domingo, 25 de fevereiro de 2018

O Empreendimento




RAY CUNHA

Sou empreendedor. Empreendo por meio do verbo
Crio o azul, o mar, a eternidade, e os ponho em equilíbrio
Construo maravilhas, como a dimensão em que, apesar da queda
E do abismo, o cair é para cima

Sou escritor, dou à luz personagens e sei construir versos
E assim, como Deus, empreendo o Yang e o Yin
Ao criar, nos mundos em construção, os alicerces
Faço explodir, de um buraco negro, um Big Bang infinito

Mas minha maior criação, meu voo mais alto, não surgiu por meio do verbo
É fruto da conjunção de um amor que nunca teve começo nem terá fim
Quando a mulher amada e eu demos início ao nosso empreendimento

Foi assim, nos sentindo um só, que surgiu uma nova era
O nascimento da mais perfumada das flores, com o doce nome de Iasmim
E, desde então, o mundo se tornou a sagração da primavera


Brasília, 22 de fevereiro de 2018

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Romance de Ray Cunha retrata o Golpe Militar de 1964, em Macapá/AP, Amazônia Caribenha

Capa da edição da Amazom.com
Lançado em 2004, pela Editora Cejup, de Belém/PA, as tiragens que a editora colocou no mercado estão esgotadas. Agora, A CASA AMARELA volta a ser publicado, agora pela Amazon.com e pelo Clube de Autores.

A história – que tem início com o golpe militar de 31 de março de 1964, início da Ditadura dos Generais, que durou até 1985 – é ambientada na Macapá dos anos 1960. A Fortaleza de São José de Macapá, o maior ícone dos amapaenses, é palco da tragédia que fornece o argumento do romance: a tortura e morte do presidente do Grêmio Literário Rui Barbosa, acusado de ser comunista.

Os Picanço Cardoso vivem na Casa Amarela, em torno da qual há um jardim prenhe de rosas e zínias, e onde predominam uma seringueira, uma mangueira e um cajueiro, cercados pelo muro do Colégio Amapaense. A casa e as árvores têm sentimentos humanos e o Quartinho é frequentado também por mortos, como Ernest Hemingway, ou Antoine de Saint-Exupéry.
Os bailes reunindo a juventude dourada macapaense, no clube conhecido como Piscina Territorial, a bela esposa infiel de um milionário, lutas de boxe, o aterrorizante Velho Rocha, o apolínio Alexandre Cardoso e o trágico Alexandre filho, o prostíbulo Suerda, o campeão onanista Pentelho de Vaca, o Colégio Amapaense, são personagens que compõe uma espécie de concerto com três movimentos, no qual se destaca A Casa Amarela.

Ao fundo, a cidade ribeirinha, seccionada pela Linha Imaginária do Equador, afoga-se na margem esquerda do estuário do rio Amazonas, quando o gigante se avoluma para lançar no Atlântico 180 mil metros cúbicos de água por segundo, 16% da água doce despejada nos oceanos do mundo; em maio, sobe para 260 mil metros cúbicos por segundo, e, em novembro, cai para 100 mil metros cúbicos por segundo.

“Para quem acredita na máxima de que os livros nos fazem viajar, nada como aproveitar a literatura para conhecer o país. O UOL selecionou 27 livros que mostram características locais dos diferentes Estados brasileiros e do Distrito Federal” – recomenda o site UOL, citando A CASA AMARELA como o livro de ficção que melhor retrata o Amapá.

RAY CUNHA nasceu em Macapá, em 7 de agosto de 1954. Aos 17 anos, publica seu primeiro livro, XARDA MISTURADA, juntamente com os poetas José Edson dos Santos e José Montoril. Aos 21 anos, começa a carreira de jornalista, em Manaus. A partir daí, trabalha em vários jornais da Amazônia, viajando amplamente pela região. Atualmente, o autor vive em Brasília, onde, além do ofício de escritor, continua trabalhando como jornalista e também como terapeuta em Medicina Tradicional Chinesa, formado pela Escola Nacional de Acupuntura (ENAc).

RAY CUNHA é também autor dos romances:


E dos livros de contos:


quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Sempre me perco em ti, e sempre de propósito

A Seringueira que intercepta o muro do Colégio Amapaense, na
Rua Eliezer Levy, é personagem do romance A CASA AMARELA

As cidades são como as mulheres. De manhã, douram-se ao sol, como as rosas, e, à tarde, se transformam em um rio azul. À noite, se perdem na luz. Da mesma forma que as mulheres, nas cidades latejam segredos, só desvendados pelos que sabem mergulhar no abismo da primavera. Quanto mais as amamos, mais belas ficam, e mais misteriosas. E, como as mulheres, nunca são nossas. Não podemos ser donos de uma cidade, da mesma forma que é impossível nos apossarmos de uma mulher, porque as mulheres serão sempre livres e misteriosas. A cada partida, fica implícito o encontro marcado, e as chegadas são regadas de risos, de luz, e perdão.

Amo várias cidades, e elas se entregam a mim sem reservas. Belém tem feitiço de rosas colombianas sangrando no azul do mar, deixando um rastro de Chanel 5, gim e perfume de mulher absorta ao toucador. Manaus evoca o cheiro de mulher, tão intenso que causa vertigem, a ponto de sentirmos os movimentos da Terra no espaço, como música de Mozart. O Rio de Janeiro tem o poder de me fazer voar, cavalgando besouros furta-cores num mar transparente sem fim. Há, ainda, outras cidades, a quem eu seduzo como o garanhão faz a corte à sua próxima vítima, com paciência, concentração total e, sobretudo, fé. Percorro as cidades com amor. Assim é com Macapá.

Os tucujus a habitavam quando Carlos V de Espanha a chamou, em 1544, de Adelantado de Nueva Andaluzia e a deu ao navegador Francisco de Orellana. Em 1738, foi instalado, no cruzamento da Linha Imaginária do Equador com o rio Amazonas, um destacamento militar, na antiga Praça São Sebastião, atual Veiga Cabral. Em 4 de fevereiro de 1758, o capitão-general do Estado do Grão-Pará, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, fundou a Vila de São José de Macapá, que se debruça sobre o maior rio do mundo, não muito distante do Atlântico. Na maré alta, o gigante avança sobre a cidade, entre o açoite do vento e o muro de arrimo, onde estaca, recua e arremete com mais ímpeto. Em meio à agitação, o Trapiche Eliezer Levy emerge, indiferente.

A melhor maneira de descobrir Macapá é atravessando de barco o estuário do rio Amazonas. Quem sai do arquipélago do Marajó e mergulha no maior rio do mundo, em direção à Linha Imaginária do Equador, avista, de repente, a cidade, que surge como cunhantã se banhando no rio, o vestido molhado, colado ao corpo, os cabelos espargindo água, e, nos olhos, o mistério. É assim que gosto de pensar a cidade, e sentir seu cheiro tórrido de jasmim nas noites mornas.

