domingo, 24 de dezembro de 2017

Memórias de um repórter de Macapá durante a Ditadura dos Generais (1964-1985) na Amazônia

Este repórter e Roberto Carlos, no
Hotel Amazonas, Manaus, 1976
Em 31 de março de 1964, início da Ditadura dos Generais, que durou até 1985, eu tinha 9 anos de idade e vivia na minha terra natal, Macapá, cidade ribeirinha no estuário do maior rio do planeta, o Amazonas, na confluência com a Linha Imaginária do Equador, Amazônia Caribenha. Era a capital do então Território Federal do Amapá. Daquela época, lembro-me de prisões na Fortaleza de São José de Macapá e da minha mãe queimando livros do meu irmão mais velho, Paulo Cunha, leitor voraz, apenas porque era líder estudantil e poeta, o que seria suficiente para que ele fosse jogado na Fortaleza. Em 1968, aos 14 anos, comecei a frequentar uma roda de artistas, alguns dos quais tinham que se apresentar, de vez em quando, no quartel local do Exército. O poeta Isnard Brandão Lima Filho, pai da minha geração de escritores, foi preso na Fortaleza e no antigo presídio São José, em Belém.

Em 1971, houve uma grande mudança na minha vida. Eu cursava o quarto ano do antigo ginasial no Colégio Amapaense quando, juntamente com três amigos, criamos o jornal estudantil A Rosa (Bonitinha Mas Ordinária). Meus amigos eram o poeta e contista José Edson dos Santos (Joy Edson), o jornalista Walter Júnior do Carmo e o advogado José Nazareno Nogueira. O pasquim só circulou uma vez. Na época, o diretor do Colégio Amapaense era o professor Tinilo e o vice, professor Edgar. O registro que tenho na minha memória tanto do professor Tinilo quanto do professor Edgar é de que eram sombrios, principalmente o Tinilo. Fui submetido, pelos dois, a um inquérito que durou cerca de uma hora, eles e eu, numa sala fechada. Queriam saber onde o jornal fora datilografado e mimeografado. Não disse nada e peguei 15 dias de suspensão.

O governador, na época, era o general mato-grossense Ivanhoé Gonçalves Martins. O Palácio do Setentrião era separado do Colégio Amapaense por uma praça descampada e o governador gostava de olhar de binóculo para o colégio. Certa vez, o jornalista Antônio Corrêa Neto publicou na capa de O Flash, de Belém, com circulação também em Macapá, uma foto do general Ivanhoé montado num cavalo, com uma legenda mais ou menos assim: O governador Ivanhoé Gonçalves Martins (o de cima) sai para uma blitz. Pois bem, A Rosa seria enviada para Ivanhoé.

Na Secretaria de Educação, um amigo meu, Montoril, pai do poeta José Montoril, impediu, não me lembro mais como, que o jornal caísse nas mãos do general. Mas, naquelas alturas, eu andava desestimulado com a vida estudantil, e com a cidade. Em Macapá, naquela época, artista era tratado pela sociedade local como vagabundo, marginal mesmo (não sei se isso mudou). Em dezembro daquele ano, 1971, publiquei, com Joy Edson e José Montoril, um livro de poemas, Xarda Misturada, e peguei a estrada, com apenas 17 anos e sem sequer carteira de identidade. Rodei por aí, Rio de Janeiro, Buenos Aires, Manaus, onde vivem parentes do meu pai, João Raimundo Cunha. Quando eu cheguei em Manaus, tinha 21 anos; era 1975, auge da Ditadura dos Generais.

MANAUS – Antes de pegar o rio e partir para Manaus, para conhecer meus parentes paternos, dei uma parada em Santarém (PA), onde meu irmão mais velho, Paulo Cunha, estava morando. Em Santarém, trabalhei como redator da antiga Rádio Clube, de modo que ao chegar em Manaus entrei no primeiro jornal que encontrei, o Jornal do Commercio, então na Avenida Eduardo Ribeiro, onde, e nada é por acaso, havia uma vaga para repórter policial. Comecei no dia seguinte. Rotineiramente, cobria o Tribunal de Justiça e as delegacias de polícia, principalmente a Central, um casarão no centro da cidade, do qual guardei na memória o fedor de urina e de tortura. Ali, perpetrava-se todo tipo de barbaridade.

No Jornal do Commercio, uma vez meu amigo Wanderley Fortaleza escreveu alguma coisa, não me lembro mais exatamente o que, e a redação foi invadida pela Polícia Militar. Fiquei por pouco tempo no Jornal do Commercio e fui para A Notícia. No dia 31 de março de 1976, o então presidente Ernesto Geisel e ministros foram a Manaus inaugurar o Aeroporto Internacional Eduardo Gomes. Praticamente toda a equipe de repórteres de A Notícia foi mobilizada para cobrir o evento. A mim coube também entrevistar o ministro da Educação, general de brigada Ney Braga.

