quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Vertiginoso como o primeiro beijo

BRASÍLIA, 4 DE DEZEMBRO DE 2013 – A cidade pulsa ao calor. Há dias de vento forte, e chove. Assim é dezembro. Lemos, nas mentes das pessoas, que depositarão novamente todas as suas esperanças no primeiro dia do novo ano, pois isso já está assegurado, porque a vida renasce todos os instantes, para o que precisamos apenas ofertar rosas para a madrugada.

Dezembro traz toda a magia da vida, até para os que se julgam perdidos na noite eterna dos danados; basta ouvir o riso dos pequeninos para que surja o sol no jardim do mundo. Não importa quanto mal tenhamos praticado, quando sentimos o perdão, todas as correntes se partem e descobrimos que é fácil voar.

Abrirei meu relicário e ofertarei todas as pedras preciosas que reuni em 59 anos, para ofertá-las; são focos de luz, que só vemos com o coração. Pretendo ouvir mais o silêncio, para produzir esmeraldas, rubis e diamantes.

Em dezembro, brota uma flor nos olhos da mulher amada, as manhãs são redentoras, as tardes escoam como rios amazônicos e as noites são navios grandes e bem iluminados.

Sou o apanhador no campo de centeio. Estou aqui, de vigília; as crianças brincam. Estou atento. Se a bola cai longe, vou apanhá-la e a devolvo para as crianças. Se uma delas se machuca, consolo-a, e quando sentem fome, alimento-as, e se alguma delas quer ficar triste, alegro-a, pois posso até voar.

E assim vão-se os dias, embalados pelo azul. O Natal bate à porta da minha alma, e virá o novo ano, num voo vertiginoso como o primeiro beijo. As madrugadas, as noites tórridas da Amazônia, o choro dos jasmineiros, o Atlântico, abrem-se na minha vida em veredas de zínias e rosas colombianas, vermelhas. E isso é tudo o que eu quero.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

FOGO NO CORAÇÃO

Como deve o acupunturista proceder nos casos das paixões avassaladoras?
Haverá agulha tão comprida, e fina, que atinja a alma?
Ou prescindiriam, os danados, de cura?
Pois os pacientes desse mal, ou bênção, sobrevivem nas trevas e na luz
São cinza e asas
E seus corações atingem a velocidade dos despenhadeiros
Do mergulho no maremoto
Do olho do furacão
Do desespero
Não será tamanho sentimento, em si mesmo, o triunfo?
Voo concedido a poucos?
Eterno porque agora?
Creio que descobri um mal – ou bênção?
Que a acupuntura não sana
Pois como apagar a luz com luz
Como ouvir o som da Terra no espaço
Se o coração não se inflama?

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Maresia

Inundaste meus olhos desde o primeiro instante
E agora, preso ao instante, sinto cheiro de sal aonde quer que vá
Sinto-o, como o cataclismo dos primeiros beijos,
Afogando-me, matando-me, vivificando-me no azul do teu mar

sábado, 9 de novembro de 2013

Brasília e Amazônia em sessão de autógrafos no Monardo Gastronomia e Cultura

Ray Cunha lê conto no Bar Faixa de Gaza/Galeria
Olho de Águia (Foto: Ivaldo Cavalcante)


Por MARCELO LARROYED
larroyed@gmail.com


BRASÍLIA, 9 DE NOVEMBRO DE 2012 – Ray Cunha autografa O Casulo Exposto (LGE Editora/Ler Editora, Brasília, 153 páginas, R$ 30) e Trópico Úmido – Três Contos Amazônicos (edição do autor, Brasília, 116 páginas, R$ 20), dia 21 de novembro, uma quinta-feira, das 17 às 20h30, no Monardo Gastronomia e Cultura, na 201 Sul (atrás do Banco Central), Bloco B, Loja 9, telefone 3425-3566. A compra dos dois livros fica por R$ 40.

O Casulo Exposto enfeixa 17 contos ambientados no Distrito Federal. Trabalho, como jornalista, em Brasília, desde 1987, cobrindo amplamente a cidade-estado, o Entorno e o Congresso Nacional, o que me proporcionou conhecer bem essa geografia, inclusive a humana, que serviu para criar as personagens e o cenário dessas histórias curtas” – diz Ray Cunha. “O casulo é uma alegoria à redoma legal que engessa o Patrimônio Cultural da Humanidade, a borboleta de Lúcio Costa, ninfa golpeada no ventre, as vísceras escorrendo como labaredas de luxúria, depravação e morte, nos subterrâneos e na esfera política da cidade dos exilados, onde chafurda uma fauna heterogênea: amazônidas que deixaram a Hileia para trás e tentam sobreviver na ilha da fantasia; jornalistas se equilibrando no fio da navalha; políticos, daquele tipo mais vagabundo, que esconde merenda escolar na mala do seu carro e dinheiro na cueca; estupradores; assassinos; bandidos de todos os calibres; tipos fracassados e duplamente fracassados, misturando-se numa zona de fronteira e penumbra.”

PREFÁCIO DE MAURÍCIO MELO JÚNIOR – O jornalista e escritor Maurício Melo Júnior diz, no prefácio de O Casulo Exposto, o seguinte: “O escritor Jorge Amado costumava se queixar de algumas ausências da literatura brasileira. E dizia que a mais gritante delas era a falta de romances sobre o ciclo do café, como os que foram escritos sobre os ciclos da cana-de-açúcar e do cacau. Também podemos dizer que ainda não surgiram os escritores que tomaram o desafio de contar as sagas da busca da borracha na Amazônia e da construção de Brasília em pleno cerrado goiano.

“Neste seu novo livro de contos e novelas, o escritor Ray Cunha, nascido no Amapá e vivente de Brasília, passa longe da narrativa de homens perdidos na solidão da floresta ou na poeira das construções incansáveis. O que interessa ao escritor são os resultados daquelas experiências, são os personagens que ficaram depois das epopeias.

“Os homens e mulheres que saltam destas páginas são bastante curiosos. Têm a política no sangue, embora apenas transitem em torno dela. Veem o poder bem de perto, mas não participam de suas benesses. Também calejados pelas dores impostas pela opressão da floresta, já nada os surpreende e a violência pode ser uma forma de defesa ou sobrevivência. Sim, os escrúpulos são poucos. Ou, citando Jarbas Passarinho, um acriano que fez carreira política no Pará, “às favas com o escrúpulo”. Em compensação, a sensualidade aflora na pele dessa gente. O perigo é que também este poder de encantar e seduzir é instrumento de dominação.

“Naturalmente que a visão que temos aqui está superdimensionada pelos requisitos da literatura, mesmo assim sua base tem intensos pontos de realismo. E Ray ainda lhes dá um tratamento recheado de um humor cáustico, em alguns momentos até cruel. No entanto, este humor nasce do clima noir, o clima dos filmes e livros policiais surgidos nos anos de 1940.

“Sem saudosismos e com muito suspense, os contos e novelas de Ray Cunha nos põem diante dos brasilienses, esses seres nascidos da junção plena de todos os brasileiros. E vale muito a pena conhecê-los”.

ENTREVISTA A ALDEMYR FEIO – Segue-se entrevista concedida por Ray Cunha ao jornalista paraense Aldemyr Feio.

O que o levou a escrever O Casulo Exposto?

Costumo ambientar meus livros na Amazônia, especialmente Belém, minha cidade predileta. Porém vivo em Brasília desde 1987. Do início de 1996 ao fim de 1997, voltei a morar em Belém, mas por questões profissionais retornei a Brasília. Uma estada tão longa nos leva a conhecer bem o ambiente onde vivemos; assim, é natural que comecemos a escrever algumas histórias com a geografia da cidade onde moramos. Em 2008, observei que já escrevera 17 contos ambientados em Brasília e com personagens que são, quase sempre, migrantes, que transitam nas ruas e nos meios jornalísticos e políticos da cidade-estado. Submeti os 17 contos à leitura do Maurício Melo Júnior, escritor talentoso e crítico literário bem preparado. Ele escreveu a apresentação do livro e sugeriu que o levasse ao Antonio Carlos Navarro, diretor da LGE Editora, que resolveu editá-lo.

