domingo, 31 de março de 2019

Memórias da infância e juventude do irmão de um gênio das cores e da luz: Olivar Cunha

Sobrinhos Klingerly e Márcio, Linda (irmã), Marina (mãe), Olivar Cunha e Mel (irmã)

Por RAY CUNHA
raycunha@gmail.com

BRASÍLIA, 31 DE MARÇO DE 2019 – Nasceu pesando 3,5 quilos e mamou até aos dois anos. Depois que começou a articular as primeiras palavras, quando queria mamar, pedia “piti”. Pode ser por isso que se tornou o xodó da mãe, a bela Marina Pereira Silva Cunha, que já tinha, então, uma prole de quatro homens e duas mulheres; tivera três filhas, porém a mais velha morreu em tenra idade. Olivar Cunha é, portanto, o oitavo de 11 filhos, e o primeiro a nascer em Macapá, seguido por mais dois irmãos, entre os quais, eu, e uma irmã.

Morávamos na Rua Iracema Carvão Nunes, esquina com a Rua Eliezer Levy, numa casa amarela, remanescente do antigo aeroporto, ao lado do Colégio Amapaense.  No dia do nascimento do Olivar, 31 de março de 1952, nosso pai, João Raimundo Cunha, plantou a Seringueira que intercepta o muro oeste do Colégio Amapaense, na Rua Eliezer Levy, e que escapou de ser decepada graças à intervenção do engenheiro florestal Luiz Guilherme Dias Façanha, nascido em 18 de julho de 1952, e amigo de infância do Olivar.

Em 1983, Luiz Façanha trabalhava como especialista em seringueira (Hevea brasiliensis) na extinta Superintendência da Borracha (Sudhevea), um dos órgãos federais absorvidos pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). A Seringueira apresentava uma grande lesão no tronco. Debilitada, foi atacada por fungos e insetos.

Segundo Luiz Façanha, estudantes fizeram forte pressão junto à Prefeitura de Macapá e ao Governo do Estado para que autorizassem abater a árvore, alegando risco de vida para quem por ali transitava. Foi então que o repórter da Rede Globo, Antônio de Pádua, solicitou a Luiz Façanha que fizesse uma gravação no local, para dar sua opinião sobre o caso. Após minuciosa inspeção, Façanha verificou que a árvore estava se recuperando do ferimento, embora muito lentamente, e em razão disso posicionou-se contrário ao abate. “É claro que pesou na minha decisão todo o histórico da nossa infância brincando em volta daquela árvore: Olivar, João, Chico, Ray Cunha e eu.”

O fato é que a Rede Globo e Luiz Façanha salvaram a Seringueira. Em 2004, a Editora Cejup, de Belém do Pará, publicou meu romance A CASA AMARELA, ambientado em Macapá, a partir do ano de 1964. Nele, a Seringueira, já com inicial maiúscula, se tornou personagem do romance, com atitudes humanas, como, ao se emocionar, sacudir as folhas sem vento e verter leite sem golpe no tronco.

“Minha convivência com o Olivar foi, basicamente, no nosso período de infância. Estudamos juntos no então Grupo Escolar Anexo da Escola Normal e lá fizemos todo o Curso Primário, nos idos dos anos 1950/1960. Após as aulas, dividíamos nosso tempo brincando pelos quintais do seu João (pai do Olivar), correndo por cima dos muros e se pendurando nas árvores do quintal. Tempo bom que não volta mais” – lembra Luiz Façanha.

Olivar Cunha foi uma dessas crianças que as mulheres adoram apertar nos braços, beijar, acariciar. Não lembro quantos anos ele tinha quando sua então professora, que morava sozinha e que se manifesta, hoje, na minha memória, como uma mulata sensualíssima, se ofereceu para dar reforço escolar a ele na sua casa e ele não quis de jeito algum, porque, segundo pude intuir, mais tarde, de declarações suas, ela era exageradamente carinhosa para com ele, e ele ainda muito criança.

O gênio do artista plástico começou a se revelar no curso primário; seus trabalhos eram formalmente impecáveis, e já revelavam criatividade. Encarava também os trabalhos de educação artística de sua irmã Lindomar Cunha, então se preparando para trabalhar no jardim de infância. Pré-adolescente, começou a brincar com seu pequeno prato de massas coloridas e pincéis de tamanhos variados.

Sou dois anos mais jovem do que o Olivar. Em determinado momento da nossa vida, isso faz muita diferença. Aos 14 anos, em 1966, ele já pintava profissionalmente, saía à noite e bebia, e eu era um garoto de 12 anos. Aos 15, expôs pela primeira vez, e andava na companhia dos artistas mais conhecidos da cidade: o poeta Isnard Brandão Lima Filho, o escritor Alcy Araújo e o pintor Raimundo Peixe, além do nosso irmão Pedro Cunha, então com 22 anos, e que era, naquele momento, uma espécie de guru para o Olivar. Eu tinha 13 anos. Lembro-me que fiquei deslumbrado com a estreia do Olivar.

Comecei também a sair à noite, a beber e a frequentar a casa do poeta Isnard Brandão Lima Filho aos 14 anos. O Olivar estava com 16. Durante algum tempo, ele não aceitava que eu mergulhasse na vida noturna, e deixava claro que minha presença no mundo underground de Macapá, onde ele circulava, não era bem-vinda. Então, eu procurava evitar os bares frequentados por ele. Mas chegou um momento em que teve que me aceitar, pois me impus, seja lendo bastante e me tornando interessante nas rodas de artistas, seja porque bebia cada vez mais pesadamente, o que fazia de mim um adolescente irreverente, iconoclasta, que impunha respeito pelas besteiras que pudesse fazer caso fosse provocado.

