sábado, 1 de setembro de 2012

Cavalgada na luz

BRASÍLIA, 1 de setembro de 2012 – Eu tinha 17 anos quando saí de Macapá, em 1972. Era uma cidadela ribeirinha, sitiada pela selva, igualzinha a Macondo, com a diferença de que à sua frente passa o rio Amazonas. Quando é maré cheia e o vento sopra forte, ondas de mais de dois metros rebentam no muro de arrimo defronte da cidade, e quando a maré está baixa, o leito do rio surge, negro, numa faixa de quase um quilômetro de largura. Hoje, é a urbe que engole a floresta, numa caminhada de concreto, derrubando árvores e soterrando igarapés, em marcha de terra arrasada. Mas as cidades físicas são ilusórias; somente as que construímos em nosso coração eternizam-se.
Em dezembro de 1971, havia publicado, juntamente com Joy Edson (José Edson dos Santos) e José Montoril, Xarda Misturada, um livrinho de poemas adolescentes no qual o poeta Isnard Lima Filho encontrou um veio de pedras preciosas (certamente os poemas do Joy) e me batizou, então, de Ray Cunha, profetizando que um dia entrarei no mercado livreiro norte-americano. Meu nome é Raimundo, do gótico “sábio protetor”, e uma homenagem a meu avô paterno, Manoel Raimundo Cunha, e a meu pai, João Raimundo Cunha, além de uma promessa de vovó Rosa Maria Cunha a São Raimundo Nonato, padroeiro das parteiras e obstetras.
Pois bem, naquela época, em Macapá, artistas eram vistos como vagabundos. Então achei que deveria me mandar, e me mandei. Peguei minha cota de Xarda Misturada, tomei um barco no trapiche de Macapá e parti rumo a Belém, onde, com ajuda do meu irmão Paulo Cunha e de amigos, peguei carona pela Belém-Brasília, ainda em construção, e fui bater em Brasília, onde consegui, no antigo Ministério da Educação e Cultura (MEC), passagem para o Rio de Janeiro. De lá, queria ir a Paris e cheguei a conversar isso com o dramaturgo Paschoal Carlos Magno, que me aconselhou a me aquietar no Rio mesmo. Depois, vivi em Buenos Aires, Manaus, Belém e, finalmente, Brasília.
Nessa peripécia, passei por inúmeras situações e circunstâncias insalubres ou perigosas, e conheci pessoas maravilhosas, com o que delineei meu perfil, que terá, sempre, base naquilo que recebi dos meus pais: amor incondicional – pois todo amor verdadeiro é incondicional.
Em 1975, comecei a trabalhar como repórter, o que faço até hoje, 37 anos depois. Ler, leio desde os 5 anos de idade, maravilhado com os gibis do meu irmão Paulo Cunha, e, depois, aos 14 anos, com os livros da estante dele, na qual fiz o primeiro contato com Ernest Hemingway.
Recentemente, assumi a chefia de redação de uma agência de comunicação de Brasília, predominantemente de jovens. Aos 58 anos de idade, cheguei ao requinte de auscultar a alma dos jovens. Geralmente são inquietos, dramáticos, desesperados e trágicos. Pensam que são imortais, no sentido de que serão sempre jovens, e veem a velhice como câncer em metástase. Ignoram que jovens também adoecem, sofrem acidentes e morrem, e que se sobreviverem até uma idade provecta lembrarão maracujá de gaveta, ou múmia, dependendo do número de intervenções plásticas ou procedimentos médicos a que se submeterem. E que os órgãos de todos nós, belos ou feios, falirão, e que a morte é inevitável.
Há exceções, óbvio ululante (uma homenagem a Nelson Rodrigues, um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos). O americano Ernest Hemingway foi uma delas. Tinha 21 anos quando decidiu demitir-se do cargo de correspondente do Toronto Star em Paris para dedicar-se exclusivamente à literatura, mesmo sabendo que passaria fome. E passou. Aos 26 anos, publicou um romance revolucionário e maravilhoso: O sol também se levanta. É que aos 18 anos quase morre na Primeira Grande Guerra, e reavaliou sua vida.
Aos 21 anos, quando comecei a trabalhar como repórter, em Manaus, lindas gatas faziam fila à porta da minha alcova, mas só mergulhei inteiramente nos misteriosos abismos femininos depois de velho, ou seja, depois da peripécia. Então, se formos dar um sentido verdadeiro para velhice, ela quer dizer experiência, sabedoria, requinte. Mas vou lhes dizer uma coisa que pouca gente sabe verdadeiramente: nós, seres humanos, somos movidos pela mente. É a mente que vivifica nosso corpo. O tempo cronológico é, tão somente, uma convenção. Portanto, a mente não tem idade. Somos todos, jovens e velhos, mentes sem idade. Neste contexto, os velhos recebem mais sol nos jardins de Deus.
Nosso corpo é simplesmente um amontoado de átomos (Albert Einstein deixou isso bem claro), que se unem enquanto há vida (Éter, como nominam os cientistas; Deus, para quem desenvolveu a intuição). Creio que todos conhecem o adágio: Orai e vigiai! Por meio da oração entramos em contato com Deus, e por meio da vigília, isto é, da prática do bem, nos alinhamos com o Universo. Só então podemos cavalgar a luz.

