quinta-feira, 19 de outubro de 2023

Perto do Coração Selvagem. A mulher ante a violência, a covardia e a loucura dos homens

Clarice Lispector em óleo de Giorgio Chirico. Jessica Rabbit

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 19 DE OUTUBRO DE 2023 – Existem escritores icônicos que amamos só pelo o que eles são, por declarações suas, seu modo de vida e até pela sua sensualidade, neste caso, feminina. Clarice Lispector é uma delas. É a Jessica Rabit da literatura universal. Giorgio de Chirico a pintou em Roma. O óleo retratando Clarisse é toda Jessica, personagem de desenho animado criada por Robert Zemeckis, que se inspirou nas atrizes Veronica Lake e Rita Hayworth. Léa Seydoux também lembra Jessica. 

Clarice escrevia em português, mas nasceu na Ucrânia, em 10 de dezembro de 1920. 

– Naquela terra eu literalmente nunca pisei: fui carregada de colo – disse, sobre a Ucrânia. 

Morreu no Rio de Janeiro, na véspera de completar 57 anos, em 9 de dezembro de 1977, de câncer de ovário. Deixou dois filhos. Romancista, contista, ensaísta, jornalista, frequenta, hoje, um clube exclusivo: a prateleira dos monstros sagrados da literatura universal. 

Era judia. Sua família migrou fugindo de extermínio em massa. Foi educada no Recife/PE, onde chegou com dois anos de idade. Aos oito anos, sua mãe faleceu. Aos 14, transferiu-se, com o pai e as duas irmãs para o Rio de Janeiro, onde seu pai faleceu, em 1940. Graduou-se em Direito na Universidade Federal do Rio de Janeiro, então Universidade do Brasil, mas paralelamente começou a trabalhar como tradutora, escritora e jornalista. 

Estreou como romancista aos 24 anos, com Perto do Coração Selvagem, que contém a sinopse dos seus futuros romances: a mulher diante da violência, da covardia e da loucura dos homens. 

Em 23 de janeiro de 1943, casa-se com Maury Gurgel Valente e um ano depois muda-se, com o marido, então vice-cônsul, para Belém do Pará, onde se hospedam no Central Hotel, ao lado do Teatro da Paz, durante seis meses, após os quais Maury assume o consulado brasileiro em Nápoles, Itália. O casal passa alguns dias no Rio de Janeiro, de onde parte para Nápoles, onde morou de 1944 a 1946, e Clarisse ajudou soldados feridos na guerra no hospital norte-americano, como voluntária do Serviço de Saúde da FEB – Força Expedicionária Brasileira. 

“Isso aqui é lindo. É uma cidade suja e desordenada, como se o principal fosse o mar, as pessoas, as coisas. As pessoas parecem morar provisoriamente. E tudo aqui tem uma cor esmaecida, mas não como se tivesse um véu por cima; são as verdadeiras cores. Um edifício novo aqui tem um ar brutal. Às vezes eu me sinto ótima; às vezes simplesmente não vejo nada, não sinto nada. Estou lendo em italiano porque é o jeito. A palavra mais bonita da língua italiana é gioia, embora alegria também seja bonito. Estamos num apartamento grande, com todos do consulado que são ótimas pessoas; mas nunca precisei de ótimas pessoas. Mas, enfim, por enquanto nada há a fazer” – narra, em carta. 

“Estou trabalhando no hospital americano, com os brasileiros. Visito diariamente todos os doentes, dou o que eles precisam, converso, discuto com a administração pedindo coisas, enfim sou formidável. Vou lá todas as manhãs e quando sou obrigada a faltar fico aborrecida, tanto os doentes já me esperam, tanto eu mesma tenho saudade deles.” 

Clarice era bela. Explosivamente bela. “Eu estava em Nápoles andando pela rua com meu marido. E um homem disse bem alto para outro, ele queria que eu ouvisse: “É com mulheres como esta que contamos para reconstruir a Itália”. Não reconstruí a Itália. Tentei reconstruir minha casa, reconstruir meus filhos e a mim. Não consegui. No entanto o italiano não estava fazendo galanteio, falava sério. Deus, fazei-me reconstruir pelo menos uma flor. Nem mesmo uma orquídea, uma flor que se apanha no campo. Sim, mas tenho um segredo: preciso reconstruir com urgência das mais urgentes, hoje mesmo, agora mesmo. Nesse instante. Não posso dizer o que é”. 

Na França, chamaram-na de “princesa da língua portuguesa”. 

