terça-feira, 17 de abril de 2012

Ray Cunha autografa O Casulo Exposto e Trópico Úmido – Três Contos Amazônicos na Bienal Brasil do Livro e da Leitura de Brasília



Ray Cunha e O Casulo Exposto (Foto: Ricardo Marques - 2009)
BRASÍLIA, 17 de abril de 2012 – Estarei autografando dois livros: Ocasulo exposto (LGE Editora, Brasília, 2008, 153 páginas, R$ 28) e TrópicoÚmido - Três contos amazônicos (edição do autor, Brasília, 2000, 116 páginas, R$ 20), na Bienal Brasil do Livro e da Leitura de Brasília, na Esplanada dos Ministérios, Pavilhão D, estande 67, da Livraria Cope Espaço Cultural, defronte ao estande da Livraria Arco-Íris, sábado 21 e domingo 22, entre as 17 e 19 horas.

A Bienal Brasil do Livro e da Leitura de Brasília é o ponto alto da programação de aniversário da capital da República, que completa 52 anos, dia 21 de abril. Começou dia 14 e irá até 23 de abril, sempre das 9 às 22 horas, numa estrutura coberta de 14 mil metros quadrados, dividida em quatro pavilhões, com 157 expositores, sessões de autógrafos, exibição de peças e filmes, seminários, debates, palestras e shows de música popular brasileira, tudo com entrada franca. Os promotores do evento aguardam meio milhão de visitantes. 

Estarão presentes 120 editoras e autores de todos os continentes. Nomes consagrados autografarão seus trabalhos, como o Nobel nigeriano Wole Soyinka, autor de O Leão e a Joia; o norte-americano Daniel Polansky, autor da trilogia Cidade das Sombras; o britânico Richard Bourne, autor da biografia Lula do Brasil; e o argentino Mempo Giardinelli, de Luna Caliente. Haverá também debates com escritores como a norte-americana Alice Walker, de A Cor Púrpura; e o chileno Antonio Skármeta, de O Carteiro e o Poeta. Entre os autores brasileiros convidados estão Milton Hatoum, Cristovão Tezza e Marçal Aquino.


domingo, 8 de abril de 2012

História maldita


Não sei quando terminarás, ou se terminarás
Sei que começaste ao abandono de uma tarde estrangeira
Quando a esperança quebrou-se como cristal fino
A este medo insinuante.
Começaste sem saída.
Tentarei manter-me vivo e lúcido
Enquanto escrevo esta história curta e angustiante
Tentarei não pensar no abandono
A ansiedade e a angústia que me tomam
Talvez me desesperem
É pena eu ter coração e ser fraco diante de certas cenas.
Às vezes preciso chorar porque o mundo me magoa.
Essas são coisas que acrescentamos num poema
Corrigido e circunspecto.
Enfim, tudo é relativo.
Relativo a este caso estrangeiro.
A eventualidade é um conto fantástico
Dentro da retórica de um judeu-argentino.
Sou um a mais na caravana em desespero
Não tenho mais o sentido das coisas
Dentro de um âmbito de soluções.
Sou um pontito escuro
No porto de chegada.
Ilusão estremunhada
Cansaço num caminho curto.

Do livro Sob o céu nas nuvens, 94 páginas, publicado em 1980, em Belém do Pará, edição do autor, esgotado. Os poemas desse livro foram escritos nos anos 1970. História maldita, por exemplo, foi trabalhado em Buenos Aires, concluído em 9 de outubro de 1974. Eu tinha 20 anos e estava na estrada, como milhões de jovens, em busca de si mesmos. Encerrei essa fase, que iniciara em 1972, aos 17 anos, em 1982, aos 26 anos. Lendo Ernest Hemingway, descobri que aonde quer que vamos, levamos sempre nós mesmos. Assim, Papa me ensinou que o que estamos vendo como problema está em nós mesmos, e nunca nos outros, ou no lugar onde vivemos. Lembro-me que em 1972 estive na casa do teatrólogo Paschoal Carlos Magno, em Santa Tereza, no Rio de Janeiro. Ele foi uma espécie de guru de jovens artistas. E eu “fugia” de Macapá. Disse-lhe que queria ir para Paris. Ele me perguntou por quê.