domingo, 26 de agosto de 2012

A vida é sempre um recomeçar

BRASÍLIA, 26 de agosto de 2012 – Xarda Misturada, livro de poemas de Joy Edson (José Edson dos Santos), José Montoril e meus, foi publicado em dezembro de 1971, em Macapá. Em 1982, lancei Sob o Céu nas Nuvens, também de poemas, em Belém. Dez anos depois, estreei como contista, com A Grande Farra, em Brasília. Meu primeiro livro publicado por uma editora, Cejup, de Belém, saiu em 1996, o conto A Caça. Em 2000, lancei Trópico Úmido – Três Contos Amazônicos e em 2005 a Editora Cejup publicou o romance A Casa Amarela. Em 2008, a LGE Editora, de Brasília, lançou O Casulo Exposto, de contos. Todos esses livros venderam, alguns vendem ainda, a conta-gotas.

Em 22 de outubro de 2010, o artista plástico André Cerino, meu amigo desde quando cheguei em Brasília, em 1987, criou o blog raycunha.blogspot.com. Um ano e 10 meses depois, o blog já foi visitado 17.389 vezes. Nunca fui tão lido, e por tantos leitores importantes. Dia 20 passado, comecei MBA em Marketing pela Escola de Administração e Negócios (Esad). A primeira aula dos cursos da Esad são sempre ministradas pelo seu principal executivo, Marcelo Saraceni. Pois bem, na hora das apresentações ele disse para a turma que é leitor do meu blog e me pediu para escrever o endereço eletrônico no quadro.

Depois desse episódio, ocorreu-me que muita gente importante lê meu blog, e até se corresponde comigo, como o poeta Jorge Tufic, do Clube da Madrugada, autor da letra do Hino do Amazonas. Convivi com Tufic entre 1975 e 1977. Bebíamos Antarcticas enevoadas no Bar Nathalia, em Manaus. Hoje, o poeta vive em Fortaleza.

Desconfio que sou lido também, embora esporadicamente, como acusa correspondência fragmentada, por um dos maiores repórteres do mundo, o premiado jornalista e ensaísta Lúcio Flávio Pinto, que vive em Belém do Pará. Outro escritor amazônida que me lê é o compositor popular, contista, ensaísta e professor universitário, o sociólogo Fernando Canto, de Macapá. Correspondência atesta que meu blog é lido ainda por um dos jornalistas políticos mais lúcidos do país, o romancista Ruy Fabiano, e também pelo ensaísta Jorge da Silva Bessa. Desconfio que o embaixador de Portugal em Paris, Francisco Seixas da Costa, seja meu leitor, e tenho certeza de que o embaixador de Cabo Verde em Brasília, Daniel Pereira, lê meu blog. Esclareço que todos os meus leitores são importantes para mim, especialmente minha gata, Josiane, e minha princesa, Iasmim.

