sábado, 28 de janeiro de 2012

Gozo

Brasília, 28 de janeiro de 2012 - A Feira do Guará é o ponto turístico mais visitado de Brasília. Acho que turismo de negócios, ou de lazer. O turismo histórico da cidade é muito pobre. Quem quiser fazer turismo de história do Brasil deve procurar cidades como Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, Recife, Belém etc. Em Brasília, só há para ver o trabalho genial de Oscar Niemeyer (se é apropriado para o trópico, ou prático, nisso está a polêmica). Suponho que a Esplanada dos Ministérios e a Praça dos Três Poderes sejam, para os turistas, apenas uma curiosidade sobre a devassidão da roubalheira em Brasília, a cada dia mais ousada, desde que o PTMDB tomou conta do estado brasileiro, a partir de 2003, lançando sua ventosa canina na teta do Erário.

Falávamos da Feira do Guará. Fundada em 1983, atualmente conta com 11.056,25 metros quadrados de área coberta e 526 bancas, como informa seu site (www.feiradoguara.com), de quinta-feira a domingo, das 8 às 18 horas. Vende tudo. Desconfio que até avião. Roupa, então, nem se fala. As confecções vêm principalmente de Goiânia, que é um polo de costura, e também do próprio Guará, que exporta biquínis, por exemplo, para a Europa. Eu moro na 711 Sul, no Plano Piloto. Quando não vou à Feira do Guará no JEY, que é meu carango, um Ford K de 1997, vou de metrô. Ando três quadras até chegar à estação do metrô, na 112 Sul. Caminho até a 512, pela Avenida W3, pego a rua comercial da 312 e depois a 112, e em poucos minutos desço na estação da Feira.

O Guará é um distrito distante cerca de 6 quilômetros do Plano Piloto e a meio caminho de Águas Claras, distrito conurbado a Taguatinga, maior cidade do Distrito Federal, depois de Brasília. Águas Claras foi construída em um dos governos de Joaquim Roriz, que dava incondicional apoio aos barões da especulação imobiliária, com Paulo Octávio à frente. Paulo Octávio é o sujeito mais rico de Brasília, com interesses na construção civil e incorporação, no setor de comunicação social, hoteleiro etc. É dono de um terço da cidade. Outro terço é de Luiz Estêvão, senador cassado, que, juntamente com o juiz Lalau (Nicolau dos Santos Neto), roubou cerca de R$ 203 milhões das obras do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) de São Paulo. Luiz Estêvão foi condenado a devolver R$ 55 milhões. Paulo Octávio e Luiz Estêvão eram amigões de Fernando Collor de Mello.

Águas Claras, uma selva de arranha-céus, foi construída sobre um aquífero. Há locais na região de onde a água mina na rua. Quando chove muito, há pontos que vão para o fundo. Também foi tão mal planejada que tem poste até em calçada. Aliás, nunca se deu muito importância à calçada no Distrito Federal, tanto que se diz que Brasília é para cabeça, tronco e rodas. Com efeito, caminhar no Plano Piloto é uma aventura perigosa.

A Feira do Guará é sempre, aos meus sentidos permanentemente maravilhados, uma viagem romanesca. Logo nas primeiras horas da manhã, ainda há poucas pessoas, então aproveito para ver os peixes e frutos do mar. Adoro ver peixes. Quando morei em Belém do Pará, um dos meus programas prediletos era ver peixes no Ver-O-Peso. Há duas peixarias na Feira, com todo tipo de peixes de água doce e do mar. Até truta, que é um peixe das águas cristalinas dos Estados Unidos e do Canadá, a gente encontra, trazida de criatórios nas montanhas de Minas Gerais. A maior parte dos peixes, principalmente tucunaré, que é o mais saboroso do mundo (mais do que truta), vem do lago de Tucuruí, no Pará. Gosto também de ver os camarões rosa, as lagostas, e todos os animais da água.

Paro na banca da dona Zenaide, de Macapá, irmã do padre Cláudio, que trabalhou durante 10 anos na Paróquia de Nossa Senhora de Fátima, em Macapá, e agora está em outra paróquia, em Santana. Dona Zenaide me disse que depois de 25 anos irá, dia 15 de abril, a Macapá, para passar uma semana, rever sua família, especialmente sua mãe. “É dessas emoções que se abastece de vida nossos corações” – pensei. Compro sempre açaí (Tuíra ou Fruta), do grosso, congelado e importado de Belém. Também compro um tipo de farinha de tapioca que só encontro na banca da dona Zenaide – a farinha se desfaz na boca da gente. Compro-a especialmente para dona Joana, minha sogra. Levo ainda tucupi. Às vezes, tomo suco de taperebá, que aqui chamam cajá e tem o sabor um pouco diferente do taperebá da Amazônia. Não tomei hoje porque já degustara água de coco da Paraíba, delícia. Bebo água de coco numa banca só de mulheres. São lindas e espetaculares manejando o facão.