Vivia viajando, por conta da profissão do seu marido, mas adorava o Brasil: “Não sinto nenhum prazer em viajar. O mundo inteiro é levemente tedioso, eu acho. O que importa na vida é estar perto de quem amamos. Essa é a grande verdade do mundo. E, se existe um lugar especialmente simpático, é o Brasil”. 

Em 1959, Clarice separa-se de Maury, que fica na Europa, e se fixa permanentemente, com seus filhos, no Rio de Janeiro, no Leme, onde, na praia, há uma estátua sua de bronze. Em 14 de setembro de 1966, Clarice dorme, deixando seu cigarro aceso. O incêndio quase a mata. 

Em 1975, participa do I Congresso Mundial de Bruxaria, em Bogotá, Colômbia, no qual apresenta o conto O ovo e a galinha. Retorna ao Rio com a aura de “a grande bruxa da literatura brasileira”. Declara seu amigo Otto Lara Resende sobre sua obra: “Não se trata de literatura, mas de bruxaria”. 

Clarice dominava sete idiomas: português, inglês, francês, espanhol, hebraico, iídiche e russo, mas fez traduções somente do inglês, francês e espanhol. Contudo, a obra de Clarice foi muito mais traduzida: mais de 200 traduções para mais de 10 idiomas. Só A Hora da Estrela e A Paixão segundo G. H. tiveram 22 traduções, cada; Perto do Coração Selvagem, 18, Laços de Família, 16, e Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres, 15. A partir da década de 1980, Clarice tem nova tradução praticamente todo ano.

Pouco tempo após a publicação do romance A Hora da Estrela, Clarice é hospitalizada com câncer de ovário em metástase e não resiste. É sepultada no Cemitério Israelita do Caju, no Rio de Janeiro, no dia 11 de dezembro de 1977. A judia ucraniana, nordestina e carioca, engrandeceu a língua portuguesa como nenhuma outra mulher, pois a voz das suas personagens continua ecoando, solitária, mas destemida como as rosas.

segunda-feira, 9 de outubro de 2023

Haverá O Protetor 4? A máfia no Brasil

Lula na Lava Jato. Sergio Moro o prendeu e o STF o soltou

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 9 DE OUTUBRO DE 2013 – O diretor Antoine Fuqua declarou que está disposto a dirigir O Protetor 4, desde que o ator Denzel Washington também esteja também disposto. O Protetor: Capítulo Final, ora em cartaz nos cinemas, é o terceiro filme da franquia. Fuqua dirigiu os três; o primeiro, em 2014. 

– Acredito que o terceiro filme é o fim. Nós dois conversamos sobre isso dessa maneira. Mas nunca se sabe. Denzel está em forma. Ele está treinando todos os dias. Se você o visse agora, você ficaria surpreso. Ele está realmente saudável. Sim, depende dele. Obviamente, se ele queria fazer outro, eu também faria – Fuqua declarou à Entertainment Weekly. 

– Não quero dizer que ele encontrou a felicidade e não quero entregar tudo, mas ele conhece alguém adorável, está em uma cidade adorável e parece estar em paz. Esse parece ser um bom lugar para parar. Eu não sabia que haveria três (filmes). Definitivamente não sabia disso quando fizemos o primeiro. Eu não sabia como isso terminaria – disse Denzel Washington à Empire, dando a entender que Robert McCall vai se aposentar realmente, desta vez. 

No Capítulo Final, Robert McCall vai ao sul da Itália em uma missão pessoal e, levado pelas circunstâncias, acaba se afeiçoando à pequena cidade onde se encontra, quando descobre que ali todos estão sob o controle da máfia. Não dá outra. Não sobra um mafioso para contar a história. 

Na trilogia, Denzel Washington encarna o agente secreto aposentado Robert McCall, que se torna justiceiro. Como tal, é uma máquina de matar. Os enredos dos três filmes nada têm de extraordinário. O deste último é do trio Richard Wenk, Michael Sloan e Richard Lindheim. Meio arrastado. Mas Denzel Washington é um dos melhores atores de Hollywood. Isso, aliado à cuidadosa produção da trilogia, fez de O Protetor um sucesso. E só. 

Não é como, por exemplo, John Wick. Nos quatro filmes da franquia, a partir do universo do assassino aposentado e da própria personagem, fascinante, encarnada por Keanu Reeves, dá para criar um mundo de histórias. 

