quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Bancada da legalização do jogo poderá definir presidentes da Câmara e do Senado

RAY CUNHA 

BRASÍLIA, 20 DE JANEIRO DE 2021 – Contratada pelo portal BNLData/Instituto Brasileiro Jogo Legal, a Paraná Pesquisas consultou, em maio do ano passado, 238 parlamentares federais, com a pergunta: “O Sr.(a) é a favor ou contra a legalização de todos os jogos de azar no Brasil, ou seja, a legalização de cassinos, jogo do bicho, casas de bingo, vídeo-jogo e jogo online?” Resultado: 52,1% responderam favoravelmente à legalização dos cassinos, jogo do bicho, bingos, vídeo-jogo e jogo online; 40,8% foram contrários; e 7,1% não responderam. 

O candidato às presidências da Câmara e do Senado que manifestar apoio à legalização do jogo terá o voto desses parlamentares. No Senado, há um projeto de legalização do jogo de azar/cassinos pronto para ser votado em plenário. 

Calcula-se que o jogo clandestino no Brasil movimente atualmente cerca de 5 bilhões de dólares, incluindo o jogo do bicho, bingos, caça-níqueis, vídeo-jogos, apostas esportivas e jogos online. Estudo do Instituto Brasileiro Jogo Legal – IJL/BNLData indica que o mercado de jogos no Brasil tem potencial de arrecadar 15 bilhões de dólares por ano, deixando para o erário 4,2 bilhões de dólares, além de 1,7 bilhão de dólares em outorgas, licenças e autorizações, isso, sem somar investimentos e geração de empregos na implementação das casas de apostas. Além disso, seriam gerados mais de 658 mil empregos diretos e mais de 619 mil empregos indiretos. 

Quando o jogo foi proibido no Brasil, em 1946, havia 70 cassinos espalhados pelo país empregando mais de 40 mil trabalhadores, incluindo artistas como Carmen Miranda e Orlando Silva. 

Em todos os países civilizados do mundo o jogo é legal. Há um argumento da oposição ao jogo inacreditável. A turma do moralismo acha que a liberação dos jogos de azar pode agravar problemas na saúde, com alto custo de tratamento dos apostadores contumazes, além de aumentar a exploração sexual e a prostituição e piorar a segurança pública, e prejudicaria ações de combate à corrupção, aumentando também lavagem de dinheiro, sonegação fiscal e evasão de receitas. 

Tudo isso está acontecendo é com o jogo na clandestinidade, que alimenta a corrupção, propina e chantagem política, o que torna a legalização do jogo inadiável e irreversível, pois um dos países onde mais se joga hoje no mundo é o Brasil, movimentando cerca de 20 bilhões de reais por ano, clandestinamente, enquanto o Estado chupa o dedo, em nome de um moralismo que esconde sabe-se lá o que. Pois bem, a próxima legislatura do Senado poderá mudar esse cenário, e rapidamente.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Márcio Souza, maior celebridade literária da Amazônia, está com covid-19, em Manaus. O cânone amazônico é do Pará ou do Amazonas?

Márcio Souza é a maior celebridade da Amazônia 

RAY CUNHA

BRASÍLIA, 18 DE JANEIRO DE 2021 – O mais conhecido escritor amazônida, Márcio Souza, 74 anos, está internado em um hospital de Manaus, onde mora, com covid-19. No estado do Amazonas, o número de pessoas infectadas pelo vírus chinês ultrapassa 211 mil; só em Manaus são cerca de 89 mil casos e 3.650 óbitos, segundo a Fundação de Vigilância e Saúde (FVS).

Márcio Souza é autor de um livro que disputa o posto do grande romance amazônico: Mad Maria. E os paraenses, o que dirão disso? Os manauaras chamam os paraenses de papa-jacaré e os belenenses chamam os amazonenses de papa-jaraqui, peixe de segunda categoria. 

