marx, esse profeta criador do caos, era um dos generais das forças demoníacas que desceram à Terra no fim do século XIX para incendiá-la e riscar Deus do mapa, em um planejamento realizado pelos maiorais das chamadas forças das trevas, ou demônios do inferno, se assim preferirem. 

Com efeito, Karl Marx publicou vários livros ao longo da sua vida, e os mais conhecidos são o Manifesto Comunista, de 1848, e O Capital, publicado em três volumes, entre 1867 e 1894, no qual Marx faz uma profunda análise crítica ao capitalismo, identificando-o como a causa de todos os males da humanidade. 

Marx era originário de uma família de rabinos, mas se tornou um ardoroso antissemita. Quando muito jovem, seguia o cristianismo, e no seu primeiro livro, A união dos fiéis com Cristo, defende os valores e a prática dos ideais cristãos. Após ter frequentado a Universidade de Bonn e depois a Universidade de Berlim, virou ateu, e começou a teorizar que o que empobrecia as massas era o capitalismo, bastando derrubar esse sistema para que surgisse uma sociedade fraterna, sem revoluções e guerras, na qual todos trabalhariam de acordo com suas aptidões, em fábricas e fazendas pertencentes à coletividade, sendo remunerados de acordo com suas necessidades. Homens-robôs, destituído de ambições pessoais. 

Esse pensamento conquistou, e ainda conquista, muitos pensadores e até líderes religiosos, que veem nisso uma nova mensagem de Cristo. Só que também, no pensamento de Marx, desapareceriam as religiões, que ele considerava o ópio do povo. Conforme expressou na Introdução à Crítica da Filosofia do Direito, de Hegel: “A extinção da religião, como a felicidade ilusória do homem, é uma exigência para sua felicidade real. O chamado para que ele abandone as ilusões a respeito da sua condição é um chamado para abandonar uma condição que requer ilusões. A crítica à religião é, portanto, a crítica a este vale de lágrimas do qual a religião é a auréola”. 

O lobo se revela claramente no poema Orgulho Humano, no qual Marx confessa que seu objetivo não é melhorar a humanidade, mas arruiná-la. Marx era obcecado pela destruição de Deus. Ele queria ser Deus, e, para isso, teria que destruir Deus. Por isso, Marx era obcecado por Fausto, a peça teatral de Goethe, na qual o personagem central faz um pacto com Mefistófeles, o próprio diabo. Fausto inspirou-o a escrever o drama Oulanem, uma Tragédia, encenado e representado pelo próprio Marx. Oulanem é um anagrama de Emanuel, nome bíblico para Jesus, que em hebraico significa “Deus conosco”. 

Inversões de nomes são típicas da magia negra. O drama é perpassado pelo ódio e o desejo de destruir a humanidade. A peça dá voz a um anjo caído, um exilado planetário, que, na Terra, falhou na sua reabilitação espiritual e sabe que sofrerá novo exílio, mas que antes de partir destruirá a obra de Deus: “Arruinado, arruinado. Meu tempo esgotou-se... E breve bradarei gigantescas maldições sobre a humanidade... Se existe algo que nos devora/Entregar-me-ei para ser engolido por ele, embora deixando o mundo em ruínas/Este mundo que se avoluma entre mim e o Abismo/Eu o reduzirei a pedaços com as minhas contínuas maldições... Nós somos os macacos de um Deus frio”. 

No poema Invocação de Alguém em Desespero ele manifesta a intenção de se vingar de Deus: “Deus tirou tudo de mim... Nada me restou a não ser a vingança!... Vou construir o meu trono muito acima de todos/Frio e monstruoso será o seu topo./Sua base será o pavor sobre-humano/E a negra agonia será o guia./Quem olhar para ele com um olhar são/Cairá para trás, atingido mortalmente, pálido e bestificado./Será tomado por cegueira e frieza mortal”. 

Ele tinha uma visão diabólica do mundo, uma malevolência diabólica. Às vezes, parecia estar consciente de estar realizando as obras do diabo – disse Robert Payne, um dos biógrafos de Marx. 

Marx achava que era um deus criando um mundo; ele não queria ser a criatura. Ele não queria ver o mundo sob a perspectiva de uma criatura. Ele queria ver o mundo a partir do ponto da coincidentia oppositorum, isto é, da posição de Deus – disse o filósofo Eric Voegelin. 

No poema Orgulho Humano, Marx diz: “...Então, caminharei semelhante a um deus, triunfante/Entre as ruínas do mundo... Eu me sinto igual ao Criador”. 

Ou seja, o comunismo é o resultado do ódio de Karl Marx a Deus – afirma o pensador espiritualista Jorge Bessa. 

Interessante é a transformação física de Marx. 

De jovem esbelto ele se transformou num tipo atarracado, de lábio inferior incomumente grosso e de tez amarelo-sujo, acentuada pelos cabelos negros e espessos que pareciam brotar-lhe de quase todos os poros da face, dos braços, da orelha e do nariz. Cabeludo, com sua juba negra retinta e olhos enlouquecidos por um espírito de fogo perverso, Marx era a imagem de Lúcifer, o anjo decaído – disse Karl Heinzen, um jornalista que trabalhou com Marx na Gazeta Renana. 

Se Deus existisse, seria necessário destruí-Lo... Nesta revolução, teremos que despertar o demônio nas pessoas, incitar as paixões mais vis – disse o teórico revolucionário anarquista Mikhail Aleksandrovitch Bakunin. 

Nós alcançamos o conhecimento apesar Dele, alcançamos a sociedade apesar Dele. Cada passo à frente é uma vitória, na qual derrotamos o Divino... Deus é estupidez e covardia; Deus é hipocrisia e falsidade; Deus é tirania e pobreza; Deus é o mal. Nos lugares em que se inclina diante de um altar, a humanidade, escrava de reis e sacerdotes, será condenada. Eu juro, Deus, com a mão estendida para os céus, que não és nada mais do que o algoz da minha razão, o espectro da minha consciência... Deus é essencialmente anti-civilizado, antiliberal, anti-humano” – declara outro amigo de Marx, Pierre-Joseph Proudhon, autor de Sobre a Justiça na Revolução e na Igreja (Philosophie de  la Misére). 

Para Antonio Gramsci, ideólogo comunista italiano, o cristianismo era a grande barreira para que as revoluções comunistas se alastrassem no Ocidente, e que até que o cristianismo fosse quebrado não haveria sucesso em revolução proletária. 

Marx criou uma religião secular e com ela conseguiu capturar corações e mentes, confundindo-se com o cristianismo. Mas enquanto o cristianismo preconiza amor e paz entre as pessoas, o comunismo prega revolução e ódio entre as classes; enquanto aquele preconiza fé em Deus, o marxismo prega a destruição de Deus e o amor a líderes assassinos e genocidas. 

No início do século XX, o Império Russo era o maior país cristão ortodoxo do mundo. Cerca de 90 milhões de pessoas, de uma população total de 125 milhões, identificaram-se como ortodoxas no censo de 1897, e havia quase 50 mil igrejas espalhadas pela Rússia. Vladimir Lênin, o novo tzar, advertia: “Adorar qualquer deus é uma necrofilia ideológica”. 

Documento intitulado Revelações dos Arquivos Russos: Campanhas Antirreligiosas, arquivado na Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, dá conta de que a extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas foi o primeiro estado a ter como objetivo ideológico a eliminação das religiões, institucionalizando o ateísmo nas escolas. A partir de janeiro de 1918, Lênin desapropriou todos os bens da Igreja Ortodoxa. Foram assassinados aproximadamente 25 bispos, 3 mil sacerdotes, 2 mil monges e freiras, e 15 mil fiéis, e outro tanto foi enviado para campos de trabalho forçado. Também a Igreja Católica Apostólica Romana foi extinta na URSS.

Os ataques ao judaísmo ganharam novo impulso e a prática organizada do judaísmo tornou-se secreta. Os evangélicos também foram perseguidos. Todas as religiões foram banidas, inclusive o Islã. Templos foram assaltados e demolidos. 

Entre 1922 e 1941, foi criada pela Liga dos Ateus Militantes a revista mensal Bezbozhnik, Sem Deus, com tiragem de 200 mil exemplares, para ridicularizar as religiões. Os Ateus Militantes, 3,5 milhões de membros, usaram de todos os meios – palestras, jornais e filmes – para difundir que religião era um resíduo nocivo do passado. 

Com a entrada da Rússia na Segunda Guerra Mundial, Josef Stálin afrouxou o arrocho à Igreja, pois precisava, naquele momento, de todo o apoio, inclusive de Deus. E também o presidente dos Estados Unidos, Franklin D. Roosevelt, exigiu, naquele momento de conturbação global, que Stálin concedesse aos cidadãos soviéticos mais liberdade religiosa, ameaçando retirar o apoio econômico e militar dos EUA durante a guerra se o líder soviético não atendesse à sua solicitação. 

Além disso, os alemães abriam igrejas em territórios soviéticos ocupados para conquistar os corações e mentes dos fiéis ortodoxos. De pronto, 22 mil igrejas ortodoxas russas foram ativadas, pois sempre estiveram apenas amoitadas, aguardando, pacientemente, que o comunismo, como toda fera seriamente ferida, se tornasse um gatinho, até ser ferida de morte e virar um gato morto. 

O líder comunista Vladimir Lênin comentou que o proletariado da Rússia teria atingido uma altitude gigantesca com a Revolução Bolchevista, comparando-a, em magnitude, à tomada da Bastilha, em 1789, à execução de Luís XVI, em 1793, e à Comuna de Paris, em 1871. Pouco antes da Revolução Francesa, o povo francês estava passando fome, enquanto a aristocracia viva uma eterna bacanal. No ar, pairava o Iluminismo, um grito de liberdade, igualdade e fraternidade. Confiar na autoridade e em tudo o que se ouvisse era perigoso; devia-se desenvolver o pensamento crítico e nunca surfar na onda dos governantes e da Igreja Católica Apostólica Romana, esta, perigosíssima. 