Só que o Olivar estava muito além de mim, como, aliás, sempre esteve. Tornou-se um rapaz muito bonito, apolíneo, ariano, bom de porrada que só ele mesmo, hedonista, e que cada vez mais dominava as cores e a luz. Eu, que já o admirava, comecei a idolatrá-lo. Permaneci em Macapá durante meus primeiros 17 anos, quando, em dezembro de 1971, publiquei o livro de poemas Xarda Misturada, juntamente com José Edson dos Santos (Joy Edson) e José Montoril. No ano seguinte, comecei um período de 10 anos na estrada, começando pela viagem de Macapá ao Rio de Janeiro, em 1972, quando viajei de barco de Macapá para Belém, onde peguei carona para Brasília e daqui fui de ônibus para Rio.

De modo que o período mais intenso que convivi com Olivar Cunha foi dos meus 14 aos 17 anos, juntamente com artistas locais, como Joy Edson, Fernando Canto, Poeta Galego, Alcinéa Cavalcante, José Montoril, além de Isnard Brandão Lima Filho, pai literário da minha geração. Não sei agora, mas, naquela época, os artistas de Macapá incensavam uns aos outros, nos prefácios dos seus livros, em artigos e nas rodas de papo. Mais tarde, lendo biógrafos ingleses e americanos, observei como os biografados, por mais geniais que sejam, são dissecados, e, seus defeitos, checados, e revelados sem dó nem piedade, o que adotei neste curtíssimo ensaio biográfico sobre Olivar Cunha: sem incenso, revelando o homem através da lente mais precisa possível, muito embora, estou ciente disto, resgatar como as coisas eram seja tarefa impossível, ainda mais em um trabalho tão curto quanto este, com epicentro em apenas três anos e foco em uma personalidade tão extraordinária e que tanta emoção me provoca.

Contudo, o homem que vai surgindo na minha lembrança é o mesmo que me disse, certa vez, que “viver é um tesão”, um homem capaz de tomar um litro de Run Bacardi sozinho ao longo de um bate-papo, de sair para a porrada contra dois oponentes e se sair bem, de fumar três maços de cigarros em uma noite, de beber durante 48 horas seguidas, de pintar madrugada adentro. O Olivar Cunha que habita minha memória é beberrão, machão, idealista, bom de porrada, belo, amado, adorado, incansável como Pablo Picasso e esquizofrênico como Van Gogh.

Uma madrugada, um marchand francês acordou todo mundo, em casa, porque teria que viajar para a França naquela manhã e queria porque queria levar alguns quadros do Olivar, e levou o que estava disponível. Acho que foi mais ou menos por essa época que ele pintou os Beatles, 1969. Juntou na tela vários momentos diferentes do Beatles, recortando fotos de várias revistas, reproduzindo-as naquele óleo. Mais ou menos em 1970, vendeu o quadro dos Beatles para Luiz Façanha, que o mantém na casa dele, no Recife, onde mora.

Nas décadas de 1970/1980, casado com Maria da Glória Nascimento Cunha, o artista morou em Belém, quando produziu algumas dezenas de telas que o colocam como um dos mais importantes artistas plásticos contemporâneos: seus mendigos do Guamá, subúrbio da Cidade das Mangueiras, são chocantes. Olivar e Glória namoraram durante 7 anos e foram casados por 7 anos. Ela partiu cedo para o mundo espiritual. Em Belém, Olivar ganhou um novo nome: Lili, batizado pela sua filha Tatiana, assim que ela aprendeu a falar, e que lhe deu um neto: Bernardo Cunha Barros, hoje com 4 anos. Lili teve outra princesa com Glória: Taiana, que lhe deu um neto: Alexandre Cunha de Sousa, hoje com 3 anos.

Viúvo, Lili foi para o Rio de Janeiro, estudar artes plásticas no Parque Lage. De volta a Macapá, conhece a capixaba Célia Maria Rocha Cunha, em 1986, casam-se no ano seguinte, e, em agosto de 1988, mudam para o Espírito Santo, onde nascem os filhos Ângelo Ticiano Rocha Cunha e Luciano Rocha Cunha.

Nos anos de 1990, consolida sua posição como um dos grandes expressionistas contemporâneos, com a série de animais agonizando nos esgotos das grandes cidades, como na impressionante acrílica sobre tela Tuiuiú Crucificado, sobre a baía de Guanabara – talvez o berro mais fovista, o grito mais expressionista de Olivar Cunha. Ele pintou esse quadro em três meses, em 1992, em seu apartamento na praia atlântica de Jacaraípe, distrito do município de Serra, na grande Vitória do Espírito Santo.

Trata-se de uma acrílica sobre tela, em espátula e pincel, de 120 por 100 centímetros. Pertence à fase que o pintor chama de Habitat Transform, desenvolvida no Rio de Janeiro e em Jacaraípe, após pesquisa sobre a devastação da flora e da fauna do Amapá, do Pará e do Pantanal. Depois que se mudou para Jacaraípe, começou também a recuperar obras sacras de igrejas da região.