Na literatura, a intelligentsia papa-chibé cristalizou o romance Chove nos campos de Cachoeira, do marajoara Dalcídio Jurandir, número um no cânone amazônico. Chove nos campos de Cachoeira, que Dalcídio escreveu aos 20 anos de idade, transmite a sensação de que a Amazônia é uma prisão, um pesadelo, que vai deteriorando a roupa, o corpo, e, por fim, a alma. 

Para mim, o grande romance amazônico era Verde vagomundo, do paroara de Alenquer, Benedicto Monteiro, até ler, agora em 2021, Mad Maria, do manauara Márcio Souza. Verde vagomundo foi publicado em 1972. Li-o somente em 1996, quando conheci Benedicto. Fiquei maravilhado com o livro. Desta vez, a prisão amazônica é um povoado isolado por enchentes apocalípticas. Ao ler Verde vagomundo comecei a sentir cheiro de água. 

Márcio Souza é de 1946, oito anos mais velho do que eu. Quando o conheci, em 1976, em Manaus, ele estava com 30 anos. Avistamo-nos algumas vezes. Eu escrevia para o jornal A Notícia a coluna semanal No Mundo da Arte e lembro de ter entrevistado Márcio Souza umas duas ou três vezes. Na época, ele encenava suas peças no Teatro Amazonas, como, por exemplo, As folias do látex. Foi sempre muito gentil, atencioso e didático comigo. Certa vez, no antigo Amarelinho, um bar no centro de Manaus, ele estava na companhia de amigos seus, eu cheguei e me sentei à mesa, e comecei a beber também. No fim, todos pagaram seu próprio consumo, eu estava sem dinheiro e o Márcio, ao notar meu embaraço, pagou minha despesa. 

Naquele ano, Márcio publicou Galvez, o imperador do Acre. Quase sempre, à noite, eu me encontrava com vários escritores, artistas e jornalistas no Nathália e outros bares. O que se comentava era que os originais de Galvez tinham chegado apócrifos às mãos do Márcio e ele os publicara como sendo seus. 

O maestro Antonio Carlos Jobim teria observado, certa vez, que “sucesso, no Brasil, é a pior das ofensas pessoais”. Na Amazônia, não é preciso nem fazer sucesso. Se um artista aparecer de roupa nova, o clube dos invejosos cai de pau, com madeira de bater em doido, em cima do enxerido, acusando-o de burguês e outras coisa de quem não tem o que fazer e bebe para passar o tempo. Enquanto o artista permanecer no mesmo patamar dos amigos e companhia, o confete come solto, mas quando o cara aparece com um romance, uma exposição, uma música, ou qualquer coisa, com a perspectiva de fazer sucesso, o melhor que faz é mudar-se para o Rio de Janeiro. 

Márcio fez isso; não imediatamente. Imediato foi o sucesso de Galvez, alçando-o ao estrelato. Nunca consegui ir além de um quarto do livro, até porque acho folhetim maçante. O mesmo, por exemplo, aconteceu com Gabriela, cravo e canela, de Jorge Amado. Agora, depois de Mad Maria, fiquei com vontade de ler Galvez. 

As obras da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, no atual estado de Rondônia, foram executadas entre 1907 e 1912, numa extensão de 366 quilômetros, ligando Porto Velho a Guajará-Mirim, cidades fundadas pelo empreendedor estadunidense Percival Farquhar. 

Em 1846, o engenheiro boliviano José Augustin Palácios convenceu as autoridades do seu país de que a melhor saída para o oceano Atlântico seria pela bacia Amazônica. E era mesmo, por causa da cordilheira dos Andes. Em 1851, o governo dos Estados Unidos, interessado nos produtos do oeste amazônico, contratou o tenente Lardner Gibbon para estudar a viabilidade da ideia. Em 1852, Gibbon concluiu o trajeto Bolívia-Belém, descendo pelos rios Guaporé, Mamoré, Madeira e Amazonas, ratificando assim a ideia do Palácios. 

Só havia um problema: as cachoeiras do rio Madeira, mas que poderia ser resolvido com uma ferrovia margeando as corredeiras. Assim, os 180 dias dos Estados Unidos para a Bolívia via Oceano Pacífico seriam reduzidos para 59 dias via Bacia Amazônica. 