Há uma banca onde compro farinha do Pará: de tapioca, que como com açaí, e farinha d’água amarela, para farofa, utilizada pela minha gata, Josiane, e minha filha, Iasmim, e a média, para mim. Outro dia a Josiane preparou tamuatá - que é um peixe comum no Pará e no Amapá - no tucupi, e deve ser comido com farinha d’água. É um dos pratos mais saborosos de quantos conheço. Sempre digo que tamuatá no tucupi, com farinha, é capaz de fazer qualquer chef francês cair de joelhos.

Também gosto de olhar as bancas de frutas, legumes e folhas. Quanto mais belos e limpos, mais os aprecio. Às vezes, compro limão, tomate, banana da terra (que em Macapá chamamos banana comprida). Compro sempre, numa banca próxima à da dona Zenaide, castanha-do-pará (assada, pois assim não precisa ser guardada na geladeira), castanha de caju e ameixa desidratada e sem caroço, que utilizo para regular o intestino.

Passo sempre na Universidade do Pastel, um dos melhores da cidade, conforme o ranking da revista Veja Brasília, especializada em gastronomia. Levo pastéis para casa, de palmito com catupiri. Às 11 horas os restaurantes começam a se encher. Servem comida típica de todo o continente brasileiro. Certa vez almocei na Feira com minha irmã, Linda, e uma amiga dela. Comeram galinha caipira e eu, mocotó.

Meio-dia, a Feira está bombando. É um dos maiores magotes de mulheres lindas por metro quadrado de Brasília, criaturas que só é possível ver no verão do trópico, produto de séculos de miscigenação, dentro de leves tecidos decotados e sandálias japonesas. “Isso é gozar para valer” – penso.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Fora de hora

- Pra mim chega – disse Isaías.

- Vem, filho-da-puta – o outro gritou de dentro d’água. – Vamos lá naquele barco!

Não parecia distante e os dois começaram a nadar no rumo do barco. Então notaram que a maré os arrastava para o largo da Fortaleza São José de Macapá. Isaías levantou a cabeça e procurou ver o trapiche, e viu João nadando bem perto dele. O vento da tarde fazia com que a baía parecesse uma cabeleira revolta, afogando o trapiche, na frente da cidade, com as embarcações atracadas na agitação da água. O sol era uma tela fovista a desfazer-se, cedendo a um azul escuro e sólido, que se acamava no estuário do rio.

Os dois rapazes estavam cansados. Queriam pedir socorro. Ridículo. Melhor não. Depois seriam encontrados no canal do Mangue, por onde a água entra na cidade e, no regresso, leva a imundície do bairro central. Isaías levantou a cabeça, viu, bem perto, um barco, e nadou mais ainda. Agora já se aproximara bastante e pôde ver um cabo na popa do barco, bem próximo do seu nariz. Pensou, uma vez, que fosse ferir o nariz no cabo, mas era o desejo de alcançá-lo que lhe dava essa ilusão. Tentou ver de novo o barco... lembrou-se que poderia sentir cãibra. Olhou para o trapiche e não viu ninguém, depois engoliu água, uma, duas, três goladas, e pensou na sua mãe. Estaria fazendo o jantar, e seu pai, na varanda, bebia uma lata de cerveja, lendo um livro de bolso. Esforçou-se e voltou a nadar, desta vez muito lentamente. Observou que perdera terreno e voltara a se afastar do trapiche. Ficou flutuando alguns segundos, e sentiu que a maré não o arrastava mais.



Ray Cunha. Do livro A grande farra, edição do autor, Brasília, 153 páginas, esgotado