Maurício Melo Júnior, ao apresentar o livro, afirma que “O que interessa ao escritor são os resultados daquelas experiências, são os personagens que ficaram depois das epopeias”. Por quê?

Um dos fios condutores de O Casulo Exposto são as personagens, em geral migrantes, às vezes frustrados ou duplamente frustrados. As epopeias a que Maurício se refere é a construção de Brasília – uma fase da cidade que já acabou. Restaram os candangos bem-sucedidos, como o empresário Paulo Octávio, dono de boa parte da cidade, e muita gente que mora em assentamentos e invasões. Migrantes continuam chegando, mas agora tudo está lotado. Os contos, portanto, não enfocam uma epopeia, mas a miudeza do dia-a-dia na capital da república.

Maurício também afirma: “Ray Cunha ainda lhes dá um tratamento recheado de um humor cáustico, em alguns momentos até cruel”. O que ele quis dizer com isso?

Algumas das personagens dos contos são tragicômicas. Outras, apenas trágicas. Creio que o humor cáustico a que Maurício se refere é o que costumamos chamar de humor negro, quando situações, apesar de dramáticas, ou trágicas, contêm, mesmo assim, viés risível.

Seus romances e contos são, geralmente, ambientados na Amazônia. Qual a sensação de escrever um livro candango, ou seja, produzido com as coisas que acontecem em Brasília?

É a mesma sensação de trocar pirão de açaí com dourada frita por pão de queijo, ou de trocar a Estação das Docas por shopping. São duas situações absolutamente diferentes. No meu caso pessoal, caio de joelhos por tudo o que diz respeito à Amazônia, mas também curto Brasília. Assim, sinto-me perfeitamente à vontade tanto na Amazônia como em Brasília.

O casulo é uma alegoria à redoma legal que engessa o Patrimônio Cultural da Humanidade...” mas “também tresanda a perfume, romance e esperança, nas luzes da grande cidade”. Dá para explicar?

O casulo do título evoca o fato de que Brasília é reconhecida como Patrimônio Cultural da Humanidade. Em termos práticos, não se pode mudar a arquitetura original do Plano Piloto de Brasília, que compreende o projeto do urbanista Lúcio Costa, excluindo-se as cidades-satélites. Então, o Plano Piloto é protegido sob uma redoma legal, um engessamento legal. É Patrimônio Cultural da Humanidade, mas nas suas ruas e nos seus subterrâneos não há romantismo, como em toda metrópole brasileira, inchadas e perigosas. Apesar disso, há contos de puro perfume, romance e esperança. O conto que encerra o livro, A Caça – que inclusive já foi publicado pela Editora Cejup –, quase no fim, refere-se às luzes de Brasília e termina no quarto de um bom hotel.

Você acha que o leitor vai entender as suas colocações contidas no Casulo?

Certamente que sim. A literatura, como qualquer arte, tem algo maravilhoso. No seu caso específico, as palavras remetem o leitor a mundos que são somente dele. O escritor é um mero porteiro. Lembrei-me de um caso que ocorreu com William Faulkner. Alguém o informou que leu duas vezes um livro seu e não entendeu a história. Faulkner sugeriu que lesse mais uma vez.

Nos casos relatados no livro você teve alguma participação ou foram vivenciados apenas superficialmente?

O senso comum mistura atores com personagens e acredita que ficção é o que conhecemos como realidade. Se assim fosse, quantos escritores não estariam atrás das grades por assassinato? O fato é que até nas autobiografias há mais ficção do que realidade. O escritor que faz seu trabalho com seriedade não está interessado em jornalismo. Estou certo de que pelo menos 75% do que os jornais publicam originam-se de interesses dos donos, de ideologia, de conjecturas, de boatos, ou de mentiras pura e simplesmente. Também o escritor não está interessado em si mesmo, pois todos os escritores são pessoas comuns e, muitas vezes, introvertidas. Qual a participação que um escritor pode ter numa história que se passa em outro planeta?  Como Antoine de Saint-Exupéry criou O Pequeno Príncipe? Esta é a diferença: as antenas especiais com que os escritores nascem, o que permitiu, por exemplo, que Ernest Hemingway criasse uma mulher abortando, em Adeus às Armas, ou que John Steinbeck desse vida a uma mulher que acaba de perder seu bebê recém-nascido e dá de mamar a um ancião que está morrendo de fome, em Vinhas da Ira.

Quem é Ray Cunha?

Nasci em Macapá, na margem esquerda do estuário do rio Amazonas, e cortada pela Linha Imaginária do Equador, em 7 de agosto de 1954. Fui educado na Amazônia. Conheço a Hileia razoavelmente, por longa leitura e por ter estado lá. Vivo em Brasília por uma questão de mercado de trabalho. Aqui, consigo oferecer à minha família razoável padrão de vida, sustentado pela minha profissão, jornalismo. Literatura, para mim, é minha missão pessoal. Embora morando em Brasília, a internet me permite ficar ligado o tempo todo à Amazônia. Tenho ligação íntima com Belém, um dos meus grandes amores, e, naturalmente, com Macapá. Quanto a Brasília, já somos velhos namorados. Brasília me deu duas mulheres fundamentais: minha esposa, e minha luz, Josiane, e uma flor, minha filha Iasmim.

TRÓPICO ÚMIDO – TRÊS CONTOS AMAZÔNICOS – Trópico Úmido reúne três contos com pano de fundo em quatro cidades da Amazônia: Belém, capital do Pará; Macapá, capital do Amapá; Manaus, capital do Amazonas; e Rio Branco, capital do Acre. Inferno Verde conta a história do repórter Isaías Oliveira, num duelo com o sinistro traficante Cara de Catarro. A trama se passa em Belém e na ilha de Marajó.

Latitude Zero se desenrola em Macapá, cidade situada no estuário do maior rio do planeta, o Amazonas, na cofluência com a Linha Imaginária do Equador. Um punhado de jovens começa a descobrir que a vida produz também ressaca.

A Grande Farra narra as peripécias do jovem repórter e playboy Reinaldo. Candidato a escritor, ele gasta seu tempo trabalhando como repórter, bebendo e se envolvendo com inúmeras mulheres. O conto tem sua geografia em Manaus, encravada no meio da selva amazônica, e em Rio Branco, no extremo oeste brasileiro.

OBSESSÕES AMAZÔNICAS DE RAY CUNHA – Maurício Melo Júnior escreveu sobre Trópico Úmido: “A literatura brasileira está numa encruzilhada. Cada autor atira para um lado e ninguém consegue formatar o que no passado se chamou de movimento. Mesmo em lugares onde se pratica uma literatura regional intensa – Pernambuco e Rio Grande do Sul, por exemplo – não há o senso de união. Isso, se por um lado favorece a diversidade temática, por outro, paradoxalmente, desagrega autores e enfraquece o trabalho de formação de leitores. Embora o ato de escrever seja um exercício de solidão, são a vivência e a convivência que dão ao escritor o estofo necessário para a composição do texto.

“O escritor Ray Cunha, nascido na beirada da floresta amazônica, sofre do mal que vitimou parte de seus colegas a partir dos anos setenta: é um escritor desagregado, carente de grupos com quem possa discutir temas, estéticas e formas. Isso fica muito claro em seu livro Trópico Úmido – Três Contos Amazônicos, no qual, apesar de uma certa obsessão geográfica, sente-se a ausência da região em sua plenitude. O leitor mais exigente terminará a leitura carente do sotaque e das cores amazônicas, embora fique saciado com o desenvolvimento bem resolvido da trama.