Quase toda a equipe do jornal foi escalada para cobrir a permanência de Geisel e comitiva em Manaus, o dia todo. Fazia parte da minha pauta entrevistar Ney Braga, e perguntar a ele se o Decreto 477, editado em 1969 e que enquadrava estudantes e professores que contrariassem o regime, ainda era necessário. O diretor de redação de A Notícia, Bianor Garcia, foi claro comigo. Eu teria que perguntar ao general sobre até quando haveria necessidade da vigência do Decreto 174. Talvez porque não vivesse na sala do Bianor, puxando o saco dele, eu sentia que ele queria se livrar de mim, pois a missão era impossível.

À noite, Ney Braga participaria de um encontro num clube da alta sociedade no centro de Manaus, o Ideal Clube. Fui para lá com um gravador. Sentia-me meio condenado, mas com o estímulo do tudo ou nada. Posicionei-me num local por onde sabia que ele passaria e fiquei de campana. Não lembro quanto tempo esperei, mas o homem veio na minha direção e quando chegou a uma distância segura dei o bote. Os seguranças foram pegos de surpresa, pois não dei tempo a ninguém. O gravador na mão, avancei para cima de Ney Braga, com a serenidade dos que não têm nada a perder, identifiquei-me como repórter de A Notícia e sapequei a pergunta. Jamais esquecerei aquele sujeito me olhando quase na minha cara como se quisesse me fuzilar com os olhos. Sustentei o olhar dele. Deus, como eu precisava do meu emprego.

– O Decreto 477 ainda tem razão de ser? – perguntei mais ou menos isso.

Os olhos dele tinham a opacidade dos olhos de tubarão, e guardavam uma espécie de tédio, o tédio do poder.

– Você é jornalista? – ele me perguntou. Eu não era jornalista de direito. Tinha parado na quarta série ginasial e só estava trabalhando como repórter porque naquela época ninguém ligava para diploma de jornalista, bastava que soubéssemos escrever. Eu sequer tinha o ensino básico completo. Só em 1982 é que comecei a cursar jornalismo, por pressão das empresas jornalísticas e do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Pará.

– Sou repórter de A Notícia – repeti.

– E o que é que você acha? Você acha certo a anarquia? – ele disse algo mais ou menos assim. – Por que você está preocupado com isso?

– Quero saber sua opinião, ministro – insisti.

– O que você acha do decreto? – ele redarguiu.

– Eu, nada, a pergunta é para o senhor – repliquei.

– Não se preocupe com isso – ele disse. Lembrava os generais do cinema, sempre acompanhados de uma comitiva.

A entrevista, que foi curtíssima, caiu na burocracia. O general, e seu labirinto, foram-se logo. Creio que ele encerrou a entrevista mais por enfado do que por pressa. Voltei iluminado para o jornal. Havia compreendido várias coisas, entre as quais é que quem está na chuva é para se molhar. Escrevi um boxe curto com a entrevista e conservei meu emprego, que, aliás, não durou muito tempo, pois mudei para o jornal A Crítica, levado por Fábio Lucena, que conheci no Clube da Madrugada e bebíamos no Caldeira. Falar nele, depois que se elegeu senador e antes de se suicidar, certa vez eu estava em Brasília e fui procurá-lo no Senado. Ao me aproximar dele, um capanga que o acompanhava já ia sacar o revólver para me alvejar quando Fábio Lucena fez um sinal para ele dizendo que eu era amigo. O próprio Fábio me disse que o capanga tinha ordem para matar quem se aproximasse dele sem ser convidado. Não passou muito tempo para que ele se matasse.

Anos depois, o sargento paraquedista do Exército, Abílio Teixeira, que foi segurança de vários generais, me ensinou que um general é um homem como outro qualquer. A única coisa que o diferencia é seu uniforme. E um uniforme é só um uniforme. Aquela entrevista foi uma das melhores que já fiz, porque comecei, naquele momento, a entender, intuitivamente, que jornalismo é mais do que profissão; é a missão de desmitificar a realidade, essa dama escorregadia, que se move no pântano das trevas.