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

A bacanal do Bode

Mario Vargas Llosa começou a ganhar o Nobel em 2000, quando publicou A festa do Bode (La fiesta del chivo, Alfaguara/Objetiva, Rio de Janeiro, 2011, 450 páginas), reportagem sobre a ditadura de Rafael Leónidas Trujillo Molina, o Bode, de 1930 a 1961, na República Dominicana, país que divide com o Haiti uma das ilhas do Mar do Caribe, Hispaniola, primeiro território americano a ser descoberto por Cristóvão Colombo. Se quiserem chamar A festa do Bode de romance, tudo bem. “Se o leitor preferir, considere este volume como um trabalho de ficção. Seja como for, ficção ou não, há sempre a possibilidade de que lance alguma luz sobre aquilo que foi escrito como matéria de fato” – escreveu Ernest Hemingway, no prólogo de Paris é uma Festa. O fato é que A festa do Bode disseca a mecânica da mente de um ditador, qualquer um deles. Basicamente, perseguem o poder absoluto, poder que, paradoxalmente, será sempre seu inferno pessoal. Ditadores, e os que gostariam de sê-lo, têm em comum alguns traços: são, em potencial, populistas, nepotistas, patrimonialistas, mentirosos, profundamente covardes, ladrões, perversos, bestas crudelíssimas, torturadores, estupradores, assassinos, criaturas diabólicas. Como se diz em psicologia: psicopatas. Chegam ao poder porque são ousados, e maus, e porque se cercam de preguiçosos, ávidos por carniça, a quem alimentam, para se cercarem de zumbis dispostos a empalar a própria mãe por dinheiro.

O Nobel peruano Mario Vargas Llosa, um
dos maiores escritores de todos os tempos

A festa do Bode: “Ele a segurou pelo braço e deitou-a ao seu lado. Com movimentos de pernas e de cintura, montou sobre ela. Aquela massa de carne a esmagava, afundando-a no colchão; o bafo de conhaque e a raiva lhe davam náuseas. Sentia seus músculos e ossos sendo triturados, pulverizados. Mas nada disso impediu que notasse a rudeza daquela mão, daqueles dedos que exploravam, escavavam e entravam nela à força. Sentiu-se rachada, esfaqueada; um relâmpago percorreu seu corpo do cérebro aos pés. Gemeu, sentindo que ia morrer. “Grite, sua cadelinha, vamos ver se você aprende” – cuspiu a vozinha ferina e ofendida de Sua Excelência. “Agora, abra-se. Deixe eu ver se está furada mesmo, se você não está gritando só de farsante que é.”

Creio que foi em 2006 que visitei meu amigo Walmir Botelho, em Belém do Pará. Ele é um dos leitores mais sem limites que conheço. Recomendou-me que lesse A festa do Bode. Já em Brasília, procurei o livro de Llosa, mas estava esgotado. Llosa ganhou o Nobel ano passado e logo depois as livrarias exibiam montes de livros dele. Comprei A festa do Bode no dia 24 de dezembro de 2011 e terminei-o de ler, ontem, dia 11 de janeiro de 2012. Lia-o à noite, em casa, ou no ônibus a caminho do trabalho. Desde o início, não dormi mais direito, passando, às vezes, a noite em claro, ou entrecortada de pesadelos. Às vezes, lendo-o, eu era possuído de indignação, e também sentia meus olhos ficaram húmidos.

Rafael Leónidas Trujillo Molina, o Bode, animal que
deteve poder absoluto na República Dominicana
A festa do Bode: “Quando o castraram, o fim estava próximo. Não cortaram os testículos com uma faca, mas com uma tesoura, enquanto estava sentado no Trono. Ouvia risos hiperexcitados e comentários obscenos, de uns sujeitos que eram apenas vozes e cheiros ácidos, de axilas e fumo barato. Não lhes deu o prazer de ouvi-lo gritar. Eles lhe enfiaram os testículos na boca, e ele os engoliu, desejando que tudo aquilo apressasse a sua morte, coisa que nunca imaginou que pudesse desejar tanto”.

Até onde vai meu conhecimento literário, vejo na Ibero-América três escritores realmente monumentais, que podem ser colocados lado a lado na prateleira dos grandes: o argentino Jorge Luis Borges, o colombiano Gabriel García Márquez e o peruano Mario Vargas Llosa. Borges, porque entendeu o que é espaço-tempo e transcendeu, na literatura, nosso grosseiro mundo físico; Gabo, porque pôs como ninguém no papel o que os europeus chamam de realismo fantástico, que é, tão somente, o Trópico; e Llosa porque é um construtor de catedrais.

A festa do Bode: “Duas ou três semanas depois, em vez do habitual prato fedorento de farinha de milho, trouxeram para o calabouço uma panela com pedaços de carne. Miguel Ángel Báez e Modesto quase engasgaram, comendo com as mãos até se fartar. Pouco depois, o carcereiro voltou a entrar. Olhou para Báez Díaz: o general Ramfis Trujillo queria saber se não lhe dava nojo comer o seu próprio filho. Do chão, Miguel Ángel o insultou: “Diga a esse filho da puta nojento que engula a língua e se envenene”. O carcereiro riu. Foi e voltou, mostrando pela porta uma cabeça juvenil que segurava pelos cabelos. Miguel Ángel Báez Díaz morreu horas depois, nos braços de Modesto, de um ataque cardíaco”.