“O conto que abre o livro, Inferno Verde, conta a história do repórter Isaías Oliveira em duelo sangrento e perverso com o traficante Cara de Catarro. O segundo texto, Latitude Zero, fala de um grupo de jovens em descobertas sexuais em Macapá. Pode ser visto como um conto de formação, embora carregado do escancaro de Charles Bukowisk, o que é até compreensível em quem sobreviveu às teorias de Freud e à revolução sexual dos anos sessenta. Finalmente, o último conto do volume, A Grande Farra, conta a história de Reinaldo, um repórter que sonha ser escritor, mas, milionário, gasta a vida em bebedeiras e aventuras sexuais.

“A linha que liga todos os textos, além da região amazônica, é mesmo a temática da sexualidade. No entanto, este sentimento está muito próximo das práticas vindas com a liberação sexual dos anos sessenta, unidas a um certo sadismo dos personagens. Num pobre exercício de paráfrase com os Atletas de Cristo, que trazem halos angelicais para os nossos atletas do futebol, podemos dizer que os personagens de Ray Cunha são Atletas de Sade. É impressionante a obsessão por um ato doloroso e imposto. Há sempre dominação do macho sobre a fêmea, mesmo quando ela, também filiada à revolução sexual, escolhe seu parceiro. Ainda assim prevalece a força do macho.

“Esses personagens construídos pelo autor, por conta da defesa de uma geração perdida, terminam por carregar cores muito iguais. São todos hedonistas, amantes do prazer sobre todas as coisas. Por conta desse sentimento entram de cabeça na vida sem medir qualquer consequência. E fica clara aí a influência de Bukowisk, o velho safado, embora a sensualidade das ninfetas traga para os textos uma certa lembrança de Nabokovisk, o velho também safado, mas um pouco mais pudico. Sobrevive disso tudo um mundo excessivamente cruel, posto que o prazer é o que menos importa aos moços. Todas as relações têm como objeto a sujeição do parceiro.

“O poeta Augusto dos Anjos falava em um de seus sonetos da “obsessão cromática”, do que chamava de fantástica visão do sangue se espalhando por toda parte. Ray Cunha trás para a literatura um pouco dessa obsessão, que faz a festa dos repórteres policiais. Há muitas cenas cruéis, com requintes de crueldade, dignos das páginas dos romancistas policiais americanos da década de cinquenta, um período no qual a fineza britânica de Conan Doyle foi substituída pela inspiração de Bram Stoker.

“Finalmente, há obsessão geográfica. Para um livro passado na Amazônia isso é bem interessante. No entanto o autor poderia descrever mais e citar menos. Explica-se. É comum por todo o texto o nome de ruas onde moram, vivem e rodopiam os personagens. O problema é que a citação pura e simples do nome da rua simplesmente não remete a qualquer impacto sobre o leitor que não conhece as ruas. O autor poderia descrever as ruas, o que daria uma informação a mais ao leitor, situando-o até no ambiente por onde transitam os personagens.

“Fica do livro, entretanto, a construção da história. Há pontos de prisão do leitor no jogo de curiosidades desvendadas aos poucos. O autor sabe manipular bem a trama, levando o leitor ao clímax. Com isso, resgata uma das maiores carências da literatura brasileira atual: o bom contador de história. É que os nossos novos escritores, buscando a universalidade linguística de Guimarães Rosa, esqueceram que ele sabia contar bem uma história. Resultado: renunciaram à narrativa e não ganharam a inventividade estética.

“Ray Cunha consegue contar bem suas histórias. No entanto poderia ter trazido o mundo mais amazônico para suas páginas; poderia deixar um pouco as influências estrangeiras e seguir a trilha de autores como Benedicto Monteiro. Isso pode transformá-lo no grande representante da literatura amazônica moderna. Aquele que conseguirá traduzir boa linguagem com boa narrativa, e tudo temperado em um bom caldo de tucupi”.

LIVROS DO AUTOR – Ray Cunha estreou como escritor em 1971, com o livro coletivo, de poemas, Xarda Misturada (edição dos autores, Macapá), juntamente com o poeta e contista José Edson dos Santos e José Montoril; em 1982, publicou Sob o Céu nas Nuvens (edição do autor, Belém, poemas); em 1990, lançou A Grande Farra (edição do autor, Brasília, contos); em 1996, a Editora Cejup, de Belém, lançou o conto A Caça. Em 2000, saiu Trópico Úmido - Três Contos Amazônicos; em 2003, a Editora Cejup lançou o romance A Casa Amarela, ambientado em Macapá, no ano do golpe militar de 1964; e em 200, a LGE/Ler Editora publica O Casulo Exposto.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Mulher amada

As mulheres são a ilusão mais pungente
Que existe
Porque tornam o desejo inesgotável
E não saciam nunca
Inacessíveis, são como mênstruo,
O parto de um monstro
Imaginado apenas pela dor
Mas que suporta-se pela esperança
Do sorriso
Basta o olhar da mulher
Para acenderem-se todas as chamas
Munir de asas o homem mais medíocre
E engravidar de perfume o mundo


Linha 152, Rodoviária-Cruzeiro Novo, 4 de novembro de 2013, uma segunda-feira, 15h50, sol de rachar

domingo, 3 de novembro de 2013

Os portões da íris

Procuro na luz dos teus olhos
Misteriosos como a noite
Nos teus lábios de rosa vermelha esmigalhada
Nos meridianos do teu mar
Perder-me no azul
E sentir o sabor da tua boca
Do teu leite
Do teu púbis
Num desejo que me consome e não cessa nunca

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Sob o Céu nas Nuvens

Ray Cunha no jornal A Província do Pará, em Belém, divulgando Sob o Céu Nas Nuvens

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Corremos o risco de ver o Estado brasileiro desmoralizado com o voto de Celso de Mello em favor de uma das quadrilhas mais ousadas que já se flagrou neztepaiz

BRASÍLIA, 16 DE SETEMBRO DE 2013 - Tenho notado algumas pessoas desejando uma ditadura militar para fazer frente ao atual momento no Brasil, em que já não se distingue político de ladrão, narcotraficante ou mafioso, e em que corremos o risco de ver o Estado brasileiro desmoralizado, nesta quarta-feira, com o voto de Celso de Mello em favor de uma das quadrilhas mais ousadas que já se flagrou neztepaiz.

Mesmo assim, a situação permanece em uma ditadura nas sombras e Lula ainda não conseguiu dar o bote certo; vem tentando, por meio do aparelhamento do Estado, paternalismo e corrupção generalizada, mas o Brasil não é Cuba, nem, muito menos, Venezuela, ou Bolívia, ou as ditaduras purulentas da mamãe África. Isso significa dizer que ainda podemos reagir. Quando o povo quer, nem bombardeio pesado o segura.

Com ditadura militar, ou qualquer outra ditadura, que são todas a mesma coisa, não podemos pensar em voz alta, nem protestar pela internet, muito menos nas ruas, porque, então, as balas são de chumbo quente. Durante a Ditadura dos Generais (1954-1985), trabalhei como repórter policial do jornal A Notícia, em Manaus, por volta de 1976.

Todos os dias, da tarde para a noite, um casal (de fato e de direito) de policiais federais ia para a redação e lia tudo. Cheguei a ser chamado ao Comando Militar da Amazônia para dar explicação sobre uma nota que escrevera afirmando que os waimiris-atroaris estavam atacando na BR-364. No Casarão, a velha central de polícia, a tortura comia solta, inclusive contra jovens estudantes, bastando para isso que houvesse uma acusação, por mais absurda que fosse.

