RAY CUNHA
BRASÍLIA, 20 DE ABRIL DE 2022 –
Meu último livro, o romance-reportagem político e histórico O CLUBE DOS ONIPOTENTES (clubedeautores.com.br e amazon.com.br, 2022,
278 páginas, R$ 44,14 e ebook R$ 18,19), que estará nas livrarias até junho, com
selo de uma editora carioca, não trata somente da história política recente do
país, mas também, embora rapidamente, do homem mais rico do planeta, Elon Musk,
e de três dos maiores escritores brasileiros: o carioca Machado de Assis, o
mineiro João Guimarães Rosa e o paraense (você leu direito: paraense) Dalcídio Jurandir.
Os três estão
logo no primeiro capítulo. Trecho sobre Musk, que, a propósito, está investindo
na Amazônia: “Como a Linha do Equador é o local de rotação mais veloz da Terra,
o Jacuraru teria tudo para ampliar a fortuna dos Sá Dourado, assim como o PIB
francês é ampliado por três foguetes lançados na base espacial em Kourou, no
meio da selva, no Departamento Ultramarino francês, a Guiana Francesa: Ariane,
Soyuz e Vega. O maior deles, o Ariane 5, foi criado em 1996, levando para o
espaço alguns dos maiores satélites de telecomunicações e meteorologia do
planeta.
“O projeto do
Ariane 6, foguete de 62 metros de altura, desenvolvido para lançar espaçonaves
ainda maiores do que as transportadas pelo Ariane 5, tem orçamento de 2,4
bilhões de euros, dinheiro dos países da Agência Espacial Europeia (ESA); mais
barato e eficiente do que o Ariane 5. Cada lançamento do Ariane custa em torno
de 100 milhões de dólares.
“Mas uma nova
geração de foguetes reduziu os custos. A SpaceX, Space Exploration
Technologies, do bilionário Elon Musk, pode fazer a mesma coisa que o Ariane 5
dezenas de milhões de dólares mais barato. Os dois primeiros foguetes da
empresa são os Falcon 1 e Falcon 9, homenagem à Millennium Falcon, de Star Wars, e sua primeira nave espacial
é a Dragon, em homenagem ao filme Puff
the Magic Dragon, tudo isso concretizado em apenas sete anos.
“Em setembro
de 2008, o Falcon 1 fez história: tornou-se o primeiro foguete privado a
colocar um satélite na órbita terrestre, e, em 25 de maio de 2012, a Dragon
ancorou na Estação Espacial Internacional, tornando-se a primeira empresa
privada a fazer isso”.
Sobre Guimarães
Rosa, Machado de Assis e Dalcídio Jurandir: “Alex olhava para a fauna que
desfilava à sua frente quando foi apresentado a Bob Herman, assessor de William
Popp. Acabaram engatando uma conversa em inglês. Formado em Literatura
Americana e especializado em Literatura Ibero-Americana, Herman era
surpreendente. Lembrava um Baby Herman negro, nascido na Louisiana. E Alex era
leitor voraz; tomou gosto por literatura com seu avô, Dorinato Kubitschek
Dourado, que tinha na figura de João Guimarães Rosa o escritor máximo
brasileiro.
“Com efeito,
Guimarães Rosa criou uma das personagens femininas de ficção mais
extraordinárias de toda a literatura brasileira, e mundial: Reinaldo, ou
Diadorim, ou Maria Deodorina da Fé Bittencourt Marins, mulher travestida de
homem, capaz de fazer quase qualquer coisa que um homem faz. Quando a TV Globo
transpôs Grande Sertão: Veredas para a telinha, quem encarnou Diadorim
foi Bruna Lombardi, uma das mais belas atrizes brasileiras, entre tantas e
tantas beldades. Porém, quando se tratava de mulher, Alex estava mais para
Capitu do que para mulheres ambíguas.
“– Gosto muito
de Machado de Assis – disse Bob, puxando papo exatamente para um terreno
familiar a Alex.
“– Trata-se do
escritor mais emblemático do Brasil, por ser muito conhecido e mulato. Na
escola, tanto no ensino fundamental como no médio, os professores costumam
apresentar uma foto dele feita talvez com o propósito de disfarçá-lo, de
maquiá-lo como branco, uma tentativa de esconder que a mestiçagem é base da
etnia brasileira; somos um caldeirão étnico misturando três elementos: o
europeu, o ameríndio e o africano. O resultado é o povo mais maravilhoso que há
na face da Terra, um povo que não discrimina a cor da pele nem religiões – disse
Alex.
“Bob ouvia
atentamente. Pensou um pouco.
“– Machado de
Assis é o meu escritor brasileiro favorito – disse Bob.