Só que, mesmo dentro do comunismo, há luta de classes. É por isso que o comunismo é um regime totalitário, brutal, pois simplesmente mata os contrários. 

Na França revolucionária havia os Girondinos, representantes da alta burguesia francesa e que defendiam a instalação de uma monarquia constitucional em substituição ao absolutismo, e os Jacobinos, que representavam a baixa burguesia e defendiam participação popular no governo. Os Girodinos ocupavam a parte direita do salão da Assembleia Nacional e os Jacobinos, o lado esquerdo. 

Os Girondinos defendiam uma revolução liberal, a abolição dos privilégios da nobreza e igualdade perante a lei; já os Jacobinos defendiam o fim dos privilégios para nobreza e do clero, mas queriam a instalação de um regime centralizador. Maximilien de Robespierre, o líder dos Jacobinos, era radical e se transformou em um tirano sanguinário, liderando perseguições políticas e assassinatos de desafetos políticos, um período revolucionário de terror, autorizando, inclusive, a morte de seu antigo companheiro de ideias e líder da Revolução, Georges Danton, que perdeu a cabeça na guilhotina, assim como milhares de pessoas. 

O Período de Terror durou até 1795, quando foi instalado um governo burguês garantido na nova Constituição, abrindo caminho para a ascensão do general francês Napoleão Bonaparte, nomeado para controlar a convulsão social. Napoleão gostou e se autoproclamou primeiro-cônsul e depois imperador da França, seguindo-se um festival de nepotismo. Napoleão invadiu outros países e nomeou seus parentes para reinarem em outras cortes. Assim, depois de milhares de mortos tudo voltou a ser como antes na França, processo que se repetiu na Revolução Russa, entre Mencheviques e Bolcheviques. 

A Revolução Francesa inspirou a criação da primeira organização comunista internacional do proletariado, fundada em 1847, em Londres, pelos pensadores alemães Karl Marx e Friedrich Engels, que criaram um modelo de socialismo dito científico apenas para se diferenciar do socialismo utópico: o marxismo, uma proposta revolucionária de implementação de uma sociedade socialista por meio da ditadura do proletariado, a Liga dos Comunistas, com um programa bem definido, o Manifesto do Partido Comunista, sob o lema: “Proletários de todos os países, uni-vos!” 

Mas a Revolução Francesa removeu os últimos entraves ao desenvolvimento do capitalismo e do liberalismo, o que beneficiou a classe burguesa, que já controlava o capital e os meios de produção, razão pela qual ela se tornou o inimigo número um dos comunistas. Mostrou ainda que a tentativa de mudanças radicais, como as desejadas por Danton e Robespierre, desaguam em violência, opressão, dor e sofrimento. 

No comunismo, os meios de produção e o mercado são estatizados e o povo, igualado na base, passa a ter os mesmos direitos, isto é, nenhum, pois o poder fica na mão do partido único, comunista, ou socialista, ou popular, ou com qualquer nome, mas sempre um Cavalo de Tróia fabiano. Marx e Engels beberam no filósofo francês Jean-Jacques Rousseau, especialmente no seu Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens e Do Contrato Social, de 1762, que diz: “O homem nasce bom e a sociedade o corrompe”. Esse discurso bonitinho é utilizado ad nauseam pelos comunistas. 

Para Marx e Engels, a História é uma sucessão de lutas entre as classes trabalhadoras, desprovidas de recursos, e as classes exploradoras, proprietárias dos meios de produção, os capitalistas. Observou o revolucionário russo Leon Trotsky: “Quem não vê que a luta de classes conduz inevitavelmente a um conflito armado é um cego”. 

Já o cientista político Francis Fukuyama conclui, no seu livro O Fim da História e o Último Homem, que o liberalismo político e econômico saiu vitorioso na batalha contra o socialismo e o comunismo. Para ele, o liberalismo econômico é o ápice da evolução econômica da sociedade contemporânea, por meio do qual chegamos à plena democracia e à igualdade de oportunidades, com liberdade para a realização dos seus objetivos, alertando, porém, que os países pobres, ou com alta corrupção, são vulneráveis aos regimes totalitários. 

Para Marx, a burguesia, que sucedeu à aristocracia, passou a dominar os meios de produção, numa situação em que os trabalhadores, ou proletários, vendiam a sua força de trabalho, o que considerava uma injustiça, razão pela qual os burgueses deviam ser eliminados. A liberdade, a igualdade e a fraternidade só seriam conquistadas pela morte daqueles que produzem bens. 

Quando Vladimir Lenin assumiu o poder na Rússia, em 1917, a ala bolchevista do Partido Operário Socialdemocrata Russo mudou para Partido Comunista Russo, ideologia que se espalhou para vários países, como a China. O século XX foi flagelado por essa maldição: um terço da população mundial viveu sob regimes comunistas, com partido único e economia planificada, em que a propriedade dos meios de produção é controlada pelo Estado e os burocratas determinam salários, preços e metas de produção, algo tão ineficiente que leva, inevitavelmente, ao colapso da economia; trata-se do experimento social mais trágico da História, resultando em incalculável perda de vidas humanas e na destruição de economias ricas, como aconteceu na Venezuela. 

O filósofo Olavo de Carvalho bem que alertou: Um povo que procura resolver seus problemas materiais antes de cuidar do espírito permanecerá espiritualmente rasteiro e nunca se tornará inteligente o bastante para acumular o capital cultural necessário à solução daqueles problemas. O desconhecimento do plano espiritual, o desprezo pelo conhecimento, a subordinação da inteligência aos interesses partidários são causas do fracasso dos comunistas, que devoram países em questão de décadas, enquanto as nações capitalistas duram séculos. 

Disse o ex-primeiro-ministro inglês Winston Churchill: “O socialismo é a filosofia do fracasso, a crença na ignorância, a pregação da inveja. Seu defeito inerente é a distribuição igualitária da miséria”. 

A Revolução Francesa contou com a participação das classes trabalhadoras, mas desembocou na ditadura do imperador Napoleão Bonaparte. A Comuna de Paris foi o resultado da derrota francesa na Guerra Franco-Prussiana de 1870-1871, que derrubou Napoleão, substituído por um governo republicano presidido por Adolphe Thiers. Eleita a Assembleia Nacional, a maioria dos deputados pertencia à ala conservadora, ligada aos proprietários rurais. 

Dois meses depois da instalação da Assembleia Nacional, em março de 1871, uma insurreição popular derrubou o governo republicano e instalou a Comuna de Paris, que pretendia realizar melhorias nas condições de vida e de trabalho dos operários e trabalhadores de baixa renda, como o ensino gratuito e obrigatório, o controle dos preços dos alimentos e a igualdade civil entre homens e mulheres, mas o sonho durou somente 74 dias, devido a brigas internas ocorridas entre anarquistas e marxistas. Cerca de 35 mil comunards, os membros da Comuna, foram mortos em combate ou execuções, 7.500 foram deportados e 15 mil foram presos. Thiers comemorou: “Agora o comunismo está morto para sempre!” 

Apesar de natimorta, a Comuna de Paris foi o estopim da grande tragédia do século XX, como inspiração para a Revolução Russa de 1917, que deu início, na prática, ao comunismo. Marx dizia: “O proletariado é o coveiro da burguesia”. Para isso, era necessário que essa mudança se processasse de forma brusca e violenta, por meio de revoluções armadas. Só que a Rússia tzarista praticamente não tinha proletariado. A maioria da sua população vivia na miséria, analfabeta e, geralmente, escravizada pelos grandes proprietários de terra, diferentemente de países como Alemanha, Inglaterra e Estados Unidos, onde, segundo Marx, haveria, aí sim, condições para uma revolução socialista. Outra falácia de Marx. 

Em torno do ano 30 da era cristã, Jesus Cristo pregou, em terras do hoje Israel, a igualdade entre os homens, mas por meio do amor, e não pelo terror. 

Em janeiro de 1849, Marx e Engels deixavam claro na revista Neue Rheinische Zeitung seu desprezo por povos que eles consideravam sociedades primitivas da Europa, como os Bascos, Bretões, Sérvios e Escoceses, os quais achavam que deveriam ser destruídos, pois se constituíam em “lixo racial”. Marx afirmava que “as classes e as raças muito fracas para enfrentar as novas condições de vida devem se retirar; elas devem perecer no holocausto revolucionário”. 

Lenin seguiu à risca as instruções de Marx e Engels. Enquanto Adolf Hitler assassinou pessoas de outros países, Lenin e Stalin assassinaram seu próprio povo. Mas houve um momento em que Hitler e Stalin se uniram, assinaram o Pacto Ribbentrop-Molotov, para invadir a Polônia, o que deu início à Segunda Guerra Mundial. Por meio do pacto, Stalin autorizou Hitler a se apropriar de parte da Europa, enquanto os soviéticos ficariam com o resto. 

Assim, em 1 de setembro de 1939, as tropas de Hitler invadiram a Polônia pela fronteira oeste, e, 16 dias depois, os soviéticos a invadiram pela fronteira leste, encontrando-se no centro da Polônia e dividindo o país entre eles, assim como deveria ser feito com toda a Europa. Depois os soviéticos invadiram a Finlândia e assim por diante. A maior máfia do mundo expandia-se pelo planeta. 

A perfeição soviética durou até 26 de dezembro de 1991, quando a URSS implodiu, encerrando 74 anos do “paraíso” na Terra. A Rússia, embora uma potência atômica, só ressuscitaria, já como democracia, mesmo capenga, por intermédio de Vladimir Putin, o tzar dos tempos modernos. As “democracias populares” eram uma enganação, uma forma contemporânea dos velhos impérios. Segundo o cientista social norte-americano Carlton Hayes, o totalitarismo monopoliza todo o poder, exerce uma grande força de fascinação nas massas, lança mão de todos os meios de propaganda e procura desmoralizar a cultura histórica do Ocidente. 