Em 1903, no bojo da assinatura do Tratado de Petrópolis, a compra pelo Brasil do atual estado do Acre da Bolívia, começou a implementação da Madeira-Mamoré Railway, com a missão de ultrapassar o trecho encachoeirado do rio Madeira para facilitar principalmente o escoamento da borracha boliviana e brasileira até Porto Velho, de onde seguia até o Oceano Atlântico. Até então, as cachoeiras eram transpostas por canoas, equilibradas por índios. 

Em 1907, o contrato para a construção da ferrovia foi encampado pelo milionário americano Percival Farquhar, que concluiu a Madeira-Mamoré em 30 de abril de 1912. Em 1966, após 54 anos de atividades, a estrada de ferro foi desativada, por determinação do presidente Humberto de Alencar Castelo Branco. Seria substituída por uma rodovia, em cumprimento ao acordo celebrado em Petrópolis, em 1903. Foram construídas a BR-425 e a BR-364, que ligam Porto Velho a Guajará-Mirim. Em 10 de julho de 1972 as locomotivas apitaram pela derradeira vez e, em 1979, o acervo foi vendido como sucata para a siderúrgica de Mogi das Cruzes/SP. 

Em 10 de novembro de 2005, as ruínas da ferrovia foram tombadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e em 28 de dezembro de 2006, o Ministério da Cultura homologou o tombamento como Patrimônio Cultural Brasileiro. 

Márcio Souza recriou isso. Mad Maria foi escrito em 1980. A trama se passa em um período de três meses. No livro, baseado em pesquisa histórica, o inferno desaba em torno de 19 cataratas, 227 milhas de pântanos, cobras, escorpiões e malária, com 3,6 mil mortos e 30 mil hospitalizados, homens de todo o mundo, muitos dos quais já chegavam às obras como farrapos humanos, mas todos, exceto os mais graduados, viravam farrapos humanos, e sempre em pouco tempo. 

Paralelamente à trama na Amazônia, Márcio Souza desenvolve uma deliciosa narrativa dentro de palácios, hotéis de luxo e alcovas no Rio de Janeiro, e pega Rui Barbosa pelo colarinho, reduzindo-o do seu gigantismo jurídico a um poeta meloso. 

Mad Maria acabou virando folhetim da Globo, alçando Márcio Souza a artista pop. A minissérie foi exibida entre 25 de janeiro e 25 de março de 2005, em 35 capítulos, escritos por Benedito Ruy Barbosa, com direção de Ricardo Waddington, gravada em Porto Velho, Guajará-Mirim e em Passa Quatro, Minas Gerais. Seu elenco é estelar: Ana Paula Arósio, Fábio Assunção, Tony Ramos, Antônio Fagundes, Cláudia Raia, Priscila Fantin e Cássia Kiss nos papéis principais. 

A minissérie ficou engavetada por 20 anos, quando o diretor artístico da Globo, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, mostrou o livro a Benedito Ruy Barbosa e lhe pediu que o transformasse em minissérie, escrita entre 1980 e 1981. Mas na época não havia recursos para uma superprodução de 12 milhões de reais. Quando começaram as gravações só na região de Abunã reconstruíram seis quilômetros de trilhos, cobertos de mato, e reformaram a Mad Maria. Foram mobilizados em torno de 400 funcionários em Rondônia. Isso injetou um milhão de reais em Guajará-Mirim. 

A trama de Márcio Souza se passa em 1911, no oeste amazônico, onde 20 mil trabalhadores de 50 nacionalidades constroem a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. Naquele fim de mundo, o barco da pianista Consuelo, encarnada por Ana Paula Arósio, sofre um naufrágio que mata seu marido, Alonso (Gabriel Tacco), e a deixa perdida na selva por semanas, sobrevivendo por milagre. 

Resgatada por operários da estrada é conduzida ao acampamento, onde se torna amiga do índio Joe (Fidelis Baniwa), a quem ensina a tocar piano com os pés, pois Joe teve as mãos decepadas. Também Consuelo conhece o médico americano Richard (Fábio Assunção), com quem faz par romântico. 