“– Machado é o
escritor que melhor representa o Brasil, que, por sua vez, tem uma importância
fundamental no concerto das nações. O Brasil é fundamental para o resto do
mundo porque o nosso potencial em produzir alimentos, o nosso continente
tropical, o nosso sincretismo, nos fazem o coração do mundo, a pátria do
Evangelho, a potencial pátria de uma nova humanidade. Machado é emblemático
porque nasceu no morro; era pobre, é claro. Estudou em escolas públicas, jamais
frequentou universidade e foi funcionário público a vida toda. Mas, mesmo
assim, fundou a Academia Brasileira de Letras. Os brasileiros gostam de
academias. Acho que em cada uma das 5.570 cidades brasileiras há uma academia de
letras; e seus membros se sentem tão importantes quanto Machado. Não sei o que
os portugueses, que são os criadores do Brasil, acham de Machado; talvez achem
que é mais um negro tentando dizer alguma coisa da senzala. Só não é conhecido
mundialmente porque era brasileiro e escrevia em português. Se tivesse nascido,
hoje, estaria ferrado. Brasileiro, e não sei se sempre foi assim, fazer sucesso
é uma ofensa pessoal. Não sei de onde vem essa inveja, mas é assim. Jorge Amado
só fez sucesso porque foi ajudado pelo Partido Comunista, que é uma espécie de
igreja: de um lado, os cardeais; do outro lado, a miudeza dos corruptos e a
multidão de ingênuos. Amado era cardeal. Creio que o ponto mais alto de Machado
é Dom Casmurro, romance que tem como
sinopse o ciúme. Ou fofoca? Ciúme é um elemento muito forte na cultura
brasileira. O que é ciúme? É possessividade, uma pessoa dona do outro; e é
assim que é, todo mundo é dono do outro, aqui no Brasil. Contudo, Machado cria,
em Dom Casmurro, senão a personagem feminina mais sensual de toda a
literatura brasileira, o que eu identifico como a mulher carioca. O fato é que
Capitu é uma personagem deliciosa, o embrião da carioca moderna, que mora ou
frequenta Copacabana, Ipanema e o Baixo Leblon, é malemolente e tem olhos de ressaca
do mar. Para muitos, Capitu simplesmente metia chifre no marido, com o melhor
amigo dele, ou amigo da onça, como se dizia nos anos sessenta do século
passado. Para outros tantos, Capitu era apenas objeto de fofoca, e seu marido,
Bentinho, paranoico. A questão é que o brasileiro, como de resto o machão
ibero-americano, se pela de medo de imaginar sua santa esposa sendo trabalhada
por terceiros. Mas fale-me de Faulkner, o grande escritor americano – Alex
pediu.
“– William
Faulkner usava a técnica do fluxo de consciência, também utilizada por James
Joyce, Marcel Proust, Thomas Mann, Virginia Woolf. Foi ele que narrou, como
nenhum outro escritor, a decadência do sul dos Estados Unidos, criando
inclusive um condado imaginário, Yoknapatawpha. Ele também criava múltiplos
pontos de vista simultaneamente e utilizava mudanças bruscas de tempo
narrativo. Foi genial, genial! Hoje, meu país é muito diferente do país de
Faulkner, que nasceu trinta anos após o Sul ter sido derrotado pelo Norte. O
Sul, então, vivia sob a supremacia dos brancos de origem inglesa, protestantes,
puritanos e coloniais. Antes de se tornar um dos maiores escritores de todos os
tempos, foi um faz-tudo. Como era baixinho, media 1,65 metro, foi recusado pelo
serviço militar americano, e, assim, se alistou na Força Aérea canadense.