Certa vez comecei a fazer um curso de italiano e a professora, uma senhora espirituosa e viajada, me perguntou por que eu queria aprender italiano. Talvez ela tenha feito essa pergunta a mim porque a turma tinha mais adolescentes e eu era um dos poucos velhotes em sala. Ela completou a pergunta comentando que a Itália, apesar de ser uma botinha no Mediterrâneo, tinha seis máfias, além do que o italiano tem mais grego do que latim. 

Concordei com ela, mas lhe disse que ninguém deveria morrer sem antes conhecer a Itália. Ela entendeu. Os roteiristas e Fuqua exploraram isso. 

As máfias italianas são: Ndrangheta, Camorra, Cosa Nostra, Stidda, Sacra Corona Unita, Bando della Magliana e uma sétima, Máfia Capital. A Ndrangheta, um verdadeiro sindicato do crime organizado, remonta ao século XVIII. É considerada a mais poderosa do mundo. McCall se mete com a Camorra, que fatura 5 bilhões de dólares por ano, principalmente com o tráfico de drogas. 

Contando com cerca de 110 famílias operacionais e 7 mil afiliados, também opera com agiotagem, extorsão, contrabando de cigarros e de carne, fraude, jogo clandestino, prostituição, tráfico de pessoas e taxa de proteção. Já estaria operando no Brasil? 

Máfia é um sindicato do crime organizado, secreto, regido pelo silêncio e extrema violência. É raro identificar um chefão. Procuram se infiltrar nas instituições do Estado, principalmente nos meios políticos, mas, às vezes, seus chefes são os próprios. 

De acordo com o acadêmico Diego Gambetta , a palavra “máfia” é oriunda do siciliano “mafiusu”, por sua vez do árabe “mahyas”, que significa “orgulho”, ou “marfud”,  “rejeitado”. No século XIX, significava uma pessoa orgulhosa e destemida. O etnógrafo siciliano Giuseppe Pitrè afirma que a associação da palavra máfia com o crime ocorreu em 1863, na peça I mafiusi di la Vicaria (O Belo Povo da Vicaria), de Giuseppe Rizzotto e Gaetano Mosca, que trata sobre gangs na prisão de Palermo. A palavra “máfia” foi utilizada pela primeira vez, oficialmente, em 1865, em um relatório do prefeito de Palermo, Filippo Antonio Gualterio. 

Esse tipo de organização surgiu no sul da Itália, na Idade Média, quando pequenos proprietários de terras eram explorados por senhores feudais. Assim, criaram um sistema de cotização para se armarem e sabotarem as terras dos senhores feudais. Quem não pagasse tinha o próprio gado e as plantações arrasados. Era a proteção forçada, método que se espalhou para todo o planeta. 

De modo que foi da Itália que o termo máfia passou a caracterizar o crime organizado, como a máfia russa, a máfia japonesa (Yakuza), o Primeiro Comando da Capital etc. 

A trilogia O Poderoso Chefão, dirigido por Francis Ford Coppola, baseada no livro homônimo de Mario Puzo, mostra o crescimento da máfia, a Cosa Nostra, nos Estados Unidos. A trama do último filme da série se passa em torno da lavagem de dinheiro por meio da associação com uma imobiliária, envolvendo injeção de centenas de milhões de dólares no Banco do Vaticano. 

Em meados dos anos 1980, a máfia italiana conseguiu aparelhar o poder público. Aí o Estado criou a Operação Mãos Limpas e centenas de mafiosos foram presos e condenados, apesar dos 24 juízes e promotores assassinados durante o processo. 

No Brasil, que tem 53 facções, como são chamadas as máfias locais, o então juiz Sergio Moro, hoje senador, fez uma Operação Mãos Limpas, a Lava Jato, mas o Supremo Tribunal Federal (STF) soltou todo mundo e Moro quase é assassinado pelo Primeiro Comando da Capital (PCC), sediado em São Paulo/SP e presente em 24 estados e no Distrito Federal.

O Amapá, meu estado natal, está nas mãos do PCC, Comando Vermelho, Família Terror do Amapá e União do Crime do Amapá. O Setentrião se tornou um corredor do narcotráfico.

sábado, 7 de outubro de 2023

A Amazônia exporta energia elétrica, mas os consumidores da região pagam a luz mais cara do país ou iluminam suas casas com lamparina

RAY CUNHA

BRASÍLIA, 7 DE OUTUBRO DE 2023 – Realismo mágico, ou realismo fantástico, é uma corrente artística ibero-americana oriunda da literatura fantástica europeia. Sua característica fundamental é que a realidade material se entrelaça com o plano espiritual no cotidiano. No meu romance A CASA AMARELA há uma dependência onde mortos, como Ernest Hemingway e Antoine de Saint-Exupéry, se encontram para bater papo, e uma seringueira manifesta sentimentos humanos, como quando o herói da história é assassinado e a árvore se agita sem vento algum e chora látex. 