A festa do Bode será sempre um alerta contra as ditaduras, como a de Hugo Chávez, que, juntamente com sua família, está roubando tudo dos venezuelanos. Mas por que essas serpentes não caem? Porque, como a metástase, contaminam quase todo o país, sobrevivendo do cadáver. Por isso é que não basta apenas eliminá-los - é necessário recomeçar tudo. O povo cubano, por exemplo, terá que enterrar, além dos ossos de Fidel Castro e quadrilha, também o “comunismo” cubano, que hoje é apenas nostalgia das viúvas. Ditaduras, sejam de esquerda (?) ou de direita (?), são uma coisa só: degradação humana.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Jornada Brasília adentro

De manhã, em torno das 8 horas, cruzo o Setor Comercial Sul mergulhado no perfume de mulheres tão lindas que parecem nuas. Algumas andam como modelos no voo pelo tapete vermelho, como Gisele Bündchen. Falar em Gisele, comecei a ler pesos pesados como Ernest Hemingway lá por 1968, aos 14 anos, nas minhas incursões diárias à biblioteca do meu irmão mais velho, Paulo Cunha, o primeiro grande leitor que conheci. A biblioteca dele foi meu primeiro laboratório, depois de iniciado pela sua também volumosa coleção de gibis. Um dia, creio que em 1971, indo a Belém (foi a primeira vez que saí de Macapá; Belém me hipnotizou até hoje), fui, com o pintor genial Olivar Cunha, visitar o Paulo no hotel onde morava; na época, ele era gerente na Brasilit. Entrar no seu quarto e ver as estantes e pilhas de livros que pareciam tomar conta de todo o espaço causou em mim o mesmo maravilhamento que a caverna dos 40 ladrões (não os do Mensalão) deve ter causado em Ali Babá. A terceira etapa do meu aprendizado foi com Isnard Brandão Lima Filho, e também foi tão fantástica como os espelhos de Jorge Luis Borges. Voltando à Gisele, essa loira que fascina também meu amigo Carlos Honorato, evoca-me Giselle Montfort, a espiã nua que abalou Paris, membro da resistência francesa na Segunda Grande Guerra, sob o codinome ZZ7. Era linda e tudo o que me convinha naquela época. Giselle Monftorf foi criada pelo jornalista David Nasser, em 1948, e a novela foi publicada em 56 capítulos no Diário da Noite, e depois em quatro volumes, em 1952. Dos anos 1960 aos 1990, o escritor espanhol Antônio Vera Ramirez, sob o pseudônimo de Lou Carrigan, deu prosseguimento à ideia original de David Nasser criando Brigitte Montfort, filha de Giselle; a Editora Monterrey, do Rio de Janeiro, publicou 500 histórias de Brigitte. Lembro-me que lia um Giselle, ou Brigitte, inteiro, em poucas horas. Foi assim que, aos 14 anos, numa cidade ribeirinha perdida na Amazônia, andei pela Paris ocupada, a mesma que Ernest Hemingway libertou, sobretudo porque a amava. Mas, como ia dizendo, cruzar o Setor Comercial Sul numa quarta-feira de inverno tropical dá a mesma sensação de participarmos, como espectador, de um desfile de moda.