Sou teu, Macapá, porque tu me pariste às 5 horas do dia 7 de agosto de 1954, no Hospital Geral, e de lá fui para a Casa Amarela, ao lado do Colégio Amapaense, na Avenida Iracema Carvão Nunes com a Rua Eliezer Levy, ao lado da Mata do Rocha, e lá passei 11 anos da minha infância. Restou a Seringueira, que meu pai plantou, e que foi salva de ser decepada – porque se recusou a sair do caminho do muro do Colégio Amapaense – pelo agrônomo Luiz Façanha, que se abraçou ao seu tronco num gesto de amor. Meu pai, João Raimundo Cunha, semeou a Seringueira, em 1952, ano do nascimento do meu irmão, o pintor genial Olivar Cunha. Macapá, para mim, é isso, e é tanta coisa.

Macapá é como a mulher que desejamos por muito tempo e que inesperadamente está diante de nós, nua, mas só acredito que estou nela quando a cidade me engole. Entro no santuário despido de todas as feridas, e mergulho num mundo prenhe de jasmineiros que choram nas noites tórridas, merengue, mulheres que recendem a maresia, o embalar de uma rede no rio da tarde, tacacá, cerpinha, e lhe oferto rosas, pedras preciosas, luz, toda a minha riqueza. É nesse mergulho que sempre me perco em ti, e sempre de propósito, numa vertigem da qual só me recupero em Brasília, dias depois.

As viagens que fazemos no coração são vertiginosas demais. A casa da minha infância, cada palavra que garimpei em madrugadas eternas, cada gota de álcool com que encharquei meus nervos, cada mulher que amei nos meus trêmulos primeiros versos, cada busca do éter nas noites alagadas de aguardente, o jardim da casa da Leila, no Igarapé das Mulheres, o Elesbão, a casa da Myrta Graciete, a casa do poeta Isnard Brandão Lima Filho, na Rua Mário Cruz, o Macapá Hotel, o Trapiche Eliezer Levy, pulsam para sempre no meu coração, que enterrei na Rua Iracema Carvão Nunes.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Conheça o Brasil em 27 livros de ficção; o Amapá, pelo romance A CASA AMARELA


BRASÍLIA, 31 DE JANEIRO DE 2018 – O romance A CASA AMARELA terá nova edição, pela Amazom.com e pelo Clube de Autores. Lançado em 2004, pela Cejup, de Belém/PA, as tiragens que a editora colocou no mercado estão esgotadas. A história – que tem início com o golpe militar de 31 de março de 1964, início da Ditadura dos Generais, que durou até 1985 – é ambientada na Macapá dos anos 1960. Subjacente à cidade e aos acontecimentos, o Trópico Úmido permeia, latente, toda a história.
A Fortaleza de São José de Macapá, o maior ícone dos amapaenses, é palco da tragédia que fornece o argumento do romance: a tortura e morte do presidente do Grêmio Literário Rui Barbosa, acusado de ser comunista. Ao fundo, a cidade ribeirinha, seccionada pela Linha Imaginária do Equador, afoga-se na margem esquerda do estuário do rio Amazonas, quando o gigante se avoluma para lançar no Atlântico 180 mil metros cúbicos de água por segundo, 16% da água doce despejada nos oceanos do mundo; em maio, sobe para 260 mil metros cúbicos por segundo, e, em novembro, cai para 100 mil metros cúbicos por segundo.
Os Picanço Cardoso vivem na Casa Amarela, em torno da qual há um jardim prenhe de rosas e zínias, e onde predominam uma seringueira, uma mangueira e um cajueiro, cercados pelo muro do Colégio Amapaense. A casa e as árvores têm sentimentos humanos e o Quartinho é frequentado também por mortos, como Ernest Hemingway, ou Antoine de Saint-Exupéry.
Os bailes reunindo a juventude dourada macapaense, no clube conhecido como Piscina Territorial, a bela esposa infiel de um milionário, lutas de boxe, o aterrorizante Velho Rocha, o apolínio Alexandre Cardoso e o trágico Alexandre filho, o prostíbulo Suerda, o campeão onanista Pentelho de Vaca, o Colégio Amapaense, são personagens que compõe uma espécie de concerto com três movimentos, no qual se destaca A Casa Amarela.

“Para quem acredita na máxima de que os livros nos fazem viajar, nada como aproveitar a literatura para conhecer o país. O UOL selecionou 27 livros que mostram características locais dos diferentes Estados brasileiros e do Distrito Federal” – recomenda o site, citando A CASA AMARELA como o livro de ficção que melhor retrata aquilo que podemos entender como a alma da capital do estado do Amapá, situado no setentrião brasileiro, a Amazônia atlântica, e caribenha.


RAY CUNHA é autor também dos romances:


E dos livros de contos:

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Livrarias

BRASÍLIA, 12 DE JANEIRO DE 2018 – A primeira vez que tive a sensação de estar numa grande livraria foi em Niterói/RJ, em 1982, aos 27 anos, quando encerrei 10 anos na estrada, ou de barco na Amazônia. Na minha cidade natal, Macapá/AP, não havia livraria quando saí de lá, em 1972. Havia papelaria. Leitores compravam livros em Belém, no Rio ou em São Paulo, tomavam livros emprestados, ou frequentavam a Biblioteca Pública; meu caso. Naquela época, conheci Gilberto Araújo, Betão, leitor voraz. Um dia, ele me falou de um escritor americano chamado J. D. Salinger, e do seu livro O Apanhador no Campo de Centeio.

Em 1982, eu vivia em Belém, e estava casado há dois anos. Foi meu primeiro casamento. No lançamento do meu livro de poemas Sob o Céu Nas Nuvens, numa livraria que ficava no centro de Belém, minha ex-mulher estava tão furiosa comigo que não apareceu lá. Reconheço que eu era como um predador que fugiu do zoológico – ele se esconde e ataca, e todos fogem dele, até que os bombeiros o acertam com um dardo e o levam de volta para a jaula. Eu achava tudo uma mesmice; não suportava nem a mim mesmo. Não deu outra: separamo-nos. E toda separação produz um vácuo, do qual podemos nos recuperar logo, ou não; meu caso.

Só me recuperei totalmente em 1987, quando parti de Belém para o Rio, mas acabei ficando em Brasília, por insistência do jornalista Walmir Botelho, que me convidou para ajuda-lo na edição da capa do extinto Correio do Brasil, do qual era diretor de Redação. Naquela época eu já estava domesticado, já não era mais um predador em fuga; apenas continuava bebendo muito, mas muito mesmo.

Pois bem, quando me vi no vácuo, fiquei completamente desorientado, pois no vácuo podemos ir para qualquer lado, para cima ou para baixo, ou ficar parados, à mercê do vazio. A única coisa que me veio à cabeça foi voltar a fazer o que fizera durante a década anterior, embora já não tivesse a mesma ousadia dos 17 anos. Mesmo assim, tomei a estrada e fui para Niterói, e me hospedei na casa de uma das pessoas que mais me apoiaram: o compositor Luiz Tadeu Magalhães.