No Brasil, estamos num momento efervescente da democracia, numa luta da banda boa contra a banda podre, dos cidadãos contra os corruptos. O negócio é fortalecer as instituições. Uma hora dessas pegaremos de jeito o Chefão. E depois há uma coisa certa: pela sua incompetência, o PT está caindo de podre, e levará para o fundo pútrido do pantanal, quando o casco da sua embarcação fender, todos os ratos que participam da bacanal.

sábado, 31 de agosto de 2013

Além do portal do abismo azul, encontro José Gaspar; Nestor Nascimento; os olhos de esmeraldas azuis da Mara; o som de Belém, Marina Monarcha; e uma prece de Carmen Monarcha

BRASÍLIA, 31 DE AGOSTO DE 2013 – Um dos momentos mais ricos da minha formação foi a convivência com o crítico de cinema José Pereira Gaspar, entre 1975 e 1977, em Manaus. Eu tinha 21 anos e creio que ele tivesse quase uma década mais do que eu, mas estava muito além de mim. Chamava-o de Velho e não passava um dia sem vê-lo, se isso fosse possível. Acredito que o conheci no Curso Dinâmico, dirigido por Nestor José Soeiro do Nascimento, que faria história como líder negro.

Na época, eu trabalhava como repórter em A Notícia, jornal diário já extinto. Às vezes, eu terminava cedo a pauta e antes de retornar ao jornal, onde almoçava, fiado, na cantina, passava no Conservatório da Universidade Federal do Amazonas, no centro de Manaus, onde o Velho batia ponto. Conversávamos um pouco. À noite, costumávamos nos encontrar no Dinâmico, ou num bar, onde degustávamos algumas garrafas da maravilhosa Antarctica manauara. Conversávamos sobre tudo, especialmente mulheres.

Graduado em letras em Lisboa, sua cidade natal, o Velho dominava pelo menos francês e inglês, era bastante viajado e curtíamos algumas coisas em comum, além das mulheres: o mundo criado por Ernest Hemingway; o dançarino Mohammad Ali; Mateus Rosé; cinema, no precipício do qual ele me empurrou numa queda que dura até hoje e acredito que durará para sempre; conversávamos sobre tudo.

Contudo, havia dois assuntos caros para mim. Uma das razões que me fizeram oferecer feroz amizade ao Velho foi a degustação e sugestões preciosas que me presenteou ao ler contos meus. Tratávamos desse assunto com a maior seriedade, e, pela primeira vez, senti que tinha o dom de parir, criar personagens de carne e osso, que sofrem e gozam, que vivem, enfim. Devo o despertar dessa percepção ao Velho.

Outro assunto caro era Mara, afilhada do Velho e mãe de alguns dos filhos do Nestor. Descendente de espanhóis, seus olhos verdes me fascinavam, e continham, em certas manhãs, o azul do mar, e, às vezes, eram felinos. Ocorre-me, agora, um episódio, certa noite. O Nestor e a Mara encontraram-se num bar na Avenida Getúlio Vargas, no centro de Manaus. Ele, negro, e ela, lindíssima, ruiva, os olhos como duas esmeraldas azuis, a pele de alabastro com sardas aqui e ali, no colo, a voz melodiosa, as pernas bem torneadas, belíssima em vestido rosa, os cabelos de mel deslizando como música aos movimentos da cabeça. Quatro tipos sentados noutra mesa não tiravam os olhos deles. Como pode um negro e uma ninfeta linda de enlouquecer se beijando? Levantaram-se e baixaram a porrada no Nestor. Mara, lindíssima e valente, meteu as unhas nas bestas, até que a quadrilha debandou e ela, então, pegou a cabeça do meu dileto amigo Nestor e o acalantou no seu colo prenhe de redenção.

Meu amigo Nestor já está nos campos de Deus, onde não há tempo nem espaço, nem limitação de espécie alguma, muito menos de cor. Ele e Mara vivem no meu coração, para sempre.

Morei, durante algum tempo, numa casa do artista plástico Álvaro Pascoa, repleta de telas de Hahnemann Bacelar, que conviveu com o Álvaro Pascoa. O Velho conseguiu aquela casa, no bairro de São Francisco, para eu morar. Nela, a que eu chamava de Finca Vigia, em homenagem a Hemingway, atravessei intensa fase da minha educação sexual. Foi quando aprendi a cavalgar um feixe de luz tão azul que vertia sangue, se o fustigava; foi lá que ouvi, pela primeira vez, o som da alma feminina, gemidos, música sublime, que nem Mozart jamais sonhou compor, fluindo no abismo dos vãos entre as galáxias do meu espírito, céu de clorofila, cheiro de madrugada, um leve sabor de vinho e qualquer coisa espanhola.

Naquela época, o Velho começou um romance com a cantora lírica paraense Marina Monarcha, com quem se casou, e eu me mudara para Belém, onde fui morar na casa do gênio macapaense Olivar Cunha e trabalhar no jornal O Liberal, encaminhado pelo crítico de cinema Pedro Veriano, amigo do Velho. Por volta de 1981, casara-me pela primeira vez, com Maria Celia Ferreira Chagas, quando o Velho me visitou. Ele é desses tipos que curtem a vida até o toco, e naquela manhã soltava estrelinhas dos olhos.

Revi o Velho algumas vezes, em idas fugazes a Manaus, e sempre foi como quando voltamos à cidade natal e bebemos a essência das nossas raízes; o Velho contém o espírito da curtição, um renovar-se, como ouvir Carmen Monarcha.

A última notícia que tive do Velho foi que a revista Cinéfilo – que ele editou no fim dos anos de 1960, e interditada pela Ditadura dos Generais (1964-1985) – ganhou edição histórica, reunindo seus quatro números, e lançada no dia 13 de junho passado. Bacana, Velho! Quando pudermos, vamos tomar uma! Quem sabe eu saia do meu jejum alcoólico e beba uma garrafa da maravilhosa Antarctica manauara, ou um trago de Mateus Rosé, ou mesmo água tônica. Não importa, pois sempre que nos encontramos, Velho, abre-se o portão mágico do abismo azul, e surgem os olhos da Mara, grandes como o mundo, e ouço uma prece de Carmen Monarcha.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Abismo de rosas

BRASÍLIA, 23 DE AGOSTO DE 2013 – Não resisti, e lhe disse oi! Ela não respondeu; nem eu esperava que sequer me olhasse. E depois, não era o melhor momento para ela; eu, que gosto de todas as horas do dia e da noite, sempre sinto que aquele é um instante especial, de transição, uma zona indefinível, mais uma sensação, como quando estamos numa sala de espera e de repente sentimos cheiro de maresia, sabor de Dom Pérignon, safra de 1954, e insinua-se a música de Nino Rota, e então percebemos que tudo isso ocorreu à passagem de uma mulher, na eternidade de dez segundos. Assim era o fim da tarde, de quem ainda se podia sentir o calor, agonizante, dando lugar às moléculas da noite e às luzes. Era aquele momento suave como a prece de um rio de planície, lento, a caminho, sem importar-se para onde vai, e que apenas segue. Mulheres, que acabaram de deixar o local de trabalho, passavam pela calçada, frescas e perfumadas, ao encontro do mistério. A propósito, as mulheres são veios prenhes de diamantes vermelhos.