- Para escrever um romance – respondi-lhe.

- E por que você não o escreve aqui? – indagou.

Não soube responder, e escrevi o romance A Casa Amarela (Cejup, Belém do Pará, 2005, 158 páginas), 33 anos depois, em Brasília. Ele é Macapá, que guardo no meu coração, como um raio de sol, ao amanhecer, transformando gotas de orvalho numa rosa vermelha em imenso rubi cravejado de diamantes.

quinta-feira, 15 de março de 2012

CONTO/Nostalgia

Queria andar. A cidade estava calma como sempre. Sentiu fome e entrou num restaurante suburbano. O garçom era um velho magro e acabrunhado, e pela janelinha de passar comida viu outro velho, gordo, a picar alguma coisa. O restaurante era sujo e malcheiroso. Isaías foi embora. Apanhou um táxi e pediu ao motorista que o levasse a um restaurante limpo e alegre. O restaurante Samurai era um prédio de dois andares, sujo e fedorento, quente e mal iluminado, barulhento, e os garçons lembravam urubus espreitando carniça. Saiu. Caminhou lentamente e encontrou uma zona de casas noturnas, mas nenhuma era como estava querendo. Até que topou com a luz que vinha de uma casa, cercada por uma sebe de cróton. Era amarela, recentemente pintada. Fora uma residência e agora era um bar, com tudo bem arrumado e limpo e bem iluminado. Sob a marquise, uma moça e dois rapazes batiam papo. Fluía Monday, Monday, numa cuidada orquestração.
- Boa noite, senhora – disse Isaías à japonesa que o atendeu. Ela o saudou e ele pediu uma cerveja Antarctica. A garrafa estava enevoada e a taça muito limpa. – Dê-me também um sanduíche de filé.
Um rapaz, que só falava em japonês com a velha senhora, começou a preparar o sanduíche. Fazia-o de maneira tão correta que Isaías entreteve-se a vê-lo.
- É muito agradável sua casa, senhora.
- Oh! Muito obrigada! Muito obrigada!
- Se não viajasse amanhã viria mais vezes aqui.
- O senhor não é daqui?
- Sou. Meu pai faleceu e eu vim por isso. Ele foi um dos pioneiros de Macapá.
Enquanto bebia, pensava no pai. Tinha muito charme quando atirava. Nunca perdia um tiro. Quando ele morreu, há muito que Isaías morava em Manaus; isso atenuou o choque causado pela morte do pai. A moça e os dois rapazes haviam saído. A moça era bonita e Isaías desejou tê-la consigo. O japonês começou a arrumar as mesas e esperava para varrer. A mulher pediu desculpa e Isaías também pediu desculpa, pagou e saiu. A noite era um navio à espera num bar qualquer da cidade.


Nostalgia integra o livro de contos A grande farra (edição do autor - Ray Cunha -, Brasília, 1992, 153 páginas, esgotado

sábado, 10 de março de 2012

CONTO/Fim de semana

A embarcação mergulhava a proa e dava a sensação do dorso de um cavalo a galope. Durante toda a manhã foi assim. À tarde, o sol amarelava a baía; não havia vento e o calor estava sufocante. E assim passou-se o dia até a noite, quanto chegaram à ilha, ao largo do Marajó.

Cedo, no dia seguinte, contornaram a ilha, desembarcaram e se internaram no mato em busca de porcos, que tinham sido vistos naquele ponto. Os rapazes avistaram uma clareira, onde erguia-se um taperebazeiro, e ouviram os porcos. Jiparaná se abaixou para ver as pegadas e um porco passou desembestado por eles. Isaías engatilhou a doze, mas o porco sumiu no mato. Jiparaná pediu a doze e quando pegou a arma ela disparou para o ar.

- Bando de filhos-da-puta! Como é, seu sacana, que tu me dás esta porra engatilhada, em, seu filho-da-puta?

- Lá está ele! – gritou um dos caboclos, apontando para o porco, que estacionara adiante e procurava se orientar. Entraram no mato atrás dele e conseguiram-no encurralar numa capoeira impenetrável. Joparaná disparou. O animal emitiu um grunhido e caiu. Fora atingido na cabeça.