Meu ganha-pão era Sob o Céu nas Nuvens, que eu vendia em pequenas sessões de autógrafos e em bares. Certa tarde, senti-me feliz e saí, fui procurar uma livraria. Encontrei uma linda livraria, com cafeteria e tudo o mais. Percorri os corredores, observando as capas e as lombadas dos livros, até topar com O Apanhador no Campo de Centeio. Comprei-o, escolhi uma mesa no bar e pedi uma Bohemia. Foi o Beto que me falou também da Bohemia. Era a primeira vez que iria prová-la. Essa experiência é um dos tesouros mais valiosos da minha alma. Obrigado, Gilberto!

Aqui em Brasília, um dos meus programas prediletos é passar horas em livrarias. São horas intensas, e estimulantes, pois, ao ver tantos escritores importantes, tantos livros tão bem editados, meu propósito de ser escritor fica mais forte. A maior livraria de Brasília é a Cultura da Casa Park, um shopping que tem até cinema de arte. Autografei lá Na Boca do Jacaré-Açu. Conta com um bom café e discoteca, além de uma revistaria com títulos que só vemos em São Paulo e Rio.

A Fnac fica no ParkShopping. É também bastante grande. No Pátio Brasil, no início da Avenida W3 Sul, há uma Livraria Leitura, muito agradável, também com um bom café, e mesinhas, e, noutro espaço, poltronas. Quando vou lá, às vezes peço um espresso, sento-me e fico ouvindo as pessoas conversando: estrangeiros, homens velhos cantando mulheres jovens, famílias, adolescentes cochichando, grudados nos seus celulares, todo tipo de pessoas. Já li muito trecho de livro, lá, livros que não posso comprar no momento, mas que tenho urgência em conhecer. E também já cochilei bastante nas poltronas da Leitura do Pátio Brasil, no conforto dos 21 graus centígrados. Certa vez quase li todo o romance A Noite dos Casacos Vermelhos, de Rey Vinas.

A Leitura do Conjunto Nacional, meu shopping predileto, já teve cafeteria; não tem mais, e não tem local para lermos. Leio em pé. A editora LGE, que é hoje a Libri Editorial, conseguiu colocar 10 exemplares de O Casulo Exposto, lá; vendeu tudo. O ambiente é meio silencioso e há uma variedade grande de gêneros e autores, e a saída dela dá para um dos locais mais aprazíveis de Brasília: a praça de alimentação do Conjunto Nacional.

Mas minha livraria favorita é a Saraiva, ao lado da cafeteria Copenhagen, também minha predileta. Na Saraiva há sempre uma música muito alta, geralmente rock atual, isto é, uma sequência de gritos andrógenos em inglês, mas deixo para lá, porque a livraria conta com um espaço onde puseram uma mesa e duas cadeiras, e o ar condicionado funciona que é uma beleza. Assim, leio a Veja inteira, bem como a Superinteressante, além, é claro, de trechos de livros. De modo que só me dou conta dos cantores andrógenos quando já estou cansado de ler. Então, procuro um local para comer, ou então já está na hora de escafeder-se.

sábado, 30 de dezembro de 2017

Na Boca do Jacaré-Açu fecha trilogia de contos ambientados em Belém, Manaus e Macapá


O livro de contos NA BOCA DO JACARÉ-AÇU – A AMAZÔNIA COMO ELA É (Ler Editora/Libri Editorial, Brasília, 2013, 153 páginas) fecha a trilogia que começou com A GRANDE FARRA (edição do autor, Brasília, 1992, esgotado) e prosseguiu com TRÓPICO ÚMIDO – TRÊS CONTOS AMAZÔNICOS (edição do autor, Brasília, 2000, 116 páginas), e que tem como espinha dorsal as metrópoles da Hileia. NA BOCA DO JACARÉ reúne 14 histórias curtas, ambientadas em Belém, a quem o autor dedica o livro: “Cidades são como mulheres. Este livro é para Santa Maria de Belém do Grão Pará”.

O LUGAR ERRADO  Sobre o livro, conta Ray Cunha: “A convite do jornalista Walmir Botelho, então diretor de redação de O Liberal, de Belém do Pará, trabalhei no jornal dos Maiorana durante os anos de 1996 e 1997, ao fim dos quais retornei a Brasília. Naquela ocasião, travei amizade com o editor da Cejup, Gengis Freire, que publicou a novela A Caça. Mas Gengis queria um romance, e eu tinha acabado de escrever O Lugar Errado, thriller psicológico que se passa em Belém e no Marajó. Entreguei, assim, ao editor, os originais. Gengis mandou digitá-los, fazer a revisão gramatical e publicou-o.

“De volta a Brasília, submeti O Lugar Errado ao jornalista e escritor Maurício Mello Júnior, que apresenta o programa Leituras, da TV Senado, e escreve resenhas para o jornal O Rascunho, de Curitiba. Ele me disse que algumas personagens se confundiam, pois falavam do mesmo jeito, e que o livro sofria de adiposidade. A mesma coisa me disse o escritor, mestre em Teoria Literária pela Universidade de Brasília e revisor Marcelo Larroyed.

“Com efeito, entregara os originais a Gengis Freire sem sequer fazer os ajustes necessários. Só então resolvi promover os cortes, e percebi, então, que havia duas novelas se entrecruzando. Cortei até o osso, seccionando toda a parte do encoxador, e vi que a história de Agostinho Castro, atormentado porque seu pai estuprou a tia pintora de Agostinho, e que morreu dias depois sem dar um pio, constituía-se, por si só, em uma novela, enxuta, condutora do verdadeiro argumento de O Lugar Errado.

“Dei à novela o título de NA BOCA DO JACARÉ e a publiquei juntamente com alguns contos, todos ambientados em Belém, fechando, com esse livro, a trilogia que começou com A GRANDE FARRA, seguido de TRÓPICO ÚMIDO. NA BOCA DO JACARÉ-AÇU – A AMAZÔNIA COMO ELA É, como intitulei o volume, foi autografado também em Macapá, quando doei para a Biblioteca Pública Elcy Lacerda alguns exemplares do livro.

“O blog Amapá, minha amada terra!!! publicou uma resenha escandalizada (pareceu-me escrita por estudante do Bartolomeia, escola de freiras para moças em Macapá) sobre O Lugar Errado, que retirei da minha bibliografia, e NA BOCA DO JACARÉ, chamando a atenção para a parte do encoxador. Com efeito, a depravação, nessa parte, a que foi extirpada, é digna do Marquês de Sade. Pois bem, nos meus cortes, restaram apenas a ossatura, músculos e nervos; o resultado foi NA BOCA DO JACARÉ”.

A AMAZÔNIA DE RAY CUNHA  Sobre o trabalho do escritor macapaense, especialmente NA BOCA DO JACARÉ, diz Marcelo Larroyed, mestre em Teoria Literária pela Universidade de Brasília: “O fim da tarde, imobilizada por nuvens imóveis, e pesada como chumbo, lembrava um tumor...” A médica pressionou o botão, e a máquina me deslizou para dentro do seu túnel branco, onde eu ficaria imóvel por vinte minutos, enquanto me escaneavam o crânio. Então, decidi por escrever esta resenha.

