RAY CUNHA
BRASÍLIA, 1 DE MAIO DE 2026 – O filósofo japonês Masaharu Taniguchi afirma no livro Mistérios da Vida (Seicho-No-Ie do Brasil, São Paulo, 2003, 303 páginas) que o tempo nada mais é do que movimento. O físico Albert Einstein demostrou que ao se atingir a velocidade da luz, 299.792.458 metros por segundo, ou, para ser mais prático, 300 mil quilômetros por segundo, o tempo para. Isso confirma o que os artistas fazem desde sempre: viajar no tempo por meio do coração.
Woody Allen utiliza esse truque com genialidade em Meia-Noite em Paris (Midnight in Paris, Espanha/Estados Unidos, 2011, 100 minutos). O cineasta nova-iorquino faz um poema a Paris, exibindo-a sob todas as suas luzes, especialmente a da meia-noite, quando, na Paris de 2011, um escritor, personagem central do filme, embarca no túnel do tempo rumo aos anos de 1920, e se encontra com Ernest Hemingway de Paris é uma Festa, Francis Scott Fitzgerald de Suave é a Noite, Pablo Picasso e turma. De volta a 2011, que é o tempo dele, descobre a intensidade do momento mesmo da vida, que a verdade pode estar sob a chuva, à meia-noite, em Paris.
A verdade está dentro de nós mesmos. “Aonde quer que a gente vá, levamos sempre nós mesmos” – disse Hemingway. Com efeito, mudanças de ares não solucionam problema algum, pois se passam no plano físico, embora possam significar uma pista para a resolução do conflito, que ocorre, sempre, no coração.
Lembro-me que, em 1971, aos 17 anos, em Macapá, minha cidade natal, uma cidadela ribeirinha, eu lutava para me firmar como escritor, mas isso não rendia sequer um mísero tostão e as pessoas, ao redor, não perdoavam isso; eu me sentia sufocando. Escafedi-me. Fui de carona para o Rio de Janeiro. Havia lido Paris é uma Festa e queria participar também da festa, mas era uma festa que não se passava no meu coração. Um dia, na casa do teatrólogo Paschoal Carlos Magno, em Santa Teresa, disse a ele que queria ir para Paris. Ele me perguntou para quê. Disse-lhe que era para escrever um romance. “Mas você pode escrevê-lo aqui” – disse-me.
Nunca fui a Paris, nem escrevi romance algum no Rio de Janeiro, mas foi lá que eu renasci, da mesma forma que renasci em Buenos Aires, em Manaus, em Belém do Pará, em Brasília. Qualquer cidade é boa para renascermos, basta que descubramos, nela, o portal do tempo, que nos leva ao agora.
Assim como Woody Allen fez em Meia-Noite em Paris, fiz em A CASA AMARELA (Editora Cejup, Belém do Pará, 2002, Editoras Clube de Autores, amazon.com.br e amazon.com). A turma toda estava lá, em Macapá, sob o perfume dos jasmineiros que choram nas noites tórridas, que são todas as noites, exceto as muitas noites em que sentimos cheiro de água, de tanta chuva. Mas, em agosto, o céu de Macapá parece Paris à meia-noite, e a boca do rio Amazonas arranca o cheiro do Atlântico e o leva até os quiosques na frente do Macapá Hotel, misturando-se à Cerpinha enevoada.
O tempo cronológico é físico; o tempo mental, ou poético, só existe no coração. Os artistas sabem disso. Portanto, não importa onde estiverem, estarão sempre viajando, às vezes, muito alto, a bordo de um avião, batendo papo com Antoine de Saint-Exupéry.
La vie se déroule à la vitesse de la lumière sur les routes escarpées et sinueuses du cœur
RAY CUNHA
BRASÍLIA, le 1er mai 2026 – Le philosophe japonais Masaharu Taniguchi affirme dans le livre Mystères de la Vie (Seicho-No-Ie do Brasil, São Paulo, 2003, 303 pages) que le temps n’est rien d’autre que mouvement. Le physicien Albert Einstein a démontré qu’en atteignant la vitesse de la lumière, 299 792 458 mètres par seconde, ou, pour être plus pratique, 300 000 kilomètres par seconde, le temps s’arrête. Cela confirme ce que les artistes font depuis toujours : voyager dans le temps par le biais du cœur.
Woody Allen utilise ce procédé avec génie dans Midnight in Paris. Le cinéaste new-yorkais compose un poème à Paris, qu’il montre sous toutes ses lumières, surtout celle de minuit, lorsque, dans le Paris de 2011, un écrivain, personnage central du film, s’engage dans le tunnel du temps vers les années 1920 et rencontre Ernest Hemingway de Paris est une fête, Francis Scott Fitzgerald de Tendre est la nuit, Pablo Picasso et toute leur bande. De retour en 2011, qui est son temps, il découvre l’intensité de l’instant même de la vie, que la vérité peut se trouver sous la pluie, à minuit, à Paris.
La vérité est en nous-mêmes. « Où que nous allions, nous nous emportons toujours avec nous-mêmes », disait Hemingway. En effet, les changements d’air ne résolvent aucun problème, car ils se déroulent sur le plan physique, bien qu’ils puissent représenter une piste vers la résolution du conflit, lequel se joue toujours dans le cœur.
Je me souviens qu’en 1971, à 17 ans, à Macapá, ma ville natale, une petite cité riveraine, je luttais pour m’affirmer comme écrivain, mais cela ne rapportait pas même un misérable sou, et les gens autour de moi ne me le pardonnaient pas ; je me sentais étouffer. Je me suis échappé. Je suis parti en auto-stop vers Rio de Janeiro. J’avais lu Paris est une fête et je voulais moi aussi prendre part à la fête, mais c’était une fête qui ne se déroulait pas dans mon cœur. Un jour, dans la maison du dramaturge Paschoal Carlos Magno, à Santa Teresa, je lui ai dit que je voulais aller à Paris. Il me demanda pourquoi. Je lui répondis que c’était pour écrire un roman. « Mais vous pouvez l’écrire ici », me dit-il.
Je ne suis jamais allé à Paris, ni n’ai écrit le moindre roman à Rio de Janeiro, mais c’est là que je suis rené, de la même façon que je suis rené à Buenos Aires, à Manaus, à Belém, à Brasília. Toute ville est bonne pour renaître, pourvu que nous y découvrions le portail du temps qui nous mène à l’instant présent.
De même que Woody Allen l’a fait dans Midnight in Paris, je l’ai fait dans A CASA AMARELA (Editora Cejup, Belém do Pará, 2002 ; Éditions Clube de Autores, amazon.com.br et amazon.com). Toute la bande y était, à Macapá, sous le parfum des jasmins qui pleurent dans les nuits torrides — qui sont toutes les nuits, hormis les nombreuses nuits où l’on sent l’odeur de l’eau, tant il pleut. Mais en août, le ciel de Macapá ressemble à Paris à minuit, et l’embouchure de l’Amazone arrache l’odeur de l’océan Atlantique et l’emporte jusqu’aux kiosques devant le Macapá Hotel, où elle se mêle à la brume légère d’une Cerpinha glacée.
Le temps
chronologique est physique ; le temps mental, ou poétique, n’existe que dans le
cœur. Les artistes le savent.
Peu importe donc où ils se trouvent : ils voyageront toujours, parfois très
haut, à bord d’un avion, en bavardant avec Antoine de Saint-Exupéry.

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