Sempre que posso, almoço no Sabor Brasília, na praça de alimentação do Conjunto Nacional, um shopping no coração da cidade, ao lado da rodoviária do Plano Piloto, por onde passa meio milhão de pessoas por dia. Trata-se de um labirinto prenhe de mulheres nuas, de tão lindas, num passa-passa infinito. A comida no Sabor Brasília é saborosa, e lá é um dos raros locais da cidade onde como peixe, pois sou do Mundo das Águas, a região mais piscosa do planeta. Cheguei a tal requinte na degustação de peixe que o menor pitiú (do tupi, cheiro forte de maresia) me faz desistir de comê-lo. Descrevo no conto Inferno Verde o preparo de um caldo de filhote. Quem o ensinou a mim foi o radialista macapaense, que vive em Belém, desde sempre, José Maria Trindade, querido amigo meu. Ele me convidou para tomar caldo de filhote no Remada, seu restaurante. Filhote é um dos mais saborosos peixes da Hileia. Segundo A Fauna da Amazônia (Cejup, Belém, 1992, 217 páginas), de Roberto M. Rodrigues, filhote é a piraíba pequena. Piraíba é o maior peixe de couro do Brasil, atingindo 3 metros de comprimento por 1,40 de diâmetro e pesando 150 quilos. Trindade comprou filhote fresquinho, limpou-o, lavou-o com escovinha e o pôs algum tempo de molho no limão. Depois é só pôr água para ferver, acrescentar os temperos de praxe e depositar o peixe na panela. O caldo é mais saboroso do que qualquer prato francês. Da mesma forma que tamuatá no tucupi e jambu, com farinha d'água, é capaz de fazer qualquer chefe francês se ajoelhar.
Às 13 horas, a praça de alimentação do Conjunto Nacional, como em qualquer grande shopping numa grande cidade deste continente tropical, regurgita de mulheres, lindas como um grande jato comercial pousando. Uma das coisas que mais gosto de fazer é ver e conversar com mulheres. Perscruto suas almas e percebo nelas uma luz como se Deus ainda continuasse junto a elas, como o pintor junto à tela, aperfeiçoando-a, como o pai carinhoso que vela pela criança. Assim era minha mãe, e assim foram todas as mulheres que me amaram, embora, às vezes, as magoassem imperdoavelmente. Busco, nas mulheres, luz, e elas nunca se recusam a dá-la. Sei, hoje, que as mulheres, que, nos dando à luz, e nos iluminando, nos transformam em poetas, porque, então, compreendemos a rosa.
Há dois lugares estratégicos na praça de alimentação: defronte para as escadas, de onde jorram beldades, e defronte ao Torre de Pisa, restaurante e cafeteria, de onde também podemos descortinar, numa posição discreta, o harém. De lá, costumo tomar um espresso na Kopenhagen, defronte à Saraiva. Degusto um blend curto, confortavelmente sentado numa cadeira de palinha (que é como chamamos em Macapá para móveis de vime, ou cipó), e depois bato perna nas três livrarias do shopping. Creio que foi em 2006 que meu querido amigo, mestre, padrinho, o jornalista Walmir Botelho, um dos leitores mais vorazes que conheço, sugeriu a mim, numa visita que fiz a ele, em Belém, que lesse A Festa do Bode, de Mario Vargas Llosa. O livro esteve fora do mercado até Vargas Llosa ganhar o Nobel, este ano. Dia 24 de dezembro estava eu cumprindo o presente ritual quando me deparei, na Saraiva, com um monte de A Festa do Bode. Só mesmo Vargas Llosa para escrever um romance desses. Ele romanceou a história do general Rafael Leonidas Trujillo Molina, o Bode, que, durante 31 anos, governou a República Dominicana com a crueldade demente de todo e qualquer ditador, praticando as maldades mais impossíveis, aquelas que só vicejam, na sua morte, nos pântanos do poder desesperado, a podridão exalada por hienas como Fidel Castro, Hugo Chávez, e sequazes, para só ficarmos na Ibero-América. Feras como essas jamais deterão o poder absoluto, por uma razão simples: a mentira, a corrupção, não detém qualquer poder. É, como o mundo físico, apenas ilusão.
Vargas Llosa construiu uma catedral gótica seguindo os passos do Bode. Merecia, há tempo, o Nobel. O primeiro livro que sugeri à minha esposa, Josiane, pouco depois que a conheci, cafuza de 19 anos, linda que só ela mesma, principalmente quando ficou grávida da Iasmim, foi Tia Júlia e o Escrevinhador, de Llosa. Ele é do tamanho de Gabriel García Márquez e de Ernest Hemingway, e de William Faulkner, é claro.
Às vezes, tenho a sorte de conhecer novos amigos. Foi assim que estive na mais recente exposição de Ralfe Braga, artista plástico macapaense, cosmopolita e que também vive, muito antes que eu, em Brasília. Ontem, encontramo-nos num bar na 107 Norte, tão cheio de mulheres monumentais que nem dava para acreditar. É bom permanecer num lugar cheio de mulheres lindas; é como estar num jardim vermelho de rosas. Ralfe Braga me apresentou ao poeta Marcelo Benini, num desses papos impagáveis, e inesgotáveis, como os que mantinha com Walmir Botelho.
O Natal, este ano, transcorreu, como sempre, em paz. Mas neste ano ele foi como um dia qualquer; eu o senti apenas na alma, como um nascer de novo, um renovar-se, a alegria de ouvir o riso das crianças e sentir o perfume do jardim que cultivamos nas nossas mais luminosas lembranças, as únicas que devemos guardar no relicário da memória. Meu Pai é poderoso e sempre concretiza meus pedidos, porque são verdadeiros. A Ele pedi que arrume 2012, Pessoalmente, para todos os meus familiares e meus amigos e amigas, com os tesouros mais preciosos do mundo, que se encontram numa urna de luz, no meu coração.