“O fim da tarde, imobilizada por nuvens imóveis, e pesada como chumbo, lembrava um tumor...” Assim começa o primeiro conto de Na Boca do Jacaré-Açu, uma tomografia da Amazônia, que tem como resultado imagens em verde tisnadas de coloração humana.

“Não é bem o túnel tomográfico: parecemos presos na boca verde do jacaré simbólico, mas a imensidão da floresta e seu universo esplendoroso e ilimitado em fauna e flora são pequenos para conter as paixões e dramas do ser humano.

“Na máquina de tomografia, ficamos encapsulados no túnel branco. Vistos do espaço, na Terra somos prisioneiros gravitacionais da esfera azul. Mas a Amazônia de Ray Cunha é o Inferno Verde.

“É certo, não há o coaxar repetitivo da máquina-mata, com seus sapos-bois roufenhos e metálicos. Nem a natureza esplêndida e glamourosa da National Geografic, “macumba pra turista”. Mas eis que a chuva vem e volta nas páginas amazônicas de Ray. É o Trópico Úmido chorando, suando, gozando sobre, pelos e com os humanos que se intrometem, abruptos, na obra.

“Os personagens dessa outra dimensão, amazônica, surgem familiarizados conosco e ao mesmo tempo estranhos, desafiadores, ridículos ou exóticos. Pois não estão ali o atormentado Agostinho, o dr. Magalhães e seus impagáveis mugidos, a saborosa Frênia, lânguida desde a pia batismal? E a mitológica fauna humana: um menino com “olhinhos de tubarão e nariz de porco”; a mulher “com aspecto de lobo”; outra mulher “que cacareja”? Humanos, demasiado... Contra o pano verde do cenário vegetal vemos a selvageria urbana do tráfico de meninas intercalada com dramas freudianos/shakesperianos, e de súbito, mas suavemente, nos acaricia a narrativa de pequenos flertes e sutis amores.

“Para entrar na Amazônia e no mundo fantástico de Ray Cunha há que se acolher seus símbolos mais caros: as zínias coloridas, as rosas colombianas, o  perfume inconfundível do Chanel nº 5, a tapioquinha e Cerpinha enevoada, o Ver-O-Peso. O autor planta esses elementos exóticos no Inferno Verde, e nele planta o próprio homem. Como se fosse difícil para o humano ser amazônico. Ou se forçasse a escolha: humano ou amazônico? O ser humano viceja, mas há algo errado, desconexo ou incompleto.

"A Amazônia não é “o” mundo todo, mas “um” mundo todo. Um outro mundo. O planeta Amazônia que não é azul como a Terra, mas verde, terrivelmente verde, ou branco tal qual o medo de um tumor. Com sua natureza fascinante e temível, e seus habitantes inconclusos, os contos têm entre si uma espécie de amarração oculta, um cipoal encoberto pela floresta de palavras, e onde se esconde o temível jacaré-açu.

Na juventude, o escritor Ray foi pugilista amador. Certamente não era o mão de marreta. Vejo em suas luvas ágeis o estilo da pena do escritor: jabs repetitivos, incansáveis – não há nocaute, mas desgaste. Uma sequência contínua, bem encaixada, pode minar o adversário e lhe impor a derrota silenciosa. O tumor. O jacaré-açu”.

PING-PONG – Larroyed também produziu uma entrevista com Ray Cunha:

Como e por que você escolheu o título NA BOCA DO JACARÉ-AÇU?

Trata-se da história que dá título ao livro. Jacaré-açu é o grande réptil amazônico, que atinge mais de 6 metros de comprimento e meia tonelada de peso. No caso do conto, que se passa em Belém e na ilha de Marajó, representa a simbologia da morte. A personagem central da novela, o arqueólogo Agostinho Castro, é filho de um homem forte, dominador e suicida, Castro e Castro, que o leva à boca do jacaré-açu.

Em que período você escreveu os contos que compõem a obra?

Todos eles foram produzidos nos anos 1980/1990. Alguns já foram publicados; outros, são inéditos.

Os contos têm alguma ligação, um fio temático que os una e justifique, formando uma obra única?

Sim. Todas as histórias são ambientadas em Belém do Pará, a quem eu dedico o livro; algumas delas têm sequências no Ver-O-Peso, a maior feira livre da Ibero-América. O conto que dá título ao livro, Na Boca do Jacaré-Açu, como já disse, é também ambientado no Marajó, a maior ilha flúvio-marítima do planeta, situada no que eu chamo Mundo das Águas, especialmente o Amazonas, o maior rio do planeta, e que despeja no Atlântico pelo menos 200 mil metros cúbicos de água por segundo.

Quais escritores influenciaram sua obra e em quê?

Os escritores que me influenciaram – alguns ainda me influenciam – são muitos, mas há os mais importantes, os que abrem a porta para outras dimensões, como Antoine de Saint-Exupéry, Ernest Hemingway, Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa, William Faulkner, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Euclides da Cunha, e, no caso da Amazônia, Benedicto Monteiro, o mago de Verde Vagomundo. Todos eles me ensinaram, e continuam ensinando, coisas simples, mas fundamentais, como, por exemplo, enxergar uma rosa nua, extrair gemidos femininos das palavras, montar a luz, mergulhar como leão de asas, ver com o coração e garimpar rubis verdes.

Seus livros têm elementos autobiográficos? Quais?

Tudo o que fazemos é autobiográfico, o que não quer dizer que os livros que escrevemos são autobiográficos. Trata-se de um paradoxo, estou ciente disso. O que fazemos é autobiográfico porque o fazemos; contudo, a realidade carnal não existe, porque é limitada por altura, largura, espessura, gravidade e tempo. Só existe, permanentemente, a realidade absoluta, Deus. Assim, as autobiografias são romanticamente heroicas e jornalismo, às vezes, é mentira pura. Nesse aspecto, quando se fala em ficção verdadeira é porque o autor deu à luz. Deixando a filosofia de lado, há muitos elementos autobiográficos no meu trabalho, especialmente cidades, como Belém, Macapá, Manaus e Rio de Janeiro.

E os personagens dos contos? Foram baseados em pessoas conhecidas ou são criações da imaginação do escritor Ray Cunha?

Há personagens que nascem prontas; outras, são retalhos de várias pessoas; algumas, ainda, apresentam-se em sonhos e por meio de sons e visões.

Explique uma de suas marcas como escritor: a repetição, em diferentes obras, de elementos emblemáticos, como Chanel 5 e a personagem Frênia.

Tu bem o disseste: emblemáticos. Chanel 5 simboliza, para mim, sensualidade; o Caribe; noites tórridas, encharcadas de jasmim, em Macapá; maresia; o azul, tão azul que sangra; o perfume das virgens ruivas; rosas nuas; o primeiro beijo; colostro; negra em vestido de seda; mulher na chuva; espilantol. Daí porque são elementos recorrentes no meu trabalho de criação. Mais de uma pessoa querida já me alertou para o que lhes parece falta de criatividade. Mas certos elementos na escrita de um autor são como fases na produção de um pintor: passam. Quanto à Frênia, trata-se de um nome feminino danado de sensual; remete-me a frêmito, frenesi, frenética. Frênia soa como a uma certa noite em que nos dedicamos a mergulhar o mais fundo possível na mulher mais sensual do mundo; ela é lindíssima porque a desejamos, e está na nossa frente, nua.