Apesar de contar com o mar onde foi fisgado o maior marlim azul do mundo, o Atlântico ao largo do Espírito Santo, é a Amazônia que pulsa nas telas do gênio, recriada à base de espilantol, o princípio ativo do jambu. O tacacá, que leva jambu, é gostoso servido naquele momento de transição em que a tarde escoa como um rio de planície, que vai se esvaindo, lentamente, ao mergulhar nas luzes do anoitecer. É o espilantol que dá aquela sensação de dormência nas papilas gustativas, ativando as papilas da alma. Então, sentimos gosto de Cerpinha, Run Bacardi, a vertigem do beijo, som de merengue.

O gênio pinta a alma das suas criaturas, sejam elas pessoas ou paisagens. Assim, as telas de Olivar Cunha gritam como o coração das trevas, mas também pulsam no rio da tarde, prenhes do perfume dos jasmineiros noturnos. O artista dá à luz a Amazônia eternamente viva, a Hileia que só os cabocos entendem – os apreciadores de merengue, de mapará assado na brasa servido com pirão de açaí, os que se emocionam com o trotar da mulher amazônida no calor equatorial, o mergulho no rio que deságua na tarde, os segredos que se encerram na Fortaleza de São José de Macapá, no Trapiche Eliezer Levy, no Ver-O-Peso, na Estação das Docas, em Mosqueiro, em Salinas, no Bailique, em Caiena.

Convivi com Lili, em outros momentos da minha vida, em Belém e no Rio de Janeiro. A presença dele, sua simples lembrança, me causa sempre alegria, uma espécie de sensação de coisa nova, de descoberta, de novas possibilidades, de viagem, de aventura. Ele emana uma força poderosa até no repouso, no silêncio, na simplicidade. Mas seu grande poder se manifesta ao usar a paleta, o pincel e a espátula, ao conceder à luz o triunfo.

domingo, 24 de março de 2019

Livro da jornalista Sônia Zaghetto conta a saga da fronteira entre o Amapá e a Guiana Francesa



RAY CUNHA
raycunha@gmail.com

BRASÍLIA, 24 DE MARÇO DE 2019 – A jornalista Sônia Zaghetto autografa nesta segunda-feira 25, na biblioteca do Senado Federal, o livro História de Oiapoque, o município mais ao norte da costa atlântica brasileira, no estado do Amapá, Amazônia Oriental, ligado à Guiana Francesa por uma ponte que cruza o rio Oiapoque. A edição teve apoio do senador Randolfe Rodrigues (Rede/AP), que é professor de História. “São relatos extraordinários que o Amapá e o mundo precisam conhecer” – declarou. O Amapá só não foi anexado pela França porque os paraenses lutaram bravamente pela posse do setentrião, que pertencia ao Pará, e também porque contou com a genialidade diplomática do Barão do Rio Branco.

“A história da fronteira Brasil-França é muito rica. Ela foi sufocada pelas mazelas que hoje atingem a Amazônia: miséria, garimpo, poluição, abandono, danos ambientais. Minha esperança é que este livro remova a poeira do tempo e traga de volta as histórias de um passado aventureiro e fascinante. Os oiapoquenses devem se orgulhar de viver em um lugar extraordinário e de enorme importância histórica” – disse a autora, que está se mudando para a Califórnia, EUA, mas prometeu um romance ambientado na fronteira do Amapá com a Guiana Francesa.

A PONTE – Iniciada por iniciativa dos ex-presidentes do Brasil, Fernando Henrique Cardoso, e da França, Jacques Chirac, em 1997 a ponte foi concluída em 2011. Com 378 metros de extensão e ao custo de R$ 70 milhões, só agora, em março corrente, começou a funcionar no lado brasileiro, por insistência da França e a meio-pau, enquanto no lado francês tudo ficou pronto em 2011 mesmo, quando a França concluiu toda a estrutura viária e aduaneira, incluindo a rodovia de 200 quilômetros entre Saint Georges de l’Oyapock a Caiene, com aquele asfalto caprichado visto nos Estados Unidos e Europa, e não o asfalto infame do Brasil.

No Amapá, o tempo é mais lento. A BR-156, que liga Macapá a Oiapoque, começou a ser construída na década de 1940, mas ainda há 110 quilômetros sem asfalto, o que se transforma em um inferno de lama durante 6 meses de chuvas e de poeira no período da estiagem. A previsão é que esses 110 quilômetros só fiquem prontos em 3 anos. A menos que o Exército entre na jogada.

Para o Amapá, a ponte é estratégica. Com 142.814,585 quilômetros quadrados, o Amapá é potencialmente rico, mas precisa, urgentemente, de infraestrutura básica para se desenvolver. Cortado longitudinalmente pela BR-156, o Amapá tem potencial econômico fabuloso, como, aliás, todos os estados da Amazônia, mas a roubalheira desenfreada; o tráfico de drogas, mulheres e crianças; a mentalidade de colonizado do amazônida; e a politicagem, tornam a região refém de mazelas crônicas.

Tão próximo da União Europeia e à margem do maior rio do mundo, o Amazonas, as costas do Amapá recebem 20% da água doce superficial do planeta e 3 milhões de toneladas de húmus por dia, ricas em manguezais e fabulosas em vidas marinhas, embora sejam as mais mal guardadas pela Marinha de Guerra e, também por isso, as mais disputadas pela pirataria global.