Depois, passou um ano na Universidade do Mississippi, em Oxford, onde estudou
inglês, francês e espanhol. De lá, foi trabalhar em uma livraria em Nova York,
onde, em vez de vender livros, os lia. Foi demitido e voltou para Oxford, onde
trabalhou como carpinteiro, pintor de parede e agente dos Correios. Seu
primeiro livro foi de poemas, The Marble
Faun, publicado em 1924. No ano seguinte, foi para Nova Orleans, onde
conheceu e foi influenciado por Sherwood Anderson, escreveu artigos para
jornais e revistas e publicou seu primeiro romance, Paga de Soldado, em 1926. Deixou Nova Orleans em 1929 e se
estabeleceu em Oxford, onde se casou com Estela Oldham e publicou Sartoris, o primeiro romance passado em
Yoknapatawpha. Aí, vieram alguns livros que granjeariam respeito da crítica,
mas só começou mesmo a vender bem com Santuário,
de 1931; porém, quando estava precisando muito de dinheiro conseguia grana em
Hollywood, como roteirista. Acho que ele chegou ao seu maior apuro com O Som e a Fúria, de 1929, a história dos
Compson, decadente família do Mississippi. Faulkner disse que esse romance
surgiu a partir da imagem de uma garotinha, Candance, Caddy, com a calcinha
suja de lama, trepada numa árvore, descrevendo para seus irmãos pequenos e para
os empregados domésticos negros o funeral da sua avó. A trajetória de Caddy é
contada por meio do ponto de vista de seus irmãos, como Benjamin, Ben ou Benjy,
que é idiota. “Uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria”, do
monólogo de Macbeth, de William Shakespeare, em um fluxo contínuo de passado e
presente, com o ar gasto de tanto carregar sons. Quanto à fúria, é a da
derrocada. O próprio cansaço. Quando a personagem Dilsey assume a narrativa ela
diz que os brancos se cansam facilmente, enquanto ela tinha que fazer todo o
trabalho pesado e envelhecia. Mas ela sabia que todos são iguais. Ela diz,
abrir aspas: “Os brancos morrem também. A tua avó morreu que nem qualquer
negro”. Fechar aspas. Porém o que mais me impressiona na obra de Faulkner é a
transcrição para o papel do fluxo de pensamento. Ele faz isso em longos
parágrafos, longos períodos, com pontuação irregular. É o tal fluxo de
consciência de Proust e Joyce, o que exige, no mínimo, cumplicidade do leitor,
além de muita concentração e mais ainda interesse, se não o leitor não irá
adiante – disse Bob, ao longo de uma dose dupla de bourbon.
“– No Brasil,
temos um escritor que me lembra Faulkner, um Faulkner amazônida, Dalcídio
Jurandir, que, por acaso, e não existe acaso, nasceu em Ponta de Pedras, na
ilha de Marajó. Ele é pouco conhecido, porque os paraenses, que é também o povo
da ilha de Marajó, não são bons para aplaudir e vender seus próprios
escritores, pelo que já observei. No seu livro mais emblemático, Chove Nos Campos de Cachoeira, publicado
em 1941, Dalcídio cria personagens de carne, osso e alma. O personagem central
do romance, o menino Alfredo, sonha em sair do Marajó e morar em Belém, sonho
que ele reparte com um caroço de tucumã, que é um coquinho da Amazônia. Em contraste
com Alfredo, seu irmão, Eutanázio, de 40 anos, é destituído de sonhos; não tem
sequer um objetivo, nem sentido na própria vida. Vive em um mundo absurdo. Para
completar sua miséria, a jovem Irene o despreza. E assim como fazia Faulkner,
as personagens de ficção de Dalcídio povoam seus livros como fantasmas, ora em
um, ora em outro, em épocas diferentes, às vezes com o mesmo nome. Enquanto
Faulkner recria o sul dos Estados Unidos mergulhado em sangue coagulado,
espirrado da negrura do preconceito, Dalcídio apresenta uma Amazônia suja de
lama, caboclos, ou cabocos, com a alma amortecida por cachaça, da mesma forma
que seu doce linguajar silencia no amortecimento da língua pelo espilantol, o
princípio ativo do jambu, a emblemática erva do tacacá, que é uma comida de
origem indígena. Mas a lama pode surpreender, pois dela pode sair o Saurium.
“Ficaram em
silêncio durante alguns segundos. Bob tomou mais um gole de bourbon. Parecia
empolgado com o conhecimento literário de Alex.
“– Preciso ler
esse Dalcídio – disse.
“– Foram
publicados 15 romances dele; creio que conseguirei pelo menos metade, em Belém,
onde uma editora, Cejup, deve ter acervo dele em estoque, pois editou a obra de
Dalcídio, senão toda, mas quase toda.
“– Maravilha!
“– Como nunca
entraram no mercado para valer, os livros de Dalcídio são raros, e
desconhecidos, é claro. Ele é o tipo de escritor que deveria ser editado e
distribuído em edições comentadas, mas, como eu disse, os paraenses não são
bons para vender arte. Creio que haja vários trabalhos acadêmicos sobre
Dalcídio, mas não chegam às livrarias. Aliás, pouco da produção acadêmica do
Brasil, quanto mais da Amazônia, chega ao mercado. Dalcídio está naquele grupo
de escritores clássicos, como William Shakespeare, Miguel de Cervantes
Saavedra, Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, e todo esse pessoal que escreve em
vernáculo, e que deve ser lido em edições comentadas, a menos que o leitor os
conheça muito, ou se identifique muito com eles.
“A conversa
acabou bruscamente, pois William Popp chamou Bob.
“– Vou
providenciar para que os livros cheguem às suas mãos – disse Alex, meio
gritando, enquanto Bob se afastava, e se preparando para dar o fora também. Ele
ia dar o fora porque aquela segunda-feira começara atípica, fazendo-o voltar a
pensar em um assunto que surgiu na sua vida devido a uma adolescente georgiana
escravizada pela máfia russa”.