Percival Farquhar é encarnado por Tony Ramos, às voltas com seu maior opositor, o ministro Juvenal de Castro (Antônio Fagundes), amigo pessoal do presidente Hermes da Fonseca (Othon Bastos). Farquhar descobre que Juvenal tem um caso com uma linda vitela, Luiza (Priscila Fantin), que, por sua vez, ignora que Juvenal é casado com Amélia (Cássia Kis). Farquhar, que mantém um caso com a cafetina Teresa (Cláudia Raia), usa isso para chantagear o ministro. 

É inevitável comparamos Mad Maria ao monumental O coração das trevas, de Joseph Conrad. Neste romance, que se passa no século 19, o inglês Charles Marlow obtém trabalho junto a uma companhia de comércio belga como capitão de um barco a vapor no rio Congo, para transportar marfim rio abaixo, mas com a missão número um de resgatar um famoso comerciante de marfim, Kurtz, que enlouqueceu no contexto da colonização europeia da África tropical. O livro inspirou Francis Ford Coppola a fazer Apocalypse Now, tendo como cenário a guerra do Vietnã. 

Mesmo que isso custe milhões de vidas humanas, os europeus sempre levam tudo o que podem do trópico, antes de saírem escorraçados pelo que Joseph Conrad chamou de o coração das trevas, um tipo de pesadelo também encontrado em Mad Maria, uma espécie de umbral, do qual não ninguém escapa, nem o maior dos moralistas. Os vigaristas que comandam o show costumam ficar confortavelmente nas grandes cidades do mundo, incluindo o Rio de Janeiro, e, agora, Brasília, onde podem também papar virginais vitelas e corromper meio mundo, para gáudio dos que adoram ser corrompidos.

Mas há uma diferença notável entre O coração das trevas e Mad Maria. Enquanto a lente daquele é europeia, focada no coração da África, a de Mad Maria é de um caboco da Amazônia e um dos ficcionistas brasileiros que mais conhecem a história da sua própria pátria, a Amazônia Clássica.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Macron quer que os europeus plantem mais soja e menos uva. Obsedado pela Amazônia, estará pensando em ampliar a Guiana Francesa?

RAY CUNHA

BRASÍLIA, 13 DE JANEIRO DE 2021 – O presidente da França, Emmanuel Macron, voltou a atacar o Brasil. Afirmou que agricultores brasileiros estão desmatando a Amazônia para plantar soja e defendeu que os países da Europa plantem soja para não ter que comprar a oleaginosa brasileira. No Twitter, afirmou: “Continuar a depender da soja brasileira seria endossar o desmatamento da Amazônia. Somos consistentes com as nossas ambições ecológicas, lutamos para produzir soja na Europa!” 

A Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) rebateu logo: a soja produzida no bioma amazônico do Brasil é livre de desmatamento desde 2008, graças à Moratória da Soja, pacto ambiental entre as entidades representativas dos produtores de soja no Brasil, ongs ambientais e o governo, prevendo a adoção de medidas contra o desmatamento na Amazônia, que proíbem a compra de soja proveniente de áreas recém desmatadas na região. Em maio de 2016 a Moratória foi renovada indefinidamente. 

A Moratória, reconhecida internacionalmente, monitora, identifica e bloqueia a aquisição da soja produzida em área desmatada na Amazônia, impedindo a exportação de soja de área desmatada para mercados externos. Para a Abiove, Macron está apenas querendo puxar a brasa para sua sardinha: “A Abiove lamenta que o presidente da França, Emmanuel Macron, busque justificar sua decisão de subsidiar os agricultores franceses atacando a soja brasileira” – disparou. 

Hoje, o vice-presidente Hamilton Mourão, presidente do Conselho Nacional da Amazônia, um dos generais brasileiros que mais conhecem a Amazônia, rebateu Macron. Explicou que a produção agrícola da Região Amazônica é “ínfima” e que o presidente francês “externou interesses protecionistas dos agricultores franceses”. Com efeito, bem que os amazônidas poderiam plantar mais. Parte dos produtos agrícolas que abastecem os supermercados e verdurões das grandes cidades da Amazônia segue de São Paulo.