Atenção livreiros, peçam NA BOCA DO JACARÉ-AÇU – A AMAZÔNIA COMO ELA É ao editor pelos e-mails:



Ou pelo telefone: (55-61) 3362-0008

Endereço da Ler Editora/Libri Editorial: SIG (Setor de Indústrias Gráficas), Quadra 3, Lote 49, Bloco B, Loja 59 – Brasília/DF – CEP 70610-430


Quem mora em Brasília pode adquiri-lo na Estante dos Jornalistas-Escritores, instalada no hall de entrada do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal (SJPDF), no Setor de Indústrias Gráficas (SIG), Quadra 2, Lotes 420/440, Edifício City Offices, Cobertura.

A Biblioteca Pública Elcy Lacerda dispõe de alguns títulos do escritor macapaense Ray Cunha.



Veja entrevista de Ray Cunha ao programa Tirando de Letra, da UnB TV, sobre NA BOCA DO JACARÉ-AÇU:

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

O acupunturista Giovanni Maciocia aparece no romance FOGO NO CORAÇÃO, de Ray Cunha

Capa da edição da Amazon.com.br
Aqui, você lerá o Capítulo III do romance de Ray CunhaFOGO NO CORAÇÃO, trabalho de conclusão do curso de Medicina Tradicional Chinesa pela Escola Nacional de Acupuntura (ENAc). Você pode adquirir este livro na Amazon.com.br ou no Clube de Autores.
A reunião, na sala do diretor da Fundação Holística, Marcelo Quintela, começou às 19h40. Além do diretor, Marcelo Quintela, Emanoel Vorcaro e Ricardo Larroyed, estavam presentes mais quatro professores: Bartolomeu Amado; Maurício Couto; Ana Maria Castro, uma carioquinha linda como o mar; e Walkiria Góes, uma goiana sessentona, conhecida como “galinha”, porque aninhava todos os seus alunos debaixo das asas; também era conhecida como “mãe Joana”, porque nas suas aulas os alunos faziam o que bem entendiam, tanto que suas aulas pareciam concerto de rock, daqueles mais vagabundos. Quando Ricardo Larroyed entrou na sala, todos estavam curvados sobre seus celulares, com exceção de Emanoel Vorcaro.
A questão a ser discutida era precisamente que os professores Bartolomeu Amado e Maurício Couto, que ensinavam várias disciplinas específicas de medicina tradicional chinesa, estavam confundindo os alunos, os quais foram orientados, quando entraram na Fundação Holística, a basear-se em Giovanni Maciocia, enquanto os dois professores falavam mal do acupunturista e escritor italiano. Houve várias reclamações de alunos que não concordavam com Bartolomeu Amado e Maurício Couto, que também fizera curso de acupuntura na China, embora curso técnico.
– Meus amigos, a questão é a seguinte: desde o início, a Fundação Holística adotou Giovanni Maciocia como teórico nos nossos cursos, mas de uns tempos para cá os professores Bartolomeu Amado e Maurício Couto vêm ignorando a posição da escola e até desaconselhando os alunos a lerem Maciocia. Quero esclarecer, logo de início, que não se trata, aqui, de pôr em dúvida os conhecimentos dos professores Bartolomeu Amado e Maurício Couto, os quais, todos aqui sabem, são mestres em medicina tradicional chinesa. Pois bem, o que queremos, com essa reunião, é adotar uma linha de raciocínio na escola, para não confundir os alunos, que já andam às voltas com questões comezinhas, que vão desde a profundidade das agulhas até o tempo de permanência delas. Como sabemos, a medicina tradicional chinesa é um universo infinito de conhecimentos, mas nós, como escola, precisamos dar um direcionamento aos alunos; depois, cada qual seguirá sua própria intuição. Assim, gostaríamos de ouvir inicialmente o professor Bartolomeu Amado – Marcelo Quintela discursou.
Maria das Dores Craveiro serviu café e chá de erva cidreira. Ricardo Larroyed gostava do café da escola, um blend encorpado e de aroma forte; serviu-se de uma xícara. Cada qual serviu-se de café ou chá, antes de Bartolomeu Amado começar sua fala. Deu uma golada de chá de erva cidreira, espremeu uma excrescência no queixo, sob a barba rala, e começou a falar.
– Durante minha estada na China, e foi muito tempo, nunca ouvi falar em Giovanni Maciocia. Depois que entrei aqui para a Fundação Holística tentei ler Maciocia, mas não consegui. Ele dá muitas voltas, é repetitivo, e além do mais passou muito pouco tempo na China. Tudo o que aprendi de medicina tradicional chinesa, e não é pouca coisa, foi dos clássicos e de grandes mestres que tive na China. Assim, não vejo por que adotar alguém que desconhece o que é realmente a medicina chinesa. Mas, e que isso fique claro, farei qualquer coisa pela escola – disse Bartolomeu Amado, calando-se a seguir.
– Professor Maurício Couto, por favor – convocou Marcelo Quintela.
– Bem, eu também nunca ouvi falar de Giovanni Maciocia na China; já vim ouvir falar no nome dele aqui no Brasil, e também nunca me interessei em ler algum livro dele, embora eu tenha o Fundamentos, que tentei ler mas achei maçante – disse. – É só o que tenho a dizer. Acatarei a posição da escola.
– Bem, pedimos ao professor Emanoel Vorcaro para fazer a defesa de Giovanni Maciocia, em nome dos que não colocam objeção na adoção do ilustre italiano. Professor! – convocou Marcelo Quintela.
Emanoel Vorcaro trajava-se em indefectível terno; escolhera um de linho preto, camisa de algodão, de branco imaculado, e gravata de seda azul claro.
– Como os senhores sabem, leio, falo e escrevo fluentemente em mandarim, inclusive o clássico, e fiz curso superior de medicina chinesa na China, onde vivi parte da minha vida e aonde retorno de vez em quando. Posso dizer que três coisas me interessam nesta vida, além do meu país: a China, e sua cultura milenar, ternos e rabada (todos riram), especialmente a rabada do Café e Restaurante Dona Neide, na Feira do Guará. Assim, tenho conhecimento suficiente, acredito nisso, para saber o que é adequado ou não a este Instituto Holístico, meu segundo lar. Li toda a obra do professor Giovanni Maciocia, além de ter assistido a uma conferência do grande homem, em Londres, há muito tempo. Giovani Maciocia, no meu julgamento, fez mais pela acupuntura no Ocidente do que todos os professores de medicina chinesa, de todos os países ocidentais, que nunca publicaram um livro, ou que jamais publicarão uma obra como a de Giovani Maciocia; obra fantástica, porque ele leu os clássicos em mandarim, estudou-os à exaustão, compreendeu a filosofia que alicerça a medicina chinesa, e traduziu esse oceano para o inglês, o mandarim do Ocidente, proporcionando a todos, gostem ou não dele, muito embora, às vezes, sem ter a necessária paciência chinesa para o ler, proporcionando a todos, como eu dizia, a oportunidade de entrar nesse mar, seguindo uma hidrovia organizada e sinalizada. Como aqui se trata de uma questão prática, sugiro aos professores Bartolomeu Amado e Maurício Couto que comecem já a ler Giovanni Maciocia, até porque, professores, ensinamos medicina chinesa, porém não estamos na China, mas em Brasília, que, com a China, só tem algo em comum: escorpiões. Com a diferença de que aqui não os comemos – disse.