No Brasil, se falarmos de celebridades que se utilizaram do realismo mágico, temos os baianos Jorge Amado e Dias Gomes. Na Ibero-América, destacam-se o mexicano Juan Rulfo e o colombiano Gabriel García Márquez, Prêmio Nobel de Literatura, em 1982. O romance Cem anos de solidão, de Gabo, publicado em 1967, é emblemático. Entre escritores amigos meus cito dois: o amazonense Isaías Oliveira, autor de A Dimensão dos Encantados, e o amapaense Fernando Canto, autor dos contos Mama Guga, O Bálsamo e Os Tempos Insanos (ou My friend Mundico). 

A principal característica dos povos amazônicos é sua alma de colonizado, a subserviência aos políticos e empresários, sua superstição. O amazônida é uma espécie de escravo. A Amazônia é o coração das trevas, a África do século XIX, onde as potências hegemônicas perpetram todo tipo de pilhagem, por meio de ONGs, e Brasília também participa do butim, mas legalmente. Para sobreviver ao saque, ao tráfico de mulheres e crianças para escravidão sexual e venda de órgãos, à falta energia elétrica, uma tecnologia básica para o desenvolvimento, o amazônida é a personagem central do realismo mágico. 

Pouca gente sabe que a Amazônia gera 26% da energia elétrica do país, mas pelo menos 1 milhão de amazônidas vivem no escuro e outros 3 milhões estão fora do Sistema Interligado Nacional (SIN), que conecta usinas e consumidores, porque a Amazônia exporta energia elétrica para outras regiões. Populações que vivem próximas de usinas hidrelétricas da região usam lamparina, enquanto a energia gerada vai para o Sudeste. 

E de onde vem o dinheiro para incentivar a instalação de usinas solares e aquelas torres, inúteis, de geração de energia eólica? É o consumir brasileiro, que paga uma das maiores cargas de impostos do planeta e ainda tem que sustentar a vida luxuosa dos donos das empresas de energia elétrica, com aval do Congresso Nacional.  

O marco regulatório da produção e distribuição de energia elétrica no Brasil é diabólico. O governo propagandeia que está fazendo isso e aquilo para baratear a energia elétrica, que está lançando um novo programa de subsídio para a indústria etc. etc., que está levando energia elétrica para aqui e acolá, e envia a conta, todo mês, para o consumidor doméstico, que já paga, religiosamente, Imposto de Renda e praticamente o oxigênio que respira.

O Pará é o segundo maior produtor de energia elétrica do país, atrás apenas de São Paulo. Produz 12,24% da energia nacional e exporta 11% dela, ficando, para os paraenses, 1,24%. É fantástico! 

Mas é o Amapá o estado mais simbólico da desgraceira energética da Amazônia. Os amapaenses vivem o pesadelo do apagão o tempo todo. Haja coração! Só com muito açaí! O Amapá vive no apagão, mas exporta energia, porque a legislação brasileira determina que é assim mesmo. 

Das quatro hidrelétricas no estado somente Coaracy Nunes, do Sistema Eletrobras, fornece energia para a população local. As outras três, Cachoeira Caldeirão, Santo Antônio do Jari e Ferreira Gomes, exportam sua produção para outras regiões do país, porque são concessões privadas integradas ao Sistema Interligado Nacional, que exporta energia.

Então, o Linhão não é para levar energia elétrica para o Amapá, mas para escoar a energia produzida lá. Os amapaenses que se ralem. 

Em novembro de 2020, em plena pandemia do vírus chinês, um incêndio em uma subestação de Macapá mergulhou 13 dos 16 municípios amapaenses, 90% do estado, 700 mil pessoas, nas trevas, durante 22 dias. Muita gente morreu por falta de oxigênio nos hospitais, de calor e em latrocínio, empresários faliram e os hospitais fediam a defunto se deteriorando. Mas o amapaense paga luz mais cara do que um morador de Ipanema ou Leblon, no Rio, ou do Sudoeste, em Brasília. 