Há os leitores que se ofendem com o que eu escrevo e exigem a retirada de seus endereços eletrônicos da mala direta do blog, principalmente simpatizantes do Lulapetismo.

Este mês, passei a publicar apenas um trabalho por semana. É que dia 9 comecei em um novo emprego: assumi a coordenadoria executiva da Proativa Comunicação, agência brasiliense de porte médio, com clientes do nível da inglesa PricewaterhouseCoopers (PwC), uma das maiores firmas de consultoria e auditoria do mundo, presente em mais de 150 países. As atividades lá tomam toda a semana, de modo que passei a me levantar às 4 horas para trabalhar no meu novo romance. Antes, levantava-me às 5. Então, aos sábados de manhã tenho aula de inglês instrumental e à tarde, quando não me sinto muito cansado, escrevo algo para o blog. Como ontem eu me sentia cansado, escrevo esta crônica neste belíssimo domingo, 26.

Mudamo-nos – Josiane, Iasmim, dona Joana (minha sogra) e eu – no dia 27 de maio da 711 Sul, onde moramos durante 4 anos e 4 meses, para o Cruzeiro Novo. O jardim que cultivávamos na 711 lembrava uma mina de pedras preciosas. Rosas amarelas rebentavam em cachos, fazendo-me lembrar Gabriel García Márquez como a um velho amigo, com quem eu me encontrasse quase todas as noites num bar bem iluminado e me contasse histórias caribenhas. Nas noites muito quentes o jasmineiro chorava Chanel número 5. Plantamos também um pau-rosa e a Josiane cultivava orquídeas. Em novembro, a mangueira defronte de casa ficava prenhe de mangas, doces como seios, e o sabiá cantava desde o fim de agosto até fevereiro.

No Cruzeiro Novo o sabiá também canta na mesma época; começa, a cada dia, sempre em torno das 5 horas e entra pela noite. Na 711 Sul, caminhávamos, Josiane e eu, no Parque da Cidade. Às vezes, eu ia até a Rodoviária do Plano Piloto e retornava caminhando, porque gosto de observar o movimento das ruas. Agora só caminho aos sábados e domingos, explorando o entorno da nova moradia. Vivi no Cruzeiro Velho, o bairro dos cariocas, entre 1987 e 1989, e agora percorro, nas minhas caminhadas, velhos roteiros, e vou lembrando das coisas, como marujo perdido dentro de um nevoeiro.

É que naquela época eu era alcoólatra. Comecei a beber em 1968, com 14 anos de idade, e só parei no réveillon de 2011, quando recusei o tradicional champagne. Então, parte do meu passado jaz sob vapor etílico. Mas a vida é um recomeçar, a cada segundo, e há sempre sol vazando nos jardins de Deus.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