Talvez para manter o clima francês da reclamação de Macron, Mourão começou a falar em francês. “Monsieur Macron? Monsieur Macron ne pas bien. Monsieur Macron desconhece a produção de soja no Brasil. Nossa produção de soja é feita no cerrado ou no sul do país. A produção agrícola na Amazônia é ínfima”. 

Mourão voltou a informar que os agricultores brasileiros utilizam menos de 8% do território brasileiro, enquanto a França utiliza mais de 60%. Para Mourão, a França não tem a menor condição de competir com o Brasil na agricultura: “Neste aspecto, na questão da produção agrícola, damos de 10 a zero neles, franceses”. 

Com efeito, francês entende muito de uva, mas agora até o Nordeste está produzindo uva em escala e vinho, inclusive champanhe. O Sul já tem expertise. 

Ainda Mourão: “Nada mais, nada menos, Macron externou interesses protecionistas dos agricultores franceses; faz parte do jogo político”. Para o vice-presidente, Macron não deverá influenciar outros líderes mundiais: “Acho que foi discurso interno”. 

O fato é que Macron não quer que a União Europeia faça acordo com o Mercosul, e aí martela a tecla do desmatamento. Mas não sei como a Europa, que não tem mais o que desmatar, vai produzir soja. Só no ano passado a França comprou do Brasil 27,1 milhões de dólares de soja 544 milhões de dólares de farelo, total de 1,983 bilhão de dólares. Fora a soja brasileira que a França pega em portos da Espanha e dos Países Baixos. Segundo a Secretaria de Comércio Exterior do Ministério da Economia, cerca de 20% das exportações para a União Europeia são de soja e farelo do Brasil. 

Mas por que será que Macron não planta soja na Guiana Francesa, a última colônia europeia na Amazônia? 

Após o histórico discurso do presidente Jair Bolsonaro na Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU), em 24 de setembro de 2019, esclarecendo que a Amazônia não está à venda e que o Brasil não é a casa da mãe Joana, Macron, com aquele seu jeitinho de garoto perdido da mãe, citou a Amazônia como cavalo de uma “batalha essencial para reduzir a emissão de carbono”, ignorando solenemente que os europeus arrasaram suas florestas e que mais da metade do território francês é usado para a agricultura, enquanto que o Brasil só utiliza para isso menos de 8% do seu território e que a maior parte da Hileia está conservada. 

Macron se especializou em acusar os brasileiros de tocar fogo na floresta, insinuando que deveria haver uma intervenção dos países hegemônicos na região. 

Bolsonaro afirmou que “é uma falácia dizer que a Amazônia é um patrimônio da humanidade e um equívoco, como atestam os cientistas, afirmar que a Amazônia, a nossa floresta, é o pulmão do mundo; valendo-se dessas falácias um ou outro país, em vez de ajudar, embarcou nas mentiras da mídia e se portou de forma desrespeitosa e com espírito colonialista. Questionaram aquilo que nos é mais sagrado, a nossa soberania”. 

Macron, que dispõe da bomba atômica e de colônia na Amazônia, a Guiana Francesa, esperneia. 

Sente-se, nas entrelinhas do que diz Macron, para a mídia que come nas mãos dos comunistas, a arrogância do colonizador. A França é um dos países que mais sofrimento infringiu, e continua infringindo, nas suas colônias, especialmente na África. Na América do Sul, sua colônia é cinicamente chamada de departamento ultramarino, mas é refém das políticas da União Europeia em um continente estranho à Europa. 