Recentemente, em entrevista a um pool de emissoras de rádio do norte do país, o presidente Lula foi informado pelo jornalista Luiz Melo, do Sistema Diário de Comunicação, de Macapá, que o consumidor amapaense paga a maior tarifa energética do país. Ficou com aquela cara de quem não sabe de nada, mas comunicou que está em elaboração um novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), para a produção de energia eólica, solar e de etanol. Porém o marco regulatório manda a conta de qualquer investimento no setor para o consumidor doméstico. 

O marco legal da produção, distribuição e custo para a população de energia elétrica no país é um emaranhado que só tributaristas entendem, feito para beneficiar meia dúzia de bilionários, que, por sua vez, enchem os bolsos de políticos, à custa do povo brasileiro, com aval dos representantes desse povo no Congresso Nacional. 

A deputada Silvia Waiãpi (PL/AP), uma das parlamentares mais atuantes da bancada amazônica no Congresso, se debruçou sobre a legislação do setor elétrico e, até novembro, entrará com um projeto para pôr um fim a essa tragédia, mudando radicalmente a legislação. Será uma queda de braço entre Davi e Golias, mas com a bancada da Amazônia imbuída de defender a Hileia pressionada de perto pelos povos amazônicos quem sabe a situação mude?

Macapá não é Macondo. Não precisa viver cem anos de solidão.

quinta-feira, 5 de outubro de 2023

Silvia Waiãpi: a extração de petróleo na foz do Amazonas é inevitável. O país está num atoleiro

Para Silvia Waiãpi o petróleo amapaense pode ser a saída do atoleiro
em que o país foi enfiado (Pablo Valadares/Câmara dos Deputados)

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 5 DE OUTUBRO DE 2023 – A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, disse na Câmara dos Deputados que o veto do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) à extração de petróleo na foz do rio Amazonas, no litoral do Amapá, é técnico. 

A deputada Silvia Waiãpi (PL/AP), estudiosa do assunto, me disse ontem que o veto vai cair, porque o governo Lula cavou um atoleiro. Para ela, a liberação da extração de petróleo na foz do rio amazonas é inevitável. Quanto à Marina Silva, até dezembro Lula bolará uma retirada honrada da deputada acriana, mas eleita pelos paulistas, pela Rede. 

Em sete meses de governo, o presidente Lula e o gênio da economia o ministro Fernando Haddad já atolaram o país em um rombo de 100 bilhões de reais. Rombo nas contas públicas acontece quando o governo gasta mais do que arrecada. E Lula gasta com fúria, principalmente no jogo fisiológico com o Congresso Nacional. Porém o atoleiro é mais fundo. Chama-se inflação. 

O presidente Jair Messias Bolsonaro deixou um superávit de 58 bilhões de reais, embora tenha extinguido vários impostos. 

Só no primeiro semestre deste ano, 427.934 empresas fecharam as portas e os investidores estrangeiros estão ressabiados com a insegurança política no Brasil. Lula se alinhou com a China, Venezuela, Cuba e outras ditaduras, e partiu para o confronto ideológico com os Estados Unidos. 

A Margem Equatorial, a 60 quilômetros da costa do Amapá, contém cerca de 30 bilhões de barris de petróleo e a Petrobrás tem expertise em águas profundas. Enquanto isso, a vizinha Guiana, também nadando em petróleo, já está explorando seu quintal atlântico, de mais de 11 bilhões de barris. 

Quanto ao Amapá, é uma das unidades mais pobres da federação. Isolado do restante do país pelo maior rio do mundo, o Amazonas, ao sul, e pela Hileia e as Montanhas do Tumucumaque, a oeste, faz fronteira com a Guiana Francesa e com o Suriname ao norte. Além da carestia de produtos importados de outros estados, devido ao transporte, os amapaenses vivem assombrados por apagões. 

Macapá, a capital, é banhada pelo rio Amazonas, que despeja em média no Atlântico 200 mil metros cúbicos de água por segundo, mas é comum abrir-se a torneira e sair lama. Nos apagões, os prejuízos são incontáveis. A cidade também não conta com esgotamento sanitário. Inchada e violenta, tem escritório de todas as facções brasileiras cobrando pedágios caríssimos, como a vida.

De modo que boa parte dos tucujus (macapaenses) vê com esperança os royalties do petróleo.

sexta-feira, 29 de setembro de 2023

O poderoso Prizzi e o comunismo meia-boca

Kathleen Turner é uma esposa meiga e louca por dinheiro

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 29 DE SETEMBRO DE 2023 – Não há comunismo sem revolução, sem sangue em escala e sem apoio das forças armadas do país. É por isso que, mesmo com o Brasil fazendo mesuras para o Partido Comunista Chinês, os Estados Unidos ainda não deram uma resposta avassaladora a nós. A China é uma potência nuclear capaz de fazer frente a qualquer nação do planeta, menos aos Estados Unidos. Já se sabe, por uma informação aqui, outra ali, que antes que a China consiga jogar uma bomba de hidrogênio sobre os Estados Unidos poderá ser varrida do mapa. Aí, nesse caso, a Terra virará um inferno. 