Brasília, 29 de dezembro de 2011

É fácil morrer à noite

Belém em dezembro, paradoxalmente desmoronando, sólida, sob
o chumbo aquoso do mundo das águas. Foto de Luiz Braga

De onde estava, podia ver os luminosos e os faróis dos carros sob a chuva torrencial. Bebeu um gole, grande, e voltou a olhar para a rua. O bar tinha portas largas e um toldo sobre o passeio público, onde Reinaldo se sentara, de modo que recebia o vento embebido de água. Era uma chuva de fim do inverno amazônico, que não demorou. Nem bem a chuva passou as pessoas que estiveram abrigadas voltaram para a calçada. Mas foi uma trégua curta, pois a chuva voltou mais forte.

Pediu outro gim-tônica, que Muhammad Ali preparava bem forte para ele, e voltou a prestar atenção para a rua. Gostava de ir ao Castelo de Ouro e ficar apreciando o movimento e ficar apreciando o movimento da rua; isso o entretinha, e hoje havia aquela chuva, com luzes sob ela como pinceladas impressionistas, e as pessoas que corriam, lembrando soldados que pretendessem tomar uma trincheira. Pensou nas chuvas que duram três dias. As grandes chuvas começam chuviscando, mas sempre são anunciadas por trovoadas e duram três dias. As manhãs são desoladas e crepusculares. À tarde, começa a rescender a cheiro de água, e as crianças se divertem na chuva até ficarem roxas. A cor de barro do céu metamorfoseia-se de negro, se desfaz lentamente e encobre a cidade. A noite é fria, e o frio, um túnel negro e pastoso. A porta de um bar fosforesce na noite, como a boca do inferno. Lá dentro é quente e úmido, e fumacento e ácido. Bêbedos ordinários estão atentos como lobos. Entrou no bar e pediu uma Antarctica. Alguns bêbedos o assediaram. Pagou uma dose de cachaça para cada um e foi se refugir no outro lado do balcão. Os bêbedos ficaram olhando-o, matutando um meio de se aproximar dele, com suas caras de vira-lata sob o efeito de uma cadela no cio. Pediu para si uma dose de Pitú. A aguardente desceu-lhe garganta adentro, aquecendo-o, enxugando-o e molhando seus nervos. Havia um papa-defunto perto da porta. Viu quando o garçom se dirigiu para a mesa do papa-defunto e limpou-a. O garçom assentiu com a cabeça e foi, manquejando, preparar uma bebida. O papa-defunto ergueu os olhos para Reinaldo. Era um olhar desconfortável. Reinaldo tomou outro gole, mas dessa vez a bebida quis voltar. O papa-defunto levou a mão ao bolso interno do casaco. Havia ali um volume. Era um maço de cigarros. Pediu mais um gim-tônica. Tomou um gole e a bebida refrescou seus nervos e o livrou mometaneamente dos bares infernais da paranoia.

Parara de chover. Consultou o relógio: onze horas. Sentiu fome. Saiu a caminhar. Não queria ir para casa. Sua mulher, que estava grávida, haveria de se enroscar nele, lamurienta.

- Eu ia ter o neném sozinha – diria. Ouviria os passos da governanta no corredor e o som dos nós dos dedos dela na porta. Quereria saber se madame estava bem. O médico estaria pronto para uma emergência. Tudo preparado como uma Luger.

Apanhou um táxi.

- Hotel Ver-O-Peso – disse. O motorista era jovem e queria ser agradável, portanto aumentou o volume do alto-falante atrás da nuca de Reinaldo. Um berro em inglês se fez ouvir. – Desligue o rádio, por favor! – pediu.

- Não é rádio – disse o jovem. – Mas vou desligar...

Lá em cima, no restaurante do hotel, havia aquela atmosfera suburbana de hotel três estrelas. Pediu, sem consultar o cardápio, filé com fritas e uma Antarctica. O garçom andava apressado e parecia onipresente em todas as mesas, mas, na verdade, demorava-se muito para atender efetivamente os fregueses. Reinaldo queria ir embora quando ele apareceu com o filé e batata frita.

- O senhor quer arroz também?