A verdade é que a Guiana Francesa é governada pela França em regime colonialista linha-dura, obrigada a exportar 70% de seus recursos naturais – especialmente minérios – para a França e importar 90% de todos os bens de consumo da metrópole, segundo o secretário de relações internacionais da União dos Trabalhadores da Guiana Francesa, Jean-Michel Aupoint, que luta pela independência da Guiana Francesa. Rafael Pindard, do Movimento de Descolonização e Emancipação Social da Guiana Francesa, afirma que os guianenses não têm o direito de utilizar os recursos naturais e a terra sem pedir autorização ao governo francês. 

A França mantém várias colônias mundo afora, mas a Guiana Francesa é estratégica, por três motivos: é lá que a França mantém uma das maiores bases de lançamento de foguetes da União Europeia; a França mantém na região um aparato militar capaz de rápida e eficiente intervenção na Amazônia; e tem acesso a recursos naturais inimagináveis, muito dos quais ainda intocados. O que os guianenses recebem em troca disso é quase nada. 

A França governa a Guiana Francesa com mão de ferro, com total controle político e militar. Não interessa à França munir a colônia com infraestrutura, nem desenvolvimento; interessa manter sua população em casa, com bastante enlatados para comer e euro para comprar cachaça. Esqueçam saúde e educação. Segundo Aupoint, o interior da colônia está abandonado. 

Mas ninguém é besta de sair falando por aí sobre a situação dos guianenses. A repressão francesa é famosa. Basta um rápido olhar sobre a Argélia, por exemplo. Assim, o estado francês desestimula qualquer movimento de independência da última colônia europeia na América do Sul. 

A Guiana Francesa é colônia, ou casa da mãe Joana da França, há mais de 400 anos. Ocupada originalmente por índios aruaques, a região já foi explorada por ingleses, holandeses, espanhóis e portugueses, até ser reivindicada para a França por Daniel de La Touche, o mesmo que fundou São Luís do Maranhão. De 1852 até 1938, foi um dos presídios mais degradantes do mundo; os franceses enviaram para lá, para morrer, cerca de 80 mil presos. 

Durante muito tempo, a França ambicionou o atual estado do Amapá, chegando, inclusive, a invadir o território, então pertencente ao atual estado do Pará. 

A maior parte da população é descendente de escravos e indígenas. A taxa de desemprego é de 22% e a expectativa de vida é de 58 anos. Cerca de 40% das crianças vivem abaixo da linha de pobreza. A violência também é explosiva. Uma rápida pesquisa em sites de instituições internacionais confirmam esses dados. 

A ONU é cheia de falácias: “Todos os povos têm o direito inalienável à liberdade absoluta, ao exercício de sua soberania e à integridade de seu território nacional. Proclama-se solenemente a necessidade de pôr fim rápido e incondicional ao colonialismo em todas as suas formas e manifestações” – diz trecho da Carta de Concessão à Independência aos Países e Povos Coloniais da Organização das Nações Unidas (ONU), de 1960.

Hoje, mais de 61 países ainda são colônias: 16 da França, 15 da Grã-Bretanha, 14 dos Estados Unidos, seis da Austrália, três da Nova Zelândia, três da Noruega, dois da Dinamarca e dois da Holanda. A China, por exemplo, tem outras tantas colônias. Mas é mais negócio para muitas dessas colônias continuarem comendo nas mãos dos colonizadores porque suas economias não têm potencial para prosperar. Será esse o caso da Guiana Francesa?

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

Réveillon de Luiz Estêvão teve sabor duplo: regime aberto já em 2021 e o sucesso de um dos jornais mais acessados do país: Metrópoles

Luiz Estêvão: férias no cárcere lhe proporcionam tempo para pensar mais

RAY CUNHA
raycunha@gmail.com






BRASÍLIA, 1 DE JANEIRO DE 2021 – O bilionário carioca-brasiliense Luís Estêvão de Oliveira Neto (Rio de Janeiro, 6 de julho de 1949), preso desde 2016, deverá preencher os requisitos para progredir para o regime aberto em 2021. Preso desde 2016, ele cumpre pena na Papuda, a penitenciária federal de Brasília, condenado a 31 anos de prisão pelos crimes de peculato, corrupção ativa e estelionato.