Todos estavam admirados, pois nunca viram o professor Emanoel Vorcaro falar tanto.
A reunião não demorou, talvez por conta das palavras do professor Vorcaro, firmes e certeiras, pegando desprevenidos os professores Bartolomeu Amado e Maurício Couto. Vorcaro não topava com nenhum dos dois, e o destino havia lhe dado a oportunidade de aplicar um soco elegantíssimo nas caras espinhenta do bafo de onça e lambida de Maurício Couto, o professor sem ética, pois não era ele que aconselhava seus seguidores a não curarem logo o paciente, para terem a oportunidade de meter a mão na sua carteira? Talvez aquela reunião estivesse destinada a prolongar-se mais um pouco, inclusive com bate-boca, mas a posição do professor Emanoel Vorcaro, e sobretudo o brilho nos seus olhos, brilho que jamais viram no zumbi, lançou um balde de água fria em qualquer predisposição a esticar mais o colóquio. A dupla concordou em não mais depreciar Giovanni Maciocia diante dos alunos, o que para Marcelo Quintela era fundamental.
– O acupunturista dispõe de inúmeras técnicas, que ele vai conhecendo ao longo do caminho, mas será a intuição e a prudência que determinarão o que deve ser feito. Questões como se abrir meridiano vivifica ou mata, ou se somente deve-se comer abóbora entre 9 e 11 horas da manhã, horário do baço, ou se devemos defecar entre as 5 e 7 horas, na concentração máxima de energia no meridiano do intestino grosso, por exemplo, são subjetivas, mas é necessário que sigamos, digamos assim, uma escola, e nossa escola básica é Giovanni Maciocia – Quintela comentou com Ricardo Larroyed e Emanoel Vorcaro, os últimos a saíram da Fundação Holística, além de Maria das Dores Craveiro, que fechava a porta. Quintela tinha um compromisso e se mandou. Era cedo, 20h30. Ricardo Larroyed e Emanoel Vorcaro seguiram para o Sushi San, na 211 Sul. Ambos já haviam ido lá e concordavam numa coisa: “Trata-se da melhor comida japonesa de Brasília”. Escolheram uma mesa no térreo e pediram uma garrafa de saquê japonês.
– O que está acontecendo? – Ricardo perguntou ao seu sócio.
– Você notou? – ele respondeu. – Atendi, hoje, na clínica, uma modelo ruiva, com o útero tomado de mioma, ampliado em quatro vezes. É uma das mulheres mais lindas que já vi na minha vida. Hoje, comecei a compreender o que é vampirismo. Você sabe, Larroyed, que não espero mais nada desta vida, pois morri naquela manhã. Na verdade, comecei a morrer um dia antes daquela manhã, quando pensei com tanto furor na mulher amada, que naquele momento era a mulher odiada, e o ódio, que a tudo destrói, destrói inclusive seu condutor, destruiu a mulher amada, e, com ela, toda a luz que me conduzia. Mas hoje, apenas por ver uma faceta do belo, uma amostra, microscópica, da luz, é como se eu houvesse ressuscitado. Não sei quanto tempo isso durará, mas estou eternizando essa sensação ao infinito.
– Uma modelo com mioma? – Ricardo perguntou, degustando o saquê.
– Modelo, linda como a minha Eliana, e em vias de ficar estéril, porque seu útero poderá ser removido, a menos que eu consiga debelar a tara da sua família: todas as mulheres da família dela são atingidas por miomas, e até onde pude perceber todas elas foram operadas, mas nenhuma perdeu o útero, até agora. E eu sei, pelo cheiro, que ela é daquele tipo que fica sempre virgem, embora tenha sido estuprada e usada inúmeras vezes; ela tem a natureza das rosas: frágeis, mas inexpugnáveis.
– Como é que essa paciente foi parar nas suas mãos? – Ricardo perguntou.
– Aquela PM que estuda no Instituto Holístico, Cecília, recomendou ao irmão da modelo, que é também da PM, me procurar, e foram lá esta manhã. Comprei, hoje, inclusive, babosa, para fazer xarope, ainda hoje à noite, para ela começar a tomar amanhã.
– Por acaso ela é da Agência Modelo Cerrado?
– Não sei; sei que ela é modelo.
– Ela será atendida a que horas, amanhã?
– Às 10 horas; sempre às 10 horas.
– O caso dela não é muito comum – disse Ricardo, mergulhando com o hashi no shoyu um naco de salmão.
– Não! O útero aumentou quatro vezes de tamanho!
– Você já pegou algum caso parecido?
– Não, igual a esse caso, não!
– Eu também nunca peguei um caso desses, nem no Instituto, nem na clínica. Aparecem casos de mioma, mas não tão grandes como esse. Tenho notado que é uma doença muito comum; aparecem muitos casos no ambulatório do Instituto? – Larroyed sondou.
– Sim, sim! Sou capaz de me lembrar, inclusive, no que diz respeito a modelo, pois já atendi na Fundação duas pacientes modelos. Foram uma vez e não voltaram mais, ambas com mioma no início. Suponho que tenham resolvido a coisa com uma raspagem. Minha vida é uma sucessão de aparições de modelos; não sei se isso é real ou se é sonho. Mas o que é real e o que é sonho!
– A Cecília o acompanha desde sempre no ambulatório do Instituto; ela é talentosa?
– Você está pensando em dar uma oportunidade a ela na clínica? Não! Ela é medíocre no diagnóstico, mas é a melhor aplicadora de agulha entre meus alunos; é só dizer onde é o ponto. Ela sabe o nome de todos os pontos anatômicos, embora não tenha noção do que esteja fazendo. Estão ensinando os alunos de maneira errada. Muitos, lá, que já acabaram inclusive as matérias teóricas, quando vão aplicar agulha banham o paciente com álcool e antes de aplicar cada agulha orientam o paciente a respirar fundo. Assim, eles são preparados para sentir dor, e a sentem, claro. Após dez agulhas eles ficam estressados. Lembro-me que atendi uma paciente que não suportava agulha e dizia sentir dor até se a triscássemos; apliquei nela 10 agulhas e quando terminei ela me olhou com olhos esbugalhados exclamando: o senhor já colocou as agulhas? Sim! Disse-lhe. Doeu? Ela: Não! Nem um pouquinho! Nossa! Pensei que isso doeria! Os alunos que estavam me acompanhando ficaram boquiabertos, especialmente os que aprenderam essa besteira de banhar o paciente com álcool e alertá-los para uma sequência de punhaladas. Mas como eu ia dizendo, comecei a duvidar se estou vivendo ou sonhando, ou nem um nem outro, já estou morto mesmo – disse o professor Emanoel Vorcaro, comendo um naco de sushi.