- Sim! – disse Reinaldo, e pôs-se a comer. Estava faminto. Se quisessem acertá-lo que fosse de barriga cheia. Não o pegariam como daquela vez no calçadão da Avenida Braz de Aguiar. Era o fim da tarde e a noite insinuava-se como doce música. Sentiu alguém tocá-lo no ombro e encostar-lhe algo nos rins. Um tapa de vento fez a rua desaparecer e caiu no vazio, exceto pelo medo concreto, de gelo, que o paralisou.  

- Arria tudo.

Então o pistoleiro era ladrão também? Voltou-se e viu um louco e o grande pente verde que ele, agora, afrouxava das suas costas.

- Filho da puta! – disse, sentindo aquela paralisia evaporar-se. Aspirou gulosamente o ar, confiante, e foi embora, deixando o louco a olhá-lo, desolado.

O Ver-O-Peso cochilava. Atravessou o Boulevard Castilhos França e caminhou devagar, na esperança de encontrar um vendedor de amendoim. Duas mulheres cruzaram com ele e o olharam cobiçosas. Pensou em Celina. Pegou um táxi e foi para casa.

Naquela hora, a casa dormia, como toda a rua. Apenas as mangueiras estavam acordadas, ainda molhadas, como mulher que sai do banho. Sentiu que poderia ser morto ali e se revoltou contra a facilidade com que se pode ser assassinado. Talvez, desde cedo, o matador estivesse ali, a esperá-lo. Abriu o cadeado do portão e entrou. O robusto fila veio lamber-lhe a mão. Reinaldo afagou-lhe a cabeça e se agachou para beijá-lo. “Talvez o tiro venho agora” – pensou. “Ou talvez ele tenha se cansado e ido embora” – disse em voz alta. “Mas um pistoleiro nunca abandona seu esconderijo à espera da presa.” O cão o ouvia atentamente e mordeu levemente a mão de Reinaldo.

Celina dormia a sono solto, nua. Reinaldo se despiu, foi ao banheiro e limpou os dentes com fio dental, nas não estava disposto a escová-los. Lavou o rosto e foi deitar-se. Nem bem se acomodou e ela se voltou para ele, sem acordar, e o abraçou e murmurou alguma coisa. Era cheirosa e seus cabelos, curtos, permaneciam bem escovados. Reinaldo encostou seus lábios na boca de Celina, depois beijou seu nariz arrebitado. Ela abriu os olhos. Eram grandes e castanhos, quase verdes. Ele lhe disse algo no ouvido.

- Não! – ela disse, num longo miado. Mas se virou de costas para ele. A gravidez selara-lhe mais as costas, e vista assim, à luz do abajur, era roliça e macia, as coxas grossas e brancas, e os seios volumosos e delicados. Reinaldo gostava de pegá-los por trás dela, de mergulhar a mão no seu púbis e ouvir seu ronronar. Não era decente, agora que teria seu primeiro bebê, que o matassem. Queria comprar as bonecas mais graciosas para o bebê, se fosse menina, ou então, se fosse menino, pensava que seriam grandes amigos, e quando ele crescesse sairiam juntos para bater papo e beber, empoleirados no balcão do Café Cosa Nostra. Manteriam grandes papos, ele, tomando gin fizz, ou daiquiri, ou qualquer outra bebida preparada pelo Filgueiras, e seu grande amigo tomando um grande sorvete. “Haveria sorvete no Cosa Nostra?” Era algo sobre o que não tinha pensado ainda. Fora um dia puxado no jornal. Precisava se afastar da Editoria de Polícia. Haveria de sair da cidade logo que o bebê nascesse. Firmemente  seguro ao corpo redondo de Celina todos os bandidos da cidade se puseram em debandada e uma lassidão adveio ao jorro com que inundou a mulher, que se virou para ele e se pôs a lamber-lhe o rosto, ronronando, mais gemendo, agora, que ronronando.

A manhã veio vermelha para a janela, e um sabiá cantou durante muito tempo, até Reinaldo sonhar com as manhãs encobertas de neblina em Pedra de Guaratiba.


Do livro A Grande Farra, edição do autor, Brasília, 1992, 153 páginas, esgotado

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

O Pará não dorme mais em berço esplêndido

Brasília, 20 de dezembro de 2011 – O plebiscito da divisão do Pará em três (mais Tapajós e Carajás), dia 11, aprovou o não, mas mostrou que os paraenses querem manter o estado com 1.247.689,515 quilômetros quadrados, do tamanho da Colômbia, e 7,6 milhões de habitantes, apenas por bairrismo; e os políticos pró-Pará, para não terem suas tetas reduzidas. Dos 4,8 milhões de eleitores, 67,93% rejeitaram a criação de Carajás, contra 32,07% que apoiaram o nascimento do novo estado; 67,36% rejeitaram a criação de Tapajós e 32,64% apoiaram a divisão. A abstenção chegou a 25,45%.