À tarde, a ilha pareceu inflar. Surgiram praias até onde alcançavam os olhos.

- Vamos levantar, cambada de vagabundos – disse Jiparaná, sob protesto dos rapazes. Jiparaná ergueu Carlos da rede e foi atirá-lo no rio, do extremo do trapiche. – Vou fazer uma operação daqui a pouco – disse, enquanto tomava um gole de café. – Alguém quer ir comigo?

Só João quis ir e Jiparaná largou-se com ele e um caboclo.

- Outro dia peguei uma criança. Estava morta. Quase podre já.

- E agora, o que é?

- Gangrena.

A casa havia surgido ao longe. Na frente, meia dúzia de crianças aguardava a ubá. Quando encostaram, as crianças entraram correndo.

O doente gemia numa rede atada na parte central da casa. Jiparaná olhou a mão gangrenada, fez uma careta e pediu que fervessem água.

- João, me dá a maleta. – Tirou um bisturi, quelene e álcool. João guardou para si uma caixa de quelene, sem que Jiparaná notasse.

Não havia muito o que fazer. O doente teria que ser removido para Macapá na madrugada seguinte. Jiparaná fez suas recomendações e disse que passaria, com a maré, para pegar o doente. De volta à ilha, aproveitaram o que sobrava do dia para pescar.

- Vou dar uma cagada, enquanto isso... – disse João, apanhando uma Bíblia. Então mostrou um frasco de quelene para os outros rapazes. Tomaram um caminho que dava para o mato. Sentaram-se e puseram-se a cheirar quelene. João sacou meia página da Bíblia e preparou um cigarro.

- Só falta agora Abbey Road e a Telma – disse Isaías.

- E vodca também – lembrou João.

- Com laranja – Carlos completou.

- A Telma é uma delícia...

- Ela deve estar banhadinha uma hora destas, escutando os Beatles.

Jiparaná os chamou. Foram pescar nos poços ao longo da praia. Os peixes são morriam imediatamente, envenenados pelo timbó, e uma grande piramutaba saltou de dentro da rede, caindo no poço, para logo depois flutuar.

A noite caiu. E tudo pareceu imerso dentro da noite. A ilha era a casa. Quem se aproximasse da casa veria a brasa dos cigarros, que se alumiavam, de vez em quando, pousadas no piche da noite.


Fim de semana, conto do livro A grande farra, edição do autor (Ray Cunha), Brasília, 1992, 153 páginas, edição esgotada

quinta-feira, 8 de março de 2012

Mulheres, o voo na luz

As mulheres são um santuário abissal de rosas tão azuis que sangram rubis. Sigmund Freud viajou no meio desse cataclismo e retornou atordoado, à razão. As mulheres nos carregam no útero durante nove meses, ao cabo dos quais nos dão à luz, por isso, por mais que não pareça, nos dominam para sempre, pois, para elas, somos sempre crianças, a quem deram os seios prenhes de vida. Nós, homens, jamais as subjugaremos, por uma razão simples: ninguém pode acorrentar a poesia, e elas são livres como a flor, luminosas como o riso das crianças, mais lindas do que um grande jato pousando.

Para que eu me sinta seguro basta a presença de mulheres, pois são elas que nos conduzem a Deus, às vezes, por labirintos em trevas aos olhos masculinos, mas onde elas enxergam com a clareza das manhãs de primavera. De nós, homens, elas só exigem que as amemos, pois só assim desabrocham como rosa colombiana, vermelha, e espargem perfume aonde quer que passem. Todos os dias hão de ser dedicados às mulheres, nas preces, à passagem delas, na sua liberdade azul como o voo do vento.