A idade da sabedoria


BRASÍLIA, 7 DE AGOSTO 2012 – Eu tinha vinte e poucos anos quando Gilberto Araújo, amigo da minha idade, profetizou que nossa geração, afogada no álcool, só iria alcançar a sabedoria após os 50 anos. Em 1996, o ocultista paraense Erwin Von-Rommel me perguntou se eu acreditava em Deus.
- Sim! – afirmei.
- E o que é Deus para ti? – indagou.
- É a harmonia do universo – respondi-lhe prontamente.
Quando reconheci que alcançaria a sabedoria após os 50 anos não sabia bem o que era isso; talvez pensasse tratar-se de alguém com a vida financeira resolvida, e em 1996, Deus, para mim, era um conceito intelectual. Domingo passado, fui ao Seminário da Luz, da Seicho-no-Ie, no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, que teve como palestrante o professor Heitor Miyazaki, um iluminado. Durante este seminário, compreendi que sou filho de Deus.
Os astros não se chocam, por causa das leis de atração e de repulsão, da mesma forma que os átomos do nosso corpo. Por quê? A isso os cientistas chamam de lei da gravidade, e também de éter, e eu chamo de Vida, Harmonia, Deus.
Albert Einstein descobriu que a matéria é, de fato, energia, e que o universo funciona por meio de vibrações, que podem ser dissonantes e geram o caos, ou harmônicas, gerando vida. Deus é isso.
Pois bem, estou chegando à sabedoria aos 58 anos de idade, que completo, hoje. Comecei a sentir algo prodigioso, uma espécie de júbilo. Confirmei, por exemplo, que agora vou mais fundo ao mergulhar na mulher amada, desvendando mistérios da natureza feminina, como o desnudar-se das rosas vermelhas ao esplendor da manhã, e cada vez mais nitidamente ouço a música de Mozart no ar, inundando minha alma como Chanel número 5 no corpo de mulheres muito lindas. E quando oro, alço voo cada vez mais em múltiplas dimensões. E já não preciso me esforçar para levantar-me às 5 horas, para escrever, porque, agora, utilizo força mental. O combustível para desenvolvermos força mental é harmonia; suas vibrações têm o poder do primeiro beijo, que contém pureza absoluta, e fé.
Fisicamente, sou comum. A pele começa a ficar engelhada e os músculos se transformam, aos poucos, em gordura. A calva fica maior a cada dia e os dentes já não partem ossos. Contudo, descobri que o mundo físico é apenas uma breve passagem numa dimensão fugaz diante da infinitude do Universo. O fato é que o buraco negro mais gigantesco é nada perante minha mente, pois compreendi que meu Pai é o próprio Criador.

sábado, 7 de julho de 2012

Ponte que liga o Amapá à Guiana Francesa está pronta, mas BR-156 está longe de ser concluída


BRASÍLIA, 7 de julho de 2007 – O mais influente noticioso televisivo do país, o Jornal Nacional, da TV Globo, mostrou, ontem à noite, um pouco sobre como as coisas costumam funcionar (ou não funcionam) na Amazônia, precisamente no estado do Amapá, no setentrião da costa brasileira, fronteira com a Guiana Francesa, país que a França mantém como colônia na América do Sul.
Em 13 de setembro de 1943, foi criado o Território Federal do Amapá, desmembrando do estado do Pará, e em 1 de janeiro de 1991, foi instalado o estado do Amapá, criado pela Assembleia Nacional Constituinte de 1988. Foi nessa época, aliás, que o maranhense Zé Sarney foi eleito pelos tucujus senador vitalício. Sarney deu notoriedade ao Amapá, que só era conhecido como fonte do melhor manganês do mundo, com o qual o governo brasileiro presenteou os americanos, que o estocaram no Tio Sam e deixaram o buracão no município de Serra do Navio.
Pois bem, com 142.814,585 quilômetros quadrados, o Amapá é cortado longitudinalmente pela A BR-156, que liga Macapá, a capital, a Oiapoque, na divisa com a Guiana Francesa. Essa rodovia começou a ser construída nos anos de 1940. Tem cerca de 900 quilômetros, mas apenas 150 quilômetros foram pavimentados. Em quase sete décadas de construção, já enriqueceu muita gente boa e, pelo jeito, ainda vai encher os bolsos de muita gente boa.
Em agosto de 2011, o Brasil concluiu, após dois anos de construção, uma ponte sobre o rio Oiapoque, no valor de R$ 71 milhões, ligando a cidade de Oiapoque (açougue de carne infantil a turistas libidinosos, que atravessam o rio Oiapoque em busca de aventuras que só o Brasil pode proporcionar) a Caiene, a capital da colônia francesa, a 5 quilômetros de Oiapoque. Do lado francês, a rodovia e as instalações alfandegárias estão prontinhas, mas do lado amapaense só há a decrepitude de sempre.
Atualmente, o Amapá está nas mãos da família Capiberibe. O governador, Carlos Camilo Góes Capiberibe (PSB), 40 anos, é filho do ex-governador por 8 anos e agora senador João Capiberibe e da deputada federal Janete Capiberibe, ambos também do PSB. João Capibiberibe não concluiu a BR-156 e Camilo não leva jeito de que vá concluí-la. Esse negócio de que a rodovia é federal, que é preciso se ajoelhar na frente da presidente Dilma Rousseff, ou ir diretamente a Lula, para que a BR seja concluída, é papo furado. Um governador pode muito; é só ter vontade política. É claro que para isso é preciso também ser avesso a patrimonialismo e a nepotismo, e bater de frente contra as gangs que assaltam o Amapá.
A propósito, segundo o jornal O Estado de São Paulo, até junho de 2010, a verba indenizatória dos deputados estaduais do Amapá era de R$ 15 mil mensais; subiu para R$ 50 mil e depois para R$ 100 mil, por sugestão do presidente da casa, Moisés de Souza (PSC), e acolhida por unanimidade. Foi algo tão descarado que as aves de rapina recuaram e baixaram o saque para R$ 50 mil, ainda assim, a maior do Brasil. Os deputados estaduais de São Paulo recebem R$ 13 mil mensais e os federais, R$ 35 mil (houve aumente recentemente, mas ainda está longe de R$ 50 mil). Detalhe: o Amapá é um dos estados mais pobres da federação.
Moisés de Souza é da turma de Zé Sarney. Falar em Sarney, o senador vitalício criou em Macapá uma “zona franca” de quinquilharias que atraiu boa parte da população pobre do Maranhão. Agora, Zé Sarney tem eleitor até para voltar à presidência da República. Lula, que ungiu Sarney como inimputável, que se cuide.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Voo vertiginoso

