quarta-feira, 7 de agosto de 2019

O abismo da vida

A vida é como chuva, como água minando, formando filetes, avolumando-se, fluindo em rios, até outro rio, ou o mar. É como o espaço-tempo se transformando em luz. E hoje, como sempre, é um ano alado, pois ouço o latejar da Terra no espaço, e o mundo se abre como rosa ao sol.

Este é um ano mágico, como todos os anos da minha vida, pois as mulheres são, todas elas, princesas, lindas como rosas nuas, e livres como o mar. É ilusão pensar que as possuímos; não se pode ser dono do azul. Mas elas nos deixam sentir seu cheiro, e até nos perder nos seus labirintos, desde que montados na luz.

Sinto-me como os pardais, que não se preocupam com coisa alguma; podem comer quase tudo, e só precisam de um pequeno espaço para passar a noite. E se tenho alimento, se conto com um lar, para me abrigar das intempéries e da noite, e se a mulher amada sorri para mim, sei de pronto que meu Pai, inesgotável na Sua riqueza, perfuma minhas manhãs com Chanel 5.

Tenho tudo o que preciso: uma estante abarrotada de livros, as músicas que não me canso de ouvir, telas de Olivar Cunha, internet, os alimentos mais saborosos do mundo, o anoitecer e a madrugada, e mil possibilidades.

E assim vão-se os anos, todos eles prenhes de aventura, porque a vida é mágica, veios de pedras preciosas garimpados com o coração, pois só encontramos rubis azuis quando amamos. De modo que este ano, como todos os outros, é movido pelo cataclismo do primeiro beijo, o namoro desesperado a uma rosa.

E à medida que meus sentidos começam a perder o apuro dos 21 anos, ouço, em toda parte aonde ando, a música de Wolfgang Amadeus Mozart, sinto o cheiro do mar cada vez mais intensamente, e mergulho no abismo da vida em voo vertiginoso como a luz, redentor como prece, lúcido como acme.

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