Um erro do Supremo Tribunal Federal (STF) foi ter incluído os moradores do Pará remanescente, a maioria da população, no plebiscito. Foi o mesmo que consultar Portugal sobre a independência do Brasil. Cerca de 98% dos moradores do Tapajós, por exemplo, querem se separar do Pará. Também, caso o plebiscito fosse pelo sim, creio que o Congresso Nacional barraria a divisão, ou Dilma Rousseff (PTMDB), pois seria uma sangria nas tetas da Esplanada dos Ministérios.

Carajás, se fosse criado, deteria a maior província mineral do planeta, atualmente explorada pela gigantesca Vale. Como exportação de commodities extraídas do sub-solo não rende praticamente nada para os estados, mas apenas para o império, isto é, para a União, restaria aos carajaenses a industrialização metalúrgica, embora houvesse implícito na criação de Carajás grande interesse de fazendeiros, principalmente do Sul e do Centro-Oeste.

Quanto a Tapajós, culturalmente um estado autônomo, detém Belo Monte, que será a terceira maior hidrelétrica do mundo e que tem sido palco de tanto besteirol.

O Pará, mesmo, ficaria reduzido a 218 mil quilômetros quadrados, 17% do seu território.

Logo depois da apuração do plebiscito, o governador do Pará, o tucano Simão Jatene, botou a culpa do atraso do estado no pacto federativo. Em outras palavras, ele se reconheceu incompetente como gestor. Será que Simão está investindo direito em educação, em pesquisa, em industrialização? Ou está enchendo os bolsos da mídia e inchando o governo com cabide de emprego e em nepotismo?, como fez no seu governo anterior e que foi levado ao paroxismo com a deslumbrada e inacreditavelmente incompetente Ana Júlia Carepa, do PTMDB, e que está prestes a botar a boca numa tetinha no governo Dilma Rousseff?

"Existe uma distância e ausência, mas não é do governo do estado, mas do estado brasileiro. É genuíno o sentimento das pessoas, mas acho que o caminho foi equivocado. A sociedade paraense sai mais madura, mas precisamos de um pacto que nos reposicione” - disse Jatene, com o jeitão sociológico dos tucanos.

Governadores da Amazônia dormem em berço esplêndido. Têm a cultura do colonizado e não sabem entrar na mídia nacional por meio do que é bom nos seus estados. Quando se avistam com Dilma Rousseff parecem vassalos diante de uma imperatriz. Já suas bancadas no Congresso Nacional geralmente tratam dos seus próprios negócios. O povão é empurrado com cesta básica, política de “estado” que Lula alçou à estratosfera.

Novos lances nos movimentos de emancipação vão surgir, mas agora a insatisfação começou a focar a posição da capital, Belém, para onde vai boa parte da grana dos paraenses, uma fatia dela para apaniguados do governador. Já há um movimento querendo tirar de Belém a sede dos três poderes e jogá-la para perto da Terra do Meio, como foi feito com o Rio de Janeiro e Brasília.

Para um país continental como o Brasil, a vocação é a divisão política. O Pará era do tamanho da Amazônia e foi dividido aos poucos. A última porção que perdeu, em 1943, foi o atual estado do Amapá. Se o Amapá ainda fosse paraense, é provável que sua capital, Macapá, seria semelhante à cidade de Afuá, no arquipélago de Marajó, região paraense paradisíaca, mas onde crianças morrem de fome, comidas por vermes, ameba, giárdia, malária e estupradas.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O banquete dos que eu amo

O tarde é feita de mulheres que passam batom na boca
De crianças que riem
De sabiás que amam
De rosas nuas,
De silêncios.
A tarde é prenhe da solidão da madrugada
E, ao mesmo tempo, de um grande aeroporto numa sexta-feira à noite.
A tarde é o agora e o agora, numa temperatura de 21 graus centígrados,
Sombra tropical, cadeira de palinha e café espresso arábica.
A tarde é prenúncio de estrelas e do rastro de mulheres tão lindas
Que vivem nuas.
A tarde é uma mulher grávida de amor,
E que tem sabor de vinho europeu.
A tarde evoca sons de diamantes,
Excitante como beijo de língua
E sabor de ostra e Bohemia enevoada.
A tarde é o riso das virgens ruivas
E, da luz, o triunfo.
A tarde é tudo o que tenho para dar neste Natal,
E, no Ano Novo, darei minha alma, que é toda a minha luz.