Mas tem uma hora que o capeta consegue dar uma cutucada com terçado nos ovos do dragão; não o chinês, mas o americano, mesmo, a águia. Mas são só negócios. Como no filme A Honra do Poderoso Prizzi. 

Prizzi's Honor é o penúltimo filme de John Huston, de 1985 (o derradeiro é Os vivos e os mortos, de 1988, adaptado de um conto de James Joyce). Lembro quando o vi na estreia no Brasil, em Belém do Pará. Baseado em um romance de Richard Condon, o roteiro, de Condon e Janet Roach, é impecável; a fotografia, de Andrzej Bartkowiak, é belíssima, e por aí vai. No elenco, um dos maiores atores de todos os tempos, Jack Nicholson, contracena com a deslumbrante Kathleen Turner e com uma Anjelica Huston no auge. 

Não deu outra: oito indicações ao Oscar: Filme, Diretor, Ator (Jack Nicholson), Ator Coadjuvante (William Hickey), Atriz Coadjuvante (Anjelica Huston), Roteiro Adaptado, Montagem e Figurino. Anjelica Huston levou o Oscar de Atriz Coadjuvante. O filme ganhou também quatro Golden Globe: Melhor Comédia/Musical, Diretor, Ator Comédia/Musical (Jack Nicholson) e Atriz Comédia/Musical (Kathleen Turner). 

Prizzi é um filme de máfia e uma comédia de humor negro. Nicholson encarna Charley Partanna, assassino profissional, afilhado do poderoso Don Corrado Prizzi (William Hickey), chefão de uma poderosa família mafiosa dos Estados Unidos, e separado da neta de Don Corrado, Maerose (Anjelica Huston). 

Durante uma festa de casamento, Partanna conhece e se apaixona instantaneamente pela deslumbrante Irene Walker (Kathleen Turner), que está em Nova York a trabalho e corresponde à paixão avassaladora de Partanna. Começa, aí, um desses relacionamentos tórridos, de horas e horas dedicadas ao esporte sexual. Mas o problema lateja o tempo todo: Irene é também assassina profissional. E em curto espaço de tempo um acaba sendo contratado para matar o outro. 

Enquanto isso, Don Corrado Prizzi, um velhinho encarquilhado, encurvado, fumante inveterado, manipula a todos com maestria, movido pela máxima: são só negócios. E o negócio dele é apenas um: dinheiro. 

Isso parece um roteiro hodierno, envolvendo marionetistas exímios, velhos bichados, predadoras, assassinatos misteriosos e tentativas de homicídio. O problema, neste caso, é que há vários capo di tutti capi e todos os mafiosos estão com seus cofres secos, e a burra também está seca. Assim, é preciso tomar dos outros tudo o que é comercialmente valioso e vender o fruto do assalto no mercado negro. Como fazem os mafiosos. 

As máfias do mundo inteiro agem como um estado dentro do estado, para o que aparelham as instituições do estado legal, especialmente a polícia. Quando conseguem seduzir as forças armadas, aí se instalam como carrapatos; é o que chamamos de ditadura totalitária, como na China, Cuba, Venezuela etc. A Rússia continua ditadura meia-boca, pois Vladimir Putin, o capo di tutti capi russo, ainda não conseguiu restaurar inteiramente o czarismo, ou comunismo. 

Segundo a Espiritualidade, o Brasil é o coração do mundo, a pátria do Evangelho. Este paraíso tropical, com 8.515.759 quilômetros quadrados e 214 milhões de habitantes, abriga todas as religiões do planeta e todas as etnias. Aqui, europeu procria com índio, africano, asiático, e todos procriam com todos, gerando mulatos, mamelucos e cafuzos. É um povo amoroso e alegre.