Macapá, na margem esquerda do Amazonas, a cerca de 200 quilômetros da boca do Mar Doce e seccionada pela Linha Imaginária do Equador, conta com aeroporto internacional e dista 8 horas de navio, ou 16 horas de barco, ou 50 minutos de avião, da Guiana Francesa, porta da União Europeia; e o porto mais estratégico da Amazônia, o de Santana, na região metropolitana de Macapá, com capacidade de receber navios de qualquer calado, é o porto brasileiro simultaneamente mais próximo dos mercados americano, europeu e asiático (via Canal do Panamá).

Mas Macapá, uma cidade com potencial turístico fabuloso, é de um absurdo emblemático: apesar de debruçar-se à margem do maior rio do planeta, costuma faltar água na cidade; na capital do Amapá há edifício de 20 andares, mas não há esgotamento sanitário, muito menos estação de tratamento de esgoto; o Amapá conta com a hidrelétrica de Paredão e agora com o linhão de Tucuruí, mas blecautes são comuns no estado, e muitas das localidades da hiterlândia não contam com energia firme; o Amapá tem, junto com o Pará, o maior potencial piscoso do planeta, mas sua universidade federal não oferece curso de oceanografia, muito menos de engenharia naval, ou de pesca.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

IASMIM



Eram 11 horas da noite, naquele fevereiro
Mas o sol brilhava, como se fosse dia, na Asa Sul
O mundo foi inundado, de repente, por intenso perfume
Ouviu-se o verbo no espaço, e uma ninfa nasceu

Desde então, nunca mais fui o mesmo
Pois, naquele instante, uma missão me foi determinada
A de estar de prontidão, com a luz da minha espada
No caminho daquela flor das estrelas

E foi assim que na manhã seguinte, como numa prece
E minha alma era só música, o som da Terra no espaço
Encontrei, me procurando, dois grandes olhos negros

Embarcamos numa nave, e, numa velocidade quântica, fomos transportados para o azul
O piloto era um anjo, com o riso das criaturas aladas
Desde então, o jasmim, o jasmineiro e eu, somos, por toda a eternidade, só um

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Macapá, meu amor! Sempre me perco em ti, e sempre de propósito. Enterrei meu coração na Casa Amarela, na rua Iracema Carvão Nunes


As cidades são como as mulheres. De manhã, douram-se ao sol, como as rosas, e, à tarde, se transformam em um rio azul. À noite, se perdem na luz. Da mesma forma que as mulheres, nas cidades latejam segredos, só desvendados pelos que sabem mergulhar no abismo da primavera. Quanto mais as amamos, mais belas ficam, e mais misteriosas. E, como as mulheres, nunca são nossas. Não podemos ser donos de uma cidade, da mesma forma que é impossível nos apossarmos de uma mulher, porque as mulheres serão sempre livres e misteriosas. A cada partida, fica implícito o encontro marcado, e as chegadas são regadas de risos, de luz, e perdão.

Amo várias cidades, e elas se entregam a mim sem reservas. Belém tem feitiço de rosas colombianas sangrando no azul do mar, deixando um rastro de Chanel 5, gim e perfume de mulher absorta ao toucador. Manaus evoca o cheiro de mulher, tão intenso que causa vertigem, a ponto de sentirmos os movimentos da Terra no espaço, como música de Mozart. O Rio de Janeiro tem o poder de me fazer voar, cavalgando besouros furta-cores num mar transparente sem fim. Há, ainda, outras cidades, a quem eu seduzo como o garanhão faz a corte, com paciência, concentração total e, sobretudo, fé. Percorro as cidades com amor. Assim é com Macapá.

Os tucujus a habitavam quando Carlos V de Espanha a chamou, em 1544, de Adelantado de Nueva Andaluzia e a deu ao navegador Francisco de Orellana. Em 1738, foi instalado, no cruzamento da Linha Imaginária do Equador com o rio Amazonas, um destacamento militar, na antiga Praça São Sebastião, atual Veiga Cabral. Em 4 de fevereiro de 1758, o capitão-general do Estado do Grão-Pará, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, fundou a Vila de São José de Macapá, que se debruça sobre o maior rio do mundo, não muito distante do Atlântico. Na maré alta, o gigante avança sobre a cidade, entre o açoite do vento e o muro de arrimo, onde estaca, recua e arremete com mais ímpeto. Em meio à agitação, o Trapiche Eliezer Levy emerge, indiferente.

A melhor maneira de descobrir Macapá é atravessando de barco o estuário do rio Amazonas. Quem sai do arquipélago do Marajó e mergulha no maior rio do mundo, em direção à Linha Imaginária do Equador, avista, de repente, a cidade, que surge como cunhantã se banhando no rio, o vestido molhado, colado ao corpo, os cabelos espargindo água, e, nos olhos, o mistério. É assim que gosto de pensar a cidade, e sentir seu cheiro de jasmim nas noites mornas.

Sou teu, Macapá, porque tu me pariste às 5 horas do dia 7 de agosto de 1954, no Hospital Geral, e de lá fui para a Casa Amarela, ao lado do Colégio Amapaense, na Avenida Iracema Carvão Nunes com a Rua Eliezer Levy, ao lado da Mata do Rocha, e lá passei 11 anos da minha infância. Restou a Seringueira, que meu pai plantou, e que foi salva de ser decepada – porque se recusou a sair do caminho do muro do Colégio Amapaense – pelo agrônomo Luiz Façanha, que se abraçou ao seu tronco num gesto de amor. Meu pai, João Raimundo Cunha, semeou a Seringueira, em 1952, ano do nascimento do meu irmão, o pintor genial Olivar Cunha. Macapá, para mim, é isso, e é tanta coisa.