– Pode ser que nenhum de nós esteja vivo; de qualquer jeito, quando sair daqui irei para a casa da Greta, e, morto ou não, pretendo meditar nela – disse Ricardo Larroyed. – Mas esse negócio é intrigante, se a vida, na dimensão da Terra, é real ou fictícia, ou melhor, se a própria dimensão, altura, largura, espessura e tempo, além da força de gravidade, é verdadeira ou é ilusão.
– Seja como for, este excelente Kamoizumi, fabricado em Hiroshima, a mim parece bem real – disse Vorcaro, tomando um grande trago da bebida.
– Só conheço Tókio – disse Ricardo.
– Conheço razoavelmente o Japão – volveu o professor Vorcaro. – Gosto de lá, especialmente de Tókio, que é realmente uma cidade grande, cosmopolita, como São Paulo. Foi lá que aprendi a lidar com adagas. Posso cravar uma adaga na outra a 30 metros de distância. Acho que daria um bom cirurgião, pois além de manejar com destreza ferramentas cortantes, como navalha, por exemplo, conheço minuciosamente a anatomia humana. Certa vez, conversando com um doutor em anatomia, ele se surpreendeu com meus conhecimentos. Posso descrever minuciosamente, e de forma erudita, a região de cada acuponto – disse Vorcaro. O jorro de conhecimentos que ele vertia minava como água das pedras; talvez se originasse disso parte da sua elegância, que é o oposto da pose.
– Você é capaz de auscultar um baço? Se você quisesse golpear um baço, seria capaz de alojar um punhal exatamente nele?
– Até a 30 metros de distância; com mais do que isso talvez errasse e atingisse o pâncreas – disse Vorcaro, com o que Larroyed já havia detectado nele: humor negro. – O intrigante é que tenho esse poder, mas, com relação à minha querida Eliana, não pude ajudá-la; nunca pude perceber o que estava acontecendo com ela, nem se quando a conheci ela já mergulhara naquele vício. O que desencadeou o vício? Por que ela me escolheu? Por que ela morreu antes de confessar sua tragédia? Por que não conversei com ela naquela noite? Por que um gato me entregou o diário dela? Por quê? Por quê? Só há por quês!
– É o caminho! – disse Larroyed. – Acho que devemos prestar atenção apenas no agora; agora é a eternidade, e a eternidade pode ser uma modelo ruiva – disse.
Os olhos de Vorcaro voltaram a se iluminar.
– Agora é a eternidade! Mortos ou não, temos muito, ainda, o que viver. A eternidade pode estar nesse Kamoizumi – disse, bebendo um gole. – Preciso preparar o xarope daquele anjo. Ela pode muito bem ser o avatar da minha Eliana. A Eliana só não era ruiva, mas era toda simétrica; eu a medi toda. Tínhamos esse jogo: mediamo-nos. Eu sou praticamente aleijado, ou pelo menos completamente assimétrico, enquanto ela era perfeita; em vez de lavas de rubi, o que escorria da sua cabeça era mel, mel e lava de ouro, e sua boca lembrava uma rosa colombiana, esmigalhada, como a boca da Aline Moraes. Ela era perfeita, exceto por não poder ter filhos, e por se comportar como cadela no cio. Mas cadela no cio é apenas um animal irresistível aos cães, e todos eles enlouquecem quando sentem o cheiro. Eu também enlouquecia; Eliana me levava à loucura, e assim foi durante uma década, uma década inteira. Eu pensei que ela não quisesse ter filhos e não a forçava, até porque ela era aquela cadela no cio, e, como Rosa Nolasco, ela tinha bezerro; seu sexo sugava o meu como uma ventosa, e era sempre apertado, e cada vez era como se eu rompesse seu hímen; ela era sempre virgem, e tinha o perfume das virgens ruivas o tempo todo. Sei disso porque a primeira mulher da minha vida era ruiva. Eu tinha 14 anos e ela, 16. Era virgem, e ruiva. Foi também meu primeiro beijo na boca. Ah! Foi um cataclismo aquele beijo. Pela primeira vez senti que, realmente, estamos girando no espaço, a velocidades inacreditáveis. Foi um terremoto, seguido de uma queda para cima. Caí num abismo sem fundo, pois rompi o hímen do abismo, até chegar ao fundo, e então me vi num labirinto sem fim, e comecei a caminhar nele, a correr, a voar, até ver uma luz insuportavelmente branca na boca do túnel onde me encontrava: era o acme – disse Vorcaro, que tinha bebido pelo menos três quartos do saquê. – Vá e mergulhe na Greta; quanto a mim, preciso preparar o xarope para aquele raio de luz, para aquele Pequeno Príncipe, que parece ter vindo me resgatar do mundo das trevas. Dê, por mim, um abraço na Greta; o resto é por sua conta – disse, sinalizando ao garçom para levar-lhe a conta. – Este jantar é meu; você pagará nosso almoço, amanhã. Poderemos nos encontrar na clínica, você conhecerá a Rosa Nolasco e então decidiremos onde vamos almoçar.
– Vorcaro, há uma coisa que precisamos conversar – disse Larroyed. E então contou tudo sobre a investigação que começara naquele dia.
Do Sushi San, Ricardo Larroyed se dirigiu para o apartamento de Greta Cantanhede. Gostava de ir lá. Já passava das 23 horas quando subiu para o apartamento, de três quartos, no último andar de um prédio próximo à panificadora e confeitaria Pão Dourado, na Primeira Avenida do Sudoeste. Quando não mergulhava no trabalho, pesquisas, cursos e viagens ao exterior, Greta adorava cozinhar, ouvir música, ler e curtir Ricardo Larroyed. “Por que não casamos ainda?” – pensava. “Será que ela está aguardando que a peça em casamento? Mas ela não é desse tipo, de ficar aguardando pelos outros. Ela, quando quer alguma coisa, vai lá e pega. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer, como canta Geraldo Vandré! Mas ela é mulher, e mulheres não pedem homens em casamento, pelo contrário, deixam-se caçar, pois essa é a natureza delas. Contudo, se ela quisesse já teria pelo menos insinuado que quer se casar comigo. E depois, será que eu não iria atrapalhá-la profissionalmente? E também será que não ocorreria a síndrome de Mara? Não, no caso de Mara era diferente: ela estava sempre disponível, e me queria disponível também; além do mais, Mara é dessas mulheres que querem fornicar todos os dias, e eu passava até uma semana para bater ponto; ela não aguentou. Poderia sair por aí, como a esposa do Vorcaro, mas não, era fiel a mim. Depois não sou Vorcaro, sou cana!” – pensava. Quando a porta do elevador se abriu lá estava “o anjo que povoa meus sonhos”. Apreciava tudo em Greta, inclusive seu nome, que lhe evocava púbis angelical, greta, fenda, grota, rio de mistérios, voo na luz, como no poema Viagem Dentro de Ti, de Emanoel Vorcaro.