No meu coração brincam muitas crianças;
Seus risos, ouço-os azuis, a pingar diamantes.
E sinto rosas desabrochando, como vertigem do primeiro beijo,
No ar prenhe de Chanel número 5.
Meu coração respira o sabor da mulher amada,
Cheiro de mar numa tarde de julho.
Meu coração pulsa movido a risos de crianças
A rosas desabrochando
Ao choro de jasmineiros em tórrido anoitecer na Estação das Docas
A madrugadas
A acme que escapa dos lábios da mulher amada,
Secos de gozo, e que ela umidifica com a língua,
Tirando os cabelos do rosto, num gesto intenso.
Meu coração está prenhe do sabor indescritível
Do corpo da mulher amada, que eu ergo, como leão
Abismo de labirintos em que sou conduzido pela luz de uma estrela de outra galáxia,
Inalcançável, mas que cintila nos meus próprios olhos.

sábado, 16 de junho de 2012

Os potentados da Rio+20 não querem o bem da Amazônia; querem seus bens


BRASÍLIA, 16 de junho de 2012 – Os países industrializados não renunciarão à sua escalada econômica e, portanto, ao consumo de combustíveis, até o esgotamento. Nem a população mundial deixará de parir e consumir em escala, incluindo o consumo de luxo. As potências, reunidas neste momento no Rio de Janeiro, não querem o bem da Amazônia; querem seus bens, pois a Hileia é o último reduto do planeta que conta com reservas florestais e de água tão imensos que se os brasileiros a tratarem como o fizeram com a Mata Atlântica, poderá começar uma era de tormentas para a Humanidade. Segundo pesquisa de ponta, o Trópico Úmido funciona como uma espécie de refrigerador da Terra. Sem ele, o efeito estufa tornará o planeta um inferno, porque se a temperatura média do globo aumentar alguns poucos graus acabará o equilíbrio climático e da cadeia alimentar. Daí é só pôr a imaginação para funcionar.

Acontece que todo mundo está torando a Hileia. O governo brasileiro desequilibra o ecossistema com a construção de hidroelétricas. Boa parte dessa energia é utilizada na exportação, a preço de banana, de commodities, como alumina e ferro; fica o buraco. A maior parte das toras roubadas vai para São Paulo. Ao caboclo não resta outro recurso senão torar a floresta também, para vendê-la. E agora?