Macapá é como a mulher que desejamos por muito tempo e que inesperadamente está diante de nós, nua; mas só acredito que estou nela quando a cidade me engole. Entro no santuário despido de todas as feridas, e mergulho num mundo prenhe de jasmineiros que choram nas noites tórridas, merengue, mulheres que recendem a maresia, o embalar de uma rede no rio da tarde, tacacá, Cerpinha, e lhe oferto rosas, pedras preciosas, luz, toda a minha riqueza. É nesse mergulho que sempre me perco em ti, e sempre de propósito, numa vertigem da qual só me recupero em Brasília, dias depois.

As viagens que fazemos no coração são vertiginosas demais. A casa da minha infância, cada palavra que garimpei em madrugadas eternas, cada gota de álcool com que encharquei meus nervos, cada mulher que amei nos meus trêmulos primeiros versos, cada busca do éter nas noites alagadas de aguardente, o jardim da casa da Leila, no Igarapé das Mulheres, o Elesbão, a casa da Myrta Graciete, a casa do poeta Isnard Brandão Lima Filho, na Rua Mário Cruz, o Macapá Hotel, o Trapiche Eliezer Levy, pulsam para sempre no meu coração, que enterrei na Rua Iracema Carvão Nunes.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Por que o Conselho Nacional de Educação retirou Acupuntura do Catálogo Nacional de Cursos Técnicos? Medida causa prejuízos


RAY CUNHA
raycunha@gmail.com

BRASÍLIA, 4 DE FEVEREIRO DE 2019 – Em 2008, o Ministério da Educação e Cultura (MEC) criou o Catálogo Nacional de Cursos Técnicos (CNCT), incluindo Acupuntura. Mas, em 5 de dezembro de 2014, o então presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE), Luiz Roberto Alves, publicou Resolução atualizando e definindo novos critérios para a composição do catálogo, e disciplinando e orientando os sistemas de ensino e as instituições públicas e privadas de educação profissional e tecnológica quanto à oferta de cursos técnicos de nível médio.

A exclusão de Acupuntura do catálogo causou prejuízos financeiros e profissionais em todo o Brasil. Ao desqualificar os cursos técnicos de Medicina Tradicional Chinesa (MTC), ou Acupuntura, as secretarias de Educação dos estados e do Distrito Federal começaram a empurrar com a barriga a publicação dos nomes dos alunos matriculados em cursos técnicos de MTC antes de 5 de dezembro de 2014, à medida que iam se formando.

A Escola Nacional de Acupuntura (ENAc), de Brasília/DF, por exemplo, quase fecha as portas, pois dezenas de alunos cancelaram o curso após a resolução do CNE. Fundada em 2000, A ENAc sempre foi reconhecida pelo MEC e credenciada pela Secretaria de Educação do Distrito Federal (SEE/DF).

Porém, desde o segundo semestre de 2016, a SEE se recusa a publicar no Diário Oficial do DF mais uma lista de alunos matriculados antes da resolução do CNE e que já concluíram o Curso de Medicina Tradicional Chinesa. Além do histórico escolar, a ENAc emite também uma declaração de conclusão do curso, mas depende da SEE para a entrega do diploma. Cansados de esperar pela boa vontade do órgão público, alguns alunos já entraram com ação na Justiça.

Esses alunos concluíram um dos melhores cursos técnicos de Medicina Tradicional Chinesa do país, com 2.080 horas/aula e 440 horas de estágio ambulatorial, num total de 2.520 horas/aula, em conformidade com orientação da Organização Mundial da Saúde (OMS), além de apresentação de trabalhado de conclusão de curso. As aulas eram diárias e presenciais, com 4 horas/aula de segunda a sexta-feira.

ATO MÉDICO – Por conta do silêncio do MEC, que jamais deu explicações sobre a retirava da Acupuntura da lista de cursos técnicos, desconfia-se que o Ato Médico tenha alguma coisa a ver com isso. O Ato Médico é como ficou conhecido o Projeto de Lei do Senado 268/2002/Projeto de Lei 7703/2006, que regulamenta o trabalho do médico.

A então presidente Dilma Rousseff sancionou o Ato Médico com vetos. Mesmo assim profissionais da área da saúde ainda desconfiam que os médicos querem controlar tudo, até a Acupuntura, que nada tem a ver com medicina ocidental, ou alopática. Nos meios dos acupunturistas, corre a tese de que os médicos estão fazendo cursinhos de acupuntura de fim de semana para reservaram o mercado da Acupuntura, tanto no Sistema Único de Saúde (SUS) como nos planos de saúde.

Diga-se, a Medicina Tradicional Chinesa é milenar e se baseia no taoísmo; para alguém praticá-la é necessário que saiba pelo menos o que é Yin e Yang. Outra coisa: a MTC trabalha diretamente em meridianos energéticos, que se encontram no corpo etéreo, um corpo sutil que a ciência não reconhece.

Entrei em contato com o secretário da Presidência do Conselho Nacional de Educação, sr. Lindomar Junio, no dia 28 de janeiro, solicitando-lhe que me encaminhasse no sentido de obter esclarecimentos sobre os critérios utilizados na resolução do CNE, relatando-lhe toda a situação exposta nesta matéria. Ele prometeu encaminhar o assunto; continuo aguardando.