Estou pronto para ti
Sereno como um homem deve ser diante de uma mulher nua
Pegar-te-ei com tanta suavidade, e firmeza,
Que lamentarás o prazer, intenso como o voo do orgasmo
Tocarei cada ponto dos teus meridianos
No fundo mais recôndito dos teus abismos insondáveis
Cavalgar-te-ei, preso em ti, na tua boca, nos teus seios, no teu sexo
Como a Terra gravitando em torno do Sol
A 108 mil quilômetros por hora
O sistema solar girando em volta do núcleo da Via Láctea
A 830 mil quilômetros por hora
A Via Láctea indo para o Grupo Local
A 144 mil quilômetros por hora
O Grupo Local voando para o aglomerado de Virgem
A 900 mil quilômetros por hora
E tudo isso seguindo em direção ao Grande Atrator
A 2,2 milhões de quilômetros por hora
O Grande Atrator fica para além de Centauro
A 137 milhões de anos-luz da Terra

A madrugada instalara-se. É interessante a madrugada. Seu som é um não som, ou, simplesmente, silêncio, mas som, som que somente os iniciados ouvem. É como o som das rosas, pulsar da música de Mozart, a regularidade da maresia, injeção de espilantol; assim, o som da madrugada pode ser ouvido pelos nervos, e é um som que também tem cheiro, às vezes, da mulher amada. O cheiro da mulher amada é o das rosas nuas; só pode ser inalado pelo coração. O som da madrugada, também, às vezes, é um gemido, uma sequência de gemidos, acme, um beijo, profundo e prolongado, pois o caminho de um beijo assim é como um tobogã que nunca termina, só termina no momento em que tudo se transforma em luz, um deslizar, o colchão, lençóis perfumados, o contato acetinado, infinito, do corpo de uma mulher. O corpo de uma mulher é sempre redentor, pois uma mulher é sempre mãe. E, como disse seu dileto mestre e amigo Emanoel Vorcaro: haverá obra de arte mais sublime do que uma mulher muito linda, nua? Oh! Não! Greta era a própria eternidade do acme, um voo que nunca termina, como o latejar da música de Mozart, uma vibração sutil, a mesma vibração da mulher de Vorcaro, simétrica. As pessoas simétricas são assim. Os outros gravitam em torno das pessoas simétricas, e, às vezes, voam para a luz, voo cego, como o dos cães ao farejarem o cio, e se queimam na luz, a menos que oscilem na mesma intensidade, que é quando se dá a sintonia. É o mesmo princípio do Tao, da acupuntura, do Universo: harmonia. Haverá diferença entre harmonia e equilíbrio? Ou será o equilíbrio a harmonia? O equilíbrio está sempre à beira do abismo; um passo em falso e dá-se a queda. Na harmonia, nada pode ser imperfeito. O assassino é desequilibrado; a harmonia é simétrica; o golpe no baço é perfeito; o púbis é ruivo; a manhã de sábado recende a pupunha.
Ricardo Larroyed costumava levantar-se às 5 horas; não quando dormia no apartamento de Greta. Acordou às 7 horas sentindo cheiro de café, um café encorpado, um Antonello Monardo, e um cheiro indefinido, mas que conhecia. Apurou o nariz; não conseguiu definir o cheiro. Saiu da cama, foi ao banheiro, onde não se demorou, e entrou na cozinha. Na mesa havia um alguidar cheio de pupunhas, vermelhas e grandes.
– Pupunha? Não acredito! – disse Ricardo Larroyed, com água na boca.
– Chegou ontem de Macapá, e quis te fazer uma surpresa. Não vai te empanzinar; você tem o almoço de sábado com o Vorcaro!
– Até lá, já estarei novamente com fome.
Bebeu meio copo de água, beijou Greta e sentou-se à mesa. Sentia-se satisfeito. Seria isso o casamento? Anos e anos duas pessoas se encontrando o tempo todo dentro de quatro paredes, às vezes na companhia de uma prole. Seria isso o casamento, uma sequência de manhãs e noites, de cafés da manhã e de noites, televisão, filmes americanos, pupunha, cuscuz, tapioquinha? Era isso o que queria, ver Greta no vaso, Greta encaixando absorvente, Greta retirando absorvente com mênstruo, Greta doente, Greta amassando o tubo de pasta dental no meio, criança chorando, cachorro latindo, gato empestando a casa toda com pelo e mais pelo? Greta monitorando suas saídas, suas roupas, suas palavras; Greta envelhecendo.
– Você está preocupado com alguma coisa – ela disse, servindo-lhe café.
Ele degustava uma enorme pupunha; soltou um suspiro.
– Comecei ontem a investigar o assassinato de três modelos; uma delas parece que foi suicídio, mas não está descartado assassinato, e ontem mesmo surgiram pistas que podem esclarecer mais rapidamente do que eu esperava o que parece assassinatos em série, e isso me perturbou um pouco – explicou. Costumava sondar Greta quando algo o perturbava.
– Fale mais sobre o caso – ela pediu, descascando uma pupunha.
– O caso é o seguinte: a primeira modelo foi assassinada, ou se suicidou, em janeiro deste ano. Você deve ter ouvido falar neste caso: uma modelo paraense que se jogou, ou foi jogada, do décimo primeiro andar do Grande Hotel. O segundo caso ocorreu em fevereiro, quando num banheiro do primeiro subsolo do Grande Hotel foi encontrada uma modelo com uma punhalada no baço e uma no útero. O terceiro caso ocorreu agora em dezembro. Outra modelo foi encontrada no apartamento onde morava, na Asa Sul, morta com uma punhalada no útero; estava estupidificada de boa noite Cinderela quando foi atacada, e morreu de hemorragia. As três eram da Modelo Cerrado, sediada no complexo arquitetônico do Grande Hotel, e todas as três sofriam de mioma e se tratavam com acupuntura; duas delas chegaram a ser atendidas, uma vez somente, no Instituto Holístico, pelo professor Emanoel Vorcaro, que começou a atender ontem, na Clínica de Terapias Holísticas, uma quarta manequim, a qual eu ainda não sei se é da Modelo Cerrado. Falar nisso, preciso estar na clínica às 10 horas, pois o Vorcaro quer meu parecer no caso da modelo, que está com o útero aumentado quatro vezes de tamanho, tomado de miomas. Não consigo ver o Vorcaro assassinando alguém, embora o que eu veja, ou não, seja irrelevante. Mas estou ainda no nível das cogitações; tudo o que tenho são cogitações, cogitações e mais cogitações! Ainda bem que posso contar com elas. Mas terei um dia promissor: além da modelo às 10 horas e do almoço com Vorcaro, terei uma conversa com um suspeito às 16 horas e com o delegado que investigou os assassinatos às 19 horas, lá no Grande Hotel – disse Larroyed, descascando uma pupunha.