Que não se espere nada do governo petista, que, desde 2003, só pensa em instalar uma ditadura no Brasil. A Amazônia, para eles, como de resto para 75 milhões de brasileiros, é apenas um matagal cheio de caboclos indolentes. O sistema educacional público brasileiro ensina as crianças a escrever: “Nós vai pescar.” Sintomático. O Brasil só conservará a Amazônia por meio do desenvolvimento sustentável do caboclo. 

O governador do Pará, Simão Jatene, e o deputado federal Zenaldo Coutinho, também tucano paraense, levaram para a Rio+20 a solução: o Programa Municípios Verdes, com desmatamento zero, que começou em 23 de março de 2011 no município de Paragominas (PA) e hoje está presente em 94 municípios paraenses e em alguns de outros estados da Amazônia. A alma do programa foi o pacto social que o governo paraense firmou com o governo federal, administrações municipais, Ministério Público, empresários, produtores e outras instituições representativas de setores produtivos, visando promover o desenvolvimento econômico paraense ao mesmo tempo em que busca atingir desmatamento zero.

O programa se firma no tripé: Sistema Agroflorestal; agregação de tecnologia à agropecuária; e plantação de árvores nativas, numa escala de 10 milhões por ano. O Sistema Agroflorestal apresenta-se como o melhor modelo de agricultura para o desenvolvimento sustentável da Amazônia. Trata-se de agricultura com silvicultura. Além dos diversos vegetais conviverem harmonicamente entre si e com a floresta, geram safra de diferentes produtos o ano inteiro. “Constitui-se, assim, numa fábrica de florestas produtivas, repovoando áreas degradadas e gerando sustento o ano todo” – observa Zenaldo Coutinho.

Os países industrializados já ocuparam a Amazônia há muito tempo. Por exemplo: não levam mais bauxita, mas alumina, com energia de Tucuruí agregada, e sempre a troco de banana. Collor de Mello, o ex presidente daquilo roxo, criou a reserva Ianomâmi – etnia que seria forjada pelos ingleses -, do tamanho de Portugal e na tríplice fronteira, em litígio, Brasil, Venezuela e Guiana, na maior e mais rica província mineral do planeta. Pois bem, já há manifestação na Organização das Nações Unidas (ONU) para torná-la nação independente do Brasil. Agora, o ex-presidente Lula, aquele que tem ojeriza por leitura, criou outra reserva imensa em Roraima, a Raposa e Serra do Sol, onde só vivem índios aculturados, os quais, antes da reserva, comiam arroz plantado pelos arrozeiros. Nem isso têm agora.

É fácil ocupar o Brasil de fato (São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais). Basta bombardearem Itaipu, Tucuruí e mais duas ou três hidrelétricas, para invadir o país quase sem resistência. Não temos navios de guerra nem submarinos, nem caças, muito menos mísseis. Agora, invadir a Amazônia é outra história. Os Estados Unidos não enfrentariam a pedreira que seria ocupar a Amazônia numa guerra. Contamos com o maior exército de guerra na selva do planeta. A indiarada cairia sobre os grigos como pium.

Em fevereiro de 2005, entrevistei para o site ABC Politiko o mentor da Doutrina Brasileira de Guerra na Selva, o coronel do Exército Gelio Fregapani, que serviu à força durante quatro décadas, quase sempre ligado à Amazônia, tendo fundado e comandado o Centro de Instrução de Guerra na Selva. Há mais de três décadas, vem observando a atuação estrangeira na Amazônia, o que o levou a escrever Amazônia - A grande cobiça internacional (Thesaurus Editora, Brasília, 2000, 166 páginas). Ele me disse que a Amazônia será ocupada, “por nós, ou por uma ou mais potências estrangeiras”.