Também entrei em contato com a Assessoria de Comunicação Social da SEE/DF sobre o silêncio do órgão. Resposta: “A Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal (SEE/DF) informa que foram verificadas irregularidades no percurso escolar da maioria dos estudantes da Escola Nacional de Acupuntura (ENAC), o que comprometeu a validação de estudos de todos os alunos considerados concluintes pela instituição. A Gerência responsável pela publicação já orientou a instituição quanto aos procedimentos necessários para a publicação dos nomes daqueles alunos que tiveram seus estudos validados. A ENAc não mais possui credenciamento com esta Secretaria de Educação e seu atual funcionamento não permite a oferta de cursos técnicos, somente cursos livres que dispensam autorização deste órgão”.

Fato: Os alunos que começaram a fazer o curso da ENAc antes de dezembro de 2014 têm direito adquirido ao diploma técnico. A desqualificação da prática da Acupuntura ocorre num momento em que a profissão está prestes a ser regulamentada no Congresso Nacional, ou por meio do Projeto de Lei 1.549, de 2003, do deputado Celso Russomanno (PRB/SP), que se encontra na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC) da Câmara, ou por meio do Projeto de Lei 174, de 2017, do Senado, que se encontra na Comissão de Assuntos Sociais da casa.

O projeto do deputado Celso Russomanno apresenta um problema. O relator, deputado Hiran Gonçalves (PP/RR), é contra. Médico, ele acha que somente médicos devem praticar a Acupuntura, apesar de que audiência pública na CCJC mostrou que a filosofia, as técnicas e a prática da medicina alopática, ou medicina ocidental, não tem nada a ver com Medicina Tradicional Chinesa, ou acupuntura, como é conhecida no Brasil.

As entidades que reúnem terapeutas em MTC e práticas integrativas em saúde vêm se mobilizando para impedirem a barbaridade de travarem o projeto de Russomanno. O Brasil rema contra a maré, pois em todo o mundo, especialmente nos países mais ricos do planeta, quem pratica acupuntura são acupunturistas – médicos também, quando submetem-se a cursos de MTC, principalmente curso técnicos, ou faculdades de Medicina Chinesa.

Enquanto a medicina alopática cuida de órgãos, com medicamentos farmacêuticos e cirurgia, a acupuntura cuida do ser humano na sua integralidade: corpo, comportamento e espírito, e a ciência não acredita na existência do espírito.

quinta-feira, 5 de julho de 2018

RAY CUNHA lança livro de poemas eróticos pelo Clube de Autores e pela Amazon.com

Edição da Amazon.com
O SOM DO AZUL
  
Haverá obra de arte mais emocionante do que mulher muito linda?
Sim, nua!
Cheirando a púbis!
E mais bela do que isso?
Grávida!
Amamentando!
Mais belo
Só crianças rindo!
Luz se eternizando!

O Clube de Autores e a Amazon.com publicam livro de poemas eróticos, DE TÃO AZUL SANGRA, de Ray Cunha. Sobre o novo livro do escritor amapaense, radicado em Brasília, escreve Fernando Canto:

VERSOS PROFANOS

Nem fesceninos ao estilo bocageano, nem pornográfico à moda Boris Vian. Contudo, profanos são os novos versos do poeta Ray Cunha. Não no sentido antirreligioso – assim a poesia teria prosélitos fanáticos –, mas no sentido da irreverência, da violação, da transgressão do texto, em cuja tessitura surge o inopinado, que fragmenta, com certeza, a reação dos ouvidos suscetíveis.

Edição Clube de Autores
Estes poemas, DE TÃO AZUL SANGRA, evocam, invocam, enfocam a mulher, aliás, o sexo feminino; a afirmação do adolescente, o orgulho do adulto, ou, talvez, o fruto da observância do mundo mundano – experiência edipiana a penetrar em barreiras antes inacessíveis. Poemas que denotam a sensualidade e detonam-se em palavras lúbricas. Sutis, às vezes, como em Tocata e Fuga. Impolidas, como em Olhar para a mulher amada – um rasgo narcisista, um produto da consciência machista e desembocadura para o gozo psicológico do autor.

A apologia de Ray Cunha à mulher é feita, então, sem disfarces. Despojada da roupa, ela se torna provedora de sentidos, manancial e matéria-prima ao fabricante de versos. Está ali nua, nuinha na sua forma ímpar de ser apenas mulher, Vênus perscrutada pela oportuna fresta que faz a felicidade de um voyeur; deusa mítica em seu mistério, desvendada pelo arguto e fulminante olhar e pelo sensível olfato do poeta.

RAY CUNHA: Pausa na ficção
Bem poderia chamar-se Essa Copacabana triste mulher o conjunto desta obra. O melhor poema da coletânea traz o melhor do autor, embora o contraste do “triste” trace o “ideal” do jovem solitário, qualquer jovem solitário nas praias deste Brasil afora. Essa irreverência trata da socialização do sexo no entendimento paradoxal de que todos possam ser burgueses em bacanais tropicais regadas a coquetéis afrodisíacos, num tempo hedonista que ficou há muito nos salões dos palacetes romanos. É forma compacta de abarcar o mundo. É válido. É poesia. Nela está o sol, o azul do mar no verão. Pois aí o azul que sangra não é o azul do céu. É o azul açoitado pela relação geográfica e íntima entre o sol e o mar. É o azul afetado pela natureza do gasoso (as nuvens) no espelho sangrado do mar. Mar que sangra, que se esvai, que beija a praia de Copacabana e salga o corpo nu da mulher desejada, da mulher que brilha com a clivagem dos grãos de areia e à noite vai para a cama gemer seu gozo e se sangrar de mar de Copacabana. Enorme, a cama de Copacabana.