O teórico alemão Carl Joachim Friedrich, professor da Harvard University, juntamente com Zbigniew Brzezinski, no livro Totalitarian Dictatorship and Autocracy, lançado em 1956, aponta as seguintes características de um estado totalitário: partido único; sistema de terror baseado no controle da polícia secreta; monopólio dos meios de comunicação de massa e de armas; e economia estatal. 

Zbigniew Brzezinski, autor do livro The Grand Failure: The Birth and Death of Communism in the Twentieth Century (A Grande Falha: O Nascimento e a Morte do Comunismo no Século XX, em tradução livre do inglês), lançado em 1989, afirma: “A noção de se criar uma sociedade perfeita, ao ir contra a natureza humana, está morta, porque o erro básico do comunismo foi simplesmente não compreender a natureza humana”. 

O romeno Vladimir Tismaneanu, historiador do comunismo e autor de O Diabo na História – Comunismo, Fascismo e Algumas Lições do Século XX, observa que da mesma forma que a massa é manipulada por meio do fanatismo religioso, no comunismo a massa sofre uma lavagem cerebral que a leva a morrer pelo partido único. 

Em 1919, Lenin criou a chamada Terceira Internacional, ou Internacional Comunista, braço do Movimento Comunista Internacional, transformando a URSS na Meca da luta revolucionária comunista, o início de um projeto hegemônico de proporção mundial. A Primeira Internacional, ou Primeira Associação Internacional dos Trabalhadores, aconteceu em Londres, em 28 de setembro de 1864. A Segunda Internacional, ou Internacional Operária e Socialista, ocorreu em 14 de julho de 1889, em Paris, congregando partidos social-democratas e trabalhistas. 

A Terceira Internacional Comunista foi dissolvida em 1943, durante a Segunda Guerra Mundial, por pressão dos aliados da URSS, principalmente os Estados Unidos e a Inglaterra. Durante sua vigência, pode-se observar as brigas intestinas. Ao primeiro sinal de discordância o partido único expulsa o dissidente, uma característica do comunismo. 

Desde que assumiu o poder, Lenin deixou claro que jamais admitiria discordância na condução do movimento comunista. Exigia fidelidade canina. Sem ditadura interna não poderia haver ditadura do proletariado. Os teóricos marxistas Nikolai Bukharine e Evgueni Preobrazhensky registram no livro ABC do Comunismo que os antigos partidos socialistas se dividiram, em quase todos os países, em três correntes: os social-patriotas, traidores confessos e cínicos; os traidores dissimulados e hesitantes, chamados centristas; e os que permaneceram fiéis ao socialismo, em torno dos quais se organizaram, mais tarde, os partidos comunistas. 

Embora nos seus discursos os líderes só falem em povo e massas, são intelectuais, vaidosos dos seus conhecimentos teóricos, que não colocam a mão na massa, não conhecem o povo e evitam as massas. Napoleão Bonaparte já advertia: “A vaidade fez a revolução, a liberdade foi apenas o pretexto”. 

Na China, entre 1949 e 1976, derrotadas as forças de Chiang Kai-Shek para os comunistas de Mao Tsé-Tung, o número de chineses que morreram executados, de fome e trabalhos forçados é de 100 milhões. O Grande Salto para Frente, programa econômico e sociopolítico implementado por Mao, entre 1958 e 1960, que visava transformar a China de um país agrário para uma potência industrial, foram ceifados até 75 milhões de chineses. 

No fim da década de 1950 e início dos anos 1960, calcula-se que mais de 30 milhões de chineses morreram de fome, devido a ordens insanas de Mao Tsé-Tung. Por fim, faminta, a China de Mao mergulhou de cabeça no capitalismo, embora submetido ao totalitarismo do Partido Comunista, mas se tornando a segunda economia mundial, atrás apenas dos Estados Unidos. 

A revolução comunista chinesa, em 1949, enviou capitalistas, trabalhadores e intelectuais para campos de reeducação, e tudo ficou pior, até 1978, com as reformas de Deng Xiaoping, que deram início ao processo de abertura capitalista do país e o surgimento de centenas de bilionários e milhares de milionários, embora, no outro lado da moeda, o estado totalitário mantenha a maioria da população na miséria e mate a seu bel-prazer. Exemplo: o Massacre na Praça da Paz Celestial, com 10 mil manifestantes contra o comunismo esmagados por veículos blindados e perfurados a baioneta pelos soldados do Exército Chinês, em junho de 1989. 

A Tcheka, polícia secreta de Lenin, tinha a missão de reprimir e liquidar qualquer coisa considerada contrarrevolucionária e inimigos do regime. A espada e o escudo da Revolução foram mantidos no escudo do KGB, órgão que substituiu a Tcheka, que tinha o assassinato como rotina, às vezes assassinatos em massa. Julgamento era luxo. E outro tanto da população era jogado em campos de trabalhos forçados, de extermínio. 

De 1917 até a primeira metade de 1919, a Tcheka matou em torno de 7 mil pessoas e enviou 90 mil para a escravidão, chefiada por Felix Dzerzhinksy, implacável e brutal assassino, escolhido a dedo por Lenin. Por decreto de Lenin, a Tcheka estava fora do controle do Judiciário e assim podia matar à vontade. Sua única obrigação era informar suas ações ao Conselho dos Comissários do Povo e ao poderoso Comitê Executivo Central da Rússia. Os métodos de tortura da Tcheka só perdem para os da Santa Inquisição. 

Lenin era brutal com os kulaks, os pequenos empresários agrícolas. Quando deflagrou a chamada prodrazvyorstka, a política de confisco de grãos e outros produtos agrícolas dos camponeses, o saque de todo o fruto do seu trabalho, na localidade de Penza, próxima de Moscou, ordenou: “Camaradas! A revolta dos kulaks deve ser suprimida sem piedade. O interesse de toda a revolução exige isso, porque já temos diante de nós a nossa batalha decisiva final com os kulaks. Precisamos dar um exemplo. Você precisa pendurar, sem falhar, e fazê-lo para que o público veja, pelo menos 100 kulaks notórios, os ricos e os sanguessugas. Publique seus nomes. Retire todo o seu grão. Execute os reféns – de acordo com o telegrama de ontem. Isso precisa ser realizado de tal forma que as pessoas por centenas de quilômetros ao redor vejam, tremam, conheçam e gritem: vamos sufocar e estrangular aqueles kulaks sugadores de sangue. Telegrafe-nos reconhecendo o recebimento e a execução deste. Lenin. P.S.: Use as pessoas mais brutais para isso”. 

Lenin declarou, em meados de setembro 1918: “Para vencer os nossos inimigos, devemos ter o nosso próprio militarismo socialista. Temos de carregar conosco 90 milhões dos atuais 100 milhões da população da Rússia Soviética. Quanto ao resto, não temos nada a dizer a eles. Eles devem ser aniquilados”. 

Essa era a ordem do homem que conseguiu inspirar e cooptar milhares de campesinos russos prometendo “pão, paz e terra” para que se juntassem a ele e ao seu projeto revolucionário. Na realidade, a fome era tanta que campesinos começaram a comer cadáveres de crianças, que tinham a carne mais palatável. 

No total, entre 1918 e 1919, os bolcheviques já tinham matado 1.700.000 dos seus patrícios. 

Em 23 de janeiro de 1918, Lenin rompe oficialmente com a Igreja Ortodoxa Russa, mandou assinar líderes religiosos, pilhou seus imóveis e substituiu o ensino de religião por ateísmo nas escolas públicas. Padres, monges e freiras foram crucificados, atirados vivos em caldeirões de piche fervente, escalpelados, estrangulados e afogados em buracos no gelo. 

O método de supressão da oposição política pelo “Terror de Massa”, o “Terror Vermelho”, foi padronizado e continuado pelo sucessor de Lenin: Josef Stalin. Era a ditadura contra o proletariado. 

Em 21 de janeiro de 1924, Lenin morre. Assume o poder totalitário Josef Stalin, que trapaceou Leon Trotsky, desterrando-o para o México, onde foi assassinado a mando de Stalin. 

Durante a invasão alemã na Segunda Guerra Mundial, o que restava da Igreja Ortodoxa incorporou a estrutura da Igreja Greco-Católica, que também sofreu brutal repressão na União Soviética, com todos os seus bispos enviados para campos de concentração e alguns assassinados logo. Mas, em 1959, o então tzar Nikita Khrushchev começa novamente a arrasar com os frangalhos da Igreja Ortodoxa Russa, fechando 12 mil delas. 

Em 1985, menos de 7 mil igrejas ainda abriam as portas, porém com membros da hierarquia da Igreja presos ou expulsos e seus lugares ocupados por clérigos dóceis, com ligações com o KGB, o órgão de inteligência do governo soviético. Nas décadas de 1970 e 1980, a Igreja vivia nas sombras. Aí veio o tzar Mikhaíl Gorbatchov, que governou entre 1985 e 1991, e deu liberdade aos fiéis ortodoxos. 

Acredito que o comunismo fascina os psicopatas porque nele não há Deus, tudo é permitido. É “the opium of the intellectuals”, “o ópio dos intelectuais”, como dizia o filósofo francês Raymond Aron, para quem nenhuma outra doutrina criou no homem uma “ilusão da onipotência” como o marxismo. E os comunistas velhos, viciados, fecham os olhos para as atrocidades do comunismo, vivem a angústia de não admitirem que se enganaram, temem as patrulhas ideológicas, o desprezo dos companheiros e da mídia fabiana, ou continuam acreditando no engodo por teimosia, burrice, interesses econômicos, ou simplesmente para ficar bem na foto, pois, afinal, comunistas são como o Papa, não podem se enganar, são infalíveis. 

O mais famoso romancista brasileiro, o baiano Jorge Amado, foi eleito deputado federal pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), em São Paulo, em 1946. Mas, desde o início, ele demonstrou que se equivocara com o comunismo, pois foi o autor da emenda que garantiu liberdade religiosa, já que estava ciente do sofrimento que era, naquele Brasil da primeira metade do século XX, de seguir seus cultos, especialmente os descendentes dos escravos africanos. Em 1956, desligou-se do PCB e se dedicou exclusivamente à sua missão: escrever romances. 