Durante as investigações da CPI do Judiciário no Senado, Estêvão foi acusado de se envolver com o juiz Nicolau dos Santos Neto no desvio de verbas das obras do Tribunal Regional do Trabalho em São Paulo. Em 28 de junho de 2000, por 52 votos a favor, 18 contra e 10 abstenções, tornou-se o primeiro senador cassado, por quebra de decoro parlamentar, e ficou inelegível por oito anos. 

Órfão aos 16 anos de idade, foi adotado por Lino Martins Pinto, casado com uma tia de Estêvão, dona Marita, e proprietário de uma loja de pneus em Uberlândia, Minas Gerais. Em 1966, o casal e o filho adotivo se mudaram para Brasília. 

Estêvão estudou em um colégio interno no Rio de Janeiro, o Liceu Francês, e estudou física na Universidade de Brasília (UnB), desistindo do curso no segundo semestre. Aos 18 anos de idade começa a trabalhar na revendedora de pneus do pai adotivo. 

Estêvão se casou com Cleucy Meirelles de Oliveira, filha do empresário Cleto Meirelles, com quem tem seis filhos. Já sócio de Lino, mostrou-se um arrojado empreendedor, ampliando os negócios em agropecuária, construção civil, revenda de automóveis e pneus, estação de rádio e banco de investimentos. 

Em 1994, é eleito para a Câmara Legislativa do Distrito Federal pelo Partido Progressista (PP), com 46.205 votos, um recorde. Elege-se pelo PMDB para o Senado Federal em outubro de 1998, com 460.947 votos, correspondentes a 47,7% dos votos válidos. 

Em 1999, a fortuna de Luiz Estêvão já era estimada em 350 milhões de dólares; em 2016, é avaliada em 30 bilhões de reais. Agora, em 2020, uma magistrada se referiu a ele, em decisão judicial, com “um dos homens mais ricos do DF, quiçá do Brasil”. 

Em 8 de setembro de 2015, Luiz Estêvão funda o portal Metrópoles, sediado em Brasília, de acesso gratuito e com equipe de quase 200 profissionais, hoje a mídia mais lida do Distrito Federal e uma das 10 mais acessadas do país, além de ter abiscoitado prêmios de jornalismo nacionais e internacionais. 

O sucesso do Metrópoles, além de investimento milionário, é sua diretora de redação, a brasiliense Lilian Tahan. Graduada em comunicação social pela Universidade de Brasília (UnB), com especialização em jornalismo digital e gestão de empresa de comunicação pela ISE Business School, vinculada à Universidade de Navarra, na Espanha, Lilian já tinha estrada antes do Metrópoles; trabalhou por 12 anos no jornal Correio Braziliense e dois anos na revista Veja Brasília, e conquistou os prêmios Esso, Embratel, CNT, CNI, AMB, MPT e Engenho. 

Dedicada e serena, Lilian Tahan comanda o Metrópoles com mão de ferro. Luiz Estêvão suou para tê-la na sua equipe, e teve de lhe dar carta branca. Em troca, Lilian garante algo que anda sumido da mídia: jornalismo. 

Com ou sem vírus chinês, Metrópoles parece indicar o início de uma carreira de magnata das comunicações. Quando circulou por Brasília a notícia de que ele pretendia investir empresarialmente em comunicação social, chegou-se a noticiar que ele compraria o velho Correio Braziliense, que anda trôpego das pernas. Mas Luiz Estêvão desmentiu o boato; não investiria em jornal impresso. E quando a Veja, que já foi uma revista ansiosamente esperada a cada semana, fechou a anêmica Vejinha Brasília, Luiz Estêvão contratou toda a equipe desempregada, a começar por Lilian Tahan.

Luiz Estêvão ampliará o braço das comunicações do seu grupo empresarial com um canal de televisão? Só o tempo dirá. Mas uma coisa é certa, ele não perdeu o fôlego. Pelo contrário, suas férias no cárcere lhe proporcionam o aprimoramento do seu condicionamento físico; ler mais, algo de que gosta muito, e de grandes autores da literatura universal; e tempo para pensar mais.