Sou o homem mais rico entre todos, porque, além de voar nos sonhos, minha vida é povoada de mulheres. Duas tem nome de flores: Josiane, que me purifica no seu santuário, e Iasmim, minhas asas. Sou o homem mais rico porque elas me mostraram a dimensão do éter, que é onde voo na luz.

terça-feira, 6 de março de 2012

Gritos azuis

A noite chega doce como abismo azul.
Ouço Summertime, entre os rumores da noite.
Falam-me de Macapá e da Estação das Docas.
Compreendo, então, que o som vem do meu coração.
Ouço risos de crianças,
E deposito toda a minha esperança nesses pequenos deuses.
Ouço vozes femininas,
E sinto a nudez de todas as mulheres muito lindas,
Como Boeing pousando.
A noite jorra na minha memória
Como cataclismo de rosas
O atrito da Terra no éter
O Concerto Para Piano e Orquestra, de Mozart,
O choro dos jasmineiros
Que vertem Chanel número 1.
O céu é tão intenso que verte rubis
Os shoppings estão lotados
De mulheres seminuas
Nesta noite de março, em Brasília.
Suave como o cochichar de lábios carnudos ao meu ouvido
A noite avança prenhe de romance e mistério
Encontro-a em toda parte
E ela surge das minhas mãos de criador
Na tela do computador
Por toda a eternidade!


Brasília, 711 Sul, 6 de março de 2012

sábado, 3 de março de 2012

CONTO/O Elesbão é um convite

- Mais uma Cola-Cola e um meiota – pediu. Voltou-se para o outro, que aprovara o pedido. – A matança começará à meia-noite.

- É o tempo que terminamos esta meiota – disse, olhando para a única porta, e gritou: porrada!

Fora do bar dois sujeitos brigavam. O maior castigava o outro a chutes. Apartaram a briga. O ruivo e o moreno voltaram para o bar. Aproximava-se a meia-noite.

- Vamos tomar mais uma?

- Só sairemos daqui quando fechar – respondeu o moreno.

- Escrevi um poema ontem, evocando minha infância. Tem a forma de um disco – disse o ruivo.

- Mas isso não dificulta a leitura?

- Assim as pessoas se detêm mais no conteúdo.

- E o que lhes pode interessar da tua infância?

- É um poema introspectivo...

- Melhor vermos os porcos.

- Vamos tomar mais duas – afirmou o ruivo.

- Vamos perder a matança.

- Aquele filho da puta do meu tio disse que ia me esperar.

O ruivo escorregou e caiu numa poça de água. Levantou-se e continuou andando, como se nada houvesse acontecido. Pararam num boteco e pediram duas doses de aguardente. Ouviram ao longe grunhidos de porco.

- Ainda não começaram a matança.

No bairro do Elesbão, em Macapá, há um matadouro de porcos na extremidade de um comprido trapiche. Quando a maré sobe, o trapiche parece afogar-se no rio Amazonas. Naquela hora da noite era grande o movimento por lá. Transferiam porcos de um curral para outro. O tio do ruivo foi buscar café. Um sujeito enorme experimentava duas marretas e olhava para os porcos.

- O ruivo vai acabar morrendo também! – exclamou um caboclo. Os outros riram. Num local, quase às escuras, o ruivo tentava pegar no traseiro de uma mulher, que esquentava água em panelões.

Com a marretada no crânio o porco se encolheu, e caiu estrebuchando com a facada no pescoço. Em pouco mais de uma hora os porcos estavam mortos e logo seriam pelados. Alguns demoravam a morrer. Um carregador baixo e forte serviu café em copos de vidro grosso.

- Antônio, corre aqui! – gritou o ruivo para o rapaz moreno.

- Diz!

- Descobri uma garrafa de Pitú!

- Onde?

- Ali! Mas não dá mancada.

- Claro. Vamos apanhá-la e dar o fora.

- Não, rapaz, temos que falar com o titio, antes.

- Ora, porra!

- Ele só me convidou para a matança porque tenho que levar porco para casa.

- Ele manda amanhã. Não percebes que hoje estamos bebendo?

- Como é que o nosso tio não percebeu? – disse o ruivo, abaixando-se para pegar a garrafa.

- Nosso, não.

Amanhecia. Uma fogueira fria queimava de cor o rio e aves passeavam, lentas, na areia do mangue.



O ELESBÃO É UM CONVITE integra o livro A GRANDE FARRA, edição do autor (Ray Cunha), Brasília, 1992, 153 páginas, esgotado