A falácia de que o comunismo seria a ditadura do proletariado é brilhantemente rebatida pelo professor Paulo Afonso Carvalho: a ditadura do proletariado nunca existiu. É, de fato, a ditadura de um partido só, que age em nome do proletariado. Na verdade, a ditadura do proletariado é a ditadura do líder supremo de um partido único. O proletariado é apenas massa de manobra para se chegar ao poder; em lá chegando, que o proletariado se exploda. 

Além do proletariado, os líderes comunistas são eminentemente fascistas, pois buscam manejar a seu favor as decepções e inconformidades sociais existentes, seduzindo minorias lançadas na marginalidade, na ignorância e no desespero, fazendo dessas minorias uma força de choque contra os cidadãos conscientes, que pagam direitinho seus impostos. Assim, a contracultura popular se torna um instrumento impulsionador de cada trabalhador, canalizada para o objetivo da revolução. E aos que não aceitam isso a palavra de ordem é matar, eliminar, destruir. 

De modo que comunismo e nazismo são faces da mesma moeda. A diferença é que enquanto Hitler promoveu o genocídio de outros povos, Lênin e Stalin assassinaram o seu próprio povo. Onde quer que tenha se instalado – Rússia, Cuba, Venezuela –, a ideologia comunista sobrevive graças ao terror, a repressão feroz aos seus opositores, e ao crime organizado. 

O sonho acabou; só restam os pesadelos. Muitos intelectuais e políticos, que não admitem terem se enganado e embarcado em uma canoa furada preferem continuar em sono agitado. 

Como política econômica, o comunismo não se sustenta, mas quando o povo se dá conta disso já é tarde; está escravizado, esmagado pela sombra da morte. 

Acorda, Brasil!

Texto baseado nos livros O CLUBE DOS ONIPOTENTES, de Ray Cunha, e MARXISMO: O ÓPIO DOS INTELECTOIDES LATINO-AMERICANOS, de Jorge Bessa.

MARXISMO: O ÓPIO DOS INTELECTOIDES LATINO-AMERICANOS

terça-feira, 12 de dezembro de 2023

Jornalista arma plano para matar Cara de Catarro, traficante de cocaína, diamante e cerâmica marajoara, sócio de Babá Carvalho

Capa de INFERNO VERDE na edição do Clube de Autores

RAY CUNHA

BRASÍLIA, 12 DE DEZEMBRO DE 2023 – Desde Euclides da Cunha e Alberto Rangel que a Amazônia ficou conhecida como Inferno Verde. Gosto de chamá-la também de O Coração das Trevas. Natural de Macapá/AP – uma cidade perdida no meio do mundo, seccionada pela Linha Imaginária do Equador, banhada na margem esquerda do Rio Amazonas, ao aproximar-se do Atlântico – e trabalhando como repórter nos maiores jornais da Hileia, conheço a Amazônia real. 

Cobri tráfico de crianças, queda de avião, vi corpos mutilados a terçadada, cacei, pesquei, internei-me na selva, comi todo tipo de peixe e répteis, e li amplamente sobre o Trópico Úmido. 

Dessa experiência como jornalista separei um material que serve como matéria-prima para um trabalho de maior fôlego, que é o de criação. Não conto causos, nem narro lendas, mas criei histórias que se passam na Amazônia, principalmente nas grandes cidades da Amazônia. 

Uma delas é o conto longo INFERNO VERDE, no qual um jornalista, Isaías Oliveira, caça o assassino, traficante de cocaína, diamante e cerâmica marajoara Cara de Catarro, sócio do senador Babá Carvalho. 

É meu conto mais violento. Um thriller que se passa em Belém do Pará e na ilha do Marajó. Dá para sentir, nele, calor, umidade, sangue e a sensação de vazio da morte. E também sensualidade – Boca de Sacola é uma das personagens femininas mais sensuais de uma série de mulheres que exalam maresia. Também ativa os sentidos com a visão, o cheiro e o sabor de peixes. 

O país que mais visita meu site são os Estados Unidos, bem como Alemanha, e, mais recentemente, Suécia e Finlândia. Contudo, sou lido também em vários países da Europa, além do Brasil.

Advirto aos meus leitores que não conhecem a Amazônia que a violência dos meus thrillers acontece em qualquer país do mundo; neles, a Amazônia é apenas pano de fundo, com sua própria violência, a maior delas a tragédia que perpassa a Hileia, o fato de os cabocos, os amazônidas, continuarem refém dos colonos, que são, agora, os comunistas.

Capa de INFERNO VERDE na edição da amazon.com.br

domingo, 10 de dezembro de 2023

Dê a Amazônia de presente neste Natal

Edição da Uiclap: cuia de tacacá. O jambu são as folhinhas no tucupi

RAY CUNHA

Edição do Clube de Autores

BRASÍLIA, 9 DE DEZEMBRO DE 2023 – A Amazônia, cobiçada por todas as potências hegemônicas do planeta, foi conquistada a ferro, fogo, escravidão, doenças mortais e a Igreja, pelos colonos portugueses, e legada aos brasileiros. Todas as potências hegemônicas a ambicionam e se os brasileiros não a ocuparem de fato e a desenvolverem ela será, inevitavelmente, tomada. 

A Amazônia é um subcontinente. A maior província de biodiversidade, aquífera e mineral do planeta. Um patrimônio tropical que faz do Brasil a nação potencialmente mais rica da Terra. 

As potências hegemônicas não pretendem invadir a Amazônia com exércitos, nem bombardeá-la com napalm, ou bomba atômica. Os exércitos estrangeiros seriam dizimados pelas fileiras de índios das Forças Armadas brasileiras, por insetos e répteis, e jogar napalm na floresta parece guerra com bomba atômica: seria terra arrasada, literalmente. 

Edição da amazon.com.br

As potências hegemônicas pilham a Amazônia de modo sutil. Por meio de grandes projetos e Ongs. Assim, levam sementes, diamante, esmeralda, ouro, commodities minerais, madeira, água, peixes, crianças, mulheres, tudo o que podem. 

Os comunistas, desde a Revolução Russa de 1917, passando por Fidel Castro, Lula e o Foro de São Paulo, querem tornar a América do Sul a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas do Trópico e a Amazônia está reservada para ser a cereja do bolo. Só não combinaram com os Estados Unidos. 

Todo o mundo já ouviu falar da Amazônia, mas pouquíssimos a conhecem de fato. Assim, criaram-se mitos sobre a Hileia, que ela é o pulmão do mundo, que é um gigantesco aparelho de ar-condicionado, que não se devem abrir estradas nela, que os índios devem continuar na Idade da Pedra, que ela é povoada por girafas, e outras idiotices. 

Como disse, poucos conhecem a Amazônia. Seus maiores conhecedores estão no Exército brasileiro. A Biblioteca do Exército tem inúmeros títulos sobre o Trópico Úmido. Conheço-a também. Nasci em Macapá/AP, cidade banhada pela margem esquerda do Canal do Norte do Rio Amazonas, na confluência com a Linha Imaginária do Equador, onde fica o maior forte colonial construído pelos portugueses: a Fortaleza de São José de Macapá. 

De 1975 até 1987 e, depois, de 1995 até 1997, uma década e meia, trabalhei nos maiores jornais da região, viajando amplamente, do Pará ao Acre. Também leio e pesquiso ensaios científicos sobre a Hileia, bem como a literatura ficcional caboca. Como escritor, alguns dos meus romances e contos têm como geografia a grande floresta e suas metrópoles. 

O livro no qual fui mais fundo sobre a Amazônia é o romance ensaístico JAMBU. A trama é a seguinte: durante Festival de Gastronomia do Pará e Amapá o editor da revista Trópico Úmido, João do Bailique, trabalha em uma edição especial sobre a Questão Amazônia e investiga o tráfico de crianças para escravidão sexual e grude de gurijuba. 

Em segundo plano, a Amazônia é desnudada, e, assim, nua, é examinada em todas as suas reentrâncias anatômicas, e sua alma dissecada. JAMBU é uma holografia da Amazônia. 

Se você quer conhecer a Amazônia, ou tem um amigo, uma amiga, que manifeste o desejo de conhecer a Amazônia, dê-lhe, neste Natal, um exemplar de JAMBU. Ainda há tempo de fazer o pedido no Clube de Autores, na Uiclap ou na amazon.com.br.

sábado, 9 de dezembro de 2023

Um pouquinho do que nos espera em 2024

Brasília entrou e sairá de 2023 com altas temperaturas
RAY CUNHA

BRASÍLIA, 9 DE DEZEMBRO DE 2023 – O Brasil chega a 2024 com crescimento do déficit público, inflação, aumento da violência e desmatamento recorde. O presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, desembarcará em 2024 seriamente doente e continuará ocupadíssimo em desmentir um passado indefensável e sem saber o que fazer com uma guerra na fronteira com a Amazônia; 2024, para ele, será certamente infernal. 

Ao ameaçar invadir a Guiana, agora no fim de 2023, para ocupar a região do Essequibo, rica em minerais, principalmente petróleo, o ditador da Venezuela, o paquidérmico Hugo Chávez Maduro, decretou seu próprio fim. O petróleo de Essequibo é explorado pelos Estados Unidos e China. Os americanos vão acabar pegando a égua prenha venezuelana, acusada de narcotráfico, e jogando-a em jaula perpétua. 

Quanto à China, a anta venezuelana se engana: a China jamais vai perder mercado junto aos Estados Unidos por causa de um ditador de banana títere do zumbi Hugo Chávez. Também para Maduro, assim como para seu amicíssimo Lula, 2024 será uma verdadeira mandioca com chapeleta. 

As eleições municipais do próximo ano deverão firmar a direita no Brasil, tornando cada vez mais remoto o sonho do Foro de São Paulo de tornar o Brasil o grande bar, para não dizer outra coisa, da Ibero-América, provedor de ditaduras mundo afora. 