A observação de Fregapani reflete outro ponto de vista sobre a questão amazônica, o de que o problema crucial da Amazônia é que ela ainda não foi devidamente ocupada pelos brasileiros. Por isso, é ledo engano supor que a região pertence de fato ao Brasil. Será, sim, do Brasil, quando for desenvolvida por nós e devidamente guardada. Daí porque às potências estrangeiras não interessaria o desenvolvimento da Amazônia. Aos Estados Unidos, Inglaterra, Japão e China, principalmente, interessa manter os cartéis agrícola e de minerais e metais. Exemplos: a soja da fronteira agrícola ameaça a soja americana; e a exploração dos fabulosos veios auríferos da Amazônia poriam em cheque as reservas similares americanas e poderia mergulhar ainda mais o gigante em recessão. Assim, despovoada, subexplorada e subdesenvolvida, não há grandes problemas para a ocupação estrangeira da região. Estrangeira e de Brasília.

A ocupação estrangeira da Amazônia começou com os portugueses e espanhóis, com armas. Agora, é Brasília quem coloniza a Hileia, subtraindo dela energia elétrica e minerais, que vende a preços vis e ainda fica com o dinheiro, ou fecha os olhos para as quadrilhas que toram a floresta e a transportam para São Paulo e países ricos, e ignora as Vales da vida, que só deixam buraco, e os piratas que saqueiam a Amazônia Azul. O planeta inteiro está sedento por fazer da Amazônia o que a Europa fez da África.

O Fundo Amazônia conta com US$ 1 bilhão, principalmente ofertados pela Noruega. O gestor do Fundo é o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), que gastou apenas, até agora, menos de US$ 100 milhões, enquanto projetos como o Plano Amazônia Sustentável, do governo federal (diga-se, PTMDB), não saiu do gogó. Será que estão gastando o dinheiro do Fundo Amazônia com o pilantra do Hugo Chávez?

Aqui, uma sugestão: que os países que contribuem para com o Fundo Amazônia tirem a dinheirama das mãos do governo federal e o repassem diretamente para um conselho formado por todos os governadores da Amazônia e os presidentes do Ministério Público, da Ordem dos Advogados do Brasil, do Tribunal de Contas da União e da Federação Nacional dos Jornalistas, com metas claras. E se algum membro do conselho for flagrado roubando, que seja jogado aos jacarés.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Brasília, agora