Foi em A Notícia que tive meus melhores momentos em Manaus como repórter. Certa vez, escrevi uma nota sobre rodoviários atacados por waimiris-atroaris na BR-174, a Manaus-Boa Vista. A propósito, investigação do Ministério Público Federal no Amazonas aponta que os militares foram responsáveis pela morte de milhares de índios durante a construção da BR-174 (Manaus-Boa Vista) e da BR-230, a Transamazônica. Pois bem, por conta da nota, o Bianor Garcia foi chamado para dar explicações no Comando Militar da Amazônia. Não foi; mandou a mim. Lembro-me que o coronel que chamara o Bianor Garcia não gostou de ver apenas o repórter, e de 21 anos, para dar explicações sobre uma “questão de segurança nacional”, mas me fez algumas perguntas e me liberou. Recriei esse episódio no conto A Grande Farra, publicado em livro homônimo, em 1992, em Brasília. Segue-se trecho do conto:

“Naquela sexta-feira, Reinaldo foi instruído pelo editor para pedir desculpas ao comandante Militar da Amazônia. O jornal tinha publicado que os waimiris-atroaris estavam atacando na BR-174 e o editor recebeu um telefonema dando conta de que o assunto era de segurança nacional.

“Foi recebido por um sargento.

“– Gostaria de ver o general – disse-lhe.

“– O assunto? – perguntou-lhe o sargento.

“– Vim representando o Jornal do Comércio e dar-lhe uma explicação quanto a uma matéria que saiu.

“– Sente-se e aguarde. Seus documentos, por favor...

“– Pois, não. Aqui está minha carteira de jornalista.

“– Sua carteira de identidade também.

“– Ei-la, senhor.

“– Sente-se e aguarde.

“– Obrigado.

“Não demorou e veio um major, que o introduziu a uma sala maior e mais arejada.

“– O general esperava o editor – disse. – De qualquer modo ele vai recebê-lo. – O major olhava-o de sua poltrona, por detrás da grande mesa em que trabalhava. Veio um ordenança com cafezinho. O major apanhou as xícaras e ofereceu-lhe uma. Eram de porcelana. O telefone tocou e o major atendeu-o. Desligou-o, levantou-se e convidou-o a acompanhá-lo. Reinaldo foi introduzido a uma sala ampla. Em frente de uma escrivaninha belamente trabalhada estava o general, que não disfarçou o desgosto de ver o jornalista – mas isso durou apenas um segundo. Saiu de sua imobilidade e estendeu a mão a Reinaldo.

“– Sente-se – disse ele. Era alto e elegante, e jovem.

“– General, estou representando...

“– Esperava o editor do jornal, meu jovem – cortou-o.

“– Ele não pôde vir – disse, meio sem jeito, o jornalista. – Vim, em nome do jornal, pedir desculpas pela matéria que veiculamos sobre a BR-174.

“– Tudo lá está tranquilo, tudo sob controle. Quem lhes deu a informação de que os waimiris-atroaris atacaram um automobilista que seguia para Roraima?

“Reinaldo ficou embaraçado. Não sabia responder ao general. Mas ele passou adiante.

“– Notícias desse tipo são sensacionalistas e condenáveis. Por que os senhores não pedem informação a nós? Diríamos que está tudo tranquilo. Para que conturbar a paz com notícias inverossímeis? Meu jovem, estaremos sempre aqui à disposição da verdade.

“De volta, soube que policiais militares haviam prendido Tom Bacamarte, editorialista do jornal, por causa de um artigo que escrevera contra a polícia. Uma guarnição invadira o prédio e arrastara Bacamarte para o Comando da Polícia Militar. Ninguém pôde impedir, já que ameaçaram metralhar quem se metesse. Martim, que era redator e muito amigo de Bacamarte, comunicou-se com Brasília imediatamente, e com todas as agências de notícias do país.

“Ao saber da prisão, Reinaldo foi imediatamente ao Comando da Polícia Militar. Gostava muito de Bacamarte.

“Na sala do comandante, Bacamarte enfrentava-o. Naquela noite, no Orten, ele contou como se saiu.

“– Então é o senhor que anda ameaçando a ordem pública, a paz e a polícia? – disse-lhe o comandante, que era gaúcho.

“– Só há uma quadrilha de desordeiros nesta cidade, e o senhor a comanda. Quanto a paz, a presença do Exército na vida civil do país a desmente. E a polícia é quem tem as armas de fogo e o arbítrio para fazer o que quiser.

“O comandante ficou vermelho, mas controlou-se, e falou calmamente.

“– O senhor sabe que poderia ser preso por essas declarações?

“– Sem as formalidades da Justiça? Sim, sei. Sei inclusive que poderei ser assassinado e desaparecer.

“– Meu jovem, tudo o que a polícia faz é para o bem deste país – contemporizou o comandante.

“– Eu sei. A prisão ilegal de estudantes e a tortura.

“– O senhor pertence a alguma facção política, meu jovem?