Ali estava eu, hipnotizado. Fora merendar, como gostamos de dizer na minha cidade natal, Macapá, aquela cidade que flutua na margem esquerda do estuário do rio Amazonas, esquina da Linha Imaginária do Equador, onde falta água encanada, não há esgotamento sanitário e as ruas são as mais esburacadas do planeta. Acho o Pão de Açúcar a melhor rede de supermercados do país, e a loja da 516 Sul, a melhor de Brasília. Pois bem, era lá que eu estava. Fora comer croquete de carne. O de lá é saboroso. O pão francês é delicioso também. Em Brasília, costuma-se dizer pão de sal. Prefiro pão francês, pois tenho um relacionamento íntimo com as palavras, e pão francês remete-me a padarias iluminadas na aurora, como navios na ressaca; dá-me a sensação de pão que acabou de ser tirado do forno, a manteiga a derreter-se nele, e a café com leite. E só encontro meu café favorito no Pão de Açúcar: Três Corações, gourmet, e arábica, naturalmente.

Ao vê-la, esqueci completamente o que fora fazer ali. Ela era tão linda que parecia despida, nua, absorta, no pufe diante do toucador, santuário proibido aos homens, porque, por mais que um homem queira apossar-se de uma mulher, ele se perderá num abismo de rosas, e somente ela poderá guiá-lo, com segurança, para ele mesmo. De modo que nós, homens, estamos absolutamente enganados quando somos possuídos pelo pensamento, movediço, de que podemos nos tornar donos de uma mulher. As mulheres são, como as rosas, eternamente livres.

Eu sabia, sempre soube, que ela não me responderia, quando lhe disse oi!, porque elas nem sequer nos percebem; acho que nós, homens, vibramos numa frequência muito bruta para elas, que vivem num mundo sutil, onde apenas alguns artistas, como Mozart, Beethouven, Antoine de Saint-Exupéry, penetram, porque eles sabem com o coração. Mas não resisto quando as vejo; sinto-me leão de asas e experimento voos rasantes nos vales da luz, onde nasce o acme do primeiro beijo.

Tudo ocorreu num segundo infinito. Anoitecia, e as rosas não são as mesmas em todas as horas do dia. Ao alvorecer, e se prenunciar-se um dia de sol, elas são tão lindas como mulher feliz na boate, iluminadas pelo olhar fervoroso do seu homem; haverá algo mais lindo que mulher dançando? Só há as rosas, e aquela era colombiana, vermelha, e nua. Pode parecer estranho, uma obsessão, ou falta de senso, eu me referir a rosas nuas. É que só podemos despir as rosas se as vermos com a necessária pureza, da mesma forma que as mulheres, que só se entregam sem reservas quando sentem que seu homem lhes chega por meio do coração.

As rosas, ao anoitecer, são como minúsculos frascos de essência, que, nas manhãs ensolaradas, impregnam o Cosmo de divino perfume, vibrando numa frequência sutil, no éter. Depois do encontro, e nada é por acaso, pois eu poderia ter tomado outro caminho que não fosse o da floricultura, senti que mergulhava, inexoravelmente, no azul.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Cinquenta e nove anos

Ray Cunha e Josiane Souza Moreira (Foto: Iasmim Cunha - 2013)

BRASÍLIA, 5 DE AGOSTO DE 2013 – Houve um momento, na minha vida, que me julgava fisicamente imortal. Ingeria comida estragada, bebia sozinho até uma garrafa de Pitú ao longo de um bate-papo, caçava e pescava, mergulhava noites inteiras nos misteriosos abismos das ninfas, e nada disso me abalava. Era o império do corpo. A minha mente era o meu corpo. E isso chegou ao auge aos 21 anos, em Manaus. Depois, veio aquela idade em que as pessoas já olham desconfiadas para a gente: os 30 anos.

Aos 17, eu já participara de um livro de poemas, Xarda Misturada, juntamente com Joy Edson e José Montoril, depois do que, caí na Belém-Brasília e segui para o Rio de Janeiro, onde fui rejeitado pelo Exército por falta de peso; imaginem meu estado. O Rio foi uma farra, mas Manaus foi a grande farra. De Manaus, fui para Belém, onde a grande farra foi potencializada ao insuportável.

Já morando em Brasília e quarentão, eu ainda era capaz de jogar boxe amador, mas o álcool começara a vencer a parada. Por volta do último ano do século passado, minha memória começou a declinar; então, mergulhei num mundo pavoroso, no qual tinha que anotar tudo, para não esquecer. Quando ia criar e não conseguia lembrar-me de palavras-chaves ou nomes próprios, a partir dos quais retirava tecido para as personagens de ficção, era um pesadelo.

Quando conheci minha gata, Josiane, em 1988, eu era alcoólatra e ela, uma ninfeta cafuza lindíssima. Um ano depois estávamos casados, e ela foi minha porta de entrada para a Seicho-No-Ie e, esta, para o mundo espiritual. Pois bem, quando minha memória começou a falhar, apavorado, fui pisando no freio, e no réveillon de 2010 dispensei o champanhe. Desde então, sou abstêmio, a memória voltou e agora é melhor do que quando eu tinha 21 anos.

Neste 7 de agosto, completo 59 anos de idade (sou de 1954), e hoje vivo na dimensão da mente, na qual não existe tempo cronológico e só há movimento. Aos 21 anos, eu devorava; agora, degusto, e não somente com as papilas, mas com todos os sentidos. A vida se tornou uma prece, e o cheiro do mar chega até mim, não importa onde eu esteja, e a música, a mais sublime música de Mozart, segue-me aonde quer que eu vá, e eu ouço riso de crianças e as rosas vermelhas despem-se na minha presença, pois sabem que meu olhar não as conspurca, e em todas as madrugadas dou à luz personagens de ficção e crio cidades, e me sinto imortal.

Guardo, na memória do meu coração, um combustível eterno. São as minhas lembranças. O passado é feito do que há de melhor, ensinou-me o dileto amigo Isaías Oliveira. Pois cada uma das mulheres que amei, e que, às vezes, fiz chorar (perdão!), cada jasmineiro que perfumou as ruas noturnas por onde vaguei, com seu choro ao calor das madrugadas, cada verso que escrevi, cada cidade que descobri, todos os voos que alcei, disso é minha têmpera.

Hoje, levo uma vida estranhamente social. Além dos queridos amigos e amigas, com quem sinto prazer apenas por lembrá-los, também reúno-me com meus antepassados, especialmente meu pai, João Raimundo Cunha, belo, majestoso, destemido, amado, e minha mãe, Marina Pereira Silva Cunha, a mais bonita, forte, corajosa e querida entre as mulheres. Às vezes, simplesmente os ouço.

Neste 7 de agosto, como sempre, há anos, minha gata e minha princesinha, Iasmim, me abraçarão e beijarão meu rosto, e me servirão torta, que escolherão numa boa confeitaria, e eu comerei uma fatia com café Três Corações, arábica e gourmet. E depois começarei mais um voo vertiginoso, rumo ao triunfo da luz.

domingo, 14 de julho de 2013

Jessica Rabbit

BRASÍLIA, 14 DE JULHO DE 2013 – Jessica Rabbit foi a única mulher casada com quem me meti. Eu era repórter do jornal A Crítica, de Manaus, e morava sozinho numa casa do pintor Álvaro Pascoa, arranjada pelo meu amigo José Pereira Gaspar, e que abrigava uma fortuna em telas de Hahnemann Bacelar. À noite, costumava beber com o poeta Jorge Tufic, do Clube da Madrugada, no Bar Nathalia, onde enxugávamos garrafas e mais garrafas da maravilhosa Antarctica manauara. Eu tinha 21 anos; era, por conseguinte, belo e imortal. Mas Jessica Rabbit se apaixonou por mim por outra razão, ou melhor, garantiu-me, misteriosamente, que já me conhecia da Península Ibérica, terra dos seus ancestrais. Só saí do Brasil para ir a Buenos Aires. O fato é que ela se apaixonou pelo meu texto. Sim, pelo meu texto. Todos os dias, pessoalmente ou por telefone, eu tinha que apontar para ela todas matérias que eu escrevera, publicadas no jornal. E queria ler também todos os poemas e contos novos que eu produzisse.