BRASÍLIA, 11 de junho de 2012 - A praça de alimentação do Conjunto Nacional, shopping ao lado da Rodoviária do Plano Piloto, é enorme. À noite, uma de suas extremidades se transforma na Praça do Pau Mole. Reconheço o palavrão e peço desculpas, mas é esse nome mesmo. Seus frequentadores são velhos libertinos que já sem o viço da juventude perambulam por lá, como almas penadas, atrás de potrancas e potros que os ajudem a alimentar a esperança, agônica, de alcançar o acme.
Há também outra sorte de frequentador: viúvas da Ditadura dos Generais. São oficiais, e até suboficiais, de pijama, chorando o leite derramado, a farra de militares e policiais que durou 21 anos. Reconheço que o Golpe Militar de 1964 foi necessário para extirpar o mesmo tipo de ditadura que destruiu Cuba e agora destrói a Venezuela, mas os militares ficaram tempo demais, destruíram a educação pública e fizeram uma ocupação equivocada da Amazônia, até Ulysses Guimarães comandar a Revolução de 1985. O estrago estava feito. Quis-se consertar tudo com a Constituição de 1988. Utopia.  Contudo, hoje, vige a democracia, que é como um pugilista no ringue, agora lutando contra um boneco com cara de pau, narigudo e sem um dedo.
Outro dia, encontrei um conhecido meu, que nos anos 90 era um empresário de sucesso, hoje na bancarrota. Gosto dele, e para entabular conversa perguntei-lhe como iam as coisas. Desencantado, e mesmo sem esperança, disse-me que as pessoas já não leem mais e que Brasília cresceu muito e desordenadamente.
A propósito dessa questão de ler, tenho encontrado muita gente preocupada em que o livro desapareça, e também tenho visto na mídia bastante espaço dedicado ao “desaparecimento” do livro. Ora, a geração de hoje lê diretamente ao computador domiciliar ou portátil. E vai chegar um tempo em que o livro de papel desparecerá mesmo, assim como os papiros. Quanto a mim, que estou com 57 anos, tenho uma pilha tão grandes de livros para ler e outra bem maior para ler de novo que se pudesse me dedicar desde agora 12 horas por dia somente lendo ainda ficaria uma infinidade de livros que eu gostaria muito de ler.
Conheço outro empresário que é dono de jornal. Já faz alguns anos, ele me convidou para dirigir a redação do seu semanário, que se chamava Jornal Brasília Agora. Assim que assumi, convenci-o a tirar o “jornal” redundante e a deixar Brasília Agora, que é, na minha opinião, o melhor título de semanário da capital da República, depois de Correio Braziliense, que é diário, foi o primeiro jornal brasileiro e é um dos 15 maiores do país.
Expliquei a ele que daria início a uma linha editorial paralela à Brasília, agora: uma cidade grande, que deixou de ser quintal de São Paulo, com vida cultural e noturna intensa, grandes museus, e que aos poucos vai deixando o jeito jeca das cidades do interior do continente tupiniquim. De modo que me reuni com a equipe (pequeníssima, mas competente) e instituí outra mudança: um caderno com a programação cultural da cidade.
A meio do caminho, mexi na diagramação do jornal, que é pré-diagramado. O dono, diagramador, ficou uma fera. Telefonou-me e despejou sua fúria no meu ouvido. As palavras fustigavam mais de 30 anos de experiência, como repórter, redator e editor. Porém ele tinha razão. Apenas não sou o tipo de editor que faz o que o dono quer, mas o que, como profissional, acho que devo fazer. Entretanto, eu estava determinado a, mais adiante, acabar com a pré-diagramação do jornal, pois parecia sempre a mesma edição, semana após semana. Mas antes disso, para conter despesas, fui demitido.
Engessamento é precisamente o problema de Brasília, que, apesar de Patrimônio Cultural da Humanidade, vai, aos poucos, como água minando, crescendo e se modernizando. Engessar Brasília foi um erro, mas agora não se pode mais chorar o leite derramado. Se Brasília tivesse um sistema de transporte público de Primeiro Mundo, tudo bem, mas do jeito que é, como a maioria das cidades do país, engessar uma área grande e importantíssima como o Plano Piloto é falta de senso; de planejamento, no mínimo. Tem muita gente que ainda tenta ver o desenho de um avião nas luzes do Plano Piloto.
Brasília não é mais da turma do pau mole. É pós-moderna. Como de resto acontece nas zonas metropolitanas do país, nada funciona direito no Distrito Federal, e só de se ver a violência na televisão a pessoa fica apavorada. Há fim de semana, no DF, que matam 15. Isso, porém, é reflexo dos dirigentes. Desde 2003, o Brasil vem descendo uma ladeira, e agora o freio está gasto. O único governante de Brasília que parecia estar pondo a cidade em ordem, José Roberto Arruda, foi preso por chefiar uma roubalheira amazônica. Agora, temos Agnelo Queiroz, ex-comunista e atualmente petista (tudo farinha do mesmo saco). Recebeu o apelido de Agnulo. Se administrou algo, desde quando assumiu, em 2011, foi sua casa, que não é pública e que portanto está fora de questão.
Mas o país vem sendo passado a limpo. Não há mentira que dure para sempre e os ditadores sempre caem, ou mortos a balaço ou bomba, ou por doença. O Mensalão será julgado, mesmo, pelo Supremo Tribunal Federal (STF), e o povão, mesmo aqueles que recebem para se embalar na rede e inchar os tornozelos, já começa a ficar desconfiado com esse negócio de que até quem não lê pode chegar a presidente da República, ao ver sua prole crescendo como porquinhos. Brasília, agora, deixou de ser, definitivamente, a do pau mole.