Até agora, o ministro do Supremo, Alexandre de Moraes, não conseguiu prender o presidente Jair Messias Bolsonaro, que está na Argentina, onde, desde hoje, o conservador Javier Milei é o presidente. 

A velha imprensa brasileira, absolutamente desacreditada, e alguns artistas que não conseguem criar mais nada, nem ganhar dinheiro com show, embarcaram em um trem descarrilado rumo a um aterro sanitário. 

Na Amazônia, lideranças como as do senador Plínio Valério (PSDB/AM) e da deputada Sílvia Waiãpi (PL/AP) serão consolidadas, e embustes como Marina Silva, ministra do Meio Ambiente, apodrecem. 

Falar no Amapá, Macapá, a capital, deverá permanecer, em 2024, na Idade Média, com apagões, água sem tratamento, sem esgotamento sanitário, mas sonhadora, ouvindo o canto das sereias castrati e as promessas dos anjos de Lenin. 

O povo, cada vez mais desesperado com a perspectiva de perder tudo o que tem e de morrer como os cubanos e venezuelanos, de fome, de porrada e de chumbo quente, irá para as ruas. 

Quero deixar claro que essas previsões são baseadas nos acontecimentos e nos fatos divulgados pelo próprio governo, como déficit fiscal, inflação, as viagens de Lula, guerra urbana, o crime organizado cada vez mais organizado, e, como lembra, nos seus comentários, o jornalista Augusto Nunes, da revista Oeste: a Constituição servindo para outra coisa.

quinta-feira, 30 de novembro de 2023

Napoleão: os comunistas passam, o Estado fica

Joaquin Fhoenix e Vanessa Kirby: Napoleão e Joséphine

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 30 DE NOVEMBRO DE 2023 – Muita gente, até com curso universitário, pensa que cinebiografia é documentário. Dois exemplos: Jesus Cristo de Hollywood tem olhos azuis, é louro e alto. O Jesus histórico fatalmente teria olhos e cabelos escuros e seria baixinho. É como os judeus eram no início da era cristã, segundo registros da época e arqueólogos. 

Outro exemplo é Hitler. Vários atores fizeram o papel dele e um que se destacou foi o ator suíço Bruno Ganz. Não se destacou porque parecesse com Hitler, mas porque recriou o personagem de forma marcante. 

Também as pessoas confundem livro com filme. Quantas vezes ouvi alguém reclamar que tal filme não se parecia com o livro. É claro que não. Cinema é uma coisa e livro, outra coisa. Livro se faz com palavras e cinema, com imagens, movimento e som. Às vezes, o cineasta aproveita apenas o argumento, como Francis Ford Coppola fez em Apocalypse Now, pegou a trama psicológica de O Coração das Trevas, de Joseph Conrad. 

E há quem confunda obra de arte, no caso, aqui, cinema, com História. Como em Napoleão, de Ridley Scott, ora nos cinemas. Os franceses estão uma fera com Scott. Mas o que Scott fez foi um filme. Dramatizou Napoleão, só que encarnado por um Joaquin Phoenix sonolento. Pegou o drama íntimo de Napoleão, os cornos com que sua esposa, Joséphine de Beauharnais, encarnada por uma exuberante Vanessa Kirby, adornou a cabeça do corso, e fez seu filme. 

Vi-o, hoje. É um filmaço. Dirigido por um dos maiores cineastas de todos os tempos. Deverá levar Oscar de figurino e fotografia. Mostra também que, por mais que o país esteja convulsionado, o Estado permanece. 

Nós, artistas, sempre extraímos alguma coisa das obras de arte que lemos ou vemos. Hemingway aprendeu muito com Cézanne. Gosto dos obesos do Bottero e presto bastante atenção em algumas personagens e sequências cinematográficas; em Fellini, principalmente. Creio que até hoje copia-se Dom Quixote de la Mancha. 

Quanto aos comunistas, eles já estavam lá, na Revolução Francesa. Conseguem manter-se no poder até por muito tempo, como no caso da URSS, mas um dia acabam indo para o lugar que está reservado a eles na História: o esgoto.   

Senti que os críticos de cinema reclamam que Scott não deu a atenção que eles acham que as batalhas campais mereciam, mas a grande batalha do Napoleão de Scott é consigo mesmo. O filme é um épico, mas um épico intimista. 

Ridley Scott é inglês e está fazendo, hoje, 86 anos. Já deixou seu nome na história do cinema com Alien (1979) e Blade Runner (1982). Fez também o épico Gladiador (2000). Foi influenciado por H. G. Wells e por 2001: Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick. “Assim que eu vi aquilo soube que poderia fazer igual.” 

Bom, agora vamos ao Napoleão Bonaparte histórico. Nasceu em Ajaccio, Córsega, em 15 de agosto de 1769, e morreu em Longwood, Santa Helena, em 5 de maio de 1821. Quando a Revolução Francesa eclodiu, em 1789, ele estava servindo como oficial de artilharia no exército francês. Sua atuação firme para controlar a anarquia que se seguiu o tornou general aos 24 anos. 

Aos 26 anos, conquistou toda a Península Italiana, tornando-se um herói de guerra na França. Em 1798, lidera uma expedição militar ao Egito. De volta à França, em novembro de 1799, orquestra um golpe e se torna o primeiro cônsul da República. 

Na década de 1810, comanda as Guerras Napoleônicas e domina quase toda a Europa, até a Campanha da Rússia, em 1812, quando o inverno russo quase acaba com o exército de Napoleão. Em 1813, uma coligação europeia o derrota e no ano seguinte invade a França, forçando Napoleão a abdicar e seguir para o exílio na ilha de Elba. 

Em fevereiro de 1815, Napoleão escapa de Elba e consegue assumir novamente o controle da França. Nova coalizão é formada e o derrota na Batalha de Waterloo, em junho. É exilado em Santa Helena, no Atlântico Sul, onde morreu em 1821, aos 51 anos. 

Napoleão implementou reformas liberais não só na França, mas em todos os países que controlou. O Código Napoleônico influenciou o Direito em mais de 70 nações em todo o planeta. 

Afirma o historiador britânico Andrew Roberts: “As ideias que sustentam nosso mundo moderno – meritocracia, igualdade perante a lei, direitos de propriedade, tolerância religiosa, educação secular moderna, finanças sólidas etc. – foram defendidas, consolidadas, codificadas e estendidas geograficamente por Napoleão. Além disso, ele também acrescentou uma administração local racional e eficiente, o fim do banditismo rural, o incentivo à ciência e às artes, a abolição do feudalismo e a maior codificação de leis desde a queda do Império Romano”. 

Em segundo plano, no filme, desenrola-se a Revolução Francesa (1789-1799), capaz, por si só, de render uma telenovela de um ano, movimentadíssima. O rei, Luís XVI, absolutista, escorchava o povo com impostos e gastava a rodo. O Iluminismo começava a iluminar as mentes. Em 1793, Luís XVI perdeu a cabeça, literalmente. 

O filme começa com a execução na guilhotina de Maria Antonieta, arquiduquesa da Áustria, esposa do rei Luís XVI e Rainha Consorte da França e Navarra (1774-1792). Casou-se em abril de 1770, aos 14 anos, com o então delfim de França, que subiria ao trono em maio de 1774, como Luís XVI. O povo a detestava, acusando-a de perdulária, promíscua e frívola. Nove meses após a execução de Luís XVI, Maria Antonieta foi julgada e condenada por traição, e perdeu a cabeça em 16 de outubro de 1793. 

Que casal!

Essa história lembra o Brasil atual: ditadura, inflação e gastança desenfreada. Se Ridley Scott fosse brasileiro deitaria e rolaria. Não! Seria jogado na Papuda.

quarta-feira, 29 de novembro de 2023

Sílvia Waiãpi coloca Marina Silva no seu lugar

Sílvia Waiãpi encurralou Marina Silva na CPI das Ongs

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 29 DE NOVEMBRO DE 2023 – Se submetermos a um raio X a bancada da Amazônia no Congresso Nacional veremos que a esmagadora maioria é silenciosa, cuida dos seus negócios, ou é comunista. Assim é no Amapá. Mas saiu justamente de lá uma das deputadas mais extraordinárias desta legislatura: Sílvia Waiãpi, do PL. 

Conheci-a pessoalmente há um mês. Quando cheguei ao seu gabinete ela estava no Senado. Como demorasse, fui convidado a ir ao encontro dela. Encontramo-nos, ela pegou no meu braço e foi conversando comigo até o Anexo IV da Câmara, onde fica seu gabinete. Chegando lá, batemos papo durante bastante tempo. 

Sou também de Macapá/AP, como Sílvia Waiãpi, e conheço a Amazônia real, pois trabalhei nos maiores jornais da Hileia, daí termos muito a conversar. Mas procurei-a para lhe pedir apoio para uma sessão de autógrafos na Câmara do meu romance ensaístico JAMBU. 

Sílvia Waiãpi é uma celebridade. É conhecida nacionalmente e agora começou a se tornar uma personalidade internacional. Recentemente, na Comissão Parlamentar de Inquérito das Ongs, presidida pelo senador Plínio Valério (PSDB/AM), um dos mais valorosos congressistas da Amazônia, e com quem trabalhei no jornal A Crítica, de Manaus, Sílvia Waiãpi colocou a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, no seu devido lugar: os subterrâneos das cidades da Amazônia. 

– Avise à Europa, ministra, a todos os países no mundo, que eu faço cocô na água porque eu não tenho saneamento, sabe? Por que eu não tenho saneamento? Porque nos foi imputado que nós temos que manter a nossa cultura. Enquanto a senhora vai ao banheiro fazer suas necessidades – disse a deputada, que é indígena. 