Jessica Rabbit foi a mulher mais sensual que eu conheci. Esclareço que não reconheço sensualidade como qualidade, embora não saiba claramente o que seja. Acho que sensualidade é alguma coisa parecida a um cio permanente. Ela era ruiva e tinha sardas na pele, tão branca que suas veias pareciam azuladas. Seus cabelos lembravam a juba de um leão, espalhando-se nas costas como fios de cobre, e cobrindo-lhe, às vezes, parte do rosto. Suas sobrancelhas pareciam sempre feitas recentemente e seus olhos, de manhã, eram azuis celestes, e, à noite, verdes como clorofila. Eu sempre ficava hipnotizado ao vê-la nua; a cintura era tão estreita que eu acreditava que Jessica carecia de estômago, embora ela comesse o dobro do que eu comia. Deitada de bruços, nua, as ancas formavam a mais bela obra de arte, mais bonita até do que rosas despindo-se ao sol da manhã, e levavam a labirintos, a abismos insondáveis de mistério, onde eu me perdia inteiramente, montado na luz. Seus seios, túrgidos, eram aureolados pelos maiores mamilos que já tive a graça de apreciar longamente, de tocar, cheirar, lamber, segurar desesperadamente, de tentar engolir, e eles tinham o mesmo sabor dos lábios, da língua e do sexo de Jéssica: de jambu.

Conhecemo-nos no Amarelinho, que era um bar que ficava na Avenida Getúlio Vargas, no centro de Manaus. Eu estava com um livrinho, Xarda Misturada, que os poetas José Edson dos Santos (Joy Edson), José Montoril e eu publicáramos em 1971, em Macapá. Jessica Rabbit era casada com um empresário americano, do ramo de turismo, que passava parte do tempo em Miami e a quem ela chamava de “meu coelho”. Ela tinha mestrado nos Estados Unidos em literatura norte-americana. Começamos a conversar sobre Ernest Hemingway, William Faulkner, Francis Scott Fitzgerald e vários outros escritores, ela folhando Xarda Misturada. Esse livrinho revela as angústias de três garotos de uma cidade ribeirinha, que tiveram uma visão além do rio Amazonas e da Linha Imaginária do Equador, por uma porta aberta pelo poeta Isnard Lima Filho. Entrei por essa porta, peguei a estrada e nunca mais parei. Manaus foi um dos portos de chegada. No início da madrugada, fui deixá-la a casa.

Quase passei a morar na casa onde Jessica nascera, e de onde eu podia ver, de madrugada, o Igarapé do 40, bebendo Mateus Rosé e beijando o corpo todo dela. Às vezes, ela cantava para mim. Poderia ter sido cantora, atriz, o que quisesse.

Não cheguei a conhecer o coelho, porque ela teve que ir a Miami, já não me lembro mais por que. Parece-me que o coelho trabalhava com turismo também nas Bahamas e estava precisando dela, pois Jessica falava fluentemente, além de português e inglês, francês, italiano, espanhol, alemão, holandês e russo. O fato é que ela precisou ir, mas garantiu que não se demoraria. No dia seguinte ao de sua partida meu pai morreu e fui a Macapá, e depois mudei-me para Belém. Anos depois, soube que Jessica Rabbit se tornara estrela em Hollywood.

sábado, 13 de julho de 2013

Os momentos do coração

BRASÍLIA, 13 DE JULHO DE 2013 – Gosto de todas as horas dos dias e das noites, de domingo a sábado; contudo, há, a cada 24 horas, dois momentos mágicos: a madrugada e o anoitecer. Sou amante da madrugada. Levanto-me, geralmente, às 4 horas. Faço a higiene. O silêncio repousa no apartamento; ouço apenas respirações. Vou para a cozinha e preparo café, arábica, de preferência Três Corações, gourmet. Aqueço um pão francês, com queijo, manteiga ou margarina; às vezes, frito um ovo. Arrumo a mesa, na sala, agradeço pelo alimento e me sirvo. Bebo por volta de duas xícaras e meia de café com leite em pó; quando há tortas, ou cuscuz, ou tapioquinha, tomo o café preto. Depois, acordo Josiane, minha gata, e oramos para os antepassados, almas e anjinhos da nossa família.

Essa rotina é quebrada quando estou hospedado noutra cidade. Levanto-me também às 4, faço as orações e deixo passar meia hora do início do café da manhã, e só então vou para o refeitório. É um momento estratégico, pois tudo ainda guarda o frescor inicial e há muitos comensais. Um dos meus prazeres é observar as pessoas, apenas para satisfazer a curiosidade do escritor, pois dessas observações recolho retalhos e invento personagens; a propósito, gosto de utilizar essa palavra de origem francesa, comum de dois gêneros, no feminino – a personagem –, pois sou aficionado pelo gênero feminino. Então, a cidade onde nos encontramos é nossa.

Em Brasília, criei vários roteiros, a partir do Cruzeiro Novo, onde moro. Num deles percorro toda a principal rua comercial do Sudoeste, bairro pegado ao Cruzeiro Novo, cruzo o Setor Gráfico e entro no Parque da Cidade, o maior parque urbano do planeta, localizado no âmago da cidade-estado. Trata-se de 4,2 quilômetros quadrados de bosques, trilhas urbanizadas, equipamentos de ginástica, quadras de esporte, parque de diversão, restaurantes e grandes estacionamentos, e onde vemos mulheres tão lindas que permanecem em nossa memória como perfume. Cruzo o parque e saio na altura do Setor Hoteleiro Sul, e caminho até a Rodoviária do Plano Piloto, o coração de Brasília. Se isso ocorre num domingo, compro o Correio Braziliense e Veja, tomo o ônibus e retorno para casa.

Gosto muito também de caminhar pelo Cruzeiro Velho e de lá seguir até a Ceasa, no SIA. Tomo a rua da primeira casa onde minha gata e eu moramos; minha gata foi fundamental para identificarmos a quitinete, pois, nos tempos heroicos, eu vivia imerso na cerração do álcool. Ao passar defronte ao prédio, agora ampliado, sinto sempre simpatia pelo jovem Ray Cunha, esforçando-se para merecer a mulher que aceitara conviver comigo; errando muito; e, às vezes, quando as coisas se apresentavam incompreensíveis, sentia o coração dilacerado.

Cruzando-se a Estrada Parque Indústria e Abastecimento (Epia), fica a Ceasa, no Setor de Indústria e Abastecimento (SIA). A Ceasa (Centrais de Abastecimento SA) são empresas estatais ou de capital misto destinadas a promover o comércio de hortifruticultura por atacado e no varejo, e existe nas grandes cidades brasileiras, onde ocupam áreas enormes. Gosto muito de ir à Ceasa, pois remete-me ao Ver-O-Peso, maior feira livre da Ibero-América, em Belém do Pará. Lá, eu fazia expedições quase diárias, começando, de manhã cedo, pelo Mercado de Peixe, onde apreciava algumas espécies das cerca de 1.200 da Amazônia. Gosto de apreciar os dorsos luzidios dos pirarucus, dos meros, dos tucunarés, e de todos os peixes, muitos deles capturados na noite anterior, ao largo da costa do Pará e do Amapá. Do Mercado de Peixe ia tomar café com tapioquinha amanteigada e, dependendo dos meus afazeres, apreciava também as frutas; algumas, especiais, como as mangas, que lembram seios túrgidos, e os jambos, sedutores como pele cafuza. Pois na Ceasa, de manhã cedo, há um galpão com pilhas de frutas maravilhosas, e todo tipo de sortilégios, que somente as feiras proporcionam.