“– Sou fascista.

“– Meu jovem, vou soltá-lo, mas não volte a falar da polícia...

“– Então, não estou preso? A propósito, quero agradecer a gentileza do convite para vir tomar um chá com o senhor; chá, não, chimarrão.

“– Vou mandar que o levem de volta ao jornal – disse, impassível, o comandante.

“– Obrigado. Vou de pés.”

Durante todo o tempo em que trabalhei em A Notícia, o jornal esteve sob censura prévia. Todas as noites, um casal de agentes federais, casados mesmo, ia para uma sala contígua à redação e lia tudo o que sairia na edição do dia seguinte, cortando o que achasse que pudesse ofender a ditadura.

A Notícia foi uma escola para mim. Lá, conheci José Marqueiz, Prêmio Esso de 1973, por cobrir para O Estado de S.Paulo a expedição dos irmãos Villas-Bôas de contato dos índios kranhacarores, no Mato Grosso. Marqueiz era correspondente do Estadão e redator de A Notícia. Ele foi o primeiro a pavimentar meu texto jornalístico. Depois, tive outro mestre, Octávio Ribeiro, o Pena Branca, um dos maiores repórteres policiais do país. Fui redator dele, que foi editor de polícia do O Estado do Pará, lá por 1978, e com ele aprendi a escrever de maneira objetiva e clara. Obrigado! O Estado do Pará era comandado por Oliveira Bastos, Avertano Rocha e Walmir Botelho.

O Marqueiz e eu nos tornamos amigos. Batíamos muito papo no Amarelinho, em Manaus. Quando fez a reportagem que lhe daria o Esso, ele contraiu malária e para combater o frio bebia. Tornou-se alcoólatra. Bebia pequenos tragos de Pitú, seguidos de chopp. Certa noite, pernoitei na casa dele e no dia seguinte saímos cedinho. Paramos no bar de um português, no centro de Manaus, que Marqueiz frequentava, e ele me convidou para fazer o desjejum: um copo de Pitú na cintura, que ele sorveu de um só trago. Recusei. O máximo a que cheguei foi fazer desjejum com a maravilhosa Antarctica manauara.

Apesar de eu só ter 21 anos de idade, assinava uma coluna semanal, No Mundo da Arte. Nessa época, entrevistei muito artista importante, então em início de carreira, como Márcio Souza e Fafá de Belém, que era um exuberante furacão. Entrevistei vários monstros sagrados, como Grande Otelo, Nara Leão, Roberto Carlos. E conheci Jorge Amado, num encontro fortuito, nos arredores de Manaus. Roberto Carlos me marcou porque foi a pior entrevista que fiz na minha vida.


A produção do jornal conseguiu entrevista exclusiva com Roberto, que fora apresentar-se em Manaus, em 1976, e estava hospedado no Hotel Amazonas, centro da cidade. O chefe de reportagem instruiu-me a perguntar ao Rei se ele usava meia de mulher como touca, antes dos shows. Pergunta bizarra, mas que satisfaria o suposto perfil dos leitores do jornal, que tendia ao sensacionalismo. Tudo bem! O problema era que o gravador estava falhando, e isso foi meu terror, porque se chegasse à redação sem a entrevista meu destino estaria selado.

Fui fazer a entrevista. No hotel, fomos conduzidos, o fotógrafo e eu, ao corredor do apartamento do Rei, onde fomos recebidos por dois seguranças. Roberto não nos recebeu no apartamento, mas, depois de se arrumar, saiu do apartamento e me deu a entrevista no corredor.

O Rei é um sujeito carismático. Ele me deixou à vontade e eu me senti como se fosse velho amigo dele. Perguntei-lhe sobre o negócio da meia, assunto que fora objeto de revista de fofoca. Ele me respondeu numa boa. Eu prestava mais atenção ao gravador do que a Roberto, pois estava preocupado, vigiando o rolo de fita girando. Era um velho gravador de tamanho médio. Mais tarde, na redação, degravando a entrevista, vi o quanto ela foi burocrática. Mas tudo bem! Restou uma fotografia com o Rei, por insistência do fotógrafo, que se tornara amigo meu e queria me dar um presente.

Em 1977, mudei-me para Belém, onde trabalhei em O Liberal e depois em O Estado do Pará. Em 1978, fui para Rio Branco, trabalhar no jornal Gazeta do Acre, comandado pelo Elson Martins, um dos mais brilhantes repórteres da Amazônia, editor também do Varadouro, o mais famoso jornal de resistência à ditadura produzido na Hileia. Tive, assim, rapidíssima passagem pelo Varadouro, em março de 1979, escrevendo, em jornalismo literário, a matéria Roteiro da Prostituição, publicada, com chamada de capa, na edição 14 do Varadouro. Escravidão, especialmente sexual; tráfico de tudo o que se possa imaginar, inclusive de crianças; matança de índios e de animais em extinção, tudo é permitido numa ditadura, porque ditaduras são corruptas por definição.