Nostálgico e terrível é romper o laço em Um cheiro de madrugada. Neste poema, Ray Cunha instiga um sentido amargo sobre o que se convenciona chamar de amor. É um trabalho sincero, diria, onde o conteúdo está exposto para o leitor atento; onde nada mais se precisa dizer, pois que a lembrança adquire a possibilidade de entrega a outros caminhos, nos quais existem outros remédios para os males da paixão. É simples, realista.

Ray Cunha ironiza a relação poética entre a morte e a poesia. Morrer na mesa de um bar é produto do inconsciente etilizado. Ser salvo, porém, é dormir com a princesa e metáfora-tônica de um antivalor, concessão do sono ao acordar de supetão de um pesadelo borgeano: sensação esquisita, estapafúrdia. Morte e poesia andando juntas, porque o trágico pode ser frenético, fétido e cômico – dura realidade! – exatamente na hora irônica do enforcamento.

Poemas como Sessenta e nove I e II trazem, sobretudo, o rústico, o rude, o seco mal lixado. São versos extraídos de uma realidade obstinadamente crua, ausentes de recursos semânticos mais elaborados, e duros como a pretensa e voraz virilidade do poeta. Nem por isso ele peca.

Se transgredir é a virtude do recurso, doces são as circunscrições colocadas em Ah! Se tu fosses minha. Chegam a trazer à tona a ingenuidade do poeta, que verdadeiramente ama sua musa de Parnaso, lírica como uma aquarela a Belle-Époque.

Não se pode deixar de enfocar o trato poético-erótico-libidinoso dos classificados de Acompanhantes. O autor ousa de várias maneiras. E coopta o leitor a acompanhá-lo em aventuras sexomaníacas de pleno envolvimento. Comunicação, mídia impressa, espurcícia? Não. Mistura de elementos cuidadosamente colocados sob a arquitetura da realidade atual, ossatura forte dos arrabaldes das megalópoles. Assim é a estrutura desse poema. Real. Firme e transparente. Enfoque de uma sociedade periférica desprezada pela tradicional e hipócrita sociedade burguesa. É retrato da nova cultura urbana, nascida, infelizmente, ainda da miséria, da perda de status, de poder aquisitivo, e que se torna antepasto para qualquer Sade pós-moderno, certamente. Instigante, claro e azul, o poema indica água fervendo, páprica picante, poesia nova, e, acima de tudo, coragem de inovar pela forma e revolucionar pelo conteúdo da ideia.

Esta é a marca poética de Ray Cunha, que, sob o céu nas nuvens, descobre que o azul sangra como a vagina menstruada de uma nereida de qualquer gangue dos subúrbios brasileiros.

RAY CUNHA é autor dos romances:

A CASA AMARELA
A CONFRARIA CABANAGEM
HIENA
FOGO NO CORAÇÃO

E dos livros de contos:

NA BOCA DO JACARÉ
A CAÇA
O CASULO EXPOSTO

terça-feira, 19 de junho de 2018

Siga sua intuição. Não sufoque seu talento


RAY CUNHA
raycunha@gmail.com

Desde criança, H descobriu que amava música, tinha voz belíssima e aprendeu a tocar violão sozinho. Filho de um advogado riquíssimo e de uma dona de casa, viveu feliz até os 18 anos, quando seu pai lhe disse que era hora de quebrar o violão e seguir a carreira que na família passava de pai para filho: a advocacia. H argumentou que queria se tornar músico profissional, que só precisava de mais um tempo até firmar-se como artista e poder pagar suas próprias contas. Ele mesmo, seu pai, não comprara um quadro de Di Cavalcanti por um milhão de reais? Então, Di fora um vagabundo? Mas seu pai não quis saber de nenhum argumento, exigiu-lhe que largasse o violão e fizesse o curso de Direito; depois disso até poderia rever o caso. Filho criado debaixo da saia da mãe e de pais controladores, H guardou o violão e começou a fazer o curso de Direito, ao fim do qual se matou. 

O que é Deus? Quem é Deus? O que Deus faz? Como Ele faz? Como Ele surgiu? Terá fim? Todas as religiões dão a entender que Deus é a harmonia do Universo, um estado de consciência perfeito, pleno e absoluto, o Tao, o caminho ascendente e eterno a seguir, um processo evolutivo, a ampliação da consciência. Se assim considerarmos, a vida material significa, nesse processo, apenas um trecho ínfimo do caminho, porém extremamente desafiador. Contudo, sempre contamos com o que chamamos de intuição, uma inteligência diversa daquela desenvolvida pela ciência, pela academia. Trata-se de uma inteligência que transcende a matéria, e sua captação depende do estado de consciência.

A melhor maneira de desenvolvermos a intuição é por meio da meditação. Meditar é procurar ficar sozinho, acalmar-se, serenar a mente, até conseguir equilíbrio suficiente para começar a disciplinar o cipoal de pensamentos que nos acorre a todo instante, principalmente nos ansiosos, e atingir um estado de foco, de mergulho no agora. A oração é a melhor meditação que eu conheço, pois além do equilíbrio, nos põe em contato com o divino, com a intuição. Assim, quanto mais intuição nós desenvolvemos mais eternidade sentimos agora.