Acho que as madrugadas são também o melhor momento para se criar, pois o silêncio é redentor.

O anoitecer é outro momento supremo da vida. A tarde escoa como um rio, lentamente, diluindo-se, como murmúrios, como preces, e a noite chega de repente, como um navio, as luzes tremeluzindo, aproximando-se do cais do nosso coração, iluminado como uma catedral. Se estamos num café, podemos observar o passa-passa das mulheres, que, entre os mistérios do seu labirinto, conservam-se frescas como as manhãs, o tempo todo, deixando um rastro de romance e aventura. A cidade mesma acende suas luzes e o planeta imerge na dimensão do sonho.

No apartamento, o anoitecer é um momento de trégua, de redenção, de silêncio. Todos os dias, nessa hora, sinto-me ainda mais rico; meu relicário está entupido de diamantes amarelos e rubis azuis, de rosas vermelhas colombianas e perfume, caminhos que levam ao coração.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Jorge Bessa autografa O Juízo Final e A Batalha do Armagedon, no Carpe Diem


BRASÍLIA, 26 DE JUNHO DE 2013 – O pesquisador e escritor Jorge Bessa lança nesta sexta-feira, 28, Decifrando as Profecias de Daniel – O Juízo Final; e Decifrando as Profecias de João – A Batalha do Armagedon, no Carpe Diem da 104 Sul, a partir das 18h30 (mais informações pelo telefone 3344-3738).

Em Decifrando as Profecias de Daniel – O Juízo Final (Thesaurus Editora, Brasília, 2013), Jorge Bessa analisa as previsões do profeta desde a Antiguidade até o presente momento, ressaltando que Jesus Cristo, “governador espiritual da Terra”, envia, em todos os tempos, mensageiros para mostrar que, apesar do aparente caos na Humanidade, tudo se encontra sob a supervisão e o controle do Mestre da Galileia. Jorge Bessa atravessa a História desde Nabucodonossor até os dias atuais, quando, segundo ele, se desenrola a temida Batalha do Armagedom, ou Juízo Final, ou Final dos Tempos.

Em Decifrando as Profecias de João – A Batalha do Armagedon (Thesaurus Editora, Brasília, 2013), Jorge Bessa analisa o Livro do Apocalipse, atribuído a João, o Evangelista. Para o autor, longe de ser um tratado de desgraças e catástrofes, o Livro do Apocalipse é, “acima de tudo, uma promessa do próprio Jesus, de um futuro pacífico e radiante para todos aqueles que atingissem um patamar de consciência que os habilitassem a viver em um mundo transformado, um planeta de regeneração, onde estaremos mais próximos dos demais membros da comunidade planetária, aptos a receber o apoio e o carinho daqueles que se dispõem a servir apenas por amor”.

Jorge Bessa é autor da trilogia O mistério dos senhores de Vênus (Thesaurus Editora, Brasília, 2012), composta por Os deuses que vieram do céu (147 páginas); Pluralidade dos mundos habitados e a evolução do homem (155 páginas); e Deuses, venusianos e capelinhos (174 páginas). Baseado em profunda pesquisa, o autor desenvolve a teoria de que, ao longo da história da Humanidade, “sempre estivemos amparados e sendo instruídos por elevadíssimas consciências espirituais, conhecidas como deuses, jardineiros siderais, anjos do Senhor e extraterrestres, entre outras denominações, no seio de quase todas as grandes civilizações do passado”.

Para Jorge Bessa, “os deuses do passado, hoje, estão cada vez mais presentes, pois jamais deixaram a humanidade à sua própria sorte; eles são os mesmos sábios espíritos de outrora, encarregados da execução direta da evolução planetária, que agora intervêm, de forma mais direta, para promover essa mudança, que alguns chamam de Nova Era, Fim do Mundo ou Apocalipse”.

Jorge Bessa, 60 anos, nasceu em Belém e vive em Brasília desde 1980. Graduado em Economia pela Universidade Federal do Pará, trabalhou durante muitos anos na área de inteligência do governo brasileiro, formando-se, depois, em Medicina Tradicional Chinesa, pela Escola Nacional de Acupuntura, em Brasília, e em psicanálise clínica. É autor também de Jesus, o Maior Médico que já existiu; Medicina Emocional; Acupuntura – A Medicina do Século XXI.

José Edson dos Santos autografa novo livro: Loucura Pouca é Bobagem

José Edson dos Santos, um dos mais criativos escritores do Amapá,
vive desde 1974, em Brasília, onde leciona artes cênicas

BRASÍLIA, 26 DE JUNHO DE 2013  O entorno da Rodoviária do Plano Piloto, o coração de Brasília, recende ao ácido úrico do tempo, uma espécie de sujeira que se agarra nas paredes dos subterrâneos da alma. À noite, a praça de alimentação do Conjunto Nacional vira a Praça do Pau Mole, onde nostálgicos choram o leite derramado desde que o mineirinho Juscelino Kubitschek veio comer quieto em terras goianas, atravessando os anos de chumbo da Ditadura dos Generais (1964-1985) e os anos de roubalheira dos ladrões de colarinho branco. Assim, chegamos à Brasília pós-moderna, de modo que a Praça do Pau Mole é uma espécie de cemitério candango. Hoje, o bom é o Setor Hoteleiro, onde se encontra prostitutas cinematográficas e cafés hollywoodianos.

José Edson dos Santos, Joy Edson, como gosto de chamá-lo, é o contista da Brasília subterrânea e decadente do Conic. Os contos deste Loucura Pouca é Bobagem (Thesaurus Editora, Brasília, 2013) são um mergulho num mundo angustiantemente drogado e nostálgico. Neles, as personagens vivem conforme as circunstâncias; não constroem seu destino.

Nunca acontece nada nas histórias curtas de Loucura Pouca é Bobagem, pelo menos no que eu chamo de “o agora e o agora”. As falas, os dramas pessoais, os mergulhos existenciais, tudo é congelado, da mesma forma que a Brasília Patrimônio Cultural da Humanidade. Loucura Pouca é Bobagem é como um pico de LSD. Joy Edson é o cronista desta Brasília entorpecida, antiga, e tão atual.

Estreou com Xarda Misturada (edição dos autores, Macapá, 1971, poesia), juntamente com José Montoril e Ray Cunha. Em 1978, participou da antologia organizada por Salomão Sousa, Em Canto Cerrado. Em 1980, publicou Águagonia e Latitude Zero (edição mimeografada por Paulo Tovar). Em 1995, lança Bolero em Noite Cinza (edição do autor, Brasília, poesia) e, em 2006, Ampulheta de Aedo (LGE/Ler Editora, Brasília). José Edson dos Santos nasceu em Macapá, estado do Amapá, Amazônia, e vive, desde 1974, em Brasília, onde é professor de artes cênicas. É um dos mais talentosos escritores amapaenses.

SERVIÇO

Loucura Pouca é Bobagem será autografado nesta Quinta Cultural T-Bone, dia 27, na 312 Norte, a partir das 19 horas.

Dia 2 de julho, uma terça-feira, durante a Poesia no Beijódromo – Sarau do Beijo, no Universidade de Brasília (UnB), a partir das 19 horas.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Chegou a hora de passar a limpo o Brasil?

BRASÍLIA, 20 DE JUNHO DE 2013 – O dono do Partido do Sindicato do Crime (PTralha) e presidente de fato destepaiz, Lula, e sua preposta, a presidenta (existirá a palavra “incompetenta”?), estão amoitados; não digo de barba de molho porque Lula perdeu a dele e a presidenta não a tem. Os PTralhas saqueiam extepaiz há uma década. Basta! E quem diz basta é uma multidão, que se avoluma a cada dia, nas ruas. As ratazanas PTralhas, conhecidas também como PTelhos, roubam à luz do dia, veja-se o Mensalão, operado por Zé Dirceu (por que mesmo Zé Dirceu ainda não foi preso?); ainda não pegaram o chefão.
 