É verdade que boa parte do povo brasileiro é alienada, ao que os comunistas chamam de idiota útil, mas gafanhotos não se dão bem com o nosso sol e com a vibração de amor emanado do povo, mesmo que as máfias brasileiras, chamadas de facções, estejam aparelhadas pelos magos negros. O resultado é que o poder do capo di tutti capi é o de um pato manco, de andador.

segunda-feira, 25 de setembro de 2023

Crianças não estão à venda. São filhos de Deus

RAY CUNHA

BRASÍLIA, 25 DE SETEMBRO DE 2023 – A presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) é uma gaúcha de 74 anos, nascida em Porto Alegre, em 2 de outubro de 1948. Tem um casal de filhos. Sexta-feira 22, ela votou pela descriminalização do aborto até 12 semanas de gestação, praticamente três meses. Adiante, talvez passe para seis meses. Se essa monstruosidade passar no Supremo significa que a mãe que quiser matar seu feto de três meses está autorizada a mandar bala. A menos que o Congresso Nacional impeça a matança. 

A ministra argumenta que não há consenso sobre o início da vida humana. A ciência e a espiritualidade já confirmaram: a vida física começa na concepção. Biologicamente, se há concepção há nova vida, e se há nova vida é porque o plano espiritual já planejou tudo. Ela fala também em Estado de Direito. Não vou entrar no mérito. 

Na mesma sexta-feira 22, Rosa Weber participou do seminário comemorativo dos quatro anos do Pacto Nacional pela Primeira Infância, no auditório do Superior Tribunal de Justiça (STJ). No discurso de abertura, a presidente do Supremo e do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) afirmou que o pleno desenvolvimento das crianças deve ser compartilhado entre família, sociedade e Estado, lembrando Nelson Mandela ao dizer que cuidar das crianças de um país com justiça e carinho é a maior expressão da alma de uma nação. 

A vida das crianças nunca foi moleza. Em momento algum da história da humanidade. Muitos dos que não são assassinados no ventre da mãe são escravizados. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), todos os anos, 1,2 milhão de crianças desaparecem no mundo. No Brasil, 50 mil crianças são sequestradas por ano – 137 por dia. 

Som da Liberdade, do roteirista e diretor Alejandro Monteverde, em cartaz nos cinemas, foi concluído em 2018. No ano seguinte, quando deveria ser lançado, a Disney comprou a produtora do filme e o guardou na geladeira, até que os produtores o compraram e só agora fizeram o lançamento mundial. O longa dramatiza os relatos reais de um ex-agente do governo dos Estados Unidos, Tim Ballard, vivido por Jim Caviezel, que trabalhou no resgate de crianças, “filhos de Deus que não estão à venda”, das garras de traficantes sexuais. 

O tema é tão diabólico que nem Jim Caviezel bota o filme a perder. Caviezel é canastrão; tem o olhar de um poste. E o enredo é simplório demais. Não se aprofunda na carniça que é a pornografia infantil. 

Fui ver o filme porque já pesquisei o tema, para meu romance O CLUBE DOS ONIPOTENTES. Mas antes do CLUBE, a Editora Cejup, de Belém do Pará, publicou, em 1996, meu conto A CAÇA, que voltou a ser publicado em 2008, no livro O CASULO EXPOSTO, pela LGE Editora, hoje, Libri Editorial, de Brasília. No volume da Editora Cejup, o sociólogo, ensaísta e contista Fernando Canto escreveu na orelha do livro o seguinte: 

“A obstinação de um professor em busca da filha sequestrada por traficantes de crianças move, com muita velocidade, esta novela de Ray Cunha. A CAÇA flui em linguagem direta, enxuta, que, aliás, é o estilo deste autor inquieto e que manda às favas os adjetivos inúteis, preferindo a ação aos conceitos, com o objetivo de produzir uma narrativa rica e movimentada. 

“Como toda boa história, A CAÇA carrega no seu bojo a condição maniqueísta de homens gastos pelas agruras do cotidiano, em que os mais diversos sentimentos tomam conta dos personagens e permite que se observe a condição humana a partir de gestos que exprimem a traição e o ciúme, a luta pelo poder e pelo dinheiro, além da clara tensão para ver resolvidos seus problemas e obsessões. 

“Ray Cunha sustenta sua casa trabalhando como jornalista, e talvez por conhecer tão bem a redação de um jornal faz conduzir esta história a partir da construção de um personagem-narrador, também jornalista – Reinaldo –, que ressurge após protagonizar A GRANDE FARRA, primeira novela do autor. 

“A CAÇA é uma história bem articulada e de uma ambientação e temática pouco explorada na literatura brasileira, talvez por ser atual e refletir os problemas que afligem as pobres sociedades latino-americanas. É um livro para ser bebido como um bom scotch, a fim de que o leitor possa saboreá-lo”. 