E deu um exemplo: o Instituto Iepé, ONG que atua junto a comunidades indígenas na Região Amazônica, “recebe dinheiro das embaixadas da França e Noruega, da Comissão Europeia, da Agência Francesa de Desenvolvimento, da Fundação Ford, da Nature Conservancy, da Rainforest Foundation, da Fundação Gordon & Betty Moore, do Internews, Fundo Lira, do GLA (Green Livelihood Alliance), da Nature Conservancy, Talmapais Trust e outras organizações estrangeiras. A mesma ONG que impede os waiãpi de terem energia elétrica em sua comunidade”. 

E apresentou um depoimento gravado em vídeo de uma índia waiãpi reclamando que o Iepé “não quer energia elétrica nem internet” na comunidade. A indígena do vídeo, que estava grávida, acabou perdendo seu bebê devido ao atendimento precário que recebe, por falta de energia elétrica. 

– O Instituto Iepé, em conluio com agentes públicos, impede o desenvolvimento socioeconômico dos waiãpi a pretexto de uma pretensa “preservação cultural” – afirmou Sílvia Waiãpi. – Todos os funcionários do Iepé residem em cidades como São Paulo, onde têm acesso aos confortos e aos planos de saúde negados ao povo waiãpi. 

Sílvia disse que a Fundação Ford financia viagens internacionais a líderes indígenas para criticarem o agro brasileiro em fóruns internacionais e nacionais. Por que? Respondo: porque os países hegemônicos não querem que os povos amazônicos saiam da sua dependência colonial e assim possam sugar até o tutano da Amazônia, incluindo aí crianças para escravidão sexual e retirada de órgãos. 

Plínio Valério observou que o Judiciário não deixa que se realizem obras de saneamento básico e infraestrutura na Amazônia alegando que são sítios arqueológicos, para futuramente explorarem os minerais da região. 

– As ONGs só têm esse poder porque estão aliadas a partes do Judiciário. Tem sempre um desembargador, um ministro, um juiz pra conceder uma liminar pra qualquer ONG, se encontrar um caco de cerâmica, existente ou “plantado” na região, e paralisa os trabalhos. Isso está ocorrendo, por exemplo, em regiões da Amazônia ricas em potássio – disse Plínio Valério. 

Em entrevista a este repórter, em 2008, o deputado federal Nilson Pinto (PSDB/PA), doutor em geofísica, ex-reitor da Universidade Federal do Pará (UFPA), afirmou: “A Hidrovia do Marajó é uma obra de infraestrutura fundamental para o estado do Pará, promovendo a ligação mais eficiente entre Belém e Macapá, passando pelo centro da ilha do Marajó e economizando horas de viagem. Essa obra, que é simplíssima, enfrenta percalços por falta de conhecimento, pelo excesso de zelo gerado pelo desconhecimento de algumas autoridades. O Ministério Público entende que a obra criaria problemas ambientais e tem procurado impedir de todas as formas que seja realizada, e tem conseguido isso, até agora. Há excesso de zelo de um lado e desconhecimento de causa por outro lado. Tem-se apenas de construir um canal de 32 quilômetros, numa região plana, desabitada, sem, absolutamente, nenhum tipo de problema que possa surgir com a construção do canal. A obra se resume, praticamente, na construção do canal. 

“Para quem acha que isso é algo portentoso e agressivo ao meio ambiente, eu recomendo que faça uma visita, in loco, ou pela internet, ao canal Reno-Danúbio, na Alemanha, concluído há várias décadas e que liga a bacia do rio Reno à bacia do rio Danúbio. O Reno deságua no Mar do Norte. O rio Danúbio deságua no Mar Negro. Assim, os alemães ligaram o Mar do Norte ao Mar Negro. Trata-se de um canal de 171 quilômetros de extensão, com 66 eclusas, com desníveis fantásticos, tudo em plena operação, no coração da Alemanha, avançando por terras que têm toda uma história pretérita, que vem do tempo do Império Romano, passando por preciosidades arqueológicas e pelo coração de um país que tem um amor pela questão ambiental fantástico. A obra foi feita no meio da Alemanha e não gerou absolutamente nenhuma reclamação, no país que mais cuida do meio ambiente no mundo. 

“Para fazer uma obra cinco vezes menor, de impacto ambiental mil vezes menor, na ilha do Marajó, nós temos um problema terrível com o Ministério Público. Eu não acredito que seja por conhecimento de causa, o que mostraria que essa obra não causará praticamente nenhum impacto ambiental. Acredito, sim, que é desconhecimento de quem acha que vai preservar a Amazônia impedindo que as pessoas que nela moram de ter melhores condições de sobrevivência. É um enorme equívoco do Ministério Público, que não tem competência técnica para opinar e está exorbitando da sua função. Deveriam se basear nos trabalhos dos órgãos técnicos competentes nessa área e não emitir pareceres apenas para defender uma posição aparentemente de defesa da Amazônia, do meio ambiente, mas que, na verdade, é uma posição absolutamente retrógrada, que nada tem a ver com desenvolvimento sustentável. 

“O Ministério Público se arvora o direito de defender uma causa que não é de ninguém, mas causa de um ou outro visionário que resolveu fazer de uma questão pequena algo grandioso, não sei com que finalidade. O caso está na Justiça, que tem de se basear naquilo que é correto do ponto de vista do aproveitamento das nossas hidrovias, dos rios, que são as vias naturais que temos para deslocamento na Amazônia; tem que se basear na verdade extraída da competência técnica das instituições amazônicas, para poder dar a decisão. Não podemos ficar com uma visão unilateral emperrando o desenvolvimento da região, a melhoria da qualidade de vida da população. O Ministério Público precisa se reciclar. A minha sugestão é que o pessoal do Ministério Público estude mais. Não basta trabalhar com a visão ideológica. Aliás, o Ministério Público não existe para trabalhar com visão ideológica. Ele tem de trabalhar pelo interesse da sociedade, dentro da visão legal. 

“Há um claro exagero por parte dos ambientalistas. É necessário para qualquer obra importante, em qualquer lugar e, principalmente, na Amazônia, que se tomem os cuidados para se evitar impactos ambientais de porte. Isso é necessário e existe conhecimento técnico em várias instâncias, neste país, para assessorar a realização de uma obra sempre que isso é necessário. O que nós não podemos aceitar é a visão da redoma. Somos frontalmente contra a visão preservacionista que vê apenas a floresta e esquece as pessoas que moram na floresta, uma posição absolutamente atrasada” – argumentou Nilson Pinto. 

Segundo o marajoara ex-senador Mário Couto (PSDB/PA), “o Ministério Público Federal já recebeu mais de 50 quilos de documentos da parte do governo do Pará, mostrando que os impactos ambientais da hidrovia serão mínimos, comparados aos impactos positivos que ela proporcionará; as medidas mitigadoras e ações compensatórias, já detalhadas em farta documentação, superam qualquer dano que a obra possa causar”. 

O projeto da Hidrovia do Marajó é fruto de convênio celebrado entre os governos estadual e federal, com contrapartida de 50%. Segundo relatório da Administração das Hidrovias da Amazônia Oriental (Ahimor), “já foram realizados todos os estudos técnicos e ambientais (EIA/Rima) para a dragagem de 32 quilômetros do canal destinado a perenizar a interligação das bacias dos rios Atuá e Anajás, interligação já existente pela própria natureza, mas durante somente seis meses de cheia”. 

A construção da hidrovia consiste na dragagem de 9 milhões de metros cúbicos de sedimentos entre os rios Atuá e Anajás, a fim de garantir a navegação na época da seca, de comboios com até 2.800 toneladas de capacidade de carga em quatro chatas, de Belém a Macapá, vice-versa. Segundo o projeto, a hidrovia atravessará pelo meio o arquipélago no sentido sudeste-noroeste, levando novas oportunidades de emprego e de renda para a população local e facilitando o escoamento da produção de todo o Marajó. Os 580 quilômetros que hoje separam Belém de Macapá, porque a ilha do Marajó tem de ser contornada, diminuirão para 432 quilômetros pelo meio da ilha. Haverá uma redução de 148 quilômetros entre a capital do Pará e a capital do Amapá. 

A proximidade da hidrovia com o porto de Santana, na zona metropolitana de Macapá, possibilitará que produtos paraenses, como, por exemplo, açaí, piramutaba, cerâmica de Icoaraci e minérios cheguem aos Estados Unidos, Europa e Japão com redução de custo. 

“Além disso, a obra vai permitir acesso aos diversos recursos naturais da região marajoara, modernização do seu parque agropecuário e suprimento dos mercados consumidores de Belém e Macapá, viabilizando a criação de bacias leiteiras e estimulando a piscicultura” – observa ainda o relatório da Ahimor, alinhando. A hicrovia desenvolverá o turismo flúvio-ecológico e a integração nacional do Marajó e do Amapá, por meio da Hidrovia Araguaia-Tocantins, outra obra da maior importância para a Amazônia. 

A Secretaria Executiva de Transportes do Pará e a Ahimor cumpriram todas as exigências legais, tais como elaboração de EIA/Rima e realização de audiências públicas. Em setembro de 1998, a Secretaria Executiva de Ciência, Tecnologia e Meio-Ambiente do Pará concedeu a licença ambiental para instalação da obra, que foi renovada anualmente, até 2002. Acontece que, por força da ação civil pública proposta pelo Ministério Público Federal, até hoje o projeto da hidrovia não conseguiu sair do papel e a consequência disso é que a população do Marajó sofre os efeitos devastadores de doenças infectocontagiosas, principalmente malária, de erradicação remota diante da dificuldade de ações necessárias para debelar a doença. 

O governo do estado e o Ministério dos Transportes chegaram a tomar todas as providências para o início das obras, inclusive a avaliação das terras localizadas nos municípios de Anajás e Muaná, feita por técnicos do Instituto de Terras do Pará (Iterpa). Procuradores do estado foram ao encontro dos comunitários para fazer o pagamento das indenizações no próprio local. Um convênio para distribuição do material lenhoso também foi celebrado com as prefeituras de Anajás e Muaná. Além disso, um plano de saúde foi elaborado para atender a área de influência da futura hidrovia. O plano envolve a construção de ambulatórios, proteção aos operários que trabalharão na obra e imunização contra doenças endêmicas. O fato é que está tudo pronto para que a obra seja realizada. Só depende do Ministério Público Federal. 