Aos 24 anos de idade, Ernest Hemingway era um promissor correspondente na Europa de um jornal canadense, Toronto Star Weekly, quando fez uma opção que o levaria a passar fome em Paris: queria ser escritor, mas para isso teria que deixar o jornalismo para se dedicar à literatura. E foi o que fez. Elizabeth Hadley Richardson, a primeira esposa do romancista, que viria a casar-se mais três vezes, tinha um pequeno rendimento no mercado financeiro, e foi desse rendimento que o casal, já com um filho, John Hadley Nicanor Hemingway, sobreviveu até o autor se tornar uma celebridade mundial, aos 27 anos, com o clássico O Sol Também se Levanta, publicado em 1926. Se Hemingway não tivesse seguido sua intuição, teríamos um jornalista medíocre no lugar de um escritor revolucionário, pois Hemingway revolucionou a literatura, criando um estilo literário sem rebuscamento, com as palavras funcionando como bisturi, uma amálgama de profundidade poética e a escrita com a objetividade do soco no queixo, desferido por um peso-pesado.

É que Hemingway estava aberto para a intuição. Aliás, os artistas são tão intuitivos quanto as mulheres. No caso deles, parecem ter antenas especiais, pelas quais recebem a luz da criatividade. Naquela época, o gênio de O Velho e o Mar estava em formação, ainda tinha a flexibilidade e a misteriosa indestrutibilidade das mulheres. As mulheres são como as rosas, delicadas, mas infinitamente fortes na sua beleza mais íntima, a pureza. Tudo o que Hemingway fez foi decodificar a intuição e tomar uma decisão, crucial, que iria mudar todo o seu destino, e o dos que ele amava e dos que o amavam.

Podemos chamar a intuição que Hemingway sentiu de oportunidade, que é aquele momento em que, se quisermos mudar nosso destino, precisamos segurar a oportunidade com unhas e dentes, sem importar-se que o futuro acene com a fome. Determinada a trilha a seguir, agora é oxigenar o talento, livrá-lo das garras que poderão sufoca-lo e desenvolvê-lo. Acontece muito de pais controladores sufocarem os filhos, determinando como eles devem viver e que curso fazer, pois desconhecem que ninguém, nunca, jamais, pode viver a vida alheia. Somente cada um de nós é que pode viver a própria vida, as próprias circunstâncias. O máximo que os pais podem fazer pelos filhos é amá-los; não devem, nunca, escravizá-los. Às vezes, os pais imaginam que controlando todos os passos dos filhos poderão evitar a tragédia; só que não. Cada qual constrói sua própria vida. Esse é o Tao, o Caminho, a evolução.

A intuição atua o tempo todo na nossa vida material; é a nossa consciência. E se não a vemos, mas apenas a sentimos, significa que é nosso pé no mundo espiritual, onde as coisas, os acontecimentos, as descobertas, as invenções, as obras de arte geniais, onde tudo o que acontece na Terra, é projetado, pois, na verdade, somos seres mentais. A matéria é apenas sombra da mente, reflexo da mente, a oportunidade de evoluir mais rapidamente, de ampliar nossa mente e descobrir novas dimensões, muito além do mundo material, que é tosco, muda a todo instante, e é finito.

Há as pessoas que estão em um estado de consciência ainda longe de alcançar a intuição, o que é normal na escala evolutiva, porém as que já conseguem ouvir a voz interior, sigam-na, pois a intuição vem sempre da Grande Harmonia. E é assim que o talento se revela, por meio da intuição. E se o veio do talento estiver numa região de acesso aparentemente impossível, não se intimide, siga adiante, pelo simples fato de que aquela trilha é a única que o levará ao degrau seguinte na espiral do Caminho.

Nada desestimula a determinação; nada a intimida. Nem fome, nem dívidas, nem doenças, sofrimento algum a intimida, nem a morte. Talento requer determinação apostolar para desenvolvê-lo. Ouça a sua intuição e desenvolva seu talento. Jamais se impressione com as coisas da matéria, que é tosca, muda a todo instante, e é finita. A verdade só pode ser vista com os olhos do coração. Uma mulher muito linda envelhecerá, assim como as rosas vermelhas, mas a vibração da beleza das mulheres lindíssimas e das rosas colombianas é para sempre.

A intuição é a voz de Deus, ou do Universo, ou do amor, e o talento é a capacidade que cada um de nós possui para realizar determinadas tarefas, como Van Gogh deteve a luz nas suas pinceladas e Mozart escreveu as partituras do som da Terra girando na galáxia. E quando o talento é realmente utilizado, há curas, o azul sangra de tão azul, o riso das crianças sobrepõe-se à música de Mozart, as rosas se desnudam e a luz triunfa. 


Biliografia


DUKAN, Pierre. A escada Nutricional: Uma alternativa ao método Dukan clássico. Rio de Janeiro: BestSeller, 2015.

GERBER, Richard. Medicina vibracional: Uma medicina para o futuro. São Paulo: Cultrix, 2007.

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos – 23ª Edição. São Paulo: Instituto de Difusão Espírita, 1984.

MACIOCIA, Giovanni. Os fundamentos da Medicina Chinesa. São Paulo: Roca, 2007.

MIYAURA, Junji. Os 5 corpos do ser humano. São Paulo: Seicho-No-Ie do Brasil, 2016.

PINHEIRO, Robson: pelo espírito de Joseph Gleber. Medicina da alma – 2ª Edição. São Paulo: Casa dos Espíritos, 2007.

TANIGUCHI, Masaharu. A verdade da vida – 1º Volume. 8ª Edição. São Paulo: Seicho-No-Ie do Brasil, 1992.


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