O fato é que o povo brasileiro não aguenta mais levar ferro dia e noite. Um dia o estuprado se revolta e a primeira coisa em que pensa, e se conseguir o fará, é extirpar o que o rasga e afogar seu dono na sua própria merda. Está na hora de pegar os assassinos que vêm assaltando o Brasil há décadas, todos eles, os patrimonialistas, os nepotistas, os racistas, os ratos que vêm sangrando as tetas da Pátria; que mamem no caralho!
 
Uma coisa é certa: nenhum político ladrão, em lugar algum do planeta, sobrevive quando o povo vai para as ruas. Será diferente nestepaiz? O Brasil precisa ser passado a limpo. Precisamos pegar de jeito esses criminosos, pois quando roubam a Petrobras, a Vale, merenda escolar, material hospitalar, maços de grana (transportados até no rego do cu), quando assaltam os brasileiros em “obras” como a transposição do rio São Francisco (?), a Ferrovia Norte-Sul, quando se espojam nas mordomias principescas dispensadas a esse clube de parasitas homiziados no Congresso Nacional, quando políticos assaltam, por décadas, um Estado inteiro e ainda anexam outro Estado à sua máfia, muita gente morre, principalmente crianças. Por isso esses bandidos precisam ser presos e devolver até o último tostão surrupiado; ou trabalharem para pagar a dinheirama roubada.
 
Basta de o povo brasileiro ser tratado como imbecil, ser assaltado e ainda estuprado, calado. Basta de antas como Lula ser tratadas como se houvessem feito alguma coisa, algum dia, que beneficiasse verdadeiramente a nação; a bolsa-esmola imbeciliza ainda mais o povão.
 
Esta é a hora de os brasileiros dizerem a Lula e à Dilma Rousseff quem é que manda no país; que não somos estúpidos. Lula, aliás, já devia ter sido mandado para a baixa da égua, mas fica aí, como uma arara elétrica, falando merda.
 
Importante: é necessário derrubar o sistema eleitoral brasileiro; ele foi costurado para eleger ladrões, estupradores, assassinos, psicopatas, analfabetos, pedófilos, ratos (desde catitas até mucuras, passando por aquelas ratazanas de dentões saindo da boca).
 
No Brasil, elege-se presidenta, governadores, prefeitos, senadores, deputados e vereadores para foder com a população. Urge mudar isso, e fazer a canalha que vem gozando na cara dos brasileiros entender, de forma inesquecível, que certo está o ditado popular que diz: que tem cu tem medo.

sábado, 15 de junho de 2013

Posse ao anoitecer

Teu dorso, à sombra da tarde que finda e escoa em murmúrios,
É alvo como pétala de rosa vermelha; sinuoso; nu.
Agarro-me aos cabelos, às ancas, aos ombros, ao perfume,
Bêbedo de gemidos.
A noite se instala como transatlântico no porto;
Feérico, iluminado, Copacabana Palace.
Tuas costas são alvas como jambo.
De olhos fechados, sorvo cheiro de nudez,
Sabor de Dom Pérignon, safra de 1954;
Ouço Concierto de Aranjuez, de Joaquin Rodrigo,
E os 14 minutos e 10 segundos do Bolero, de Maurice Ravel,
Sob a regência de Silvio Barbato.
Abro os olhos e enxergo o halo vermelho da noite,
Suave como o primeiro movimento, allegro,
Do Concerto para Piano e Orquestra, em Ré Menor,
Número 20, K. 466, de Mozart;
Pulsar longínquo, o atrito da Terra no espaço,
Gemidos femininos se esvaindo,
Som de maresia,
Sangue circulando nos tímpanos.
O segundo movimento, romanze,
Estrelas acamando-se no azul da alma.
O terceiro movimento, rondó,
Flores se abrindo ao riso de crianças.
Solto o urro, vibrante, de leão alado, ao ouvir gritos abafados,
E sentir que desmaias ao acme.


Brasília, 15 de junho de 2013

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Fernando Canto esparge Chanel Número 5 nas manhãs do mundo

BRASÍLIA, 30 DE MAIO DE 2013 – Choveu de madrugada. O quarto é silencioso como um templo. Só ouvimos o pinicar da chuva fina na vidraça. Venta, e as árvores defronte ao apartamento curvam-se, agitadas – lembram cabelos de mulher, à tarde, na praça. Levanto-me, vou ao banheiro e depois à cozinha, onde preparo café Três Corações, gourmet, que tomo com leite em pó e um sanduíche de pão francês com queijo prato. Retorno ao quarto. Minha gata já se levantou também. Lemos um sutra e meditamos. Depois, pomo-nos a ver a chuva, ambos que somos de Macapá, a terra das águas. Daí a pouco o som da chuva e do vento se mistura a murmúrios, e gemidos.
 
Parou de chover. A manhã avança, nublada. É outono. Creio que as chuvas, nesta época do ano, ocorrem porque frentes frias vindas da Antarctica alcançam o Planalto Central, onde encontram o chão em chamas, se condensam e caem. A manhã, então, escoa como um rio de planície, lento, rumo a outro rio, ou ao mar. Sei que o dia seguirá assim, até que as luzes da noite cintilem como pinceladas de Van Gogh.
 
Meu amigo Fernando Canto aniversariou, ontem. Acredito que as grandes amizades já existam antes mesmo que as pessoas se conheçam, e que apenas evoluam, até atingirem o nível mental. Um dos momentos mais importantes da nossa amizade ocorreu certa noite, em Belém. Ele era graduando em sociologia na Universidade Federal do Pará e eu, que então parara de estudar no quarto ano ginasial, trabalhava como repórter em O Liberal.
 
Naquela noite, eu sentia vaga melancolia, e deslizava lentamente para aquela região vazia, mas pegajosa, da alma, negra e sem fundo, quando surgiu o Fernando Canto. Não precisei lhe dizer nada. Ele me levou para o bar do seu tio, que nos recebeu como príncipes e nos serviu gim-tônica inglês, e logo montei no dorso de uma libélula de prisma.
 
Desconfio que o Fernando Canto seja um dos anjos destacados para cuidar de mim. Temos a mesma idade, mas, nessas décadas todas do nosso convívio, ele é sempre mais sensato, e me corrige para que eu não caia da sela do Leão de Asas que cavalgo e que voa na velocidade da luz. Sempre que nos encontramos, mergulhamos na dimensão da intensidade, de modo que, mesmo à distância, é como se nos encontrássemos todos os dias.
 
Amigos, e amigas, são criaturas maravilhosas; vão nos buscar no fundo do rio, quando já não respiramos e vemos, perto, o Aqueronte. Desde sempre, vivo cercado de anjos. Às vezes, cenas do passado passam céleres, como num filme, por mim, e vejo que, há muito tempo, eu já deveria ter virado pó, mas sempre ouvi o farfalhar de asas e senti que alguém me erguia da vertigem que antecede a perda dos sentidos, a elevação da alma para outra dimensão, e sei de pronto que ainda preciso cumprir minha tarefa, neste plano, e só então me integrar na luz.
 
A vida é a própria luz; só temos que nos deixar seguir como a brisa, igual esta manhã, que vai se esvaindo, lentamente, como o pulsar da música de Mozart. Amar é o melhor de tudo; é como ouvir a brisa, os passarinhos, o riso das crianças, o sussurro da mulher amada, as rosas, o timbre do éter.
 
Desejei, no Facebook, que os Deuses continuem ofertando diamantes azuis ao Fernando Canto, pois é com essas pedras preciosas que ele esparge Chanel Número 5 nas manhãs do mundo.