Mas a Hidrovia do Marajó sairá do papel se os parlamentares do Pará e do Amapá no Congresso Nacional e nas assembleias legislativas dos dois estados quiserem. No Congresso Nacional, quando uma bancada se une em torno de um projeto, pode qualquer coisa. Nem Alexandre de Moraes, nem os 11 supremos barram. 

Plínio Valério exibiu vídeos que mostram a dificuldade dos índios koripako para receber o Bolsa-Família em São Gabriel da Cachoeira/AM. Esles têm que se deslocar por até seis dias em canoas para receber o dinheiro. Isso poderia ser resolvido com a abertura de uma estrada de 16 quilômetros. Mas a ONG Instituto Socioambiental (ISA) não quer a construção da estrada. 

– O ISA com a Foirn (Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro) não deixam, alegando que não fazem parte da cultura indígena as estradas, as rodovias. O que faz parte da cultura indígena, segundo essa gente, é sofrer, é passar por essas cachoeiras perigosas com o maior problema. Não teria nenhum impacto ambiental uma estrada de 16 quilômetros no meio de tanta floresta... Não teria nenhum impacto ambiental, mas teria um impacto social muito grande, seria o resgate da dignidade - disse. 

E quando os koripak chegam a São Gabriel da Cachoeira, muitas vezes dormem ao relento, aguardando o Bolsa-Família. 

O senador Hamilton Mourão (Republicanos/RS), da CPI das Ongs, também acredita que a algaravia preservacionista esconde “interesses estrangeiros” de olho nas riquezas da Amazônia. Para Sílvia Waiãpi isso é claro como dia de primavera: o financiamento estrangeiro a ONGs instaladas na Hileia não passam de vírus alisando os cabocos. 

Sílvia observou que reprimem atividades agrícolas dos índios, mas o narcotráfico atua como se fosse sócio do Estado, “livremente”, na Amazônia. Também, segundo Sílvia Waiãpi, a miséria tem ampliado a prostituição de índias, e até a venda de crianças indígenas ao crime organizado, para ser usadas em tudo o quanto não presta. 

E as escolas do povo waiãpi? Não dá nem para imaginar. 

– O Instituto Iepé recebe financiamento de poderosas organizações estrangeiras, mas não pode comprar uma impressora para uma escola waiãpi – disse a deputada. 

Sílvia Nobre Waiãpi nasceu na tribo waiãpi, em Pedra Branca do Amapari, no interior do Amapá, em 29 de agosto de 1975, filha do cacique Seremeté. Aos quatro anos, Sílvia teve a perna direita transpassada por um pedaço de madeira e foi levada para Macapá, onde foi adotada por uma família. Aos sete anos, começou a estudar. Aos treze, na sua aldeia, deu à luz sua primeira filha, Ydrish, e um ano depois empreendeu uma viagem, sozinha, para o Rio de Janeiro, onde se tornou moradora de rua. 

Conheceu um camelô que a ajudou a encontrar um local para morar. Conseguiu trabalho no Círculo do Livro, vendendo livros de porta em porta, e a frequentar escola. Teve outros dois filhos: Tamudjim, aos 15 anos, e Yohanna, aos 17. Casou-se com um militar, sequestrado e assassinado, em 2007. 

Em 2010, foi aprovada para o Exército e em 2011 se tornou a primeira mulher indígena incorporada à força, com o posto de tenente, aprovada com uma das melhores pontuações no Centro de Preparação de Oficiais da Reserva (Cpor) do Rio de Janeiro. Na mesma época, Waiãpi fazia pós-graduação em gênero e sexualidade pelo Instituto de Medicina Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Em 2016, passou a ocupar a função de chefe do serviço de medicina física e reabilitação em fisioterapia no Hospital Central do Exército, em Benfica zona norte do Rio. 

Começou a frequentar um grupo de atores e a estudar teatro, formando-se em artes cênicas aos 24 anos. Conseguiu emprego na TV Globo como aderecista do departamento de figurino, preparadora de elenco da minissérie A Muralha e pesquisadora de texto na novela Uga Uga, em 2000, estreando como atriz em 2006, interpretando Pena Levinha, na novela Bang Bang, e participando da minissérie A Cura, em 2010, na Globo. 

Em 2017, na minissérie Dois Irmãos, inspirada no livro homónimo de Milton Hatoum, viveu o Domingas, uma indígena tirada da sua tribo para trabalhar como doméstica, contracenando com Cauã Reymond, que interpretava os gêmeos Omar e Yaqub. 

Waiãpi é também atleta. Em 2003, conseguiu uma bolsa para estudar fisioterapia no Centro Universitário Augusto Motta. Em 24 de abril de 2019, assumiu o posto de secretária de Saúde Indígena, do Ministério da Saúde. 

Além de sua defesa intransigente da Amazônia, Sílvia Waiãpi se dedica a duas causas fundamentais para o Amapá: garantia do fornecimento de energia elétrica para o estado, excluindo-se totalmente a possibilidade de apagões e garantindo o desenvolvimento de um parque industrial; e a extração de petróleo na Margem Equatorial.

terça-feira, 28 de novembro de 2023

Fortaleza de São José de Macapá: o símbolo mais emblemático da Amazônia em chamas

Na nova capa da edição de JAMBU do Clube de Autores sai
a cuia de tacacá e entra a Fortaleza de São José de Macapá

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 28 DE NOVEMBRO DE 2023 O Coração das Trevas, de Joseph Conrad, é um dos maiores monumentos da literatura universal. Basicamente, mostra a loucura humana – a ignorância e o horror –, a luta insana pelo poder, o colonialismo, a escravidão, que desemboca, tudo isso, hoje, no comunismo, na exploração mais abjeta do amazônida, anestesiado pelo espilantol da propaganda comunista. 

O Coração das Trevas é um pequeno romance, de pouco mais de 150 páginas, “o mais intenso de todos os relatos que a imaginação humana jamais concebeu”, disse o labiríntico Jorge Luís Borges. A ação se passa no Congo, África, no século 19, quando a Europa fez da África uma fazenda humana, uma terra de ninguém, o coração das trevas. Francis Ford Coppola transpôs essa joia literária para o cinema, situando a história em meados do século 20, para a guerra do Vietnã, no clássico dos clássicos dos filmes de guerra, Apocaypse Now. 

O Coração das Trevas lembra a tragédia da Amazônia: o colonialismo. Os colonos portugueses a conquistaram com ferro, fogo, doenças e a Igreja, e a legaram aos brasileiros. Nestes tempos comunistas, os donos da Amazônia são políticos mafiosos, que, juntamente com facções criminosas, tornaram-se os novos colonos, e vêm fatiando a Hileia, vendendo-a e traficando-a, incluindo, aí, crianças para fins sexuais ou extração de órgãos, usando Ongs, para isso. 

O butim é grande, pois a bacia amazônica é a última fronteira do mundo na superfície. A maior concentração de biodiversidade do planeta está na Amazônia, a maior concentração de água doce de superfície e de minerais. Todos os países hegemônicos a querem, e farão de tudo para tê-la. 

A exploração dos cabocos – ribeirinhos, índios, quilombolas – é sempre brutal, como golpe de navalha seccionando tecido humano, como ataque de hienas, revelando a face obscura da Amazônia, o Inferno Verde, ora em chamas, o latejar da escuridão, espasmos da alma amazônida, a loucura e o malogro do comunismo. 

O látego, o calor, os insetos, os répteis, o estupro, a pilhagem, o berro de dor são anestesiados com as eternas promessas dos políticos, porque eles sabem que o povo acredita em tudo o que lhe dizem. 

De modo que o maior ícone da Amazônia é a Fortaleza de São José de Macapá. Em 1738, colonos portugueses instalaram na margem esquerda do estuário do Rio das Amazonas um destacamento militar, a Praça São Sebastião, depois Veiga Cabral, onde, em 4 de fevereiro de 1758, foi levantado o Pelourinho, símbolo do implacável poder lusitano, na presença do capitão-general do Estado do Grão-Pará e Maranhão, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, fundando a Vila de São José de Macapá e selando o fim da nação que dominava aquela beirada de rio, o povo tucuju, do tupi tucumã, palmeira natural da Amazônia, de doces frutos oleosos, matéria-prima para suco, licor, mingau e sorvete. 

Em 1764, Portugal deu uma demonstração do seu poderio na Amazônia iniciando a construção de projeto do engenheiro militar italiano sargento-major de Infantaria Enrico Antonio Galluzzi de Mantova, ou simplesmente Gallúcio: a Fortaleza de São José de Macapá. 

Em 2 de janeiro daquele ano, o governador e capitão-general do Estado do Grão-Pará e Maranhão, Fernando da Costa de Ataíde Teive, saiu de Belém e foi até a vila de São José de Macapá, juntamente com Gallúcio, para examinar o terreno, e, finalmente, aprovar a planta geral da nova fortaleza do império português, que teve sua pedra fundamental lançada naquele mesmo ano, na tarde de 29 de junho, sob a invocação de São Pedro, na presença do governador Fernando da Costa de Ataíde Teive; do comandante da Praça, coronel Nuno da Cunha Ataíde Varona; e de Gallúcio e demais autoridades civis e religiosas de Macapá. 

As pedras da Fortaleza foram arrancadas da Cachoeira das Pedrinhas, no rio Pedreira, distante 32 quilômetros de Macapá; descidas para o rio numa rampa em torno de 10 metros de declive, eram transportadas em embarcações pelo Amazonas até Macapá. Cada jagunço tomava conta de quatro escravos, que, fracos pelo trabalho impossível, eram rasgados a chicotadas. Muitos morreram supliciados, famintos, sem energia, e alguns conseguiram fugir para o quilombo do Ambé. 