Em O CLUBE DOS ONIPOTENTES, há um levantamento sobre a indústria da escravidão de crianças: “Em 2010, uma de cada quatro pessoas traficadas no mundo era criança. Em algumas regiões, porém, o número de crianças supera o de adultos; por exemplo, em países da África, dos Andes, dos Bálcãs e do Sudeste Asiático. As crianças são usadas como escravas sexuais, para transportar drogas, para extração de órgãos, para trabalho estafante e até como soldados. Segundo a ONU, entre janeiro de 2012 e agosto de 2013, na República Democrática do Congo, África, foram registrados cerca de mil casos de crianças recrutadas por grupos armados congoleses. 

“Relatório do Departamento de Estado americano dá conta de que na Papua Nova Guiné, Ásia, crianças com até cinco anos são entregues à exploração sexual ou trabalho forçado por seus próprios parentes, e líderes tribais chegam a trocar crianças e mulheres por vantagens políticas e armas. Na China, a política de filho único levou ao infanticídio de meninas e à consequente falta de noivas. Aí, o tráfico de meninas foi intensificado no vizinho Mianmar rumo à China. Segundo relatório da ONU, somente em 2010 foram registrados 122 desses casos. No Laos e Camboja, Ásia, escravos são levados para alto-mar, onde trabalham até 20 horas por dia, sete dias por semana. Os doentes ou muito fracos são mortos e atirados no mar”. 

Essas crianças conseguiram nascer, mas, em um descuido dos seus pais, ou a confiança deles na conversa de hienas, elas são levadas, desaparecem, e seus destinos são crudelíssimos. Não dá nem para pensar nisso.

Já que começamos essa história falando em aborto, sabiam que os fetos choram, gritam, berram, quando o cirurgião está cutucando-os, cortando-os, até conseguir extrair os pedaços? Ou quando são envenenados pela própria mãe. Mas ninguém os ouve, pois gritam aqueles gritos mudos, de pesadelo.

sábado, 9 de setembro de 2023

Nordestinos são duplamente castigados: abandonados pelo pai dos pobres, são acusados nas redes sociais de terem levado Lula à vitória

Janja, de vermelho, posa fazendo o L, ao lado do pai dos pobres

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 9 DE SETEMBRO DE 2023 – Trabalhei em redações de jornais impressos e de portais durante mais de 40 anos; a partir de um certo momento percebi que a maior parte do que era publicado era baseada em meias verdades e mentira em estado bruto. Hoje, a grande mídia é propaganda pura. Assim, leio e ouço alguns jornalistas em quem confio e as redes sociais. 

O presidente Jair Messias Bolsonaro foi revolucionário em vários aspectos. Por exemplo: foi o primeiro presidente a tratar com realismo e seriedade o Nordeste, assim como a Amazônia. Com relação ao Nordeste, Bolsonaro levou água e quando começou a tirar o povo da miséria foi nocauteado. 

Os nordestinos foram abandonados pelo presidente Lula da Silva. Estão entregues à própria sorte, tanto que já houve até greve de prefeitos nordestinos. Nas eleições presidenciais de 2022, Bolsonaro perdeu no Nordeste. Assim, muita gente posta nas redes sociais desabafos contra os nordestinos. Porém “há mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia” – como disse William Shakespeare. 

Segundo as urnas eletrônicas, no segundo turno, Lula ganhou em 13 estados: Alagoas, Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Minas Gerais, Pará, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte, Sergipe e Tocantins. 

Bolsonaro ganhou em 14 estados: Acre, Amapá, Distrito Federal, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Rondônia, Roraima, Santa Catarina e São Paulo. 

Mesmo assim Bolsonaro perdeu. O estranho é que desde candidato, em 2018, onde quer que Bolsonaro apareça é ovacionado por multidões, enquanto que Lula é apupado. Hoje, Lula só vive em palácio e hotéis seis estrelas. A CPMI de 8 de Janeiro já esclareceu o que houve naquela data. 

Quanto a Bolsonaro, eviscerado, em 2018, sabe que se for preso pelo sistema não haverá Santa Casa de Misericórdia que o salve.

Nesse 7 de Setembro, Lula e sua esposa, Janja, que estava de vermelho e fazendo o L, desfilaram em carro aberto, na Esplanada, para ninguém. Foi um funeral. A seguir, em vez de irem ao Rio Grande do Sul, assolado por temporais com dezenas de mortos, seguiram para um hotel de luxo na Índia.

Leia O CLUBE DOS ONIPOTENTES e saiba o que está por trás disso tudo.