
Ray Cunha: Acredito que o Universo é infinito, não para as
mulheres. Elas são como a luz. Penso nas mulheres com fé
RAY CUNHA
BRASÍLIA, 15 DE MARÇO DE 2026 – As cidades são como as mulheres. De manhã, douram-se ao sol, como as rosas da primavera, desembocando no rio azul da tarde, e, à noite, se perdem na luz. Da mesma forma que as mulheres, as cidades latejam segredos que só revelam aos que sabem mergulhar no abismo das rosas.
Amo várias cidades, e elas se entregam a mim sem reservas. Belém me seduz, com seu feitiço de rosas vermelhas, colombianas, flutuando no azul do mar, deixando um rastro de Chanel 5, gim e perfume de mulher absorta ao toucador. Manaus também, onde o cheiro de mulher é tão intenso que causa vertigem, e sentimos, lentos, os movimentos da Terra no espaço, como música de Mozart.
O Rio de Janeiro tem o poder de me fazer voar, cavalgando besouros furta-cores num mar transparente sem fim. Há, ainda, outras cidades a quem eu seduzo como o garanhão faz a corte à sua próxima vítima, com paciência, concentração total e, sobretudo, fé. Mas, diferentemente do garanhão, percorro as cidades com amor. Assim é com Macapá.
A melhor maneira de descobrir Macapá é atravessando de barco o estuário do rio Amazonas. Quem sai do arquipélago do Marajó e mergulha no maior rio do mundo, em direção à Linha Imaginária do Equador, avista, de repente, a cidade, que emerge como cunhantã se banhando no rio, o vestido molhado, colando-se ao corpo, os cabelos espargindo água e nos olhos o mistério. É assim que gosto de pensar a cidade, com seu cheiro de jasmim nas noites mornas.
Sou teu, Macapá, porque tu me pariste, às 5 horas do dia 7 de agosto de 1954, no Hospital Geral, e de lá fui para a Casa Amarela, ao lado do Colégio Amapaense, na Avenida Iracema Carvão Nunes com a Rua Eliezer Levy, ao lado da Mata do Rocha, e lá passei 11 anos da minha infância.
Restou a Seringueira, que meu pai plantou, e que foi salva de ser decepada – porque se recusou a sair do caminho do muro do Colégio Amapaense – pelo agrônomo Luiz Façanha, que se abraçou ao seu tronco num gesto de amor. Meu pai, João Raimundo Cunha, semeou a Seringueira, em 1952, ano do nascimento do meu irmão, o pintor genial Olivar Cunha. Macapá, para mim, é isso, e é tanta coisa...
As cidades, como as mulheres, quanto mais as amamos, mais belas ficam, e mais misteriosas. E, como as mulheres, as cidades nunca são nossas. São delas mesmas, e de todos os que as amam. Não podemos jamais ser donos de uma cidade, da mesma forma que é impossível nos apossarmos de uma mulher, porque as mulheres são sempre livres e misteriosas.
E, como as mulheres, as cidades estão sempre diferentes. A cada manhã há algo novo nas suas vidas, há um novo mistério no seu sorriso. A cada partida, fica implícito o encontro marcado, e as chegadas são regadas de risos, de luz, e perdão. As mulheres, devemos apenas as amar, sem exigir nada, porque nada se pode exigir do inacessível.
As mulheres são feitas de eternidade. É impossível subjugá-las para aspirar suas almas. Tudo o que um homem pode fazer é deixar-se inundar pela luz das mulheres, e, então, tornar-se imortal. Porque as mulheres são deusas. Deusas porque a inteligência que rege o Universo as criou com a subjetividade de Deus.
As mulheres são feitas de feromônios, porque exalam perfume de púbis angelical, suave aroma azul, como a mais sublime inspiração de Mozart, como gemidos da mulher amada, de madrugada, em um grande hotel. As mulheres são a rua mais ensolarada das nossas lembranças. Cada uma delas é uma cidade onde gostamos de mergulhar. As possibilidades que se abrem nos labirintos misteriosos da alma feminina são alento de serotonina.
Caminhamos nas cidades que amamos pelas ruas do coração, frequentamos os bares onde estão nossos amigos, vivos e mortos, e, se é uma cidade que tem mar, mergulhamos nele com o olhar, e, se é uma cidade que tem rio, contemplamos o rio. Da mesma forma navegamos as mulheres, sentindo seu cheiro, seu sabor, ouvindo seu riso, seus gemidos de prazer, bebendo colostro, sugando serotonina e viajando como a luz.
Dentro de uma mulher, viajamos instantaneamente para qualquer ponto do Universo. O Universo é infinito, não para as mulheres. Elas são como a luz. Só temos que as amar. Só assim, mesmo que não as possuamos, elas são nossas, apenas porque nos quedamos sob sua luz. Se não podemos tocá-las, podemos vê-las, mesmo que seja por alguns segundos em um grande aeroporto internacional, de madrugada. E se nem isso for possível basta pensarmos nelas, com fé.
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