De volta a Belém, continuei acompanhando o deslizar da serpente, até a assunção de Jegue Sarney (Paulo Francis o chamava de Jeca Sarney, que eu transformei em Jegue Sarney) à presidência, em 1985. Vinte anos depois, em 2005, já morando em Brasília, publiquei o romance A Casa Amarela (Editora Cejup, Belém), ambientado em Macapá, no ano do golpe.

Durante breve período, fui redator-chefe do semanário DF Notícias, de Brasília, onde conheci o sargento da reserva do Exército, Abílio Teixeira, que, em 2002, foi candidato a deputado federal. Fluminense, sargentão, paraquedista, assessor de ministro do Exército durante a ditadura, Abílio Teixeira não tem papa na língua. Escrevia uma coluna na qual descia o cacete no então presidente Lula Rousseff e nos generais, porque Lula deixava os praças passarem fome com a conivência dos generais, e também porque Lula não estava nem aí para a Amazônia. Os amazônidas que se lascassem. E ainda porque a infraestrutura do país estava desabando, como continua desabando.

Um dia, um tenente do Comando Militar do Exército em Brasília ligou para a redação e pediu para falar comigo, marcando a visita de um major. Eu sabia que era por causa dos artigos do Abílio. Conversei com o Abílio e ele me disse mais ou menos o seguinte: basta dar um grito que eles se sujam... Até aí, eu ainda sentia medo dos militares, pois ditadura é uma zona de guerra, onde a mordaça, a tortura, o estupro, o assassinato, são banais. Em Manaus, eu sabia de tortura no Casarão da Central de Polícia e presenciei espancamento.

Na manhã combinada, recebi o major e seu ordenança na minha sala. A certa altura o major me perguntou se poderia ler, de antemão, os artigos do Abílio. O sangue subiu à minha face.

– Censura? – perguntei, irritado.

O major escorregou do galho, mas era bom de comunicação e, com habilidade, conduziu a questão para outro lado, perguntando se poderia consultar o arquivo do jornal. Sim, é claro que poderia, mas pus, de propósito, um obstáculo.

– É claro. Basta que o Exército encaminhe uma carta solicitando isso – disse.

O major se mexeu na cadeira. Não demorou a ir embora, dizendo que providenciaria o documento, e nunca mais soube dele.

Tive longos papos com o Abílio sobre assuntos da caserna, e me sinto grato a ele, porque foi decisivo no exorcismo do medo que eu acumulei acompanhando como repórter a Ditadura dos Generais, de modo a valorizar, a zelar, a lutar pela democracia, sempre.

Durante a Ditadura dos Generais, o ovo da serpente inchava. Os militares só instalaram uma ditadura porque os comunistas brasileiros queriam instalar no Brasil uma ditadura nos moldes da antiga União Soviética, totalitária. Foi nesse cenário que surgiu Lula Rousseff, que, nos anos de 1990, instalou o Foro de São Paulo, reunindo hienas como Fidel Castro, e lançando as bases para começar uma ditadura comunista no Brasil. Em 2003, ele foi eleito presidente da República e começou, imediatamente, seu plano, por meio do patrimonialismo, do paternalismo, do populismo e do aparelhamento do Estado; aliando-se a todas as excrescências que rastejam, do Oiapoque ao Chuí; desqualificando as Forças Armadas, as escolas e as universidades; e assaltando a Petrobras e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

O golpe militar de 64 recebeu apoio da maioria da sociedade brasileira, receosa de uma revolução comunista, que é sempre genocida e totalitária. Há quem diga que a Ditadura dos Generais foi leve, que conservou o Judiciário, que matou pouco. Ora, toda ditadura é corrupta por definição, saqueia, extingue a cidadania, amordaça, tortura, mata. O que se deve tirar da Ditadura dos Generais é a consolidação da democracia, no sentido de se impedir qualquer tipo de ditadura, inclusive a das sombras, que o zumbi Lula Rousseff ainda tenta.

A grande lição que aprendi com das duas décadas de uma ditadura que evitou algo ainda pior é que devemos lutar com unhas e dentes pela democracia, que é um exercício individual de amor ao próximo. Quando tomamos atitudes justas, dignas e altruístas, toda a Humanidade melhora, pois nenhum homem é uma ilha; somos, todos, um continente.

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