Em 27 de outubro de 1769, Gallúcio morreu de malária e a direção dos trabalhos foi assumida pelo capitão Henrique Wilckens, até à chegada do sargento-mor engenheiro Gaspar João Geraldo de Gronfeld. Em 1777, morre o rei D. José, aos 27 anos, e o marquês de Pombal, então mentor do poderio português na Amazônia e protegido por D. José, é exonerado por D. Maria I (1777-1816), que afunilou os gastos com a Fortaleza, de modo que ela só foi inaugurada em 19 de março de 1782, dia do seu padroeiro, São José, 18 anos depois do início da sua construção. 

Com 84 mil metros quadrados, em formato de polígono quadrangular, muralhas de oito metros de altura, seu portão principal fica a oeste, com duas pontes sobre um fosso, de que restam os vestígios, e que, originalmente, seria inundado em todo o perímetro da construção. Pesquisa comprovou que na parte erguida sobre terreno alagado foram utilizadas estacas de acapu, o aço do reino vegetal. 

Na primeira metade do século XX, a Fortaleza foi abandonada, e, durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), classificada como fortificação de terceira classe. Em 1926, suas ruínas foram visitadas pelo presidente eleito Washington Luís. Em 1943, é criado o Território Federal do Amapá, e, em 1946, foi instalado na Fortaleza o Comando da Guarda Territorial, então a polícia do Território Federal. 

Para isso, houve um trabalho de capina interna e externa, com a retirada dos arbustos que vicejavam nas muralhas, bem como a derrubada das árvores que cresciam nos terraplenos, e que acarretaram danos estruturais. Também foram reconstruídos os oito edifícios ao redor da praça, então completamente deteriorados, nos quais substituíram telhados, portas, janelas e portões em madeira, pisos, muretas e rampas de acesso, e foram desobstruídos os canais de drenagem de águas pluviais. 

Em 8 de julho de 1950, uma comissão do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan) tombou o símbolo maior dos macapaenses, incluindo 54 canhões. A Fortaleza serviu ainda de hospedaria a famílias de imigrantes; de cadeia aos presos da Justiça; abrigou a Imprensa Oficial, o pelotão do Vigésimo Sexto Tiro de Guerra, a União dos Negros do Amapá e o Museu Territorial; e virou palco das celebrações de datas cívicas, marcadas por salvas de tiros dos canhões, desfiles cívicos e bailes. 

Com a Ditadura dos Generais (1964-1985), voltou a abrigar o comando da Guarda Territorial e passou a ser utilizada como presídio político, mas também como Clube Social do Círculo Militar, em prédio no entorno leste. Em 1975, a Guarda Territorial foi transformada em Polícia Militar e sediada em prédio próprio, após uma onda de terror na cidade, que, segundo se comenta até hoje, teria sido arquitetada pelas autoridades do Território Federal com o intuito de forçar a criação da Polícia Militar. 

Em 1979, a Delegacia do Serviço do Patrimônio da União (DSPU) entregou a Fortaleza ao Governo do Território Federal do Amapá. Em 1988, a Constituinte transformou o Território Federal em Estado do Amapá. Em 1999, após anos de restauração, a Fortaleza é transformada em espaço de cultura e lazer para a população em geral. 

Construída para resistir a uma força semelhante à da marinha inglesa do século XIX, nunca foi atacada, exceto por um dos flagelos da Amazônia, a malária, também conhecida como paludismo, impaludismo ou maleita, doença infecciosa transmitida pela fêmea infectada do mosquito Anopheles e provocada por protozoários do gênero Plasmodium, que, no sistema circulatório do hospedeiro, vai parar no fígado, onde se reproduzem, provocando febre, dor de cabeça e nas articulações, vômito, anemia, icterícia, hemoglobina na urina, lesão na retina e convulsões, em ataques paroxísticos, com sensação súbita de frio intenso, seguida por calafrios, febre e sudação, paralisia do olhar, epistótono, convulsão, que pode progredir para coma ou morte. 

Tradicionalmente, os casos graves são tratados com quinino administrado por via intravenosa ou intramuscular. Não existe vacina contra a malária. As complicações a quem resiste à doença são estresse respiratório e desconforto psicológico. 

Assim, a Fortaleza, maior ícone dos macapaenses, é a tradução perfeita de Macapá, uma cidade mergulhada em apagões, com escassa água encanada, sem saneamento básico, afogada em fumaça da mata pegando fogo, fustigada por facções criminosas, sob o domínio de narcotraficantes e sufocada pelos comunistas.

Construída por escravos, negros e índios, sob o obsessivo domínio português, a Fortaleza foi o cadinho no qual se forjou a etnia macapaense. Os portugueses cruzaram com os africanos e geraram mulatos, e fornicaram com os índios, formando uma população de mamelucos; os africanos fundaram o distrito de Curiaú e o bairro do Laguinho, misturaram-se com os índios e legaram cafuzos; e mulatos, cafuzos e mamelucos misturaram-se, fechando o círculo, numa diversidade étnica viva nas ruas de Macapá, nas nuanças de peles que vão do alabastro ao ébano, passando pelo bronze e jambo maduro, unidos pelo sotaque caboco: a fusão do português falado em Lisboa, doces palavras tupis, línguas africanas, patoá das Guianas, tudo triturado em corruptela. 

É neste cenário que a Fortaleza de São José de Macapá estava fadada a se tornar o mais emblemático cartão postal dos macapaenses, juntamente com dois marcos de grandeza planetária: a Linha Imaginária do Equador, que secciona a cidade, e o Canal do Norte do rio Amazonas, que a banha na margem esquerda. 

É inquestionável, portanto, que a Fortaleza de São José de Macapá é também a tradução perfeita da Amazônia, a grande colônia ambicionada pelas nações hegemônicas, pelos políticos mafiosos, pelos empresários bandidos, pelos narcotraficantes, pelos escravocratas, e pela organização criminosa mais perigosa do planeta: o comunismo. 

Resta-nos, a nós, amazônidas, outra ordem de anestesia: a do jambu (Acmella oleracea). Principalmente apreciado no tacacá, a iguaria mais representativa da Amazônia. Segundo o antropólogo Luís da Câmara Cascudo, deriva de um mingau indígena, mani poi, preparado com goma de tapioca temperada com tucupi, cebola, alho, cheiro-verde, jambu e camarão. 

Há a teoria de que teria surgido em Itacoatiara/AM, conforme relata o médico e explorador alemão Robert Christian Barthold Avé-Lallemant, autor do livro No Rio Amazonas, e que esteve na Amazônia e visitou a Vila de Serpa, atual Itacoatiara, em 1859. 

Classificou o tacacá como “a bebida nacional dos Mura”, uma das etnias que enfrentaram os portugueses e espanhóis com a mesma valentia e crueldade dos ibéricos. O etnólogo Kurt Nimuendaju escreveu: “De todas as tribos da Amazônia, a dos Mura foi a que mais extenso território ocupou, espalhando-se das fronteiras do Peru até o Rio Trombetas”, que limita o Amazonas com o Pará. 

Os Mura habitavam as bacias do Médio Amazonas, Solimões e Madeira, desde cerca de 1.450 a. C., até o século XVIII, quando foram trucidados pelos ibéricos. Seus remanescentes, cerca de mil famílias, habitam os municípios de Autazes e Itacoatiara, no estado do Amazonas. 

O padre jesuíta João Daniel registra no livro Tesouro Descoberto do Rio Amazonas, escrito entre 1757 e 1776, que os “índios do Rio Amazonas… tapuias do Amazonas… povoadores do Amazonas… usam da bebida tacacá… o tucupi é um sumo venenoso extraído da raiz da mandioca... cozido, perde o veneno, e então é servido como tempero de vários guisados e bebidas”. 

A iguaria, tal como é servida, hoje, é composta de goma de mandioca, tucupi, camarão seco e salgado, jambu, sal, alho e pimenta de cheiro a gosto. É servido em cuias. Coloca-se primeiramente um pouco de tucupi e um pouco de caldo da pimenta-de-cheiro com tucupi, a gosto, acrescenta-se goma, arranjam-se ramos do jambu, colocam-se camarões e acrescenta-se mais tucupi. 

Toma-se tacacá (não se diz beber) muito quente, na cuia, assentada em uma pequena cesta, para proteger as mãos. Utiliza-se um palito de madeira para fisgar o camarão e o jambu, este, o tempero por excelência da Amazônia, utilizado em pratos que vão de pizza até bebida como cachaça. Faz os lábios tremerem de prazer. É rico em cálcio, fósforo, ferro, vitaminas C, B1, B2 e B3. 

Mascar jambu adormece o nervo trigêmeo e alivia dores de garganta e de dente. Em forma de chá ou macerado é diurético e ajuda a dissolver cálculos da vesícula biliar. A única contraindicação é para mulheres grávidas, pois provoca contrações do útero. 

É originário do Brasil, Colômbia, Guianas e Venezuela, e é conhecido também como agrião-do-pará, agrião-do-norte, agrião-do-brasil e jambuaçu. Cresce na várzea, até 30 centímetros de altura, formando uma folhagem densa e bem verde. As flores são amarelas e hermafroditas. Em Macapá, cresce como mato nos quintais. 

Jambu começou a ser plantado em outras regiões do Brasil, como nos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro, destinado à indústria cosmética. Cultiva-se jambu também em Madagascar, Índia e China. 

O óleo essencial do jambu é rico em propriedades antioxidantes, diuréticas e anti-inflamatórias, utilizado nas indústrias farmacêutica, cosmética e de higiene pessoal. Seu princípio ativo mais importante, extraído das flores, folhas e caule, é o espilantol, responsável pelo sabor anestesiante do jambu e que atua no sistema nervoso.

Além do uso culinário, o espilantol tem propriedades anti-inflamatórias, antioxidantes e antimicrobianas, reduz a ansiedade e estimula a memória. Excelente, portanto, para acalmar o coração das trevas, principalmente no fim da tarde, quando, em Macapá, os alísios levam sons de mambo, que se misturam ao perfume dos jasmineiros e ao acalanto da alma.